Tigana: A Lâmina na Alma

Guy Gavriel Kay · Capítulo 5 de 19

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Tigana: A Lâmina na Alma

Parte um – Uma lâmina na alma

PARTE UM

 

Uma lâmina na alma

CAPÍTULO I

 

Na outonal estação dos vinhos, pelos ciprestes, oliveiras e parreiras de sua propriedade rural, correu a notícia de que Sandre, Duque de Astibar e outrora governante daquela cidade e província, tinha dado o último suspiro amargo de sua longa vida e de seu exílio,

falecendo em seguida.

Nenhum servo da Tríade estivera ao seu lado para realizar os ritos nais. Nem os

sacerdotes de Eanna, com suas vestes brancas, nem os da negra Morian dos Portais, nem as

sacerdotisas de Adaon, o deus.

Ninguém se surpreendeu na cidade de Astibar ao receber a notícia do falecimento do

Duque. A fúria de Sandre com a Tríade e seus clérigos, nos últimos dezoito anos de sua vida,

estava longe de ser um segredo. E Sandre d’Astibar nunca escondera sua descrença, mesmo

na época em que estivera no poder.

A cidade estava cheia de pessoas da longínqua distrada e além, na véspera do Festival das

Vinhas. Nas tavernas lotadas e nos salões de khav, verdades e mentiras sobre o Duque eram

trocadas como lã e especiarias por pessoas que nunca haviam visto seu rosto e que

certamente empalideceriam com pavor justi cado se fossem convocados à corte do Duque,

em Astibar.

Durante toda a sua vida, o Duque Sandre provocara diversas conversas e especulações

entre os habitantes da península conhecida como Palma — e isso não mudara com a sua

morte, mesmo que Alberico de Barbadior tenha vindo com um exército daquele Império

além-mar e exilado Sandre na distrada dezoito anos antes. Quando o poder se vai, a sua

memória permanece.

Talvez por causa disso, e certamente por sua tendência em ser cauteloso e circunspecto em

tudo, Alberico, que comandava quatro das nove províncias com mão de ferro e competia

com Brandin de Ygrath pela nona, agia com aguçada estima pelo protocolo.

Às 12 horas do dia em que o Duque morreu, um mensageiro de Alberico foi visto

cavalgando pelo portão leste da cidade. Levando a âmula azul-prateada do luto, também

carregava cuidadosamente, sem dúvida, palavras de condolência para os lhos e netos de

Sandre, agora reunidos em sua ampla propriedade, a doze quilômetros das muralhas.

No Paelion, o salão de khav onde as pessoas mais interessantes se reuniam naquela estação,

dizia-se cinicamente que o Tirano provavelmente teria enviado sua própria tropa de

mercenários barbadianos, e não apenas um simples mensageiro, não fossem os Sandreni

sobreviventes um grupo tão fraco. Antes mesmo que a diversão — misturada com cautela

para que nem todos ouvissem — causada por aquele comentário morresse, um músico

itinerante — havia vários em Astibar naquela semana — apostava o lucro dos próximos três

dias que a Ilha de Chiara enviaria suas condolências em verso antes do fim do Festival.

— Mas que bela oportunidade! — explicava o novato imprudente, cuidando de uma fumegante caneca de khav misturado com uma das diversas bebidas alcoólicas que se

alinhavam nas prateleiras atrás do balcão do Paelion. — Brandin não conseguirá deixar

passar uma chance como esta de lembrar a Alberico, e a todos nós, que, embora os dois

tenham dividido nossa península, a arte e o conhecimento ainda se concentram a oeste,

rumo a Chiara. Guardem minhas palavras e podem apostar se quiserem: teremos uma série

de versos elaborados do robusto Doarde ou algum acróstico bobo de Camena para

desvendar, com “Sandre” soletrado de seis maneiras diferentes e de trás para frente, antes

que a música pare em Astibar, daqui a três dias.

Houve risos, embora novamente reservados, mesmo que fosse véspera do Festival, quando

uma longa tradição, respeitada por Alberico de Barbadior, permitia mais liberdade do que

em qualquer outro momento do ano. Alguns homens com cabeça para números zeram

alguns cálculos rápidos sobre o tempo de navegação e as chances de alguém cruzar os mares

outonais ao norte da província de Senzio, descendo pelo Arquipélago; logo o músico teve sua

aposta coberta e anotada na placa da parede do Paelion, que cava ali justamente para isso,

numa cidade tão propensa a apostas e jogatinas.

