Tigana: A Lâmina na Alma
Capítulo VIII
Era estranho, Dianora pensava — ainda andando pela câmara de audiências abarrotada, enquanto a luz da primavera banhava a corte de Brandin, entrando pelos vitrais —, o modo como os presságios tão claros da juventude eram submetidos à alquimia do tempo,
para se transformarem nas complexas ambiguidades da vida adulta.
Bebericando de sua taça adornada com joias, considerou a alternativa. A de que ela
simplesmente permitira que as coisas se tornassem diferentes e complicadas. E que as
verdades ainda eram exatamente as mesmas do dia em que chegara. Tudo o que zera fora
se esconder: do que havia se tornado e do que ainda não havia feito.
Aquela era a questão fundamental de sua vida e mais uma vez ela a empurrou para o canto
de sua consciência. Não hoje. Nunca durante o dia. Aqueles pensamentos pertenciam às
noites em que estava sozinha na saishan, quando apenas Scelto, postado à sua porta, poderia
saber o quanto ela estava insone ou encontrar os vestígios de lágrimas em suas bochechas,
quando vinha acordá-la pela manhã.
Eram pensamentos noturnos, e aquele era um dia ensolarado, em um lugar público demais.
Assim, andou em direção ao homem que havia reconhecido, enquanto deixava um sorriso
nascer em seu rosto. Balançando sua taça graciosamente, fez uma saudação ygratheana à
gura corpulenta e sobriamente vestida que portava três pesadas correntes de ouro ao redor
do pescoço.
— Saudações — murmurou Dianora, endireitando-se e se aproximando dele. — Mas que
surpresa. É realmente raro que o atarefado Guardião dos Três Portos consiga dispor de um
momento em seus afazeres para visitar velhos amigos.
Infelizmente, Rhamanus continuava tão difícil de irritar ou desconcertar quanto sempre
fora. Dianora tentava provocá-lo desde a noite em que ele a empacotara como se fosse um
novilho, naquela rua em frente à porta da Rainha, direto para a galé.
Agora, ele se limitava a sorrir, cansado pelo passar dos anos e, nos últimos tempos, pelas
obrigações costeiras. Mas ainda era, sem dúvida, o homem que a trouxera até ali.
Um dos poucos homens de Ygrath de quem ela verdadeiramente gostava.
— Isso não dói vindo de você, garota — gracejou ele. — Meu tempo não é para mulheres
desocupadas que não fazem nada o dia inteiro a não ser car prendendo e soltando o cabelo
como exercício, e que cam criticando aqueles de nós que ainda trabalham arduamente em
cargos que encurtam nossas noites e enchem nossa cabeça de cabelos brancos.
Dianora riu. Os cachos negros e espessos de Rhamanus — que causavam inveja à metade
da saishan — não mostravam um o branco sequer. Ela xou seu olhar, de forma bastante
expressiva, em sua cabeleira negra.
— Sou um mentiroso — entregou-se ele, com uma serenidade imperturbável, enquanto se
reclinava para a frente, de modo que apenas ela o ouvisse. — Esse inverno tem sido quieto como a morte. Não há nada para fazer. Eu poderia ter vindo visitá-la, mas você sabe o
quanto eu odeio essas vindas à corte. Os botões de minha veste saltam quando faço uma
reverência.
Dianora riu mais uma vez e lhe apertou o braço suavemente. Rhamanus fora gentil com ela
no navio e se manteve cortês e amigável desde então, mesmo quando ela era apenas mais
um corpo novo — ainda que bem chamativo — na saishan do Rei. Sabia que ele gostava
dela. E também ouvira, da boca do próprio d’Eymon, que o antigo capitão dos navios de
tributo era um administrador eficiente e justo.
Ela o ajudara a conseguir aquele posto, quatro anos antes. Era uma alta honraria para um
homem do mar supervisionar as regras e os padrões dos três principais portos de Chiara. E
também era, a julgar pelas roupas levemente surradas de Rhamanus, perto demais do poder
para que ele pudesse ganhar dinheiro de verdade.
Pensando, ela estalava a língua nos dentes de cima, um hábito de que Brandin debochava.
Ele alegava que aquilo sempre signi cava um pedido ou uma sugestão. Ele a conhecia muito
bem, o que a assustava no mínimo tanto quanto causava outras reações.
— É apenas uma ideia — disse ela para Rhamanus, baixinho — mas você teria algum
interesse em viver no norte de Asoli por alguns anos? Não que eu queira me livrar de você. É
um lugar horrível, todos sabem disso, mas existem algumas oportunidades, e eu preferiria
dá-las a um homem decente do que a algum dos animais gananciosos que rondam por aqui.
— Mestre das Tributações? — perguntou ele, muito baixo.
Ela aquiesceu. Os olhos de Rhamanus se abriram um pouco; mas, habituado a ser discreto,
não ofereceu nenhum outro sinal de interesse ou surpresa.
O que ele fez, um instante mais tarde, foi lançar um olhar rápido por cima do ombro de
Dianora, em direção ao trono. Ela já estava se virando, com uma sensação inexplicável, quase
uma antena, alertando-a.
Fitou o trono insular, quando a porta atrás dele se abriu e o arauto bateu com seu cajado
duas vezes no chão, não muito alto, e Brandin adentrou a sala. Ele foi seguido pelos dois
sacerdotes, e pela sacerdotisa de Adaon. Rhun se colocou, desajeitadamente, ao lado do Rei,
usando roupas idênticas às dele a não ser pelo chapéu.
A mais verdadeira forma de se medir o poder, dissera-lhe uma vez Brandin, não estava em
ter vinte arautos ensurdecendo uma sala com a chegada de alguém. Qualquer tolo com
dinheiro por um dia conseguiria ser o centro das atenções assim. O procedimento mais
desa ador, a forma de medida mais precisa, estava em entrar discretamente e ver o que
acontecia.
E o que aconteceu foi o habitual. A câmara de audiências parou em uníssono, como se
tivesse passado os dez últimos minutos aguardando na beira de um precipício. E então, ainda
ao mesmo tempo, a corte saltara obedientemente. Ninguém em toda a sala continuou
falando no momento em que o cajado do arauto iniciou seu movimento, proclamando o Rei.
No silêncio, os dois singelos golpes no chão de mármore soaram como trovões.
Brandin estava muito bem humorado. Dianora podia notar isso, mesmo estando do outro
lado da sala e mesmo se não tivesse recebido a dica de Rhun. O coração dela batia muito
rápido. Sempre acontecia, quando Brandin entrava no mesmo cômodo em que ela estava.
Mesmo após doze anos. Mesmo então, e apesar de tudo. Tantas linhas de sua vida
começavam ou terminavam nesse homem, ou se uniam, desesperadamente entrelaçadas a
ele.
Inicialmente, ele olhou para d’Eymon, como sempre, e recebeu sua reverência, bastante
recurvada, como era comum entre os ygratheanos. Então, como sempre, voltou-se e sorriu
para Solores.
Em seguida, para Dianora. Por mais preparada que estivesse, como sempre tentava estar,
ainda não conseguia controlar o que acontecia com ela quando aqueles olhos acinzentados
encontravam os seus. Seu olhar era como um toque, uma presença suave, simultaneamente
flamejante e glacial — assim como Brandin.
E tudo isso, por um olhar lançado do outro lado de uma sala lotada.
Certa vez, anos antes, na cama, ela ousara lhe perguntar algo que há muito a incomodava.
— Há feitiçaria envolvida quando você me ama aqui ou toda vez em que nos vemos em um
local público?
Dianora não soubera, ao certo, qual resposta preferia ou que reação esperar. Ela pensara
que ele pudesse se sentir lisonjeado ou ao menos se divertir. Mas nunca era possível ter
certeza dos pensamentos de Brandin, já que sua mente corria através de caminhos muito
distintos e de forma muito sutil. E era por isso que as perguntas, especialmente as de cunho
revelador, eram tão perigosas. Mas aquilo era importante para ela: se ele dissesse que sim,
usaria aquilo para atiçar novamente sua vontade de matá-lo. Sua fúria, que parecia ter-se
perdido ali, no estranho mundo que era aquela Ilha.
Sua expressão devia estar bastante séria. Brandin se virara sobre o travesseiro, apoiando a
cabeça em uma das mãos para encará-la abaixo da linha das sobrancelhas. Ele balançara a
cabeça.
— Não do jeito que você está pensando. Não há nada que eu controle ou molde com
minha magia, a não ser a questão dos lhos. Não terei mais herdeiros, você sabe disso. — Ela
sabia. Todas as suas mulheres sabiam. Ele disse, após uma pausa cuidadosa: — Por que você
pergunta? O que acontece com você?
Por um segundo, Dianora pensara ter ouvido incerteza em sua voz, embora ninguém
pudesse ter certeza de tais coisas, quando se tratava de Brandin.
— Coisas demais — respondera ela. — Coisas demais acontecem.
E ela falara, daquela única vez, a desprotegida verdade de um coração não mais inocente.
Houvera uma compreensão muito precisa nos olhos dele, o que a assustou. Ela se moveu,
levada por todos os níveis de sua necessidade, recostando-se contra seu corpo, e então sobre
ele, para que pudessem reiniciar todo o processo. Todo ele: traição e memória, misturados
com desejo, assim como no vinho cor de âmbar que se dizia ser a bebida da Tríade. Uma bebida potente demais para que qualquer mortal pudesse experimentá-la.
— Você estava falando sério sobre aquele cargo em Asoli?
A voz de Rhamanus era suave. Brandin não fora até o trono, preferindo fazer um calmo
percurso pela sala, no que evidenciava mais uma vez seu bom humor. Rhun, com seu sorriso
torto, seguiu-o cambaleante.
— Confesso que nunca havia pensado no assunto — completou o antigo capitão.
Com esforço, Dianora se forçou a pensar novamente nele. Por um segundo, esquecera-se
de sua própria pergunta. Brandin fazia isso com ela, o que não era bom, pensou. Por várias
razões, aquilo não era bom. Ela se voltou novamente para Rhamanus:
— Estou falando sério — disse ela. — Mas não tinha certeza se você iria querer o cargo,
mesmo se fosse possível. Você tem mais prestígio onde está. E, a nal de contas, estamos
falando de Chiara. Asoli pode lhe oferecer alguma possibilidade de riqueza, mas imagino
que você saiba o que está envolvido. O que importa mais para você, Rhamanus?
A colocação pareceu mais seca do que a cortesia consideraria apropriado, ainda mais se
tratando de um amigo.
Ele piscou e apontou para uma de suas correntes:
— É disso que se trata? — perguntou ele, hesitante. — É assim que você vê? Será que um
homem não poderia, talvez, ser levado pela perspectiva de um novo desa o, ou ainda,
correndo o risco de soar tolo, pelo desejo de servir ao seu Rei?
Foi a vez de Dianora piscar.
— Você me envergonha. Juro, Rhamanus — disse ela, com simplicidade, após um instante.
Freando seus rápidos protestos, colocou uma mão sobre sua manga. — Às vezes, eu me
pergunto o que está acontecendo comigo. Com toda a intriga que acontece por aqui.
Ela ouviu passos se aproximando, e o que disse em seguida dirigia-se tanto ao homem atrás
dela quanto àquele à sua frente:
— Às vezes, eu me pergunto o que esta corte está fazendo comigo.
— Será que eu deveria me perguntar o mesmo? — questionou Brandin de Ygrath.
Sorrindo, ele se juntou aos dois. Não a tocou. Ele raramente tocava as mulheres da saishan
em público, e aquela era uma recepção ygratheana. Elas conheciam as regras. Suas vidas
eram moldadas pelas regras dele.
— Meu senhor — disse Dianora, virando-se e tecendo uma reverência. Ela manteve sua
voz em um tom provocativo. — Você me acha mais cínica agora do que quando esse homem
terrível me trouxe?
O olhar divertido de Brandin se voltou para Rhamanus. Não era como se ele precisasse do
lembrete de qual capitão dos tributos a trouxera. Ela sabia disso, e ele sabia que ela sabia. Era
tudo parte de sua dança verbal. Sua inteligência forçava os limites de Dianora, para então
expandi-los. Ela percebeu, talvez porque o assunto surgira com Rhamanus, que havia tantos
cabelos grisalhos quanto negros em sua barba.
Ele acenou com a cabeça, fingindo uma grande preocupação acerca daquela questão.
— Eu teria que dizer que sim. Você tem se tornado cada vez mais manipuladora, tanto
quanto esse homem terrível tem se tornado mais e mais gordo.
