Raptar um Rei

Jack Higgins · Capítulo 11 de 16

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Raptar um Rei

Dez

NO INÍCIO, o cam inho de saída de Lisboa no Mercedes desportivo prateado de Joe Jackson parecia um labirinto, e por isso Hannah perguntou: — Onde vam os?

— Para um a vila de pescadores cham ada Nazaré — disse-lhe Jackson. — Um a am iga m inha tem um a casa perto da praia. Ela está fora agora, m as eu tenho a chave. É um pouco longe, m as é sossegado e isolado.

Ela não se im porta.

Agora estava um a noite bonita, a chuva tinha parado há m uito e havia um a lua cheia no céu lim po, e a viagem foi agradável. Passadas cerca de duas horas, com eçaram a ver o m ar, onde dúzias de luzes se agitavam em direção à pequena vila lá em baixo.

— Lanternas nas proas dos barcos de pesca — disse ele. — Atraem peixe em grandes cardum es com o traças à roda de um a luz.

Desceram para perto de um a grande praia e um pouco adiante ele virou o carro para um cam inho estreito, parando num portão de um a parede caiada. Abriu-o e entraram para um pátio fechado.

A casa era de um só piso, tinha um telhado de telhas curvas encarnadas e um a varanda e era rodeada por um j ardim . Hannah sentiu o perfum e das m im osas no ar da noite. Jackson conduziu-a através da porta principal para um a grande sala de estar m obilada com um a sim plicidade surpreendente: paredes caiadas de branco, um a lareira enorm e de pedra, o chão de m adeira polida com alguns tapetes orientais.

— Casa de banho, cozinha. Quarto. Muitas latas de conservas na cozinha. Voltarei am anhã com outras coisas.

Saíram para a varanda. À distância, Hannah ouviu m úsica, triste e estranham ente excitante.

— Que é? — perguntou.

— Um café local. Alguém pôs um disco de fado.

— Fado, que é isso?

— Não se pode explicar, só ouvindo. Faz parte da m aneira de viver dos Portugueses.

Sentia-se o cheiro do pinhal ali perto. Parecia incrível que há duas noites estivesse em Berlim e agora ali, no ponto m ais ocidental da Europa, virada para a Am érica, do outro lado do Atlântico.

Pousou a m ão no braço de Joe Jackson.

— Vai fazer algum a coisa, não vai? Prom ete-m e?

— Com certeza que sim . Ouça, não podem os levá-la pessoalm ente a ver o duque com essa am eaça de extradição que recai sobre si. Eu próprio vou tentar que a sua história chegue às pessoas certas.

— Quando?

— Ainda hoj e à noite, em Lisboa. Sei com quem devo falar.

Ela ficou ali a olhar para ele e de repente beij ou-o na face. Depois entrou para casa sem dizer um a palavra. Jackson ficou na varanda ainda algum tem po antes de voltar para o carro.

SEM QUALQUER dúvida, um a das áreas m ais bonitas de Lisboa é o velho Bairro de Alfam a. Sobre ele elevam -se as m uralhas de pedra altas do Castelo de S. Jorge, em cuj as fossas nadavam patos, cisnes e flam ingos.

Joe Jackson parou o seu Mercedes e m ergulhou no labirinto das ruelas estreitas. Norm alm ente, Alfam a parecia um a coelheira fervilhante de vida.

A esta hora da m adrugada estava silenciosa, um local de som bras, com apenas alguns feixes de luz que vinham dos grandes candeeiros de ferro apoiados em cim a das velhas paredes.

Finalm ente, virou para um a praça na parte de trás da Sé e parou no exterior do que tinha sido em tem pos a casa de um nobre. Havia um escudo de arm as assente na pedra por cim a da arcada, e a velha porta de carvalho tinha dobradiças de ferro.

Puxou a corrente de um a sineta. Passado algum tem po, tiraram a tranca e abriram a porta. Um hom em baixo de cabelo preto, com um sm oking branco, deixou-o passar.

— Sr. Joe, que prazer — disse.

