Saúde e Longevidade na Mesa: Dez Passos para a Escolha Diária dos Alimentos com a Dietoterapia Chinesa

Passo 10 | Nutra seu Espírito

A expansão e a elevação da consciência têm sido temas muito abordados atualmente, sobretudo no ambiente holístico. No entanto, o entendimento da palavra consciência pode variar conforme o referencial utilizado por cada indivíduo. A ciência, por exemplo, a considera como uma função do cérebro, a psicologia a entende pelo conceito da alma (psique) e os chineses a atribuem ao espírito (shén).

 

A consciência, chamada de shén pelos chineses, conecta a mente ao

corpo, trazendo presença, vida, virtudes, comportamento, comunicação e muitas outras funções de caráter cognitivo, emocional e espiritual, assim como os sentimentos e as emoções. Shén é a consciência individual, que também está naturalmente associada à consciência coletiva ou universal.

Nesse sentido, os tratamentos em Medicina Tradicional Chinesa atuam

principalmente na preservação da consciência, para que o indivíduo possa se manter feliz, em paz e saudável, acelerando seu processo de cura. Zhang Jiebin, comentarista do Clássico do Imperador Amarelo (apud la Vallée, 1992), dizia que “antes de tudo, é importante tratar o espírito do indivíduo”, ou seja, tratar as enfermidades equilibrando seu espírito e clareando sua consciência, para facilitar a resposta do corpo à doença, pois, como se sabe atualmente, por meio da física quântica, a consciência conduz a energia tanto na mente quanto no corpo.

Conforme Lorie Dechar (2006) relata em The Five Spirits: “O objetivo

deste método de tratamento é restaurar a comunicação entre a mente e o corpo para trazer a pessoa mais próxima da experiência de integridade e conexão com o Tao”.

De acordo com a tradição taoísta, o Tao refere-se ao todo, ao caminho e

à experiência de Unidade. A doença é um processo que fragmenta o indivíduo e, consequentemente, o enfraquece. Ao perder a vitalidade, ele deixa de sentir-se parte da Unidade; por isso, muitas pessoas doentes e debilitadas têm a impressão de que perderam seu lugar no universo.

Não é por acaso que as pesquisas demonstram que as práticas espirituais

atuam na promoção de saúde. Resgatar a consciência por meio do espírito é uma oportunidade de cura e de volta à vida. Por isso, ter uma alimentação saudável e com alimentos naturais é uma oportunidade para trazer de volta a força da terra e da natureza a fim de facilitar essa reconexão. Este é o poder dos alimentos naturais, somente eles podem promover energia (qi) e força (yang), a modernidade e a indústria de alimentos não têm essa habilidade.

Somente com a consciência elevada e o corpo integrado (corpo, mente e

espírito) pode-se recuperar a sensação de pertencimento ao universo e, posteriormente, reconhecer sua missão dentro dele.

Entender o papel da consciência e da mente na saúde é também o

princípio das doenças psicossomáticas, muito estudadas na Medicina. É indiscutível o quanto a mente influencia os processos fisiológicos e pode desencadear diversos desequilíbrios. Durante a doença, a consciência fica perturbada. Os chineses entendem esse momento como “distúrbio de shén”, situações que envolvem distúrbios emocionais e doenças psiquiátricas. Para eles, quando a doença atinge o corpo, ela já está comprometendo a mente do indivíduo há muito tempo. Assim, o último passo, tão importante quanto os anteriores, é elevar a consciência e nutrir o espírito por meio de virtudes, como amor, paz, tranquilidade, generosidade, paciência, tolerância, humildade, alegria e confiança.

As escolhas diárias dos indivíduos podem enfraquecê-los, seja por meio

de alimentação pobre ou inadequada, seja por causa de emoções negativas. Não é preciso ser um profissional da saúde para perceber o quanto um ataque de raiva prejudica as funções do estômago e como o medo faz tremer o interior. Além disso, qualquer um que se sente depressivo percebe como seu corpo enfraquece à medida que se entristece, tornando seu acesso à saúde ainda mais difícil. Por isso, é essencial aprender a elevar a consciência e nutrir o espírito com pensamentos, sentimentos e alimentos de qualidade.

