Tigana: A Lâmina na Alma

Guy Gavriel Kay · Capítulo 14 de 19

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Tigana: A Lâmina na Alma

Capítulo X

 

Cinco dias depois, na véspera dos Dias das Brasas primaveris, eles chegaram ao Castelo de Barso. Durante toda aquela última tarde em que se deslocavam para o sul, Devin observara as

montanhas. Nenhuma criança criada nas planícies úmidas de Asoli conseguiria evitar

embasbacar-se diante das alturas ao sul: as Montanhas Braccio, ali em Certando, as Parravi a

leste, na direção de Tregea, e, embora nunca as tivesse visto, havia as Sfaroni, cobertas de

neve, as mais altas de todas, a oeste, depois do local em que Tigana outrora estivera.

A hora já ia adiantada. Bem ao norte, a uma grande distância dali, naquela mesma tarde,

Isolla de Ygrath jazia morta e desmembrada sob um lençol ensanguentado na câmara de

audiências do palácio em Chiara.

O pôr do sol atrás das montanhas tingia os picos de vermelho, vinho e um tom de púrpura

escuro. Nos picos mais altos, a neve brilhava e reluzia à última luz do dia. Devin conseguia

discernir a linha da Passagem de Braccio: uma das três lendárias passagens que ligara —

apenas durante algumas estações e nunca facilmente — a Península da Palma com Quileia,

ao sul.

Nos tempos antigos, antes do matriarcado criar fortes raízes em Quileia, havia comércio

entre as montanhas, e o fervor religioso dos Dias das Brasas primaveris também sinalizava a

agitação na vida comercial, com a promessa das passagens abrirem-se outra vez. As cidades e

os castelos-fortalezas, ali nos planaltos do sul, eram vibrantes na época, e essenciais. E

também bem defendidos, já que se uma caravana de comércio conseguia passar, o mesmo

valia para um exército. Nenhum rei de Quileia, entretanto, jamais teve segurança o

su ciente em seu trono para conduzir um exército para o norte, não com as Altas

Sacerdotisas permanecendo em casa para vê-lo fracassar ou morrer. Ali em Certando, os

exércitos particulares faziam sangrar uns aos outros com suas espadas e echas, em brigas

selvagens que perduravam por gerações, tornando-se assunto de lendas.

E então, o matriarcado de Quileia chegara en m ao poder, no tempo de Achis e Pasitheia,

muitos séculos antes. Essa terra, sob o comando das sacerdotisas, fechara-se sobre si como

uma flor no crepúsculo e as caravanas cessaram.

As cidades do sul se reduziram a vilas ou, as que foram exíveis e promissoras o su ciente,

mudaram sua personalidade e viraram seus rostos para o norte e para outras coisas, como

Avalle das Torres zera em Tigana. Ali, nos planaltos de Certando, os poderosos lordes, que

outrora acomodavam uma corte resplandecente dentro de seus imensos castelos de guerra,

se transformaram em anacronismos vivos. Suas pelejas e combates entre si — outrora

inerentes à corrente de acontecimentos que se desenrolavam na Palma — tornaram-se cada

vez mais banais, embora não menos amargos ou perversos.

Para Devin, enquanto viajava com Menico di Ferraut, por vezes parecera que metade das baladas que entoava era sobre o lho de algum lorde, perseguido por inimigos entre aqueles

penhascos; ou sobre malfadados amantes sulistas, separados pelo ódio entre suas famílias ou

pelos feitos sangrentos de seus pais, selvagens como falcões em seus austeros castelos altos no

sopé das Montanhas Braccio.

E todas aquelas canções, fossem agressivas, falando de batalhas, sangue e vilas em chamas,

fossem lamentos pelos amantes separados afogando-se em lagos silenciosos, ocultos nas

montanhas enevoadas — parecia a Devin que metade delas falava sobre o clã dos Barso,

tendo como cenário o esplendor gigantesco e amargo do Castelo de Barso, sólido sob a

Passagem de Braccio.

Não existiam muitas canções novas durante um bom tempo, não desde que as caravanas de

Quileia haviam cessado. Mas as duas décadas anteriores foram recheadas de novas histórias

e rumores. Vários. Ao seu próprio modo e ao longo de sua vida, Alienor do Castelo de Barso

já havia se tornado uma lenda entre os homens e as mulheres da estrada.

E se aquelas novas histórias eram sobre amor, assim como muitas das antigas canções,

tinham pouco a ver com jovens angustiados lamentando sua sina nos penhascos varridos

pelo vento, e muito mais a dizer a respeito de certas mudanças ocorridas dentro do Castelo

Barso. A respeito de grandes tapetes de lã e tapeçarias, sobre seda importada, rendas e

veludos, e obras artísticas profundamente desconcertantes em salas que já haviam visto

homens duros planejarem invasões à meia-noite sobre mesas, enquanto cães de caça

indisciplinados lutavam por ossos jogados entre os restos no chão.

Viajando ao lado de Erlein na segunda carruagem, Devin afastou seu olhar do último raio

de sol sobre os picos e olhou para o castelo do qual se aproximavam. En ado entre duas

colinas, com um fosso ao seu redor e uma pequena vila logo atrás, Barso já estava recoberto

pelas sombras. Mesmo enquanto observava, Devin via luzes sendo acesas nas janelas. As

últimas luzes até o final dos Dias das Brasas.

— Alienor é uma amiga. — Foi tudo o que Alessan disse. — Uma velha amiga.

 

Isso era bastante evidente pela forma como ela o cumprimentou quando seu mordomo —

um homem alto e curvado, com uma magní ca barba branca — anunciou-os solenemente

diante do iluminado e aconchegante grande salão.

A cor no rosto de Alessan estava particularmente chamativa quando a senhora do castelo

soltou os longos dedos de seu cabelo e afastou os lábios dos dele. Ela não apressara o

cumprimento. E, o que era mais interessante, nem ele. Alienor deu um passo para trás,

sorrindo levemente, para inspecionar seus companheiros.

Ela lançou a Erlein um aceno de reconhecimento.

— Bem-vindo de volta, trovador. Dois anos, não é?

— Quase isso, minha senhora. Estou honrado por se lembrar.

A reverência de Erlein remeteu a outro homem, ao homem que ele era antes de Alessan

prendê-lo.

— Lembro que você estava sozinho naquela época. Fico feliz em vê-lo agora em tão esplêndida companhia.

Erlein abriu a boca e então a fechou, sem responder. Alienor olhou para Alessan, um

questionamento fugaz em seus olhos tão negros.

Sem receber resposta, voltou-se para o Duque, e a curiosidade em seu rosto aguçou-se.

Pensativa, repousou um dedo sobre a própria bochecha, inclinando a cabeça um pouco.

Sandre, disfarçado, permaneceu impassível durante a análise.

— Muito bem feito — disse Alienor de Barso, em voz baixa, para que os serviçais e o

mordomo à porta não ouvissem. — Imagino que Baerd tenha feito toda a Península da

Palma acreditar que você é um khardhuneano. Eu me pergunto quem você é na verdade,

debaixo disso tudo.

Seu sorriso era arrebatador.

Devin não sabia se devia car impressionado ou irrequieto. Um instante depois, aquele

dilema em particular já não tinha mais importância.

— Você não sabe? — disse Erlein di Senzio, alto. — Mas que terrível descuido. Deixe-me

apresentá-lo. Minha senhora, este é...

Ele não foi além disso.

