Raptar um Rei
Treze
JACKSON ESTAVA de novo em cim a do m uro pouco depois das 10 horas, vestido de preto, com o na outra noite. A Browning estava à m ão. Passado um pouco, apareceu o coronel ao longo do cam inho através dos arbustos. Verificou a porta, depois esperou. Um pouco m ais tarde, chegou o duque, que vestia roupa leve, com um casaco de tweed sobre os om bros. Tirou um havano de um a caixa de couro e acendeu-o.
Nesse m om ento, Jackson ouviu passos a aproxim arem -se na estrada. Bateram à porta, Fernandes da Cunha abriu-a e Schellenberg entrou, seguido de Kleiber.
— O general Schellenberg e o m aj or Kleiber. — O coronel fez as apresentações e afastou-se até um a distância discreta.
— Ah, o senhor que estava à m inha espera em Rosário esta m anhã — disse o duque, acenando para Kleiber.
— Um erro infeliz, Alteza — respondeu Schellenberg.
— Um erro desnecessário. Especialm ente se m e tivesse feito, em prim eiro lugar, um a aproxim ação direta. Sugestões, insinuações dissim uladas, é tudo o que tem os tido. Que é que o vosso governo oferece exatam ente, general?
— Sabem os bem , sir, que o lugar de governador das Baham as tem poucos atrativos para si. Nas circunstâncias, talvez preferisse ficar na Europa. Em Espanha, por exem plo, ou na Suíça. Estou autorizado a inform á-lo que, se ficar em dificuldades financeiras por escolher essa alternativa, um m ontante de cinquenta m ilhões de francos suíços ficará disponível num depósito em Genebra.
— Que disparate, general — respondeu o duque. — O Führer não m e quer em Espanha ou na Suíça. Ele quer-m e na Alem anha, para estar disponível no dia em que o Exército Alem ão entrar em Londres. Um a cara fam iliar para dar confiança ao povo inglês. Não é assim ?
— Que é que eu posso dizer, sir?
— O m eu barco parte depois de am anhã e adm ito que não quero ir. O Governo Britânico tratou-m e m al ... e se os m eus serviços são tão pouco im portantes para eles ... — Encolheu os om bros. — Trinta e seis horas é tudo o que tenho, m as se entrar no j ogo do vosso lado, tenho de saber exatam ente em que é que m e estou a m eter.
Kleiber com eçou a falar, m as Schellenberg interrom peu-o.
— Posso fazer a Vossa Alteza um a pergunta direta? Se necessário, estaria preparado para ascender de novo ao trono?
— Certam ente — disse o duque. — Esperaria naturalm ente que a duquesa fosse aceite com o m eu cônj uge.
— Não prevej o qualquer dificuldade nesse ponto, sir.
— É claro que, se vou dar um passo tão drástico, um a ação que irá agitar o Mundo, exij o algum a prova de cooperação pela parte do Führer.
— E que é que satisfaria Sua Alteza Real? — perguntou Kleiber.
— Se a duquesa e eu vam os fazer planos para regressar a Inglaterra, precisam os de saber em que dia é que o Führer pensa que devem os estar preparados para partir.
Schellenberg percebeu então tudo, ou pensou que sim , m as contentou-se em dizer:
— Com preendo o seu interesse pelo prazo de tem po, sir. Inform arei o m inistro dos Negócios Estrangeiros, Von Ribbentrop, do teor desta conversa e ele, sem dúvida algum a, o com unicará ao Führer sem dem ora.
— Só tem am anhã, general — disse o duque. — Ficaria desolado de partir no Excalibur, m as irei se for necessário. Se tiver qualquer com unicação para m im , ligue para o coronel Cunha.
— Entrarei em contato o m ais depressa possível — disse Schellenberg. — Boa noite, sir.
Dirigiu-se para a porta, seguido de Kleiber. Fernandes da Cunha abriu-a e trancou-a depois de passarem . O duque esperou alguns m om entos, depois cham ou: — Mr. Jackson!
— Sim , sir. — O am ericano saltou para os arbustos e aproxim ou-se do alpendre.
— Bem , o senhor ouviu. Que é que acha?— perguntou o duque.
— Irão entrar no j ogo?
— Depende da necessidade que têm de si, sir.
— Se conseguirem ocupar a Inglaterra, precisam m uito, de fato. De qualquer m aneira, obrigado por ter vindo. — O duque estendeu a m ão. — Posso contar consigo quando os Alem ães estiverem prontos para m e falarem de novo? Por razões óbvias, neste m om ento não seria aconselhável dirigir-m e aos nossos próprios Serviços Secretos.
