Tigana: A Lâmina na Alma
Capítulo IV
Acompanhando o caixão de seu pai através do portão leste, uma hora antes do pôr do sol, Tomasso bar Sandre manteve seu cavalo em um ritmo calmo e deixou sua mente vagar pela primeira vez em 48 horas muito tensas.
A estrada estava quieta. Àquela hora, normalmente estaria abarrotada de pessoas
retornando à distrada antes do toque de recolher fechar os portões da cidade. Normalmente
o pôr do sol esvaziava as ruas de Astibar por completo, salvo pelas patrulhas de mercenários
barbadianos e pelos inconsequentes o su ciente para desa á-las em busca de mulheres,
vinho ou outras diversões da noite.
No entanto, aquele não era um dia normal. Naquela noite e nas duas seguintes, não
haveria toque de recolher em Astibar. Com as uvas recolhidas e a colheita da distrada bem-
sucedida, o Festival das Vinhas veria cantoria, danças e coisas mais selvagens que essas nas
ruas, por todas as três noites. Durante essas noites, todo ano Astibar ngia ser a sedutora e
decadente Senzio. Nenhum duque, nos velhos tempos — nem mesmo o severo Alberico,
agora — fora tolo o su ciente para irritar o povo sem necessidade, negando-lhe essa
tradicional libertação dos tempos mais sóbrios do ano.
Tomasso lançou um olhar de volta à sua cidade. O sol poente estava vermelho entre as
nuvens nas, atrás das cúpulas do templo e das torres, banhando Astibar num brilho lindo e
quase sobrenatural. Uma brisa soprou e havia um toque de frio nela. Ele pensou em colocar
suas luvas, mas preferiu não fazê-lo — para isso, teria de tirar alguns de seus anéis, e
realmente gostava de ver as pedras naquela luz esquiva e passageira. De nitivamente, o
outono estava chegando, os Dias das Brasas aproximando-se rápido. Não faltava muito,
questão de dias, até que o primeiro oco de neve tocasse aquelas últimas e preciosas uvas,
que haviam sido deixadas em vinhas escolhidas, para se tornarem, se tudo corresse bem, o
gélido e límpido vinho azul que era o orgulho de Astibar.
Atrás dele, os oito serviçais se arrastavam impassivelmente ao longo da estrada, carregando
o caixão simples do pai de Tomasso — de madeira lisa, exceto pelo brasão do Duque que o
encimava. Nas laterais, dois guardiões de vigília cavalgavam em um silêncio implacável, o
que não era surpresa, tendo em vista a natureza de sua tarefa e o intrincado ódio com várias
origens que se retorcia entre aqueles dois homens.
Aqueles três homens, Tomasso se corrigiu. Eram três, caso se decidisse contar o homem
morto que cuidadosamente planejara tudo aquilo, inclusive o detalhe de quem deveria
cavalgar a cada lado de seu caixão, quem deveria estar à frente e quem iria atrás. Isso sem
contar o detalhe, ainda mais surpreendente, de quais dois senhores da província de Astibar
seriam solicitados para serem seus acompanhantes até a cabana de caça, para a longa noite
de vigília, e dali para a Cripta Sandreni, ao alvorecer. Ou, para ir direto ao ponto, o
verdadeiro ponto: a quais dois senhores poderia e deveria ser con ado o que eles viriam a saber durante a vigília na floresta, naquela noite.
Ao pensar naquilo, Tomasso sentiu uma pontada de apreensão dentro de seu peito. Ele se
controlou, como havia aprendido a fazer com o passar dos anos — inacreditável quantos
anos haviam passado — ao discutir tais assuntos com seu pai.
Mas agora Sandre estava morto e ele estava agindo sozinho, e a noite para a qual haviam
trabalhado estava chegando naquela luz que se desvanecia em vermelho. Tomasso, dois anos
depois de seu quadragésimo batismo, sabia que, caso não fosse cuidadoso, facilmente
poderia se sentir como uma criança de novo.
A criança que ele era, por exemplo, aos 12 anos, quando Sandre, Duque de Astibar, o havia
encontrado nu sobre a palha do celeiro, com o filho de 16 anos do chefe dos cavalariços.
Seu amante fora executado, é claro, embora discretamente, para manter o assunto em
sigilo. Tomasso fora chicoteado por seu pai por três dias seguidos, o chicote meticulosamente
redescobrindo, a cada manhã, as feridas que começavam a fechar. Sua mãe fora proibida de
vê-lo. Ninguém havia ido vê-lo.
Um dos poucos erros de seu pai, re etiu, voltando trinta anos no tempo, sob a luz do
crepúsculo de outono. Sabia que devia àqueles três dias seu gosto peculiar por chicotes na
hora do amor. Era uma de suas alegrias, como gostava de chamar.
Mas Sandre nunca mais o puniu daquele modo, nem de qualquer outra forma direta.
Quando cou claro, matando qualquer esperança de discrição, que as preferências de
Tomasso não poderiam ser, para dizer o mínimo, mudadas ou amenizadas, o Duque
simplesmente passou a ignorar a existência de seu filho do meio.
Continuaram assim por mais de dez anos, nos quais Sandre pacientemente tentou treinar
Gianno para sucedê-lo, e passando quase tanto tempo com o jovem Taeri — deixando claro
a todos que seu lho caçula era o próximo na linha de herança, após o primogênito. Por mais
de uma década, Tomasso simplesmente não existira dentro das muralhas do Palácio
Sandreni.
Embora ele com certeza existisse em outros locais de Astibar, e em várias outras províncias
também. Por razões que agora lhe eram dolorosamente claras, tentara, ao longo daqueles
anos, eclipsar as memórias de toda a nobreza dissoluta sobre a qual Astibar ainda contava
lendas estarrecedoras, ainda que muitos deles já estivessem mortos há mais de quatrocentos
anos.
Ele supôs que tivesse, até certo ponto, conseguido.
Certamente, a “invasão” ao templo de Morian, naquela Noite das Brasas tanto tempo antes,
permaneceria por um tempo como o ápice ou paradigma do sacrilégio debochado (era tudo
uma questão de perspectiva, como gostava de dizer na época).
A invasão não tivera nenhum impacto em sua relação com o Duque. Não havia relação a
ser abalada, desde aquela manhã no celeiro, quando Sandre fatidicamente retornara de sua
cavalgada uma hora mais cedo. Ele e seu pai simplesmente não falavam nem sequer
tomavam conhecimento da presença um do outro, fosse em jantares de família ou em ocasiões formais. Caso descobrisse algo que Sandre deveria saber — o que era bastante
frequente, dadas as companhias que possuía e os perigos daqueles tempos —, contava à sua
mãe durante um de seus cafés da manhã semanais juntos, e ela certi cava-se de que seu pai
ouvisse. Tomasso sabia que ela revelava também a fonte das informações. Não que isso
importasse.
Ela morrera ao tomar vinho envenenado destinado ao seu marido, no último ano do
reinado do Duque, ainda se esforçando, até a última manhã de sua vida, para conseguir uma
reconciliação entre Sandre e seu filho do meio.
Pessoas mais românticas que o pai ou o lho poderiam se permitir acreditar que, quando a
família Sandreni se aproximara na retaliação sangrenta daquele incidente, ela teria alcançado
seu mais profundo desejo por meio de sua morte.
Ambos os homens sabiam que aquilo não era verdade.
De fato, foi apenas a vinda de Alberico do Império de Barbadior, com sua feitiçaria
domadora de vontades e a e ciência brutal de seus conquistadores mercenários, que levou
Tomasso e Sandre a conversarem, tarde da noite durante o segundo ano de exílio do Duque.
Foi a invasão de Alberico e um segundo fator: a estupidez monumental, imperdoável e
inevitável de Gianno d’Astibar bar Sandre, herdeiro titular das fragmentadas fortunas de sua
família.
E àquelas duas coisas, somou-se lentamente uma terceira verdade amarga para o orgulhoso
Duque exilado. Tornou-se cada vez mais óbvio, acima de qualquer tentativa de negar, que se
quaisquer traços e dons de sua personalidade houvessem se manifestado na geração
seguinte, quaisquer sutilezas e percepções, quaisquer habilidades de camu ar o pensamento
e compreender a mente alheia, teriam se transmitido, todas elas, apenas para seu lho do
meio. Para Tomasso.
Aquele que gostava de garotos, e que não deixaria um herdeiro, nem mesmo um nome a
ser pronunciado, menos ainda com orgulho, em Astibar ou em qualquer outro lugar da
Palma.
No lugar mais fundo dentro de si, onde realizava a complexa tarefa de lidar com seus
sentimentos pelo pai, Tomasso sempre soubera — mesmo antes, e certamente agora, na
última estrada noturna sobre a qual Sandre viajaria — que uma das provas mais verdadeiras
da grandeza do Duque como governante havia emergido naquela noite de inverno, tanto
tempo antes. A noite em que quebrou uma década de silêncio e falou com seu lho do meio,
tornando-o seu confidente.
Seu único con dente na dolorosa missão de dezoito anos para expulsar Alberico, sua
feitiçaria e seus mercenários de Astibar e da Palma Oriental. Uma tarefa que se tornara uma
obsessão para ambos, mesmo enquanto o comportamento público de Tomasso se tornou
mais e mais excêntrico e decadente, sua voz e seu porte uma paródia — uma autoparódia, na
verdade — do afetado e sibilante amante de garotos.
Tudo fora planejado durante as conversas tarde da noite com seu pai, na propriedade fora das muralhas da cidade.
O papel paralelo de Sandre foi o de se tornar publicamente um homem impotente,
ranzinza, que amaldiçoava a Tríade pelo seu exílio, marcado por caçadas barulhentas e
exageradas, além do consumo excessivo de seu próprio vinho.
Tomasso nunca vira seu pai realmente bêbado. E também nunca usara sua voz esganiçada
quando estavam a sós, à noite.