Mas pouco depois, todas as apostas e comentários sarcásticos foram esquecidos. Alguém

com um quepe pontiagudo enfeitado com uma pena abria as portas do salão de khav,

clamando por atenção e informando que o mensageiro do Tirano fora visto retornando pelo

mesmo portão leste pelo qual passara mais cedo. Que cavalgava muito mais rápido do que

antes e que, menos de cinco quilômetros atrás dele, encontrava-se a procissão fúnebre do

Duque Sandre d’Astibar, vinda em respeito ao seu último pedido de passar uma noite e um

dia na cidade que ele governara.

No salão, a reação foi imediata e previsível: os homens começaram a gritar com força para

serem ouvidos em meio à balbúrdia que eles mesmos causavam. Alvoroço, política e a

expectativa dos prazeres do Festival contribuíam para uma tarde sedenta. A mudança foi tão

brusca que o proprietário do Paelion, nervoso, começou a servir, sem querer, doses inteiras

de bebidas nos khavs pedidos em grande número. Sua esposa, de gênio mais controlado,

continuou a servir todos os clientes com doses mínimas, em sua benevolente falta de

favoritismo.

— Eles serão expulsos! — gritou Adreano, o jovem poeta, batendo a caneca na mesa e

derramando khav quente sobre a tábua de carvalho negro na maior cabine do salão. —

Alberico nunca permitirá isso!

Houve grunhidos de aprovação de seus amigos e dos bêbados que sempre se amontoavam

naquela mesa em particular.

Adreano lançou um olhar ao músico itinerante que propusera a aposta audaciosa sobre

Brandin de Ygrath e seus poetas da corte de Chiara. O outro, parecendo bastante satisfeito,

arqueou as sobrancelhas de maneira enigmática, recostando-se na cadeira que

descaradamente puxara pouco antes. O poeta sentiu-se seriamente ofendido pelo homem,

sem saber se a ofensa fora gerada pela citação casual da proeminência de Chiara na cultura ou pela forma irreverente como desprezara o grande Camena di Chiara, a quem Adreano

imitara continuamente nos últimos seis meses, tanto no estilo dos versos, quanto na capa de

três camadas que usava dia e noite.

Ele era inteligente o su ciente para saber que havia uma contradição inerente a essas duas

fontes de ira, mas também jovem o bastante — e havia bebido mais khav com conhaque do

que devia — para que aquele conhecimento ficasse muito abaixo do nível de sua consciência.

Manteve sua atenção naquele rústico prepotente. Obviamente viajara até a cidade para

chacoalhar algum instrumento primitivo durante três dias em troca de alguns astins para

gastar no Festival. Como um sujeito desses ousava desembarcar no mais ilustre salão de khav

da Palma Oriental e en ar seu traseiro caipira na cadeira da mesa mais bem frequentada do

lugar? Adreano ainda tinha memórias nítidas e dolorosas do longo mês — mesmo depois de

seus primeiros versos aparecerem impressos — em que circundara, acuado pelas recusas

subentendidas, antes de se tornar um membro do seleto e bem conhecido círculo que

tomara aquela cabine.

Ele se viu esperando que o músico tentasse contradizer sua opinião. Já tinha alguns versos

preparados acerca da ralé da estrada que cospe suas opiniões sobre seus superiores quando

na companhia de seus melhores.

Como se tivesse notado aquele pensamento, o rapaz se acomodou ainda mais

confortavelmente em sua cadeira, pressionou suas têmporas prematuramente grisalhas com

um dedo comprido e disse, diretamente para Adreano:

— Esta parece ser a minha tarde de apostas. Eu aposto tudo que estou prestes a ganhar que

Alberico é cauteloso demais para estragar o humor do Festival em troca disso. Há gente

demais em Astibar agora, e os ânimos estão exaltados demais, mesmo com as doses

minúsculas de bebida que servem aqui para pessoas que deveriam ter mais bom senso.

Ele abriu um vasto sorriso para tirar um pouco do veneno das últimas palavras:

— É bem melhor para o Tirano ser gentil — continuou. — Colocar seu velho inimigo para

descansar de uma vez por todas cerimoniosamente, para então lançar agradecimentos a

quaisquer deuses que o Imperador de além-mar esteja obrigando os barbadianos a adorar

hoje em dia. Agradecimentos e oferendas, pois ele pode ter certeza de que os eunucos que

Sandre deixou para trás irão se apressar alegremente em abandonar a louca e antiquada

busca por liberdade que Sandre apoiava por uma Astibar poderosa.

Ao nal de seu discurso, ele não sorria mais nem seus olhos cinzentos e separados se

desviavam dos de Adreano.

