Saúde e Longevidade na Mesa: Dez Passos para a Escolha Diária dos Alimentos com a Dietoterapia Chinesa
Passo 1 | Alimente-se
Introdução
Antes de abordar os fundamentos da Medicina Tradicional Chinesa, é importante ressaltar que ela é um sistema integrado de saúde, formado por cinco categorias:
• Dietoterapia: tratamento com alimentos e bebidas • Fitoterapia: tratamento com plantas medicinais e fórmulas magistrais
• Acupuntura: tratamento nos canais de energia e microssistemas,
empregando o uso de agulhas, moxabustão, ventosa, sementes, entre outros
• Tui na: tratamento com massagem corporal, no qual se integra também
a reflexologia
• Exercícios físico-energéticos: geralmente o qi gong, mas nesta categoria
também estão o tai ji quan e o lian gong.
Medicina Tradicional Chinesa A Medicina Tradicional Chinesa surgiu há mais de dois mil anos e é o resultado de uma proposta de saúde elaborada ao longo de várias dinastias na China Imperial. Ela recebeu grande influência do Taoísmo e do Confucionismo e, como fruto desses princípios filosóficos, entende o ser humano como corpo, mente e espírito.
Na concepção taoísta, “o espírito é comum a todos os seres” e o corpo é
constituído por energia, qi, conforme declara Cherng (2010):
Quando essa energia está em plenitude, a pessoa se sente com mais disposição física e psíquica. A carência de energia pode tornar a pessoa menos concentrada, letárgica.
Nesse sentido, é importante manter a energia e a consciência para
preservar a vida. Trata-se de um processo dinâmico, que envolve corpo, mente e espírito. Para entender a dinâmica da dietoterapia, é necessário esclarecer os conceitos que permeiam o pensamento da Medicina Tradicional Chinesa. Quando um alimento é consumido e transformado dentro do organismo, ele se torna uma substância fundamental, necessária para manter a vida. As substâncias fundamentais são formadas a partir da alimentação e compreendem: qi, yin, yang, xue, jin ye, shén e jing.
Qi
A tradução que melhor se aplica à definição de qi no Ocidente é a palavra energia, que promove o movimento e sustenta a vida. Quando alguém está cansado, é comum ouvir que aquele indivíduo está “sem energia”. Essa pessoa, portanto, está com o qi em baixa, o que, na Medicina Tradicional Chinesa, é definido como deficiência de qi.
A deficiência de qi é o primeiro nível de fraqueza que o ser humano
pode sentir, e é principalmente por meio da alimentação que ele é formado. Assim, é comum ver como a pessoa se sente mais disposta quando se alimenta bem.
O ideograma qi é representado por dois caracteres associados. A base da
figura representa um grão de arroz cozido e o topo da figura representa o vapor. Enquanto o arroz cozido denota algo material e substancial, o vapor denota algo imaterial e etéreo. A junção dessas imagens carrega a mensagem de algo simultaneamente material e imaterial e que está em constante movimento. Por isso, o qi é tanto o grão de arroz quanto o vapor e está em tudo no universo, ou seja, em tudo o que existe nos níveis físico e energético. Para os chineses, o conceito do qi é como as duas faces de uma mesma moeda: quando o qi se torna material e constitui algo sólido ou substancial, ele ganha características yin; quando age no nível energético, imaterial e etéreo, ganha características yang.
No corpo humano, o qi está em toda parte – ele impulsiona o sangue
dentro dos vasos, permeia os canais e promove o funcionamento adequado dos órgãos internos (zang fu). O qi oriundo dos alimentos é importante para o funcionamento do organismo e a manutenção da vida, pois constitui o que os chineses chamam de gu qi, o qi pós-natal.
Etapas da formação do qi
Quando o indivíduo come, o alimento é mastigado e triturado e, então, segue pelo trato digestivo, chegando ao estômago (wei), onde é maturado com o auxílio da energia do baço (pi) e do fígado (gan), que contribuem para a harmonia da digestão. A essência energética transformada nesse instante (gu qi) sobe para o tórax e se associa ao oxigênio oriundo da respiração para formar o qi torácico (zong qi) e o qi verdadeiro (zheng qi), o qual recebe este nome em razão de suas verdadeiras forças e qualidades: a defesa e a nutrição.
Em seguida, ainda no tórax, os pulmões difundem zheng qi para todo o
organismo de duas maneiras: uma parte dessa energia protege a pele, circula pela superfície física e recebe o nome de qi defensivo (wei qi); a outra parte adentra o organismo, é mais densa e é, de fato, a essência dos nutrientes alimentares e do qi, recebendo o nome de yin qi, o qi nutritivo. Este é a base
para a formação do sangue, o qual recebe o nome de xue (Figura 1.1).
No processo digestivo, a essência energética que pouco serve ao
organismo desce para o intestino delgado, onde ainda pode ser aproveitada, e o restante dos alimentos maturados segue posteriormente para o intestino grosso e o reto, a fim de ser eliminado como fezes.
Figura 1.1 Formação do qi.
