Sinalização purinérgica: implicações fisiopatológicas

Andréia Machado Cardoso, Leandro Henrique Manfredi e Sarah Franco Vieira de Oliveira Maciel (orgs.) · Capítulo 12 de 24

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Sinalização purinérgica: implicações fisiopatológicas

Regulação purinérgica do sistema hematopoético

Regulação purinérgica do

 

sistema hematopoético

 

Kamylla Fernanda Souza de Souza, Luciana Rocha Costa, Edgar J. Paredes-Gamero, Jeandre Augusto dos Santos Jaques

 

Introdução

 

A regulação da quiescência, autorenovação, proliferação, diferenciação, e morte da célula-tronco hematopoética (CTH) é o âmago deste sistema. Este processo, conhecido como hematopoese, é regulado por diversos sinalizadores humorais, principalmente por moléculas conhecidas como citocinas. Entretanto, ademais das citocinas, outros sinalizadores, como o ATP, também são relevantes neste processo. O ATP é um sinalizador importante em diversos sistemas, mas intriga a forma de regulação do sistema hematopoético, porque os receptores de ATP – P2 são expressos desde as células mais primitivas hematopoéticas, até os diferentes tipos de células maduras deste sistema. Além dos receptores P2, enzimas que degradam o ATP em metabólitos como ADP e adenosina fazem parte desta regulação formando um complexo esquema de regulação

purinérgica (Figura 1).

Figura 1: Componentes do sistema purinérgico no

microambiente hematopoético

 

Fonte: autores (2019).

* Diferentes sinalizadores autócrinos e parácrinos modulam a

regulação das CTH. Além dos mecanismos líticos de liberação do ATP, o endotélio dos vasos sanguíneos e os osteoblastos secretam ATP, entre outros sinalizadores. O ATP regula a CTH normal e leucêmica por ativação de receptores P2 que podem ser do tipo ionotrópicos (P2X) e metabotrópicos (P2Y). Entre as principais funções da ativação de receptores pode-se citar a diferenciação e a migração de CTH, bem como a indução de proliferação ou morte celular de células leucêmicas. O ATP pode ser degradado por ectonuclotidases, como a CD39 e a CD73, gerando ADP, AMP, ADO e INO, que ativam outros receptores, como os receptores P1. Todos os processos que envolvem desde

a liberação do ATP, sua degradação e a ativação de diferentes

receptores P2 e P1 mostram a presença de uma complexa

regulação purinérgica da CTH normal e leucêmica.

Embora o papel mais marcante e investigado dos receptores P2 seja em processos de regulação do sistema imune, recentes trabalhos vêm mostrando o papel fundamental da regulação purinérgica no desenvolvimento hematopoético e as consequências biológicas das alterações na expressão e função dos receptores e enzimas que regulam o sistema purinérgico. Neste capítulo, descreveremos as funções conhecidas dos receptores P2 e das enzimas CD39 e CD73 no desenvolvimento normal da hematopoese, e as alterações observadas em cânceres hematológicos.

 

Função dos receptores P2 na hematopoese

 

Entre as primeiras descrições de participação dos receptores purinérgicos em células do sistema hematopoético, pode-se destacar o trabalho de Cockcroft & Gomperts (1980) em mastócitos. Neste estudo, observou-se que o ATP produz a liberação de histamina e secreção de metabólitos (Cockcroft e Gomperts, 1980). Um receptor em particular foi descrito em macrófagos, na linhagem murina J774, chamado inicialmente de receptor P2Z(Steinberg e Silverstein, 1987) e atual receptor P2X7 (Surprenant et al., 1996). A ativação do receptor P2X7 leva à abertura de um canal iônico e à formação de um poro capaz de permitir a passagem de moléculas de até 900 Da (Steinberg e Silverstein, 1987; Surprenant et al., 1996). Posteriormente, o receptor P2X7 foi descrito em monócitos e macrófagos de diversas origens (Naumov et al., 1992; Hickman et al., 1994; Nuttle e Dubyak, 1994; Paredes-Gamero et al., 2004). Porém, não é o único receptor expresso em macrófagos; pelo contrário, é comum que células primárias expressem mais de um receptor P2.