Oito anos antes, tentaram um assassinato. Um chef, passível de ser associado apenas à
família Canziano, fora colocado numa estalagem no interior de Ferraut, próximo à fronteira
com Astibar. Por mais de seis meses, os rumores em Astibar apontaram aquela estalagem
como um lugar cada vez mais distinto. Depois, ninguém se lembrara como o boato começara:
Tomasso sabia muito bem o quão útil era implantar esses rumores casuais dentre seus amigos
nos templos. Os sacerdotes de Morian, em particular, eram lendários por seus apetites. Por
todos os seus apetites.
Um ano inteiro depois de iniciarem o plano, Alberico de Barbadior parou em seu caminho
dos Jogos da Tríade — exatamente como Sandre disse que faria —, para fazer sua refeição do
meio-dia em uma estalagem que gozava de ótima reputação, perto da fronteira de Astibar,
em Ferraut.
Quando o sol se pôs, ao m daquele dia quente de verão, cada pessoa naquela estalagem —
servos, patrões, cuidadores de estábulo, chefes, crianças e fregueses — teve suas costas,
pernas, braços e pulsos quebrados e suas mãos cortadas, antes de serem amarrados, vivos, às
rodas de tortura improvisadas dos barbadianos para morrerem.
A estalagem foi completamente destruída. Os impostos na província de Ferraut dobraram
nos dois anos seguintes; e por um ano em Astibar, Tregea e Certando. Durante os seis meses
seguintes, cada membro vivo da família Canziano foi encontrado, preso, torturado
publicamente e queimado na Grande Praça de Astibar, com as mãos decepadas en adas na
boca, para que seus gritos não perturbassem Alberico e seus conselheiros em seus aposentos
de trabalho ao redor da praça.
E foi assim que Sandre e Tomasso descobriram que feiticeiros não podem ser envenenados.
Pelos seis anos seguintes, não zeram nada além de conversar à noite, na casa senhorial
entre as vinhas, juntando todo o conhecimento que obtinham sobre o próprio Alberico e
sobre os eventos ao leste, em Barbadior, onde se dizia que o Imperador cava mais velho e
enfermo a cada ano.
Tomasso começou a encomendar e colecionar bengalas cujos punhos eram esculpidos em
formas de órgãos sexuais masculinos. Rumores diziam que alguns dos seus jovens amigos
serviam de modelo. Sandre caçava. Gianno, o herdeiro, consolidava uma reputação
orescente como gênio sedutor e descompromissado de mulheres, e como gerador de
crianças, legítimas e ilegítimas. O mais novo dos Sandreni tinha permissão para manter
modestas casas na cidade, como parte da política geral de Alberico de ser o governante mais
discreto possível — exceto quando perigo ou agitação social o ameaçavam, momentos em que crianças poderiam morrer nas rodas de tortura.
O Palácio Sandreni, em Astibar, permanecia visivelmente trancado, vazio e cheio de pó.
Um símbolo potente e útil da queda dos que poderiam vir a resistir ao Tirano. Os
supersticiosos a rmavam ver luzes fantasmagóricas, ondulando lá à noite, especialmente nas
noites de lua azul, ou nas Noites das Brasas de primavera ou de outono, quando se sabia que
os mortos caminhavam livremente.
Então, durante uma noite no campo, Sandre contou a Tomasso, sem aviso ou cuidado, que
pretendia morrer na véspera do Festival das Vinhas, dali a dois outonos. Ele prosseguiu,
nomeando os dois senhores que seriam seus vigias, e por quê. Naquela mesma noite, ele e
Tomasso decidiram que chegara a hora de contar a Taeri, o lho mais novo, o que estava
acontecendo. Ele era corajoso, não estúpido, e poderia ser necessário para certas coisas. Eles
também concordaram que Gianno havia gerado um lho digno do nome, embora ilegítimo,
e que Herado — com 21 anos e apresentando encorajadores sinais de espírito e ambição —
era a melhor esperança de ter a participação da geração mais nova no tumulto que Sandre
esperava provocar logo após a sua morte.
Não era, na verdade, uma questão de qual familiar era con ável: a nal, família era família.
A questão era decidir quem seria útil; e um sinal do quão diminuídos estavam os Sandreni
foi que apenas dois nomes vieram à mente.
Tomasso se lembrava — enquanto levava o caixão de seu pai para o sudeste entre as árvores
enegrecidas que ladeavam o caminho — como a conversa fora completamente
desapaixonada. Todas as suas conversas foram assim, aquela não tivera nada de diferente.
Mais tarde, no entanto, ele não conseguiu dormir, sentindo o dia do Festival marcado em
sua mente, ainda que só fosse ocorrer dali a dois anos. O dia em que seu pai, tão preciso em
seus planos, tão sensato, decidira que iria morrer para dar a ele uma nova chance, uma
chance de fazer as coisas de um modo diferente.
A data viera e se fora, levando consigo a alma de Sandre d’Astibar, para onde quer que as
almas de homens como ele fossem. Tomasso fez um gesto para espantar o mal por aquele
pensamento. Atrás dele, ouviu o mordomo ordenando aos serviçais que acendessem as
tochas. Esfriava conforme a escuridão caía. No céu, uma na camada de altas nuvens se
tingia de um tom púrpura escuro, vestígio dos últimos raios de luz. O próprio sol havia
partido, por trás das árvores. Tomasso pensou em almas, na de seu pai e na sua própria.
Estremeceu.
Vidomni, a lua branca, se ergueu; e então, pouco depois, veio a azul Ilarion, perseguindo-a
em vão pelo céu. Ambas as luas estavam quase cheias. Na verdade, a procissão poderia ter
seguido sem tochas, tão brilhante estavam os luares gêmeos, mas a luz das chamas
combinava melhor com a tarefa a ser desempenhada e seu estado de espírito. Por isso,
Tomasso deixou-as queimar enquanto a companhia deixava a estrada, rumo aos familiares
caminhos sinuosos que atravessavam a oresta Sandreni, até chegar à cabana de caça simples
que seu pai amara.
Os serviçais deitaram o caixão nos cavaletes montados no centro do grande salão de
entrada. Velas foram acesas; assim como as duas lareiras, em cantos opostos do salão. A
comida e o vinho haviam sido colocados mais cedo naquele dia, e trataram logo de retirar o
pano que cobria as mesas. As janelas estavam abertas, permitindo que a brisa da noite
arejasse o local.
Com um aceno de cabeça, Tomasso ordenou que o mordomo levasse os demais serviçais
embora. Eles iriam para a mansão, mais a leste, e retornariam ao nascer do dia, quando a
vigília tivesse terminado.
E então foram, en m, deixados a sós. Tomasso e os senhores Nievole e Scalvaia, tão
cuidadosamente escolhidos dois anos antes.
— Vinho, meus senhores? — perguntou Tomasso. — Teremos mais três companheiros em
breve.
Dissera isso com sua voz natural, propositalmente deixando de lado o tom arti cial e
cantado que era sua marca em Astibar. Ficou satisfeito que ambos houvessem notado o fato
imediatamente, seus olhos se estreitando ao olhar para ele.
— Quem mais? — grunhiu o barbudo Nievole, que havia odiado Sandre por toda a sua
vida. Nem ele, nem Scalvaia zeram qualquer comentário sobre a voz de Tomasso.
Comentários desse gênero revelariam muito, e eles eram homens habilidosos o su ciente em
guardar seus pensamentos para si.
— Meu irmão Taeri e meu sobrinho Herado, o mais inteligente dos bastardos de Gianno —
disse ele casualmente, abrindo duas garrafas do Sandreni tinto especial enquanto falava.
Encheu duas taças e deu cada uma a um deles, aguardando para ver qual dos dois iria
quebrar o breve silêncio que seu pai previu que aconteceria. Sandre dissera que seria
Scalvaia.
— Quem é o terceiro? — indagou Lorde Scalvaia, suavemente.
Internamente, Tomasso cumprimentou seu pai morto. Então, girando sua taça pela haste
delicadamente para liberar o aroma do vinho, respondeu:
— Eu não sei. Meu pai não me disse seu nome. Disse apenas que os dois viriam e que nós
três estaríamos aqui. E que haveria uma sexta pessoa nesta assembleia.
Aquela palavra também fora cuidadosamente escolhida.
— Assembleia? — repetiu o elegante Scalvaia. — Parece-me que não fui informado
corretamente. Eu tinha a ingênua impressão de que se tratava de uma vigília.
Os olhos negros de Nievole brilharam acima de sua barba. Ambos encararam Tomasso.
— É um pouco mais do que isso — disse Taeri, adentrando o salão seguido por Herado.
Tomasso estava satisfeito em ver ambos vestidos com a sobriedade apropriada e em notar
que, apesar da irreverente interrupção de Taeri, ele trazia uma expressão profundamente
séria.
— Vocês conhecem meu irmão — murmurou Tomasso, indo encher mais duas taças, para
os dois novos convidados. — Talvez os senhores não conheçam Herado, filho de Gianno.
O garoto fez uma reverência e se manteve em silêncio, como era adequado. Tomasso levou
as taças até seu irmão e o sobrinho.
O silêncio durou mais um instante, e Scalvaia se afundou numa cadeira, esticando sua
perna ruim à frente. Ergueu sua bengala e apontou-a para Tomasso. A ponta da bengala não
tremeu.
— Eu lhe z uma pergunta — disse ele friamente, com sua voz, famosa pela beleza. — Por
que você chamou isso de “assembleia”, Tomasso bar Sandre? Por que fomos trazidos até aqui
sob pretextos falsos?
Tomasso parou de brincar com sua taça. En m, chegara o momento. Olhou de Scalvaia
para o corpulento Nievole.
— Vocês dois — disse ele, sério — foram considerados pelo meu pai os dois últimos
senhores que ainda desfrutam de algum poder de verdade em Astibar. Dois invernos atrás,
ele decidiu e me informou que pretendia morrer na véspera deste Festival. Em um momento
que Alberico não poderia recusar os ritos fúnebres completos, o que inclui uma vigília como
esta. Em um momento que vocês dois estariam em Astibar, permitindo-me nomeá-los para
me acompanhar.
Ele fez uma pausa em seu discurso meticulosamente ensaiado e lançou olhares demorados
a cada um deles.