Devin foi o primeiro a reagir, o que o surpreendeu, mais tarde, quando pensava no

ocorrido. Mas sempre fora rápido e, além disso, era o mais próximo ao mago. O que ele fez

— a única coisa em que conseguiu pensar — foi esticar seu corpo e en ar o punho no

estômago de Erlein, o mais forte que conseguiu.

Naquele momento, estava apenas uma fração de segundo à frente de Catriana, do outro

lado de Erlein. Ela espalmara a mão para tampar a boca do mago. A força do golpe de Devin

dobrou Erlein, que emitiu um grunhido de dor, o que, por sua vez, teve o indesejado efeito

de empurrar Catriana, fazendo-a perder o equilíbrio e tropeçar. Diretamente nos braços

delicados de Alienor.

Tudo isso levou cerca de três segundos.

Erlein caiu de joelhos sobre o tapete grosso. Devin se ajoelhou ao seu lado e ouviu quando

Alienor dispensou os serviçais da sala.

— Você é um tolo! — disparou Baerd contra o mago.

— Ele certamente é — concordou Alienor, num tom completamente distinto, repleto de

uma petulância exagerada e de oreios. — Por que alguém imaginaria que eu gostaria de

saber a identidade verdadeira de um guerreiro khardhuneano disfarçado?

Ela ainda segurava Catriana pela cintura, desnecessariamente. Em seguida, deixou-a ir,

sorrindo satisfeita ao ver que a garota apressara-se em recuar.

— Você é uma criatura impetuosa, não é? — murmurou ela, com tom aveludado.

— Nem sempre — disse Catriana, com dureza, enquanto parava a alguns passos de

distância.

A boca de Alienor se arqueou. Ela olhou Catriana de alto a baixo, com olhos experientes.

— Invejo-a terrivelmente — disse ela, pausadamente. — E ainda sentiria inveja se seu cabelo fosse raspado e seus olhos, arrancados. Que homens magníficos viajam com você!

— Verdade? — A voz de Catriana soou indiferente, mas ela corou de súbito.

— Verdade? — repetiu Alienor, agudamente. — Quer dizer que você não havia percebido

isso sozinha? Minha criança, como você tem gasto suas noites? Claro que são magní cos!

Não desperdice sua juventude, minha querida.

Catriana olhou-a com desdém.

— Não acho que a esteja desperdiçando — disse ela. — Mas duvido que tenhamos a

mesma opinião sobre tais assuntos.

Devin estremeceu, mas a resposta de Alienor foi suave.

— Talvez não — concordou calmamente. — Mas acho que temos mais semelhanças do que

você pode imaginar. — Ela fez uma pausa. — E talvez você descubra, enquanto envelhece,

que um temperamento frio é mais apropriado para despedidas e enterros, e não para

apresentações. De qualquer tipo. Por outro lado, posso lhe assegurar — completou ela, com

um sorriso de pura gentileza — que você terá mantas suficientes para aquecê-la nesta noite.

Erlein gemeu, afastando a atenção de Devin para longe das duas mulheres. Ele ainda ouviu

Catriana dizer “agradeço a preocupação”, mas não viu sua expressão ao dizer aquilo. Pelo

tom, conseguia arriscar um palpite sobre qual seria.

Ele apoiava a cabeça de Erlein enquanto o mago lutava para recuperar o fôlego. Alienor

simplesmente os ignorava e cumprimentava Baerd com uma cortesia amigável — um tom

devidamente correspondido pelas próprias maneiras de Baerd diante dela.

— Desculpe — sussurrou Devin para Erlein. — Não consegui pensar em mais nada.

Erlein estendeu uma mão trêmula e ainda ferida. Ele insistira em remover as bandagens

antes de entrarem no castelo.

— Sou eu quem pede desculpas — soltou ele, surpreendendo Devin consideravelmente. —

Eu me esqueci dos serviçais. — Erlein limpava os lábios com as costas de uma das mãos. —

Não conseguirei nada se zer com que todos nós sejamos mortos. Não é esta a minha ideia

de liberdade. E essa postura não é exatamente a minha noção de dignidade para alguém que

já chegou à meia-idade. Como foi você quem me derrubou, poderia gentilmente me ajudar a

levantar.

Pela primeira vez, Devin ouviu uma nota de gracejo na voz do trovador. Um sobrevivente,

dissera Sandre.

Com o máximo de cuidado que conseguiu, ajudou o outro a ficar em pé.

— E o rapaz extremamente violento é Devin d’Asoli — disse Alessan, secamente. — Ele

também canta. Se você se comportar, ele talvez cante para você.

Devin parou de prestar atenção em Erlein, mas, talvez por estar distraído pelo que ocorrera,

estava despreparado para o olhar que recebeu.

É impossível, pensou, que essa mulher tenha 40 anos. Ele instintivamente zera a reverência

cortês que Menico lhe ensinara, de modo a esconder sua confusão. Ela tinha quase 40 anos,

e ele sabia disso: Alienor enviuvara dois anos após se casar, quando Cornaro de Barso morreu durante a invasão barbadiana em Certando. As histórias e descrições acerca da linda

viúva no castelo do sul começaram logo em seguida.

Elas não chegavam sequer perto de captar o que ela era — o que viu diante de si, num

vestido longo de coloração azul tão profunda que quase se tornava negro. Seu cabelo era

preto, preso sobre a cabeça por um diadema de ouro branco incrustado com pedras

preciosas. Algumas mechas de cabelo estavam artisticamente soltas, enquadrando seu rosto

perfeitamente oval. Seus olhos eram quase violetas sob os longos cílios, e seus lábios

carnudos e vermelhos sorriam de modo velado enquanto olhava para Devin.

Ele se forçou a encarar aquele olhar. Ao fazê-lo, sentiu que todas as comportas de suas

veias se abriam e seu sangue corria como um rio, acelerando cada vez mais de maneira

selvagem enquanto descia um percurso muito íngreme. O sorriso da viúva aumentou,

aprofundando-se, como se ela conseguisse ver o que acontecia dentro do rapaz, cujos olhos

negros cresceram por um instante.

— Eu imagino, então — disse Alienor di Certando, antes de se voltar para Alessan — que

eu deva tentar me comportar, se isso inclui fazê-lo cantar para mim.

Devin notou, e não pôde evitar, que seus seios eram fartos e rmes. O vestido possuía um

decote generoso e um pingente de diamante pendia sobre sua pele, atraindo o olhar como

uma chama branco-azulada.

Ele balançou a cabeça, lutando para se concentrar em outra coisa, chocado pela própria

reação. Disse a si mesmo, severamente, que aquilo era ridículo. Estava impressionado pelas

histórias, perdera o controle sobre sua imaginação diante das mobílias opulentas e atrativas

daquele cômodo. Olhou para cima, buscando uma distração, e então desejou não tê-lo feito.

No teto, alguém familiar com o ato do amor pintara a cópula primordial entre Adaon e

Eanna. O rosto da deusa era claramente o de Alienor e a pintura mostrava — bem

claramente — que estava em pleno momento de arrebatamento, quando as estrelas

nasceram de seu êxtase.

De fato, estrelas brilhavam ao longo de todo o fundo daquela pintura no teto. Era, no

entanto, difícil olhar para o fundo da pintura. Devin forçou-se a olhar para baixo. O que o

ajudou a se recompor foi encontrar o olhar de Catriana: um misto de ironia ácida e algo mais

que não conseguiu reconhecer. Com todo seu esplendor e a beleza selvagem de seu cabelo

ruivo, Catriana parecia extremamente jovem. Quase uma criança, pensou Devin sabiamente,

que ainda não alcançou plenamente sua feminilidade ou não se deu conta dela.

