Tigana: A Lâmina na Alma
Capítulo V
– Ó, Morian — sussurrou Alessan, com arrependimento na voz —, eu poderia mandá-lo
para seu julgamento agora mesmo. Uma criança poderia ter-lhe acertado uma echa
no olho, daqui.
Não esta criança aqui, pensou Devin, pesaroso, encarando a distância e a luz, de onde
estavam escondidos, entre as árvores ao norte da estrada que os barbadianos haviam
acabado de tomar. Olhava para Alessan com ainda mais respeito do que antes, encarando a
besta que ele pegara de uma caixa enquanto corriam para aquele local.
— Ela o reclamará para si quando estiver pronta — disse Baerd, prosaicamente. — E foi
você que passou a vida dizendo que não adiantaria nada se um dos dois morresse cedo
demais.
Alessan grunhiu.
— Eu atirei, por acaso? — Alessan questionou, mordaz.
Os dentes de Baerd brilharam sob a luz da lua:
— Eu o teria impedido, de qualquer modo.
Alessan praguejou sucintamente. Um momento mais tarde, relaxou em um silêncio
divertido. Os dois homens tratavam-se como se se conhecessem de longa data.
Devin reparou que Catriana não sorria. Certamente, não para ele. Por outro lado, lembrou-
se de que era ele quem deveria estar bravo, embora as atuais circunstâncias di cultassem um
pouco as coisas. Sentia-se ao mesmo tempo ansioso, orgulhoso e empolgado.
Ele também fora o único dos quatro que não havia percebido Tomasso, amarrado em seu
cavalo pelos pulsos e tornozelos.
— É melhor nós veri carmos a cabana — disse Baerd, quando o humor passageiro se
dissipou. — Depois, acho que teremos de viajar muito rápido. O lho de Sandre vai entregar
você e o garoto.
— É melhor falarmos sobre o garoto primeiro — apontou Catriana, num tom que permitia
a Devin retomar sua raiva.
— O garoto? — repetiu ele, erguendo as sobrancelhas. — Acho que você sabe muito bem
que não sou só um garoto.
Ele deixou seu olhar repousar sobre o dela, sentindo-se recompensado em vê-la corar e
virar o rosto.
A recompensa durou pouco.
— Indecoroso da sua parte, Devin — disse Alessan. — Espero nunca mais ouvir esse tipo de
comentário vindo de você. Catriana foi contra tudo o que conheço dela ao fazer o que fez
nesta manhã. Se você é inteligente o su ciente para ter vindo até aqui, acho que também é
inteligente o su ciente para entender por que ela o fez. Você poderia ignorar um pouco o
seu orgulho para pensar em como ela está se sentindo.
O tom era suave, mas Devin sentiu como se levasse um soco no estômago. Engolindo em
seco, olhou de Alessan para Catriana, mas o olhar dela estava xo nas estrelas, longe e acima
de todos. Finalmente, envergonhado, ele voltou a encarar o chão enegrecido de terra da
floresta. Ele se sentiu como se tivesse 14 anos novamente.
— Eu não gostei desse comentário, Alessan — ele a ouviu dizer, friamente. — Eu sei me
defender muito bem. Você sabe disso.
— Isso sem mencionar — completou Baerd, com naturalidade — o quão absurdamente
inapropriado é você castigar alguém por ter orgulho demais.
Alessan preferiu ignorar esse comentário. Para Catriana, ele disse:
— Pela estrela de Eanna, você acha que não sei como você consegue lutar? Isso é diferente.
Não posso permitir que o que aconteceu hoje pela manhã ganhe força. Isso não pode se
tornar um ponto de atrito entre vocês dois se Devin irá se tornar um de nós.
— Se ele o quê? — Catriana voltou-se para ele. — Você está maluco? É pela música? Pelo
fato de que ele sabe cantar? Por que alguém de Asoli seria…
— Calma! — interrompeu Alessan. Catriana ficou em silêncio de repente.
Sem ter ideia de para onde olhar ou o que sentir, Devin continuou ngindo um enorme
interesse pelo solo da floresta sob seus pés. Sua mente e seu coração rodopiavam, confusos.
