Sinalização purinérgica: implicações fisiopatológicas
Sistema purinérgico e o HIV
Filomena Marafon, Cadieli Oliana Reichert, Celso Spada, Margarete Dulce Bagatini
Introdução
O vírus da imunodeficiência humana (HIV) ocasiona uma infecção com ativação crônica do sistema imunológico. Trata-se de um grave problema de saúde pública, uma vez que, atualmente, 36,9 milhões de pessoas no mundo vivem com esse vírus (Who, 2018). O HIV infecta células com receptor CD4, ocasionando morte celular, sendo que a infecção transcorre de forma lenta e progressiva até o desenvolvimento da síndrome da imunodeficiência adquirida (AIDS). A AIDS é uma doença caracterizada por imunossupressão profunda, ativação de infecções oportunistas, presença de tumores e degeneração tecidual (Barré-Sinoussi; Ross; Delfraissy, 2013; Deeks et al., 2015).
Em decorrência dos inúmeros impactos ocasionados pela infecção do HIV e da ausência de tratamento efetivo, torna-se relevante conhecer os mecanismos metabólicos e bioquímicos que podem estar associados a essa infecção, como a atuação de mecanismos sinalizadores frente ao vírus, entre os quais, a sinalização purinérgica.
O sistema de sinalização purinérgica é constituído pelos nucleotídeos ATP (trifosfato de adenosina), ADP (difosfato de adenosina) e AMP (monofosfato de adenosina), e nucleosídeo adenosina (ADO), receptores purinérgicos e ectoenzimas, os quais atuam na sinalização celular frente a situações de dano, injúria e distúrbios, representando uma importante via moduladora de inúmeros processos fisiológicos, entre os quais modulação da resposta inflamatória e imunológica, tendo atuação na infecção ocasionada pelo HIV (Burnstock, 2006).
Dessa forma, é fundamental determinar a ação do sistema purinérgico na fisiopatologia do HIV, verificando efeitos imunossupressores e imunoestimuladores, os quais podem influenciar a sequência de eventos ocasionados pelo vírus, e auxiliar na busca de possíveis terapêuticas complementares com o objetivo de melhorar a qualidade de vida dos indivíduos infectados.
Sistema imunológico e o HIV
Constituído por uma rede de órgãos, células e moléculas, o sistema imunológico visa à manutenção da homeostase do organismo, atuando como primeira linha de defesa frente ao dano tecidual e infecções. Falhas em seu desenvolvimento e funcionalidade são denominadas imunodeficiências, podendo ser congênitas/primárias ou adquiridas/secundárias, levando ao desenvolvimento de condições fisiopatológicas (Abbas; Lichtman, Andrew H. Pillai, 2008; Abbas; Lichtman, 2009).
Entre as imunodeficiências adquiridas, a de maior destaque é a infecção ocasionada pelo HIV, que compreende um retrovírus do gênero Lentivírus família Retroviredae, o qual apresenta partícula infecciosa de dupla fita de RNA no interior do núcleo proteico, circundado por um envelope lipídico proveniente da célula hospedeira infectada. Esse retrovírus caracteriza-se por apresentar longo período de latência, capacidade de evasão do sistema imunológico, tropismo pelas células com receptores de superfície do tipo CD4, e desenvolvimento de doença de progressão lenta (Barré-Sinoussi; Ross; Delfraissy, 2013; Maartens; Celum; Lewin, 2014; Deeks et al., 2015).
Os primeiros relatos de infecção ocasionada pelo HIV foram registrados pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, do inglês Center for disease control) nos anos de 1977-1978, em regiões do Haiti e África Central. Nos Estados Unidos da América (EUA), o primeiro relato ocorreu em 1981, em indivíduo com infecção fúngica ocasionada pelo Pneumocystis carinii e presença de Sarcoma de Kaposi. Em 1984, o vírus foi isolado pela equipe do pesquisador Luc Montagnier (CDC, 1981; Barré-Sinoussi F. et al., 1983).