— Tanto assim? — reclamou Dianora. — Meu senhor, ele está muito gordo!
Os dois homens riram. Rhamanus acariciou a própria barriga, carinhosamente.
— Isso — disse ele — é o que acontece quando você alimenta um homem com carne seca
por vinte anos no mar e então o expõe às delícias da cidade do Rei.
— Bem, então — disse Brandin — talvez nós o enviemos a outro lugar, até você emagrecer
novamente.
— Meu senhor — disse Rhamanus, no mesmo instante, com a expressão sóbria e intensa
—, ponho-me inteiramente sob seu comando.
Brandin ouviu aquilo e seu tom também mudou:
— Eu sei disso — murmurou ele — e gostaria de ter mais pessoas como você em minha
corte. Em minhas duas cortes. Gordo ou magro, Rhamanus, eu não me esqueço de você,
apesar do que nossa Dianora possa pensar.
Era um alto elogio, uma espécie de promessa, e uma dispensa, por enquanto. Com os olhos
brilhando, Rhamanus fez uma reverência formal e se retirou. Brandin se afastou mais alguns
passos, com Rhun seguindo-o. Dianora também o acompanhou, como era esperado. Uma
vez que estavam distantes de quaisquer ouvidos que não os do bobo, Brandin voltou-se para
ela. Dianora ficou triste em ver que ele não estava sorrindo.
— O que você fez? Ofereceu-lhe o norte de Asoli?
Dianora fingiu uma expressão de indignação. Isso acontecia o tempo todo.
— Ora, isso é injusto — protestou ela. — Você está usando magia.
Brandin se permitiu sorrir. Ela sabia que as pessoas os observavam. E sabia o que diriam
entre si.
— Dificilmente — murmurou Brandin. — Eu não a gastaria com algo tão óbvio.
— Óbvio?! — reclamou ela.
— Não por você, minha manipuladora cínica. Mas Rhamanus cou sério demais rápido
demais quando brinquei sobre enviá-lo para outro lugar. E o único cargo signi cante que
temos disponível atualmente é no norte de Asoli, então...
Ele deixou o resto da frase no ar. O riso dançava em seus olhos.
— Será que ele seria uma escolha tão ruim? — perguntou Dianora, desa ando-o. Era
realmente desconcertante o quanto Brandin conseguia inferir das coisas. Se ela se permitisse
pensar muito nisso, sentiria medo novamente.
— O que você acha? — perguntou ele, em resposta.
— Eu? Pensar? — Ela ergueu as sobrancelhas, exageradamente. — Como um mero objeto
de prazer ocasional do Rei poderia formular uma opinião em assuntos como esse?
— Aí, sim, está uma observação inteligente — disse Brandin, balançando a cabeça
vigorosamente. — Talvez, em vez disso, eu deva consultar Solores.
— Se você conseguir extrair uma observação inteligente dela — disse Dianora, acidamente — eu me jogarei no mar, pulando da sacada da saishan.
— Passando por todo o porto? É uma queda difícil — disse Brandin, levemente.
— Tão difícil quanto conseguir um comentário inteligente de Solores — respondeu ela.
E, com isso, ele gargalhou. A corte ouvia. Todos ouviam. Todos chegariam às suas próprias
conclusões, mas todos teriam a mesma opinião no nal. Scelto, ela pensou, talvez recebesse
contribuições discretas antes de o dia terminar, e não seriam só de Neso de Ygrath.
— Vi algo interessante na montanha hoje pela manhã. — A voz de Brandin agora perdia o
riso. — Algo bastante incomum.
Dianora percebeu que essa era a razão pela qual Brandin quisera conversar com ela em
particular.
Naquela manhã, ele subira os Sangarios. Ela era uma das poucas que sabia. Brandin
mantinha essa aventura em sigilo, para o caso de fracassar. Ela estivera até mesmo preparada
para zombar dele por causa disso.
No começo da primavera, assim que os ventos começavam a mudar, antes de a última neve
derreter em Certando, em Tregea e sobre o sul do que outrora fora Tigana, vinham os três
Dias das Brasas que marcavam a virada do ano.
Nenhum fogo era aceso, além daqueles que já o estivessem em toda a Palma. Os devotos
jejuavam durante, pelo menos, o primeiro dos três dias. Os sinos nos templos da Tríade
silenciavam. Homens permaneciam em suas casas à noite, especialmente após o anoitecer do
primeiro dia, que era o Dia dos Mortos.
Também havia Dias das Brasas no outono, quando chegava o período de luto pelo
massacre de Adaon em sua montanha em Tregea, quando os raios do sol começavam a se
esvair, enquanto Eanna lamentava e Morian se retirava para seus Salões subterrâneos. Mas
os Dias primaveris inspiravam um pavor mais frio, especialmente no interior do país, já que
tanto dependia do que iria acontecer em seguida. Passaria o inverno, a estação da semeadura
e a esperança do grão, da vida, na plenitude do verão que estava por vir.
Diferente de todos os outros lugares da Palma, Chiara abrigava ainda outro ritual.
Era a ilha em que, segundo a lenda, Adaon e Eanna haviam se amado pela primeira vez,
durante três dias e três noites, no topo dos Sangarios. E, no clímax crescente de seu desejo,
durante a terceira noite, Eanna das Luzes criara as estrelas do céu e as espalhara como uma
renda brilhante através da escuridão. E dizia a lenda que nove meses depois — o que era três
vezes três —, a Tríade se completava com o nascimento de Morian, nas profundezas do
inverno, em uma caverna naquela mesma montanha.
E, com Morian, viera ao mundo tanto a vida quanto a morte; e, com a vida e a morte,
vieram os homens mortais para andar sob as estrelas recém-nomeadas, sob as duas luas do
céu e sob o sol do dia.
E, por essa razão, Chiara sempre a rmara sua superioridade entre as nove províncias da
Palma. E, também por essa razão, a ilha nomeara Morian como guardiã de seu destino.
Morian dos Portais, que dominava todos os limiares. Pois todos sabiam que ilhas eram, por si só, mundos; que ir até uma das ilhas era ir até um novo mundo. Uma verdade conhecida
sob as estrelas e as luas, mesmo que nem sempre lembrada sob a luz do dia.
Então, a cada três anos, no começo de cada Ano de Morian, no primeiro Dia das Brasas
primaveril, os jovens rapazes de Chiara competiam entre si em uma corrida matutina até o
topo dos Sangarios, para ali colher um ramo negro de sonrai, os inebriantes frutos da
montanha, sob os rigorosos olhos dos sacerdotes de Morian que mantinham vigília no topo
da montanha durante toda a noite e em meio aos espíritos dos mortos. O primeiro homem a
descer a montanha era proclamado Senhor dos Sangarios até a próxima corrida, dali a três
anos.
Nos tempos antigos, muito antigos, o Senhor dos Sangarios seria caçado e abatido em sua
montanha pelas mulheres, seis meses depois, no primeiro Dia das Brasas do outono.
Não mais... Fazia muito tempo. Agora, o jovem campeão estava mais propenso a ser
procurado como amante por mulheres buscando a benção de sua semente. Segundo Dianora
dissera certa vez a Brandin, era um novo tipo de caçada.
Ele não rira. Não achava o ritual engraçado. De fato, seis anos antes, o Rei de Ygrath tinha
escolhido fazer ele mesmo o percurso, na manhã antes da corrida o cial. E ele o zera de
novo, três anos depois. Não era uma conquista pequena, de fato, considerando-se sua idade
e quanto os corredores treinavam para isso. Dianora não sabia o que era mais estranho: o
fato de Brandin fazer isso em tamanho segredo ou o fervoroso orgulho masculino que ele
sentira nas duas vezes em que chegara até o topo dos Sangarios e descera novamente.
Na câmara de audiências, Dianora fez a pergunta que já era esperada:
— O que você viu por lá?
Ela não sabia — pois os mortais raramente sabem quando se aproximam da soleira da
deusa — que a questão seria um marco de mudança em seus dias.
— Algo incomum — repetiu Brandin. — Obviamente, eu ultrapassei os guardas que
corriam comigo.
— Obviamente — murmurou ela, olhando-o de esguelha.
Ele sorriu.
— Eu estive sozinho durante boa parte da subida. As árvores do outro lado ainda eram
muito grossas. A maioria era de sorveiras e havia algumas sejoias.
— Que interessante — disse ela.
Dessa vez, Brandin lançou-lhe um olhar. Dianora mordeu seu lábio e controlou suas
feições, obedientemente.
— Eu olhei para a minha direita — disse Brandin — e vi uma rocha grande e cinza, quase
como uma plataforma ao lado das árvores. E, sentada na pedra, havia uma criatura. Eu
poderia jurar que era uma mulher, e quase humana.
— Quase?
Ela não estava mais zombando. Quando estamos dentro do arco de um verdadeiro portal
de Morian, às vezes sabemos que algo importante está acontecendo.
— Essa era a parte incomum. Ela com certeza não era inteiramente humana. Não com o
cabelo verde e uma pele tão pálida. Uma pele tão clara que eu juro ter visto veias azuis por
baixo dela, Dianora. E seus olhos eram diferentes de quaisquer olhos que já vi. Pensei que se
tratasse de uma ilusão causada pela luz, pelo sol ltrado através das árvores. Mas ela não se
movia nem mudava qualquer detalhe, mesmo quando parei para olhá-la.
E, agora, Dianora sabia exatamente onde estava.
As antigas criaturas da água, da oresta e da caverna eram quase tão antigas quanto a
própria Tríade e, pela descrição, sabia o que ele vira. Também sabia de outras coisas, e estava
subitamente com medo.
— O que você fez? — perguntou ela, o mais casualmente que conseguiu.
— Eu não tinha certeza do que fazer. Eu falei, mas ela não respondeu. Então dei um passo
em sua direção e ela instantaneamente saltou da rocha e recuou. Ela parou em meio às
árvores. Eu estendi minhas palmas abertas, mas isso pareceu assustá-la ou ofendê-la, e logo
depois ela fugiu.
— Você a seguiu?
— Eu ia segui-la, mas então um dos guardas já havia me alcançado.
— Ele a viu? — perguntou ela, rápido demais.
Brandin lançou-lhe um olhar curioso.
— Eu perguntei. Ele disse que não, embora eu ache que ele teria respondido isso de
qualquer maneira. Por que você pergunta?
Dianora deu de ombros.
— Teria confirmado que ela era real — mentiu.
Brandin balançou a cabeça.
— Ela era real. Não era uma visão. Na verdade — completou ele, como se o pensamento
tivesse lhe ocorrido naquele momento —, ela me lembrou você.
— Com... O que era? Pele verde e cabelo azul? — perguntou Dianora, deixando seus
instintos da corte guiarem-na. Mas algo muito grandioso estava ocorrendo ali. Lutou para
esconder o turbilhão que sentia. — Eu lhe agradeço muito, meu gracioso senhor. Suponho
que, se eu pedir para Scelto e Vencel, poderíamos conseguir essa cor, e o cabelo azul também
não deve ser difícil. Se isso o excita tanto...
Brandin abriu um sorriso, mas não riu.
— Cabelo verde, não azul — disse ele, quase ausente. E repetiu, olhando estranhamente
para ela: — E é verdade, Dianora. Ela me lembrou você. Eu me pergunto por quê. Você sabe
algo sobre essas criaturas?
— Não — disse ela. — Em Certando, não temos lendas sobre mulheres de cabelo verde que
habitam as montanhas.
Dianora mentia. Mentia da melhor maneira que conseguia, com o olhar bem aberto e
encarando-o diretamente. Mal podia acreditar no que ouvira; no que ele vira.
Brandin ainda continuava de bom humor.
— E que lendas sobre montanhas vocês têm em Certando? — perguntou ele, sorrindo
conforme o esperado.
— Histórias de criaturas peludas cujas pernas parecem árvores e comem bodes e virgens à
noite.
— E essas coisas existem? — perguntou ele, com o sorriso aumentando.
— Bodes, sim — disse ela, séria. — Virgens, existem menos. Coisas cabeludas com um
apetite tão especí co não são exatamente um incentivo à castidade. O senhor irá enviar uma
equipe para procurar essa criatura?
Aquela era uma pergunta tão importante que ela prendeu o fôlego enquanto aguardava a
resposta.
— Acho que não — disse Brandin. — Suspeito que apenas sejam vistas quando querem.
O que, ela bem sabia, era absolutamente verdade.
— Não contei a ninguém, além de você — completou o Rei, inesperadamente.