A Senhora do Castelo de Barso era completa em tudo, da sandália em seus pés ao diadema

em seu cabelo exuberante. Suas unhas, Devin percebeu um pouco tarde, estavam pintadas

com a mesma tonalidade de azul de seu vestido.

Engoliu em seco e afastou o olhar novamente.

— Eu esperava que você chegasse ontem — dizia Alienor para Alessan. — Esperei por você

e me arrumei até ficar linda para você, mas você não veio.

— Tanto melhor, então — murmurou Alessan, sorrindo. — Estivesse você ainda mais linda do que agora, eu talvez nunca encontrasse a força para partir.

A boca dela se recurvou maliciosamente. Ela se virou para os outros.

— Vocês veem como esse homem me atormenta? Não faz nem quinze minutos que está em

minha casa e já fala em partir. Será que faço bem em ter um amigo assim?

A pergunta era endereçada, no caso, diretamente a Devin. Sua garganta estava seca; o olhar

dela distorcia as mensagens em seu percurso do cérebro até a língua. Ele esboçou um sorriso,

embora suspeitasse que a expressão deva ter cado em algum lugar entre a confusão e a

estupidez.

Vinho, pensou Devin, desesperado. Ele precisava desesperadamente de uma boa taça.

Como se invocados por uma arte mais sutil e mais sincrônica do que a feitiçaria, três servos

trajando azul reapareceram, cada um trazendo sete taças em uma bandeja. Duas das

bandejas, conforme Devin notou, traziam um vinho tinto que provavelmente era de

Certando.

O vinho no terceiro conjunto de taças era azul.

Devin se voltou para Alessan. O Príncipe olhava para Alienor com uma expressão que

remetia a algo particular e compartilhado num passado distante. Por um momento, a

expressão e o comportamento dela mudaram: como se ela tivesse deixado de lado, por um

segundo, o movimento automático de construir suas teias de sedução. E Devin, um homem

muito mais perceptivo do que fora seis meses antes, pensou ter visto um traço de tristeza em

seus olhos.

Então a viúva falou e ele teve a certeza de tê-lo visto. De algum modo, aquilo o acalmou,

lançando uma luz diferente, mais suave, no ambiente.

— Não é algo de que me esqueceria — disse ela suavemente para Alessan, com um gesto

em direção ao vinho azul.

— Nem eu — respondeu ele. — Afinal, tudo começou aqui.

Ela permaneceu ainda um instante em silêncio, com os olhos baixos. Então o instante

passou. Os olhos de Alienor brilhavam novamente, enquanto se erguiam.

— Tenho mais cartas para você, como de costume. Mas uma delas é bem recente — disse

ela. — Foi trazida dois dias atrás por um sacerdote de Eanna muito jovem, que parecia

apavorado por estar em minha presença enquanto esteve aqui. Não aceitou nem mesmo

passar a noite, mesmo tendo chegado durante o pôr do sol. Juro que partiu tão depressa que

pareceu temer que eu arrancasse sua túnica se ficasse para o jantar.

— E você arrancaria? — perguntou Alessan.

Ela fechou a cara.

— Pouco provável. Os de Eanna di cilmente valem o risco. Embora ele fosse bonito. Quase

tão bonito quanto Baerd, parando para pensar.

Baerd, sem se perturbar, se limitou a sorrir. Os olhos de Alienor repousaram, sedutores,

sobre ele. Com ele também, Devin percebeu. Era uma mudança que remetia a lembranças e

coisas compartilhadas muito tempo antes. De repente, sentia-se jovem e fora de seu lugar.

— De onde vem a nova mensagem? — questionou Alessan.

Alienor hesitou.

— Do oeste. — Foi tudo o que ela disse. Olhou para todos os outros com uma interrogação

velada em seus olhos.

Alessan notou.

— Você pode falar livremente. Con o em cada homem e mulher aqui. — Ele tomara o

cuidado de nem sequer olhar para Erlein. Devin olhara, mas, se esperava alguma reação do

mago, desapontara-se.

Com um gesto, Alienor dispensou seus serviçais. O velho mordomo já se retirara para

vistoriar a preparação dos quartos. Quando estavam a sós, Alienor avançou até uma

escrivaninha, situada junto a uma das quatro lareiras, e retirou um envelope selado de uma

gaveta. Voltou e entregou-o a Alessan.

— É do próprio Danoleon — disse ela. — De sua província, cujo nome ainda não consigo

ouvir ou dizer.

E aquilo era algo que Devin não esperava.

— Com licença — murmurou Alessan. E correu em direção à lareira mais próxima, abrindo

a carta no percurso. Alienor ocupou-se em encher as taças de vinho tinto. Devin tomou um

longo gole. Então notou que Baerd não tocara em seu vinho e que seu olhar estava xo sobre

Alessan, do outro lado da sala. Devin seguiu o olhar. O Príncipe terminou sua leitura.

Permanecia imóvel, diante do fogo.

— Alessan? — soltou Baerd.

Alienor se virou, rapidamente. Alessan não se movia; nem sequer parecia ter ouvido.

— Alessan? — chamou Baerd, novamente, com mais urgência. — O que é?

Lentamente, o Príncipe de Tigana deu as costas às labaredas e os encarou. Não olhou para

eles, Devin corrigiu-se. Olhava para Baerd. Algo ermo e frio tomava seu rosto. Frio é mais

apropriado para despedidas, pensou Devin, involuntariamente.

— Infelizmente, é de Danoleon. Do Santuário. — A voz de Alessan estava fraca. — Minha

mãe está morrendo. Devo partir para casa amanhã.

O rosto de Baerd estava tão branco quanto o de Alessan.

— E a reunião? — perguntou ele. — A reunião de amanhã?

— Isso primeiro — respondeu Alessan. — Depois da reunião, não importa o que aconteça,

devo partir.

 

Dado o choque daquela notícia, assim como o impacto causado pelas palavras de Alessan

sobre todos eles, as batidas na porta dos aposentos de Devin, tarde da noite, foram

realmente uma surpresa.

Ele não dormira.

— Um minuto — disse baixinho, enquanto colocava a calça. En ou uma camisa e calçou as

meias enquanto cruzava o quarto, arrepiando-se ao pisar no chão de pedras quando

terminava o tapete. Com o cabelo bagunçado e sentindo-se confuso, abriu a porta.

No corredor, segurando uma única vela, que lançava curiosas sombras trêmulas nas

paredes, estava Alienor em pessoa.

— Venha. — Foi tudo o que disse. Ela não sorria e Devin não pôde ver seus olhos por trás

da chama. Seu vestido era de cor creme, revestido com peles. Era fechado até o pescoço, mas

Devin conseguia divisar o volume de seus seios por baixo dele. Seu cabelo estava solto,

cobrindo-lhe os ombros e as costas como uma cascata negra.

Devin hesitou, com a boca seca, a mente dispersa e lenta. Ergueu a mão, tentando arrumar

o cabelo despenteado.

Ela balançou a cabeça.

— Deixe assim — disse. Com a mão livre, passou as unhas longas e negras por seus cachos

castanhos. — Deixe assim — disse novamente e se virou.

