Raptar um Rei

Jack Higgins · Capítulo 12 de 16

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Raptar um Rei

Onze

AO CONTRÁRIO da noite anterior, o arm azém estava num a grande agitação quando Schellenberg entrou e subiu as escadas de ferro até ao escritório de Taniguchi.

— Já tem algum a coisa para m im ? — perguntou, sentando-se diante do hom em enorm e.

— Mas é claro. — Taniguchi abriu um cofre de parede e tirou um a pasta feita de cartolina. — Tudo o que precisa, Walter. Um a planta da casa e do terreno. Um a lista dos criados. Tam bém consegui que um criado, um a criada e um j ardineiro fossem substituídos por pessoas ao m eu serviço. Falam todos razoavelm ente bem inglês.

— Excelente, e a Polícia?

— Ligeiram ente m ais difícil — respondeu Taniguchi. — O coronel Fernandes da Cunha, chefe da Polícia de Segurança, foi tornado responsável pela segurança da casa. É um polícia de prim eira classe, fora do alcance de qualquer suborno, e na m inha opinião cum prirá as suas ordens à letra. Felizm ente, o oficial que está colocado na casa é um hom em de um a espécie totalm ente diferente. É o capitão José Mota.

— Está do nosso lado?

— Se se refere a ideologias, não, m as tem gostos m uito caros, particularm ente no que respeita a m ulheres. Portanto, quais são as suas ordens?

— Neste m om ento, aquilo que quero são inform ações gerais sobre o que se passa na casa. Qualquer conversa que consigam escutar será útil.

— Sobre os planos futuros do duque? E se ele, afinal, decidir ir para as Baham as, Walter? Que é que acontece?

— Não o censuraria por isso — Schellenberg levantou-se. — Ouvi dizer que o clim a é ótim o.

Taniguchi riu às gargalhadas.

— De fato, a vida é m uito divertida. Pensem os num a coisa tão abstrata com o um a inform ação. Um artigo tão suj eito às forças do m ercado com o qualquer outro. Um a coisa que, por exem plo, pode ser vendida não só um a vez, m as duas.

— Um a hipótese interessante — disse Schellenberg. — Vam os discuti-la. — Sentou-se novam ente.

NA LEGAÇÃO ALEMÃ, no dia seguinte, depois do alm oço, o em baixador Von Huene tom ava café quando Schellenberg entrou no gabinete.

— Ah, sej a bem aparecido, general. — Huene encheu outra chávena de café e pegou num docum ento que estava em cim a da m esa.

— Está aqui um a coisa para si do Ministério dos Negócios Estrangeiros de que pode não gostar. Já a descodifiquei.

Era de Ribbentrop e não se perdia em rodeios.

Na ocasião apropriada, o duque tem de ser inform ado de que a Alem anha quer a paz com o povo inglês, que Churchill se opõe a essa ideia e que seria um a boa política se o duque se m antivesse preparado para futuros acontecim entos. A Alem anha está determ inada a forçar a Inglaterra à paz por quaisquer m eios, e a partir deste acontecim ento estaria preparada para atender a qualquer desej o expresso pelo duque, especialm ente no que se refere a um a subida ao trono inglês pelo duque e a duquesa.

Havia m ais inform ações do m esm o teor, incluindo a convicção de Ribbentrop de que Santo e Silva era sim patizante dos obj etivos da Alem anha. Reiterava-se tam bém o boato de que os Serviços Secretos Britânicos tinham desígnios obscuros em relação ao duque.

— Bem , é sem dúvida bastante explícito — disse Schellenberg.

— Tive notícias de Prim o de Rivera — disse-lhe Huene. — Am anhã vai levar os Windsors a visitar um a herdade cham ada Nina.

A quinze quilôm etros apenas da fronteira espanhola. Que pretende fazer?

— Esperar pelos acontecim entos — respondeu Schellenberg. — Se De Rivera conseguir convencer o duque de que a sua ida para Espanha seria no seu m elhor interesse, então a fronteira estará m uito perto de Nina. Ribbentrop e o Führer ficariam satisfeitos e podíam os ir todos para casa.

— E se o duque tom ar outra decisão?

Schellenberg sorriu.

— Barão, o seu café estava realm ente excelente. Vê-lo-ei m ais tarde.

O BAR AMERICANO de Joe Jackson era um lugar popular de encontro à hora do alm oço, e estava cheio quando Kaj iro Taniguchi entrou logo às 2 horas. Jackson foi im ediatam ente ao seu encontro.

— Conseguiu a inform ação que pedi?

— Penso que sim — respondeu Taniguchi.