— Olá, Tom ás. — Jackson entrou para um pátio fechado com chão de tij oleira. Havia um a fonte no centro. Seguiu atrás de Tom ás através de um arco até um pequeno e confortável bar cheio de pequenas m esas.

— Ouvi dizer que havia um grande j ogo de póquer esta noite. — disse Jackson.

— O m aj or Frear deve cá estar.

Tom ás acenou com a cabeça.

— Sim , chegou há duas horas.

— Diga-lhe que preciso de falar com ele. Estarei no terraço.

Tom ás saiu, e Jackson disse à m oça loura que estava atrás do bar:

— Traga-m e o de costum e.

Abriu as portas de vidro e foi lá para fora. O terraço com um a pérgola tinha um a vista espetacular sobre o rio Tej o, e as luzes brilhavam na escuridão por baixo dos telhados de Alfam a. A em pregada trouxe-lhe brandy com soda, e então ele debruçou-se sobre a balaustrada, pensando de repente no que estava ali a fazer.

Joe Jackson tinha trinta anos e era filho de um m inistro m etodista. A m aior influência da sua vida havia sido um tio que voara com a esquadrilha de Lafay ette em França durante a I guerra Mundial. O rapaz tinha sido educado no m eio de conversas sobre Spads e Fokkers, e os seus heróis eram ases voadores com o Richthofen e Rickenbacker. Aos dezenove anos, Jackson abandonara Harvard, j untando-se ao Air Corps, onde fora treinado com o piloto de com bate. Mas a disciplina do serviço m ilitar aborrecia-o e, por fim , dem itira-se. Tinha ido com bater para a Brigada Internacional em Espanha, lutando contra a Legião Condor Nazi. Abatera cinco aviões, o que oficialm ente o tornava um ás, antes de, por sua vez, ter sido abatido ao sobrevoar Barcelona num a bela m anhã de Abril. Depois, graças a um a bala no tórax, viera para Portugal fazer a sua convalescença.

Havia ficado, prosperando com o dono do m elhor clube noturno de Lisboa. Às vezes, de m anhã, quando observava o Clipper a partir do rio Tej o para a Am érica, desej ava de todo o coração ir a bordo, m as à noite ..

Ouviu passos atrás e virou-se quando Frear saiu para o terraço. O m aj or vestia um fato de linho branco am arrotado. O cabelo e o bigode eram brancos com o a neve, em bora só tivesse cinquenta anos.

Tinha um ar petulante e aborrecido.

— Que é que se passa, Joseph? Estou no m eio do m elhor j ogo de há seis m eses para cá.

Frear era um j ogador com pulsivo, o que constituía o seu único vício. Era tam bém um agente do MI-6, o departam ento dos Serviços Secretos Britânicos encarregado da espionagem em países estrangeiros. Jackson disse: — O duque de Windsor. Tem conhecim ento de que os Alem ães têm m ais do que um interesse passageiro por ele?

— Meu Deus, Joseph, é só isso? Os boatos fervilham em Lisboa desde que Sua Alteza chegou.

— Hoj e à noite, estive com um a j ovem que acabou de chegar de Berlim e que tem dados concretos para oferecer — disse Jackson.

Frear suspirou.

— Cham ada Winter? Hannah Winter?

— Com o é que sabe?

— Meu caro Joseph, pago a um certo tenente português da Polícia um a sim pática gorj eta para m e com unicar todas as noites qualquer inform ação que valha a pena.

Esta noite disse que o m ais im portante em todos os registos de polícia em Lisboa é um a j ovem alem ã cham ada Hannah Winter, que é procurada por assassínio em Berlim .

— Am ericana — disse Jackson —, e não alem ã. Se cham a assassínio elim inar três hom ens da Gestapo, então ela é culpada, m as essa não é a razão por que vêm a persegui-la através da Europa até Lisboa. É porque um hom em cham ado Walter Schellenberg está na cidade, e ela sabe por quê.

— Walter Schellenberg? Aqui? Tem certeza, m eu velho?