Ele a seguiu. Ela, a única vela e o caos desenfreado de seu sangue, corredor abaixo, depois

outro, mais curto, atravessando um conjunto de cômodos vazios, chegando a uma sequência

de escadas em espiral. No topo delas, uma fraca luz alaranjada saía por entre duas portas

abertas. Devin atravessou aquelas portas, seguindo a Senhora do Castelo de Barso. Ele ainda

teve tempo de notar a luz das chamas, a complexidade e a riqueza das tapeçarias penduradas

às paredes, os diversos e extravagantes tapetes sobre o chão, e a enorme cama com dossel,

repleta de almofadas de todas as cores e tamanhos. Um esguio cão de caça, cinzento e

gracioso ao lado da lareira, olhou-o, mas não se ergueu.

Alienor baixou sua vela. Fechou as duas portas e se virou para ele, recostando-se sobre a

madeira polida. Seus olhos estavam enormes, assustadoramente negros. Devin sentiu o

coração bater como um martelo. Seu sangue parecia gritar dentro das veias.

— Estou queimando — disse Alienor.

Havia uma parte de Devin, onde vivia o equilíbrio e se formava a ironia, que sentiu

vontade de protestar, mesmo que por gracejo. Mas enquanto olhava, viu a rapidez da

respiração dela e quão super cial era, viu o quanto estava corada... Uma de suas mãos, como

se tivesse vida própria, ergueu-se e tocou o rosto dela.

Ela estava queimando.

Com um som vindo do fundo de sua garganta, Alienor fechou a mão de Devin na sua e

afundou os dentes na carne de sua palma.

E, com aquela dor, o desejo se acendeu em Devin como nunca antes em sua vida. Ouviu

um som distorcido e esquisito, e notou que vinha dele mesmo. Deu um passo para a frente e

a tomou em seus braços. Os dedos dela agarraram rme seus cabelos, e as duas bocas se

encontraram com avidez, uma fome que alimentou as chamas de seu próprio desejo, até o

ponto em que a consciência foge, rumando para longe.

Tudo sumira, ou sumia. Tigana. Alessan, Alais, Catriana. Suas lembranças. A própria

memória, que era seu porto seguro e seu orgulho. Mesmo a lembrança dos corredores que

haviam levado até aquele quarto, as estradas e anos e quartos, todos os outros quartos que

conduziram até aquele. E ela.

Devin rasgou as presilhas do vestido e en ou o rosto entre seus seios, que agora estavam

soltos. Ela arquejou, e suas mãos, como garras, arrancaram-lhe a camisa. Ele sentiu as unhas

dela cortarem a pele de suas costas. Virou a cabeça, mordeu-a e sentiu o gosto de sangue. Ele

a ouviu rir.

Nunca, em toda sua vida, fizera algo assim.

De algum modo, pareciam ter chegado à cama, em meio às almofadas coloridas. E Alienor

estava nua sobre ele, empalada por seu sexo, sua boca descendo até a dele, enquanto ambos

encenavam um ato que lutava para rejeitar todo o resto do mundo. Tanto quanto ele poderia

ser esquecido.

Por um instante, Devin pensou compreender. Por um instante irracional de iluminação,

achou que entendia por que Alienor fazia aquilo. A natureza de sua necessidade, que não

era o que parecia ser. Se ele tivesse mais um instante, um lugar calmo no rmamento, ele

poderia até mesmo elaborar um nome, apontar algo em meio à confusa compreensão. Ele

alcançou...

Alienor gritou ao alcançar o clímax. Suas mãos deslizaram, descendo pela pele de Devin. O

desejo obliterou o pensamento, qualquer tentativa de pensamento. Com um giro do corpo,

literalmente a jogou para o lado e rolou sobre ela, sem nunca desgrudar-se do abrigo

aconchegante de suas coxas. As almofadas voaram, indo ao chão. Os olhos dela estavam

fechados, enquanto sua boca formava palavras sem som.

Devin lançava-se contra ela como se expulsasse todos os demônios e todas as dores, todas

as verdades brutais e moribundas que eram o mundo da Palma em seus dias. Quando

chegou ao clímax, sentiu-se trêmulo e vacilante, sem saber onde estava, prendendo-se sem

forças apenas ao que sabia ser seu nome.

Ele a ouvia sussurrá-lo, suavemente, de novo e de novo. Delicadamente, ela saiu de baixo

dele. Ele rolou para o lado e descansou as costas na cama, com os olhos fechados. Sentia os

dedos de Alienor deslizarem por sua pele. Não conseguia se mexer. Ela brincava com as

mãos dele, acariciando-as e conduzindo-as para longe de seu corpo. Os lábios e dedos dela

dançavam, descendo sobre seu peito e sua barriga, sobre seu sexo relaxado e além,

explorando suas coxas e pernas, e descendo.

Quando percebeu o que ela fazia, já estava com os pés e mãos amarrados nas quatro

pilastras da cama, esticado sobre ela. Seus olhos se abriram, assustados e alarmados. Ele

resistiu. Inutilmente — estava amarrado com tiras de seda, firmes e com nós.

— Esse — disse Alienor, com uma voz rouca — foi um excelente começo para uma noite.

Será que devo ensinar-lhe algo agora?

Seu corpo, nu, magní co, corado e marcado por Devin, agachava-se e buscava algo no

chão, ao lado da cama. Os olhos dele se arregalaram ao ver o que era.

— Você me amarrou contra a minha vontade — disse Devin, um tanto desesperado. —

Essa não é exatamente a minha ideia de um casal fazendo amor.

Ele se contorcia novamente, nos ombros e no quadril; a seda aguentava, firme.

O sorriso que Alienor lançou, em resposta, era resplandecente. A beleza dela, naquele

instante, era superior à de qualquer mulher que ele poderia imaginar. Na profundeza

daqueles olhos escuros, algo dançava, primitivo, perigoso e assustadoramente excitante. Ele

sentiu, inesperadamente cedo, que seu sexo enrijecia. Ela viu. E sorriu ainda mais. Uma

unha longa deslizou, lentamente, ao longo daquela nascente proeminência.

— Pois será — murmurou a dama negra, a Senhora do Castelo de Barso. Seus lábios se

abriram, revelando os afiados dentes brancos.

Ele sentiu a rmeza de seus mamilos, enquanto ela abria as pernas para envolvê-lo

novamente. E viu que ela acariciava o que pegara do carpete, ao lado da cama. Do outro lado

do quarto, junto à lareira, o cachorro erguia sua majestosa cabeça, observando-os.

— Pois será — repetiu Alienor. — Con e em mim. Deixe-me lhe ensinar agora, e mostrar

isso e isso, e logo essa será sua ideia de como fazer amor. Ah, Devin, assim será, logo, logo.

Ela subiu nele, e a luz da vela se re etiu e então sumiu, enquanto ela se deitava sobre seu

corpo. Ele resistiu, mas apenas por um instante, pois seu coração acelerava novamente e o

desejo o sobrepujava, assim como acontecia a Alienor, assim como as complexas

necessidades daquela mulher pareciam tomá-la, na escuridão de seus olhos antes de se

fecharem, nos movimentos que ela realizava sobre ele, em sua respiração irregular, profunda,

crescente, longa.

E antes que a noite houvesse terminado, antes que metade dela houvesse passado,

enquanto as últimas velas do inverno queimavam, ela provou estar terrivelmente certa, várias

e várias vezes. E, ao nal, era ela quem estaria amarrada e esticada entre as quatro pilastras

do mundo que era sua cama, e Devin não tinha mais certeza de quem era, para fazer com ela

as coisas que fazia. As coisas que a zeram sussurrar e então gritar seu nome, como fez,

várias e várias vezes. Mas sabia que ela o mudara, encontrando um lugar dentro dele em que

a necessidade de obliteração era igual à dela.