— Meu pai fez tudo isso para que pudéssemos nos reunir sem suspeitas, interrupções ou
risco de sermos detectados, para que colocássemos em ação certos planos para destituir
Alberico do poder em Astibar.
Ele observava de perto, mas Sandre escolhera bem. Nenhum dos dois homens a quem
falava denunciou surpresa ou desgosto por um tremor de músculo sequer. Lentamente,
Scalvaia baixou sua bengala e recostou-a à mesa, ao seu lado. O bastão era de ônix e machial,
percebeu Tomasso. Estranho como a mente trabalhava em momentos como aquele.
— Você sabe... — disse Nievole, ao pé da lareira maior. — Você sabe que essa ideia passou
pela minha cabeça quando tentei entender por que o seu maldito pai... ah, me perdoe,
velhos hábitos são difíceis de largar... — Seu sorriso era mais ameaçador do que arrependido,
e não chegou aos olhos estreitados — ... por que o Duque Sandre me escolheria para estar
em sua vigília. Ele deve ter sabido do número de vezes que eu tentei apressar estes ritos
durante os dias de seu reinado.
Tomasso sorriu de volta, igualmente lacônico:
— Ele estava certo de que você se perguntaria — disse ele educadamente ao homem que,
tinha quase certeza, pagara pela taça de vinho que matara sua mãe. — Ele também estava
certo de que você concordaria em vir, uma vez que é um dos últimos de uma raça
moribunda em Astibar. Na verdade, em toda a Palma.
O barbudo Nievole ergueu sua taça:
— Você é muito lisonjeiro, bar Sandre. E devo dizer que pre ro sua voz como está agora,
sem todas aquelas oscilações e vibrações que normalmente estão nela.
Scalvaia pareceu satisfeito. Taeri riu alto. Herado observava cuidadosamente. Tomasso
gostava muito dele, e não da sua forma peculiar, como tivera que convencer seu pai em uma
conversa desconcertante.
— Eu também pre ro essa voz — disse ele aos dois. — Sendo quem são e tendo o poder
que têm, os senhores devem ter deduzido, nos últimos minutos, por que conduzo certos
aspectos de minha vida das maneiras tão bem conhecidas. Há certas vantagens em ser visto
como um depravado sem rumo.
— Há — concordou Scalvaia —, se você carrega um propósito que é servido por essa ilusão.
Você disse um nome há pouco e insinuou que todos caríamos mais felizes se o portador
desse nome estivesse morto ou longe. Vamos deixar de lado, por hora, o exame das
possibilidades que se seguiriam a um evento tão dramático.
Seu olhar era quase impossível de se ler; Tomasso fora alertado de que seria assim. Não
disse nada. Taeri se mexeu desconfortável, mas, felizmente, manteve-se calado como o havia
instruído. Ele caminhou e tomou uma das cadeiras, no canto oposto ao caixão. Scalvaia
continuou:
— Não podemos ignorar que, ao dizer o que você disse, colocou toda a sua família em
nossas mãos, ou assim pareceria de início. Ao mesmo tempo, suponho também que, caso nos
erguêssemos e marchássemos até Astibar levando notícias de sua traição, nos juntaríamos ao
seu pai entre os mortos antes mesmo de sair desta floresta.
Era uma simples a rmação — um pequeno fato a ser con rmado, antes de partirem para
assuntos mais importantes.
— Di cilmente — mentiu Tomasso, balançando a cabeça. — Os senhores nos honram com
a sua presença e são inteiramente livres para partir. Na verdade, nós os escoltaremos, se
quiserem, já que o caminho pode ser bastante traiçoeiro na escuridão. De fato, meu pai me
aconselhou a lembrar-lhes de que, embora os senhores pudessem prontamente nos colocar
em amarras e rodas de tortura, é extremamente plausível pensar que Alberico veria motivo o
bastante para fazer o mesmo com vocês dois, por serem considerados nossos cúmplices. Os
senhores se lembram do que aconteceu com os Canziano após aquele infeliz incidente em
Ferraut, alguns anos atrás?
Houve um silêncio delicado e gracioso para apreciar o que fora dito. E foi quebrado por
Nievole:
— Aquilo foi obra de Sandre, não foi? — grunhiu ele, junto ao fogo. — Não tinha nada a
ver com os Canziano!
— Foi obra nossa — concordou Tomasso, calmamente. — E aprendemos muito com aquilo,
devo dizer.
— E os Canziano também — murmurou Scalvaia, seco. — Seu pai sempre odiou Fabro bar
Canzian.
— Não poderíamos dizer que eles se davam bem — a rmou Tomasso, sem emoção. —
Embora eu deva dizer que, se vocês se focarem nesse aspecto da situação, temo que venham a deixar de lado o que realmente interessa.
— O que você prefere que nos interesse — corrigiu Nievole, mordaz.
Inesperadamente, Scalvaia veio ao socorro de Tomasso:
— Isso não é justo, meu senhor. Se existe algo com o que todos nessa sala e nesses tempos
devem concordar é que o ódio e o desejo de Sandre estão muito além de velhas guerras e
rivalidades. Seu alvo era Alberico.
Seus olhos azul-gelo encararam os de Nievole por um longo instante, e en m o homem
maior concordou. Scalvaia se ajeitou em sua cadeira, arrepiando-se com a sgada em sua
perna dolorida. Disse a Tomasso:
— Muito bem. Você já nos disse por que estamos aqui e deixou claras as suas intenções e as
de seu pai. De minha parte, farei uma con ssão. Confesso, no espírito de sinceridade que
uma vigília fúnebre deve inspirar, que ser governado por um lorde menor, abrutalhado,
imoral e arrogante de Barbadior traz pouca alegria ao meu velho coração. Estou com vocês.
Se você tem um plano, eu gostaria de ouvi-lo. Pelo meu juramento e pela minha honra, serei
leal aos Sandreni nesse assunto.
Tomasso estremeceu com a invocação das palavras tradicionais. E disse, realmente
sentindo:
— O seu juramento e a sua honra são certezas além de qualquer medida.
— São mesmo, bar Sandre — disse Nievole, caminhando pesadamente e se afastando da
lareira. — E ouso dizer que a palavra dos Nievolene nunca foi considerada de pouco valor. O
mais caro desejo em meu coração é o de ver os barbadianos mortos e cortados em pedaços,
se a Tríade permitir, por minha própria lâmina. Também estou com vocês. Por meu
juramento e minha honra.
— Que palavras terrivelmente magníficas! — disse uma voz da janela oposta à porta.
Os cinco rostos se viraram, quatro deles pálidos de espanto, e o último, corado por trás da
barba. O dono da voz falava pela janela aberta, cotovelos apoiados no parapeito e queixo
repousando sobre as mãos. Ele passou os olhos, medindo-os com o rosto oculto pela borda
da própria janela.
— Nunca antes vi frases elegantes, vindas de qualquer linhagem, conseguirem expulsar um
tirano. Nem na Palma, nem em qualquer outro local.
Em um movimento contido, ergueu-se, projetou os pés para dentro da sala e se pôs
confortavelmente sentado no parapeito da janela.
— Por outro lado — completou —, concordar sobre um assunto é um ponto de partida. Sou
obrigado a fazer essa concessão.
— Você é o sexto homem de quem meu pai falou? — questionou Tomasso,
cautelosamente.
Na luz, o homem até parecia familiar. Vestia-se para a oresta, e não para a cidade, com
dois tons de cinza e um colete preto de couro de ovelha sobre a camisa, e calças en adas em
duas botas de montaria, negras e gastas. Uma faca cingia sua cinta, sem qualquer ornamento.
— Eu ouvi você dizendo isso — disse o sujeito. — Espero que eu não seja, pois senão as
implicações seriam, no mínimo, inquietantes. O fato é que eu nunca conversei com seu pai.
Se ele sabia de minhas atividades e, de alguma maneira, esperava que eu descobrisse sobre
essa reunião e estivesse aqui... bem, eu estaria um pouco lisonjeado pela con ança e bastante
preocupado por ele saber tanto sobre mim. Por outro lado, é de Sandre d’Astibar que
estamos falando, e eu sou mesmo o sexto homem aqui, certo?
Ele se curvou, sem qualquer ironia visível, numa reverência ao caixão.
— Você também se coloca, portanto, contra Alberico?
Os olhos de Nievole estavam vigilantes.
— Não — disse o homem na janela, abruptamente. — Alberico não signi ca nada para
mim. A não ser um instrumento. Uma alavanca com a qual abrirei uma porta.
— E o que se encontra atrás dessa porta? — perguntou Scalvaia, afundado em sua poltrona.
Foi então que Tomasso se lembrou.
— Eu o conheço! — disse, repentinamente. — Eu o vi esta manhã. Você é o pastor tregeano
que tocou flauta nos ritos fúnebres!
Taeri estalou os dedos ao reconhecê-lo também.
— Eu toquei auta, sim — a rmou o homem à janela, ainda sereno. — Mas não sou um
pastor nem venho de Tregea. Convinha aos meus propósitos encenar um papel. Muitos
papéis, na verdade, nesses muitos anos. Tomasso bar Sandre provavelmente me entende.
Ele sorriu. Tomasso não devolveu o sorriso. Em vez disso, falou do modo mais educado que
conseguiu:
— Talvez então, dadas as circunstâncias, você possa nos fazer o favor de dizer quem você
realmente é. Meu pai poderia até saber, mas nós não.
— E tampouco saberão tão cedo — disse o outro. E fez uma pausa. — Embora deva dizer
que, eu jurasse pela honra de minha família, o peso desse voto eclipsaria os dois juramentos
já feitos aqui esta noite.
O tom era casual, o que apenas fez sua arrogância parecer muito maior.
Para evitar a previsível explosão de raiva de Nievole, Tomasso se adiantou:
— Você não pode nos negar pelo menos alguma informação, ainda que resolva proteger
seu nome. Disse que Alberico é uma ferramenta para você. Uma ferramenta para quê,
Alessan não-de-Tregea? — Tomasso cou feliz em se lembrar do nome que Menico di
Ferraut mencionara no dia anterior. — Qual é o seu propósito? O que o traz a esta cabana?