Ao continuar falando, a voz de Alessan soou mais gentil:
— Catriana, o que aconteceu esta manhã também não foi culpa dele. Você não deve culpá-
lo. Você fez o que achou que deveria fazer, e não funcionou. Ele não pode ser culpado ou
castigado por segui-la de forma inocente, como fez. Se quiser, culpe a mim por não pará-lo
quando o vi cruzar aquela porta. É o que eu deveria ter feito.
— E por que não o fez? — perguntou Baerd.
Devin se lembrou da maneira que Alessan o olhava quando parou no arco, antes de cruzar
a porta que lhe parecia um portão para uma terra de sonhos.
— Sim, por quê? — perguntou o rapaz, olhando para cima. — Por que me deixou
continuar?
O luar estava completamente azul agora. Vidomni encontrava-se a oeste, atrás da ponta das
árvores. Apenas Ilarion estava alta entre as estrelas, tornando a noite estranha com seu
brilho. Luz-fantasma, era como as pessoas do interior se referiam à luz da lua azul sozinha
no céu.
A luz estava atrás de Alessan, fazendo com que seus olhos não pudessem ser vistos. Por um
instante, os únicos sons foram os ruídos noturnos da oresta: o farfalhar de folhas com a
brisa, a grama, o estalar da madeira no chão, as batidas rápidas de asas vindas de um galho
próximo. Em algum lugar ao norte dele, um pequeno animal grunhiu e outro respondeu.
Alessan disse:
— Porque eu conhecia a canção que seu pai lhe ensinou quando criança, e eu sei quem ele
é, e que não é de Asoli. Catriana, minha querida, não é apenas pela música, ainda que você
pense que essa é minha fraqueza. Ele é um de nós, minha querida. Baerd, você pode testá-lo?
No nível mais consciente e racional de sua mente, Devin não entendeu quase nada. Ainda
assim, começou a sentir um frio crescente enquanto Alessan falava. Foi arrebatado pela
sensação, como se uma ave de rapina descesse sobre ele, de que se encontrava exatamente
aonde os portais de Morian o haviam conduzido, ali, nas sombras daquela oresta sob a lua
azul.
As coisas não caram mais simples quando ele se voltou para Baerd e viu o olhar espantado
em seu rosto. Mesmo sob a luz distorcida daquele luar, conseguia ver quão pálido Baerd
estava.
— Alessan... — começou Baerd, rouco.
— Você me é mais querido do que qualquer pessoa viva — disse Alessan. — Você tem sido
mais do que um irmão para mim. Eu não o machucaria por nada neste mundo.
Especialmente não com isso. Eu não lhe pediria se não tivesse certeza. Teste-o, Baerd.
Baerd ainda hesitou, o que fez a ansiedade de Devin crescer. Ele compreendia cada vez
menos o que estava acontecendo. Apenas parecia que aquilo importava demais para os
outros.
Por um longo momento, ninguém se moveu. Finalmente, Baerd caminhou
cuidadosamente, como se estivesse se controlando demais, tomou Devin pelo braço e o levou
mais alguns passos para dentro da oresta, até uma pequena clareira entre um círculo de
árvores.
Elegantemente, abaixou-se e sentou no chão com as pernas cruzadas. Após hesitar um
instante, Devin fez o mesmo.
Não havia o que fazer, a não ser seguir as indicações que recebia. Não tinha ideia de para
onde iriam a partir dali. Não no caminho que estou trilhando, ele se lembrou das palavras de
Catriana no palácio, naquela manhã. Ele juntou suas mãos para mantê-las rmes e sentiu
um frio que não tinha relação alguma com o vento da noite.
Pôde ouvir Alessan e Catriana seguindo-os, mas não olhou para trás. Por enquanto, o que
realmente importava era aquela coisa gigantesca — o que quer que fosse — que se formava
nos olhos de Baerd. O homem loiro parecera competente e à vontade até então; e agora, de
modo absurdo, parecia terrivelmente frágil. Alguém que poderia ser despedaçado com
facilidade. Abruptamente, e pela segunda vez naquele longo dia, Devin sentiu como se
atravessasse uma terra de sonhos, deixando para trás a simplicidade do mundo diurno.