 

A vela no seu lado da cama se apagou algum tempo depois. Havia um leve aroma de

fumaça. O padrão de luz e sombra no cômodo mudou; nenhum deles estava dormindo, e

ambos notaram isso. O fogo estava fraco, quase desaparecendo; o cão ainda repousava ao seu

lado, sua magnífica cabeça descansando sobre as patas.

— É melhor você ir — disse Alienor, cutucando-lhe o ombro distraidamente. — Enquanto

ainda há uma vela para você carregar. É fácil se perder na escuridão.

— Você guarda os Dias das Brasas? — perguntou ele, um pouco surpreso diante de tal

religiosidade. — Nada de fogo?

— Nada de fogo — disse ela, pesarosamente. — Metade de meus empregados me largaria,

e não quero sequer imaginar o que os agricultores e aldeões fariam. Invadiriam o castelo.

Invocariam alguma maldição antiga, com espigas de milho embebidas em sangue. Estas são

as terras do sul, Devin: eles levam os ritos a sério por aqui.

— Tanto quanto você leva os seus?

Ela sorriu ao ouvir isso e se espreguiçou como uma gata.

— Creio que sim. Os agricultores farão, nesta noite e amanhã, coisas que eu pre ro nem

saber.

Com um movimento sinuoso, ela se dobrou e alcançou o pé da cama, buscando algo sobre

o tapete. Seu corpo era uma delicada curva de pele branca, ainda marcada de vermelho pelo

que ele fizera.

Alienor se endireitou e lhe entregou suas calças. Pareceu uma despedida abrupta, uma

dispensa, e Devin a olhou longamente, sem se mover. Ela notou a reação, mas seus olhos

não eram nem agressivos nem expulsivos.

— Não que bravo — disse Alienor, suavemente. — Você foi esplêndido demais para partir

com raiva. Estou apenas dizendo verdades: eu realmente guardo os rituais das Brasas e é

difícil encontrar o caminho de volta sem levar uma vela.

Ela hesitou por um momento e então completou:

— E eu sempre durmo sozinha, desde que meu marido morreu.

Devin não disse nada. Ele se ergueu e se vestiu. Encontrou sua camisa no meio do caminho

entre a cama e as portas. Estava tão rasgada que chegava a ser engraçado. Mas não achou

graça. Na verdade, estava com raiva. Ou com algum sentimento além da raiva, próximo a

isso, mas mais complexo. Repousando nua e descoberta entre as almofadas dispersas em sua

cama, Alienor observou enquanto ele se vestia. Devin olhou para ela, ainda deslumbrado

diante da magni cência felina e — apesar da mudança de humor — até mesmo ciente do

quão fácil seria para ela atiçar novamente seu desejo.

Mas enquanto a olhava, um pensamento dormente despertou, vindo de onde quer que os

pensamentos tenham ido, no frenesi primitivo das últimas horas. Arrumou a camisa da

melhor maneira que pôde e buscou uma das velas sobre um suporte de bronze.

Alienor virara o corpo para observá-lo sair, com a cabeça repousando sobre uma das mãos e

o cabelo negro deslizando sobre ela, oferecendo seu corpo à visão de Devin como um

presente, glorioso diante da luz das velas. Seus olhos estavam abertos e focados, seu sorriso

era generoso, até mesmo gentil.

— Boa noite — disse ela. — Não sei se você sabe, mas é bem-vindo aqui se desejar retornar

algum dia.

Ele não esperava por aquilo. Sabia, sem que o dissessem, que ela o honrava com aquilo.

Mas seu pensamento, o desconforto de há pouco, estava forte e misturado com outras

imagens, de modo que, embora sorrisse e acenasse em resposta, não sentia orgulho nem

honra.

— Boa noite — disse, e virou as costas.

Parou diante das portas, tanto porque se lembrava de ter ouvido Alessan dizer que a

tradição do vinho azul começara com ela quanto por qualquer outro motivo que pudesse ter

— naquele momento ou mais tarde. Ele se voltou. Alienor não se movera. Ele a encarou,

bebendo da opulência daquela câmara e da beleza da mulher sobre a cama. Enquanto permanecia ali, outra vela se apagava do outro lado do quarto.

— É isso o que acontece conosco? — disse Devin, baixo, buscando as palavras que

demonstrariam esse pensamento novo e cruel. — Quando não estamos mais livres? É isso o

que acontece com o nosso amor?

Mesmo à distância e na ondulação entre luz e sombra, ele pôde ver que o olhar dela

mudava. Por um longo momento, a viúva o encarou de volta.

— Você é esperto — disse ela, enfim. — Alessan escolheu bem.

Ele esperou.

— Ah! — soltou Alienor com voz rouca, ngindo surpresa. — Ele realmente espera uma

resposta. Uma resposta verdadeira, vinda de uma dama em seu castelo no fim do mundo!

Talvez houvesse sido apenas uma impressão da luz incerta, mas ela parecia olhar para

longe, além do local em que Devin estava, mesmo além das tapeçarias que cobriam as

paredes daquele cômodo.

— É uma das coisas que acontecem conosco — disse ela, en m. — Uma espécie de revolta

nas sombras, que de alguma forma se opõe às leis do dia que nos prendem e não podem ser

rompidas.

Devin pensou a respeito.

— Provavelmente, sim — concordou ele, suavemente, maturando a ideia. — Ou talvez seja

uma con ssão, em algum lugar da alma, de que não merecemos nada além disso, nada mais

profundo do que isso. Já que não somos livres e aceitamos essa condição.

Ele a viu vacilar e fechar os olhos.

— Eu mereci isso? — perguntou ela.

Uma terrível tristeza tomou conta de Devin. Ele engoliu em seco e com dificuldade.

— Não — respondeu. — Não, você não mereceu.

Os olhos dela ainda estavam fechados quando ele deixou o quarto.

 

Sentia-se pesado e triste, mais do simplesmente cansado, enfraquecido pelo peso de seus

pensamentos, que o deixavam mais devagar. Tropeçou enquanto descia as escadas e teve que

se apoiar com sua mão livre na parede de pedra. O movimento deixou a vela desprotegida, e

ela se apagou.

Estava muito escuro. O castelo se encontrava absolutamente quieto. Movendo-se com

cuidado, Devin alcançou o pé da escada e colocou a vela apagada sobre um parapeito. Em

intervalos, no alto das paredes, janelas altas e estreitas deixavam a luz do luar cruzar o

corredor, embora os ângulos e o horário não permitissem uma iluminação verdadeira.

Por um instante, considerou a ideia de voltar para buscar outra vela, mas então, após

esperar que seus olhos se ajustassem, Devin conseguiu vislumbrar o que achou ser o

caminho por onde viera.

Em pouco tempo, estava perdido, embora não estivesse muito preocupado. Com seu humor

atual, parecia apropriado caminhar silenciosamente pelos corredores escurecidos daquele

castelo antigo nos planaltos, na calada da noite, sentindo as pedras frias sob seus pés.

Não existem caminhos errados. Apenas caminhos que você não sabia que teria de percorrer.

Quem lhe dissera aquilo? As palavras vieram soltas à sua mente, como um fragmento de

memória. Ele virou em um corredor desconhecido, atravessando em seguida um outro

repleto de pinturas. Enquanto caminhava, encontrou uma voz para as palavras: fora o velho

sacerdote de Morian, no templo da deusa em Asoli, próximo à fazenda de sua família. Ele

ensinara aos gêmeos e a Devin a ler e somar, e quando pareceu que o lho mais novo, o

pequenino, poderia cantar, ele lhe ensinou suas primeiras lições rudimentares de harmonia.

