Tigana: A Lâmina na Alma

Guy Gavriel Kay · Capítulo 10 de 19

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Tigana: A Lâmina na Alma

Capítulo VI

 

No m, o longo caminho daquele dia e daquela noite não os conduziu de volta à estalagem. Os três voltaram pela oresta até a estrada principal que ligava Astibar à cidade de Ardin.

Caminharam em silêncio pela estrada sob o arco das estrelas de outono, as cigarras cantando

alto na mata que os ladeava. Devin cou feliz por ter levado seu colete de lã; estava frio

agora e a noite poderia trazer uma geada.

Era estranho estar do lado de fora na escuridão, tão tarde. Quando viajavam, Menico

sempre cuidava para que a companhia estivesse reunida e acomodada na hora do jantar.

Mesmo com as rígidas medidas que os tiranos haviam tomado contra bandidos e salteadores,

as estradas da Palma não eram frequentadas por pessoas bem intencionadas à noite.

Pessoas como Devin, naquela mesma manhã.

Ele havia se mantido seguro em seu lugar e na sua pro ssão, tinha até mesmo alcançado —

por mais improvável que fosse — um triunfo. Estava à beira do sucesso verdadeiro. E agora

andava por uma estrada à noite, tendo abandonado esperanças e seguranças, depois de ter

feito um juramento que o marcaria como merecedor da roda de tortura, se não ali, em

Chiara. Na verdade, nos dois lugares, caso Tomasso bar Sandre falasse.

Era um sentimento estranho e solitário. Con ava nos homens a quem se unira — e até

con aria na garota, se fosse preciso —, mas não os conhecia muito bem. Não como conhecia

Menico ou Eghano, depois de tantos anos.

Ocorreu-lhe que o mesmo dilema poderia ser aplicado à causa que acabara de jurar

defender: também não conhecia Tigana, o que era exatamente o objetivo do feitiço que

Brandin de Ygrath havia feito. Devin estava a ponto de mudar toda a sua vida por uma

história contada sob a lua, por uma canção infantil, uma evocação de sua mãe, algo que era

quase pura abstração. Um nome.

Ele era honesto o su ciente para se perguntar se fazia isso pela aventura em si, pelo encanto

que Alessan, Baerd e o velho Duque representavam, ou pelas profundezas de dor e angústia

que conhecera na oresta, naquela noite. Não sabia responder. Não sabia o quanto Catriana

entraria nessa balança, ou mesmo seu pai, seu orgulho ou o som da voz de Baerd no meio da

noite, confessando suas perdas.

A verdade é que, se Sandre d’Astibar pudesse impedir seu lho de falar, conforme

prometera, não havia nada que impedisse Devin de voltar à mesma vida que tivera pelos

últimos seis anos. De ter a glória e as recompensas que pareciam estar à sua frente. Balançou

a cabeça. Era surpreendente, de certa forma, o quanto aquele caminho, com Menico na

estrada, apresentando-se por toda a Palma — a vida para a qual acordara naquela manhã —

parecia quase inconcebível para ele agora, como se houvesse cruzado alguma fronteira

gigantesca. Devin se perguntava com que frequência os homens faziam o que eles haviam feito, a grande escolha de suas vidas, por razões simples e descomplicadas, facilmente

compreensíveis à medida que aconteciam.

Foi arrancado de seus pensamentos quando Alessan levantou a mão de repente, em sinal

de alerta. Sem falar, os três se esconderam entre as árvores que ladeavam a oresta. Após um

momento, Devin viu um bruxuleio de luz de tochas a oeste e ouviu o som de uma carroça se

aproximando. Havia vozes tanto masculinas quanto femininas. Foliões voltando para casa,

ele pensou. A nal, havia um Festival acontecendo. De algum modo, isso começara a ser

outra coisa irrelevante. Esperaram até a carroça passar.

Ela não passou.

Os cavalos foram parados, com uma puxada leve nas rédeas, bem em frente ao local em

que os três estavam. Alguém desceu, e eles ouviram o ruído de um portão sendo

destrancado.

— Eu sou indulgente demais! — ouviram-no reclamar. — Cada vez que olho para essa

porcaria de brasão, penso que deveria ter pedido para um artesão fazê-lo. Existem limites, ou

pelo menos deveriam existir, para o que um pai permite!

Devin reconheceu a voz e o lugar no mesmo instante. Um impulso, uma vontade repentina

de voltar à vida comum antes daquela noite, fez com que se levantasse.

— Con em em mim — sussurrou ele, quando Alessan lançou-lhe um olhar. — Ele é um

amigo.

Então saltou para a estrada.

— Eu achei bem desenhado — disse ele, claramente. — Melhor do que a maioria dos

artistas que eu conheço. E, para dizer a verdade, Rovigo, lembro-me de ouvi-lo dizendo o

mesmo ontem à noite, no Pássaro.

— Eu conheço essa voz — respondeu Rovigo imediatamente. — Conheço essa voz e estou

imensamente feliz de ouvi-la; ainda que você tenha me agrado diante de uma esposa

megera e uma lha que tem sido a perdição da existência infeliz de seu próprio pai. Devin

d’Asoli, se não estou enganado!

Ele saiu da frente do portão, levantando a lanterna da carroça. Devin ouviu as duas

mulheres na carroça rirem, aliviadas. Atrás dele, Alessan e Catriana voltaram para a estrada.

— Você não está enganado — disse Devin. — Deixe-me apresentar dois membros de

minha companhia: Catriana d’Astibar e Alessan di Tregea. Este é Rovigo, um mercador com

quem eu dividia uma garrafa num ambiente bastante elegante ainda ontem, quando

Catriana conseguiu que eu fosse atacado e lançado para fora.

— Ah! — exclamou Rovigo, erguendo mais a lanterna. — A irmã!

Catriana, revelada pela luz da lanterna, sorriu recatadamente.

— Eu precisava falar com ele — começou ela, tentando se explicar —, mas não queria

entrar naquele lugar.

— Uma mulher sábia e prudente — aprovou Rovigo, sorrindo. — Queria que minhas lhas

tivessem a metade dessa inteligência. Ninguém deveria querer entrar no Pássaro, a não ser que estivesse tão resfriado que houvesse aniquilado seu olfato.

Alessan soltou uma risada.

— Você é alguém agradável de conhecer numa estrada escura, mestre Rovigo.

Especialmente se você for o dono de um navio chamado Dama do Mar.

Devin piscou, surpreso.

— De fato, eu tenho o grande azar de possuir aquela porcaria de navio e navegar nele —

admitiu Rovigo, animado. — Como você o conhece, amigo?

Alessan pareceu divertir-se muito.

— Porque me disseram para procurá-lo se tivesse a oportunidade. Tenho notícias para você

da cidade de Ferraut. Notícias de um sujeito corpulento e de rosto muito avermelhado

chamado Taccio.

— Meu caro amigo em Ferraut! — exclamou Rovigo. — Que bom que nos encontramos!

Pelo deus, onde você o conheceu?

— Em outra taverna, sinto dizer. Uma taverna na qual eu tocava algumas músicas e ele...

bem, disse que estava fugindo de uma vingança. Na verdade, nós dois éramos os últimos

clientes da noite. Ele não parecia ter pressa em voltar para casa, pelo que me pareceu uma

razão bastante prudente, e começamos a conversar.

— Nunca é difícil começar a conversar com Taccio — comentou Rovigo.

Devin ouviu uma risadinha vinda de dentro da carroça. Não parecia a voz de uma lha

enfadonha e inadequada ao casamento. Ele começava a entender o modo como Rovigo

tratava as mulheres. Naquela escuridão, ele percebeu que sorria.

Alessan disse:

— O nobre Taccio me explicou seu dilema, e quando eu disse que tinha acabado de me

juntar à companhia de Menico di Ferraut e que vínhamos para o Festival, ele me encarregou

de procurá-lo e buscar a confirmação verbal de uma carta que ele diz ter enviado a você.

— Meia dúzia de cartas — resmungou Rovigo. — Vamos a ela, então: eis sua con rmação

verbal, amigo Alessan.

— O bom Taccio mandou-me dizer, e jurar-lhe pela graça da Tríade e pelos três dedos da

Palma que é verdade — e aqui a voz de Alessan se tornou uma paródia perfeita da voz de

um mensageiro —, que se a cama nova não chegar a Astibar antes do gelo do inverno, o

Dragão que hiberna ao seu lado irá acordar numa fúria inimaginável, colocando um m

violento à sua vida de serviços.

Houve risos e aplausos das sombras na carroça. Devin percebeu, recuperando aquele

pensamento anterior, que a mãe não parecia nem um pouco ranzinza.

— Que Eanna e Adaon, que abençoam juntos os casamentos, impeçam uma coisa tão

terrível de acontecer — disse Rovigo, piedosamente. — A cama já foi encomendada e está

construída, e será enviada assim que o Festival terminar.

— Então o Dragão poderá descansar em paz e Taccio será salvo! — declamou Alessan, com

o tom elevado usado para dar a “moral” das peças infantis de marionetes.

— Embora eu não consiga entender — disse uma voz feminina, ainda risonha, da carroça

— por que vocês se intimidam tanto diante da pobre Ingonida. Rovigo, será que nos

esquecemos completamente de nossos modos? Iremos segurar essas pessoas aqui em pé, no

frio e na escuridão?