Naquela atmosfera, sob a luz azul de Ilarion, ouviu Baerd começar a lenda, atingindo-o
como um feitiço, como algo tecido com palavras que se perderam nos espaços de sua infância
— o que, na verdade, era exatamente o caso.
— No ano em que Alberico tomou Astibar — disse Baerd —, enquanto as províncias de
Tregea e Certando se preparavam para enfrentá-lo individualmente, e antes de Ferraut ter
caído, Brandin, Rei de Ygrath, veio de sua península a oeste. Navegou com sua frota até o
Grande Porto de Chiara e tomou a ilha facilmente, já que o Grande Duque se matou ao ver a quantidade de navios que vinham de Ygrath. Até aqui, imagino que você saiba.
A voz dele soava baixo. Devin tinha se reclinado, esforçando-se para ouvir. Uma trialla
cantava doce e tristemente em um galho atrás dele. Alessan e Catriana não faziam som
algum. Baerd continuou.
— Naquele ano, a Península da Palma se tornou o campo de batalha de uma enorme
disputa entre Ygrath e o Império de Barbadior. Nenhum deles achava que pudesse dar ao
outro liberdade de ação aqui, a meio caminho de seus territórios, uma das razões pelas quais
Brandin veio. A outra razão, conforme descobriríamos mais tarde, estava ligada ao seu lho
mais novo e mais amado, Stevan. Brandin de Ygrath buscava construir um segundo reino no
qual seu filho pudesse reinar. O que ele encontrou, no entanto, foi algo diferente.
A trialla ainda cantava. Baerd fez uma pausa para ouvi-la, como se encontrasse na voz
fluida, ainda mais gentil que a do rouxinol, um eco de algo dentro de si.
— Os chiareanos, tentando estabelecer uma resistência nas montanhas, foram massacrados
nas encostas de Sangarios. Brandin tomou a província de Asoli pouco depois, e boatos sobre
seu poder se espalharam. Sua magia era muito forte, ainda mais do que a de Alberico, e,
embora tivesse menos homens do que os barbadianos a leste, os seus eram totalmente leais e
mais bem treinados. Enquanto Alberico era apenas um senhor menor do Império, rico e
ambicioso, que usava mercenários, Brandin governava Ygrath e seus homens eram os
melhores daquele reino. Eles avançaram para o sul por Corte quase sem esforço, derrotando
os exércitos de cada província, um a um, pois nenhum de nós agiu em conjunto naquele
ano. Nem depois, é claro.
A voz de Baerd não estava distante o bastante para alcançar a ironia que pretendia.
— De Corte, o próprio Brandin se voltou para leste com a menor parte de seu exército,
esperando encontrar Alberico em Ferraut e derrotá-lo ali mesmo. Enviou Stevan para o sul,
para tomar a última província livre da parte ocidental, e depois encontrá-lo em Ferraut, na
batalha contra os barbadianos, que, ele acreditava, iria moldar o destino da Palma. Foi um
erro, embora ele não pudesse saber disso na época, dezoito anos atrás. Era um recém-
chegado, não conhecia as diferentes características das províncias desta península. Imagino
que ele quisesse que Stevan sentisse um pouco do gosto de comandar uma tropa. Deu ao
lho a maior parte do exército e seus melhores comandantes, con ando em sua própria
magia para conter Alberico até que os outros se unissem a ele.
Baerd parou por um instante, seus olhos azuis voltados para dentro de si. Quando voltou a
falar, havia um novo timbre em sua voz. Pareceu a Devin que carregava muitas coisas velhas
e tristes.
— Na margem do Rio Deisa — disse Baerd —, pouco além da metade do caminho entre
Certando e o mar da Corte, Stevan encontrou a mais dura resistência que qualquer um dos
exércitos invasores encontraria na Palma. Conduzidos por seu Príncipe, pois, em seu
orgulho, chamavam assim seu governante, o povo daquela última província a oeste
encontrou os ygratheanos e os enfrentou, empurrando-os de volta ao rio, com perdas numerosas nos dois lados. E o Príncipe Valentin, daquela província... a que você conhece
hoje como Baixa Corte, matou Stevan de Ygrath, o lho amado de Brandin, na margem do
rio ao amanhecer, após um amargo dia de mortes.