Ao abordar as emoções e os sentimentos, não se está estimulando a

negação ou o disfarce daquilo que é ruim, mas sim a sabedoria interna do indivíduo e a transformação para lidar melhor com as dificuldades e expandir todos os conceitos sobre a vida, abrir a mente e aprender com as situações. Como disse a Dra. Elizabeth Kubler-Ross (1998) em A Roda da Vida, “quando aprendemos as lições, a dor vai embora”.

Não adianta dar nove passos em direção à alimentação saudável se o

espírito não estiver lúcido e limpo. Assim como uma casa precisa de limpeza e de cuidado constante, o espírito, ou seja, a consciência, também precisa, e as práticas espirituais favorecem isso, seja a meditação, a oração, os cantos e todas as formas de devoção e integração.

É impossível sentir-se bem e saudável sem livrar-se das toxinas do

corpo e da mente. Nas palavras de Arantes (2011), do Centro de Cuidados Paliativos do Hospital Albert Einstein:

A pessoa pode estar biologicamente curada, mas se a percepção de tristeza, abandono, culpa, quebra das relações interpessoais importantes,

falta de recursos financeiros e perda de sentido da vida, que acompanharam o período de adoecimento, permanecerem presentes, apesar da ausência de sinais e sintomas, essa pessoa ainda está gravemente doente.

É preciso, a cada dia, livrar-se de hábitos nocivos e transmutar as

dificuldades em lições e aprendizados. A sabedoria taoísta, na qual se baseia a Medicina Tradicional Chinesa, ensina que a transformação precisa acontecer em todos os níveis: no alimento que se transforma em sangue, no pensamento que origina uma atitude e na emoção que encontra uma razão. A transformação demonstra que houve, sobretudo, evolução, desde a energia até a matéria. Desse modo, também é importante entender a doença como um caminho para a consciência, pois ela sempre oferece lições, reflexões e novos comportamentos.

O Dr. Edward Bach (2006), famoso médico inglês e pai da terapia

floral, dizia que:

Obedecer aos mandamentos do nosso Eu Superior, aos quais aprendemos através da consciência, do instinto e da intuição, é o que importa. As doenças reais e básicas do homem são certos defeitos, como o orgulho, a crueldade, o ódio e o egoísmo (...), e se cada um deles for considerado individualmente, notar-se-á que todos são contrários à unidade. Tais defeitos constituem a verdadeira doença, e a continuidade destes defeitos ocasiona no corpo o que conhecemos como enfermidade.

Não é necessário ficar doente ou perder a saúde para estar consciente e

entender a si mesmo. Sugere-se que cada passo na vida seja dado com o devido cuidado consigo mesmo e com o outro, afinal, não se vive sozinho, e que as virtudes, como o amor, a paz e o respeito, possam ser as bases para a sustentação de uma vida saudável. Por isso, o autoconhecimento e o autocuidado são as chaves para a promoção de saúde, pois é importante sentir-se bem, mesmo ao envelhecer.

Sobre o processo de adoecimento e envelhecimento, Arantes (2011)

salienta que:

Nossos desejos e vontades se manifestam pela integração de nossas dimensões emocional, social, profissional e até espiritual. Essa integridade está ameaçada diante da doença (biológica), e essa ameaça nos fragiliza e nos torna vulneráveis ao medo da morte e do sofrimento que a cerca (...) e a melhor forma de alcançar a imortalidade é através da nossa história de vida, ou seja, da nossa biografia.

Fazer as pazes com a própria história e compreender os mecanismos do

corpo e da doença ajudam na recuperação da saúde. Nesse sentido, ganhar a consciência pode proporcionar um novo olhar e um melhor entendimento de si mesmo.

A boa notícia é que existem diversas ferramentas para isso, por meio

das artes, das terapias, da psicologia e das práticas espirituais. Também é possível utilizar as práticas corporais e a boa alimentação, desde a escolha até o preparo dos alimentos, com cuidado e dedicação. As ferramentas estão prontas para serem usadas e escolhidas, com consciência, sabedoria e profundidade.

No caminho para a alimentação saudável, expandir a consciência é dar

dez passos: alimentar, conhecer, entender, remover, equilibrar, observar, escolher, respeitar, movimentar e nutrir o interior, olhando e reconhecendo dentro o que o corpo, muitas vezes, só mostra do lado de fora.

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