Jackson conduziu-o ao seu escritório e fechou a porta.

— Muito bem , qual é o acordo?

— É um hom em m uito ocupado, este seu am igo duque. Am anhã vai visitar Nina, a herdade de José de Oliveira.

Jackson franziu as sobrancelhas.

— Nina é m uito perto da fronteira espanhola.

— É, não é? Bem , m as voltando ao Estoril. Em bora Fernandes da Cunha sej a totalm ente responsável pelo duque, o oficial de serviço na casa é um tal capitão José Mota.

— E ele é subornável?

— Corrupto com o um cadáver de um a sem ana, m as vai sair-lhe caro, Joe. Mil dólares em dinheiro am ericano, adiantados.

— E que recebem os em troca?

— Todas as noites, às dez horas, o duque dá um passeio sozinho no j ardim enquanto fum a o últim o charuto do dia. Tenho um a planta. — Tirou da pasta um papel dobrado em quatro e desdobrou-o: Aqui, por baixo da piscina, existe um alpendre. O duque acaba sem pre o seu passeio sentando-se lá durante cinco m inutos, a acabar o seu charuto.

— E então?

— A uns m etros de distância, existe um a porta no m uro do j ardim escondida por arbustos. Norm alm ente, está lá um polícia que discretam ente a guarda, m as hoj e à noite, se estiver interessado, não estará lá. E m ais, a porta não estará trancada.

— Graças ao capitão Mota?

— Exatam ente.

— Que espera o seu dinheiro adiantado.

— Receio que sim .

Jackson dirigiu-se ao grande e antiquado cofre no canto da parede, abriu-o, trouxe um a caixa para a secretária e contou dez notas de cem dólares.

— Mais um a coisa — disse Taniguchi. — A j ovem entra sozinha.

— Ouça lá ... — com eçou Jackson.

— Faz parte do acordo, Joe. Ou concorda, ou acabou-se. Ela deixa o carro a m eio da colina e faz o resto do cam inho a pé. Isto é para a sentinela do portão não a ouvir.

Jackson encolheu os om bros.

— Está bem — disse relutantem ente. — Mas se não m e fizerem o serviço, velho am igo ...

— A confiança, Joe, é um a das coisas m ais negociáveis deste m undo. Tem que aprender a dar-lhe o devido valor. — Taniguchi saiu a sorrir.

TINHA sido colocado à disposição de Schellenberg um gabinete na Legação Alem ã, e ele estava a trabalhar à secretária quando bateram à porta.

Kleiber entrou, m uito pálido e trazendo o braço direito ao peito.

— Que é que quer? — perguntou Schellenberg.

— Parto do princípio de que há trabalho para se fazer.

— Se bem com preendi, a sua tarefa era ser m eu guarda-costas. — disse-lhe Schellenberg. — Quando perdeu Hannah Winter naquele cais e deixou o am ericano dar-lhe um tiro no braço, ficou totalm ente incapacitado para essa função. Portanto, as m inhas ordens são para que fique na cam a até estar com pletam ente recuperado.

— E Sinderm ann?

— Não tem qualquer utilidade para m im .

— Mas, e o duque de Windsor, m eu general?

— Isso não lhe diz respeito, por isso faça o que lhe m ando. Com preende?

— Sim , m eu general — respondeu Kleiber, m as quando se voltou para a porta a sua cara refletia raiva e ódio.

Cinco m inutos depois, com Sinderm ann nos seus calcanhares, entrava no gabinete do seu am igo Egger, o adido de polícia da Legação Alem ã.

Kleiber puxou, com algum a dificuldade, a sua carteira com a m ão esquerda, tirou para fora a carta de Him m ler e entregou-a.

— Com o pode ver — disse Kleiber —, aj o em nom e do próprio Reichsführer Him m ler.

— Claro, m aj or — disse Egger, alarm ado.

Kleiber sentou-se.

— Tenho sérias dúvidas de que o general Schellenberg estej a a cum prir as suas ordens no que diz respeito ao caso Windsor com a eficácia que devia. Você ouviu algum a coisa da qual eu deva ser inform ado?

Egger parecia nervoso, m as respondeu em voz baixa.

— Sim , penso que sim . Um contato m eu na Polícia Portuguesa disse que, há cerca de um a hora, o general recebeu um a breve visita do capitão José Mota, da Polícia de Segurança, o oficial de serviço no destacam ento em casa do duque.

— Com preendo. Tem algum a ideia sobre o assunto da conversa com o general Schellenberg?

— Não.

— Mas podia saber através do seu am igo Mota?

— Podia tentar, m aj or.