Além dos monócitos/macrófagos, outras células mieloides expressam os receptores P2 como eosinófilos (Idzko et al., 2001; Mohanty et al., 2001; Muller et al., 2010; Wright et al., 2016), granulócitos (Cockcroft e Stutchfield, 1989; Balazovich e Boxer, 1990; Suh et al., 2001; Paredes-Gamero et al., 2007), eritrócitos e eritroblastos (Hoffman et al., 2004; Sluyter et al., 2004; Paredes-Gamero et al., 2006), plaquetas (Hall e Hourani, 1994; Turner et al., 2001), além dos diferentes tipos de linfócitos. Embora este tema tenha sido abordado em revisões anteriores (Di Virgilio et al., 2001; Burnstock, 2015), uma completa caracterização molecular e farmacológica dos receptores P2 nos diferentes tipos de células hematopoéticas ainda é necessária.

Apesar de ser conhecido que as células hematopoéticas expressam receptores P2, seu envolvimento com a hematopoese ainda não foi totalmente elucidado. Até o momento, a presença destes receptores, mesmo nas células mais indiferenciadas, e a variação da expressão com a diferenciação, indica uma provável participação na hematopoese. As células endoteliais e os osteoblastos, que podem liberar ATP (Orriss et al., 2009; Alvarenga et al., 2010; Lim To et al., 2015), são células presentes nos diferentes nichos medulares nos quais a CTH habita, podendo regular a atividade da CTH por liberação do ATP e outras moléculas sinalizadoras (Nogueira-Pedro et al., 2014).

Mostrou-se que o ATP atuou sinergicamente com citocinas, aumentando o número de células hematopoéticas primitivas humanas CD34+ em culturas de metilcelulose (Lemoli et al., 2004). Essas células primitivas humanas CD34+ expressaram vários receptores P2: P2Y1, P2Y2, P2Y12, P2X1-7 (Lemoli 2004, Wang et al. 2004). Ademais, o estímulo com UTP aumenta a migração das CTH, inibe a down-regulation do receptor de quimiocinas CXC do tipo 4 (CXCR4) e aumenta a adesão à fibronectina de células CD34+ humanas in vitro (Rossi et al., 2007). Em experimentos in vivo, utilizando animais imunodeficientes, mostrou-se que o estímulo das células CD34+ humanas com UTP aumentou a eficiência do homing (ROSSI et al., 2007). A modulação direta da diferenciação de células primitivas hematopoéticas pelo ATP também foi reportada. O ATP e seus análogos, diferente das citocinas, produziram grandes aumentos da

concentração de cálcio citoplasmático ([Ca2+] ) levando à cit diferenciação mieloide das células primitivas hematopoéticas em culturas de medula óssea (Paredes-Gamero et al., 2008). Posteriormente, um estudo mostrou que a diferenciação promovida pelo ATP afetou principalmente as populações de CTH e progenitor mieloide comum de granulócitos/monócitos (Barbosa et al., 2011). Também foi descrito que o ATP reduziu o número de células primitivas hematopoéticas aumentando a população mieloide Gr-1+ + Mac-1, diminuiu a expressão do receptor Notch-1 e reduziu a quiescência e a capacidade de enxerto da CTH (Barbosa et al., 2011). Outro aspecto interessante que se observou foi que o aumento da [Ca2+] pelo ATP

cit

reduziu-se na presença de citocinas, como interleucina-3 e stem cell factor nas CTH, e que estas citocinas inibiram a diferenciação das CTH induzida pelo ATP (Barbosa et al., 2011).

Um receptor P2 descrito na modulação hematopoética é o receptor P2Y14. Em condições normais, a ausência do receptor em animais nocautes P2Y14-/-não afetou a biologia das células do sistema hematopoético. Porém, em situações de estresse – radiação, envelhecimento, quimioterapia e transplante –, o padrão de senescência e morte celular das CTH foram modificados, observando-se aumento de espécies reativas de oxigênio, expressão elevada de p16INK4a, além de hipofosforilação da Proteína de Retinoblastoma (Cho et al., 2014).

A participação do receptor P2X7 na hematopoese também foi destacada. A quantificação do receptor P2X7 mostrou baixa expressão em CTHs murinas; entretanto, a superexpressão deste receptor nessa população, por transfecção viral, reduziu o potencial de enxerto, em ensaio in vivo, elevou a diminuição da capacidade de formação de colônias, afetando, principalmente, as colônias mais primitivas em ensaios in vitro, principalmente da unidade formadora de colônias de granulócitos-eritrócitos-macrófagos-megacariócitos (Feng et al., 2016). A mobilização das CTH é importante em processos de resposta imune por dano às células dos tecidos ou em resposta a fármacos mobilizadores de CTH, como o fator estimulador de colônias de granulócitos, uma citocina fisiológica. A mobilização das CTH foi afetada pela liberação de ATP, via panexina-1, e a formação do seu metabólito adenosina, sendo que animais nocautes P2X7-/-apresentaram baixa mobilização (Adamiak et al., 2018).