Devin podia praticamente sentir o gosto a ado de um velho lamento naquelas palavras. Ele
viu Baerd olhar pela primeira vez para onde Alessan estava. Não falaram nada. Devin não
tirou os olhos de Baerd. Concentrava-se como se sua vida dependesse disso, tratando cada
palavra como uma valiosa peça de um mosaico a ser guardado na memória da qual se
orgulhava tanto.
E foi então que lhe pareceu que um sino distante começou a soar, longe, em algum canto
de sua mente. Um aviso. Como os sinos de perigo do templo de Adaon, que invocavam os
lavradores de volta urgentemente de seus campos. Um sino remoto, fraco embora claro,
vindo além dos campos de grãos amarelos.
— Por meio de sua magia, Brandin soube imediatamente o que havia acontecido — disse
Baerd, com voz rascante. — Ele recuou de volta para o sul e para o oeste, deixando Ferraut e
Certando livres para Alberico. Voltou com todo o peso de sua magia e seu exército, com a
fúria de um pai cujo lho fora morto, e encontrou o que sobrou de seus oponentes onde eles
o aguardavam, junto ao Deisa.
Mais uma vez, Baerd olhou para Alessan. Sua face estava pálida sob a luz da lua. Ele disse:
— Brandin os aniquilou. Ele os esmagou em pedaços, sem misericórdia nem intervalo.
Empurrou-os de volta às suas terras, ao sul do Deisa, e queimou cada plantação e vila pela
qual passou. Não houve prisioneiros. Matou as mulheres e as crianças naquele primeiro
ataque — algo que não havia feito em nenhum outro lugar. Mas em nenhum outro lugar sua
própria cria tinha morrido. Muitas almas foram enviadas para Morian por conta da alma de
Stevan de Ygrath. Seu pai tomou aquela província sob sangue e fogo. Antes que o verão
terminasse, ele havia derrubado todas as gloriosas torres da cidade que é agora conhecida
como Stevanien, no sopé das montanhas. Na cidade real, costeira, transformou suas
muralhas e portos em ruínas e areia. E na batalha à beira do rio, capturou o Príncipe que
matara seu filho, para depois vê-lo torturado, mutilado e morto em Chiara.
A voz de Baerd parecia agora um sussurro seco sob a luz das estrelas e da lua solitária. E
ainda havia aquela sensação de tristezas ainda por vir, cada vez mais forte na mente de
Devin. Baerd prosseguiu:
— Brandin de Ygrath fez mais uma coisa, além de tudo isso. Ele reuniu sua magia, o poder
mágico que tinha, e lançou sobre aquela terra um feitiço que nunca antes fora sequer
concebido. E, com aquela magia, ele... fez com que seu nome desaparecesse. Ele apagou
aquele nome de nitivamente das mentes de cada homem e mulher que não tivessem
nascido naquela província. Foi sua maldição mais profunda, sua última e maior vingança.
Fez parecer que nunca existimos. Nossos feitos, nossa história, nosso próprio nome... E então
nos deu o nome de Baixa Corte, por causa dos nossos piores inimigos dentre as províncias.
Atrás de si, Devin ouviu algo e notou que Catriana chorava. Baerd prosseguiu:
— Brandin fez com que ninguém vivo pudesse ouvir e se lembrar do nome daquela terra,
de sua cidade real à beira-mar ou mesmo das altas torres douradas que adornavam as velhas
estradas nas montanhas. Ele nos destruiu e nos aniquilou. Ele matou uma geração inteira e
então nos privou de nosso nome.
Aquelas últimas palavras não foram sussurradas ou gritadas, na escuridão outonal de
Astibar. Elas foram ditas como uma denúncia, um veredito, para as árvores, a noite e as
estrelas — as estrelas, que observaram todos aqueles acontecimentos.
A mágoa daquela acusação acertou Devin como um soco, mais forte do que Baerd poderia
imaginar, do que qualquer um poderia imaginar. Ninguém, desde a morte de Marra, sabia o
quanto a memória era importante para Devin d’Asoli: a maneira como se tornara a pedra
angular em sua alma.