— Por que, conhece-o?

— Sim , penso que se pode dizer que o conheço. Está bem , Joseph, diga-m e o que a j ovem tem para contar.

WINSTON Churchill tornara-se prim eiro-m inistro a 10 de Maio de 1940, m as continuou durante algum as sem anas a viver e a trabalhar na Adm iralty House, nas salas que anteriorm ente tinha ocupado. Nessa noite, um a reunião com a Com issão de Pessoal tinha-se arrastado até depois da m eia-noite. Ele havia-se retirado pouco tem po depois, adorm ecendo im ediatam ente, um truque que tinha aprendido durante as cam panhas da sua j uventude.

Foi acordado às 2 horas da m anhã por Alexander Cadogan, do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

— Que se passa agora? — perguntou o prim eiro-m inistro.

— Foram recebidas inform ações da nossa delegação MI-6 em Lisboa — respondeu Cadogan.

O prim eiro-m inistro encostou-se às alm ofadas, acendeu um charuto e pegou no relatório. Leu-o e depois ficou sentado em silêncio durante algum tem po.

— Que é que acha, Sr. Prim eiro-Ministro? — perguntou por fim Cadogan.

— A insinuação de que Sua Alteza poderia na verdade negociar com os nossos inim igos desprezo-a totalm ente, com o ela m erece.

Conheço-o de toda a vida e é um hom em de honra.

— Mas o outro aspecto, Sr. Prim eiro-Ministro? A possibilidade do seu rapto? A presença do general Schellenberg em Lisboa pode apenas significar a m ais grave das am eaças.

— Salazar pode ter algum as sim patias pelos nazis, m as nunca toleraria tal ato de agressão no seu próprio território. As repercussões internacionais seriam trem endas.

— Então, que fazem os?

— Tem os de inform ar Salazar dos nossos receios, e o em baixador britânico deve inform ar Sua Alteza da situação.

— E depois?

— Vam os enviá-lo para as Baham as logo que possível. Vej a qual o prim eiro barco disponível e ponha-m e em contato com Walter Monckton.

WALTER Monckton levantou-se da cam a e chegou à Adm iralty House logo após as 3 horas da m anhã. De estatura m édia, tinha pouco cabelo e óculos de lentes grossas. Brilhante advogado e am igo do duque de Windsor desde os seus tem pos em conj unto em Oxford, tinha sido o seu assessor m ais valioso durante a crise da abdicação. Atualm ente, era diretor-geral do Ministério da Inform ação.

— Walter — disse o prim eiro-m inistro quando Monckton chegou. — Quero que vá a Lisboa logo que consiga um avião. Acabei de saber que um navio am ericano vai partir para as Berm udas a 1 de Agosto. De lá podem os escoltar os Windsors até às Baham as. Espero que se sirva de toda a sua influência para que Sua Alteza Real e a duquesa em barquem nesse navio.

— E se ele não quiser ir, Sr. Prim eiro-Ministro?

— Tem de ir, Walter. Olhe para estas inform ações e faça o seu próprio j uízo. — Monckton leu-as, calm o com o sem pre. — Fará isto por m im , Walter?

— Claro, Sr. Prim eiro-Ministro.

— Bom . Deixo tudo a seu cargo, então. — Churchill encostou a cabeça à alm ofada e adorm eceu im ediatam ente de novo.

ANTONIO de Oliveira Salazar, presidente do Conselho de Portugal, tinha cinquenta e um anos. Era o virtual ditador do país desde 1932, e o seu m aior feito fora m anter-se fora da Guerra Civil de Espanha e da II Guerra Mundial.

Hoj e, tinha convocado o coronel Fernandes da Cunha, com andante da Polícia de Segurança Portuguesa, para o seu gabinete no Palácio de S. Bento. Fernandes da Cunha, que tinha estado num sem inário de j esuítas, ocupava agora um dos cargos m ais poderosos da Polícia no país.

— Já não é a prim eira vez que o cham o aqui devido a problem as de grande delicadeza — com eçou Salazar.