 

Receptores purinérgicos e leucemia

 

O papel dos receptores purinérgicos na leucemia vem sendo estudado com o objetivo de detectar possíveis alterações que possam ser usadas em diagnósticos, prognósticos e tratamentos. Esses receptores são expressos em linhagens estabelecidas e células primárias leucêmicas, sendo que são encontrados diferentes subtipos ativados por nucleotídeos, dificultando o estudo farmacológico dos mecanismos de ação e do efeito final.

Estudos iniciais mostraram a presença dos receptores P2 em linhagens leucêmicas, como a HL-60 (leucemia promielocítica aguda) e CB1 (leucemia linfoblástica aguda) (Biffen e Alexander, 1994; Montero et al., 1995). A variação da expressão e da resposta funcional de receptores P2 durante a diferenciação mieloide, em células leucêmicas, foi relatada, em especial, usando a linhagem HL-60 (Montero et al., 1995; Adrian et al., 2000; Communi et al., 2000).

A expressão e função do receptor P2X7 são mais avaliadas por suas características únicas e as ferramentas farmacológicas que ele possui. A ativação do receptor P2X7 foi inicialmente correlacionada com a morte celular por sua capacidade de formar poros na membrana (Steinberg; Silverstein, 1987; Surprenant et al., 1996; Zoetewij et al., 1996; schulze-Lohoff et al., 1998), porém também foi relacionado com a proliferação celular (Yu et al., 2010). Em leucemias, a participação do receptor P2X7 na proliferação e morte celular por apoptose, necrose ou piroptose foi descrita. Em estudos iniciais, constatou-se que o receptor P2X7 foi altamente expresso nas linhagens U-937 (linfoma histocítico) e KG-1 (leucemia mieloide aguda). Nas linhagens HL-60 e J6-1 (leucemia mieloide), o receptor P2X7 teve expressão moderada, enquanto que, nas linhagens K562 (leucemia mieloide crônica) e linhagens de linfoma de Burkitt (Raji e Ramos), a expressão não foi detectada (Zhang et al., 2004). Outro estudo também relatou a expressão funcional do receptor P2X7 em células KG-1 (Gadeock et al., 2012). Na linhagem celular de eritroleucemia murina, o receptor P2X7 foi responsável por induzir morte celular e liberação de micropartículas (Constantinescu et al., 2010).

Em leucemias mieloides, alguns estudos identificaram alterações na expressão gênica de receptores P2. Em células extraídas de pacientes com leucemia mieloide aguda (LMA), os receptores P2X1, P2X4, P2X5 e P2X7 são mais expressos em relação às células normais, enquanto que P2X2, P2X3 e P2X6 não são detectados (Zhang et al., 2004). Dentre os receptores regulados positivamente em casos de LMA, destaca-se o receptor P2X7. A alta expressão do receptor P2X7 foi relacionada com recidiva em leucemias agudas em crianças, enquanto que a diminuição da expressão do receptor foi observada após o tratamento quimioterápico (Chong et al., 2010). Os efeitos antiproliferativos observados em células blásticas e em células-tronco leucêmicas de pacientes LMA, após estímulo com ATP, sem que o mesmo efeito seja observado em células normais, geram expectativas para terapias inovadoras (Salvestrini et al., 2012; Salvestrini et al., 2017).

A leucemia linfocítica crônica de células B (B-LLC) é a leucemia com maior frequência entre os adultos no mundo ocidental. Causada pela expansão clonal de linfócitos B, caracteriza-se pela perda da capacidade apoptótica dos linfócitos leucêmicos CD5+ que se acumulam na circulação. Os sinais clínicos divergem, pois a doença possui duas variantes – a indolente e a progressiva – e dois subtipos, sendo um com mutações somáticas na região variável de cadeia pesada da imunoglobulina e outro não mutado (Hamblin et al., 1999; Di Virgilio; Wiley, 2002). A expressão do receptor P2X7 foi correlacionada com a gravidade da doença em pacientes com B-LLC (Adinolfi et al., 2002). Em casos de pacientes que apresentavam a forma mais agressiva da doença, a expressão do receptor P2X7 foi maior, até mesmo em condições desfavoráveis, como baixa disponibilidade de fatores de crescimento (Adinolfi et al., 2002).