— Então tente, por favor — disse-lhe Kleiber.

UM POUCO antes das 10 horas da noite, Hannah virou para a estrada que subia a colina até à casa. Seguindo as instruções que Taniguchi tinha dado a Jackson, parou o carro debaixo de um as árvores a m eio da encosta e fez o resto do cam inho a pé.

Alguns m inutos m ais tarde, com o m ínim o de barulho possível, a porta do carro abriu-se e Joe Jackson, que tinha estado agachado no chão, saiu. Vestia calças e um a cam isola pretas e um capuz enfiado na cabeça que deixava apenas os olhos à m ostra. Tinha a Browning autom ática enfiada no cinto.

Seguiu-a, sem pre encostado às árvores. A porta no m uro era claram ente visível, j á que tinha um a pequena luz por cim a. Ele viu-a parar, depois abrir a porta e entrar.

Um pouco m ais longe, havia um a árvore cuj os ram os passavam por cim a do m uro. Jackson subiu-a rapidam ente e parou sobre o m uro. Viu a form a indistinta do alpendre a uns quatro ou cinco m etros de distância e Hannah a aproxim ar-se dele por um cam inho através dos arbustos.

Hannah via o brilho na escuridão e sentia o arom a de um bom havano.

— Alteza — m urm urou. — Por favor, preciso falar consigo. Cham o-m e...

— Hannah Winter — disse Walter Schellenberg. Saiu das som bras e ficou à entrada do alpendre.

— Oh, m eu Deus — disse ela, e voltou-se para fugir, m as encontrou o cam inho bloqueado por um j ovem oficial da Polícia.

Schellenberg disse: — Está tudo bem , Mota. Agora vou acom panhar a senhora de volta ao carro.

Um a m ão segurou no cotovelo dela, levando-a pelo cam inho até à porta. Saíram e Mota fechou a porta atrás deles.

Estendido agora no cim o do m uro, Jackson ouviu Schellenberg a dizer a Hannah, ao passarem : — Receio que Taniguchi não tenha sido totalm ente honesto com o seu am igo Mr. Jackson. O duque não vai aparecer senão daqui a m eia hora. Que é que vou fazer consigo, Hannah? Não lhe tinha dito para não se m eter nisto?

Jackson teria descido do m uro para os seguir se Mota não tivesse parado a uns m etros de distância para acender um cigarro. O fósforo cham ej ou, ilum inando um a cara sim pática, m as fraca.

Mota olhou furtivam ente em redor, depois m urm urou em português: — Está bem , podem sair agora.

Kleiber e Sinderm ann saíram do m eio dos arbustos.

— Viram o que queriam ? — perguntou Mota.

— Oh, sim — respondeu Kleiber. — O general vai ter de dar explicações quando regressarm os a Berlim . Entretanto, vam os exam inar os acontecim entos de am anhã. Quando partem para essa herdade?

— Às nove e m eia. Dois polícias de m ota seguirão um quilôm etro à nossa frente. Eu sigo com m eia dúzia de hom ens num cam ião. O duque a duquesa, Prim o de Rivera e o m otorista virão em últim o, no Buick.

— E depois?

— A cinco quilôm etros de Nina, fica um a aldeia cham ada Rosário. Um a estalagem e algum as casas, nada m ais. Farei com que o m eu cam ião se avarie antes de lá chegarm os. Quando o Buick nos apanhar, direi que continuem e que nos esperem em Rosário.

— Onde os m otociclistas j á terão passado?

— Exatam ente. Prevej o que o Buick chegue a Rosário perto das onze horas. Você e os seus hom ens deverão lá estar à espera.

Mota encolheu os om bros.

— Basta apontar-lhes um a pistola e levá-los até à fronteira. Vinte m inutos e estarão em Espanha.

— Excelente — disse Kleiber. — Fez tudo com o deve ser.

— E o general Schellenberg?

— Não deve ser inform ado.

— E o m eu dinheiro?

— Vai receber, tem a m inha palavra. Vinte m il dólares am ericanos, com o acordam os.

Jackson não esperou para ouvir m ais, deslizou suavem ente pelo m uro e saltou para a relva. Com eçou a descer a colina para onde Hannah tinha deixado o Mercedes, m as j á não estava lá.

A com binação tinha sido sim ples: se perdessem o contato, encontrar-se-iam no apartam ento em Cascais. Com eçou a correr ao longo da estrada.

QUANDO Hannah e Schellenberg chegaram ao Mercedes de Joe Jackson, ele abriu-lhe a porta, depois deu a volta e sentou-se no lugar do passageiro.