No Brasil, o primeiro caso da infecção foi confirmado na cidade de São Paulo, em 1982; subsequentemente, casos foram registrados em populações de maior exposição ao risco. Atualmente, cerca de 37 milhões de pessoas em todo o mundo vivem com o vírus. No Brasil, em 2017, foram diagnosticados 42.420 novos casos de HIV e 37.791 casos de AIDS. Dados epidemiológicos indicam que, entre os anos de 1980 e 2018, foram registrados 982.129 casos de AIDS no país (Brasil, 2018; UNAIDS, 2018; WHO, 2018).
A infecção pelo HIV ocasiona depleção e morte celular devido ao efeito citopático do vírus e destruição da arquitetura dos órgãos linfoides. O HIV acomete principalmente os linfócitos T CD4+, além de células dendríticas e macrófagos, podendo conduzir a uma doença crônica denominada AIDS, caracterizada por imunossupressão profunda, ativação de infecções latentes e oportunistas, surgimento de tumores malignos como o Sarcoma de Kaposi, febre, linfadenopatia, perda de peso e degeneração do sistema nervoso central (SNC), compreendendo uma doença infectocontagiosa de grande preocupação para a saúde pública (Montagnier, 2009; Barré-Sinoussi, 2010; Barré-Sinoussi; Ross; Delfraissy, 2013; Naif, 2013; Deeks et al., 2015).
O ciclo de vida deste vírus no hospedeiro compreende a infecção das células-alvos pela ligação ao receptor CD4, sendo necessária a presença de receptores de quimiocinas (o CXCR4 nas células T e o CCR5 nos macrófagos). Após a ligação à superfície celular, a glicoproteína gp120 promove alteração conformacional da glicoproteína gp41 e exposição do peptídeo de fusão, permitindo a fusão das membranas virais e do hospedeiro para entrada do genoma viral no citoplasma. Sequencialmente, tem-se a transcrição genômica do vírus em DNA pró-viral, integração do pró-vírus ao material genético da célula hospedeira, transcrição do genoma do vírus e síntese proteica viral. As partículas virais do HIV sintetizadas compreendem transcritos de RNA pró-viral em um complexo de nucleoproteínas, as quais brotam em novo vírion, propagando a infecção pelo organismo (Moss, 2013; Maartens; Celum; Lewin, 2014; Deeks et al., 2015).
A transmissão do HIV ocorre pelo contato com os fluidos biológicos de sangue, sêmen, fluidos cérvico-vaginais ou leite materno contendo partículas virais. Outros fluidos biológicos que apresentam o vírus em quantidades muito baixas, como saliva, lágrimas, urina e líquido cefalorraquidiano, são denominados não transmissores do HIV (Lashley, 2006; Nanjul, 2011). As vias de infecção do vírus constituem, portanto, o contato sexual desprotegido, o compartilhamento de agulhas contaminadas por usuários de drogas intravenosas, os acidentes com agulhas infectadas, a transferência transplacentária (in utero) ou durante o parto, o aleitamento materno e a transfusão de sangue ou de hemoderivados infectados (Lashley, 2006; Brasil, 2013). Sistema purinérgico e o sistema imunológico
O diagnóstico do HIV é realizado pela verificação da sorologia positiva ao vírus, com o objetivo de sua detecção precoce, e o monitoramento de progressão da infecção é realizado pelas contagens das subpopulações de linfócitos T, células CD4+ e CD8+, e pela carga viral (Brasil, 2013; Moss, 2013; Naif, 2013).
A infecção ocasionada pelo HIV caracteriza-se por uma ativação crônica do sistema imunológico, sendo que a evolução e a progressão da doença relacionam-se diretamente a determinantes do vírus e do indivíduo infectado, assim como pela interação entre fatores virais e do hospedeiro (Barré-Sinoussi; Ross; Delfraissy, 2013). O organismo desenvolve respostas inatas e adaptativas para defesa frente ao vírus, porém, o hospedeiro, em decorrência dos inúmeros mecanismos de evasão viral, apenas consegue reduzir a replicação (Deeks et al., 2015).