Dentre os numerosos polimorfismos de nucleotídeo único (SNPs) do receptor P2X7, o 1513A->C é muito estudado em relação ao câncer e se caracteriza pela substituição de adenina por citosina na posição 1513, que, em vez de gerar o aminoácido ácido glutâmico na cauda C-terminal do receptor P2X7, gera uma alanina. Alguns estudos investigaram a relação do polimorfismo 1513 A->C com a B-LLC. Inicialmente, foi proposto que a perda de função do receptor causada por essa mutação favoreceria efeitos antiapoptóticos e, consequentemente, aumentaria a patogênese (Wiley et al., 2002). Outro estudo mostrou que este polimorfismo estava correlacionado com a melhora nos resultados clínicos na B-LLC, aumentando a sobrevida dos pacientes (Thunberg et al., 2002). Nos anos seguintes, os estudos correlacionaram pacientes saudáveis e pacientes com B-LLC familiar e/ou esporádica, e a relação do polimorfismo 1513 A->C com essa doença foi invalidada em todos os aspectos estudados anteriormente: patogênese, progressão, diagnóstico e sobrevida (Starczynski et al., 2003; Zhang et al., 2003; Nückel et al., 2004; Sellick et al., 2004).

NTPDase (CD39) e ecto-5’-nucleotidase (CD73) na

regulação do sistema hematopoético normal e

leucêmico

 

O papel de ectonucleotidases – NTPDase (CD39) e ecto-5’-nucleotidase (CD73), por exemplo – na imunomodulação e nas interações célula-célula vem sendo estudado em diferentes condições clínicas relacionadas às alterações no sistema imunológico.

A atividade ectonucleotidase pode também estar associada com a regulação do estado indiferenciado das CTH. Além do efeito de diferenciação do ATP em CTH murinas, também foi observado que as CTH tinham uma maior expressão de CD39 e CD73 em relação a células hematopoéticas mais maduras, e a população de células primitivas c-Kit+ exibiu uma maior atividade ectonucleotidase do que as células totais da medula óssea ou células CD45-Ter119-(Barbosa et al., 2011). Um estudo mostrou que uma população de linfócitos T regulatórios são CD150high e estão localizados no nicho das CTH da medula óssea (Hirata et al., 2018). A redução de linfócitos regulatórios da medula óssea, obtida por deleção condicionada de CXCR4 nesta população, aumentou o número de CTH na medula óssea (Hirata et al., 2018). Animais com expressão condicionada de CD39 em linfócitos T regulatórios CD150high mostraram que a adenosina extracelular, gerada pela atividade da enzima CD39, protege as CTH do estresse oxidativo e mantém as CTH quiescentes (Hirata et al., 2018). O mesmo grupo mostrou também que esta população de linfócitos T regulatórios convencionais e CD150 high modulam a CTH via a atividade da enzima CD73 (Hirata et al., 2018). A deleção da enzima CD73 aumentou o número, a frequência de ciclo celular e as espécies reativas de oxigênio das CTH (Hirata et al., 2018). O uso de antioxidantes inibiu o aumento das CTH em animais nocautes para CD73, mantendo as células quiescentes (Hirata et al., 2018). Assim, a atividade das enzimas CD39 e CD73 impediu a diferenciação das células CTH pelo ATP, devido à produção de adenosina que manteria as células quiescentes.

Outras atividades relatadas das enzimas CD39 e CD73 são em doenças leucêmicas, por exemplo, na leucemia linfoide crônica (LLC) e na leucemia linfoblástica aguda (LLA) (Schetinger et al., 2007).

Linfócitos T reguladores de pacientes com LLC apresentaram marcadores, dentre eles, a CD39, associados a um aumento na atividade supressora nestas células (Biancotto et al., 2012). A expressão aumentada de CD39 foi identificada nos linfócitos T de sangue periférico de pacientes com LLC, sendo mais elevada nos estágios mais avançados da doença (Pulte et al., 2007; Abousamra et al., 2015).

A expressão aumentada de linfócitos T CD4+ CD39+ no sangue periférico de pacientes com LLC correlaciona-se também com casos em que há necessidade de intervenção terapêutica. No entanto, um aumento ainda maior de linfócitos CD4+ CD39+ foi observado na medula óssea desses pacientes, possivelmente devido à exposição dessas células ao ATP, colaborando para a formação de um ambiente imunosubversivo (Perry et al., 2012).