— Vim de táxi. Não se im porta de m e dar boleia?

Hannah pôs o carro a trabalhar.

— Só até à prim eira paragem de táxis.

Schellenberg acendeu um cigarro.

— Agora, pode ver que é um disparate continuar a interferir neste assunto. O fato de m e ter encontrado à sua espera no alpendre hoj e à noite, em vez do duque, prova que tenho m ais influência em Lisboa do que Mr. Jackson.

Perto da estação do com boio, havia um a paragem de táxis e ela parou. Não disse um a palavra; Schellenberg saiu, fechou a porta, depois debruçou-se sobre a j anela e sorriu.

— Realm ente, não podem os continuar a encontrar-nos desta m aneira, não acha?

Ela deu m eia volta, acelerou e afastou-se rapidam ente.

HAVIA LUZES na casa de Cascais quando Hannah parou o carro na rua. Quando subia os degraus para a porta de entrada, esta abriu-se e Jackson, que entretanto tinha apanhado um táxi, apareceu.

— Que aconteceu? — perguntou, e ela depressa lhe contou. — Perdeu a m elhor parte do espetáculo — continuou ele, ao segui-la para dentro de casa. — Depois de se ter ido em bora, os seus dois am igos do cais apareceram , Kleiber e Sinderm ann. Parece que não estão exatam ente de acordo com Schellenberg. Planearam um a conspiração com o capitão Mota para raptarem o duque e a duquesa a cam inho da herdade, am anhã. Parece que esse tal Mota anda a estender a m ão a toda a gente.

— Não podem os im pedi-los?

— Oh, sim , penso que sim . Já consegui descobrir quem vai organizar o espetáculo para eles, é um am igo m eu, José Borges. Era um dos m elhores toureiros do país até ter perdido um olho com um a cornada. Telefonei-lhe e ele concordou em levar-nos am anhã, às oito horas. Agora, arranj e-m e um café enquanto m udo de roupa.

Foi ao carro buscar um a m ala, depois vestiu um sm oking branco com um laço preto.

— Farpela de trabalho — disse-lhe. — Afinal, sou proprietário de um bar.

Hannah serviu-lhe o café.

— Tenho estado a pensar. Aquele seu am igo j aponês que organizou isto não fez propriam ente o serviço para que foi pago.

— Oh, não sei — disse Jackson. — Ultim am ente, os nazis não têm apenas im prim ido o seu próprio dinheiro, m as tam bém o de outros. As notas de cinco libras inglesas que eles fazem são excelentes, e as notas de cem dólares am ericanos não são m ás. Alguém tentou passar algum as nas m inhas m esas de j ogo no m ês passado.

Confisquei-as, naturalm ente, e expulsei-o. Não valia a pena cham ar a Polícia, e podia ser que as notas fossem úteis noutra altura.

— Seu patife — disse ela com adm iração.

— Gosto de pensar que sim .

Saíram de casa e foram até Lisboa, ao Bar Am ericano, onde havia m uitos carros estacionados cá fora. Jackson levou Hannah para o seu escritório.

Abriu um painel na parede onde havia um a grade preta através da qual se podia olhar para a sala de j ogos. Dados, vinte-e-um , póquer, estava tudo a correr bem , m as havia m uita gente, especialm ente à volta da m esa da roleta. Jackson disse: — Ótim o, lá está ele, Espere aqui.

Desceu as escadas e aproxim ou-se do coronel Fernandes da Cunha, que não estava a ser particularm ente feliz à roleta.

— Olá, coronel — disse Jackson baixinho. — Sem pre pensei que o doze fosse o seu núm ero da sorte.

— Sim , Joe?— Cunha sorriu. — Então será o núm ero doze.

Quando a roda parou, a bola caiu precisam ente no núm ero doze.

Jackson disse:

— Se fosse a si, continuava com esse núm ero.

— Quem sou eu para discutir com o proprietário?

Desta vez, quando saiu novam ente o núm ero doze, o coronel apanhou as fichas que o croupier tinha posto à sua frente.

— Está a ser excessivam ente generoso hoj e à noite, Joe. Gostaria de saber porquê.

— Oh, ainda nem com ecei — disse-lhe Jackson. — Venha lá acim a tom ar um a bebida. Vai achar interessante.

Hannah estava ao pé da grade, a olhar para a sala de j ogos, quando eles entraram . Voltou-se e Jackson disse: — Coronel, quero apresentar-lhe Hannah Winter. Agora, podia prendê-la. Por outro lado, se for tão esperto quanto eu penso que é, vai ouvir prim eiro o que tem os para dizer.