— Sim , sir.
— Excelente. Então, boa noite. — E o duque foi-se em bora.
— ELE ESTÁ A MENTIR — disse Schellenberg. — Não acredito num a palavra. — Voltara ao gabinete de Huene. O em baixador estava sentado à secretária e Kleiber à sua frente.
— Tam bém estive lá — disse Kleiber — e acredito nele. Por que não? Eles trataram -no m al, não foi? Agora, estam os a dar-lhe a hipótese de recuperar o trono e com a duquesa a seu lado. É tudo o que ele realm ente quer.
— Ele quer a Operação Leão-Marinho entregue num a bandej a — interrom peu rispidam ente Schellenberg. — É tão sim ples com o isto.
Huene abanou a cabeça.
— Não concordo. Desem barcarem os em Inglaterra num a questão de sem anas, todo o Mundo sabe isso. A m inha opinião é de que o duque está apenas a ser prático. Ele faz um pedido razoável. E se ele der a sua palavra ...
— Eu sei — disse Schellenberg —, é um hom em honrado. Mas ocorre-m e que pode chegar um a altura em que qualquer hom em honrado aj a desonradam ente em nom e de um a causa em que acredite.
— Estam os a fugir ao assunto — disse Kleiber. — Vai entrar em contato com o m inistro Von Ribbentrop ou faço-o eu?
— Não — respondeu Schellenberg. — Não será necessário. Com unicarei j á com ele. Deixo-o com unicar as boas notícias a Him m ler. Você gostará de fazer isso.
ÀS DEZ E MEIA da m anhã seguinte, Him m ler recebeu a longa m ensagem de Kleiber, enviada através da Em baixada de Madrid. Leu-a, interessado, e depois sentou-se à espera que Ribbentrop desse o prim eiro passo.
Já passava das 11 horas quando Ribbentrop entrou no gabinete e disse:
— Recebi um a m ensagem de Schellenberg, Reichsführer. Bastante notável. Não sei bem o que fazer. Pensei se o Führer ...
— Não — disse firm em ente Him m ler. — O Führer está particularm ente ocupado neste m om ento, com o sabe. Há alguns fardos que tem os de carregar por ele. Tam bém recebi um a m ensagem de Lisboa. Sei que o Führer colocou o caso Windsor à sua responsabilidade particular, m as se acha que pode aj udar, estou disposto a discuti-lo consigo. — Ribbentrop sentou-se, e Him m ler continuou: — Se disserm os ao duque o dia da Operação Leão-Marinho, que estam os a ceder exatam ente?
— Está a sugerir que lhe m ostrem os todo o plano? — perguntou Ribbentrop, horrorizado.
Him m ler sorriu.
— Tudo isto é bastante acadêm ico. Vej a as coisas desta m aneira.
Há algum tem po, o Exército Britânico deixou a m aior parte do seu equipam ento nas praias de Dunquerque. Têm m enos de duzentos carros de com bate e pouquíssim os aviões. — Him m ler fez um a pausa. — O período com as condições m ais favoráveis para o desem barque é entre os dias 19 e 26 de Setem bro. Qualquer pessoa que tenha um a carta do canal da Mancha e um a tabela das m arés sabe isso. Por essa altura, a Luftwaffe j á terá elim inado toda a resistência aérea, e sem a aj uda aérea a Roy al Navy está praticam ente neutralizada. Não, m esm o que Winston Churchill tivesse todo o plano da Operação Leão-Marinho nas m ãos neste m om ento, não tinha nem os recursos nem a capacidade para a im pedir.
— Então, pensa que devem os ceder ao pedido do duque?
— Meu caro Ribbentrop, o Führer encarregou-o do caso Windsor. Posso apenas aconselhá-lo, m as devo dizer que, dadas as circunstâncias, não vej o com o pode enganar-se.
JÁ PASSAVA do m eio-dia quando Walter Monckton entrou na biblioteca, onde foi calorosam ente cum prim entado pelo duque e a duquesa.
— Suponho que Winston o m andou cá para ter a certeza de que eu em barco am anhã no Excalibur? — disse o duque.
— Bem , sir, o prim eiro-m inistro e tam bém Sua Maj estade têm estado preocupados com os atrasos neste assunto. Têm corrido boatos acerca de um interesse dos Alem ães na sua presença aqui.
— Walter, você está ultrapassado. É com os nossos próprios Serviços Secretos que tenho que m e preocupar, de acordo com o que se ouve em Madrid.
— Mas isso é absurdo, sir.