A LLC raramente apresenta trombose como uma de suas complicações, o que pode ser explicado pela presença de CD39 na superfície das células tumorais, nas quais apresenta atividade enzimática alta, promovendo inibição da agregação e recrutamento plaquetário por meio da hidrólise de ADP em AMP (Pulte et al., 2011).

A inibição de CD39 tem sido sugerida principalmente como alvo para uma nova terapia imune para LLC, visto que sua atividade enzimática inibe as respostas de linfócitos T e células natural killer (NK) devido à hidrólise de ATP em ADP, e suprime o sistema imunológico (Mosaad Zaki et al., 2018).

Há uma expressão aumentada de CD73 em casos de LLC em áreas correspondentes ao centro de proliferação e região perivascular ao tumor. Sua atividade enzimática, com consequente aumento da adenosina extracelular, propicia uma significativa regulação negativa de respostas quimiotáticas por quimiocinas CXC 12(CXCL12) via ativação de receptores A2A (SERRA et al., 2011). Já a expressão de CD73 em linfócitos T de sangue periférico se encontra diminuída em pacientes com LLC (Pulte et al., 2011). A expressão de CD73 em células de LLC está associada com a agressividade do tumor, evidenciando a importância de seu estudo também como potencial alvo terapêutico (Allard et al., 2016).

Inibir a formação de adenosina e sua sinalização pode ser uma forma de combater as condições locais favoráveis ao tumor. Combinando essa nova terapia com fármacos que atingem diretamente o tumor ou restauram as funções imunes, é possível desenvolver novas estratégias de tratamento para doenças como a LLC (Serra et al., 2016).

Com a realização do perfil transcriptômico em pacientes com LLC com trissomia do cromossomo 12 como a única anomalia citogenética, identificou-se um conjunto único de genes diferencialmente expressos, dos quais se destacaram os genes codificantes da CD73 (Abruzzo et al., 2018).

A expressão de CD73 nas células da medula óssea não influencia o prognóstico de crianças com LLA (Wieten et al., 2011). No entanto, a identificação de CD73 por citometria de fluxo pode ser utilizada como marcador de doença residual mínima em pacientes com LLA de células B. O marcador CD73 foi detectado nestes pacientes antes do tratamento, porém, somente após o início da quimioterapia, se observou uma expressão elevada (Wang et al., 2016).

Uma busca por novos marcadores para detecção de doença residual mínima apresentou CD73 superexpressa em 54,5% de amostras de medula óssea em pacientes com LLA recentemente diagnosticada na infância (Coustan-Smith et al., 2011). A expressão aumentada de CD73 foi detectada em 90,41% dos casos de LLA de células B, indicando que a adição deste marcador como indicador prognóstico pode contribuir na identificação de doença residual mínima (Jain et al., 2018).

CD73 foi o marcador para identificação de doença residual mínima mais estável em estudo com pacientes pediátricos com LLA precursora B, apresentando expressão estável ou elevada em 95% dos casos após 15 dias do início da terapia (Sedek et al., 2018; Tembhare et al., 2018).

Contudo, pacientes com LMA expressaram quantidades similares de CD73 quando comparados com indivíduos saudáveis, e suas células-tronco mesenquimais derivadas da medula óssea também expressaram marcadores de superfície celular e proteínas de adesão semelhantes ao controle (Huang et al., 2015).

Estudos com clones de linfócitos T leucêmicos resistentes a apoptose (A4) sugerem que o CD73 faz parte de um programa antiapoptótico complexo não específico. Essas células apresentaram expressão de CD73 em sua superfície e atividade enzimática significativa, inibindo a sinalização TRAIL (TNF-related apoptosis-inducing ligand) por meio de uma interação com o receptor de morte 5, colocalizado na membrana plasmática (Mikhailov et al., 2008).

Como consequência da expressão de ecto-enzimas como CD39 e CD73, altos níveis de adenosina extracelular são detectados especialmente na LLC. A adenosina extracelular possui influência na progressão da doença por meio da ativação de receptores A2A, dificultando a ação de células do sistema imune e aumentando a sobrevida das células leucêmicas. A modulação da resposta imune, angiogênese e liberação de citocinas no microambiante tumoral é influenciada pela ampla distribuição desses receptores de adenosina nas células tumorais (Cai et al., 2018).