Não existem caminhos errados, pensou Devin novamente. E então, com um calafrio que

não pôde controlar, lembrou que aquela não era apenas uma noite comum, mas sim o nal

do inverno, o primeiro dos Dias das Brasas — quando se dizia que os mortos caminhavam

para além de seu domínio.

Os mortos. Quem eram seus mortos? Marra. Sua mãe, que nunca conhecera. Tigana?

Poderia dizer que um país, uma província, estava morto? Poderia Tigana estar perdida e ser

velada como uma alma viva? Pensou no barbadiano que matara, no celeiro da propriedade

Nievolene.

E apressou o passo, em meio à escuridão, em meio às pedras que vez ou outra recebiam a

luz do luar, naquele vasto e silencioso castelo.

Pareceu a Devin que caminhava por um tempo interminável — ou por um tempo fora do

tempo — sem passar por ninguém, sem ouvir nada a não ser sua própria respiração ou o som

suave de seus passos, antes de en m reconhecer uma estátua em uma das alcovas. Ele a

admirara mais cedo, naquela noite, sob a luz de uma tocha. Sabia que seu quarto cava logo

em frente, virando à esquerda no corredor. De algum modo, ele caminhara pelo lado

completamente oposto, cruzando a ala contrária do Castelo de Barso.

Também sabia, desde mais cedo naquela noite, que o quarto diretamente oposto à pequena

estátua do homem barbado segurando um arco era o de Catriana.

Olhou para os dois lados do corredor, mas viu apenas sombras, maiores e menores, entre as

linhas que a luz do luar traçava. Prestou atenção, e não ouviu som algum. Se os mortos

circulavam, estavam silenciosos.

Não existem caminhos errados, dissera-lhe Plotão, o sacerdote, muito tempo antes.

Pensou em Alienor, deitada de olhos fechados em meio às almofadas e todas as suas velas,

e se arrependeu do que dissera a ela, no nal. Arrependia-se de muitas coisas. A mãe de

Alessan estava morrendo. Sua própria mãe estava morta.

Frio é mais apropriado para despedidas e enterros, dissera Alienor para Catriana, naquele

castelo.

Ele sentia frio e estava muito triste. Deu alguns passos para a frente e rompeu com o

silêncio ao bater na porta do quarto de Catriana.

 

Ela tivera uma noite agitada, por várias razões. Alienor a tinha incomodado: tanto pela

sensualidade que emanava daquela mulher quanto pelo óbvio passado desconhecido que compartilhava com Alessan e Baerd.

Catriana odiava não saber de algo, odiava ter informações escondidas dela. Ainda não sabia

o que Alessan faria no dia seguinte, sobre o que era aquela misteriosa reunião nas terras

altas. E a ignorância a deixava agitada e até mesmo, num nível menos consciente, com medo.

Às vezes desejava ser mais como Devin, com sua tranquila aceitação do que poderia ou não

saber. Ela o vira juntando peças da história, unindo o que aprendera e pacientemente

aguardando pela próxima peça, como uma criança que monta um quebra-cabeça.

Algumas vezes, ela admirava aquilo, embora em outros momentos casse brava e

briguenta, vendo como ele aceitava as reticências ocasionais de Alessan ou o silêncio crônico

de Baerd. Catriana precisava saber. Ela fora ignorante por tanto tempo em sua vida,

protegida de sua própria história naquela pequena vila de pescadores em Astibar. Sentia que

havia tanto tempo perdido a ser recuperado. Por vezes, sentia vontade de chorar.

E era assim que se sentia naquela noite, antes de entrar num sono super cial e turbulento,

enquanto sonhava com sua casa. Desde que deixara seu lar, frequentemente sonhava com

ele, e especialmente com sua mãe.

Daquela vez, vira a si mesma caminhando pela vila logo após o nascer do sol, passando em

frente à última casa — a de Tendo, era possível até ver seu cachorro — e então dobrando a

curva tão familiar na costa, até onde seu pai comprara uma casinha abandonada, reformara-

a e criara sua família.

No sonho, via o barco já distante, sobre o mar fresco daquele começo de manhã. Parecia ser

primavera. A mãe estava à porta da casa, remendando redes sob a luz do dia. Seus olhos

estavam enfraquecendo há anos, e era difícil para ela trabalhar com agulhas à noite. Aos

poucos, Catriana assumira a tarefa de costurar à noite, no último ano antes de sair de casa.

No sonho, era uma linda manhã. As pedras da praia reluziam e a brisa estava fresca,

acariciando a água. Todos os outros barcos também estavam no mar, aproveitando a manhã,

mas era fácil dizer qual era o deles. Catriana percorreu o caminho e permaneceu junto à

varanda recentemente reformada, esperando que sua mãe olhasse para cima, a visse e casse

de pé, gritando e tomando a filha em seus braços.

De fato, sua mãe olhou para cima. Mas apenas para vislumbrar o mar, apertando os olhos

para a luz, tentando ver o barco. Um hábito antigo, nascido do nervosismo, que

provavelmente zera muito mal à sua visão. Mas tinha um marido e três lhos naquele

barco.

Não conseguia ver sua lha. Catriana sentiu uma dor aguda ao notar que era invisível ali.

Porque partira, porque os deixara para trás e não estava mais lá. Notou que havia mais os

grisalhos no cabelo de sua mãe e, parada ali na suave luz solar, seu coração doía ao perceber

o quão grossas e gastas estavam as mãos de sua mãe e o quão cansado parecia seu delicado

rosto. Sempre pensara em sua mãe como uma mulher jovem, até que Tiena, o bebê, morrera

na praga, seis anos antes. As coisas haviam mudado desde então.

Não é justo, pensou ela, e, no sonho, gritou a plenos pulmões, e não foi ouvida.

Sua mãe sentava numa cadeira de madeira na varanda, recebendo a luz da manhã,

trabalhando nas redes, erguendo a cabeça de vez em quando para conferir a posição do

pequeno barco, balançando em meio a tantos outros no estranho mar do leste, tão distante

daquele que amara.

Catriana acordou, contorcendo o corpo violentamente para tentar se livrar das dores

contidas naquela imagem. Abriu os olhos, esperando até que o coração desacelerasse,

deitada sob vários cobertores, em um quarto do Castelo de Barso. O castelo de Alienor.

Alienor, que possuía a mesma idade que sua cansada e abatida mãe. Realmente, não era

justo. Por que ela deveria carregar tamanha culpa, ver imagens tão tristes e doloridas em seus

sonhos, por ter partido? Por que, se fora sua mãe quem lhe dera o anel aos 14 anos, no

mesmo ano em que o bebê morrera? Era o anel que a marcava como vinda de Tigana, da

beira do mar, para ser reconhecida por qualquer um que conhecesse esses símbolos antigos, e

por mais ninguém.

O anel que a zera ser notada por Alessan bar Valentin, dois anos antes, quando ele e

Baerd a viram vendendo enguias e peixes frescos na cidade de Ardin, próxima à vila.

Aos 18 anos, ela não costumava con ar nas pessoas. Não conseguiria dizer, na época ou

agora, por que con ara naqueles dois a ponto de se unir a eles naquela caminhada à beira do

rio e fora da cidade, quando o mercado fechou. Se forçada a responder, ela talvez dissesse

que havia algo em Baerd que transmitia confiança.