— Em que posso aj udá-lo, Sr. Presidente? — perguntou Fernandes da Cunha, um hom em baixo m as bem constituído, com cara de cam ponês e um grande bigode preto.

— É sobre o duque de Windsor. Um assunto desagradável. Talvez tenha ouvido dizer que os Ingleses querem que ele aceite o cargo de governador das Baham as. Os Alem ães, por outro lado, preferem que fique na Europa. Se forem bem sucedidos na invasão de Inglaterra, talvez se sirvam dele.

— E qual é o problem a?

— Os Ingleses pensam que os Alem ães podem tentar raptar o duque antes de partir para as Baham as. De fato, o chefe da Contra-Espionagem Alem ã, Schellenberg, está cá. Recebi um a m ensagem de Churchill na qual diz que tem confiança na nossa com petência para zelar pela segurança do duque. Por outro lado, existem algum as pressões políticas por parte da Alem anha e, por enquanto, parece que eles vão ganhar a guerra.

— Mas se o duque fosse raptado no nosso território, as repercussões m undiais dificilm ente nos seriam favoráveis — disse Fernandes da Cunha.

— Exatam ente. Portanto, decidi que, se o duque tom ar a decisão sozinho e for para Espanha, m uito bem , m as não posso perm itir qualquer ato de força neste assunto. Coronel Cunha, o senhor fica pessoalm ente responsável pela sua segurança. Entrará em contato esta m anhã com o em baixador britânico, o acom panhará a casa de Santo e Silva e aí tom ará as providências necessárias quanto à segurança.

— Às suas ordens, Sr. Presidente. — Fernandes da Cunha cum prim entou e saiu.

— SABE, tudo isto está a tornar-se ridículo — disse o duque de Windsor ao em baixador britânico, Sir Walford Selby, ao sentarem -se na biblioteca. — Prim o de Rivera vem -m e com esta história absurda de os Serviços Secretos Britânicos tencionarem levar-m e para as Baham as quer queira, quer não. Agora, o senhor conta-m e a m esm a história, com os nazis no papel de m aus.

O em baixador tentou conter a sua exasperação.

— Com o devido respeito, sir, a presença do general Schellenberg em Lisboa dá-nos que pensar. Há aqueles que sugerem que no contexto de um a Inglaterra ocupada os Alem ães sugeririam a Vossa Alteza um a posição que se veria forçado a aceitar, acreditando que seria no m elhor interesse do povo.

O duque levantou-se, carrancudo.

— Isso, Sir Walford, é um a porta de Judas através da qual nunca entraria. — Voltou-se, furioso, tirou um cigarro de um a cigarreira de prata e acendeu-o. Passado algum tem po, estava de novo controlado. — Em qualquer dos casos, qual é o plano?

— Há um barco am ericano que parte a 1 de Agosto, sir. Para as Berm udas. O Excalibur. Depois, podem os providenciar um a escolta até às Baham as.

— O que nos dá o quê ... três ou quatro dias? Terá apenas de se certificar de que o pessoal dos nossos Serviços Secretos está sem pre de olho em m im .

— Sir, o único representante em Lisboa dos Serviços Secretos é o m aj or Frear, que atua apenas com o interm ediário para inform adores pagos.

— Quer que durm a com um a pistola debaixo da alm ofada?

Houve um pigarrear delicado e eles voltaram -se, deparando-se-lhes o coronel Fernandes da Cunha à porta.

— Não, sir — disse Sir Walford. — O Governo Português encarregou o coronel Cunha de dirigir todo o sistem a de segurança até à partida do Excalibur.

— Inspecionei a propriedade — disse Cunha. — Vou requisitar m ais hom ens. Não prevej o qualquer problem a. Claro que aj udaria se Sua Alteza não saísse de casa.

— Quanto a isso, não posso aj udá-lo — disse o duque. — Depois de am anhã, vou passar o dia no cam po. Num sítio cham ado Nina.

Um a herdade onde criam touros.