— Claro que não, minha amada! — exclamou o marido, apressadamente. — Alix, foi

apenas a visão de Ingonida em fúria que atrasou meu cérebro.

Devin percebeu que não conseguia parar de sorrir. Até Catriana, notou, relaxou sua

habitual expressão de indiferença e superioridade.

— Vocês estavam voltando para a cidade? — perguntou Rovigo.

Foi o primeiro momento arriscado — e Alessan deixou que ele resolvesse.

— Estávamos — disse Devin. — Andamos bastante para esvaziar a cabeça e fugir do

barulho, mas estávamos prestes a enfrentar a cidade de novo.

— Imagino que vocês três tenham sido parados por admiradores a noite toda — disse

Rovigo.

— De fato, parece que alcançamos certa notoriedade — admitiu Alessan.

— Bem — falou Rovigo, sério —, brincadeiras à parte, eu entenderia se vocês quisessem

voltar às celebrações, que não estavam perto de terminar quando saímos de lá. Elas devem

continuar a noite toda, é claro, mas confesso que não gosto de deixar as mais novas sozinhas

até tão tarde. E infelizmente a minha mais velha, Alais, sofre de tremedeiras e desmaios

quando se empolga demais.

— Que pena — disse Alessan, o rosto sério.

— Pai! — ouviu-se o protesto de dentro da carroça.

— Rovigo, pare com isso imediatamente ou eu irei jogar uma bacia de água em você

enquanto dorme! — declarou a mãe, embora, conforme Devin avaliou, sem raiva de

verdade.

— Vocês veem como são as coisas? — disse o mercador, gesticulando abertamente com a

mão livre. — Sou atormentado sem folga até mesmo enquanto durmo. Mas se os gritos

estridentes de minhas mulheres e a possibilidade de encontrar mais três igualmente

desagradáveis não os expulsar, eu humildemente os convido a dividir uma ceia tardia e uma

bebida conosco, num ambiente mais calmo do que vocês poderão encontrar em Astibar.

— E três camas, se nos derem a honra — acrescentou Alix. — Ouvimos vocês tocarem e

cantarem hoje pela manhã, nos ritos do Duque. Seria realmente uma honra se cassem

conosco.

— Você estava no palácio? — perguntou Devin, surpreso.

— Infelizmente, não — murmurou Rovigo, num tom autodepreciativo. — Estávamos na

rua, no meio da multidão. — Ele hesitou. — Sandre d’Astibar era um homem a quem eu

admirava e honrava muito. As terras dos Sandreni são próximas às minhas, a leste. Vocês

estavam andando por suas orestas agora mesmo. Era um ótimo vizinho, até o m de seus

dias. Eu queria ouvir seus ritos fúnebres... e quando descobri que a companhia de meu mais novo amigo foi a responsável por realizar os ritos... bem... vocês poderiam unir-se a nós?

Daquela vez, Devin deixou a decisão para Alessan.

E Alessan respondeu, ainda com ar divertido, seus dentes brancos reluzindo na escuridão:

— Não poderíamos sequer sonhar em recusar uma oferta tão generosa. E poderemos

brindar à jornada segura da nova cama de Taccio e ao descanso de seu Dragão!

— Pobre Ingonida... — disse Alix, da carroça, tentando sem sucesso não rir. — Vocês são

tão injustos com ela!

 

Dentro da casa havia luz, calor e riso ininterrupto. Havia também três jovens inegavelmente

atraentes, além da jovem que os acompanhava, cujos nomes passaram muito rápido por

Devin, em meio a gritos e rubores. A mais velha dessas três — que o rapaz imaginou ter por

volta de 17 anos — possuía um tom naturalmente musical na voz e um olhar sedutor

demais.

Alais era diferente.

Sob a luz da sala, a lha mais velha do mercador revelava-se pequena, séria e esbelta. Seu

cabelo negro era muito longo e muito liso, e seus olhos carregavam o tom mais suave de azul

que Devin já vira. Ao lado dela, os olhos azuis de Catriana pareciam mais desa adores do

que nunca, e seus cabelos vermelhos lembravam, mais do que tudo, a juba de uma leoa.

Eles foram levados por mãos e vozes femininas insistentes a cadeiras imensamente

confortáveis em uma sala de estar decorada em tons de verde e dourado. O fogo crepitava na

lareira, afastando o frio do outono. O chão era coberto por uma tapeçaria de estilo

claramente quileiano, até mesmo para o olho destreinado de Devin. A lha de 17 anos —

Selvena, lembrou-se com um estalo — sentou-se graciosamente no tapete, aos pés de Devin.

A jovem olhou-o e sorriu. Ele recebeu — e decidiu ignorar — um olhar desdenhoso e

sarcástico de Catriana, que se sentou junto à lareira. Alais estava em outra sala, ajudando a

mãe.

Foi quando Rovigo reapareceu de alguma sala nos fundos, animado e triunfante,

carregando três garrafas.

— Eu espero que vocês três gostem do vinho azul de Astibar — disse, sorrindo para eles.

Para Devin, aquela simples frase gerou uma aura de esperança sobre suas ações impulsivas

naquela noite escura. Ele olhou para Alessan, e recebeu de volta um sorriso estranho que

parecia apreciar muitas coisas.

Rovigo começou logo a abrir e servir o vinho.

— Se alguma de minhas deploráveis garotas estiver incomodando vocês — disse o an trião

—, sintam-se livres para enxotá-las como gatos.

Uma leve fumaça azul podia ser vista saindo de cada taça. Selvena ajeitou seu vestido

olhando de modo mais atraente ao seu redor, ignorando seu pai com uma facilidade que

revelava o quanto estava acostumada àquele tipo de comentário. Sua mãe — asseada, magra,

e ciente, uma versão tão distante da descrição que Rovigo tecera no Pássaro que chegava a

ser risível — juntou-se a eles, trazendo Alais e uma empregada já idosa. Em pouco tempo, uma das mesas estava coberta com uma grande variedade de comida.

Devin aceitou uma taça de Rovigo, saboreando o aroma gélido. Ele se recostou na cadeira e

se preparou para o próximo momento, que prometia ser bastante agradável. Selvena se

levantou ao receber um olhar de sua mãe, mas apenas para encher um prato para Devin. A

jovem o serviu, sorrindo, e voltou a se sentar no carpete, um pouco mais perto do que antes.

Alais serviu Alessan e Catriana enquanto as duas lhas mais novas sentaram-se no chão,

próximas ao pai, que ergueu um punho para elas, fingindo ferocidade.

Devin duvidou que já tivesse visto um homem tão feliz por estar onde estava. E isso devia

ter transparecido na ironia divertida de seu olhar, pois Rovigo, vendo sua expressão, deu de

ombros:

— Filhas — lamentou, balançando a cabeça com pesar.

— “Cambalhotas de alegria” — lembrou-o Devin, olhando para a esposa do mercador.

Rovigo estremeceu. Um riso começava a se formar no rosto de Alix, que entreouvira a

conversa.

— Ele fez de novo, não é? — disse ela, recurvando a cabeça para um lado. — Deixe-me

adivinhar: eu tinha as proporções de um elefante e um humor insuportável, e as quatro

garotas juntas não possuíam características boas para fazer uma mulher aceitável. Acertei?

Rindo alto, Devin se virou para Rovigo — nada desconcertado —, sorrindo orgulhoso para

a esposa.

— Exatamente — disse Devin a Alix. — Mas eu devo dizer, em defesa dele, que nunca vi

alguém dar uma descrição dessas com tanta alegria.

Foi presenteado com a risada de Alix e um sorriso maravilhosamente gracioso de Alais,

sobre seu ombro, enquanto guardava a louça.

Rovigo ergueu sua taça, movendo-a em pequenos círculos para formar um padrão com a

fumaça azul.

— Você me acompanha em um brinde à memória de nosso Duque e pela glória da música?

Eu não quero desperdiçar vinho azul com brindes supérfluos.

— Nem eu — disse Alessan, baixo. E erguendo sua própria taça: — À memória. A Sandre

d’Astibar. À música.

Alessan ainda disse algo mais, muito baixo, antes de tomar o vinho.

Devin bebeu, experimentando pela terceira ou quarta vez na vida a complexidade tão rica e

surpreendente do vinho azul de Astibar. Não havia nada igual em qualquer outro lugar da

Palma. E seu preço mostrava isso. Ergueu os olhos e saudou Rovigo com sua taça.

— A todos vocês — disse Catriana, de repente. — À gentileza em meio a um caminho

escuro.

Ela sorria, um sorriso sem qualquer vestígio de falsidade ou zombaria. Devin estava

surpreso, e pensou que era injusto de sua parte surpreender-se.

Não no caminho que eu estou trilhando, dissera a moça no Palácio Sandreni. E agora

conseguia entender, pois ele também estava naquele caminho, apesar do que Catriana zera para mantê-lo longe. Tentou ver seus olhos, mas não conseguiu. Ela falava com Alix, sentada

agora ao seu lado. Pensativo por um momento, Devin voltou sua atenção para a comida.

Um momento depois, Selvena tocou seu pé, levemente.

— Você irá cantar para nós? — perguntou ela, com um sorriso delicioso, e não retirou sua

mão. — Alais e meus pais ouviram, mas o resto de nós esteve aqui o dia todo.

— Selvena! — clamaram a mãe e a irmã mais velha ao mesmo tempo. A garota se encolheu

como se tivesse levado um golpe, mas Devin percebeu que fora para o pai que ela se virara,

mordendo os lábios. Ele a encarava, com a feição séria.