— Walter, o m eu am igo Prim o de Rivera, que está m uito bem relacionado no Governo Espanhol, assegurou-m e de que existe um certo fundam ento nestes boatos. A ideia parece ser que, se eu recusar partir para as Baham as, os Serviços Secretos Britânicos m e levarão à força.
— Não faz ideia do que tem sido, Walter — acrescentou a duquesa. — Cartas anônim as, m esm o cham adas telefônicas. Polícias por todo o lado.
— Então, Wallis. — O duque pegou-lhe nas m ãos. — Preocupas-te dem asiado. Vai preparar-te para o alm oço.
Depois de ela ter saído, o duque dirigiu-se ao aparador e serviu-se de um whisky. Monckton disse:
— Meu Deus, sir, nunca o tinha visto beber antes das sete horas da tarde.
— Eu sei, Walter, m as hoj e preciso. Diga-m e, m eu am igo, j á algum a vez fui m enos do que honesto consigo?
— Não, Sir.
— Então, peço agora para acreditar em m im . Walter, quando o Excalibur largar am anhã, estarei a bordo, prom eto, m as neste m om ento é essencial que certas pessoas ainda tenham a sensação de que estou a vacilar. De Rivera vem hoj e passar o dia aqui. Diga-lhe com o estou chocado com as intrigas de que ele fala. Peça-lhe provas e diga-lhe que am eacei não partir.
Monckton perguntou gravem ente:
— E não estou autorizado a saber o que realm ente se passa, sir?
— Não, Walter. Ainda não.
Bateram à porta. Apareceu um criado, que anunciou a chegada de Prim o de Rivera.
LOGO APÓS as 5 horas, foi recebida na Legação Alem ã um a m ensagem de Ribbentrop, e Huene m andou im ediatam ente cham ar Schellenberg e Kleiber.
— De Ribbentrop — disse-lhes o em baixador. — Diz apenas: "Pedido aceitável. Seguem -se detalhes."
Kleiber voltou-se para Schellenberg com os olhos a brilhar de triunfo.
— Então, está a ver, general, eu conhecia o m eu hom em . Melhor do que o senhor. Vou para a sala de com unicações esperar pela próxim a m ensagem .
Quando a porta se fechou, Schellenberg com eçou a rir às gargalhadas.
— Isto não é só Ribbentrop. É tam bém Him m ler. Um com erciante de cham panhe e um criador de galinhas. Um a com binação invencível, tem que adm itir.
— General Schellenberg — disse Huene — Não estou disposto a ouvir m ais. Tenho de pensar na m inha fam ília. Tenho parentes no nosso país.
— E claro — disse Schellenberg. — Não devia deixar-m e levar pela em oção. É só que detesto a estupidez.
Um pouco depois, a porta abriu-se e Kleiber entrou com um envelope selado.
— Acabaram agora de a descodificar, general. É confidencial, para si.
Schellenberg sopesou o envelope nas suas m ãos.
— E tam bém para o duque de Windsor presum o.
— Quer que contate com o coronel Cunha? — perguntou Huene.
Schellenberg acenou com a cabeça.
— Peça-lhe para com binar outro encontro com o duque. À m esm a hora e no m esm o local de ontem à noite.
Kleiber saiu e Schellenberg seguiu-o. Ao passar a porta, parou e voltou-se para Huene.
— Vou deixá-lo com um pensam ento agradável. Penso que acabam os de perder a guerra.
DE PÉ nas escadas, ao lado do duque, Walter Monckton suspirou de alívio quando Prim o de Rivera entrou no cano.
— Sir, penso que nunca ouvi tanto disparate na m inha vida. Perguntei-lhe se podia dar-m e algum a prova sobre essas intrigas inglesas e ele não m e soube responder. Depois, ainda teve o descaram ento de m e dizer que dentro de dez dias teria todas as provas de que precisássem os.
— E pediu-lhe que adiasse a m inha partida am anhã? Pobre Walter. Estou-lhe m uito grato.
Foram para a sala de visitas, onde a duquesa estava com Santo e Silva.
— Agora, quem quer um a bebida? — perguntou o duque.
Nesse m om ento, bateram discretam ente à porta e entrou um criado.
— Está aqui o coronel Fernandes da Cunha para falar com Sua Alteza.
— Peço desculpa a todos. Preparativos relacionados com a segurança para am anhã. Tom e conta das bebidas, Walter.
O DUQUE estava sentado no alpendre a exam inar os docum entos com um a pequena lanterna. Schellenberg e Kleiber esperavam à porta.
— Muito interessante — disse o duque por fim . Meteu os papéis no envelope.