Estudos clínicos multicêntricos em fase I já avaliam o uso de anticorpos anti-CD73 sozinhos ou em combinação em pacientes com tumores sólidos avançados. Sendo assim, a utilização clínica de terapia anti-CD73 representa um promissor instrumento que poderá ser integrado aos esquemas de quimio-radiação convencionais ou outras novas estratégias imunológicas (Antonioli et al., 2016).

 

Adenosina desaminas

 

Desde a década de 1970, a atividade da adenosina desaminase (E-ADA) vem sendo investigada em pacientes com leucemia. A atividade da E-ADA encontra-se diminuída em linfócitos de crianças com LLA (Zimmer et al., 1975) e em linfócitos B de pacientes com LLC (Tung et al., 1976). No entanto, observou-se atividade enzimática aumentada em linfoblastos de células T de pacientes com LLA (Smyth et al., 1978), em células leucêmicas de pacientes com LMA (Mejer; Nygaard, 1979), e no plasma de pacientes com LLA não tratada e em estágio de remissão (Morisaki et al., 1985).

No soro de pacientes com LLC foi estabelecida uma correlação entre a atividade aumentada da E-ADA e outros marcadores diagnósticos como beta-2-microglobulina, lactato desidrogenase, contagem de leucócitos e velocidade de hemossedimentação (Ghaderi et al., 2016). Já na LLA, a atividade da E-ADA em casos novos e pacientes com recidiva é significantemente maior do que em pacientes em estágio de remissão da doença e controles saudáveis, indicando que esta enzima também pode ser usada como biomarcador no diagnóstico e acompanhamento do tratamento dessa doença (Ebrahimi-Rad et al., 2018).

A inibição da E-ADA foi estudada primeiramente in vivo, apresentando importantes implicações na LLA e LLC, como promoção da lise dos linfoblastos e linfócitos T maduros (Mitchell et al., 1985). Diferentes inibidores da E-ADA também foram testados em cultura de células de leucemia monocítica.

A 2’-desoxicoformicina (pentostatina), que consiste em um análogo de purina utilizado como fármaco no tratamento anticâncer, principalmente em casos de leucemia de células pilosas, foi o primeiro a receber aprovação da Food and Drug Administration (FDA) nos Estados Unidos (Kane et al., 1992; Grever et al., 2003). O mecanismo de ação proposto inicialmente consiste na potente inibição da adenosina desaminase, que provoca um acúmulo de metabólitos que inibem a nucleotídeo redutase e, consequentemente, bloqueiam a síntese de DNA nessas células (Dillman, 2004). Posteriormente, foi sugerido que o acúmulo de adenosina e desoxiadenosina levam à formação desoxiadenosina trifosfato (dATP) nos linfócitos do plasma sanguíneo, que provoca acúmulo de quebras na fita de DNA, resultando na ativação de p53, liberação de citocromo c pela mitocôndria e, consequentemente, apoptose (Johnston, 2011).

Apesar de o tratamento com pentostatina combinada a outros fármacos, como a ciclofosfamida, ser eficaz no tratamento de LLC, esses efeitos são atribuídos à sua capacidade de induzir a apoptose e não às alterações nos níveis extracelulares de adenosina (Sauter et al., 2008). Além disso, essa terapia apresenta toxicidade tolerável em longo prazo e nenhum caso relacionado de complicação como LMA e síndrome mielodisplásica (Kay et al., 2018).

 

Considerações finais

 

A presença de receptores de receptores P1 e P2, mesmo nas células mais indiferenciadas, e a variação da expressão com a diferenciação sugerem a participação na hematopoese em diversos aspectos, dependendo do subtipo de receptor ativado. Os principais trabalhos nesta área mostraram que os receptores P2 modulam a capacidade de formar colônias das células progenitoras hematopoéticas e a diferenciação, migração, homing e capacidade de enxerto da CTH. Esses estudos vêm mostrando a presença de um complexo sistema de regulação com a participação das ectonucleotidases (CD39 e CD73), que mostra a interação dos receptores P2 com os receptores P1.

Todos esses estudos revelam um promissor potencial modulatório a partir do estudo da regulação purinérgica no sistema hematopoético. Potencial que se evidencia ao analisar as alterações da regulação purinérgica em leucemias, em que diversas funções dos receptores P2 e das ectonucleotidases mostraram-se alterados. Espera-se que o aprofundamento da regulação purinérgica neste sistema proporcione importantes ferramentas para uso clínico num futuro próximo.

 

Referências

 

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