A evolução clássica da infecção consiste em uma fase inicial aguda e inespecífica seguida de uma fase assintomática com replicação e morte viral constantes, ocorrendo forte interação entre as células de defesa e constantes e rápidas mutações do vírus. Posteriormente, ocorre uma fase sintomática inicial e a AIDS, que se caracteriza por contagens de linfócitos T CD4+ abaixo de 200 células/mm3 e o desenvolvimento da sintomatologia da doença (Brasil, 2013; Moss, 2013; Naif, 2013).
O tratamento da infecção ocasionada pelo HIV e da AIDS consiste na terapêutica denominada HAART (do inglês highly activity antiretroviral therapy), que inclui a administração combinada de três classes de agentes antirretrovirais – inibidores da transcriptase reversa, inibidores de protease e inibidores da integrase – que visam às moléculas virais. Em indivíduos com infecções associadas utiliza-se profilaxia adequada complementar a HAART. A utilização da terapia antirretroviral possibilitou a progressão mais lenta da doença e diminuição da incidência de infecções oportunistas, câncer e degeneração do sistema nervoso central (SNC) ( Montagnier, 2009; Barré-Sinoussi, 2010).
Como a infecção causada pelo HIV não apresenta um tratamento curativo e tem grande impacto na saúde pública mundial, torna-se relevante conhecer os mecanismos imunológicos e bioquímicos que podem estar associados a essa infecção, a fim de encontrar possíveis terapêuticas complementares e melhorar a qualidade de vida dos indivíduos infectados.
Devido à infecção pelo HIV ocasionar uma ativação crônica do sistema imunológico, indica-se que, possivelmente, mecanismos sinalizadores – sistema purinérgico, por exemplo – apresentam correlação com a progressão e prognóstico da infecção.
O sistema purinérgico compreende uma rede de sinalização celular, representando uma importante via moduladora de inúmeros processos fisiológicos, como modulação da resposta inflamatória e imunológica, atuando também na neurotransmissão e neuroproteção, no mecanismo da dor, na agregação plaquetária e tromborregulação, na vasodilatação mediada pelo endotélio, na proliferação e morte celular (Burnstock, 1972, 2006; Martins et al., 2016).
O sistema de sinalização purinérgica tem suas moléculas sinalizadoras liberadas para o espaço extracelular em resposta a situações de dano, injúria e distúrbios metabólicos, nas quais essas moléculas vão atuar como sinais sensoriais moduladores da resposta imune. No sistema imunológico, a sinalização purinérgica atua como padrões moleculares associados a danos (DAMPs) frente às lesões inflamatórias e apresenta-se associada à: interação entre células; secreção de citocinas; quimiotaxia; ativação, modelagem e direcionamento de células imunes; remoção de patógenos intracelulares e geração de espécies reativas de oxigênio (ERO) (Antonioli et al., 2013; Pacheco et al., 2014).
A realização das funções purinérgicas ocorre em decorrência da expressão dos purinoreceptores (P1 e P2) e das ectoenzimas na superfície das células imunes, sendo que a ativação dos receptores desencadeia o efeito imunomodulador das purinas, o qual é finalizado pela degradação sequencial das ectoenzimas. Receptores do tipo P2 são expressos em diferentes células, sendo que os metabotrópicos acoplados a proteínas G – P2Y foram caracterizados em neutrófilos, eosinófilos, monócitos, macrófagos, células dendríticas (CD), células natural killer (NK), linfócitos T e B. Subtipos de receptores ionotrópicos – P2X são expressos em fagócitos, neutrófilos, eosinófilos, linfócitos T e mastócitos. Os receptores do tipo P1 são amplamente expressos na superfície de todas as células imunes da linhagem mieloide e linfoide (Antonioli et al., 2013; Di Virgilio; Vuerich, 2015; Passos et al., 2018).