Não havia ngimento na expressão que ela sentiu tomar sua face. Mas, acima de tudo,
essas notícias geraram algo novo dentro dela. Precisava desesperadamente estar sozinha para
poder pensar. Uma esperança vã. Não teria essa chance tão cedo naquele dia. O melhor era
deixar essa história de lado, junto a todas as outras coisas que frequentemente deixava nos
cantos de sua mente.
— Obrigado, meu senhor — murmurou Dianora, ciente de que já estavam conversando
sozinhos havia algum tempo. Ciente, como sempre, de como aquilo seria interpretado.
— Enquanto isso — disse Brandin, subitamente, num tom bastante diferente — você ainda
não me perguntou como me saí na corrida. Devo dizer que foi a primeira pergunta de
Solores.
Aquilo os trazia de volta a um assunto familiar.
— Muito bem — disse ela, fingindo indiferença. — Conte-me. Metade? Três quartos?
Um lampejo de indignação real perpassou os olhos acinzentados.
— Às vezes, você é realmente pretensiosa — disse ele. — Eu sou tolerante demais. E eu fui,
se quer saber, até o topo e desci novamente pela manhã, com um punhado de sonrais. E
estou extremamente interessado em saber se algum dos corredores, amanhã, conseguirá
subir e descer tão rapidamente.
— Bem — disse ela, rápida e estupidamente — eles não terão a feitiçaria para ajudá-los.
— Dianora, basta!
Ela reconhecia aquele tom, e sabia que tinha ido longe demais. Como sempre acontecia
nesses momentos, teve a vertiginosa sensação de um abismo abrindo-se sob seus pés.
Sabia o que Brandin precisava dela; sabia a razão pela qual ele lhe permitia ser ultrajante e
impertinente. Entendera, há muito, por que a sagacidade e o exagero que trouxera às
conversas eram importantes para ele. Ela era o contraponto aos braços acolhedores e
subservientes de Solores. As duas, por sua vez, balanceavam o exercício rígido que d’Eymon
fazia da política e do governo.
E os três orbitavam ao redor da estrela que era Brandin. O sol voluntariamente exilado,
removido dos céus que conhecia, das terras, dos mares e do povo, ligado àquela península
estranha por decreto da perda, da mágoa e da vingança.
Dianora sabia de tudo isso. Conhecia o Rei muito bem. Sua vida dependia disso. E não
ultrapassava com frequência a linha que estava ali, invisível, embora inviolável. Quando o
fazia, era geralmente com algo trivial como aquilo. Era um paradoxo a maneira como ele
conseguia incitar, ou mesmo convidar seu comentário sarcástico sobre a corte e a colônia, e
ainda assim se zangar como um garoto que teve o orgulho afrontado, quando ela zombava
de sua capacidade de subir e descer a montanha em uma manhã.
Quando isso ocorria, Brandin apenas precisava dizer seu nome de certo modo, e um
abismo sem fim abria-se sob ela, no delicado piso da câmara de audiências.
Era uma prisioneira ali, mais escrava do que cortesã, na corte de um tirano. Era também
uma impostora, vivendo uma mentira enquanto sua terra morria lentamente na memória
dos homens. E jurara matar aquele homem, cujo olhar através da sala era como fogo para a
sua pele e vinho âmbar para seu sangue mortal.
Abismos, para onde quer que se virasse.
E agora, naquela manhã, ele havia visto uma riselka. Ele, e possivelmente também um
segundo homem. Combatendo seu medo, ela se forçou a meramente dar de ombros,
arqueando as sobrancelhas sobre o rosto treinado para parecer indiferente.
— Isso me diverte — disse Dianora, buscando autocontrole, sabendo exatamente o que ele
precisava que ela zesse naquele momento. Especialmente naquele momento. — O senhor
alegou estar feliz, e mesmo tocado, pelo interrogatório exagerado de Solores acerca da
corrida na montanha. Diz que foi a primeira coisa que ela perguntou. E como ela deve ter se
perguntado se iria ou não obter sucesso! E ainda assim, quando eu, tão certa de que você
conseguiria quanto estou de meu próprio nome, trato o assunto de forma leve e pequena,
por nunca duvidar... então o Rei se enfurece. E me trata severamente por fazer isso! Mas
conte-me, meu senhor, em sua justiça: qual de nós, em verdade, honrou-o mais?
Por um longo tempo, Brandin permaneceu em silêncio. E ela sabia que a corte iria registrar,
avidamente, a expressão em seu rosto. Naquele instante, não se importava com eles. Ou
mesmo com seu passado ou com o encontro na montanha. Havia ali um abismo bem
especí co, que começava e terminava nas profundezas dos olhos acinzentados que
buscavam, agora, os dela. Quando ele falou, sua voz estava mudada, num tom que ela
conhecia muito bem e, apesar de tudo o que fora dito, e apesar do lugar em que estavam e
de quem os observava, ela sentiu-se enfraquecer de repente. Suas pernas tremiam, mas não
mais de medo.
— Eu poderia tomá-la — disse Brandin, Rei de Ygrath, com voz grossa e rosto corado —
aqui mesmo, no chão desta sala, diante de toda a minha corte reunida.
A garganta de Dianora estava seca. Ela sentiu uma palpitação por baixo da pele, em seu
pulso. Sabia que também estava corada. E engoliu com alguma dificuldade.
— Talvez seja mais sábio hoje à noite — murmurou ela, tentando em vão manter o tom
tranquilo, sem conseguir esconder a resposta rápida que escapava pelo seu olhar, de fagulha
para fagulha, como o início de um incêndio. O cálice encrustado de pedras tremia em sua
mão. Ele notou aquilo; e ela viu que ele notara e que sua resposta, como sempre, havia
servido como lenha para o desejo do Rei. Ela tomou um gole de seu khav, segurando-o com
ambas as mãos, lutando para se controlar. — Com certeza, é melhor à noite — disse, de
novo, tomada como sempre pelo que acontecia com ela. Mas Dianora sabia o que Brandin
precisava que ela dissesse, ali, naquele momento, naquela sala cheia com sua corte e com
emissários de Ygrath.
Ela disse, olhando-o nos olhos e articulando as palavras cuidadosamente:
— A nal, meu senhor, na sua idade, seria melhor guardar suas forças. O senhor de fato
subiu uma colina inteira hoje pela manhã.
Um instante depois, pela segunda vez, a corte de Brandin de Ygrath em Chiara viu seu Rei
lançar para trás sua bela fronte barbada, e ouviu-o rir, alto. Não longe dali, Rhun, o Bobo,
gritava numa alegria semelhante.
— ISOLLA DE YGRATH!
Dessa vez, houve trompetes e um tambor, assim como arautos batendo no chão, junto às
portas duplas na saída sul da câmara de audiências.
Estando próxima ao trono, Dianora teve tempo de observar a progressão da mulher que
Brandin chamara de a melhor musicista de Ygrath. A corte reunida de Chiara se alinhava
mais abaixo, flanqueando a aproximação do Rei.
— Ainda uma bela mulher — murmurou Neso de Ygrath, que de alguma forma conseguira
colocar-se junto a ela na primeira fileira. — E isso porque tem 50 anos.
Seu tom adulador a irritou, como sempre, mas tentou esconder o fato. Isolla trajava um
vestido azul escuro muito simples, amarrada à cintura com uma corrente de ouro. Seu
cabelo, castanho com marcas grisalhas, era mais curto do que a moda, embora, pensou
Dianora, a moda da primavera e do verão talvez mudasse a partir daquele dia. A colônia
sempre aceitava as dicas de Ygrath naquele tipo de assunto.
Isolla andou con ante, sem se apressar, descendo pelo corredor formado pelos cortesãos.
Brandin já sorria, acolhendo-a. Sempre o agradava muito quando algum artista de Ygrath
percorria a longa e perigosa jornada até sua segunda corte.
Vários passos atrás de Isolla, e carregando seu alaúde no estojo como se fosse um artefato
de valor imensurável, Dianora viu, com genuína surpresa, o poeta Camena di Chiara,
trajando sua habitual túnica de três camadas. A assembleia se encheu de murmúrios: ela não
era a única pega de surpresa pelo fato.
Instintivamente, lançou um olhar para o outro lado do corredor, onde Doarde permanecia
com sua esposa e sua lha, bem a tempo de ver o espasmo de ódio e medo que transparecia
em seu rosto, conforme seu rival mais jovem surgia. Um instante depois, a expressão delatora havia desaparecido, sendo substituída por uma educada máscara de desdém diante da
vulgaridade de Camena, rebaixando-se para servir de carregador para uma ygratheana.
Ainda assim, pensou Dianora, aquela era uma corte ygratheana. Camena, ela adivinhou
num lampejo de intuição, provavelmente tivera um de seus versos transformado em canção.
Se Isolla estivesse prestes a cantar um de seus versos, seria um golpe de mestre para o poeta
de Chiara. Mais do que o su ciente para explicar por que ele iria se oferecer para exaltar
Isolla — e os artistas de Ygrath — servindo-lhe de carregador.
Dianora concluiu que as políticas por trás da arte eram tão complexas quanto aquelas que
lidavam com províncias e nações.
Isolla parara, como era apropriado, cerca de quinze passos antes do estrado do trono
insular, muito próxima ao local em que Dianora e Neso se encontravam.
Adequadamente, procedeu realizando a tripla reverência. Muito graciosamente — um sinal
de alta honraria —, Brandin colocou-se de pé para recebê-la. Ele sorria. E também Rhun,
atrás dele e à sua esquerda.
Por uma razão que não conseguiria explicar nem mesmo posteriormente, Dianora se
voltou, do monarca e de Isolla, novamente para o poeta que carregava o alaúde. Camena
parara alguns passos atrás de Isolla, ajoelhando-se no piso de mármore.
O que prejudicou a graciosidade da cena foi a dilatação de seus olhos. Folhas de nilth,
concluiu Dianora, no mesmo instante. Ele se drogou. Viu gotas de suor nas sobrancelhas do
poeta. Não estava quente na câmara de audiências.
— Seja muito bem-vinda, Isolla — disse Brandin, com alegria genuína. — Faz muito tempo
desde a última vez em que a vimos ou que a ouvimos tocar.
Dianora viu Camena ajustar levemente a forma como carregava o alaúde. Ela pensou que o
jovem poeta se preparasse para abrir o estojo e retirar o alaúde. Mas não parecia um alaúde
comum. Na verdade...
Mais tarde, ela poderia ter apenas uma certeza: havia sido a história da riselka que a zera
ver tão claramente. A história, e o fato de que Brandin não tinha certeza se o segundo
homem, seu guarda, a havia visto ou não.
Um homem significava mudança de vida; dois homens significavam morte certa.
De qualquer modo, algo aconteceria. E agora acontecera.
Todos os olhos, com exceção dos dela, estavam em Brandin e Isolla. Apenas Dianora viu
Camena retirar a capa de veludo do alaúde. Apenas Dianora viu que não era, de fato, um
alaúde. E apenas ela ouvira Brandin contar a história da riselka.
— Morra, Isolla de Ygrath! — gritou Camena, rouco; seus olhos saltaram enquanto jogava o
veludo para o lado e sacava a besta que carregava.
Com o re exo de um homem com metade de sua idade, Brandin ergueu a mão para lançar
um escudo mágico ao redor da cantora.
E Dianora percebeu que isso era exatamente o que esperavam.
— Brandin, não! — gritou ela. — É você!
E agarrando o boquiaberto Neso de Ygrath pelo ombro, atirou-se junto com ele pelo
corredor.
O dardo disparado, meticulosamente apontado à esquerda de Isolla numa linha reta em
direção ao coração de Brandin, cravou-se no ombro do assustado Neso. Ele se contorceu,
tomado pelo choque e pela dor.
A inércia fez Dianora cair de joelhos ao lado de Isolla. Ela olhou para cima. E, até o nal de
seus dias, jamais conseguiu esquecer o olhar que recebeu da cantora.
Ela virou o rosto. O ódio era bruto, cru demais. Sentiu-se sicamente doente, e tremia com
o choque. Forçou-se a car de pé e olhou para Brandin. Ele não havia sequer abaixado sua
mão. A barreira protetora ainda brilhava ao redor de Isolla, que, na verdade, nunca estivera
em perigo.
Os guardas já haviam capturado Camena. Ele fora colocado em pé. Dianora nunca vira
alguém tão branco. Até mesmo seus olhos estavam brancos por causa da droga. Por um
instante, pensou que ele fosse desmaiar, mas então Camena lançou a cabeça para trás, com o
máximo de movimento que os grilhões dos soldados lhe permitiam. Abriu sua boca, como se
estivesse em agonia.