Foi durante aquela caminhada que eles lhe contaram sobre seu anel e sobre Tigana, e o

eixo de sua vida se retorcera. Algo novo começara para ela, e, com isso, a necessidade de

saber.

Em sua casa naquela noite, depois do jantar e dos garotos já estarem na cama, contou aos

pais que agora sabia de onde vinha e o que significava seu anel. E perguntou ao seu pai o que

ele iria fazer para ajudá-la a trazer Tigana de volta e o que ele zera durante todos aqueles

anos. Fora a primeira vez em que vira o seu tranquilo e inofensivo pai furioso, e a única vez

em que ele batera nela.

Sua mãe chorava. O pai andava pela casa do jeito estranho de um homem que não está

acostumado a se enfurecer, e jurou pela Tríade que não trouxera sua esposa e sua filha, antes

da invasão de Ygrath e da queda de Tigana, para ser enviado de volta àquela antiga mágoa.

E, assim, Catriana aprendeu a segunda coisa que mudou sua vida.

O mais novo dos garotos começou a chorar. O pai então saiu, batendo a porta,

chacoalhando as janelas da casa. Catriana e sua mãe se entreolharam por um longo

momento, enquanto uma criança assustada gradualmente se calava, no andar acima.

Catriana ergueu uma das mãos e mostrou o anel que usara durante os quatro anos

anteriores. Seus olhos lançavam uma pergunta. E sua mãe, que já não mais chorava,

balançou a cabeça, assentindo. Ambas acreditavam que o abraço dado em seguida seria o

último que trocariam.

Catriana encontrou Alessan e Baerd na mais conhecida estalagem de Arlin. Lembrava que a noite estava clara, com as duas luas no céu, e ambas quase cheias. O vigia noturno olhara-a

de soslaio, passando a mão por Catriana quando ela passou ao seu lado, seguindo até o

quarto que ele indicara, no topo das escadas.

Bateu na porta, e Alessan abriu quando ouviu seu nome. Os olhos cinzentos dele estavam

curiosamente escuros, mesmo antes de ela começar a falar, como se antecipasse um

problema ou uma mágoa.

— Eu vou com vocês — disse ela. — Meu pai foi um covarde. Nós fugimos antes da

invasão. Eu quero compensar isso. Mas não vou dormir com vocês. Nunca dormi com

homem algum. Posso confiar em vocês dois?

Acordada no Castelo de Barso, ela corou na escuridão, lembrando-se daquilo. Ela devia ter

parecido muito nova falando daquele jeito. Mas nenhum dos dois riu ou mesmo sorriu.

Nunca se esqueceria daquilo.

— Você sabe cantar? — foi tudo o que Alessan perguntou.

Ela dormiu novamente, pensando em música, pensando em todas as canções que entoara

com eles, atravessando a Palma por dois anos. Dessa vez, seu sonho era sobre água — sobre

nadar no mar em frente à sua casa, sua maior e mais doce alegria. Mergulhar em busca de

conchas, no crepúsculo do verão, em meio aos peixes assustados, sentindo que a água a

envolvia como uma segunda pele.

Então, sem aviso ou transição, seu sonho mudou e estava sentada sobre a ponte em Tregea

novamente, sentindo o vento e a escuridão do inverno, mais assustada do que imaginava que

uma alma poderia se sentir. Apenas podia culpar a si própria, seu orgulho, sua necessidade

atroz e insaciável de compensar o fato de sua família ter fugido. Viu-se novamente

balançando no parapeito, viu a água negra correndo abaixo de si; ouviu, sobrepondo-se ao

som assustador do rio, os batimentos de seu coração...

E acordou pela segunda vez, logo antes do pesadelo de seu salto. Acordou porque as

batidas que pensava serem de seu coração eram na verdade de alguém à sua porta.

— Quem é? — perguntou ela.

— Devin. Você me deixa entrar?

Abruptamente, sentou-se na cama e puxou o cobertor até seu queixo.

— O que foi? — perguntou.

— Na verdade, não tenho certeza. Posso entrar?

— A porta não está trancada — disse ela, en m. Conferiu se os cobertores a cobriam,

embora o quarto estivesse tão escuro que isso realmente não importava.

Ela o ouviu entrar, mas apenas conseguia vislumbrar seu contorno.

— Obrigado — disse ele. — Você deveria trancar sua porta, sabe como é.

Catriana imaginou se ele sabia o quanto ela odiava receber conselhos como aquele.

— A única pessoa que poderia estar vagando à noite é nossa an triã, e ela di cilmente viria

atrás de mim. Há uma cadeira à sua esquerda.

Ela ouviu Devin procurá-la e então se afundar na cadeira de braços altos.

— Imagino que isso seja verdade — disse ele, numa voz exausta. — E me desculpe, você

realmente não precisa de mim para dizer como tomar conta de si mesma.

Ela procurou a ironia no comentário, mas não encontrou nada.

— Creio ter me virado muito bem até agora, sem seus conselhos — disparou ela,

levemente.

Ele permaneceu em silêncio. E então:

— Catriana, eu realmente não sei por que estou aqui. Estou tão estranho, esta noite. Sinto-

me ridiculamente triste.

Havia algo estranho em sua voz. Ela hesitou por um momento e, então, arrumando os

cobertores com cuidado, se esticou para apanhar uma pederneira.

— Você acende velas nos Dias das Brasas? — perguntou ele.

— Claro.

Ela acendeu a vela que estava ao lado de sua cama. Então, arrependendo-se da

impertinência de sua resposta, completou:

— Minha mãe costumava acender uma — apenas uma, como um lembrete à Tríade, ela

costumava dizer. Mas eu só entendi o que ela queria dizer depois que encontrei Alessan.

— É estranho. Meu pai fazia o mesmo — disse Devin, pensativo. — Eu nunca tinha

pensado nisso. Nunca soube por que ele fazia aquilo. Meu pai não era do tipo que dava

explicações.

Ela se voltou para olhá-lo, mas Devin se afundava em sua cadeira, e seu rosto não estava

visível.

— Um lembrete de Tigana? — disse ela.

— Deve ser isso. Como se... como se a Tríade não merecesse devoção total depois do que

permitiram que acontecesse. — Ele fez uma pausa. Então, em um tom pensativo, voltou a

falar: — É outro exemplo de como somos orgulhosos, não é? Daquela arrogância tiganesa

que Sandre sempre menciona. Nós barganhamos com a Tríade, numa espécie de escambo:

eles tiram nosso nome, nós tiramos parte de seu ritual.

— Imagino que sim — respondeu Catriana, embora não visse as coisas por aquele ponto de

vista. Devin falava coisas assim de vez em quando. Ela não via aquela ação como um ato de

orgulho ou uma barganha, mas sim como um lembrete de quão grande um erro poderia ser.

Um lembrete, como o vinho azul de Alessan.

— Minha mãe não é uma mulher orgulhosa — disse ela, surpreendendo-se.

— Eu não sei como era a minha — disse Devin, com a voz apertada. — Nem mesmo sei se

poderia dizer que meu pai é orgulhoso. Acho que também não sei muito sobre ele.

Ele realmente estava estranho.

— Devin — pediu ela, astutamente —, recline-se para a frente. Deixe-me olhar para você.

Ela conferiu seus cobertores; estava coberta até o queixo.

Lentamente, ele inclinou o corpo adiante: a luz da vela iluminou o cabelo desgrenhado, a

camisa rasgada e as marcas nítidas de unhas e dentes. Sentiu uma rápida explosão de raiva e então uma lenta e profunda ansiedade que não tinha relação alguma com ele. Ao menos não

diretamente.