O rosto do outro homem, esguio e com as maçãs do rosto salientes, se imobilizou, quase
uma máscara. E no silêncio que se seguiu, ele afirmou:
— Eu quero Brandin. Eu quero Brandin de Ygrath morto, mais do que eu quero a
imortalidade de minha alma além do último portal de Morian.
Houve novamente um silêncio, quebrado apenas pelo estalar do fogo nas duas lareiras.
Tomasso sentiu como se um arrepio de inverno houvesse tomado a sala após aquela
declaração.
— Que palavras terrivelmente magní cas! — murmurou Scalvaia preguiçosamente,
rompendo a tensão. Ele arrancou risos de Nievole e Taeri. Mas ele mesmo não sorriu.
O homem à beira da janela recebeu o golpe com um leve aceno de cabeça. E sentenciou:
— Esse não é, meu senhor, um assunto sobre o qual eu permita trivialidades. Se iremos
trabalhar juntos, é necessário que se lembre disso.
— Sou forçado a dizer que você é um jovem extremamente arrogante. Seria apropriado que
se lembrasse com quem está falando.
O outro visivelmente conteve sua primeira resposta.
— A arrogância é um defeito familiar — disse, en m. — Temo não ter conseguido escapar
dele. Mas na verdade sei bem quem você é. E os Sandreni e meu senhor Nievole. É por isso
que estou aqui. Tem sido de meu interesse, por muitos anos, conhecer as dissidências que
percorrem a Palma. Por vezes, eu até as encorajei, discretamente. Essa noite marca a primeira
vez em que me coloquei num encontro como este.
— Mas você já nos disse que Alberico não significa nada para você.
Internamente, Tomasso amaldiçoava seu pai por não lhe ter preparado melhor para aquela
sexta figura tão peculiar.
— Nada por ele mesmo — corrigiu o outro. — Me permite?
Sem esperar por uma resposta, ergueu-se do parapeito e se dirigiu até onde estava o vinho.
— À vontade — respondeu Tomasso, tardiamente.
O homem se serviu de uma generosa taça de vinho tinto. Logo a esvaziou e voltou a enchê-
la. Apenas então se voltou para encarar os cinco.
Os olhos de Herado observavam-no, arregalados.
— Dois fatos — disse o homem que chamavam de Alessan. — Vocês devem aprendê-los se
quiserem realmente libertar a Palma. Primeiro: se vocês expulsarem ou matarem Alberico,
terão Brandin sobre vocês em menos de três meses. Segundo: se Brandin for expulso ou
morto, Alberico governará esta península nesse mesmo intervalo de tempo.
Ele parou. Seus olhos — acinzentados, Tomasso notava agora — moveram-se de um a
outro, desafiadores. Ninguém falou nada. Scalvaia brincava com o punho de sua bengala.
— Essas duas coisas devem ser compreendidas — prosseguiu o estranho, no mesmo tom. —
Nem eu em minha busca; nem vocês, na sua, podemos nos permitir esquecê-las. Elas são as
verdades que fundamentam a Palma em nosso tempo. Os dois feiticeiros de além-mar se
equilibram mutuamente na balança de poder, e esse equilíbrio é o único que existe na
península atualmente, não importa o quão diferentes fossem as coisas há dezoito anos. Hoje
apenas o poder de um evita que a mágica do outro se erga como no dia em que nos
conquistaram. Se queremos derrubar um deles, então devemos derrubar os dois ou fazer
com que ambos se destruam.
— Como? — perguntou Taeri, afobado.
O rosto esguio sob o cabelo negro prematuramente grisalho se virou para ele e respondeu
apenas:
— Paciência, Taeri bar Sandre. Ainda tenho uma série de coisas a contar para vocês sobre
descuidos antes de decidir se nossos caminhos irão se juntar. E digo isso com infinito respeito
pelo homem morto que parece ter nos reunido aqui de modo tão notável. Temo que os
senhores devam concordar em se submeter à minha liderança, ou não conseguiremos fazer
nada juntos.
— Os Scalvaiane jamais se submeteram a nada ou ninguém em toda a memória viva ou
história contada — disse aquele senhor astuto, com a voz num tom aveludado. — Eu não
pretendo ser o primeiro a fazê-lo.
— Você preferiria — disse o outro — ter seus planos, sua vida e a longa glória de sua
linhagem apagados como velas durante os Dias das Brasas por mero descuido em suas
preparações?
— É melhor você se explicar — disse Tomasso, friamente.
— Pretendo fazê-lo. Quem escolheu uma noite de duas luas, ao nascer das duas luas, para
se encontrar? — redarguiu Alessan, sua voz cortante como uma lâmina. — Por que não
havia guardas colocados ao longo da trilha na oresta, de modo a avisá-los se alguém se
aproximasse, como eu mesmo z? Por que nenhum serviçal foi colocado aqui esta tarde, para
guardar a cabana? Vocês têm alguma ideia do quão mortos vocês cinco estariam, as mãos
cortadas e enfiadas em suas gargantas, se eu não fosse quem sou?
— Meu pai... Sandre... disse que Alberico não nos seguiria — gaguejou Tomasso
furiosamente. — Ele tinha certeza absoluta disso.
— E ele provavelmente estava certo. Mas vocês não podem permitir que sua perspectiva
seja tão restrita. Seu pai, e sinto muito se tenho que dizer isso, passou tempo demais sozinho
com sua obsessão. Ele se focava demais em Alberico. É evidente em tudo o que você fez nos
últimos dois dias. E se houvesse alguém curioso ou ganancioso por perto? Um informante
sem importância que pudesse decidir segui-los, apenas para ver o que aconteceria aqui?
Apenas para ter uma história para contar na taverna amanhã? Será que você ou seu pai
sequer pararam para considerar essas possibilidades? Ou a possibilidade de alguém ter
descoberto onde vocês planejaram se encontrar e vir para cá antes de vocês?
Houve um silêncio hostil. Um pedaço de lenha no fogo menor crepitou com um ruído e
uma dispersão de fagulhas. O ruído fez Herado dar um pulo involuntário.
— Vocês gostariam de saber — continuou o homem chamado de Alessan, mais gentilmente
— que meu pessoal esteve guardando os arredores dessa cabana desde que vocês chegaram?
Ou que eu enviei alguém para cá desde a metade da tarde para vigiar os serviçais que
arrumavam tudo, e ver se alguém os seguia?
— O quê? — exclamou Taeri. — Aqui? Em nossa própria cabana?
— Para sua proteção e para a minha — disse o outro homem, terminando sua segunda taça
de vinho. Ele olhou para cima, para as sombras na estrutura de madeira do piso, onde se
armazenavam os estrados. E continuou, erguendo sua voz: — Acho que já chega, meu
amigo. Você merece uma taça de vinho depois de tanto tempo em meio à poeira e com a garganta seca. Já pode descer agora, Devin.
Na verdade, fora tudo fácil demais.
Menico, a bolsa tilintando com a maior quantidade de ouro que já ganhara por uma única
apresentação, gentilmente passara sua apresentação na casa do mercador de vinho para
Burnet di Corte. Burnet, que precisava do trabalho, estava satisfeito; o mercador de vinhos,
inicialmente bravo, foi rapidamente apaziguado ao saber o quanto cresceria a conta que
Menico deixara em aberto, diante de tamanha sensação que causaram naquela manhã.
Então, como consequência, Devin e o restante da companhia receberam o resto do dia e a
noite de folga. Menico deu a todos um bônus imediato de cinco astins e os expulsou com
benevolência, para que aproveitassem os diversos prazeres do Festival. Ele nem mesmo deu
seu sermão habitual.
Pouco depois do meio-dia, já havia barracas de vinho em todas as esquinas, e mais de uma
nas mais movimentadas. Cada vinícola na província de Astibar, e mesmo algumas das
distantes Ferraut e Senzio, trazia as bebidas de safras anteriores, como arautos que
prenunciavam o que as vinhas daquele ano iriam trazer. Mercadores buscando comprar em
grandes quantidades experimentavam com muito rigor; os foliões, com um bem menor.
Vendedores de frutas também eram muitos, oferecendo gos, melões e as enormes uvas da
estação, exibidas ao lado de grandes rodas de queijo branco de Tregea e enormes blocos de
queijo vermelho do norte de Certando. No mercado, o ruído era ensurdecedor conforme as
pessoas da cidade e da distrada pechinchavam com os vendedores itinerantes. Acima de
tudo, os estandartes das casas nobres e das grandes propriedades vinícolas ondulavam na
brisa outonal, enquanto Devin se encaminhava, decidido, para o que disseram ser o mais
famoso salão de khav em Astibar.
A fama tinha suas vantagens. Foi reconhecido logo à porta; sua entrada, anunciada com
empolgação; e dentro de poucos instantes já se encontrava no balcão de madeira do Paelion,
cuidando de uma caneca de khav quente misturado com ambardion — e sem quaisquer
questões levantadas sobre a idade de quem quer que fosse, o que agradecia muitíssimo.
Levou apenas meia hora para saber o que precisava sobre Sandre d’Astibar. Suas questões
pareciam completamente naturais, vindas do tenor que acabara de cantar o lamento fúnebre
do Duque. Devin aprendeu sobre seu longo reinado, suas brigas, seu amargo exílio e seu
triste declínio nos últimos anos, até se tornar um caçador fanfarrão e bêbado, um fantasma
do que outrora fora.
Sobre esse último aspecto, mais especi camente, Devin perguntou sobre os locais nos quais
o Duque gostava de caçar. E lhe responderam. Explicaram onde cava sua cabana de caça
favorita, e ele mudou de assunto para falar sobre o vinho.
Foi fácil. Era o herói do momento; e o Paelion gostava de heróis por um momento.
Acabaram deixando que partisse: ele apelou para a sensibilidade extenuada de um artista
após os acontecimentos daquela manhã. Com o benefício do conhecimento prévio, ele podia dar a devida importância a Alessan di Tregea, no meio de um grande grupo de pintores e
poetas. Eles estavam rindo sobre uma espécie de aposta a respeito de certos versos de
condolência que ainda não haviam chegado de Chiara. Ele e Alessan se saudaram de um
modo elaborado e performático que agradou o salão lotado.