— Chiara! — gritou ele, antes de ser brutalmente silenciado. — Liberdade para Chiara!
O eco permaneceu por algum tempo. O salão era grande e o silêncio da multidão era quase
absoluto. Ninguém ousava se mexer. Dianora tinha a impressão de que a corte nem sequer
respirava. Ninguém queria chamar a mínima atenção para si.
No chão de mosaicos, Neso gemeu de dor e medo, rompendo o hiato. Dois soldados se
ajoelharam para ajudá-lo. Dianora ainda estava com medo de vomitar; ela não conseguia
fazer com que suas mãos parassem de tremer. Isolla de Ygrath não se movia.
Dianora percebeu que ela não conseguia se mover: Brandin a segurava, controlando-a
mentalmente como uma or presa entre duas folhas de papel. Os soldados ergueram Neso e
o retiraram da sala. Dianora recuou, deixando Isolla sozinha diante do Rei, a quinze passos
extremamente apropriados de distância.
— Camena foi um instrumento — disse Brandin, suavemente. — Chiara não tem relação
alguma com isso. Não pense que não sei disso. Não posso oferecer nada agora, a não ser uma
morte rápida. Você deve me contar por que fez isso.
Ele controlava rigidamente o tom de sua voz, que permanecia cuidadosa e in exiva.
Dianora jamais o ouvira usar tal tom. Olhou para Rhun: o bobo chorava, encharcando com
lágrimas suas feições distorcidas.
Brandin baixou sua mão, libertando Isolla para que ela pudesse se mexer e falar.
O vívido olhar de ódio sumira de seu rosto. Em seu lugar, havia um orgulho desa ador.
Dianora imaginava se ela chegara a acreditar que o esquema funcionaria. Se, após o Rei ser
morto, ela realmente esperava sair andando daquela sala. E se não, se ela não tinha tais
esperanças, o que isso significava?
Mantendo-se firme, Isolla respondeu parcialmente:
— Estou morrendo. Os médicos me deram menos do que uma estação antes que o que
cresce dentro de mim se alastre para o meu cérebro. Já não consigo me lembrar de algumas
canções. Canções que carreguei comigo por quarenta anos.
— Sinto muito em ouvir isso — disse Brandin, formalmente, com uma cortesia tão
impecável que parecia violar a natureza humana. — Todos nós morremos, Isolla. Alguns,
jovens demais. Nem todos nós planejamos a morte de nosso Rei. Você tem mais para me
contar antes que eu possa libertá-la de sua dor.
Pela primeira vez, Isolla pareceu vacilar. Ela baixou a cabeça, desviando daqueles olhos
cinzentos, assustadoramente serenos. Apenas após um longo momento, ela respondeu:
— Você deveria saber que haveria um preço para o que fez.
— E o que, exatamente, eu fiz?
Sua cabeça se ergueu.
— Você preferiu uma criança morta à viva, e a vingança à sua esposa. E tudo isso, acima de
sua própria terra. Você chegou a pensar, por uma fração de segundo, em qualquer um deles
enquanto perseguia sua bizarra vingança por Stevan?
O coração de Dianora bateu dolorosamente. Aquele era um nome que não se pronunciava
em Chiara. Ela viu os lábios de Brandin se apertarem de uma forma que contemplara apenas
poucas vezes. Mas, quando ele falou, sua voz continuava tão rigidamente controlada quanto
antes:
— Imagino que pensei neles de maneira adequada. Girald governa Ygrath, da mesma
maneira que algum dia iria acontecer. Ele até possui minha saishan, como símbolo disso.
Quanto a Dorotea, eu a convidei para vir até aqui diversas vezes por ano, durante vários
anos.
— Convidou-a para que pudesse envelhecer, enquanto você permanecia jovem. Algo que
nenhum rei feiticeiro de Ygrath jamais fez, temerosos de que os deuses punissem a terra.
Mas você jamais se preocupou em pensar em Ygrath, não é mesmo? E Girald? Ele não é Rei;
o pai dele é. Esse título é seu, e não dele. O que a chave da saishan representa contra uma
realidade que diz o contrário? Ele irá até mesmo morrer antes de você, Brandin, a não ser
que você seja assassinado. E o que acontecerá então? Isso não é natural, e há um preço a ser
pago.
— Sempre há um preço — disse ele, suavemente. — Um preço por tudo. Mesmo por viver.
Eu não esperava pagá-lo dentro de minha própria família.
Houve silêncio. E Brandin concluiu:
— Isolla, eu devo estender meus anos até que consiga concluir o que deve ser feito.
— Então você pagará por isso — repetiu Isolla. — E Girald pagará, e Dorotea. E Ygrath.
E Tigana, pensou Dianora, que não mais tremia e cuja própria dor voltava como uma ferida
viva. Tigana também pagará. Com estátuas quebradas e torres demolidas, com crianças
assassinadas e um nome desaparecido.
Ela contemplava o rosto de Brandin e o de Rhun.
— Eu ouvi o que você disse — disse o Rei, depois de um tempo, à cantora. — Ouvi mais do
que você escolheu dizer. Eu preciso de apenas mais uma coisa. Você deve me dizer qual
deles fez isso.
Ele falava com arrependimento visível. O rosto disforme de Rhun se contorcia com força,
enquanto suas mãos gesticulavam, inutilmente.
— E por que — questionou Isolla, recompondo-se e falando com a arrogância de alguém
que não tinha mais nada a perder — você deveria imaginar que os interesses de outras
pessoas têm alguma responsabilidade nisso? Por que um ou outro, Rei de Ygrath?
Sua voz erguia-se, áspera como a mensagem que trazia.
Lentamente, ele assentiu. A dor que ele trazia se tornou evidente. Dianora podia vê-la no
modo como ele se colocava e falava, por mais que se controlasse. Não precisava sequer olhar
para Rhun.
— Muito bem — disse Brandin. — E você, Isolla? O que lhe ofereceram para que zesse
isso? Será que seu ódio por mim é assim tão grande?
A mulher hesitou por apenas um momento. Então, da mesma maneira orgulhosa e
desafiadora de antes, disse:
— Meu amor pela Rainha é assim tão grande.
Brandin fechou os olhos e perguntou:
— Como assim?
— De todas as formas que você a desamparou quando escolheu o exílio e o amor aos
mortos, em vez do coração e da cama de sua esposa.
Em qualquer situação normal, ou quase normal, a corte reagiria àquela frase. Deveria ser
assim. Mas Dianora não ouviu nada, a não ser o ruído de várias pessoas respirando
cuidadosamente, enquanto Brandin abria seus olhos novamente, para encarar Isolla. Havia
um nítido triunfo no rosto da cantora de Ygrath.
— Eu a convidei a vir — repetiu ele, quase melancolicamente. — Eu poderia tê-la obrigado,
mas preferi não fazê-lo. Ela deixou claros seus sentimentos, e deixei que ela escolhesse.
Pensei que seria o mais justo e terno a se fazer. Parece que meu pecado consiste em não tê-la
obrigado a pegar o navio até esta península.
Várias mágoas e formas de dor diferentes pareciam guerrear dentro de Dianora. Atrás do
Rei, podia-se ver d’Eymon; seu rosto debilmente acinzentado. Seus olhos se encontraram
com os de Dianora rapidamente, e então se desviaram. Mais tarde, ela poderia pensar em
modos de utilizar essa repentina situação contra ele, mas, naquele instante, conseguia apenas
sentir pena. Sabia que ele ofereceria sua demissão naquela noite. Provavelmente, iria se
oferecer para tirar a própria vida, como os antigos faziam. Brandin recusaria, mas, depois
daquela noite, nada mais seria igual.
Por diversas razões.
— Acho que você já me contou o que eu precisava saber — Brandin disse.
— O músico de Chiara agiu sozinho — soltou Isolla, inesperadamente. Ela gesticulava, apontando para Camena, prensado pelos soldados atrás dela. — Ele se juntou a nós quando
visitou Ygrath, dois anos atrás. Nossos propósitos pareciam caminhar juntos até aqui.
Brandin acenou com a cabeça, enquanto repetia, baixinho:
— Até aqui. Pensei que esse seria mesmo o caso. Obrigado por con rmar — completou ele,
sério.
Houve silêncio.
— Você me prometeu uma morte rápida — disse Isolla, mantendo-se firme.
— Prometi — disse Brandin. — De fato, eu prometi.
Dianora parou de respirar. O Rei olhou para Isolla sem expressão alguma, pelo que pareceu
um período insuportavelmente longo demais.
— Você não tem ideia — disse ele, en m, numa voz pouco acima de um sussurro — do
quão feliz eu estava por você vir cantar novamente para mim.
E então moveu sua mão direita, no mesmo gesto casual com que dispensaria um serviçal ou
peticionário.
A cabeça de Isolla explodiu como uma fruta velha esmagada por um martelo. Sangue negro
espirrou de seu pescoço, enquanto seu corpo caía no chão como um saco. Dianora estava
perto demais; o sangue da mulher assassinada jorrou, grosso, em seu rosto e em seu vestido.
Ela cambaleou para trás. Uma asquerosa ilusão de criaturas reptilianas se enrolava e se
contorcia no local em que a cabeça de Isolla fora esmagada, tornando-se uma gosma amorfa.
Houve gritos em todos os lugares, e um pandemônio enquanto a corte recuava.
Repentinamente, uma gura correu para a frente. Tropeçando, quase caindo em sua pressa,
a gura sacou uma espada. E de modo estranho e atrapalhado, tomando a espada nas duas
mãos, Rhun, o Bobo, começou a golpear o corpo morto da cantora.
Seu rosto estava bizarramente distorcido com raiva e asco. Espuma e catarro escorriam de
sua boca e de seu nariz. Com um corte bruto, ele arrancou um braço do tronco da mulher.
Algo negro, verde e cego parecia ondular, saindo do buraco formado no ombro de Isolla,
deixando um rastro de gosma negra e brilhante. Atrás de Dianora, alguém soluçou,
aterrorizado.
— Stevan! — gritou Rhun, em voz quebrada. E entre náusea, caos e terror, uma
arrebatadora compaixão tomou de súbito o coração de Dianora. Ela olhava para o frenético
bobo, vestido exatamente como o Rei, portando uma espada do Rei. Saliva escorria de sua
boca.
— Música! Stevan! Música! Stevan! — gritava Rhun obsessivamente, e a cada palavra feroz,
articulada arrastadamente, a espada na e encrustada de joias que carregava subia e descia,
reluzindo à luz, talhando o corpo como se fosse um pedaço de carne. Ele escorregou no chão
ensanguentado e caiu de joelhos com a força de sua própria fúria. Algo cinza e com olhos
salientes apareceu, grudando em seus joelhos como uma sanguessuga.
— Música — disse Rhun uma última vez, suavemente, com inesperada clareza. Então a
espada escorregou de suas mãos e ele se sentou em uma poça de sangue, ao lado do corpo mutilado da cantora, sua cabeça calva caída estranhamente para o lado, seus trajes brancos e
dourados irremediavelmente sujos, chorando como se seu coração estivesse partido.
Dianora se voltou para Brandin. O Rei estava imóvel e permanecia exatamente no mesmo
ponto de antes, as mãos relaxadas ao lado do corpo. Ele encarava a terrível cena à sua frente
com uma indiferença apavorante.
— Sempre há um preço — disse Brandin baixo, quase para si, em meio aos gritos e ao
tumulto que enchiam a câmara de audiências. Dianora deu um passo incerto em direção a
ele, mas o Rei já se voltara e, junto com d’Eymon, que o seguia rapidamente, saiu do cômodo
pela porta atrás do estrado.
Com a sua saída, as criaturas repugnantes imediatamente desapareceram, mas não o corpo
sem cabeça da cantora ou a miserável gura torta do bobo. Dianora parecia estar sozinha,
junto a eles; todos os demais haviam fugido por alguma das portas. O sangue de Isolla estava
quente onde tocava sua pele.
As pessoas se atropelavam e empurravam umas às outras, em sua pressa frenética para sair
da sala, agora que o Rei partira. Ela viu os soldados arrastarem Camena di Chiara por uma
porta lateral. Outros soldados traziam um lençol para cobrir o corpo de Isolla. Eles tiveram
que retirar Rhun para isso; ele não parecia entender o que estava acontecendo. E ainda
chorava, seu rosto grotesco distorcido em lágrimas como uma criança machucada. Dianora
ergueu a mão para secar uma lágrima, e as pontas de seus dedos caram sujas de sangue. Os
soldados colocaram o lençol sobre o corpo da cantora. Um deles pegou cautelosamente o
braço que Rhun havia decepado e o empurrou para baixo do lençol. Dianora viu-o fazendo
aquilo. Parecia ter sangue em todo o seu rosto. Prestes a perder completamente o controle,
ela olhou ao redor, buscando ajuda, qualquer tipo de ajuda.