As ectoenzimas purinérgicas, particularmente a ecto-nucleosídeo trifosfato difosfoidrolase do tipo 1 (E-NTPDase1 ou CD39) e a ecto-5’-nucleotidase (CD73), atuam na metabolização dos nucleotídeos de adenina, regulando a duração e composição do “halo purinérgico” que circunda as células imunes. Elas são consideradas interruptores imunológicos, estando associadas com respostas frente a condições fisiopatológicas, como a AIDS (Bours et al., 2006; Antonioli et al., 2013; Di Virgilio; Vuerich, 2015). As ectoenzimas são expressas em praticamente todas as células do sistema imunológico. As E-NTPDases são expressas em células NK, subconjuntos de células T como os linfócitos T regulatórios (Treg), macrófagos e CDs (Schachter et al., 2015).
O nucleotídeo ATP tem sua atividade imune correlacionada as suas concentrações, podendo atuar como molécula imunoestimulante ou imunodepressora, sendo que seus sinais extracelulares são detectados e transduzidos por receptores do tipo P2 (Di Virgilio; Vuerich, 2015).
O ATP modula a diferenciação, atua na sinalização de migração, quimiotaxia celular e sinalização para morte celular. Essa molécula, quando ligada ao receptor P2X7, relaciona-se à estimulação mitogênica de linfócitos T, promovendo a modulação das células Treg no fenótipo pró-inflamatório Th17, secretando citocinas IL-1β e IL-18 e ativando o inflamossoma, estimulando a morte bacteriana e apoptose dos macrófagos (Pacheco et al., 2014; Di Virgilio; Vuerich, 2015). A ligação do ATP ao receptor P2Y2 promove um sinal de atração para monócitos/macrófagos; quanto aos receptores P2Y12 e P2X4, tem-se extensão e migração das micróglias; e o subtipo P2Y6 foi descrito como desencadeador da fagocitose microglial (Bours et al., 2006; Burnstock; Boeynaems, 2014).
A molécula do ATP também exerce diversas atividades nas CDs, ao ligar-se com o receptor P2Y2 promove quimiotaxia; o acoplamento ao P2Y11 associado a uma resposta Th2 promove semimaturação e expressão de moléculas co-estimuladoras; ao ligar-se com o P2X7, têm-se a indução do inflamassoma, secreção de IL-1β e efeito pró-inflamatório; e o acoplamento ao receptor P2Y12 promove a endocitose do antígeno (Burnstock; Boeynaems, 2014).
Concentrações baixas do nucleosídeo ADO são encontradas extracelularmente em condições fisiológicas, promovendo proteção e regeneração tecidual imunológica, o acúmulo dessa molécula decorre principalmente da via de hidrólise dos nucleotídeos pelas ectoenzimas, porém, a ADO em quantidades elevadas representa um aumento exacerbado da imunossupressão, ocasionando dificuldades de eliminação de vírus e do controle da replicação viral (Passos et al., 2018).
A ADO é reconhecida como potente molécula imunossupressora, e seus sinais são detectados e transduzidos por receptores P1. A funcionalidade imunossupressora está associada ao fato de seu acoplamento aos subtipos de receptores A2A e A2B, que exercem efeitos inibitórios e promovem o aumento das concentrações de AMP cíclico (AMPc) nos linfócitos e timócitos (Antonioli et al., 2013; Di Virgilio; Vuerich, 2015). O AMPc modula inúmeros processos imunossupressores, atuando na função, proliferação e ativação de células imunes, porém, em níveis elevados é considerado tóxico (Passos et al., 2018).