— Minha querida — disse ele, num tom muito distante da zombaria de antes —, você tem

uma lição a aprender. Nossos amigos fazem música como ganha-pão. Eles são nossos

convidados esta noite. E, luz da minha vida, não devemos pedir a um convidado que

trabalhe enquanto está aqui.

Os olhos de Selvena brilharam com lágrimas. Ela abaixou a cabeça. No mesmo tom de

antes, Rovigo disse a Devin:

— Você aceita minhas desculpas? Ela não fez por mal, isso eu posso garantir.

— Eu sei que não — protestou Devin, enquanto Selvena limpava suas lágrimas. — Não há

necessidade de se desculpar.

— Realmente — concordou Alessan, deixando seu prato de comida de lado. — É verdade

que fazemos música para sobreviver, mas também fazemos música porque ela nos faz viver.

Não seria trabalho tocar entre amigos, Rovigo.

Selvena terminou de enxugar os olhos e olhou-o, agradecida.

— Eu caria feliz em cantar — disse Catriana. — A não ser, é claro, que você tivesse apenas

Devin em mente.

Devin se surpreendeu, mesmo que aquelas palavras não fossem voltadas para ele. Selvena

se encolheu, corando pela segunda vez em poucos minutos. Pelo canto do olho, Devin viu

uma expressão intrigante no rosto de Alais.

Selvena começou a se defender, séria, explicando que obviamente estendia o pedido aos

três. Alessan estava entretido pela completa reviravolta na situação. Devin teve uma intuição

súbita de que aquele homem, relaxado e sociável, estava tão próximo de ser do Príncipe de

Tigana quanto a figura arrogante e precisa que vira na cabana.

É assim que ele disfarça, pensou de repente. Assim que a ideia lhe tocou a mente, soube ser

verdade. Ele havia ouvido o homem tocar o “Lamento de Adaon”.

— Bem — disse Rovigo, sorrindo para Catriana —, se você é gentil o su ciente para atender

uma criança desbocada que envergonha seu pai. Eu por acaso tenho um conjunto de autas

de Tregea, sabe lá a Tríade por quê. Acho que em algum momento tive a ilusão de pai, em

pensar que alguma dessas criaturas pudesse ter algum tipo de talento.

Alix, que estava a vários metros de distância, ngiu que batia com uma colher na cabeça do

marido. Impassível e com seu bom humor restaurado, Rovigo enviou a lha mais nova para

buscar a auta, enquanto ele mesmo se ocupava em encher mais uma rodada de taças para todos.

Devin agrou Alais olhando para ele, do local em que ela se encontrava, próximo ao fogo.

Sem pensar, sorriu para ela. A moça não devolveu o sorriso, mas manteve o olhar, suave e

terno. Ele sentiu que seu coração mudava, por um instante, o ritmo dos batimentos.

Depois que a refeição acabou, ele e Catriana cantaram por mais de uma hora, ao som das

autas de Alessan. Na metade da apresentação, enquanto entoavam uma das velhas baladas

das terras altas da velha Certando, Rovigo saiu por um instante, voltando com um par de

tambores senzianos. De modo inicialmente tímido e muito suave, ele os acompanhou no

refrão, provando-se tão competente naquilo quanto em tudo o mais que Devin o vira fazer.

Catriana lhe lançou um sorriso particularmente deslumbrante. Rovigo não precisou de mais

nenhum estímulo para terminar com eles aquela canção, e então a próxima e a outra ainda.

Nenhum homem, Devin pegou-se pensando, precisaria de mais encorajamento do que um

olhar daqueles olhos azuis. Não que Catriana tivesse alguma vez lhe lançado um olhar

remotamente parecido. De repente, sentia-se muito confuso.

Alguém — obviamente, Alais — encheu sua taça uma terceira vez. Ele bebeu um pouco

mais rápido do que era recomendável, dada a lendária potência do vinho azul, e então

conduziu os outros três pela próxima canção. Alix anunciou, sob protestos, que seria a última

para as duas filhas mais novas.

Ele não poderia cantar sobre Tigana, e certamente não cantaria sobre paixão ou amor.

Então começou uma canção muito antiga sobre Eanna criando as estrelas e ligando cada uma

delas à sua própria memória, para que nada jamais pudesse se perder ou se esquecer, no

espaço ou no tempo.

Era o mais perto que poderia chegar do que aquela noite representava para ele; do motivo

que, no fim, fez com que tomasse as decisões que tomara.

Conforme começou a cantar, recebeu um olhar pensativo de Alessan e outro, enigmático,

de Catriana, quando os dois se juntaram a ele. Os tambores de Rovigo permaneceram em

silêncio, enquanto o mercador ouvia. Devin viu que Alais, com seus cabelos negros reluzindo

à luz das chamas, assistia-o com grande concentração. Cantou um verso inteiro olhando

diretamente para ela; então, sendo el à canção, olhou para dentro de si, para onde a música

mais pura poderia sempre ser encontrada. E não olhou para mais ninguém, enquanto

cantava para a própria Eanna, um hino aos nomes e à nomeação das coisas.

Em algum lugar, viu uma imagem em sua mente, uma estrela azul muito brilhante

chamada Micaela, solitária numa noite escura, e deixou a sensação vívida levá-lo, cada vez

mais alto, subindo conforme a voz de Catriana subia, e então descendo, suavemente, ao

final.

 

Com a atmosfera calma que fora criada, Selvena e as duas irmãs mais novas foram para cama

com incrível tranquilidade. Alguns momentos depois, Alix subiu, assim como, para a

decepção de Devin, Alais.

À porta, ela se voltou para Catriana:

— Você deve estar muito cansada. Se quiser, posso mostrar o seu quarto. Espero que não se

importe em dividi-lo comigo. Geralmente, durmo com Selvena, mas ela cará com as garotas

essa noite.

Devin esperava que Catriana reclamasse, ou pior, diante dessa separação bastante explícita

entre homens e mulheres. Mas ela o surpreendeu mais uma vez, hesitando apenas um

segundo antes de se levantar:

— Estou cansada e não me importo nem um pouco em dividir o quarto. Irá me lembrar da

minha casa.

Devin, que sorria diante da ironia da situação, de repente achou seu sorriso inadequado.

Mas Catriana o vira sorrindo; e ele preferia, honestamente, que não tivesse visto. Com

certeza, ela entenderia mal. E ocorreu a ele, em um senso de irrealidade genuíno, que eles

haviam feito amor naquela manhã.

Depois que as mulheres foram embora, os três homens se sentaram em silêncio, cada um

perdido nos próprios pensamentos. Rovigo se levantou devagar e encheu os copos com o que

sobrara do vinho. Colocou mais um pedaço de madeira na lareira e observou-o até pegar

fogo. Com um suspiro, se afundou de volta na cadeira. Olhou para os dois convidados,

enquanto brincava com sua taça.

Foi Alessan quem quebrou o silêncio:

— Devin é um amigo. Nós podemos conversar, Rovigo. Embora tema que ele esteja prestes

a ficar muito bravo conosco.

Devin se sentou abruptamente e colocou sua taça de lado. Rovigo, com uma expressão

irônica brincando nos lábios, mirou-o e então voltou o olhar, calmamente, para Alessan.

— Eu imaginei — disse Rovigo. — Embora eu suspeitasse que ele já se encontrasse conosco

agora, dadas as circunstâncias.

Alessan também sorria. Ambos se viraram para Devin.

Ele, por sua vez, sentiu-se corar. Seu cérebro percorria, freneticamente, os eventos do dia

anterior. Encarou Rovigo:

— Você não me encontrou no Pássaro por acidente. Alessan o enviou. Você mandou que

ele me seguisse, não foi? — acusou, voltando-se para o Príncipe.

Os dois homens trocaram olhares, até que Alessan respondeu.

— Mandei — admitiu. — Eu tinha uma suspeita de que haveria ritos fúnebres para Sandre

d’Astibar e que poderiam pedir para realizarmos um teste. Eu precisava saber onde você

estaria.

— Sinto dizer que estive atrás de você o tempo todo na Rua dos Templos ontem — disse

Rovigo.

Devin percebeu que ele teve a gentileza de parecer envergonhado. Mas sentia-se mais

furioso ainda, e muito confuso.

— Então você mentiu sobre o Pássaro, toda aquela história sobre ir lá toda vez que voltava

de viagem.

— Não, essa parte era verdade — disse Rovigo. — Tudo o que eu disse era verdade, Devin.

Assim que você foi forçado a ir para a zona do porto, acabou em um lugar que eu conheço

muito bem.

— E Catriana? — perguntou Devin, furioso. — E quanto a ela? Como ela...

— Eu paguei a um garoto para levar uma mensagem à estalagem, quando vi que o velho

Goro havia deixado você car no Pássaro. Devin, não que bravo. Havia um propósito nisso

tudo.

— Havia — repetiu Alessan. — Você já deveria entender agora. A razão pela qual Catriana

e eu viemos até Astibar com a trupe de Menico era me certi car do que eu esperava

acontecer com a morte do Duque.

— Espere um minuto! — exclamou Devin. — Esperava? Como vocês sabiam que ele iria

morrer?

— Rovigo me contou — respondeu Alessan, com simplicidade. Esperou um instante de

silêncio, para que a informação fosse registrada. — Ele foi meu contato em Astibar pelos

últimos nove anos. Quando o conheci, tive a mesma impressão dele que você teve ontem, e

tão rápido quanto.

