Saúde e Longevidade na Mesa: Dez Passos para a Escolha Diária dos Alimentos com a Dietoterapia Chinesa
Dietoterapia Chinesa
Em meu primeiro livro, Dietoterapia Chinesa | Nutrição para Corpo, Mente e Espírito, destaquei a importância da nutrição em todos os âmbitos da vida, indo além do físico e envolvendo os aspectos mentais e espirituais do indivíduo. Afinal, não se nutre somente com comida, mas com conhecimento, ideias, desejos, relacionamentos, experiências, arte, sentimentos, espiritualidade, propósitos e muito mais.
A proposta desta obra é apresentar ao leitor a prática da dietoterapia
chinesa, de modo que um leigo no assunto possa decodificar os sinais do seu corpo e escolher os alimentos adequados para recuperar a saúde e se nutrir.
Há mais de 2 mil anos, os chineses desenvolveram um sistema completo
de saúde, que constitui a Medicina Tradicional Chinesa, composta de cinco categorias principais: acupuntura, massagem tui na, fitoterapia, dietoterapia e exercícios físico-energéticos, como o qi gong. Todas as terapias fundamentadas na Medicina Tradicional Chinesa têm os mesmos conceitos: o olhar integrado para o ser humano como corpo, mente e espírito, o entendimento do qi e a concepção de yin e yang na natureza e na vida. No corpo humano, esses conceitos são entendidos de diversas maneiras, porém, inicialmente, como estrutura e função ou matéria e energia. Toda a proposta de tratamento oferecida nesta obra está embasada nesse olhar.
A dietoterapia chinesa, que em chinês é chamada de yin shi zhi liao fa,
surge como o recurso da Medicina Tradicional Chinesa para nutrir o corpo e, consequentemente, dar sustentação à mente e ao espírito. Ela é aplicada conforme a natureza de cada um, a partir da coleta de dados que envolvem indicativos peculiares à Medicina Tradicional Chinesa, como a observação da língua e do pulso, a compleição, os órgãos dos sentidos, os sentimentos, os hábitos de vida, as preferências alimentares, entre outros.
É importante dizer que a dietoterapia chinesa é um recurso que entende
a alimentação do ponto de vista energético. Isso não exclui os conhecimentos atuais sobre os alimentos, mas prioriza seus efeitos dentro da fisiologia humana entendida pelos chineses.
Na China, a dietoterapia é o grande braço da fitoterapia. Os chineses
não separam profundamente essas duas categorias por dois motivos. O primeiro é que esses conceitos estão enraizados na cultura chinesa e muitos alimentos de caráter medicinal são utilizados diariamente na culinária, como a raiz de angélica (Angelica sinensis) e o ginseng (Panax ginseng). Os chineses não escolhem a dietoterapia simplesmente por ser saudável, mas porque esse pensamento já acompanha seus hábitos alimentares. Por viverem em uma cultura que valoriza a natureza, eles crescem sabendo e respeitando o poder das ervas na nutrição. Atualmente, com o aumento das pesquisas sobre a alimentação no Oriente, esse hábito vem crescendo em todo o mundo.
As tradicionais farmácias chinesas manipulam fórmulas magistrais, que
são consumidas na forma de chás, a partir de uma receita entregue pelo profissional de Medicina Tradicional Chinesa no ato da consulta. Muitas dessas fórmulas têm gosto e aparência horríveis para os ocidentais, porém os chineses as consomem sem pestanejar quando há necessidade. Nos grandes centros do Oriente, os modelos de farmácia ocidentais estão crescendo por conta da globalização, o que não era comum poucos anos atrás.
O segundo motivo para os chineses não separarem a dietoterapia da
fitoterapia e praticarem-na de modo natural encontra-se no entendimento da fisiologia energética. Qualquer chinês sabe o significado do qi, do yin e do yang, e o hábito de consumir alimentos em caráter terapêutico é natural e não sofre preconceitos ou grandes exigências. Desse modo, é fácil entender por que o gengibre, que tem natureza morna (yang), é usado em diversos pratos. Ele é utilizado na culinária para combater e dispersar o frio, principalmente em regiões montanhosas.
A prática da dietoterapia é diferente da fitoterapia chinesa. As ervas e
fórmulas magistrais têm ação específica e direcionada à patologia do que os alimentos, por isso são indicadas para tratamento, enquanto os alimentos são utilizados para nutrição e promoção de saúde. Em muitas situações, a dietoterapia chinesa pode ser utilizada como recurso terapêutico no qual os alimentos e as bebidas têm ação específica e de tratamento, porém, em sua amplitude, os alimentos são sugeridos integralmente para corrigir deficiências que, muitas vezes, desencadeiam as doenças. Quando a doença está muito avançada, é necessário acrescentar a fitoterapia e a acupuntura.
Na prática, é evidente que os alimentos sozinhos não tratam miomas,
osteoporose ou psoríase, mas alguns podem agravar essas condições e outros podem agir de maneira positiva, estimulando as funções de órgãos internos prejudicados pelas doenças. Nesse sentido, a dietoterapia chinesa, mais do que uma proposta milenar, é um conhecimento absolutamente útil ao mundo moderno, por ensinar sobre a natureza dos alimentos. O ato de escolher um alimento aliado na saúde ou na doença é de grande importância, uma vez que a saúde nos centros urbanos está ameaçada pelo estresse e pela falta de tempo, seja para se cuidar ou para cozinhar.
