Tigana: A Lâmina na Alma
Posfácio do autor
EXCLUSIVO PARA A EDIÇÃO BRASILEIRA
Estou profundamente realizado pelo fato de meus editores estarem apresentando Tigana a
novos leitores no Brasil. De todos os meus trabalhos, este romance pode ser o que “fala” mais
intensamente e de modo mais pessoal aos leitores de outras línguas e países pelo mundo, e
isso é algo que sempre esperei que acontecesse. Era o primeiro dos meus livros que tentava
usar a fantasia para dizer algo de forma muito direta e imediata a respeito de tirania,
liberdade e identidade.
Tigana é, em boa parte, um romance sobre memória: sua necessidade, em termos culturais,
e os perigos de quando é muito intensa. Uma importante decisão tomada no nal da série é
um re exo desse sentimento, assim como a passagem de Giórgos Seféris (o grande poeta
grego premiado) que serviu como uma de minhas epígrafes, juntamente a uma passagem de
Dante sobre exílio. O mundo atual oferece exemplos mais que su cientes de ambos:
ignorância a respeito da História e a recusa em deixar o passado ser passado.
Duvido que, em qualquer outro romance que escrevi, eu tenha tentado uma reconstrução
das primeiras sementes do livro. Mas acontece que Tigana tem elementos especí cos e
poderosos em sua origem e alguns deles eu consigo reconstruir.
Em dado momento, comecei a ver em minha mente uma cabana de caça na oresta, em
algum cenário europeu medieval ou renascentista. Havia alguém inesperado (do ponto de
vista daqueles que estavam lá dentro) sentado na janela da cabana. Naqueles dias, eu não
fazia ideia de quem era ou do que acontecia, mas sabia que um livro se desdobraria a partir
do que quer que ocorresse dentro e ao redor daquela cabana.
Existia uma fotogra a da Tchecoslováquia em 1968, a época da “Primavera de Praga”,
quando uma fagulha de liberdade incitou aquele país de Cortina de Ferro antes dos tanques
soviéticos chegarem aos montes e esmagarem-na.
Na verdade, há duas fotogra as. A primeira mostra vários funcionários do Partido
Comunista em uma sala, com aparência adequadamente implacável. A segunda é a mesma
foto. Quase. Nesta, damos pela falta de um deles e há algo que me recordo tratar-se de uma
planta grande, colocada no lugar onde ele havia estado. A pessoa faltando — parte da
insurreição esmagada — não está apenas morta; ela foi apagada dos registros. Um feito trivial
nos dias de hoje, quando a capacidade de alterarmos imagens é tão extrema. Mas naquela
época as duas fotogra as caram poderosamente gravadas em mim e permaneceram por
vinte anos: não apenas morto, mas tornado como se nunca houvesse existido.
Outro ponto de partida: existe uma peça maravilhosa chamada Traduções, do irlandês
Brian Friel. É um debate prolongado e passional entre o professor de uma vila na Irlanda e o
líder de uma equipe de estudo inglesa, que estava cruzando o campo, mapeando-o
atentamente e mudando o nome dos lugares, do celta para o inglês. Os dois homens sabem o
que está em jogo: quando você quer subjugar um povo — apagar seu senso de identidade como individual e distintivo —, um modo de começar é com sua língua e seus nomes.
Nomes são o elo da História, e precisamos de um senso da nossa História para de nirmos a
nós mesmos.
Di cilmente trata-se de um acidente que movimentos separatistas de muitos países com
frequência incluam tentativas de recuperar uma língua perdida. Na Provença, no sul da
França, os sinais das rodovias costumam trazer os nomes dos lugares tanto em francês
quanto na quase perdida língua provençal. O movimento de independência do País de Gales
incorporou tentativas de recuperar sua língua como um dos discursos públicos. No Quebec, a
frequente batalha amarga entre separatistas e aqueles que desejam continuar sendo um
estado canadense encontram um campo de guerra na língua. Quando o Japão ocupou a
Coreia na primeira metade do século XX, permitiram que os jornais continuassem
publicando, mas apenas em japonês, não em coreano. Tigana foi uma tentativa de usar a
magia para explorar esses temas: apagar um povo dos registros da História ao despi-lo de seu
nome.
Uma história como esta precisa de um cenário. Um dos pedaços do meu veio de leituras da
História renascentista. O registro daquela época brilhante e brutal me trouxe a ideia do
quanto a identidade italiana foi atrasada por causa da rixa feroz entre as cidades-estados.
Guerras internas as tornaram não apenas incapazes de repelir as ambições da França e da
Espanha, como zeram as diferentes cidades se alternarem para convidá-las a entrar —
contanto que o exército do lado de fora zesse o trabalho de estuprar e pilhar as odiadas
Milão, Veneza, Florença ou Pisa em nome da cidade que zera o convite. A “bota” da Itália
se transformou na Península da Palma, com a ambientação dos bosques de oliveiras e
vinhedos que eu queria, e meu modelo para Brandin de Ygrath era um príncipe Borgia ou
Medici: arrogante, culto, orgulhoso demais. Alberico, seu oponente, era um politburo 1
sobrevivente soviético, bronco e eficiente.
O romancista tcheco Milan Kundera alimentou meu emergente tema da opressão e
sobrevivência com suas re exões acerca da relação entre povos conquistados e uma
sexualidade instável: o que eu chamei de “insurreições da noite”. A ideia fundamental, para
mim, tinha a ver com o modo como as pessoas se rebelam quando não podem fazê-lo, como
nos comportamos quando o mundo perdeu seu eixo, como a autoestima despedaçada pode
alcançar os níveis mais íntimos de nossas vidas.
Eu queria começar um livro sobre segredos e dissimulação com uma mentira absoluta — e a
primeira frase do capítulo um faz isso. Eu queria o trabalho com música, a mobilidade dos
músicos em uma sociedade relativamente imóvel. Eu esperava explorar, como parte da
revolta, as crônicas do livro, a ideia de coisas ruins feitas por bons homens, para testar o
leitor com ambiguidades de lealdades divididas.
O debate entre Alessan e Erlein foi feito para ser real, não uma artimanha do enredo. A
asserção do mago de que as estradas da Palma Oriental eram mais seguras sob o governo de
Alberico do que sob o de Sandre d’Astibar tem a intenção de levantar uma questão a respeito da legitimidade de perseguir um objetivo — mesmo uma missão pela identidade de um povo
e seu passado — usando outros como instrumentos relutantes. Isso também é verdade
quanto à fúria que a mãe de Alessan sente, vendo seu lho friamente tentando constituir
uma solução equilibrada para a península inteira, quando ela consegue enxergar apenas
ódio, sangue e o nome perdido de Tigana.
Estes são elementos ambiciosos para algo que também pretendia ser uma aventura
romântica que iria arrebatar o leitor. Abaixo deles jaz a ideia de usar o gênero da fantasia
desse modo: deixar a universalidade da fantasia permitir à ficção ser mais do que apenas uma
“fuga”, para também nos trazer de volta para casa. Tentei me imaginar colocando os temas
na história sorrateiramente e, ao mesmo tempo, manter o leitor virando as páginas bem além
do seu horário de ir dormir.
É uma questão de verdadeiro prazer para mim ter uma noção, anos depois do primeiro
lançamento de um livro generosamente homenageado, que parece ter acontecido assim:
aquelas primeiras ideias e imagens virando as peças de base do romance, os temas
aparecendo discretamente, pessoas lendo noite adentro.
É como eu gosto de lembrar, pelo menos.
Guy Gavriel Kay
1 Uma associação política comunista ou o líder dessa associação. (N.T.)