Em termos nutricionais, é possível dizer que o entendimento do qi é
equivalente ao dos fitonutrientes, enzimas e minerais presentes nos alimentos.
Yin e yang
O qi apresenta duas características distintas: é funcional e energético, pois tem características yang, mas também é substancial e material, pois tem características yin. Portanto, o qi pode se apresentar com a natureza yang, de caráter energético e sutil, como o cheiro ou o calor, e, em outros momentos, pode se apresentar com características mais densas e materiais, de natureza yin, como o suor ou o sangue.
De maneira prática, yang é a energia, enquanto yin é a “massa” formada
pela energia. Enquanto yang corresponde à função, yin corresponde à estrutura de todas as coisas. Assim, yin e yang são complementares em sua
natureza (Figura 1.2).
O yin é o lado escuro do círculo, e o yang é o lado claro. Juntos eles
formam a figura do tai ji, que é o símbolo do Taoísmo e a melhor representação da dinâmica da vida: o nascimento e a morte, o dia e a noite, o frio e o calor, e todas as transformações. Yin e yang associados representam a unidade de todas as coisas, por isso o Taoísmo salienta que “a união das coisas está na sua essência, e não nos seus fragmentos” (Cherng, 2010). Assim, a Medicina Tradicional Chinesa se caracteriza como uma proposta holística, que enxerga o ser humano por inteiro e em sua essência.
Figura 1.2 Tai ji.
Portanto, enquanto yang representa função, ação, calor e agitação, yin é
estrutura, solidez, recepção, frio e calmaria. Assim, é fácil entender por que alimentos quentes (yang) são indicados para pessoas friorentas, pois aquecem e estimulam as funções, ao passo que alimentos frios não lhes fazem bem.
Essas indicações são mais complexas e serão explicadas no decorrer
deste livro, mas é a partir da dinâmica do yin e do yang que se entende a diferença constitucional dos indivíduos. Cada pessoa, em sua essência, tem uma natureza que pende para o yin ou para o yang, conforme sua fisiologia, seus hábitos, seu estilo de vida e sua hereditariedade.
Yin e yang também correspondem a todos os processos fisiológicos. Na
Medicina Tradicional Chinesa, diz-se que um indivíduo pode apresentar deficiência de yin ou de yang.
Em seu estágio máximo, yin se transforma em yang, e o contrário
também é verdadeiro, yang se consolida e se transforma em yin. Na prática, por exemplo, observa-se que doenças agudas (com duração de 1 semana) têm natureza yang, são passageiras e de fácil tratamento, mas podem se tornar crônicas se não forem devidamente tratadas; enquanto doenças crônicas, com maior duração, também podem melhorar, surgindo somente crises, com menor frequência e tornando-se passageiras (portanto, yang).
Da mesma maneira, as doenças de caráter yang são aquelas que estão na
superfície, ao nível da pele e dos músculos, como o resfriado, e, quando agravadas, como nos quadros de pneumonia, atingem a profundidade, acometendo funções internas, em especial a dos pulmões. Ao se aprofundar, a doença demonstra prognóstico ruim.
Xue
Para os chineses, xue é a consolidação da energia nutritiva dentro do organismo, com característica densa e material. Constitui o que se pode chamar de sangue e circula dentro dos vasos sanguíneos (xue mai).
O sangue (xue) é formado a partir dos alimentos transformados no
processo digestivo, para que o organismo possa estar nutrido e hidratado. Quando a produção de sangue (xue) é falha ou deficiente, o corpo não dá sinais somente de cansaço, mas também de desnutrição. Isso acomete a pele, os cabelos, os olhos, as unhas, a mente e todas as estruturas, como os ossos e as articulações. A deficiência de sangue (xue) pode preceder a deficiência de yin.
Jin ye
A tradução que mais se assemelha ao entendimento de jin ye é “fluidos corporais”. Segundo Clavey (2000):
jin ye é um termo genérico para todos os fluidos fisiológicos normais do organismo, (...) tais como lágrimas, saliva, suor (...), e também os fluidos que agem para umedecer os vários tecidos dentro do organismo, como pele, tendões e ossos.
Os fluidos corporais, oriundos de alimentos e bebidas, podem ser
densos ou leves. A essência leve é denominada jin, de característica yang, e, durante o processo digestivo, ela sobe para os pulmões (fei), que dispersam os fluidos através dos canais de energia para nutrir a pele. A essência densa é denominada ye e tem a função de “nutrir os órgãos internos, os ossos, o cérebro e os orifícios” (Ross, 2003). É importante ter jin ye para hidratação e lubrificação do organismo, porém os líquidos corporais excessivos devem ser eliminados pela urina ou pela transpiração. Trata-se de um processo que se repete constantemente.
Shén
A palavra shén, em chinês, tem diversos significados. Segundo os taoístas, pode ser Deus, espírito universal (Cherng, 2010) ou a divindade que existe em todos os seres humanos. No sentido aqui utilizado, shén é entendido como substância que constitui parte da consciência do indivíduo.