Devin, com a mente girando, olhou para o mercador que conhecera por acaso no dia

anterior. Não tão por acaso, agora. Rovigo abaixou sua taça.

— Eu me sinto do mesmo modo que vocês com relação aos tiranos — disse ele, baixo. — O

governo de Alberico aqui, ou o de Brandin de Ygrath, em Chiara, em Corte, em Asoli e na

terra da qual vem Alessan, cujo nome não posso ouvir nem lembrar, não importa o quanto

eu tente.

Devin engoliu em seco.

— E o Duque Sandre? Como você…?

— Eu os espionei — disse Rovigo, calmamente. — Não era difícil. Eu costumava monitorar

as idas e vindas de Tomasso. Eles estavam completamente concentrados em Alberico; eu era

um vizinho aqui na distrada, foi fácil entrar escondido em suas terras. Descobri sobre o

ngimento de Tomasso anos atrás. E, embora não me orgulhe de dizer isso, eu estava do

lado de fora de sua janela, na casa e na cabana, nas muitas noites do ano passado em que

eles planejaram os detalhes da morte de Sandre.

Devin lançou um olhar rápido para Alessan, abrindo a boca para dizer algo, mas fechando-

a em seguida, sem falar nada.

Alessan aquiesceu.

— Obrigado — disse ele, e voltou-se para Rovigo. — Há algumas coisas aqui, como já

houve outras vezes, que você desconhece. E é melhor que seja dessa forma, para sua

segurança e para a de sua família. Imagino que, a essa altura, você entenda que não se trata

de confiar ou não.

— Depois de nove anos, acho que já entendi isso — murmurou Rovigo. — O que devo

saber sobre os acontecimentos desta noite?

— Alberico chegou logo após eu me juntar a Tomasso e aos outros, na cabana. Baerd e

Catriana nos avisaram e tive tempo de me esconder. Com Devin, que chegara sozinho até a

cabana.

— Sozinho? Como? — perguntou Rovigo, surpreso.

Devin ergueu a cabeça, com dignidade.

— Eu tenho meus próprios meios.

Pelo canto do olho, viu Alessan conter um riso e se sentiu ridículo. Consternado, explicou:

— Entreouvi uma conversa dos Sandreni, antes de começar a segunda sessão dos ritos

fúnebres.

Rovigo parecia ter mais uma ou duas perguntas, mas, com um olhar de Alessan, guardou-

as. Devin ficou grato por isso. Alessan disse:

— Quando voltamos à cabana, encontramos os lordes mortos. Tomasso foi levado. Baerd

ficou para trás, para cuidar de uma série de coisas na cabana. Mais tarde, ele a queimará.

— Passamos pelos barbadianos quando saíamos da cidade — observou Rovigo, pensativo.

— Eu vi Tomasso bar Sandre com eles. Temi por você, Alessan.

— Com razão — disse Alessan, secamente. — Havia um informante ali. O garoto, Herado,

filho de Gianno, trabalhava para Alberico.

O rosto de Rovigo demonstrava sua surpresa.

— Família? Que Morian o condene à escuridão por isso! — soltou, duramente. — Como

ele pôde fazer tal coisa?

Alessan deu sua encolhida de ombros característica.

— Muito do que tínhamos desmoronou desde a chegada dos tiranos, não é mesmo?

Houve um silêncio, no qual Rovigo lutou para controlar seu abalo e sua raiva. Devin tossiu,

nervoso, e rompeu o silêncio:

— Sua família, Rovigo. Eles…

— Eles não sabem nada sobre isso — disse o mercador, recuperando a calma. — Nem Alix

nem as meninas haviam visto Alessan ou Catriana antes desta noite. Eu conheci Alessan e

Baerd na cidade de Tregea, nove anos atrás, e descobrimos ao longo daquela noite que

possuíamos alguns sonhos e alguns inimigos em comum. Eles me contaram alguns de seus

propósitos e eu disse que estava disposto a ajudá-los da melhor maneira possível, desde que

não colocassem minha esposa e minhas lhas em risco. É o que tenho tentado fazer. E

continuarei tentando. Minha maior esperança é a de viver o bastante para ouvir o juramento

que Alessan profere quando bebe vinho azul.

Ele disse aquelas últimas palavras em um tom de voz baixo, mas com óbvia comoção. Devin

olhou para o Príncipe, lembrando-se das palavras inaudíveis que ele murmurara antes de

beber.

Alessan fixou seu olhar em Rovigo.

— Existe mais uma coisa que você deve saber: Devin é um de nós, além da forma óbvia.

Descobri isso por acidente, ontem à tarde. Ele nasceu na mesma província que eu, antes da queda. E é por isso que ele está aqui.

Rovigo não disse nada.

— Qual é seu juramento? — perguntou Devin. E então, mais timidamente. — É algo que

eu deva saber?

— Não é nada que mude o curso das coisas. Apenas faço uma oração minha. — A voz de

Alessan fez-se muito cuidadosa e muito clara. — Sempre faço. Tigana, deixe que sua

memória seja como uma lâmina em minha alma.

Devin fechou os olhos. As palavras e a voz. Ninguém disse nada. Devin abriu os olhos e

encarou Rovigo, cuja fronte torcia-se numa consternação furiosa.

— Meu amigo, Devin precisa entender isso — disse-lhe Alessan, gentilmente. — É parte do

legado que lhe foi tirado. O que você me ouviu dizer?

Rovigo gesticulou, visivelmente frustrado.

— A mesma coisa que ouvi na primeira vez em que isso aconteceu. Naquela noite, nove

anos atrás, quando começamos a beber vinho azul. Ouvi você pedindo para que a memória

de algo fosse uma lâmina em você. Na sua alma. Mas não ouvi... perdi o começo de novo.

Tem mais alguma coisa…

— Tigana — disse Alessan novamente. Ternamente, tão claro quanto um cristal.

Mas Devin viu a expressão de Rovigo car ainda mais perplexa e abatida. O mercador

buscou sua taça, e virou-a.

— Você poderia... mais uma vez?

— Tigana — disse Devin, antes que Alessan falasse. Para que aquele legado, aquela mágoa

no cerne das coisas, fosse mais verdadeiramente sua, como de fato era. Pois essa terra era

dele, ou ao menos havia sido um dia, e seu nome era parte de si próprio, ambos perdidos.

Levados embora.

— Deixe que sua memória seja como uma lâmina em minha alma — completou ele, voz

trêmula no nal, embora tivesse feito um enorme esforço para que soasse rme como a de

Alessan.

Espantado, desorientado e visivelmente desgastado, Rovigo balançou a cabeça.

— E a magia de Brandin está por trás disso?

— Sim — respondeu Alessan friamente.

Após um instante, Rovigo suspirou e se recostou em sua cadeira.

— Sinto muito — disse ele, com calma. — Perdoem-me, vocês dois. Eu não deveria ter

perguntado. Abri uma ferida.

— Fui eu quem perguntou — disse Devin, rapidamente.

— A ferida está sempre aberta — disse Alessan, em seguida.

Havia muita compaixão no rosto de Rovigo. Era difícil perceber que se tratava do mesmo

homem que estava brincando sobre arrumar camponeses senzianos como maridos para as

lhas. O mercador se ergueu de repente e se ocupou com o fogo, embora as chamas

estivessem ardendo perfeitamente. Enquanto isso, Devin olhou para Alessan, que retribuiu o olhar. Não disseram nada. As sobrancelhas de Alessan se ergueram um pouco e ele deu de

ombros da maneira que Devin já o vira fazer.

— O que faremos agora? — perguntou Rovigo d’Astibar, voltando à sua cadeira, mas

permanecendo em pé ao lado dela. Seu rosto corava, talvez por causa do fogo. — Estou tão

incomodado com isso como da primeira vez em que nos encontramos. Não gosto de magia.

Especialmente desse tipo. Continua sendo um assunto de… grande importância para mim,

um dia conseguir ouvir o que não posso agora.

Devin sentiu uma onda de ânimo dentro dele, mais uma vez: a outra parte de seus

sentimentos naquela noite. Sua raiva por ter sido enganado no Pássaro já se dissipara.

Aqueles dois, assim como Baerd e o Duque, eram homens em quem se podia con ar de

todos os modos possíveis, e estavam traçando planos que poderiam mudar o mapa da Palma,

ou do mundo todo. E encontrava-se ali com eles, era um deles, perseguindo um sonho de

liberdade. Devin tomou um longo gole de vinho azul.

Entretanto, a expressão de Alessan era de preocupação. Ele pareceu, de repente, como se

tivesse recebido um novo peso sobre os ombros. Recostou-se devagar na cadeira, passando a

mão pelo cabelo desgrenhado enquanto olhava para Rovigo em silêncio por um longo tempo.

Olhando de um homem para o outro, Devin abruptamente voltou a se sentir perdido, sua

empolgação esvaindo-se quase tão rápido quanto havia surgido.