De volta à estalagem, Devin se desvencilhou dos fãs mais empolgados que o
acompanharam até ali e subiu as escadas sozinho. Aguardou em seu quarto, esfregando as
mãos com impaciência por uma hora, até ter certeza de que o último deles havia ido embora.
Trocando-se e colocando uma túnica e calças marrom-escuras, colocou um capuz para
esconder o cabelo e vestiu um casaco de lã para aguentar o vento gelado da noite. Seguiu,
então, despercebido pelas ruas então lotadas, chegando até o portão leste da cidade.
Do lado de fora, viu-se em meio a várias carroças vazias que eram levadas de volta à
distrada por fazendeiros prudentes que haviam vendido todos os seus produtos e preferiam
reabastecer e voltar de manhã, em vez de celebrar a noite toda na cidade, gastando o que
haviam acabado de ganhar.
Devin pegou carona numa daquelas carroças, comentando com o motorista sobre os
impostos e ouvindo sobre as baixas taxas que estavam sendo pagas naquele ano pela lã de
ovelhas. A certa altura, saltou da carroça, ngindo exuberância juvenil, e correu por volta de
um quilômetro e meio pela estrada que levava para o leste.
Foi com grande satisfação que viu um templo de Adaon à sua direita. E logo após, como lhe
havia sido prometido, estava a delicada imagem de um navio, cravada num portão à beira da
estrada, dando passagem a uma modesta casa rural. A casa de Rovigo — ou o que Devin
conseguia ver dela, situada atrás da estrada, entre ciprestes e oliveiras — parecia confortável
e bem cuidada.
No dia anterior, quando era uma pessoa diferente, teria parado. Mas algo acontecera a ele
naquela manhã, dentro dos cômodos empoeirados do Palácio Sandreni. Continuou.
Setecentos metros à frente, encontrou o que procurava. Certi cou-se de estar mesmo
sozinho, e rapidamente virou à direita, pelo sul da oresta, distante da estrada principal que
levava à costa leste e à cidade portuária de Ardin.
A oresta estava quieta, e mais fria nos pontos em que os galhos e as folhas coloridas
bloqueavam a luz do sol. Uma trilha passava pelas árvores; seguindo-a, Devin colocou-se a
caminho da cabana de caça dos Sandreni. A partir dali, redobrou sua cautela. Na estrada,
seria visto apenas como um andarilho; ali, era um transgressor, sem qualquer desculpa
plausível para estar onde estava.
A não ser que o orgulho e os estranhos acontecimentos da manhã anterior pudessem
contar como desculpas plausíveis. Devin duvidava bastante disso. Ao mesmo tempo, ainda
não tinha certeza se os acontecimentos dos dias seguintes seriam ditados por ele, ou por certa
personagem de cabelos ruivos e ações manipuladoras. Se ela imaginava que ele seria tão
facilmente enganado — um jovem e indefeso escravo da paixão, cego e surdo pela oferta de
seu belo corpo —, bem, cabia àquela tarde e àquela noite mostrar o quão errada uma moça arrogante poderia estar.
O que mais a noite revelaria, Devin não tinha ideia. Não se permitira parar tempo
suficiente para pensar no assunto.
Não havia ninguém ali quando chegou à cabana, depois de haver permanecido em silêncio
em meio às árvores por um bom tempo para se certi car. A porta da frente estava fechada
com correntes, mas Marra era muito boa com trancas e havia lhe ensinado uma ou duas
coisas. Ele destrancou o cadeado com a vela de seu cinto, entrou, abriu uma janela e deu a
volta para retrancar o cadeado. Então se esgueirou pela janela, fechou-a, e deu uma olhada
ao redor.
Não havia muitas opções, para falar a verdade. Os dois quartos nos fundos seriam perigosos
para se esconder e não muito úteis se quisesse ouvir alguma coisa. Devin tomou impulso no
braço da larga cadeira e, pulando, conseguiu chegar às armações de madeira do sótão em sua
segunda tentativa.
Enquanto cuidava da canela que havia machucado durante o processo, tomou um dos
travesseiros de um dos catres que estavam ali e deslizou para o canto mais remoto e escuro
que pôde encontrar, atrás de duas camas e uma cabeça de veado empalhada. Deitando sobre
seu lado esquerdo, olho grudado em uma fresta no piso de madeira, ele tinha uma visão
quase completa do cômodo abaixo.
Tentou deixar seu espírito calmo e paciente. Infelizmente, logo percebeu de forma
irracional que o olho de vidro do cervo estava xo em sua direção. Naquelas circunstâncias,
isso o deixava nervoso. Acabou se levantando para virar a cabeça para o outro lado e depois
voltou a se deitar em seu esconderijo.
E imediatamente, assim que as ações de propósitos obscuros deram lugar a um tempo de
espera, Devin começou a sentir medo.
Não alimentava ilusões: se o encontrassem ali, seria um homem morto. O sigilo e a tensão
nas palavras e atitudes de Tomasso bar Sandre, naquela manhã, deixaram isso bem claro.
Mesmo com tudo o que Catriana havia feito numa tentativa de ouvir aquelas palavras sem
deixar que ele as ouvisse. Pela primeira vez, Devin começou a notar aonde o ímpeto de seu
orgulho ferido o levara.
Quando os serviçais chegaram para preparar o local, meia hora depois, passou por
momentos complicados. Complicados o su ciente, na verdade, para fazê-lo desejar estar de
volta à sua casa em Asoli, guiando um arado atrás de um par de búfalos d’água. Eram boas
criaturas, os búfalos, pacientes e sem nunca reclamar. Eles aravam campos para você, e seu
leite virava queijo. Havia algo bom a se dizer até mesmo sobre o céu de Asoli,
previsivelmente cinza no outono, e as pessoas de lá, igualmente previsíveis. Nenhuma das
garotas de lá, por exemplo, era tão irritantemente superior quanto Catriana d’Astibar, que o
havia metido naquilo. E Devin tinha certeza de que nenhum serviçal em Asoli iria se
oferecer, como um imbecil logo abaixo fazia naquele exato momento, para ir buscar um catre
no sótão, caso um dos senhores pudesse se sentir cansado.
— Basta, não seja mais tolo do que você precisa ser! — soltou o mordomo, em resposta. —
Eles devem car acordados em vigília a noite toda. Um catre no cômodo seria um insulto aos
dois. Dê graças que você não depende do seu cérebro para alimentar sua barriga, Basta!
Devin concordou veementemente com aquele insulto, desejando ao mordomo uma vida
longa e lucrativa. Pela décima vez desde que os serviçais de Sandre entraram na sala,
amaldiçoou Catriana; amaldiçoou a si mesmo pela vigésima. A proporção parecia estar
correta.
Por m, os serviçais partiram, retornando a Astibar para buscar o corpo do Duque. As
instruções do mordomo eram dolorosamente claras. Com idiotas como Basta por perto,
pensou Devin com desprezo, aquilo era necessário.
De onde estava, conseguiu ver o dia minguar até o lusco-fusco crepuscular. Flagrou-se
cantarolando a velha canção de sua infância. Forçou-se a parar.
Sua mente voltou para aquela manhã. Para a longa caminhada até os salões vazios e
empoeirados do palácio. Para a câmara secreta, ao nal. A sensação de tocar seda, quando
Catriana ergueu seu vestido acima da cintura. Forçou-se a parar com isso também.
Aos poucos, escurecia. A primeira coruja piou, não muito longe dali. Devin crescera no
interior; era um som familiar para ele. Ouviu algum animal silvestre en ando-se num
arbusto, nos limites da clareira. De vez em quando, uma rajada de vento fazia as folhas
farfalharem.
Então, de repente, um feixe de luz branca atravessou uma das janelas cujas cortinas
estavam abertas, e Devin soube que Vidomni estava alta o su ciente para iluminar a clareira
entre as altas árvores da oresta, o que signi cava que a azul Ilarion devia estar se erguendo
naquele instante — indicando que não faltava mais muito tempo.
Não mesmo. Logo surgiu um bruxuleio de luzes de tochas e sons de vozes. A fechadura fez
um ruído e a porta se abriu. O mordomo guiava oito homens que levavam um caixão. Com
os olhos colados à fresta no piso do sotão, respirando com di culdade, Devin viu enquanto
eles pousavam o caixão no chão. Tomasso entrou com os dois senhores cujos nomes e
linhagens Devin havia aprendido no Paelion.
Os serviçais descobriram as comidas antes de deixar o local, Basta tropeçando na soleira da
porta, batendo o ombro antes de sair. O mordomo, antes de ir, sussurrou desculpas, se
recurvou e fechou a porta ao sair.
— Vinho, meus senhores? — disse Tomasso d’Astibar com a voz que Devin ouvira da
câmara secreta. — Teremos mais três companheiros em breve.
E daí por diante, eles disseram o que disseram e Devin ouviu o que ouviu, tornando-se
gradualmente ciente da magnitude do perigo em que havia se enfiado.
Então Alessan surgiu na janela oposta à porta.
Na verdade, Devin não conseguia ver aquela janela, mas reconheceu a voz imediatamente,
e foi com descrença beirando a estupefação que ouviu o homem que Menico recrutara duas
semanas antes negando ser de Tregea e apontando Brandin, Rei de Ygrath, como o perpétuo alvo da raiva em sua alma.
Devin sempre fora do tipo impetuoso, e não poderia negar que carregava uma boa dose de
tolice impulsiva. Mas nunca deixara de ser rápido ou esperto. Em Asoli, os meninos
pequenos tinham de ser assim.
Quando Alessan disse seu nome, convidando-o a descer, sua mente acelerada juntou mais
duas peças do quebra-cabeça e habilmente tomou o caminho colocado diante de si.