Milênios atrás não havia o conhecimento de carboidratos, proteínas ou
vitaminas, e o alimento era escolhido e selecionado conforme sua ação dentro do organismo. Os alimentos refrescantes eram muito utilizados no verão, os salgados eram cotados quando o clima estava frio e aqueles de ação descendente eram escolhidos para limpeza e desintoxicação do organismo. Tudo isso era feito por um único motivo: a busca pela sobrevivência. Para sobreviver no planeta, os chineses sabiam que era preciso viver em harmonia, e eles aprenderam isso observando a natureza.
Em tempos modernos, esse pensamento parece retrógrado. Afinal, a
ciência revelou inúmeras informações sobre os alimentos e a fisiologia humana. No entanto, nem sempre o conhecimento sobre os nutrientes é suficiente e acessível, de imediato, para todas as pessoas. O processo de escolha dos alimentos pode ser mais prático ao se conhecer e observar a natureza intrínseca dos alimentos e a fisiologia corporal de maneira simples.
Com a publicação de meu primeiro livro, passei a ministrar mais
palestras sobre o assunto e foi fácil perceber o quanto a população desconhece a ação dos alimentos dentro do organismo, o que é muito preocupante, uma vez que nos alimentamos todos os dias. Afinal, estamos comendo somente para sobreviver ou para viver melhor? Será que estamos comendo de maneira adequada? Será que as doenças são ocasionadas sempre por um fator extrínseco?
Infelizmente as pessoas não são instruídas desde a infância para saber o
que e por que estão comendo. A maior parte da população não sabe o que os intestinos fazem ou a importância das funções do fígado ou dos rins, por exemplo. Da mesma maneira, também não se aprende a observar o corpo com consciência.
Antes de aprender sobre o corpo ou a função energética dos alimentos, é
preciso trabalhar a consciência, que, segundo Pitchford (1993), deve ser a base da pirâmide alimentar. A consciência do ser humano está atribuída ao espírito de cada um, e os chineses a chamam de shén (ver Passo 1 – Alimente-se). Ela provê ao indivíduo a capacidade de saber quem é, o que faz e a importância de suas escolhas, além de armazenar a sabedoria. É preciso entender que a sabedoria é diferente do intelecto, que abriga a razão e é dirigido pelo cérebro. A consciência não tem lugar específico, pois é uma atribuição do espírito e, portanto, é energética e não mensurável.
É interessante pensar que a consciência, por ser de natureza energética,
é alimentada por experiências, vivências, pensamentos, sentimentos e intuições, elementos que não se pode palpar; ela simplesmente é percebida. A consciência é onde dorme a sabedoria inata do indivíduo. Quando ela está desperta, o indivíduo faz boas escolhas e age de maneira íntegra e, sobretudo, natural. Com consciência, o indivíduo entende a natureza e se harmoniza com ela.
Na prática, ganhar consciência fortalece e auxilia o indivíduo em todos
os segmentos da vida. No caminho da nutrição, a consciência é uma via de mão dupla. Por um lado, ela auxilia o indivíduo a elaborar um bom cardápio e proporciona a percepção para que ele possa observar o que e como está ingerindo e digerindo; por outro, a própria percepção pode proporcionar autoconhecimento para que o indivíduo identifique o que lhe faz verdadeiramente bem e feliz.
Quantas vezes você comeu algo que lhe disseram ser bom para a saúde,
mas não foi bom para você? Quantas vezes você comeu menos para evitar o ganho de peso e rapidamente sentiu fome? Essas são situações que exigem consciência. Desse modo, quanto mais o indivíduo conhecer a si mesmo, mais poderá entender como seu organismo funciona e buscar as respostas para satisfazer sua própria necessidade, que, muitas vezes, não é somente de comida.
Com o avanço da tecnologia, o campo da saúde ganhou muitas formas
de tratamento. Entretanto, esse avanço também fez com que o homem olhasse mais para as opções de tratamento do que para a utilização dos recursos internos de que dispõe. Com isso, ensinou-se que os alimentos são para “matar a fome”, e os tratamentos, para “ganhar saúde”. Inverteu-se o processo nos conceitos de saúde e doença, e todo o sistema de cura inato ao ser humano foi dispensado.
Como afirma o Dr. Andrew Weil, especialista em Medicina Integrativa
nos EUA, não é possível subestimar a capacidade do ser humano de curar a si mesmo, pois o “tratamento vem de fora, mas a cura vem de dentro”. É preciso, portanto, que seu sistema inato de cura seja fortalecido com princípios proporcionais à sua natureza. A alimentação, os exercícios físicos, o sono, a prática espiritual e os bons relacionamentos são pilares para a promoção de saúde, mas eles não funcionam se não houver autoconhecimento e autocuidado, o que exige consciência. Portanto, para entender os sinais, os sintomas, a fisiologia e a nutrição energética, adentremos as bases da Medicina Tradicional Chinesa.
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