— Rovigo, nós já não o envolvemos o su ciente? — perguntou Alessan, depois de um

tempo. — Devo admitir que isso se tornou mais difícil para mim, agora que conheci sua

esposa e suas lhas. O próximo ano poderá trazer mudanças em muitas coisas, e não posso

nem começar a enumerar os perigos que virão. Quatro homens morreram naquela cabana

esta noite, e acho que você sabe tão bem quanto eu que vários outros irão morrer nas rodas

de tortura em Astibar nas próximas semanas. Uma coisa foi você manter o ouvido atento por

aqui e durante as suas viagens, monitorando discretamente as ações de Alberico e de Sandre,

com você, eu e Baerd nos encontrando e tocando palmas e conversando como amigos. Mas

essa história irá tomar outra forma e temo acabar por colocá-lo em perigo.

Rovigo concordou.

— Imaginei que você fosse dizer algo desse tipo. Agradeço sua preocupação. Mas, Alessan,

já tomei minha decisão há muito tempo. Eu... não esperava conquistar a liberdade sem pagar

um preço por ela. Você disse, três dias atrás, que a vinda da primavera marcaria uma virada

na vida de todos nós. Se houver algum modo de poder ajudar nos dias que virão, você deve

me dizer. — Ele hesitou, então concluiu: — Uma das razões pelas quais eu amo Alix é que

ela repetiria tudo o que eu disse caso estivesse aqui e soubesse de tudo.

A expressão de Alessan ainda mostrava preocupação.

— Mas ela não está conosco e não sabe — disse ele. — Há razões para ter sido assim até

agora e haverá muitas mais depois desta noite. E as suas garotas? Como posso pedir que as

coloque em perigo?

— Como você pode tomar essa decisão por mim ou por elas? — respondeu Rovigo sem hesitar, embora de modo suave. — Onde estaria a nossa escolha, a nossa liberdade, se você

zesse isso? É claro que eu preferiria não fazer nada que as colocasse em perigo, e não posso

parar completamente com meus negócios. Mas dentro dessas restrições, não há nenhuma

ajuda que eu possa oferecer que fará alguma diferença?

Entendendo, por m, a fonte das preocupações de Alessan, Devin se manteve quieto. Isso

era algo que não havia sequer lhe ocorrido, mas contra o que Alessan parecia estar lutando a

noite inteira. Sentiu-se humilhado, sóbrio e com medo, embora não por si mesmo.

Pessoas serão colocadas em perigo por causa de tudo o que fizermos, disse o Príncipe na

oresta, falando de Menico. E agora Devin começava a entender, dolorosamente, a verdade

daquelas palavras.

Não queria que aquelas pessoas se machucassem. De maneira alguma. Sua empolgação

havia sumido e Devin sentia, pela primeira vez, uma dentre as várias dores secundárias que

jaziam no caminho que parecia ter encontrado. Encarava a distância que aquele caminho

impunha entre ele e, pelo que notava, quase todos que viria a conhecer. Até mesmo os

amigos. Até mesmo pessoas que compartilhavam uma parte ou todo o seu sonho. Pensou de

novo em Catriana no palácio e entendeu-a ainda melhor agora do que uma hora antes.

Observando, enquanto deixava a sabedoria crescer dentro de si e guiá-lo pelo silêncio,

Devin focou-se no rosto de Alessan, temporariamente desprotegido, e viu que ele chegava a

um momento de difícil escolha. Observou o Príncipe respirar fundo e, lentamente, receber

mais um peso sobre os ombros, o preço de ter seu sangue. Alessan deu um sorriso estranho e

pesaroso.

— Na verdade, há sim, Rovigo — disse ele. — Existe algo que você pode fazer para nos

ajudar agora. — Ele hesitou e, inesperadamente, o sorriso aumentou e alcançou seus olhos.

— Você alguma vez considerou a hipótese — continuou, numa voz cuidadosamente casual

— de ter alguns sócios?

Por apenas um instante, Rovigo pareceu perplexo; então, um sorriso rápido de

compreensão se abriu em seu rosto.

— Entendo — ele disse. — Vocês precisam de acesso a alguns lugares.

Alessan concordou.

— Além disso, há mais de nós agora. Devin está conosco, e podem ter outros antes da

primavera. As coisas serão diferentes de quando éramos apenas Baerd e eu. Tenho pensado

nisso desde que Catriana se uniu a nós.

Sua voz se acelerou, tornando-se mais nítida. Devin lembrou-se de ter ouvido aquele tom

antes, na cabana. Este era o homem que ele encontrara lá pela primeira vez. Alessan disse:

— Se estivermos juntos, no mesmo negócio, você e eu teremos formas mais legítimas para

trocar informações, e irei precisar de informações com certa regularidade durante o inverno.

Como sócios, teremos motivos para escrever um ao outro, para falar de qualquer coisa que

afete os negócios. E, é claro, tudo afeta os negócios.

— De fato — disse Rovigo, com os olhos fixos em Alessan.

— Podemos nos comunicar diretamente, se você tiver recursos para isso, ou por meio de

Taccio, em Ferraut. — E olhando rápido para Devin, explicou: — A propósito, eu conheço

Taccio, e isso também não era uma coincidência. Presumo que você já tivesse notado.

Na verdade, Devin não havia sequer pensado no assunto. Mas antes que pudesse

responder, Alessan se voltou para Rovigo e indagou:

— Imagino que você tenha mensageiros em quem possa confiar.

Rovigo assentiu. Alessan continuou:

— O grande problema é que, embora ainda possamos viajar como músicos, as pessoas nos

reconhecerão depois da apresentação desta manhã. Se eu tivesse pensado nisso antes, teria

desafinado um pouco ou pedido a Devin que fosse um pouco menos impressionante.

— Não, você não faria isso — disse Devin, baixinho. — O que quer que você zesse,

certamente estragar a música não seria uma delas.

Alessan entortou os lábios. Rovigo sorriu.

— Talvez — o Príncipe murmurou. — Afinal, foi mesmo especial, não foi?

Houve um breve silêncio. Rovigo se levantou e colocou mais lenha no fogo.

— Tudo faz sentido — disse Alessan. — Há certos lugares e certas atividades que seriam

estranhas para nós como músicos. Especialmente músicos renomados. Como mercadores,

teríamos acesso a tais lugares.

— Certas ilhas, talvez? — perguntou Rovigo, falando baixo, ao pé do fogo.

— Talvez — concordou Alessan. — Se chegarmos a isso. Embora talvez haja um empate

aqui: artistas são bem-vindos na corte de Brandin, em Chiara. Isso nos dá outra opção, e

gosto de ter várias opções com que trabalhar. Já foi necessário, uma ou duas vezes, um

personagem que interpretei sumir ou morrer.

Sua voz soava tranquila, casual. Ele bebericou seu vinho.

Passado um instante, ele se virou de volta para Rovigo, que coçava o queixo numa perfeita

imitação de comerciante avarento.

— Bem — disse o comerciante com uma voz cheia de cobiça —, parece que os senhores me

apresentaram uma proposta bastante... intrigante, cavalheiros. Mas devo fazer uma ou duas

perguntas, antes de aceitá-la. Eu conheço Alessan há algum tempo, mas esse assunto nunca

surgiu antes. — Seus olhos se estreitaram com astúcia exagerada. — O que você sabe sobre

negócios, se é que sabe alguma coisa?

Alessan soltou uma gargalhada, mas logo ficou sério mais uma vez.

— Você tem algum dinheiro à mão? — perguntou ele.

— Meu navio acabou de chegar — respondeu Rovigo. — Dinheiro de dois dias de

negociações, e crédito fácil com base nos lucros das próximas semanas. Por quê?

— Eu iria sugerir que você comprasse uma quantidade razoável, mas não chamativa, de

grãos nas próximas 48 horas. Na verdade, nas próximas 24, se conseguir.

Rovigo ficou pensativo.

— Eu poderia fazer isso — disse ele. — E meus recursos são limitados, nenhuma compra que eu faça irá chamar a atenção. Também tenho um contato: o mordomo das fazendas

Nievolene, próximo à fronteira de Ferraut.

— Não de Nievole — disse Alessan, rapidamente.

Outro silêncio. Rovigo assentiu devagar.

— Entendo — disse Rovigo, assustando Devin com seu raciocínio rápido. — Você acha que

podemos esperar alguns confiscos depois do Festival?

— Podemos — disse Alessan. — Entre outras coisas ainda menos agradáveis. Você tem

outra fonte de que possa comprar grãos?

— Talvez.

Rovigo olhou para Alessan e Devin, passando os olhos por eles.

— Quatro sócios, então? Nós três e Baerd. É isso?

Alessan aquiesceu.

— Quase certo, mas serão cinco sócios. Há mais uma pessoa que deve chegar em breve,

para dividir a nossa parte, se não houver problemas para você.

— E por que haveria? Isso não tiraria nada da minha parte. Irei conhecer essa pessoa?

— Espero que sim, mais cedo ou mais tarde — disse Alessan. — Espero que vocês se

entendam.

— Certo — disse Rovigo, assertivo. — Os acordos comuns para uma associação contraina

dizem que dois terços pertencem àquele que investe os fundos, e um terço ca para as partes

que viajam e investem seu tempo. Baseado no que você acabou de me contar, penso que

vocês trarão informações muito valiosas para nosso negócio. Ofereço dividirmos os nossos

lucros, meio a meio, em todos os negócios que conduzirmos juntos. Parece aceitável a vocês?

Ele olhava para Devin. Com o máximo de compostura que conseguiu reunir, o rapaz

respondeu:

— Bastante aceitável.

— É mais do que o habitual — disse Alessan. Sua expressão mostrava, novamente,

preocupação.