E ali, pela primeira vez, estavam palavras genuinamente perigosas. Ditas de maneira suave,

mas ouvidas por todos na cabine. De repente aquele canto do Paelion cou estranhamente

quieto em meio à balbúrdia que continuava no salão. Os versos jocosos que Adreano

compusera tão rapidamente pareciam agora triviais e inapropriados a seus próprios ouvidos.

Ele não disse nada, seu coração batendo curiosamente rápido. Com algum esforço,

continuou olhando para o músico, que acrescentou, recuperando o sorriso torto:

— Temos uma aposta, meu caro?

Adreano tentou ganhar tempo, enquanto calculava rapidamente quantos astins poderia

obter encurralando certos amigos.

— Se importaria de nos esclarecer por que um lavrador da distrada seria tão liberal para

gastar dinheiro que ainda não recebeu e para ter opiniões sobre assuntos como esse?

O sorriso do outro aumentou, revelando dentes muito brancos e simétricos.

— Não sou um lavrador — protestou ele, cordialmente. — E tampouco sou da sua distrada.

Sou um pastor do topo das montanhas de Tregea, ao sul, e vou lhe dizer uma coisa...

Os olhos acinzentados observaram toda a cabine de maneira divertida, incluindo todos os

presentes:

— Um rebanho de ovelhas ensina mais sobre os homens do que vocês imaginam; e os

bodes... bem, os bodes são melhores para torná-lo um lósofo do que os sacerdotes de

Morian, especialmente se você está em uma montanha, no meio da chuva, perseguindo-os

enquanto os trovões e a noite se misturam.

Um riso espontâneo encheu o local, encorajado pelo alívio da tensão. Adreano tentou, sem

sucesso, manter sua expressão severa e repreensiva.

— Temos uma aposta? — perguntou o pastor mais uma vez, de maneira amigável e

descontraída.

Adreano foi poupado de responder, e vários de seus amigos economizaram a angústia e os

astins pela chegada, ainda mais repentina do que a do fofoqueiro com chapéu de pluma, de

Nerone, o pintor.

— Alberico deu sua permissão! — proclamou, sobre a barulheira do Paelion. — Acabou de

decretar que o exílio de Sandre terminou quando ele morreu. O Duque será velado amanhã

de manhã, no velho Palácio Sandreni, e terá um funeral completo, com todas as honras e os

nove ritos! Contanto que... — e aqui ele parou, dramaticamente — contanto que o clero da

Tríade possa fazer sua parte.

As implicações daquilo eram simplesmente grandiosas demais para que Adreano se

preocupasse em não parecer surpreso, como acontecia a poetas jovens e impetuosos a cada

uma ou duas horas. Mas aqueles... aqueles eram grandes acontecimentos! Seu olhar, por

alguma razão, se voltou para o pastor. A expressão dele estava leve e desinteressada, mas

certamente não triunfante.

— Bem — disse o estranho, com um aceno triste de cabeça. — Acho que estar certo terá de

compensar o fato de estar pobre. Não é a primeira vez que me acontece.

Adreano riu. Deu um tapa nas costas gordas de Nerone, que ainda estava sem fôlego,

deslocando-se para dar lugar ao amigo.

— Que Eanna abençoe a nós dois — disse Adreano ao pintor. — Você acaba de economizar

mais astins do que tem. Eu o teria pressionado a fazer uma aposta que eu teria perdido com

essas notícias.

Em resposta, Nerone pegou a caneca meio cheia de khav de Adreano e virou num único gole. Olhou ao redor, otimista, mas os outros esconderam suas canecas, conhecendo bem os

hábitos do pintor. Com uma risada, o pastor de cabelos negros da Tregea ofereceu sua

própria caneca, enquanto Nerone, que havia aprendido a jamais questionar a generosidade

alheia, virou tudo em um gole. Pelo menos murmurou um “obrigado” depois de sumir com

o khav.

Adreano percebeu a interação, mas seus pensamentos trilhavam caminhos desconhecidos,

chegando a uma conclusão inesperada.

— E ainda — disse ele abruptamente, dirigindo-se a Nerone, mas falando alto o su ciente

para todos ouvirem — acabou de rea rmar o quão astuto é o feiticeiro de Barbadior que nos

governa. Alberico conseguiu, com apenas um decreto, estreitar seus laços com o clero da

Tríade. Ele criou uma condição perfeita ao conceder o último desejo do Duque. Os herdeiros

Sandreni terão que concordar, não que eles já tenham discordado de algo... Eu não consigo

sequer imaginar quantos astins vão gastar para abrandar os sacerdotes e sacerdotisas o

su ciente para fazê-los entrar no Palácio Sandreni amanhã de manhã. Alberico será agora

conhecido como o homem que trouxe o renegado Duque de Astibar de volta à graça da

Tríade na sua morte.