— Venha, minha senhora — disse a voz que necessitava tão desesperadamente, logo ao seu
lado. — Venha. Deixe-me levá-la de volta à saishan.
— Oh, Scelto... — murmurou ela — por favor. Por favor, leve-me, Scelto.
As notícias se espalharam pela saishan como fogo em grama seca, enchendo-a de rumores e
medo. Uma tentativa de assassinato vinda de Ygrath. Com participação de Chiara.
E que quase obtivera sucesso.
Scelto arrastou Dianora pelo corredor até seu quarto e, num impulso de proteção, bateu a
porta diante da multidão nervosa e agitada que corria e enchia os corredores como um
bando de mariposas vestidas de seda. Sempre murmurando, despiu-a e lavou-a, e então a
colocou cuidadosamente em seu vestido mais quente. Ela tremia incontrolavelmente, sem
conseguir falar. O eunuco acendeu a lareira e a fez sentar diante do fogo. Em doce
submissão, ela tomou o chá mahgoti que ele lhe preparara como um sedativo. Dois copos,
um seguido do outro. Por m, a tremedeira cessou. Ela ainda achava difícil conseguir falar.
Scelto a fez permanecer na cadeira diante do fogo — não que ela quisesse sair dali.
Seu cérebro parecia esmurrado, anestesiado. Ela se sentia totalmente incapaz de
compreender, de formular uma reação adequada a tudo o que acontecera.
Apenas um pensamento continuava afastando os outros, retumbando em sua cabeça como
os arautos que golpeavam o chão. Um pensamento tão impossível, tão incapacitante, que
tentava com todas as suas forças bloqueá-lo, em meio à terrível dor de cabeça. Não
conseguia. O golpe a acertava, de novo e de novo: salvara a vida dele.
Tigana estivera a uma simples pulsação de voltar ao mundo. A pulsação de Brandin, quase
encerrada pela besta.
Sua terra era um sonho que passara por sua mente, ainda ontem. Um lugar em que as
crianças costumavam brincar. Entre torres próximas às montanhas, à beira do rio, na areia
branca ou dourada à beira de um palácio próximo do mar. Sua terra era um desejo, um
sonho desesperado, um nome em seus sonhos. E naquela tarde zera a única coisa que
precisava fazer para esconder esse nome do mundo, para trancá-lo em um sonho. Até que
todos os sonhos, enfim, morressem.
Como poderia lidar com isso? Como conseguiria enfrentar o que aquilo signi cava? Viera
até ali para matar Brandin de Ygrath, para encerrar-lhe a vida de modo que Tigana pudesse
recuperar a sua. E, ao invés disso...
A tremedeira começava mais uma vez. Agitado e murmurante, Scelto atiçou o fogo e trouxe
mais um cobertor para seus joelhos e pés. Quando viu as lágrimas no rosto de Dianora,
emitiu um ruído de a ição. Mais tarde, alguém batia com força na porta, e ela ouviu
enquanto Scelto os expulsava com uma linguagem que nunca antes ouvira em sua boca.
Gradualmente, Dianora começou a se recompor. Por meio da cor da luz que gentilmente
tocava as altas janelas, ela soube que a tarde esvaía-se rumo ao anoitecer. Esfregou as
bochechas e os olhos com as costas da mão. Manteve-se sentada. Deveria estar pronta para a
chegada do crepúsculo; era no crepúsculo que Brandin mandava chamar alguém na saishan.
Ergueu-se de sua cadeira, feliz em perceber que suas pernas estavam mais rmes. Scelto
avançou, protestando, mas se calou ao ver sua expressão. Sem falar mais nada, conduziu-a
pelas portas internas, descendo o corredor até os salões de banhos. Seu olhar feroz calou os
atendentes dali. Ela teve a impressão de que o eunuco os socaria caso falassem algo; nunca
soubera que Scelto tivesse cometido um único ato de violência. Não desde a vez em que
matara um homem e perdera sua virilidade.
Dianora deixou que eles a banhassem, deixou os óleos perfumados acariciarem sua pele.
Havia sido coberta de sangue naquela mesma tarde.
A água escorreu por seu corpo. Os atendentes lavaram seu cabelo. Em seguida, Scelto
pintou suas unhas, das mãos e dos pés. Um tom suave, róseo. Longe da cor do sangue, longe
da raiva ou da mágoa. Depois, ela pintaria seus lábios da mesma cor. Embora duvidasse que
fossem fazer amor. Ela o abraçaria e seria abraçada também. Retornou para seu quarto,
aguardando ser chamada.
Pela luz, soube quando a noite chegara. Todos na saishan sempre sabiam quando a noite
chegava. O dia caminhou para o horário em que escurecia. Dianora enviou Scelto para avisá-
la quando o chamado chegasse.
Pouco depois, ele retornou, dizendo que Brandin havia chamado Solores.
A raiva amejou dentro dela. Explodiu como... como a cabeça de Isolla de Ygrath, na
câmara de audiências. Dianora mal conseguia respirar, tamanha era sua repentina fúria.
Nunca em sua vida sentira algo assim, como aquele caldeirão fervilhante dentro do peito.
Depois da queda de Tigana, depois que seu irmão lhe fora tirado, sua raiva se tornou algo
lapidado, controlado, canalizado, voltado a um propósito, como uma chama guardada que,
ela sabia bem, queimaria por muito tempo.
Aquilo era um inferno. Um caldeirão fervia dentro dela, devastador, varrendo tudo diante
de si como um mar de lava. Estivesse Brandin naquele quarto, naquele momento, ela
arrancaria seu coração com as próprias unhas e dentes, como as mulheres zeram a Adaon
na montanha. Viu Scelto dar um passo para trás, involuntariamente; nunca antes soubera
que ele tivesse medo dela ou de qualquer outra pessoa. Mas tal observação não importava
agora.
O que importava, tudo o que importava, a única coisa que importava é que ela salvara a
vida de Brandin de Ygrath, jogando no muco e no sangue derramado a memória clara de
seu lar, assim como o juramento que zera, tanto tempo antes. Ela violara a essência de tudo
aquilo que um dia fora; violara a si mesma de forma mais cruel do que qualquer homem que
havia se deitado com ela em troca de uma moeda, naquele quarto em Certando.
E em troca... Em troca, Brandin procurara Solores di Corte, deixando-a passar a noite
sozinha.
Não, ele não devia ter feito isso.
Não importava o fato de que, no íntimo de seu coração incandescente, pudesse entender
por que ele zera aquilo. Entender que naquela noite ele não precisava de sagacidade ou
inteligência, de questionamentos ou de sugestões. Ou de desejo. Sua necessidade consistia
na gentileza suave, inconsciente e re exiva que Solores lhe proporcionava. E que Dianora,
aparentemente, não possuía. A voz calma, o carinho, o acalanto. Brandin precisaria de abrigo
naquela noite. E ela compreendia: pois era o que ela também precisava, desesperadamente,
depois do que acontecera.
Mas ela precisava de que ele lhe desse isso.
E então ocorreu que, sozinha em sua cama naquela noite, sem abrigo de pessoa ou coisa
alguma, Dianora encontrou-se nua e incapaz de se esconder do que a acometera, quando as
chamas da ira finalmente se extinguiram.
Estava acordada durante o segundo e depois durante o terceiro badalar dos sinos que
delimitavam as tríades das horas escuras. Mas, antes do terceiro soar dos sinos, que marcava
o nascimento do alvorecer cinzento, duas coisas aconteceram dentro dela.
A primeira foi o inexorável retorno daquele único o de memória que ela sempre
bloqueara cuidadosamente e que trazia a miríade de mágoas daquele ano em que Tigana
fora ocupada. Na escuridão daquela Noite das Brasas, ela estava sem abrigo e exposta, à
deriva e distante de quaisquer amarras que sua alma já tivesse encontrado.
Enquanto Brandin, na ala oposta do palácio, buscava o conforto que conseguia em Solores
di Corte, Dianora permanecia num espaço aberto e vazio, sem conseguir evitar qualquer uma
das imagens que lhe voltavam de anos distantes. Imagens de amor, de dor e da perda do
amor em meio à dor, que eram a adas demais — a adas e frias demais, apunhalando seu
coração — para serem permitidas em situações normais.
Mas o dedo da morte repousara em Brandin de Ygrath naquele dia, e fora ela quem o
retirara, puxando o Rei do mais negro portal de Morian. E aquela era uma Noite de Brasas,
uma noite de fantasmas e sombras. Não poderia ser uma noite normal e, de fato, não era. O
que acometeu Dianora de forma tão terrível foi a progressão constante, uma após a outra,
como ondas do mar, das memórias finais de seu irmão, antes que partisse.
Ele era jovem demais para lutar à beira do Deisa. Ninguém com menos de 15, proclamara o
Príncipe Valentin antes de cavalgar para a guerra ao norte. Alessan, o lho mais novo do
Príncipe, fora levado para o sul e escondido por Danoleon, o Alto Sacerdote de Eanna, assim
que se soube do ataque de Brandin.
Aquilo fora depois da morte de Stevan. Depois daquela única vitória. Todos eles souberam
— os homens cansados que haviam lutado e sobrevivido, e as mulheres, os velhos e as
crianças deixados para trás — que a vinda de Brandin marcaria o nal do mundo em que
viviam e que amavam.
Eles não sabiam, então, o quão literal seria aquilo: o que o Rei Feiticeiro de Ygrath poderia
fazer, e o que ele zera. Isso, eles descobririam nos próximos dias e meses, algo brutal e cruel
que cresceria como um tumor e inflamaria as almas daqueles que sobreviveram.
Os que morreram no Deisa tiveram sorte. Assim era dito por aqueles que sobreviviam, de
forma cada vez mais frequente e sempre em sussurros, naquele ano em que Tigana morria.
Dianora e seu irmão foram deixados com uma mãe cuja mente havia se rompido como a
corda de um arco, ao receber as notícias do Segundo Deisa. Enquanto a vanguarda dos
ygratheanos entrava na cidade, ocupando as ruas e praças de Tigana, tomando as casas
nobres e o Palácio ao Mar delicadamente colorido, ela parecia perder sua última consciência
do mundo para vagar, muda e gentil, por um espaço para o qual nenhum de seus lhos
podia viajar com ela.
Às vezes, ela acenava e sorria para coisas invisíveis, enquanto se sentava em meio à terra de
seu quintal, no verão, com mármore esmagado ao seu redor. E o coração de sua lha doía,
como uma antiga ferida sob as chuvas do inverno.
Dianora se incumbiu de cuidar das tarefas domésticas da melhor maneira que conseguia,
embora três dos serviçais e dos aprendizes tivessem morrido com seu pai. Dois outros
fugiram pouco depois que os ygratheanos chegaram e a destruição começou. Ela não
conseguia culpá-los. Apenas uma das mulheres e o mais novo dos aprendizes permaneceram
com eles.
Seu irmão e o aprendiz aguardaram até que a longa onda de incêndios e demolições
passasse, e então buscaram emprego limpando entulhos ou consertando paredes, enquanto a limitada reconstrução começava, sob ordens de Ygrath. A vida começava a retomar sua
normalidade. Ou o que aparentava ser uma normalidade, em uma cidade agora chamada de
Baixa Corte, em uma província de mesmo nome.
Em um mundo em que a própria palavra Tigana não podia mais ser ouvida por ninguém
além deles. Logo pararam de usá-la em locais públicos. A dor era grande demais: o
sentimento distorcido dentro deles vinha a cada olhar inexpressivo e de incompreensão no
rosto dos ygratheanos ou dos mercadores e banqueiros de Corte, que rapidamente
empestearam o lugar para tentar arrancar algum lucro em meio aos escombros e à lenta
reconstrução da cidade. Era uma dor para a qual, verdadeiramente, não havia nome.
Dianora conseguia lembrar, de modo aguçado e irregular, a primeira vez que chamara seu
lar de Baixa Corte. Todos os sobreviventes se lembravam: era, para cada um deles, um
momento em que sentiam uma sgada na alma. Os que morreram no Deisa, na Primeira ou
na Segunda batalha, tiveram sorte — e a frase se espalhou naquele ano.