Pareceu que continuaria falando, mas Rovigo o interrompeu:

— Então está feito. Nada mais a ser dito, Alessan. Iremos para a cidade amanhã, para

documentar e selar a contraina. Para onde vocês pretendem ir depois do Festival?

— Ferraut, eu acho — disse Alessan, lentamente. — Podemos discutir o que faremos

depois, mas tenho algo para fazer lá, e uma ideia sobre uns negócios com Senzio que talvez

lhe interesse.

— Ferraut? — disse Rovigo, ignorando os últimos comentários. Um sorriso se desenhou

sobre todo o seu rosto. — Ferraut! Isso é esplêndido. Absolutamente esplêndido! Vocês já

irão me economizar algum dinheiro! Vou lhes dar uma carruagem e vocês podem levar a

cama nova para Ingonida!

 

Enquanto subia as escadas, Alais não conseguia se lembrar da última vez em que se sentira

tão feliz. Não que tendesse a car mal-humorada, como Selvena, mas a vida dentro de casa costumava ser muito quieta, especialmente quando seu pai estava viajando.

E agora tantas coisas pareciam estar acontecendo ao mesmo tempo!

Rovigo estava de volta, depois de uma viagem mais longa do que o habitual até a costa. Alix

e Alais nunca cavam tranquilas quando ele ia para o sul, pelas montanhas que davam em

Quileia, não importava o quanto ele prometesse tomar cuidado. E, além disso, aquela viagem

fora no nal do outono, com seus ventos. Mas ele estava em casa agora, e havia trazido

consigo o Festival das Vinhas. Era o segundo Festival de Alais, que amara cada dia e cada

noite, absorvendo com seus olhos arregalados tudo o que via. Assimilando.

Na multidão que se aglomerava na praça em frente ao Palácio Sandreni, naquela manhã,

ela permanecera imóvel, ouvindo uma voz muito clara, que planava desde o pátio interno até

o silêncio pouco natural daquele aglomerado. Uma voz que lamentava a morte de Adaon em

meio aos cedros de Tregea de modo tão amargo e tão doce que Alais teve medo de chorar.

Ela fechara os olhos.

Foi-lhe uma fonte de orgulho surpreso quando Rovigo mencionou para ela e a mãe,

casualmente, que no dia anterior tomara uma bebida com um dos cantores que participavam

dos ritos fúnebres do Duque. Ele disse que até convidara o rapaz a visitá-lo e conhecer suas

quatro horríveis moças. A provocação não incomodou Alais. Ela até acharia que algo estava

errado se Rovigo falasse delas de algum outro modo. Nem ela e nem suas irmãs nutriam

qualquer dúvida em relação à afeição do pai. Precisavam apenas olhar nos olhos dele.

Enquanto voltava para casa, tarde da noite, já bastante aterrorizada pelo ruidoso encontro

com os soldados barbadianos enquanto passavam pelas muralhas da cidade, ela se assustara

quando ouvira uma voz, chamando-os em meio à escuridão perto da porta de casa.

Então, quando seu pai respondeu, e Alais pôde gradualmente perceber de quem se tratava,

ela pensou que seu coração fosse parar de tão empolgada que estava. Pudera sentir a cor

avermelhada tomar-lhe as bochechas.

Quando cou claro que os músicos iriam entrar, precisou de extremo autocontrole para

recuperar o semblante e a compostura apropriados à filha mais velha e mais confiável.

Dentro de casa, foi mais fácil, já que Selvena começara seu previsível frenesi de

acasalamento no instante em que os dois homens passaram pela porta. Era um

comportamento tão transparente aos olhos de sua irmã mais velha que Alais logo voltou à

sua costumeira postura de observadora desinteressada. Selvena havia chorado até dormir na

maior parte do ano, pois cada vez parecia mais que ainda estaria solteira no dia de seu 18o

aniversário, na primavera.

Devin, o cantor, era menor e tinha uma aparência mais jovem do que ela esperava. Mas era

aprumado e esbelto, com um sorriso agradável, um olhar inteligente e cabelos castanhos que

faziam uma curva sobre as orelhas. Alais esperava que ele fosse arrogante ou pretensioso,

apesar do que seu pai dissera, mas viu que o jovem cantor não era nada disso.

O outro homem, Alessan, parecia ser uns quinze anos mais velho, talvez mais. Seu cabelo

negro e emaranhado se mostrava prematuramente grisalho nas têmporas. Tinha um rosto

no e expressivo, com olhos acinzentados e uma boca larga. Ele a intimidava um pouco,

embora tivesse brincado com seu pai desde o começo, da exata maneira que, ela sabia,

Rovigo gostava.

Talvez fosse isso, pensou Alais: poucas pessoas que ela já encontrara poderiam competir

com seu pai, em piadas ou em qualquer outra coisa. E aquele homem de traços precisos e

zombeteiros conseguia fazê-lo sem nenhum esforço. Imaginou, consciente de que tal

pensamento era bastante arrogante, como um músico de Tregea conseguia fazer isso. Por

outro lado, pensou, não sabia muito sobre músicos.

Fato que a deixou ainda mais curiosa quanto à mulher. Alais achou Catriana

assustadoramente linda. Com sua altura imponente e aqueles olhos tão espantosamente

azuis, sob cabelos tão vermelhos que pareciam uma segunda lareira na sala... ela fez com que

Alais se sentisse pequena, pálida e sem graça. Curiosamente, esse sentimento se uniu aos

ertes exagerados de Selvena e ela relaxou, mais do que se inquietou: esse tipo de

competição era algo no qual simplesmente não iria se envolver. Olhando com mais atenção,

vira Catriana encarando os flertes de Selvena, aos pés de Devin; e notou o olhar sardônico da

cantora ruiva para seu colega de música.

Alais decidira ir até a cozinha. Sua mãe e Menka poderiam estar precisando de ajuda.

Quando chegou ali, Alix lançou-lhe um olhar rápido e pensativo, mas não comentou nada.

Elas rapidamente aprontaram uma refeição. De volta à sala, Alais ajudou a pôr a mesa, e

ouviu e observou tudo de sua cadeira favorita perto do fogo. Mais tarde teve razões para

agradecer a falta de decoro de Selvena. Nenhum outro membro daquela família teria

sonhado em pedir aos seus convidados para cantarem.

Dessa vez, podia enxergar os cantores e manteve seus olhos bem abertos. Perto do nal,

Devin chegou a cantar olhando diretamente para ela, fazendo-a corar violentamente,

enquanto forçava-se a não desviar o olhar. Durante o resto daquela canção, sobre Eanna

dando nomes às estrelas, percebeu que sua mente vagava por coisas estranhas a ela — o tipo

de coisas sobre as quais Selvena divagava todas as noites, em detalhes. Alais esperava que

todos atribuíssem sua cor ao calor do fogo.

Entretanto, perguntou-se sobre uma coisa, tendo observado as pessoas pela maior parte de

sua vida. Havia algo entre Devin e Catriana, mas certamente não era amor — ou mesmo

afeto do jeito que ela conhecia. Eles olhavam um para o outro, de vez em quando, e

geralmente quando o outro não estava percebendo. E aqueles olhares eram mais

desa adores do que qualquer outra coisa. Alais lembrou a si mesma outra vez que o mundo

daquelas pessoas era mais distante do seu do que imaginava.

As mais novas se despediram e foram dormir. Selvena o fez suspeitosamente sem reclamar

e tocando as pontas dos dedos, de maneira escandalosa, com a palma de cada um dos

homens em despedida. Alais trocou um olhar com o pai, e pouco depois se levantou quando

a mãe o fez.

Foi apenas por impulso que convidou Catriana a subir com ela. Assim que as palavras saíram de sua boca, percebeu como iriam soar a uma mulher tão independente e

acostumada com a companhia de outros homens. Alais se arrependeu interiormente por seu

jeito atrapalhado e provinciano, e se preparou para receber uma recusa. Catriana, no

entanto, sorriu de maneira graciosa enquanto se levantava.

— Irá me lembrar da minha casa — dissera ela.

Pensando naquilo enquanto subiam as escadas, passando pelas luminárias e pelas pinturas

que seu avô trouxera de Khardhun há muitos e muitos anos, Alais tentou entender o que

levaria uma garota de sua própria idade a se aventurar pelas di culdades e perigos de longas

estradas, sem ter alojamento certo. Por longas noites e por homens que pensariam que, se

estava entre eles, encontrava-se disponível. Tentou, mas realmente não conseguiu entender.

Apesar disso, ou talvez por causa disso, um sentimento generoso brotou em sua alma em

relação à outra mulher.

— Obrigada pela música — disse ela, timidamente.

— É um pequeno pagamento pela sua gentileza — respondeu Catriana, suavemente.

— Não tão pequeno quanto você pensa — disse Alais. — Nosso quarto é logo aqui. Fico

feliz que isso traga lembranças de sua casa... espero que sejam boas memórias.

Fora um pouco intrometida, mas não rude, ela esperava. Queria falar com aquela mulher,

queria que fossem amigas, queria aprender o máximo que pudesse sobre uma vida tão

distante da sua.

Entraram no quarto grande. Menka já havia preparado o fogo e as duas camas. As colchas

eram novas naquele outono — mais um contrabando que Rovigo trouxera de Quileia, onde

os invernos eram muito mais rigorosos do que ali.

Catriana riu, enquanto arqueava as sobrancelhas, vislumbrando o quarto.

— Dividir um quarto, sim. Isto é muito mais do que conheci em uma cabana de

pescadores.