O coronel Cunha olhou de relance para o em baixador.

— Sir, perm ita-m e cham ar a atenção para o fato de que Vossa Alteza estará a m enos de quinze quilôm etros da fronteira espanhola.

— Tudo isto foi com binado pelo m eu bom am igo Prim o de Rivera — respondeu o duque. — Não está certam ente a sugerir que ele vai tentar fugir com igo!

— Não, Alteza — disse diplom aticam ente o coronel.

— Ótim o. É claro que não m e im porto se quiser m andar alguns dos seus rapazes para nos fazer com panhia, se isso o fizer feliz. Mas agora têm que m e desculpar. A duquesa está à espera.

Saiu, e Sir Walford voltou-se para o coronel.

— Com o lhe tinha dito, não vai ser fácil.

LOGO QUE Fernandes da Cunha voltou ao seu gabinete, telefonou para a Legação Alem ã, e às 10 e m eia encontrou-se com Schellenberg num pequeno café em Belém .

— General, vou direto ao assunto — disse Cunha. — Neste m om ento, as nossas relações com o Reich são am igáveis e o senhor é um visitante bem -vindo ao nosso país.

— Mas? — disse Schellenberg.

— O duque de Windsor é um caso especial. O que m ais desej am os neste m om ento é que em barque a 1 de Agosto e siga cam inho.

Até lá, o presidente do Conselho tornou-m e pessoalm ente responsável pela sua segurança. Aum entei o núm ero de guardas na casa do Estoril e eles têm ordens para atirar a qualquer intruso. Fui claro?

— Perfeitam ente — disse Schellenberg. — E agora, m eu caro coronel, um conhaque para lhe adoçar o café.

— Com todo o prazer — disse Fernandes da Cunha.

JOE JACKSON telefonou ao m aj or Frear para o seu apartam ento logo às 10 horas da m anhã. Frear parecia que tinha acabado de acordar de um profundo sono.

— É o Jackson. Que aconteceu desde a nossa conversa ontem à noite?

— Nada de novo, m eu velho. Com uniquei as suas inform ações à m inha gente e ?tenho a certeza de que tom arão as m edidas apropriadas. Não há necessidade de você ou a tal m oça se envolverem . Se quer o m eu conselho, diga-lhe para se m anter sossegada para evitar surpresas desagradáveis.

Jackson desligou e sentou-se a pensar durante um pouco. Depois, vestiu-se, desceu rapidam ente as escadas e entrou no Mercedes. Virou para norte, a cam inho da Nazaré.

Logo a seguir, um carro afastou-se do passeio. Schellenberg disse para o m otorista que a legação tinha providenciado.

— Não tenha pressa, m antenha-se bem para trás. Mas não o perca de vista.

NÃO HAVIA sinais de Hannah na casa da Nazaré. Jackson deixou ali o carro e desceu até à praia. O carro que o tinha seguido parou perto de um as árvores a uns cem m etros de distância, Schellenberg saiu e observou através de binóculos.

Estava um belo dia quente e a praia encontrava-se cheia de barcos de pesca pintados com cores garridas. Os pescadores estavam sentados a rem endar as redes, as crianças brincavam em volta deles e, ao longe, rolavam as grandes vagas do Atlântico.

Jackson viu Hannah a andar na sua direção de pés descalços, trazendo um balde na m ão. Quando o viu, com eçou a correr.

— Que dia m aravilhoso — disse ela. — E este sítio. As pessoas são tão sim páticas e atenciosas, e os barcos ... — Voltou-se para olhar para eles. — Porque é que alguns têm olhos pintados na proa?

— Isso é foco de discussão — disse Jackson. — Alguns dizem que é para repelir o dem ônio. Outros, para o barco encontrar o cam inho através de qualquer tem pestade. Já vi que esteve a com prar peixe.

— Sim . Deixe-m e fazer o alm oço. — Deu-lhe o braço e, ao dirigirem -se para casa, observou: — Disse que falaria com as pessoas indicadas. Falou?