— Brilhante. Não lhe encontro defeitos.
Schellenberg perguntou:
— Então, está satisfeito, sir?
— Sim — respondeu o duque, pondo o envelope no bolso.
— E a partida am anhã?
— Sim plesm ente, não pode ser. A duquesa não se. encontra nada bem . Terem os de cham ar o m édico de m anhã. O Excalibur parte ao m eio-dia. Depois de ele largar, farem os outros preparativos.
— Com certeza.
— Bom . Então, boa noite, m eus senhores.
O coronel Cunha, que se encontrava à porta do j ardim , deixou-os passar. Joe Jackson, no m uro, esperou, depois saltou para o chão e dirigiu-se ao alpendre.
— Espere aqui por m im , Mr. Jackson — disse o duque. — Voltarei rapidam ente com algo da m áxim a im portância.
Apressou-se e foi direito à biblioteca da casa, onde a duquesa o esperava.
— Que estão os outros a fazer? — perguntou ele, ao m esm o tem po que espalhava papéis na secretária.
— Estão a j ogar às cartas. Que tens aí?
— A coisa m ais espantosa que j á algum a vez leste, Wallis. A Operação Leão-Marinho, o plano alem ão para invadir a Inglaterra, fornecido por Ribbentrop com a ingênua esperança de que poderia fazer-m e ver qual a m elhor decisão para m im .
Ela trancou a porta e voltou à secretária.
— Olha para isto — disse ele. — Dia Águia, 30 de Agosto. A Luftwaffe vai lançar um ataque devastador aos cam pos de aviação do Sul de Inglaterra com o obj ectivo de destruir a RAF.
— E a invasão? — perguntou ela.
— Tem de ter lugar entre os dias 19 e 26 de Setem bro. Um a questão de luas e m arés. Depois disso, j á não é aconselhável devido ao início do Outono e do tem po m uito m ais im previsível.
— Pode ser feita algum a coisa?
— Sim , penso que sim . Tudo isto se baseia na suprem acia aérea. Desde que a RAF ainda funcione, a Roy al Navy dom ina o Canal e nenhum a invasão poderá ser bem sucedida. Mas a Luftwaffe tem ordens para elim inar a RAF com o prioridade absoluta. Gõring pensa conseguir isto em duas sem anas.
— Continua, David — disse a duquesa lentam ente.
— Isto leva-nos ao ponto fraco deste plano — disse-lhe o duque.
— As coisas im previstas. Se a Luftwaffe não conseguir esm agar a RAF até ao dia 17 de Setem bro, então a Operação Leão-Marinho será cancelada.
— E que acontece depois?
— Hitler volta-se para a Rússia, e isso, m inha querida, será o fim dele. Tenho a certeza de ter visto no outro dia um a m áquina de escrever naquele arm ário. Não sou nenhum especialista, m as dois dedos devem chegar.
— Para que, David?
— Para fazer um a cópia, Wallis. Para Mr. Jackson.
Quarenta m inutos depois, o duque estava de volta ao alpendre.
Entregou o envelope a Jackson.
— O que isso contém é da m áxim a im portância para o Governo Britânico nesta altura. Enderecei-o a Mr. Winston Churchill e é confidencial. Am anhã, depois de eu partir, ficar-lhe-ia grato se entregasse o envelope a Sir Walford Selby, o em baixador britânico, com os m eus cum prim entos. Darei o original ao m eu bom am igo Walter Monckton para o entregar pessoalm ente a Mr. Churchill quando regressar a Londres.
— Está a j ogar pelo seguro, sir?
— Os acidentes acontecem . Sabe, Mr. Jackson, um a vez, em França, durante a Grande guerra, saí do m eu carro e fui observar um a trincheira. Alguns m inutos m ais tarde, o carro foi crivado de balas de m etralhadora, m atando o m otorista. Penso m uitas vezes por que m otivo fui poupado nessa ocasião. Talvez a noite de hoj e proporcione algum a resposta.
— Sir, foi um privilégio conhecê-lo.
— Digo o m esm o, Mr. Jackson. — O duque apertou-lhe a m ão.
O coronel Fernandes da Cunha, ainda de guarda ao pé do m uro, acom panhou Jackson à saída e fechou a porta. O duque aproxim ou-se dele.
— Já não falta m uito para se ver livre de m im , coronel.
— Um m undo novo, sir, planos novos. Algo novo em que pensar.
— Sim , claro. As ondas na praia, as palm eiras a balançarem e a cinco m il quilôm etros de distância da guerra. Pode pedir-se m ais? Boa noite, coronel — e partiu rapidam ente.