— Tudo quieto, desde o meio da tarde — anunciou ele, esgueirando-se para fora de seu
canto e passando sobre os chifres do cervo. — Apenas os criados estiveram aqui, mas eles
não zeram um bom trabalho ao trancar a porta: a fechadura foi fácil de abrir. Dois ladrões e
o Imperador de Barbadior poderiam ter passado por aqui sem que um chegasse a ver o
outro, ou sem que qualquer um aí embaixo os visse.
Disse isso da maneira mais fria que conseguiu. Então desceu, com uma pirueta
propositalmente exagerada. Notou as expressões de cinco daqueles homens — que
certamente o reconheceram —, mas sua concentração e satisfação repousava no breve sorriso
de aprovação recebido de Alessan.
Por enquanto, sua apreensão sumira, substituída por algo completamente diferente. Ao
chamá-lo, Alessan lhe dera legitimidade naquele lugar. Ele estava claramente ligado ao
homem que agora controlava os acontecimentos na sala. E os acontecimentos tomavam uma
proporção do tamanho da Palma. Devin precisava lutar para controlar sua própria
empolgação.
Tomasso se aproximou da mesa e gentilmente encheu para ele uma taça de vinho. Devin
estava impressionado com tal compostura. E também soube, pela cortesia exagerada e o
inegável brilho no olhar do Sandreni, que, apesar da voz ciciosa ser falsa, Tomasso ainda era,
em certos assuntos e propensões, muito do que diziam ser. Aceitou a taça, tomando cuidado
para que seus dedos não se tocassem.
— Eu me pergunto — disse Lorde Scalvaia em sua magní ca voz — se escutaremos um
recital enquanto passamos nossa vigília. Parece ter uma boa quantidade de músicos aqui, esta
noite.
Devin não disse nada, mas, seguindo o exemplo de Alessan, não sorriu.
— Devo chamá-lo de plantador de uvas provinciano, meu senhor? — A raiva na voz de
Alessan era real. — E chamar Nievole de um agricultor de grãos da distrada a sudoeste? O
que fazemos fora dessas paredes não possui relação alguma com a razão de estarmos aqui, a
não ser por dois aspectos. — Levantando um dedo comprido, continuou: — Primeiro, como
músicos, temos uma desculpa para cruzar toda a Palma, o que oferece vantagens que não
preciso explicar. — Um segundo dedo ergueu-se ao lado do primeiro: — Segundo, a música
treina a mente para a precisão dos detalhes, assim como a matemática ou a lógica. O tipo de
precisão, meus senhores, que teria impedido a falta de cuidado que ocorreu esta noite. Se
Sandre d’Astibar estivesse vivo, eu discutiria esses assuntos com ele e discordaria de sua
experiência e de seu longo esforço.
Ele parou, olhando de um homem para o outro; então disse, muito mais suavemente:
— Eu poderia, ou talvez não. Essa é uma canção que já se foi, para jamais ser entoada
novamente. Como as coisas estão, devo apenas avisar de novo que, se iremos trabalhar
juntos, devem aceitar minha liderança.
Ele falou a última frase diretamente para Scalvaia, que ainda permanecia, elegante e
inexpressivo, afundado em sua cadeira. Mas foi Nievole quem respondeu, objetiva e
cruamente:
— Não possuo o hábito de me demorar a julgar um homem. Acho que você está sendo
sincero e que realmente entende mais dessas coisas do que nós. Eu aceito. Seguirei sua
liderança. Com uma única condição.
— Qual?
— Que nos conte seu nome.
Devin, olhando com intensidade ávida, ansioso para não perder uma palavra ou nuance
sequer, viu os olhos de Alessan se fecharem por um instante, como se tentasse conter algo
que, do contrário, seria exposto. Os outros aguardaram em meio ao curto silêncio.
Então, Alessan sacudiu a cabeça:
— É uma condição justa, meu lorde. Dadas as circunstâncias, é inteiramente justo. E posso
apenas pedir para que não me exijam isso. É uma pena, e não posso dizer o quanto me a ige,
mas não posso concordar.
Pela primeira vez, pareceu estar buscando as palavras, escolhendo-as cuidadosamente.
— Nomes têm poder, como vocês sabem. Como os dois feiticeiros tiranos de além-mar
certamente sabem — o que vim a aprender da maneira mais amarga possível. Meu senhor,
saberá meu nome no momento em que nosso triunfo vier, e somente então. Devo dizer que
essa condição se impõe diante de mim; não é uma escolha. Você pode me chamar de
Alessan, que é um nome bastante comum aqui na Palma, e que por coincidência é o nome
verdadeiro que minha mãe me deu. O senhor seria generoso o su ciente para aceitar isso ou
teremos de seguir por caminhos distintos?
Essa última questão foi feita num tom desprovido da arrogância que havia marcado a
atitude e o discurso do homem desde o momento de sua chegada.
Assim como o medo anterior de Devin virara empolgação, agora sua excitação se rendia a
um sentimento que ainda não conseguia identi car. Encarou Alessan. O homem parecia, de
algum modo, mais novo do que antes — e incapaz de esconder o quanto precisava daquele
sigilo.
Nievole limpou a garganta alto, como se buscasse expulsar uma aura ou ressonância
qualquer que tivesse entrado na sala como a luz mesclada das duas luas lá fora. Outra coruja
piou na clareira. Nievole abriu a boca para responder a Alessan.
Eles nunca puderam saber o que ele diria, ou o que Scalvaia diria.
No futuro, em noites quando o sono lhe fugia e ele observava uma ou as duas luas
varrerem o céu, ou contava as estrelas no Diadema de Eanna numa noite sem lua, Devin deixaria sua memória levá-lo de volta, tentando — por razões difíceis de explicar — imaginar
o que os dois nobres teriam feito ou dito se todas as linhas de seus destinos, brevemente
interligadas, houvessem seguido caminhos diferentes a partir daquela cabana.
Ele poderia tentar adivinhar, analisar, remontar cenários em sua mente, mas nunca saberia.
Foi uma verdade soturna que se transformou em um pesar esquisito e particular para ele em
meio a tudo o que veio depois. Um símbolo de arrependimento. Um lembrete do que era ser
mortal e poder tomar apenas uma estrada — e poder tomá-la apenas uma vez — até que
Morian chamasse sua alma e as luzes de Eanna se perdessem. Nunca podemos conhecer
verdadeiramente o caminho que não trilhamos.
Os caminhos que cada um daqueles homens na cabana seguiria, através de seus próprios
portais até destinos próximos ou distantes, foram traçados pela coruja que piara uma
segunda vez, muito claramente, assim que Nievole começou a falar. Alessan ergueu as mãos:
— Problemas! Baerd?
A porta se abriu com um estrondo. Devin viu um homem grande, com os cabelos loiros e
longos presos numa tira de couro, amarrada na testa. Outra correia de couro tangia seu
pescoço. Trajava camisa e calça similares às das terras altas do sul. Seus olhos, mesmo na
esparsa luz da lareira, eram de um azul intenso. Carregava uma espada desembainhada — o
que, estando tão perto de Astibar, era passível de pena de morte.
— Vamos! — disse o homem, com urgência. — Você e o menino. Os outros devem car
aqui. O filho mais novo e o neto podem se explicar facilmente. Livrem-se das taças extras!
— O que é isso? — perguntou Tomasso d’Astibar rápido, com olhos arregalados.
— Vinte homens a cavalo no caminho da oresta. Continuem a vigília e quem o mais
calmos que conseguirem. Não estaremos longe e voltaremos daqui a pouco! Alessan, vamos!
O tom de sua voz foi su ciente para trazer Devin até a porta. Mas Alessan hesitava; seus
olhos, por algum motivo, xos nos de Tomasso. E aquele olhar, o que foi trocado nele, se
tornou mais uma das coisas que Devin jamais esqueceu ou compreendeu.
Por um longo momento — um momento muito longo, segundo pareceu a Devin com vinte
homens chegando a cavalo e uma espada desembainhada na sala da cabana —, ninguém
falou. E então:
— Parece que teremos de continuar esta interessante discussão em outro momento —
murmurou Tomasso bar Sandre, com uma compostura verdadeiramente impressionante. —
Você aceita uma última taça antes de partir, em nome de meu pai?
Alessan sorriu largamente, mas balançou a cabeça negativamente.
— Espero ter uma chance de aceitar mais tarde — disse ele. — É com prazer que beberei a
seu pai, mas tenho um hábito que não poderei satisfazer no pouco tempo que temos agora.
A boca de Tomasso se retorceu de modo estranho.
— Eu já satisfiz diversos hábitos em outra época. Conte-me o seu.
A resposta foi quase um murmúrio, de modo que Devin teve que se esforçar para conseguir
ouvi-la.
— Minha terceira taça da noite é azul — disse Alessan. — A terceira taça que bebo é
sempre de vinho azul. Em memória de algo que perdi. Para que eu jamais esqueça, em
qualquer noite, o motivo pelo qual eu vivo.
— Espero que não esteja perdido para sempre — disse Tomasso, num tom igualmente
baixo.
— Não para sempre, eu jurei, pela minha alma e pela de meu pai, onde quer que ela esteja.
— Então haverá vinho azul da próxima vez em que bebermos — a rmou Tomasso —, se
estiver em meu alcance consegui-lo. E eu o beberei com você, pela alma de nossos pais.
— Alessan! — chamou o louro chamado Baerd. — Pelo nome de Adaon, eu disse que são
vinte homens! Você vem?
— Sim — disse Alessan. Ele lançou tanto sua taça quanto a de Devin pela janela, rumo à
escuridão. E então disse aos cinco homens da sala: — Que a Tríade guarde a todos.
Eles seguiram Baerd pelas sombras da clareira.
Com Devin no meio, correram agilmente pela lateral da cabana, distante da trilha que
levava à estrada principal. Não foram longe. Com o coração batendo furiosamente, Devin se
jogou no chão quando os outros dois zeram o mesmo. Espiando cuidadosamente pelos
arbustos, conseguia ver a cabana. A luz do fogo escapava pelas janelas abertas.
Um momento depois, o coração de Devin se agitou dentro do peito, como um navio
apanhado por uma grande onda, quando um graveto se partiu atrás dele.