Ela assistira enquanto seu irmão alcançava uma maturidade amarga naquele verão, o
sorriso desaparecido, a gargalhada perdida, a infância levada cedo demais, sem saber o
quanto as árduas lições e as ausências também se gravaram no seu próprio rosto magro e
triste. Ela completara 16 no verão anterior; ele chegara aos 15 na primavera. Ela fez um bolo
de aniversário para o aprendiz, a velha serviçal, sua mãe, seu irmão e para ela mesma. Não
tiveram convidados; qualquer tipo de reunião era proibida naquele ano. Sua mãe sorrira
quando Dianora lhe entregou uma fatia do bolo negro — mas Dianora sabia que o sorriso
não tinha nada a ver com nenhum deles.
Seu irmão também sabia. Sobrenaturalmente sério, ele beijou a testa de sua mãe e então a
de sua irmã, e saiu em meio à noite. Obviamente, era ilegal estar nas ruas após o pôr do sol,
mas algo continuava a movê-lo para fora de casa, além das fogueiras que ainda crepitavam
em quase todas as esquinas. Era como se estivesse desa ando as patrulhas de ygratheanos a
pegá-lo. Para puni-lo por ter apenas 14 anos quando chegara a época de guerra.
Naquele outono, dois soldados haviam sido esfaqueados durante a noite. Em uma rápida
resposta, vinte rodas de tortura foram montadas. Seis mulheres e cinco crianças estavam
entre os deixados ali para morrerem. Dianora conhecia a maioria delas: não havia mais
tantas pessoas restantes na cidade, e todas elas se conheciam. Os gritos das crianças, e então
seu choro, cada vez mais baixos, eram coisas que ela lutaria para esquecer, para sempre,
durante suas noites.
Nenhum outro soldado foi morto.
Seu irmão continuava a sair durante a noite. Ela cava acordada até ouvi-lo voltar. Ele
sempre fazia barulho, propositalmente, e então a irmã o ouviria e poderia dormir. De algum
modo, ele sabia que Dianora estaria acordada, embora nunca houvesse falado sobre isso.
Ele teria sido muito bonito, com seu cabelo negro e seus olhos castanhos, profundos, caso
não estivesse tão magro e seus olhos não se encontrassem tão marcados pela falta de sono e
pela mágoa. Não havia muita comida naquele primeiro inverno: a maior parte da colheita fora queimada; o restante, con scado. Mas Dianora fazia o melhor que conseguia para
alimentar os cinco. Não havia, entretanto, nada que pudesse fazer quanto ao olhar no rosto
de seu irmão. Todos tinham aquele olhar naquele ano. Ela o via até no espelho.
Na primavera seguinte, os soldados ygratheanos descobriram uma nova distração. Era
praticamente inevitável que eles descobrissem: tratava-se da planta maligna que crescia das
sementes da vingança de Brandin.
Dianora se lembrava de estar à beira de uma janela, no segundo andar, quando começou.
Ela assistia ao seu irmão e ao aprendiz — que, obviamente, não era mais um aprendiz —
caminhando numa manhã ensolarada pela praça, rumo ao local onde trabalhavam. Nuvens
brancas tomavam o céu, empurradas pelo vento. Um pequeno grupo de soldados veio pelo
outro lado e abordou os dois rapazes. A janela estava aberta para arejar a sala e deixar entrar
a brisa fresca; ela ouviu tudo.
— Ajude-nos! — um dos soldados pediu, com um olhar malicioso que ela pôde notar da
janela. — Estamos perdidos.
Ele grunhia, enquanto os outros soldados rapidamente cercavam os garotos. Ele arrancou
risos secos de seus companheiros. Um deles deu uma cotovelada nas costelas do outro.
— Onde estamos? — perguntou o soldado.
Com os olhos cuidadosamente baixos, seu irmão dissera o nome da praça em que estavam e
das ruas que saíam dela.
— Isso não adianta! — reclamara o soldado. — De que me adiantam os nomes de ruas? Eu
não sei nem em que cidade eu estou!
Houve risos. Dianora apurou os olhos ao ouvir aquilo.
— Baixa Corte — murmurou o aprendiz, rapidamente, enquanto o irmão continuava
quieto. Mas os soldados notaram o silêncio.
— Que cidade? Você, me responda — disse o soldado, mais agressivamente, dando um
soco no ombro do irmão.
— Eu acabei de dizer. Baixa Corte — interrompeu o aprendiz, alto.
Um dos soldados golpeou a lateral de sua cabeça. O garoto cambaleou e quase caiu; ele se
recusou a erguer a mão para tocar sua cabeça.
Dianora, apavorada e com o coração acelerado, viu enquanto seu irmão os encarava. O
cabelo negro reluzia o brilho do sol matinal. Ela pensou que ele fosse golpear o soldado que
batera no aprendiz. Pensou que ele fosse morrer. Estava imóvel à janela, com as mãos
apoiadas no parapeito. Um silêncio terrível tomou a praça. O sol brilhava.
— Baixa Corte — disse o irmão, como se aquelas palavras o engasgassem.
Rindo estridentemente, os soldados os deixaram ir.
Naquela manhã.
Os dois garotos se tornaram as vítimas favoritas daquele grupo, que patrulhava seu distrito
entre o Palácio ao Mar e o centro da cidade, local dos três templos. Nenhum dos templos da
Tríade fora destruído, apenas as estátuas que cavam dentro e fora deles. Duas delas eram obras de seu pai. Uma Morian jovem e sedutora, e uma gura grande e primitiva de Eanna,
erguendo as mãos para fazer as estrelas.
Os garotos começaram a sair de casa cada vez mais cedo ao longo da primavera, tomando
rotas alternativas, numa tentativa de despistar os soldados. Na maioria das manhãs, no
entanto, eram encontrados. A essa altura, os ygratheanos já estavam entediados, e as
tentativas dos garotos de enganá-los lhes oferecia uma distração.
Dianora costumava se postar àquela mesma janela quando eles saíam atravessando a praça,
como se o ato de assistir ao que quer que acontecesse pudesse, de alguma forma,
compartilhar a dor entre os três, amenizando-a. Quase todas as vezes, os soldados os
abordavam assim que entravam na praça. Ela observava na vez em que o jogo se tornou algo
pior.
Naquela vez, era de tarde. Apenas meio período de trabalho, pois era um feriado da
Tríade: parte da preparação para os Dias das Brasas primaveris. Os ygratheanos, assim como
os barbadianos ao leste, tiveram o escrúpulo de não mexer com a Tríade ou seu clero. Após o
almoço, os dois garotos saíram para uma tarde de trabalho.
Os soldados os cercaram no meio da praça. Eles nunca pareciam cansar de seu jogo. Mas
naquela tarde, mal começara o líder seu ngimento de estar perdido, um grupo de quatro
mercadores passava, atravessando a colina, vindo do porto. E um dos soldados teve uma
ideia, nascida da mais maligna inspiração.
— Parem! — gritou ele. Os comerciantes obedeceram, abruptamente. Todos obedeciam ao
comando de um ygratheano em Baixa Corte, não importava de onde fossem.
— Venham cá — disse o soldado. Seus colegas abriram caminho para que os mercadores
pudessem postar-se em frente aos meninos. Dianora sentiu-se tocar pela premonição de algo
maligno como se um dedo gélido deslizasse por sua espinha.
Os quatro mercadores disseram ser de Asoli. O que era óbvio, dadas as suas roupas.
— Bom — disse o soldado. — Eu sei como vocês são gananciosos. Agora ouçam bem. Esses
pirralhos vão dizer a vocês o nome de sua cidade e de sua província. Juro, em nome da
minha honra e em nome de Brandin, Rei de Ygrath, que darei vinte ygras de ouro para o
primeiro homem que puder me repetir o que eles disseram.
Era uma fortuna. Mesmo de onde estava, naquela altura e do outro lado de uma janela,
Dianora pôde ver a reação dos mercadores de Asoli. Isso foi antes de fechar seus olhos. Ela
sabia o que aconteceria, e como isso seria doloroso. Ela queria tanto que seu pai estivesse
vivo que quase chorou. Mas seu irmão estava lá embaixo, em meio a soldados que o
odiavam. Ela engoliu suas lágrimas, abriu os olhos, observou.
— Você — disse o soldado para o aprendiz. Eles sempre começavam com ele. — Sua
província já teve outro nome. Diga qual era.
Ela viu o garoto, que se chamava Naddo, empalidecer de medo, raiva ou ambos. Os quatro
mercadores, alheios ao que se passava, se reclinaram, tensos de ansiedade. Dianora viu
Naddo olhar para seu irmão, buscando uma orientação ou talvez uma dispensa.
O soldado viu o olhar:
— Nada disso! — soltou ele. E então sacou sua espada. — Por sua vida, diga o nome!
Naddo, muito claramente, disse:
— Tigana.
E, obviamente, nenhum dos mercadores conseguiu repetir a palavra que ele dissera. Nem
por vinte ygras de ouro, nem por vinte vezes esse valor. Dianora conseguia ver a surpresa e a
ambição em seus olhos, e o medo que sempre nasce quando se confronta a feitiçaria.
Os soldados riram e trocaram cotoveladas. Um deles possuía uma gargalhada estridente
como o cacarejo de um galo. Eles viraram para seu irmão.
— Não — disse ele, seco, antes que pudessem lhe dar a ordem. — Vocês já se divertiram.
Eles não conseguem ouvir o nome. Todos sabemos disso. O que mais querem provar?
Ele tinha 15 anos, era muito magro e seu cabelo escuro estava longo demais, quase
cobrindo os olhos. Fazia quase um mês desde que ela o cortara, e ela passara a semana toda
querendo fazê-lo novamente. Uma de suas mãos apertava o parapeito da janela com tanta
força que todo o sangue lhe escapara; estava branca como gelo. Ela cortaria as próprias mãos
se isso pudesse mudar o que estava acontecendo. Notava outros rostos, em outras janelas, ao
longo da rua e do outro lado da praça. Algumas pessoas que passavam na rua também
pararam, vendo aquele grande grupo de homens, sentindo a repentina tensão que se
formava.
Algo que não era bom. A nal, agora que tinham uma plateia, os soldados teriam que
estabelecer claramente sua autoridade. O que havia sido um jogo, quando feito em
particular, tornara-se então algo completamente distinto. Dianora queria olhar para o outro
lado. Queria seu pai de volta do Deisa, queria o Príncipe Valentin de volta e vivo, queria sua
mãe de volta de onde quer que sua mente estivesse vagando.
Ela assistia. Para compartilhar. Para testemunhar e se lembrar, sabendo, mesmo naquela
época, que tais coisas seriam importantes, se é que algo ainda importaria nos próximos dias e
anos. O soldado com a espada em punho encostou, cuidadosamente, a sua ponta contra o
peito de seu irmão. O sol da tarde se re etia na lâmina. Era uma lâmina de trabalho, uma
espada de soldado. Um pequeno som escapou das pessoas reunidas ao redor da praça.
Seu irmão disse, um pouco desesperado:
— Eles não conseguem entender o nome. Você sabe que eles não conseguem. Vocês nos
destruíram. É necessário causar ainda mais dor? É necessário?
Ele tem apenas 15, rogou Dianora, agarrando-se ao parapeito como se fosse a morte; sua
mão, como se fosse uma garra. Ele era jovem demais para lutar. Ele não tinha permissão.
Perdoe-lhe por isso. Por favor.
Os quatro mercadores de Asoli, como se fossem um homem só, recuaram rapidamente.
Um dos soldados, aquele com o riso alto, remexeu-se desconfortavelmente, como se
lamentando o que aquilo se tornara. Mas havia uma multidão observando. O garoto tivera
sua chance. Não havia escolha agora.
A espada se moveu para a frente delicadamente, e então recuou. Através da gasta túnica
azul, um punhado de sangue surgiu e se estancou por um momento, brilhando à luz da
primavera, antes de escorrer, manchando o azul.
— O nome — disse o soldado, secamente. Sua voz era rme, séria. Dianora percebeu que
era um profissional e que se preparava para matar.
Uma testemunha, uma memória, ela viu seu irmão mais novo separar os pés, como se
quisesse se ancorar ao chão da praça. Ela viu suas mãos apertarem-se e sua cabeça lançar-se
para trás, encarando o céu.
E então ela ouviu seu brado.
Ele deu a eles aquilo que exigiram. Obedeceu ao comando, mas não triste ou desa ador, e
não com o peso da vergonha. Com os pés sobre a terra de seus ancestrais, rme diante da
casa de sua família, ele olhou diretamente para o sol e deixou o nome explodir de dentro de
sua alma.