Ele olhou ao seu redor, empolgado pela força de seu próprio raciocínio:

— Pelo sangue de Adaon, isso me lembra das intrigas dos velhos tempos, quando tudo era

feito com mais sutileza. Engrenagens dentro das engrenagens que conduziam o destino de

toda a península.

— Ora essa — disse o tregeano, o rosto cando sério —, esta pode ter sido a re exão mais

inteligente que ouvimos neste dia barulhento. Mas me diga — continuou, enquanto

Adreano corava de satisfação —, se o que Alberico acabou de fazer lembrou a você, e a

outros, sem dúvida, embora de maneira não tão rápida, de como as coisas eram nos dias

antes de suas navegações e conquistas, e antes de Brandin conquistar Chiara e as províncias a

oeste, então não seria possível — sua voz estava baixa, para que apenas Adreano pudesse

ouvir em meio ao tumulto do lugar — que ele tenha sido en m superado nesse jogo?

Superado por um homem morto?

Ao redor, homens se levantavam e acertavam suas contas em uma pressa barulhenta para

estar do lado de fora, onde eventos grandiosos pareciam se desenrolar muito rapidamente.

Todos se dirigiam ao portão leste, para ver os Sandreni trazendo o corpo sem vida de seu

líder para casa depois de dezoito anos. Um quarto de hora antes, Adreano estaria junto com

os outros, correndo para alcançar o portão a tempo de conseguir um bom lugar. Mas não

agora. Seu cérebro saltava de modo a seguir o novo caminho aberto pela voz do tregeano, e a

compreensão tomou-o como a luz de uma tocha em meio à escuridão.

— Entendeu, não é? — perguntou seu novo conhecido, sem rodeios. Estavam sozinhos na

ala. Nerone permanecera algum tempo, apenas para esvaziar qualquer caneca de khav que

tivesse sido deixada no meio do tumulto, e então acompanhara os outros para o Sol e a brisa

do outono.

— Acho que sim — disse Adreano, refletindo. — Sandre vence ao perder.

— Ao perder uma batalha com a qual nunca se importou — emendou o outro, com a

inteligência brilhando em seus olhos cinzentos. — Duvido que o clero tenha tido qualquer

importância para ele. Eles não eram seus inimigos. Não importa o quanto Alberico seja sutil,

o fato é que ele conquistou esta província, Tregea, Ferraut e Certando por causa de seu

exército e de sua feitiçaria, e apenas por esses meios mantém a Palma Oriental. Sandre

d’Astibar governou esta cidade e a sua província por 25 anos, sobrevivendo a meia dúzia de

rebeliões e tentativas de assassinato, que eu tenha ouvido falar. E ele o fez apenas com um

punhado de tropas nem sempre leais, com sua família e com uma sagacidade que já então

era lendária. O que você diria se eu sugerisse que ele se recusou a deixar que os sacerdotes e

sacerdotisas se aproximassem de seu leito de morte na noite passada simplesmente para

induzir Alberico a colocá-los como uma condição no dia seguinte?

Adreano não sabia o que podia dizer. Sabia que estava sentindo um entusiasmo, uma

empolgação que o deixavam indeciso se queria uma espada em suas mãos ou pena e tinta

para escrever as palavras que começavam a brigar dentro dele.

— O que você acha que acontecerá? — perguntou ele, com uma deferência que

impressionaria seus amigos.

— Não tenho certeza — disse o outro, francamente. — Mas tenho uma suspeita cada vez

maior de que o Festival das Vinhas deste ano poderá ser o começo de algo que nenhum de

nós poderia esperar.

Por um momento, pareceu que ele ia dizer mais alguma coisa, mas não falou mais nada.

Em vez disso, se levantou, lançando algumas moedas misturadas sobre a mesa para pagar por

seu khav.

— Preciso ir. Hora do ensaio. Estou com um grupo com o qual nunca toquei antes. A praga

do ano passado causou grandes perdas entre os músicos itinerantes. Foi assim que tive folga

das minhas cabras — ele sorriu e então lançou um olhar à tábua de apostas na parede. —

Diga aos seus amigos que virei daqui a três dias, antes do pôr do sol, para resolver a questão

das condolências poéticas de Chiara. Adeus, por enquanto.

— Adeus — respondeu Adreano reflexivamente e assistiu o outro deixar a sala quase vazia.

O proprietário e sua esposa se ocupavam em recolher canecas e copos e limpar as mesas e

bancos. Adreano pediu uma última dose. Um instante mais tarde, enquanto sorvia seu khav

— puro dessa vez, para clarear a cabeça — percebeu que se esquecera de perguntar ao

músico qual era seu nome.