A ADO também é reconhecida como potente inibidor da agregação plaquetária e modulador do tônus vascular. Ela atua inibindo a proliferação de linfócitos T e a secreção de citocinas pró-inflamatórias, como IL-2, TNF-α e IFN-γ, e promove a secreção das citocinas anti-inflamatórias (Nikolova et al., 2011; Pacheco et al., 2014; Rezer et al., 2007, 2018).
Esse nucleosídeo modula a diferenciação das células imunes, promovendo expansão das células envolvidas na imunossupressão e ocasionando a inibição da mobilidade celular, da migração para os gânglios linfáticos e da adesão ao endotélio. A atuação da ADO nas células dendríticas ocorre pela ligação aos subtipos de receptores A2A e A2B, favorecendo a polarização ao fenótipo celular do tipo Th2 (Burnstock; Boeynaems, 2014; Di Virgilio; Vuerich, 2015).
Sistema purinérgico e o HIV
O sistema purinérgico apresenta inúmeras funcionalidades relacionadas às células do sistema imunológico. Atua diretamente em sinalizações de dano, recrutamento e polarização das células imunes, apresentando efeitos imunossupressores e imunoestimuladores. Dessa forma, ele pode influenciar na sequência de eventos fisiopatológicos, resposta imune inata e adaptativa frente ao agente infeccioso, na progressão e no prognóstico da infecção ocasionada pelo HIV (Antonioli et al., 2013).
Os receptores do sistema purinérgico podem favorecer a entrada do vírus no organismo, enquanto as ectoezimas purinérgicas podem atuar bloqueando a progressão da doença e melhorando a resposta imune contra o vírus (Leal et al., 2005). O conhecimento do padrão de atividade e expressão de componentes do sistema purinérgio em indivíduos infectados pelo vírus HIV é muito importante para o entendimento dos mecanismos da doença e possibilitará a inclusão de antagonistas desses sinalizadores como uma possível terapêutica complementar para o vírus.
Ectoenzimas purinérgicas e o HIV
Segundo Antonioli e colaboradores (2013), a via de hidrólise promovida pelas ectoenzimas CD39 e CD73 atua de forma dinâmica com o contexto fisiopatológico no qual está inserida, como no caso da infecção ocasionada pelo HIV, sugerindo que essas ectoenzimas também podem atuar como futuros alvos terapêuticos. Outros autores verificaram que os efeitos inibitórios das células Treg são minimizados por regulação negativa da CD39, além de um polimorfismo no gene que codifica essa ectoenzima indicar uma progressão mais lenta para a AIDS (Nikolova et al., 2011; Burnstock; Boeynaems, 2014; Schachter et al., 2015; Passos et al., 2018).
Nikolova e colaboradores (2009; 2011) verificaram uma expressão aumentada de CD39 associada às células Treg em indivíduos HIV soropositivos, promovendo ativação imune exagerada, menor contagem de linfócitos T CD4+ e inibição da proliferação dos linfócitos T CD8+, indicando um envolvimento da expressão desta ectoenzima com a progressão da infecção crônica pelo HIV. O efeito inibitório das células Treg foi diminuído utilizando agonistas de adenosina. Jenabian et al. (2013) também correlacionaram a expressão aumentada de CD39 em células Treg com a progressão da infecção ocasionada pelo HIV, os autores indicaram que células T de indivíduos com HIV têm uma expressão mais elevada do receptor A2A, bem como uma maior geração de AMPc e uma menor produção de IL-2, contribuindo para imunossupressão.
Leal e colaboradores (2005) mostraram um aumento da atividade da NTPDase e da expressão de CD39 em linfócitos de pacientes HIV-soropositivos, sugerindo um importante desempenho da ectoenzima no controle da função dos linfócitos. Wiesch et al. (2011) verificaram um aumento da expressão de CD39 em indivíduos HIV-soropositivos e uma correlação com o menor número absoluto de células Treg.