— Tigana! — gritou ele, para que todos pudessem ouvir. Todos eles, todos naquela praça. E
então, mais alto ainda:
— Tigana!
E então uma terceira e última vez, do ápice de sua voz, com orgulho, com amor, com a
rebeldia que perdurara em seu coração:
— TIGANA!
Aquele brado ecoou pela praça, pelas ruas, até as janelas de onde as pessoas observavam,
sobre os telhados das casas que iam a oeste, para o mar, e a leste, para os templos, e muito
além deles: um som, um nome, uma mágoa lançada em meio à luminosidade do ar. E
embora os quatro mercadores não pudessem compreender o nome, embora os soldados não
pudessem entendê-los, as mulheres nas janelas, seus lhos e os homens nas ruas puderam
ouvi-lo claramente, e puderam se agarrar a ele, e puderam se lembrar do orgulho que era a
base daquele clamor crescente.
E aquilo os soldados puderam entender completamente, enquanto olhavam ao seu redor.
Estava escrito nos rostos à sua volta. Ele zera apenas o que mandaram que zesse; mas o
jogo havia mudado, tinha dado errado de um modo que compreendiam apenas vagamente.
Obviamente, eles o espancaram.
Com seus punhos, seus pés e com a parte seca de suas bem-cuidadas lâminas. E também
Naddo, por estar lá e por fazer parte daquilo. Mas a multidão não se dispersou, como era
comum durante um espancamento. Eles assistiam, repletos de um silêncio que era incomum
para uma multidão daquelas. O único som era o dos golpes, pois o garoto não chorou e os
soldados não falaram.
Quando terminou, eles dispersaram a multidão com maldições e ameaças. Aglomerações
eram consideradas ilegais, ainda que houvessem sido eles os responsáveis pela formação
daquela. Em poucos instantes, todos haviam partido. Havia apenas alguns rostos, atrás de
cortinas semicerradas, olhando para uma praça vazia, a não ser pelos dois garotos, caídos em meio à poeira, sangue reluzindo em suas vestes. Houve pássaros cantando ao redor e durante
todo o acontecimento. Dianora lembrava.
Ela se forçou a permanecer onde estava. A não correr até eles. A deixá-los fazer aquilo
sozinhos, como lhes era de direito. E, à distância, viu o irmão se erguer, com os movimentos
pesados e lentos de um homem muito velho. Ela o viu falar com Naddo e então,
cuidadosamente, ajudá-lo a car de pé. E então, como sabia que aconteceria, viu seu irmão,
sujo e ensanguentado, mancando, levando Naddo para o leste, para o local onde iriam
trabalhar naquele dia. Sem olhar para trás.
Observou-os partir. Seus olhos estavam secos. Ela só deixou a janela quando os dois
viraram a esquina, bem mais adiante, e sumiram de seu campo de visão. Apenas então,
afrouxou suas mãos pálidas que apertavam o parapeito da janela. E apenas então, invisível a
todos por trás das cortinas fechadas, permitiu que suas lágrimas escorressem: de amor, de
dor e de um orgulho gigantesco.
Quando eles voltaram para casa naquela noite, ela e a serviçal esquentaram água e lhes
deram banho, cuidando, a seguir, das feridas e dos hematomas negros da melhor forma que
conseguiam.
Mais tarde, durante o jantar, Naddo informou que estava partindo. Naquela mesma noite,
ele disse. Disse ainda, remexendo-se inquieto em sua cadeira, que aquilo era demais. Falava
para Dianora, pois seu irmão virara o rosto assim que Naddo começou a falar.
Não havia vida a ser construída ali, disse Naddo com uma urgência exaltada, por meio de
uma boca torta e rasgada. Não em meio aos soldados perversos e aos impostos mais perversos
ainda. Se um homem jovem, jovem como ele, tivesse alguma esperança de fazer algo de sua
vida, disse Naddo, deveria partir. Seus olhos buscavam, desesperadamente, alguma
compreensão. Ele continuava olhando, nervoso, para onde seu irmão estava, agora com as
costas completamente voltadas para eles.
— Para onde você irá? — perguntara-lhe Dianora.
— Asoli — respondeu ele. Era uma terra difícil e chuvosa, insuportavelmente quente e
úmida no verão, todos sabiam daquilo. Mas havia lugar lá para pessoas novas. Ele ouvira que
o povo de Asoli recebia bem as pessoas, mais do que nas terras barbadianas ao leste. Ele
jamais, em hipótese alguma, iria para Corte ou Chiara. As pessoas de Tigana não iam para lá.
Quando ele disse isso, seu irmão fez um pequeno ruído, mas não se virou. Naddo lhe lançou
outro olhar e engoliu em seco, seu pomo de Adão tremendo na garganta.
Naddo disse a Dianora que outros três rapazes haviam feito planos. Planos para escapar da
cidade naquela noite e partir para o norte. Ele já sabia disso havia algum tempo. Mas não
tinha certeza. Não sabia ao certo o que fazer. O que acontecera naquela manhã, no entanto,
havia decidido por ele.
Que Eanna ilumine seu caminho, disse Dianora, com sinceridade. Ele havia sido um bom
aprendiz, e depois um amigo corajoso e leal. Pessoas partiam o tempo todo. A província de
Baixa Corte era um local ruim em uma época ruim. O olho esquerdo de Naddo estava completamente inchado e fechado. Por pouco, não fora morto naquela tarde.
Mais tarde, enquanto juntava seus poucos pertences e se preparava para partir, ela lhe deu
um pouco de prata do depósito escondido de seu pai. E se despediu dele com um beijo. Foi
então que ele começou a chorar. Despediu-se da mãe de Dianora e abriu a porta da frente.
Na soleira, parou novamente e se voltou, ainda chorando.
— Adeus — disse ele, angustiado, para a gura inerte diante do fogo, na sala de visitas.
Vendo o olhar na face de Naddo, Dianora desejou em silêncio que seu irmão se virasse, mas
ele não o fez. Deliberadamente, se ajoelhou e lançou mais um pedaço de madeira ao fogo.
Naddo ainda olhou-o por mais um momento, voltou-se para encarar Dianora, tentou sem
sucesso esboçar um sorriso trêmulo e choroso, e partiu em meio à escuridão.
Muito mais tarde, quando o fogo já se apagara, seu irmão também saiu. Dianora se sentou
e observou as cinzas sumirem lentamente, passou os olhos por sua mãe e foi para a cama.
Quando se deitou, pareceu-lhe que um peso caía sobre seu corpo, muito maior do que
aquele do manto acolchoado.
Estava acordada quando ele chegou. Sempre estava. Ouviu-o entrar com passos ruidosos,
como era seu costume, para que ela pudesse saber que ele chegara. Mas não ouviu o som
seguinte, que deveria ser o abrir e o fechar da porta de seu quarto.
Estava muito tarde. Dianora continuou deitada por mais um instante, cercada e dominada
por todas as mágoas daquele dia. Então, movendo-se pesadamente, como se estivesse
drogada ou em um sonho, levantou-se e acendeu uma vela. Foi até a porta e abriu-a.
Ele estava parado no corredor. E, pela luz tremulante que levava, pôde ver o rio de lágrimas
incessante que escorria por seu rosto ferido e distorcido. Suas mãos começaram a tremer.
Dianora não conseguia falar.
— Por que eu não me despedi dele? — ouviu-o dizer, numa voz engasgada. — Por que
você não me fez dizer adeus a ele?
Ela nunca antes ouvira tanta dor em sua voz. Nem mesmo no dia em que souberam que
seu pai havia morrido, à beira do rio.
Com dor no coração, Dianora colocou a vela sobre uma prateleira que certo dia abrigara
um busto de sua mãe, feito por seu pai. Avançou a pequena distância e tomou o irmão em
seus braços, absorvendo suas lágrimas e seus soluços. Ele nunca havia chorado. Ou nunca na
sua frente. Ela o levou até seu quarto e se deitou ao seu lado na cama, abraçando-o.
Choraram juntos por um longo tempo. Ela não conseguiria dizer quanto.
Sua janela estava aberta. Era possível ouvir a brisa passando pelas folhas jovens, na rua. Um
pássaro cantou, e outro respondeu, à distância. O mundo era um lugar de sonhos ou de
mágoas, de um deles ou de ambos. De um, ou de ambos. No santuário da noite, ela
lentamente puxou a túnica dele até a altura da cabeça, tomando cuidado com suas feridas, e
então tirou seu próprio vestido. O coração dela batia como o de uma criatura da oresta que
fora capturada. E sentia a pulsação acelerada dele, quando seus dedos lhe tocaram a
garganta. Ambas as luas já haviam sumido. O vento soprava sobre todas as folhas, na rua. E então...
E então, em toda aquela escuridão, acima deles, ao lado deles, ao seu redor, na escuridão
completa de um céu sem luas e na escuridão de seus dias, ambos buscaram um triste e ilícito
abrigo, um no outro, em meio ao seu mundo em ruínas.
— O que estamos fazendo? — sussurrou seu irmão.
Algum tempo depois, quando as pulsações novamente diminuíram deixando os dois
agarrados um ao outro, na sequência daquela necessidade precipitada e assustadora, ele
disse, enquanto acariciava gentilmente o cabelo dela:
— O que nós fizemos?
E depois de todos aqueles longos anos, sozinha na saishan enquanto a memória oculta
retornava, Dianora ainda conseguia se lembrar de sua resposta:
— Ó, Baerd... — disse ela. — O que fizeram conosco?
Aquilo durou desde aquela primeira noite por toda a primavera, e durante o começo do
verão. O pecado dos deuses, como era chamado o que zeram. Pois se dizia que Adaon e
Eanna eram irmãos no começo dos tempos, e Morian era filha deles.
Dianora não se sentia como uma deusa, e seu espelho não lhe oferecia ilusões: apenas um
rosto longo demais, com olhos arregalados. Sabia que sua felicidade a assustava, consumia-a
com culpa, e que Baerd era tudo em seu mundo. E o que a assustava em igual proporção era
ver nele a mesma profundidade de amor, a mesma surpreendente paixão. Seu coração a
enganava constantemente, mesmo quando encontravam aquela alegria fugidia: uma chama
reluzente demais em uma terra em que qualquer tipo de brilho estava perdido ou proibido.
Ele a buscava todas as noites. A mulher dormia no primeiro andar; sua mãe dormia — e
acordava — em seu próprio mundo. Na escuridão do quarto de Dianora, eles escapavam um
para o outro, buscando a inocência através da perda e da consciência do erro.
Em algumas noites, ele ainda se via compelido a sair para as ruas vazias. Não tão
frequentemente quanto antes, o que a fazia sentir-se grata e lhe servia como uma espécie de
justi cativa. Um bom número de rapazes fora pego após o toque de recolher e condenado às
rodas naquela primavera. Se o que ela estava fazendo o mantinha vivo, aceitaria encarar
qualquer julgamento que esperasse por ela nos Salões de Morian.
Mas não conseguia mantê-lo em casa todas as noites. Às vezes, uma necessidade que ela
não podia compartilhar ou entender o compelia a sair. Ele tentara explicar o quanto a cidade
era diferente sob a luz das duas luas, sob uma ou sob as estrelas. O quanto a luz mais leve e
as sombras permitiam que ele visse Tigana novamente como antes. Como conseguia andar
silenciosamente em direção ao mar, chegando ao palácio escurecido, e como seus escombros
e sua ruína conseguiam, de algum modo, remontar-se em sua mente, na escuridão, até a
forma que um dia tivera.
Ele dissera que necessitava daquilo. Nunca provocara os soldados, e prometera que nunca o
faria. Dissera que nem sequer queria vê-los. Eles quebravam as ilusões que buscava. Ele
apenas precisava estar fora de casa, dentro da memória de uma cidade que se fora. Baerd lhe contou que, às vezes, se en ava por brechas nas paredes do porto e caminhava pela praia
ouvindo o mar.
De dia, trabalhava; um garoto franzino em um trabalho de homem, ajudando a reconstruir
o que lhes era permitido reconstruir. Ricos mercadores de Corte, seus antigos inimigos,
tinham permissão para se estabelecer na cidade, para pagar muito caro por aqueles prédios
esmagados e nos palácios residenciais, e para reconstruí-los de acordo com suas próprias
pretensões.
De vez em quando, Baerd chegava em casa no m do dia com novos cortes e hematomas, e
uma vez, com a marca de um chicote no ombro. Ela sabia que, se um grupo de soldados
havia terminado de se divertir com ele, havia outros grupos para começar um novo jogo. Ela
ouvira que aquilo só acontecia ali. Em todos os outros lugares, os soldados procuravam se
conter, e o Rei de Ygrath governava com cuidado, buscando consolidar suas províncias
contra Barbadior.