Didaticamente, consideramos que a consciência que está em uma pessoa pode estar no nível e na realidade da Consciência Universal; a esta consciência nós chamamos de espírito, é o próprio shén que está em nós. A consciência pode estar também ao nível da personalidade, que se manifesta e vive com características próprias.
Assim, a consciência, a mente e as funções psíquicas e cognitivas, de
pensamento, comunicação e sensibilidade, também constituem o shén, uma substância de natureza yang e, portanto, imensurável.
Jing
Conforme mencionado anteriormente, o qi tem distintas nomenclaturas, que variam conforme suas funções. O jing também é uma forma de qi, traduzida como essência herdada, essência pré-natal ou qi pré-natal.
O jing, ou qi pré-natal, é a energia concedida ao indivíduo antes de seu
nascimento, ao nível embrionário, que surge a partir do espermatozoide do pai e do óvulo da mãe. “Essa energia nutre o embrião e o feto durante a gravidez e depende da nutrição derivada do rim da mãe” (Maciocia, 1996). O jing, portanto, é a substância fundamental para o desenvolvimento, o crescimento e a reprodução dos indivíduos e está alojado nos rins. Todos os dias, parte do jing é perdida, por conta dos processos fisiológicos. À porção do jing utilizada nesses processos dá-se o nome de yuan qi.
Assim, cada indivíduo recebe uma quantidade de energia para crescer e
viver, da origem até a morte. Enquanto o qi pré-natal (jing) é a energia primordial para o surgimento da vida, o qi pós-natal (gu qi) é a energia
fundamental para a manutenção da vida (Tabela 1.1). Por isso, é importante se alimentar bem, para promover o qi (pósnatal) dentro do organismo e evitar o consumo excessivo de qi pré-natal (jing).
O qi pré-natal (jing) é a base da sustentação do corpo e da mente (shén).
Para os chineses, a mente está presente no corpo humano e as funções energéticas dos órgãos internos (zang) a sustentam. A mente (shén), como substância fundamental, é formada, portanto, pelo qi pré-natal e pelo qi pós-natal.
Na concepção chinesa, o qi pré-natal (jing) também é matéria-prima
para a formação da medula (sui), do cérebro (nao) e do sangue (xue). Ele também é gasto em todos os momentos da vida: na digestão, na menstruação, na formação de sangue, nas atividades mentais, na ejaculação e em muitas outras atividades. Uma vez que o qi précelestial (jing) é a herança energética que os indivíduos recebem dos pais, é importante poupá-lo, adquirindo bons hábitos para manter a saúde. A perda excessiva do jing resulta em envelhecimento precoce.
A saúde do indivíduo também é refletida na qualidade das substâncias
fundamentais. O qi pré-natal, por exemplo, é responsável por impulsionar a vida e o desenvolvimento do feto. Nos homens, o jing está alojado entre os rins e, nas mulheres, no útero, para possibilitar a gestação. Se a gestante não tiver boa saúde ou entrar na gestação pouco depois dos 35 anos, ela naturalmente poderá comprometer a saúde do bebê, uma vez que o qi pré-natal já foi bastante perdido até esse momento da vida. Nesse sentido, é essencial que a gestante se alimente muito bem e preserve sua saúde, para poder dar condições físicas e energéticas saudáveis ao seu filho durante a gestação.
Todas as atividades realizadas pelos seres humanos dependem do
organismo, o qual, por sua vez, depende das substâncias fundamentais. Assim, quando o corpo precisa de energia para realizar uma atividade, ele necessita de um alimento, da mesma forma como uma planta precisa de água e adubo para crescer. Quando uma pessoa não se alimenta corretamente, seu corpo gasta muito mais o qi pré-natal (jing) para que a vida seja mantida. Esse gasto excessivo de jing pode diminuir, inclusive, a expectativa de vida, pois o jing é como um reservatório de energia. Caso ele acabe, o indivíduo não terá energia para viver. Por isso, ele precisa ser duradouro, pois é gasto diariamente e não pode ser reposto. Se a demanda for excessiva e sem necessidade, o resultado é a perda da própria longevidade.
Tabela 1.1 Características do qi pré-natal e do qi pós-natal.
Qi pré-natal Qi pós-natal
É herdado dos pais Tem origem na alimentação e na
respiração
Não é reposto É reposto diariamente
Atua como matéria-prima para o Dá suporte às estruturas anatômicas e à
crescimento, a reprodução e a formação siologia corporal
do cérebro e da medula óssea
Dá suporte primário ao corpo físico e à Mantém a vitalidade dos órgãos vitais
mente (shén) (zang fu) e da mente (shén)
Por isso, a saúde, na visão dos chineses, depende do qi pré-natal,
oriundo da saúde dos pais, da alimentação e da respiração, que vão formar o qi pós-natal. Nesse sentido, é importante se alimentar para produzir substâncias fundamentais, pois elas mobilizarão os órgãos internos e fortalecerão a estrutura e o organismo para manter a vida. O equilíbrio entre a formação de qi produzido pela alimentação e seu gasto adequado contribui para o bem-estar físico e mental do indivíduo.
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