Biomoléculas purinérgicas, purinoreceptores e HIV:
o nucleotídeo ATP, seus receptores e o HIV
As biomoléculas purinérgicas ligam-se a seus receptores e desencadeiam sua função de sinalização celular, atuando diretamente na infecção ocasionada pelo HIV.
Barat e colaboradores (2008) postularam que concentrações micromolares de ATP extracelular poderiam reduzir a transferência do vírus HIV de CDs imaturas para células T CD4+. A diminuição da atividade da NTPDase em macrófagos e a alta concentração de ATP também se relacionou a diminuição da replicação. Wagner (2011) indicou que o ATP extracelular está associado com a secreção de citocinas IL-1 e IL-12, atuando na modulação e diferenciação celular no HIV, induzindo o perfil fenotípico Th1, o autor também associou o ATP a sinalização de apoptose indicando que essa molécula pode ser utilizada para promover a morte celular programada, eliminando células que apresentam reservatórios de partículas infecciosas. Porém, outros autores indicaram que o ATP atua facilitando a entrada do vírus na célula do hospedeiro (Séror et al., 2011; Hazleton; Berman; Eugenin, 2012; Schachter et al., 2015).
Séror e colaboradores (2011) determinaram que receptores purinérgicos modulam a infecção ocasionada pelo HIV-1. As glicoproteínas do envelope viral estimulam a liberação de ATP pelos canais da panexina-1(Panx-1), promovendo interação entre a proteína do envelope viral e os receptores específicos da célula-alvo. A atuação do ATP ocorre principalmente no receptor P2Y2, ativando a tirosina cinase 2 (Pyk2), a qual promove a despolarização da membrana plasmática e estimula a fusão entre a membrana viral e do hospedeiro. Os autores indicaram que esta via sinalizadora pode representar importante alvo terapêutico para o bloqueio da fusão viral.
Swartz e colaboradores (2014) correlacionaram a sinalização purinérgica com a infecção ocasionada pelo HIV, indicando que receptores do tipo P2X atuam diretamente na fusão entre as membranas, e a utilização de antagonistas desses receptores inibiu efetivamente a infecção célula-célula, sugerindo que esses receptores são potentes alvos terapêuticos (Swartz et al., 2014; Swartz; Dubyak; Chen, 2015).
Passos e colaboradores (2015) indicaram que o HIV promove a liberação de ATP, consequentemente os canais de Panx-1 são abertos e têm-se a ativação dos receptores purinérgicos, particularmente o P2X1, que permite a entrada viral; o receptor P2Y2 apresenta-se associado com despolarização e facilita a fusão das membranas, e os receptores P2X7 e P2Y1 estão envolvidos nas fases posteriores de
replicação viral. A Figura 1 representa a correlação do ATP e receptores purinérgicos na infecção ocasionada pelo HIV.
Figura 1: Representação do envolvimento dos purinoreceptores
na infecção ocasionada pelo vírus HIV
Fonte: Passos, Schetinger e Leal (2015) – adaptada.
* Os canais de panexina-1 (Panx-1) permanecem abertos em
resposta à liberação de ATP. O receptor do subtipo P2X1 tem sido
relacionado à entrada viral, P2Y2 ao estímulo de despolarização e
fusão viral, P2X7 e P2Y1 estão associados a fases posteriores da
infecção, como na replicação viral.
O receptor P2X7 relaciona-se ao influxo de potássio e ativação do inflamassoma NLRP3, que conduz a ativação da via da caspase-1 levando a morte celular, sendo que esse receptor pode se associar diretamente a depleção celular em indivíduos HIV soropositivos (Passos; Schetinger; Leal, 2015; Passos et al., 2018).