Alais corou, temendo tê-la ofendido, mas antes de conseguir falar, Catriana se virou para

ela, com os olhos arregalados, e disse casualmente:

— Diga-me: vamos precisar amarrar sua irmã? Ela parece estar no cio, e temo pela

segurança dos dois homens lá embaixo.

Em um segundo, Alais passou de sentir mimada e insensível por estar vermelha com o

choque. Então viu um sorriso surgir rapidamente no rosto da outra mulher e riu alto,

livrando-se da ansiedade e da culpa.

— Ela é terrível, não é? Ela jurou que vai se matar de algum jeito dramático e horrível, se

não estiver casada durante o Festival do ano que vem.

Catriana balançou a cabeça.

— Conheci algumas garotas como ela, de onde vim. E também conheci algumas na estrada.

Nunca consegui entendê-las.

— Nem eu — disse Alais, um pouco rápido demais. Catriana olhou-a. Alais arriscou um

sorriso, hesitante. — Acho que é algo que temos em comum, então?

— Uma coisa — disse a outra mulher, virando-se indiferente. Ela se voltou para uma das

tapeçarias na parede e perguntou, enquanto passava os dedos por ela: — Isso é muito bonito.

Onde seu pai encontrou?

— Eu fiz — disse Alais. Sentiu-se tratada como uma criança, o que a irritou.

Isso deve ter transparecido em sua voz, pois Catriana se virou para olhá-la sobre o ombro.

As duas mulheres trocaram olhares em silêncio. Catriana suspirou.

— Sou difícil de ter como amiga — disse ela, devagar. — Não acho que valha seu esforço.

— Não é esforço — disse Alais, serenamente. — Além do que, talvez eu vá precisar da sua

ajuda, para amarrar Selvena.

Surpresa, Catriana riu.

— Ela vai car bem — disse ela, sentando-se em uma das camas. — Nenhum dos dois irá

tocar nela enquanto forem convidados na casa de seu pai. Ainda que ela se esgueire pelo

quarto deles, vestindo apenas uma única luva vermelha.

Surpresa pela segunda vez, embora começasse a achar a sensação estranhamente divertida,

Alais riu e se sentou em sua própria cama, balançando as pernas. Os pés de Catriana,

percebeu ela com tristeza, tocavam facilmente o carpete.

— Pode ser que ela faça isso — sussurrou Alais, sorrindo com a ideia. — Acho até que ela

tem uma luva vermelha guardada em algum lugar!

Catriana balançou sua cabeça.

— Então acho que teremos de escolher entre amarrá-la como um bezerro ou con ar nos

rapazes. Mas como eu disse: eles não farão nada.

— Imagino que você os conheça muito bem — Alais arriscou.

Ainda não tinha certeza se suas palavras gerariam uma reprovação ou um sorriso. Estava

descobrindo que aquela não era uma mulher fácil de lidar.

— Conheço Alessan melhor — disse Catriana. — Mas Devin tem andado pelas estradas por

um longo tempo, e não tenho dúvidas de que conhece as regras.

Olhou para o lado ao dizer essas palavras, corando um pouco.

Ainda temerosa de uma nova rejeição, Alais disse com cautela:

— Eu não sei nada disso para dizer a verdade. Existem regras? Algum deles... Você tem

problemas enquanto viaja?

Catriana deu de ombros.

— Do tipo de problemas que sua irmã espera encontrar? Não com os músicos. Há um

código não escrito, ou apenas certo tipo de mulheres entraria nas companhias, e isso afetaria

a música. E a música é algo realmente importante para a maioria das trupes. Pelo menos para

aquelas que duram. Os homens podem se machucar bastante por mexerem com uma garota.

E eles com certeza nunca irão encontrar trabalho, caso isso aconteça com muita frequência.

— Entendo — disse Alais, tentando imaginar.

— Na verdade, é até esperado que você encontre alguém — complementou Catriana. —

Como se fosse o mínimo que você pudesse fazer para não ser vista como uma tentação. Então você encontra um homem de quem gosta. Algumas garotas encontram uma mulher, é

claro. É bem comum também.

— Oh! — disse Alais, juntando as mãos sobre o colo.

Catriana, esperta o suficiente, percebera um traço de diversão e malícia mescladas.

— Não se preocupe — disse ela gentilmente, apontando o olhar para o local que as mãos de

Alais protegiam, como uma barreira. — Essa luva não me serve.

Abruptamente, Alais colocou as mãos ao lado de seu corpo, enquanto corava furiosamente.

— Eu não estava preocupada — disse ela, tentando parecer casual. Atingida pela expressão

zombeteira, devolveu: — Que luva lhe serve, então?

A diversão no rosto da outra mulher desapareceu rapidamente. Houve um silêncio breve.

— Então, você tem alguma personalidade — julgou Catriana. — Eu tinha minhas dúvidas.

— Isso é bem condescendente de sua parte — disse Alais, movida por uma raiva que lhe

era rara. — Como você poderia ter certeza a respeito de qualquer coisa sobre mim? E por que

eu deixaria que notasse isso?

Novamente, houve um silêncio; e, novamente, Catriana a surpreendeu:

— Sinto muito. De verdade. Não sou mesmo muito boa nisso. Eu avisei. — E, olhando para

o outro lado, continuou: — O que acontece é que você acertou um nervo, e tendo a car

agressiva quando isso acontece.

A raiva de Alais, desaparecendo tão rápido quanto surgira, já havia sumido enquanto a

outra mulher falava. Ela era, lembrou-se com dureza, uma convidada em sua casa.

Alais não teve chance de responder de imediato ou mesmo de tentar consertar a situação,

pois Menka entrou no quarto naquele exato instante, com uma bacia de água quente vinda

da cozinha, seguida pelo mais jovem dos aprendizes de Rovigo, que trazia uma segunda

vasilha e toalhas, penduradas sobre ambos os ombros. Os olhos do garoto se voltaram

desesperadamente para baixo, enquanto carregava a bacia e as toalhas para aquele quarto

com duas mulheres, colocando os objetos sobre a mesa, junto à janela.

A barulheira que Menka inevitavelmente fazia aonde quer que fosse quebrou o clima por

completo — tanto em seu lado positivo, quanto no negativo, pensou Alais. Depois que os

dois serviçais saíram, as mulheres se lavaram em silêncio. Alais, olhando de esguelha para o

corpo longo e esguio da outra, sentiu-se ainda mais desajustada em seu corpo pequeno e

branco e na vida fechada que possuía. Ela se deitou, desejando poder, de algum modo,

recomeçar toda aquela conversa.

— Boa noite — disse ela.

— Boa noite — respondeu Catriana, após um momento.

Alais tentou ler um convite a continuar a conversa no tom da outra, mas não teve certeza

de encontrá-lo. Se Catriana quisesse conversar, pensou, ela só precisava falar alguma coisa.

Apagaram as velas ao lado de suas camas e caram deitadas, silenciosas, em meio à

semiescuridão. Alais observou o brilho rubro das chamas, dobrou os dedos dos pés ao redor

do tijolo quente que Menka pusera ao pé de sua cama e pensou que a distância até o lado do quarto que era de Selvena nunca parecera tão grande.

Algum tempo depois, Alais ainda não conseguira dormir, apesar da chama já ter se

reduzido a brasas, e ouviu uma explosão de risos, vinda dos três homens lá embaixo. O som

caloroso e cativante da risada de seu pai chegou até ela de alguma forma, aliviando sua

tensão. Ele estava em casa. Sentiu-se abrigada e segura. Sorriu para si mesma na escuridão.

Ouviu os homens subindo as escadas, pouco depois, indo cada qual para seu quarto.

Ficou acordada por um tempo, com o ouvido atento, tentando captar o som de sua irmã no

corredor — embora realmente não acreditasse que Selvena zesse isso. Não ouviu nada e,

afinal, dormiu.

Sonhou que repousava no topo de uma colina em um lugar estranho. E um homem estava

lá com ela. Deitando-se sobre ela. Uma noite suave e sem lua, repleta de estrelas. Deitou-se

com ele naquele lugar alto, em meio ao orvalho e às ores de verão. E naquele local

desconhecido de seus sonhos, Alais se encheu de complexos desejos que nunca poderia

mencionar em voz alta.

 

Estava muito frio na masmorra em que nalmente foi atirado. As pedras eram úmidas e

geladas, cheirando a urina e fezes. Deixaram que vestisse apenas suas roupas de baixo, de

linho, e as calças. Havia ratos na cela. Não conseguia vê-los em meio à escuridão, mas já fora

mordido duas vezes, quando cochilara.

Antes, estivera nu. O novo capitão da guarda — o substituto do anterior, que se matara —

permitiu a seus homens brincarem com o prisioneiro, antes de tranca á-lo para passar a

noite. Todos eles conheciam a reputação de Tomasso. Não havia quem não conhecesse. Ele

havia garantido isso; fazia parte do plano.

Então os guardas tiraram suas roupas, na desagradável claridade da sala de guarda, e se

divertiram, cutucando-o com suas espadas ou com o atiçador de fogo, ainda quente.

Deslizavam as lâminas ao redor de seu sexo ácido, espetavam-no nas nádegas e na barriga.

Amarrado e sem qualquer amparo, Tomasso queria apenas fechar os olhos e desejar que

tudo aquilo acabasse.