Mas em Baixa Corte era diferente. Eles haviam matado seu filho.
Dianora via aquelas marcas em Baerd, mas não tinha coragem de pedir para que ele se
negasse o prazer de andar por sua cidade perdida, à noite. Mesmo que ela vivesse mil
pensamentos horrorosos e morresse quinhentas mortes a cada vez que a porta da frente se
abria e fechava após o escurecer, até que ela a ouvisse abrir novamente, e ouvisse os passos
familiares e amados nas escadas, e então ele chegasse e viesse até seu quarto para tomá-la e
mantê-la em seus braços.
Durou até o verão, e então terminou. Tudo acaba, como seu coração avisou daquela
primeira vez, enquanto ouvia o cantar dos pássaros e o vento nas árvores. Ele chegou a casa
depois de andar pela noite, e não mais tarde do que o habitual. Era uma noite em que a azul
Ilarion cruzara sozinha o alto rendilhado das nuvens. A noite estava linda. Ela cara até
tarde sentada sozinha à janela, assistindo o luar batendo nos telhados. Mas já estava deitada
quando ele chegou, e seu coração acelerara com a familiar confusão de alívio, culpa e
necessidade. Ele veio até seu quarto.
Mas não até a cama. Em vez disso, se afundou na cadeira que ela costumava ocupar à beira
da janela. Com uma terrível sensação de pavor, ela se ergueu e acendeu uma vela. Sentou-se
e olhou-o. Notou, mesmo na fraca luz da vela, que seu rosto estava muito pálido. Ela não
disse nada. Esperou.
— Eu estava na praia — disse Baerd, baixo. — E vi uma riselka lá.
Dianora sempre soubera que, em algum momento, terminaria, que deveria terminar. Ela
lançou a pergunta instintiva:
— Mais alguém a viu?
Ele balançou a cabeça, negativamente.
Olharam um para o outro, em silêncio. Ela mesma se impressionou por estar tão calma, por
conseguir manter as mãos rmes sobre o acolchoado. E, naquele silêncio, a verdade que ela
provavelmente já sabia há muito tempo atingiu-a:
— De qualquer modo, você só continuou aqui por minha causa — disse ela. Uma
afirmação. Não uma reprovação. Ele vira uma riselka.
Ele fechou os olhos.
— Você sabia?
— Sim — mentiu ela.
— Desculpe — disse ele, olhando-a.
Sabia que seria mais fácil para Baerd se escondesse o quanto isso era novo e mortalmente
frio para ela. Um presente; talvez, o último presente que ela poderia lhe dar.
— Não peça desculpas — murmurou a menina, ainda com as mãos rmes, onde ele podia
vê-las. — De verdade, eu compreendo.
Era verdade, ela compreendia. No entanto, seu coração era como algo ferido, um pássaro
com apenas uma asa, caindo em pequenos círculos até o chão.
— A riselka... — começou Baerd. E parou. Ela sabia que era algo grandioso e assustador.
Depois continuou, sério. — Ela deixa claro a mudança de vida da qual a profecia fala. Eu
tenho que ir.
Viu, em seus olhos, o amor que ele sentia por ela. Queria ser forte o su ciente. Forte o
su ciente para ajudá-lo a se afastar dela. Oh, meu irmão, pensava ela. E você irá me deixar
agora?
— Eu sei que ela deixa claro, Baerd — disse Dianora. — Sei que você tem que partir. Estará
marcado nas linhas de sua palma.
Engoliu em seco. Aquilo era mais difícil do que jamais imaginara. E prosseguiu:
— Aonde você irá?
E acrescentou um meu amor, mas não alto, apenas dentro de si, dentro de seu coração.
— Eu andei pensando nisso — disse ele.
Baerd se endireitou em seu assento. Dianora notou que ele juntava forças em sua calma. E
se agarrou àquilo, com tudo o que tinha.
— Irei procurar o Príncipe — completou ele.
— O quê? Alessan? Nós nem sequer sabemos se ele está vivo.
— Dizem que está — afirmou Baerd. — E que sua mãe está escondida com os sacerdotes de
Eanna, e que foi mandado para longe. Se ainda existe alguma esperança para nós, para
Tigana, ela está em Alessan.
— Ele tem 15 anos — disse ela, sem conseguir parar. E você também, pensou. Baerd, para
onde foi nossa infância?
À luz da vela, seus olhos não eram mais os de um garoto.
— Não acho que a idade importe — disse ele. — Isso não será algo rápido ou fácil, se é que
pode ser feito. Ele terá mais do que 15 anos quando chegar a hora.
— E você também — disse ela.
— E você também — repetiu Baerd. — Oh, Dia, o que você fará?
Ninguém mais, além de seu pai, chamava-a daquela forma. Estupidamente, foi aquele o nome que quase a fez perder o controle.
Ela balançou a cabeça:
— Eu não sei — falou, com sinceridade. — Cuidar de nossa mãe. Casar. O dinheiro deve
ser su ciente para mais um tempo, se eu for cuidadosa o bastante. — Ela viu seu olhar
ferido, e se apressou em reprimi-lo. — Você não deve se preocupar com isso, Baerd. Escute:
você acabou de ver uma riselka! Você irá enfrentar o seu destino apenas para continuar
limpando escombros nessa cidade até o m de seus dias? Ninguém mais possui escolhas
fáceis, e a minha certamente não será a mais difícil entre todas. — E, inclinando a cabeça de
modo desa ador, Dianora concluiu: — Mas eu posso pensar em alguma forma de perseguir
o mesmo sonho que você.
Ainda a assustava, ao se lembrar daquela noite, que tivesse realmente dito aquilo. Como se
fosse ela quem tivesse visto a riselka, e seu caminho estivesse claro, ainda que Baerd e ela se
afastassem.
Sozinha e fria na saishan, não estava nem sequer perto da solidão e do frio que sentira
naquela noite fatídica. Assim que ela se despediu, ele não hesitou. Dianora se levantou,
vestiu-o e ajudou-o a empacotar algumas coisas. Ele se recusou a levar qualquer prata, mas
ela lhe preparou um pequeno saco com comida, que deveria durar até o primeiro pôr do sol
da longa estrada adiante. Diante da porta, na escuridão da noite de verão, abraçaram-se
apertado, sem trocar palavra alguma. Nenhum dos dois chorou, como se soubessem que a
hora para lágrimas havia passado.
— Se as deusas e o deus nos amam — disse Baerd —, com certeza ainda nos
encontraremos. Pensarei em você todos os dias enquanto eu viver. Eu a amo, Dianora.
— E eu amo você — respondeu ela. — Acho que você sabe o quanto. Que Eanna ilumine
seu caminho e o traga de volta para casa.
Foi tudo o que ela disse. Tudo o que ela conseguira pensar em dizer.
Após Baerd partir, sentou-se na sala da frente, envolta em um velho xale de sua mãe,
contemplando as cinzas da última chama daquela lareira, até o nascer do sol.
Quando o cerne de seu plano já estava formado.
O plano que a trouxera até ali, depois de todos os anos, até aquela outra cama solitária,
numa Noite das Brasas repleta de fantasmas, justamente quando não deveria ser deixada
sozinha. Sozinha com todas as suas memórias, com tudo o que elas despertavam, com a
percepção do que permitira que lhe acontecesse, ali, na ilha. Na corte de Brandin. Ali, com
Brandin.
E duas coisas ocorreram a Dianora, naquela Noite das Brasas, na saishan.
A primeira foi a lembrança de seu irmão, sob a forma de ondas, imagem após imagem até
culminar com as cinzas daquela lareira apagada.
A segunda, seguindo-se inexoravelmente, nascida da mesma memória antiga, da culpa, das
dores que brotavam de estar ali, sozinha e tão terrivelmente exposta naquela noite de todas
as noites... A segunda coisa, rodopiando diante de todas essas outras, era, en m, uma resolução. Uma decisão, depois de tantos anos. Um plano que ela seguiria. Teria que seguir,
não importava o que acontecesse.
Permaneceu ali, gelada, irremediavelmente acordada, e estava ciente de que o frio que
sentia vinha muito mais de dentro do que de fora. Sabia que, em algum lugar daquele
palácio, os torturadores se dedicavam a Camena di Chiara, que tentara matar um tirano e
libertar seu lar — que fizera isso sabendo que morreria, e como morreria.
Naquele instante, provavelmente estavam com ele, administrando quantidades precisas de
dor. E quebrariam seus dedos, um por um, e depois seus pulsos, e depois seus braços, com
um orgulho pro ssional de suas habilidades. Depois os dedos dos pés, e os tornozelos e as
pernas. Fariam isso cuidadosamente, até mesmo com certo afeto, observando sempre os
batimentos de seu coração. Assim, depois que tivessem quebrado suas costas — que eram
sempre deixadas por último —, eles poderiam amarrá-lo vivo numa roda e levá-lo até a praça
do porto, para morrer na frente de seu povo.
Dianora nunca imaginara que Camena tivesse tanta coragem ou tanto ardor em seu
coração. Ela o julgara um charlatão, carregando mantos de três camadas, um artista menor,
um qualquer que ansiava por ascensão na corte.
Não mais. O dia anterior havia gerado uma nova imagem em sua mente. Agora que ele
zera, o que zera; agora, que seu corpo havia sido entregue aos torturadores e então à roda,
surgia uma pergunta que não poderia mais ser enterrada. Assim como suas memórias de
Baerd. Não naquela noite. Não estando tão desprotegida e tão desperta.
E o pensamento cortou sua alma como um vento de inverno: O que a tentativa de Camena
fazia dela?
O que fazia da missão que a garota de 16 anos tão orgulhosamente se incumbira, tanto
tempo atrás, na noite em que seu irmão partira? Na noite em que ele vira uma riselka, sob a
luz da lua à beira do mar, e partira em busca de seu Príncipe.
Ela sabia as respostas. É claro que sabia. Sabia os nomes que pertenciam a ela. Os nomes
que havia ganhado ali, na ilha. Eles queimavam como vinho azedo numa ferida. E
queimando dentro de si, enquanto estremecia, Dianora lutava, em vão, para novamente
controlar seu coração a m de começar uma jornada, mortalmente difícil e ainda nunca
bem-sucedida, para restaurar o domínio daquela sala, na ala distante onde estava o Rei de
Ygrath.
Mas era uma noite diferente. Algo mudara naquela noite, por causa do que acontecera,
pela irreversibilidade e grandiosidade do que ela mesma zera na câmara de audiências.
Reconhecendo aquilo, tentando lidar com esse fato, Dianora começou a sentir, como se
estivesse muito distante, o vagaroso afastamento de seu coração, lenta e dolorosamente, das
chamas do amor. Um retorno, e então um olhar para trás: encarando a memória das outras
chamas de sua terra. Dos campos queimando, das cidades queimando, do palácio
incendiado.
Lá, é claro, não havia conforto. Não havia conforto em lugar algum. Apenas um lembrete constante de quem ela era e da razão por que estava ali.
E permanecendo imóvel na escuridão, numa Noite das Brasas em que todas as portas e
janelas permaneciam fechadas para se protegerem da morte e da magia, Dianora recitou,
suavemente e para si, os antigos versos da profecia:
Um homem vê uma riselka,
sua vida mudará.
Dois homens veem uma riselka,
um deles morrerá.
Três homens veem uma riselka,
um será abençoado, um mudará, um morrerá.
Uma mulher vê uma riselka,
seu caminho se tornará claro para ela.
Duas mulheres veem uma riselka,
uma delas terá uma criança.
Três mulheres veem uma riselka,
uma será abençoada, uma verá seu caminho, uma terá uma criança.
Pela manhã, disse a si mesma, em meio ao frio, ao fogo e a todas as confusões que se
misturavam em seu coração. Pela manhã, começará o que já deveria ter começado e
terminado há muito tempo.
A Tríade sabia o quão amargas e impossíveis todas as suas decisões lhe pareciam ter sido, o
quão débil e evasivo fora seu sonho de fazer tudo dar certo para todos eles. Mas Dianora
tinha, en m, a certeza de uma verdade: ela precisara de algo para clarear o caminho
retorcido de traição que sua vida parecia haver se tornado. E dos próprios lábios de Brandin,
ela aprendera como esse caminho seria oferecido a ela.
Pela manhã, começaria.
Até lá, poderia repousar ali, dolorosamente acordada e sozinha. Como naquela noite em
sua casa, tantos anos antes, de que ainda conseguia se lembrar.