Tigana: A Lâmina na Alma

Guy Gavriel Kay · Capítulo 1 de 19

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Tigana: A Lâmina na Alma

Carta do editor

 

“Esta noite fui forçado a perceber que existem limites

para aquilo que desejo ou ordeno em nome de uma causa.”

 

Quando publicou O Senhor dos Anéis nos anos 1950, J. R. R. Tolkien não podia sequer

sonhar que estava criando alicerces tão profundos para a fantasia épica que, meio século

depois, uma multidão de autores ainda o copiaria até a exaustão. Esses alicerces — hoje

clichês absolutamente esgotados — são vários: a divisão nos tradicionais três volumes; as

características físicas e culturais de elfos, anões e outras raças míticas; a inevitável jornada do

herói; os poderosos artefatos mágicos; a gura do senhor das trevas; e, por m, talvez a que

mais marcou a fantasia desde então, a separação maniqueísta entre o bem e o mal. Com

Tolkien, o mal é absoluto e corrompe absolutamente (corpo e alma). O bem, pelo contrário,

é exclusivo dos heróis, quase sempre sem falhas, dúvidas ou arrependimentos.

Guy Gavriel Kay, que procura constantemente transcender as fraquezas da fantasia, marca

um corte com essa tradição tolkiana do bem e do mal. Tigana está repleto de personagens

em con ito com suas próprias decisões e com o impacto que elas têm nos outros. Aliás, a

grande força desta obra é precisamente a ambiguidade moral dos seus personagens. Não são

homens bons nem maus — são apenas homens, apesar do poder atribuído a eles e que os

coloca na posição de fazerem um grande bem ou um grande mal. Quem conhece a obra de

George R. R. Martin sabe exatamente do que estamos falando.

Vejamos os personagens: Alessan, o herói de Tigana, não se importa com os meios usados

para atingir os ns. Mas será heroico recorrer ao assassinato e à própria escravidão, mesmo

quando os ns são tão nobres quanto o resgate de um povo? Brandin, o vilão, tem uma

capacidade imensa de amar. Vive, inclusive, uma das mais belas histórias de amor da

literatura fantástica. Mas é o ódio que o move durante grande parte da vida. Alessan e

Brandin são personagens complexos e dos mais fascinantes do gênero. Diga-se que estão em

boa companhia: os personagens secundários de Tigana formam um grupo rico, complexo e

memorável. Prepare-se portanto para uma viagem inesquecível ao longo destas páginas. Mais

do que estar na vanguarda de um movimento de ruptura com os alicerces da fantasia, Guy

Gavriel Kay nos oferece um mundo de fantasia épica com sua própria geogra a, religião,

política e estruturas sociais complexas. Numa península que em tudo nos recorda uma Itália

medieval e onde o povo comercializa vinho, cereais e especiarias por terra e mar, Tigana

conta uma história poética e poderosa sobre a força da política e da religião, o custo do

sangue e o preço do amor.

Aos meus irmãos, Jeffrey e Rex.