— Vinte e dois homens a cavalo — disse uma voz. A pessoa que falou se lançou
suavemente ao chão, do outro lado de Baerd. — O que está no meio deles está encapuzado.
Devin olhou por cima de Baerd e, pela luz fraca das duas luas, viu Catriana d’Astibar.
— Encapuzado? — repetiu Alessan, respirando rapidamente. — Você tem certeza?
— Claro que tenho — disse Catriana. — Por quê? O que isso significa?
— Que Eanna tenha compaixão de todos nós — murmurou Alessan, sem lhe responder.
— Eu não contaria com isso agora — disse Baerd, amargurado. — Acho que devemos
deixar este lugar. Eles irão nos procurar.
Por um momento, Alessan pareceu que iria se opor à ideia, mas logo ouviram o som de
vários cavalos vindo do caminho do outro lado da cabana.
Sem que outra palavra fosse pronunciada, os quatro se ergueram, afastando-se em silêncio.
— Esta noite — murmurou Scalvaia — traz mais acontecimentos a cada momento.
Tomasso estava grato pela serenidade do elegante senhor, o que o ajudou a manter seus
nervos rmes. Olhou para seu irmão Taeri, que parecia estar bem. Herado, no entanto,
estava pálido. Tomasso piscou para o garoto:
— Tome outra taça, sobrinho. Você ca in nitamente mais bonito quando seu rosto está
com alguma cor. Não há nada a temer. Estamos aqui fazendo exatamente aquilo que temos
permissão para fazer.
Ouviram os cavalos. Herado correu até a mesa, encheu uma taça e virou-a em um gole. Assim que baixou a taça, a porta se escancarou com um estrondo, acertando a parede ao
lado. Quatro soldados barbadianos, enormes e completamente armados, zeram a sala
parecer ainda menor.
— Cavaleiros! — lançou Tomasso habilmente, balançando as mãos. — O que é isso? O que
os traz aqui, para interromperem uma vigília?
Ele tomava o cuidado de parecer petulante, e não furioso.
Os mercenários nem sequer se dignaram a olhar para ele, quanto mais responder. Dois
deles correram para revistar os quartos e um terceiro ergueu a escada e foi conferir o sótão
onde o jovem cantor estivera escondido. Tomasso notou, com apreensão, que outros
soldados se posicionavam ao lado de cada janela. Havia muito barulho lá fora, entre os
cavalos, e uma confusão de tochas.
Tomasso repentinamente bateu o pé, em frustração.
— O que signi ca isto? — bradou ele, enquanto os soldados continuavam a ignorá-lo. —
Digam-me! Irei protestar diretamente ao seu senhor. Temos a autorização expressa de
Alberico para conduzir esta vigília hoje e o enterro amanhã. Tenho a autorização por escrito,
e com seu selo!
Ele se dirigia ao capitão dos barbadianos, que permanecia junto à porta. Novamente, foi
como se não houvesse dito nada, já que foi completamente ignorado. Mais quatro soldados
entraram e se colocaram nos quatro cantos das salas com uma expressão vazia e perigosa.
— Isto é inaceitável! — ganiu Tomasso, permanecendo em seu personagem e contorcendo
as mãos. — Irei falar com Alberico imediatamente! Irei exigir que vocês sejam en ados em
navios e mandados de volta para seus buracos miseráveis em Barbadior!
— Isso não será necessário — disse uma gura corpulenta e encapuzada parada à porta. Ele
deu um passo adiante e retirou seu capuz. — Você pode me fazer sua reclamação infantil
bem aqui — disse Alberico de Barbadior, Tirano de Astibar, Tregea, Ferraut e Certando.
As mãos de Tomasso seguraram sua própria garganta, enquanto ele caía de joelhos. Os
outros também se ajoelharam imediatamente — até mesmo o velho Scalvaia se dobrou sobre
sua perna ruim. Uma névoa de medo e torpor desceu sobre Tomasso, confundindo sua fala e
seu pensamento.
— Meu senhor... — gaguejou ele. — Eu não... eu não poderia... nós não tínhamos como
saber!
Alberico permaneceu em silêncio, encarando-o friamente. Tomasso lutou para controlar
seu terror e sua surpresa.
— O senhor é bem-vindo aqui — soltou ele, erguendo-se cuidadosamente —, muito bem-
vindo, ó tão honrado senhor. O senhor nos honra com sua presença nos ritos de meu pai.
— De fato — disse Alberico, seco. Tomasso sentiu o peso do escrutínio dos olhos
semicerrados e sem piscar, perdidos nas dobras do rosto largo do feiticeiro. O crânio calvo de
Alberico refletia a luz da lareira. Ele retirou as mãos dos bolsos de sua túnica.
— Beberei vinho — exigiu, balançando a mão gorda.
— Mas é claro, é claro...
Tomasso correu para obedecê-lo, intimidado como sempre pelo porte largo de Alberico e
de seus barbadianos. Sabia que eles odiavam a ele e a toda sua linhagem, acima de tudo o
que aqueles conquistadores sentiam pelo povo da Palma Oriental, cujas terras agora
governavam. Sempre que encarava Alberico, Tomasso era esmagado pelo pensamento de
que o Tirano poderia quebrar seus ossos com as próprias mãos, e não pensaria duas vezes em
fazê-lo.
Não era um pensamento reconfortante. Apenas os dezoito anos que passara treinando seu
corpo para ignorar sua mente mantiveram sua mão rme enquanto entregava uma taça cheia
de vinho a Alberico. Os soldados observavam cada movimento seu. Nievole voltou para
perto da lareira maior; Taeri e Herado estavam juntos perto da menor. Scalvaia permanecia
parado, apoiado sobre sua bengala do lado da cadeira em que estivera sentado.
Era hora, pensou Tomasso, de parecer mais confiante e menos culpado.
— Você irá me perdoar, meu senhor, pelas minhas palavras in amadas aos seus soldados.
Sem saber que o senhor estava aqui, pude apenas deduzir que agiam em ignorância aos seus
desígnios.
— Meus desígnios mudam — disse Alberico com sua voz pesada e imutável. — É provável
que eles saibam dessas mudanças antes de você, bar Sandre.
— É claro, meu senhor. Mas é claro. Eles…
— Eu gostaria — disse Alberico de Barbadior — de ver o caixão de seu pai. Ver e rir.
Ele não mostrou qualquer sinal de estar se divertindo.
Tomasso sentiu seu sangue como gelo nas veias. Alberico passou por ele e se colocou diante
dos restos do Duque.
— Este — disse, sem expressar emoção — é o corpo de um homem vaidoso, miserável e
tolo que decidiu a hora de sua própria morte sem motivo. Sem o mínimo motivo. Isso não é
divertido?
E então ele riu — três ganidos curtos e ásperos que eram mais assustadores do que
qualquer coisa que Tomasso já ouvira até então. Como ele poderia saber?
— Vocês não irão rir comigo? Vocês Sandreni? Nievole? Meu pobre, aleijado e impotente
Lorde Scalvaia? Não é desconcertante pensar em como vocês três foram trazidos até aqui e
condenados por uma tolice senil? Por um velho que viveu tempo demais para entender que
as reviravoltas de seu próprio tempo poderiam ser facilmente esmagadas, nos dias atuais, por
um punho.
Sua mão fechada esmurrou pesadamente a tampa do caixão, estilhaçando o brasão
entalhado dos Sandreni.
Com um ruído de aflição, Scalvaia se afundou na cadeira.
— Meu senhor — engasgou-se Tomasso, gesticulando —, o que o senhor poderia querer
dizer com isso? O que o senhor...
Ele não falou mais do que isso. Avançando selvagemente, Alberico lhe deu um forte tapa no rosto. Tomasso cambaleou para trás, com sangue pingando de seu lábio rasgado.
— Você usará sua voz natural, lho de um tolo — disse o feiticeiro; suas palavras ainda
mais aterrorizantes por estarem no mesmo tom de antes. — Você se sentirá melhor sabendo
o quão fácil foi? Descobrindo há quanto tempo Herado bar Gianno vem sendo meu
informante?
E com tais palavras, a noite caiu.
O manto negro de angústia e puro terror contra o qual Tomasso lutava en m o cobriu. Ó,
meu pai, pensou, ferido até a alma por saber que sua própria família os condenara. Sua
família. Família!
Várias coisas aconteceram a seguir, num espaço muito curto de tempo.
— Meu senhor! — gritou Herado, num alto tom de desgosto. — O senhor prometeu! O
senhor disse que eles não saberiam! O senhor me disse...
Foi tudo o que ele disse. É difícil reclamar com uma adaga enfiada na garganta.
— Os Sandreni lidam com a sujeira embaixo das próprias unhas — disse seu tio Taeri, que
puxara a adaga da parte de trás de sua bota. Ainda enquanto falava, Taeri liberou sua adaga
da garganta de Herado e suavemente, como parte de um mesmo e contínuo movimento,
cravou-a no próprio coração. — Um Sandreni a menos para suas execuções, barbadiano! —
disse ele, engasgado. — Que a Tríade mande uma praga para comer a carne de seus ossos.
Ele caiu de joelhos. Suas mãos seguravam a bainha da adaga, cheias de sangue escorrendo
delas. Seus olhos buscaram os de Tomasso:
— Adeus, irmão — sussurrou ele. — Que Morian permita às nossas sombras se
reconhecerem em seus Salões.
Nesse momento, algo agarrou o coração de Tomasso, apertando e apertando, enquanto ele
assistia à morte de seu irmão. Dois dos guardas, treinados para protegerem seu senhor de
um tipo muito diferente de golpe, avançaram e viraram o corpo de Taeri para cima com a
ponta de seus pés.
— Imbecis! — bradou Alberico, visivelmente aborrecido pela primeira vez. — Eu precisava
dele vivo! Eu queria os dois vivos!
Os soldados empalideceram diante da fúria expressa em seu rosto. E então o foco da sala
mudou completamente de lugar.