Mascarou ambas as reações com uma risada maldosa.

— Pelo que vejo, ela estava vagando por aí. Parece que você foi para a guerra.

Com esforço, Devin conseguiu esboçar um sorriso, mas algo sombrio tomava seus olhos: ela

conseguia ver isso, mesmo sob a fraca luz da vela, o que a inquietou.

— O que foi, então? — continuou ela, ainda sarcástica. — Você a cansou e veio aqui,

procurando mais? Pois me deixe dizer...

— Não — disse ele, rápido. — Não, não é isso. É... longe disso, Catriana. Está sendo... uma

noite difícil.

— É visível só de olhar para você — respondeu Catriana, enquanto suas mãos apertavam o

cobertor.

Ele continuou esquivando-se:

— Não dessa maneira. É tão estranho. Tão complicado. Acho que aprendi alguma coisa ali.

Acho...

— Devin, eu realmente não quero saber dos detalhes! — Ela estava brava consigo mesma

pela raiva que esse tipo de assunto lhe despertava.

— Não, não. Não desse modo, embora, sim, houve algo no começo. Mas... — Ele respirou

fundo. — Acho que aprendi algo sobre o que os tiranos zeram conosco. Não apenas

Brandin, e não apenas em Tigana. Alberico também. Os dois, e com todos nós.

— Mas quanta sabedoria — zombou Catriana. — Ela deve ser ainda mais habilidosa do que

você imaginava.

Aquilo fez com que ele se calasse. Recostou-se em sua cadeira novamente, e Catriana não

conseguiu ver seu rosto. No silêncio que se seguiu, a respiração dela se acalmou.

— Desculpe-me — disse, devagar. — Não quis dizer isso. Estou cansada. Tive alguns

pesadelos esta noite. O que você quer de mim, Devin?

— Não tenho certeza — respondeu o rapaz. — Que você seja minha amiga, eu acho.

Novamente sentiu-se incomodada. Resistiu ao impulso nervoso de sugerir que ele fosse

escrever uma carta para uma das filhas de Rovigo. E falou:

— Nunca fui boa nisso, nem quando era criança.

— Nem eu — disse ele, reclinando-se para frente mais uma vez. Ele tentara ajeitar o cabelo.

— Mas é mais do que isso que existe entre nós dois. Eu sei que às vezes você me odeia.

Catriana sentiu o coração disparar.

— Não precisamos discutir isso, Devin. Eu não odeio você.

— Às vezes odeia — prosseguiu ele, naquele estranho tom evasivo. — Por causa dos

acontecimentos no Palácio Sandreni. — Ele fez uma pausa e respirou fundo. — Porque eu

fui o primeiro homem com quem você já fez amor.

Ela fechou os olhos. Tentou, inutilmente, apagar pela força de sua vontade a existência

daquela última frase:

— Você sabia?

— Não na época. Eu descobri depois.

Peças de outro quebra-cabeça. Pacientemente remontado. Descobrindo seus segredos. Ela

abriu os olhos, encarando-o sem expressão:

— E você acha que discutir esse agradável assunto irá nos tornar amigos?

Ele estremeceu.

— Provavelmente não. Não sei. Pensei que devesse contar que eu gostaria que fôssemos. —

Houve um silêncio. — Eu sinceramente não sei, Catriana. Desculpe.

Surpreendentemente, tanto o choque quanto a raiva haviam desaparecido. Ela o viu

recostar-se novamente, exausto, e ela fez o mesmo, reclinando-se contra a cabeceira de

madeira da cama. Refletiu por um instante, admirada com a calma que sentia.

— Eu não odeio você, Devin — disse ela, en m. — De verdade, não odeio. Não sinto nada

próximo disso. É uma memória estranha, não nego, mas não acho que tenha prejudicado o

que temos que fazer. E é isso o que realmente importa, não é?

— Acho que sim — disse ele. Ela não conseguia ver seu rosto. — Se isso é tudo o que

importa.

— Quero dizer, é verdade o que eu disse antes: nunca fui boa em fazer amigos.

— Por quê?

Novamente, peças do quebra-cabeça. Mas ela disse:

— Quando garota, não tenho certeza. Talvez eu fosse muito tímida ou muito orgulhosa.

Nunca me senti à vontade em nossa vila, mesmo que tenha sido o único lar que eu já tenha

conhecido. Mas desde que Baerd me disse o nome de Tigana, desde que o ouvi, isso tem

sido tudo o que existe no mundo para mim. Tudo o que importa em relação a qualquer

coisa.

Catriana quase conseguia ouvi-lo pensando a respeito. Ele disse:

— Frio é para despedidas.

Exatamente o que Alienor dissera a ela. Ele continuou:

— Você ainda está viva, Catriana. Com um coração, uma vida a viver, possibilidade de ter

amigos, e mesmo de amar. Por que está se restringindo a apenas uma coisa?

E ela se ouviu responder:

— Porque meu pai nunca lutou. Ele fugiu de Tigana como um covarde, antes das batalhas

no rio.

Poderia ter arrancado a própria língua, inteira e ensanguentada, no momento em que

terminou de falar.

— Oh… — disse ele.

— Nenhuma palavra, Devin! Não diga nada!

Ele obedeceu, sentando-se muito quieto, quase invisível nas profundezas da cadeira.

Repentinamente, Catriana apagou a vela; e então, porque estava escuro e porque ele estava

tão obedientemente silencioso, gradualmente recuperou o controle sobre si. Para prosseguir após o signi cado daquele momento, sem chorar. Levou muito tempo em meio à escuridão,

mas enfim conseguiu respirar fundo e longamente, sabendo que estava bem.

— Obrigada — disse ela, sem ter certeza por que exatamente agradecia. Principalmente

pelo silêncio.

Não houve resposta. Ela aguardou um momento, então o chamou baixinho pelo nome.

Novamente não recebeu resposta. Ouviu com atenção, e conseguiu ouvir a respiração de

Devin, subindo e descendo, enquanto dormia.

Catriana possuía senso de ironia o bastante para achar aquilo engraçado. Mas ele

evidentemente tivera uma noite difícil, e não apenas da maneira mais óbvia.

Ela pensou em acordá-lo e enviá-lo de volta para o seu quarto. Certamente algumas

sobrancelhas iriam se erguer se as pessoas vissem os dois saindo do quarto juntos, pela

manhã. No entanto, descobriu que realmente não se importava. E percebeu ainda que se

importava menos do que esperava por ele ter deduzido uma verdade a seu respeito e

acabado de descobrir outra. Sobre seu pai, mas mais sobre ela. Re etiu a respeito da razão de

não mais se importar.

Considerou a ideia de cobri-lo, mas resistiu ao impulso. Por alguma razão, realmente não

queria que ele acordasse pela manhã e descobrisse que ela zera aquilo. As lhas de Rovigo

faziam aquele tipo de coisa, não ela. Ou não: a lha mais nova já o teria nessa cama e dentro

dela, sem se importar com o humor estranho ou a exaustão. A mais velha? Costuraria uma

manta numa velocidade milagrosa e o enrolaria nela, com uma nota que explicava a

linhagem da ovelha que cedera a lã e a história do tipo de tricô que fizera.

Catriana sorriu para si mesma na escuridão e se deitou para dormir. O sono parecia haver

retornado e, dessa vez, não teve sonho algum. Quando acordou, logo após o amanhecer,

Devin havia partido. E ela não soube, até mais tarde, para quão longe ele fora.