— Sim . O m eu contato com os Ingleses analisou a sua história e pensa que não há razão para você continuar a envolver-se.

Ela não disse nada, e andaram o resto do cam inho em silêncio.

Em casa, provou ser um a boa cozinheira. O peixe estava delicioso, m as Hannah apenas provou um pouco.

— Está bem , que é que passa? — perguntou ele.

— Sinto que ninguém está a levar este assunto suficientem ente a sério. — Inclinou-se sobre a m esa. — Não gosto disto. Quero ver o duque. Dizer-lhe pessoalm ente o perigo que corre. O que ele decidir depois j á é problem a seu, m as, se não o fizer, ficarei sem pre com a sensação de que deixei ficar m al o tio Max.

— Está bem — suspirou ele. — .Posso tentar através de um a pessoa. Um hom em que conheço cham ado Taniguchi, que consegue quase tudo. Vou entrar em contato com ele, m as pode custar dinheiro.

— Tenho um a carta de crédito de dois m il dólares.

— Por esse dinheiro, provavelm ente ele próprio raptaria o duque. Vou voltar a Lisboa para ver o que posso arranj ar. Depois, será m elhor m udar-se para a casa de outro am igo m eu em Cascais. É m enos escondido, m as fica só a dois ou três quilôm etros do Estoril. Entretanto, fique sossegada. Voltarei logo que puder.

Viu-o partir e, num im pulso, desceu até à praia, tirou os sapatos e com eçou a passear no areal. Agora o sol estava m uito quente.

Deitou-se ao pé de um barco de pescadores e fechou os olhos. Ouviu passos e um a voz fam iliar disse: — Olá, Hannah.

Quando olhou para cim a, Schellenberg estava a seu lado.

— Devo dizer que está m uito bem , tendo em conta tudo o que tem passado — disse ele.

— Que quer de m im ? — perguntou.

— Quer um cigarro? — Inclinou-se para lhe oferecer um e ela tirou sem pensar. Quando ele lhe deu fogo, havia um a certa intim idade no seu gesto.

— Perguntei o que queria.

— Nada — respondeu ele. — Ou antes, a partir de agora, não quero que faça nada. Já não pode m odificar o desenrolar dos acontecim entos, Hannah. O j ogo está a prosseguir e os j ogadores conhecem as regras do j ogo.

— É com o vê isto? Apenas um j ogo?

— Claro. Um j ogo terrível que, um a vez com eçado, é im possível parar. É com o um carrossel. Um a vez em m ovim ento, j á não há nada a fazer.

— Pode sem pre tentar saltar.

— Agora é dem asiado tarde para isso. Estou encurralado, j untam ente com m ilhares de outras pessoas com o eu. Acha realm ente que acredito naquele louco em Berlim , num a só palavra das suas m entiras? Os negros são inferiores, o que significa que não posso apreciar a m úsica do seu am igo Connie Jones. Einstein não sabe contar até dez e o fato de Hannah Winter ter um a voz para ...

— Não quero ouvir m ais — Hannah levantou-se. — Safou-m e da Prinz Albrechtstrasse; não sei porquê, m as fê-lo, e aj udou Connie e os rapazes em Madrid, m as m atou o tio Max. Não interessa quem segurava na arm a. Você m atou-o.

Ficaram ali, a enfrentarem -se um ao outro. Ouvia-se apenas o barulho do m ar a bater na areia, o grito de um a gaivota. Depois, foi com o se algum a coisa se tivesse partido dentro dela.

— Por quê? — m urm urou, e havia dor na sua voz. — Não com preendo.

Ele pôs um a m ão por baixo do queixo dela e sorriu gentilm ente.

— A vida, m inha Hannah, tem o hábito de agarrar um a pessoa pela garganta e não a largar. É realm ente m uito triste. — Beij ou-a delicadam ente na boca, voltou-se e partiu. Muito tem po depois de ele se ter ido em bora, ela continuava ali apenas a olhar para o m ar.

Depois, regressou lentam ente à casa.