Com um rugido animal que misturava fúria e dor, Nievole d’Astibar, um homem muito
grande, uniu as duas mãos como um martelo e desferiu um golpe certeiro contra o rosto do
soldado mais perto dele, esmagando seus ossos como se fossem madeira. Sangue espirrou
enquanto o homem gritava e se chocava pesadamente contra o caixão.
Ainda rugindo, Nievole agarrou a espada de sua vítima.
Já a tinha em mãos e estava pronto para lutar, quando quatro flechas acertaram-no no peito
e no pescoço. Por um instante, seu rosto cou inerte; então seus olhos arregalaram-se e sua
boca relaxou num sorriso macabro de triunfo, enquanto deslizava até o chão.
E então, somente então, com todos os olhares repousando sobre o corpo de Nievole, Lorde Scalvaia fez a única coisa que ninguém ousara até então. En ado em sua cadeira, tão imóvel
que quase haviam se esquecido dele, o velho aristocrata ergueu sua bengala com mão rme,
apontou-a direto para o rosto de Alberico e pressionou o botão secreto no punho.
De fato, feiticeiros não podem ser envenenados. Trata-se de uma arte de proteção menor
que a maioria deles aprende ainda na juventude. Por outro lado, eles certamente podem ser
mortos por echa, lâmina ou qualquer instrumento que cause uma morte violenta — razão
pela qual essas coisas eram proibidas dentro de um limite decretado por Alberico.
Há também uma verdade bem conhecida sobre os homens e seus deuses, seja da Tríade —
na Palma — ou do variado panteão adorado em Barbadior, a deusa-mãe, o deus que morre e
ressuscita, o senhor dos arcos das estrelas; ou o único e magní co Poder acima de todos esses
em algum suposto mundo primordial distante e flutuante no espaço.
A simples verdade é que os mortais não conseguem entender por que os deuses fazem as
coisas acontecerem do jeito que acontecem. Por que alguns homens e mulheres são colhidos
na or da idade, enquanto outros vivem o su ciente para se tornarem meras sombras de si
mesmos. Por que a virtude deve, por vezes, ser esmagada e o mal oresce em meio à beleza
de um jardim. Por que o acaso, puro e aleatório acaso, exerce um papel tão devastador na
vida dos homens e em seus destinos.
Foi o acaso que salvou Alberico de Barbadior naquele momento, quando metade de seu
nome já havia sido pronunciado pela morte. Seus homens se concentravam nos homens
mortos e na gura tensa e ensanguentada de Tomasso. Ninguém se preocupou em olhar
para o lorde aleijado em sua cadeira.
Foi apenas o fato — impiedosamente aleatório — de o capitão da guarda daquela noite ter
entrado na cabana, justamente ao lado de Scalvaia, que mudou o curso da história da
Península da Palma e além. Por coisas tão dolorosamente pequenas, vidas inteiras são
medidas e desfiguradas.
Alberico, virando-se tomado de ódio para esbravejar uma ordem a seu capitão, viu a
bengala erguendo-se e o dedo de Scalvaia mexer-se sobre o cabo. Se estivesse olhando para a
frente ou virado para o outro lado, teria morrido por obra de um projétil a ado atravessando
seu cérebro.
Mas ele se virara na direção de Scalvaia, e só havia um mago mais poderoso que ele na
Palma. Ainda assim, o que fez — a única coisa que poderia fazer — exigiu-lhe todo o poder
de que dispunha, e um pouco mais do que poderia comandar. Não havia tempo para o
feitiço verbal, o gesto de foco. O projétil que seria seu fim já havia sido disparado.
Alberico deixou de controlar seu corpo por um instante.
Observando com terror, sem acreditar, Tomasso viu o projétil letal atravessar uma mistura
borrada de gosma e ar, exatamente onde a cabeça de Alberico estava, atingindo,
inofensivamente, a parede acima da janela.
E naquela mesma centelha de tempo, sabendo que um instante mais tarde seria tarde
demais — que seu corpo poderia se perder para sempre, a alma nem viva nem morta, deixada para lamentar eternamente no hiato existente apenas para aqueles que ousam
utilizar tal magia —, Alberico invocou a forma de seu corpo de volta para si.
Foi por muito pouco.
Ele cou com a pálpebra direita caída depois daquele dia, e sua força física jamais foi a
mesma. A partir de então, quando estava muito cansado, seu pé direito tendia a se entortar,
como se recriando o estranho momento daquela magia. E ele mancaria, assim como Scalvaia.
Pelos olhos que lutava para manter abertos, Alberico de Barbadior viu a cabeça grisalha de
Scalvaia voar pela sala e cair, com um som macabro, no piso da cabana — decapitado pela
tardia espada do capitão da guarda. A bengala mortal, talhada em pedras e metais que o
Tirano não reconheceu, se chocou ruidosamente contra o chão. O ar parecia grosso e viscoso
ao feiticeiro, anormalmente denso. Notou um ruído estranho, um fraquejo em sua
respiração, e um tremor espasmódico nos joelhos.
Passou-se um momento, marcado pelo rígido e paralisante silêncio de todos na sala, até que
tivesse confiança para tentar falar novamente.
— Seu monte de esterco — disse ele com voz rouca ao pálido capitão. — Você é menos do
que esterco. Você é um monte de lodo. Você vai se matar. Agora!
Ele falava como se houvesse terra en ada em sua boca, caindo dos seus lábios. Com
esforço, engoliu sua saliva.
Sobrecarregou-se herculeamente para conseguir manter os olhos funcionando e assistiu seu
capitão ajoelhar-se sem jeito e, virando sua espada, acertar a própria jugular com um golpe
rápido e irregular. Alberico sentiu uma onda de fúria jorrando e ardendo em sua mente.
Lutou para conseguir controlar um tremor em sua mão esquerda. E não conseguiu.
Havia homens mortos demais naquela sala, e ele quase fora um deles. Não se sentia como
se estivesse completamente vivo — seu corpo parecia ter-se reestruturado de um modo
diferente do que era antes. Passou os dedos fracos pela pálpebra trêmula. Sentiu-se
nauseado. O ar estava difícil de respirar. Precisava sair, ir para longe da cabana
repentinamente sufocante de seus inimigos.
Nada acontecera como esperava. Apenas um elemento permanecia do seu plano original,
uma coisa que ainda poderia lhe oferecer algum prazer, que poderia compensar em parte o
que havia dado tão desesperadamente errado.
Virou-se lentamente para olhar o filho de Sandre. O amante de rapazes. Sua boca se esticou
num sorriso, sem saber o quão hediondo parecia.
— Tragam-no — disse secamente aos soldados. — Amarrem-no e tragam-no. Há coisas que
podemos fazer com esse aqui antes que ele tenha permissão para morrer. Coisas apropriadas
ao que ele era.
Sua visão ainda não funcionava perfeitamente, mas viu um de seus mercenários sorrir.
Tomasso bar Sandre fechou os olhos. O sangue tomava seu rosto e suas roupas. E haveria
mais, antes de tudo estar terminado.
Alberico colocou seu capuz e mancou para fora da sala.
Atrás dele, os soldados carregavam o corpo do capitão morto e auxiliavam o homem cujo
rosto havia sido partido por Nievole.
Tiveram que ajudar o Tirano a montar em seu cavalo, o que ele julgou humilhante, embora
tenha começado a se sentir melhor durante a cavalgada de volta a Astibar. Mas encontrava-
se completamente desprovido de magia. Mesmo naquele corpo fraco e alterado, conseguia
sentir o buraco onde seu poder deveria estar. Seriam necessárias pelo menos duas semanas,
ou talvez mais, até que ele o tivesse de volta plenamente. Se o tivesse de volta plenamente. O
que zera naquele rápido instante na cabana havia lhe sugado mais energia do que qualquer
ato mágico já o fizera em sua vida.
Mas estava vivo, e acabara de esfacelar as três famílias mais perigosas que restavam na
Palma Oriental. Mais do que isso: tinha o lho do meio dos Sandreni, como uma evidência,
uma prova pública de conspiração para o futuro. O pervertido que se dizia saborear a dor.
No esconderijo de seu capuz, Alberico se permitiu um leve sorriso.
Tudo seria feito de acordo com a lei e publicamente, como era seu hábito desde o dia em
que tomara o poder na região. Nenhum tumulto nasceria em resposta a um exercício
arbitrário de poder. Eles poderiam odiá-lo, é claro que iriam odiá-lo, mas nenhum cidadão
de suas quatro províncias poderia duvidar da justiça ou negar a legitimidade de sua resposta
à conspiração dos Sandreni.
Ou deixar de perceber o quão abrangente aquela resposta seria.
Com a precaução e a prudência que eram a verdadeira fonte de sua personalidade,
Alberico de Barbadior começou a pensar em suas ações nas próximas horas e dias. Os deuses
maiores do Império sabiam que aquela distante península era um local de perigo constante e
precisava de um governo severo. Mas os deuses, que não eram cegos, conseguiam ver que ele
sabia como lhes dar o necessário. E era cada vez mais possível que os conselheiros do
Imperador, que não eram mais cegos do que os deuses, vissem as mesmas coisas.
E o Imperador estava velho.
Alberico parou de pensar nesses aspectos tão familiares e sedutores. Forçou-se a focar
novamente nos detalhes; detalhes eram tudo em assuntos como aqueles. Enquanto
cavalgava, os passos impecáveis de seu plano encaixaram-se como pérolas num o de djarra.
Com frieza e precisão, decidiu as ordens que daria. Os únicos comandos que lhe causavam
alguma emoção eram aqueles relacionados a Tomasso bar Sandre. Esses, ao menos, não
precisariam — não seriam — tornados públicos. Apenas a con ssão e seus detalhes
precisavam sair dos muros de seu palácio. O que quer que ocorresse em certas masmorras
poderia ser extremamente sigiloso. Surpreendeu-se um pouco pela empolgação que sentia.
Em certo momento, lembrou-se de que queria queimar a cabana ao sair. Suavemente,
ajustou seus planos. Que os Sandreni menores e seus servos encontrassem os mortos ao
amanhecer. Que eles imaginassem e sentissem medo. A dúvida duraria apenas um instante.
E então ele faria com que tudo ficasse extremamente claro.