Por alguma razão, era a memória de Taeri que não o deixava desistir. Ainda não conseguia

acreditar que o irmão mais novo estava morto. Ou que Taeri tivesse sido tão corajoso e tão

decidido em seus últimos minutos. Pensar nisso fez com que tivesse vontade de chorar, mas

não iria deixar que os barbadianos vissem isso. Era um Sandreni, o que parecia signi car

mais para ele agora, nu e perto de seu fim, do que havia significado por toda a sua vida.

Então manteve seus olhos abertos e xou-os friamente no novo capitão. Esforçou-se ao

máximo para ignorar as coisas que estavam fazendo com ele, assim como as sugestões

obscenas e brutas do que iria acontecer no dia seguinte. Na verdade, não eram muito

criativos. Ele sabia que a manhã seguinte seria pior. Muito pior.

Eles o machucaram um pouco com suas espadas, tiraram-lhe um pouco de sangue, mas não

demais: Tomasso sabia que tinham ordens de guardá-lo para os pro ssionais no dia seguinte.

Alberico também estaria lá.

Aquilo era apenas uma brincadeira.

Enfim, o capitão se cansou do olhar fixo de Tomasso, ou talvez tivesse decidido que já havia

muito sangue espalhado pelo chão, escorrendo pelas pernas do prisioneiro. Mandou que

seus homens parassem. As amarras de Tomasso foram cortadas e eles devolveram parte de

suas roupas, assim como uma tira de coberta imunda. Desceram as escadas com ele,

atirando-o em uma das masmorras escuras de Astibar.

A entrada era tão baixa que, mesmo de joelhos, ainda ralou sua cabeça na pedra quando o

empurraram para dentro. Mais sangue, pensou ele, enquanto sentia algo grudento em sua

mão. Não que importasse.

Mas odiava os ratos. Sempre tivera medo de ratos. Enrolou o cobertor inútil o máximo que

conseguiu, para usá-lo como um porrete frágil. Entretanto, isso era difícil na escuridão.

Tomasso desejou ser um homem sicamente mais corajoso. Ele sabia o que o esperava pela

manhã, e esse pensamento, agora que estava sozinho, transformou suas entranhas em geleia.

Ouviu um som e demorou um instante para perceber que era ele mesmo, choramingando.

Lutou para manter controle sobre si mesmo, mas estava sozinho, na escuridão congelante

das mãos do inimigo — e havia ratos. Não conseguia controlar os sons que emitia. Sentiu

como se seu coração estivesse partido, espalhado em pedaços em ângulos estranhos dentro

de seu peito. Dentre esses fragmentos, tentava amaldiçoar Herado e sua traição, mas nada

parecia estar à altura do que seu sobrinho havia feito. Nada parecia grande o su ciente para

abarcar aquilo.

Ele ouviu outro rato e atacou cegamente com sua nova arma. Acertou algo e ouviu um

guincho. Continuou batendo, de novo e de novo, no local de onde viera aquele som. Pensou

que o tivesse matado. Um deles. Tremia, mas o frenesi daquele ato o ajudava a enfrentar sua

fraqueza. Não chorava mais. Encostou-se na parede úmida de pedra, encolhendo-se por

causa de suas feridas. Fechou os olhos, embora não pudesse ver nada, e pensou na luz do

sol.

E foi então que deve ter cochilado, pois acordou de repente, com um grito de dor: um dos

ratos mordia sua coxa com força. Debateu-se com o cobertor por alguns instantes, mas

tremia, sentindo-se completamente enjoado. Sua boca estava inchada e dolorida, por causa

do golpe de Alberico na cabana. Engolir doía. Tocou a testa e percebeu que estava com febre.

Foi por isso que, ao ver a luz pálida de uma vela, teve certeza de se tratar de uma

alucinação. Conseguiu, entretanto, enxergar um pouco seus arredores, graças ao seu brilho.

A cela era minúscula. Havia um rato morto, perto da sua perna direita, e dois vivos perto da

porta, grandes como gatos. Viu, na parede ao seu lado, uma imagem arranhada de um sol,

com riscos que contavam os dias. Era a coisa mais triste que Tomasso conseguia se lembrar

de já ter visto. Ficou encarando-a por um longo tempo.

Olhou de volta para a direção da luz e percebeu que certamente era uma alucinação ou um

sonho.

Seu pai segurava a vela, vestido com a túnica azul de seu velório, olhando para baixo com uma expressão que Tomasso nunca vira antes em seu rosto.

A febre devia estar muito alta, concluiu; sua mente estava conjurando diante de si, naquele

abismo, a imagem que seu coração tão desesperadamente queria. Um olhar de ternura — ou

mesmo, se quisesse pensar nessa palavra, de amor — nos olhos do homem que o havia

chicoteado quando criança e depois o vira apenas como alguém útil para duas décadas de

conspirações contra um tirano.

Algo que terminara naquela noite, que com certeza terminaria para Tomasso da forma mais

horrível possível na manhã seguinte, em meio a uma dor que não conseguia sequer imaginar.

Mas ele gostou daquele sonho, daquela fantasia trazida pela febre. Havia luz. Afastava os

ratos. Até mesmo parecia diminuir o frio e a umidade das pedras embaixo dele e atrás de

suas costas.

Ergueu uma mão trêmula em direção à chama. Com a garganta seca e os lábios feridos e

inchados, resmungou algo. O que queria dizer para a imagem-sonho de seu pai era um Me

desculpe, mas não conseguiu formar as palavras.

Mas aquilo era um sonho, seu sonho, e a imagem de Sandre parecia tê-lo entendido.

— Você não tem por que se desculpar — disse a imagem-sonho de seu pai. Tão

delicadamente. — Foi minha culpa, e apenas minha. Nesses anos todos, e também agora. Eu

sempre soube das limitações de Gianno. Eu tinha muitas esperanças para você quando era

uma criança. Isso... me afetou muito. Depois.

A vela pareceu fraquejar por um instante. Uma parte de Tomasso, um canto de seu

coração, tentava se recompor, mesmo que aquilo fosse apenas um sonho, apenas seu próprio

desejo. Uma última e frágil fantasia: a de ser amado, antes que o matassem.

— Você me deixa pedir desculpas por ser um tolo que o condenou a isso? Você acredita se

eu disser que sempre tive orgulho de você, do meu próprio jeito?

Tomasso se deixou chorar. As palavras foram um bálsamo para a mais profunda dor que

conhecia. Mas chorar fazia com que a luz embaçasse e enfraquecesse, e ele ergueu as mãos

trêmulas para tentar enxugar as lágrimas. Queria falar, mas a boca ferida não conseguia

formar palavras. Aquiesceu, no entanto, de novo e de novo. Então teve uma ideia, e

levantou sua mão esquerda — a mão do coração, dos juramentos e da lealdade — em

direção ao fantasma de seu pai, em seu sonho.

E a mão de Sandre se abaixou lentamente, como se viesse de muito longe, atravessando

anos e anos de distância, estações perdidas e esquecidas em meio à passagem do tempo e do

orgulho, e pai e filho se tocaram.

Foi um contato mais sólido do que Tomasso pensou que seria. Ele fechou os olhos por um

momento, concentrando-se na intensidade de seus sentimentos. Quando os abriu, a imagem

de seu pai parecia estar segurando algo. Um frasco com uma espécie de líquido. Tomasso

não compreendeu.

— Essa é a última coisa que posso fazer por você — disse o fantasma, num tom

inesperadamente nostálgico. — Se eu fosse mais forte, poderia fazer mais. Mas pelo menos eles não vão mais machucá-lo pela manhã. Eles não vão mais machucá-lo, meu lho. Beba,

Tomasso. Beba, e tudo isso acabará. Tudo, eu prometo. E então, se você puder, espere por

mim nos Salões de Morian, Tomasso. Eu gostaria de andar com você por lá.

Tomasso ainda não compreendia, mas o tom era tão calmo e tão reconfortante que pegou o

frasco do sonho. Mais uma vez, era mais sólido do que esperava.

Seu pai acenou com a cabeça, encorajando-o. Com mãos trêmulas, Tomasso retirou a

tampa. Em um último gesto — uma última paródia zombeteira de si mesmo — levantou-o

numa saudação ampla e exagerada à sua própria capacidade de fantasiar, e engoliu o

conteúdo amargo.

O sorriso de seu pai era triste demais. Sorrisos não deveriam ser tristes, Tomasso queria

dizer. Dissera isso uma vez, para um garoto à noite, em um quarto no templo de Morian em

que não deveria estar. Sua cabeça estava pesada. Sentiu como se estivesse prestes a dormir,

ainda que já estivesse dormindo e sonhando em meio à febre. Realmente não conseguia

compreender. Não entendia, especialmente, por que seu pai, que estava morto, pedia a ele

que o esperasse nos Salões de Morian.

Olhou para cima mais uma vez, querendo lhe perguntar isso. Mas sua visão estava cando

muito estranha.

Sabia disso porque a imagem de seu pai, olhando-o de cima, parecia estar chorando. Havia

lágrimas nos olhos de seu pai.

Algo impossível. Mesmo em um sonho.

— Adeus — ouviu-o.

Adeus, tentou dizer, em resposta.

Não tinha certeza de haver conseguido formar a palavra ou se tinha apenas pensado nela,

mas foi então que uma escuridão mais envolvente que jamais conhecera cobriu-o, como um

cobertor ou uma manta, e a diferença entre o dito e o não dito não mais importava.