Os macrófagos constituem um dos tipos celulares infectados pelo HIV e atuam de forma significativa para a progressão da infecção. As células infectadas constituem reservatórios virais dos vírions de HIV e podem migrar para o SNC, ocasionando neurotoxicidade e degeneração. Hazleton e colaboradores (2012) demonstraram que o receptor purinérgico P2X1 atua na entrada do HIV nos macrófagos, facilitando a ligação da proteína gp120 aos macrófagos devido a um mecanismo de regulação associado ao aumento de cálcio intracelular, estimulando a liberação de ATP e permitindo a entrada e replicação viral. Esses dados corroboram a correlação da inibição de CD39 como alvo terapêutico.
Graziano e colegas (2015) verificaram que o ATP extracelular promove uma rápida liberação das partículas infecciosas contidos nos macrófagos através da interação com o receptor P2X7, promovendo progressão da infecção. Os autores também demonstraram que o fármaco Imipramina (agente antidepressivo) bloqueia essa liberação.
Segundo os estudos de Giroud e colaboradores (2015), demonstraram que o agonista do receptor P2X1 – NF279 – inibe a fusão do HIV-1 e bloqueia a interação do vírus com coreceptores em linhagens primárias de macrófagos, sugerindo que receptores do tipo P2X estão envolvidos na sinalização de entrada do HIV-1.
O nucleosídeo ADO, seus receptores e o HIV
O HIV prejudica a ativação, funcionalidade e sobrevivência das células do sistema imunológico, principalmente em decorrência da ligação aos receptores A2A e A2B conduzindo a uma exacerbada produção de AMPc, ADO e consequente imunossupressão, com alto prejuízo em indivíduos que apresentam deficiência da ectoenzima adenosina desaminase (ADA) (Passos et al., 2018).
Em indivíduos infectados pelo HIV, a ADA estimula as CDs, aumentando sua estimulação e polarização em fenótipo Th1, assim como promove secreção de IL-12, TNF-α e IL-6. Nos linfócitos T CD8+, essa ectoenzima aumenta a atividade da telomerase, permitindo a neutralização dos efeitos da ADO na promoção de senescência replicativa (Passos; Schetinger; Leal, 2015; Passos et al., 2018).
A glicoproteína viral gp120, que inicia a ligação viral a célula do hospedeiro, atua no organismo impedindo a interação da ADA com o receptor de superfície CD26; consequentemente, há um efeito inibitório nas células T, que diminui sua proliferação, reduz as funções imunomoduladoras das células Treg e gera ADO. O aumento das concentrações de ADA in vitro associou-se menor carga viral do HIV e maior contagem de células T CD4+ (Martinez-Navio et al., 2011; Passos et al., 2018).
Assim, as informações sobre o sistema purinérgico e o HIV nos permitem identificar a atuação dessa sinalização frente a infecção, porém ressalta-se a importância da continua pesquisa na área, para melhor compreensão da interação entre estes eventos.
Considerações finais
A sinalização purinérgica, em especial a interação das moléculas sinalizadoras ATP e ADO com determinados receptores purinérgicos (P2X1, P2X7, P2Y1, P2Y2, A2A e A2B), relaciona-se diretamente com a ativação crônica do sistema imunológico: entrada, fusão e replicação viral do HIV e resposta imune deficiente frente à infecção ocasionada pelo vírus, indicando que essa via sinalizadora representa um importante mecanismo na elucidação da infecção ocasionada pelo HIV.
Como a infecção pelo HIV e a AIDS se constituem uma doença crônica incurável associada a inúmeras sequelas e comorbidades nos indivíduos infectados, além de representar grave preocupação para a saúde pública, torna-se de fundamental relevância conhecer as vias metabólicas associadas para melhorar a saúde das pessoas infectadas pelo vírus, em longo prazo.
Assim, a correlação encontrada entre os componentes do sistema purinérgico e as vias inflamatórias e infecciosas do HIV pode permitir a elaboração de estratégias terapêuticas que tenham como alvo esses componentes. Assim, direciona uma melhor resposta imunológica do organismo infectado e, consequentemente, um aumento de sobrevida e melhora na qualidade de vida dos indivíduos HIV-soropositivos.
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