A memória era seu amuleto e sua proteção, seu portal e sua lareira. Era orgulho e amor,
protegendo-o da perda: pois se algo pudesse ser lembrado, então não estava completamente
perdido. Não estaria morto, tendo partido para sempre. Marra vivia; seu pai duro e austero
lhe cantava uma canção de ninar. E por causa disso, porque esse era o fundamento do que
Devin era, a velha vingança de Brandin de Ygrath o atingiu naquela noite como se houvesse
sido lançada recentemente, pulsando pelo vulnerável centro da maneira como via e lidava
com o mundo, e isso o feriu de um modo novo e mortal.
Com esforço, obrigou-se a car rme, buscando a concentração que lhe permitiria se
lembrar daquilo. De tudo aquilo — o que parecia mais importante do que nunca.
Especialmente agora, com o eco das últimas e terríveis palavras de Baerd esvaindo-se pela
noite. Devin olhou para o homem loiro com tas de couro sobre as sobrancelhas e o pescoço,
e esperou. Ele fora um garoto esperto; era um homem astuto. Entendeu o que estava por vir.
Tudo se encaixava.
Muito mais velho do que uma hora antes, Devin ouviu Alessan murmurar atrás dele:
— A canção de ninar que o ouvi tocar era daquela última província, Devin. Uma canção da
cidade das torres. Ninguém que não fosse daquele lugar poderia ter aprendido essa canção
da maneira como você me disse que aprendeu. E é assim que sei que você é um de nós. Foi
por isso que não o impedi quando o vi seguindo Catriana. Eu deixei que Morian decidisse o
que aconteceria do outro lado daquela porta.
Devin acenou com a cabeça, absorvendo aquilo. Um instante depois, disse da forma mais
cuidadosa que conseguiu:
— Se isso é verdade, se eu os entendi corretamente, então eu devo ser uma das únicas
pessoas que ainda pode ouvir e se lembrar do nome que foi... banido.
— Exatamente — disse Alessan.
Devin descobriu que suas mãos tremiam. Olhou para elas, concentrando-se, mas não
conseguia fazê-las parar.
Então disse:
— Portanto isso é algo que me foi roubado por toda a minha vida. E vocês irão… me trazer de volta? Vocês me contarão o nome da terra em que eu nasci?
Ele olhava para Baerd pela luz das estrelas, já que Ilarion também havia partido,
desaparecendo a oeste por trás das árvores. Alessan disse que cabia a Baerd contar. Devin
não sabia por quê. Na escuridão, ouviram a trialla mais uma vez, uma nota longa e baixa. E
então Baerd falou, e pela primeira vez em seus dias Devin ouviu alguém dizer:
— Tigana.
Dentro dele, o aviso que ouvia até então, como se fosse um sonho de algum campo de
verão, silenciou. E naquela calmaria abrupta e profunda, um sentimento de perda o tomou
como as ondas de um oceano. E depois veio outra onda, e então uma terceira — uma
trazendo amor e a outra um orgulho do fundo do coração. Sentiu uma tontura estranha,
uma leveza, como se uma convocação corresse dentro de suas veias.
Então viu como Baerd o encarava. Viu seu rosto rígido e pálido, o medo visível mesmo sob
a luz das estrelas, e outra coisa ainda: uma sede amarga; uma fome dolorosa vinda da alma.
Devin compreendeu e deu ao outro homem o alívio de que precisava.
— Obrigado — disse Devin. Não estava mais tremendo. Com um nó na garganta,
continuou, pois agora era a sua vez, o seu teste: — Tigana. Tigana. Eu nasci na província de
Tigana. Meu nome… meu verdadeiro nome é Devin di Tigana bar Garin.
Enquanto falava, algo semelhante à glória resplandecia no rosto de Baerd. O homem de
cabelos claros fechou os olhos com força, como se tentasse conter essa glória dentro de si,
impedindo-a de escapar para a escuridão, retendo-a rmemente à sua vontade. Devin ouviu
Alessan inspirar de maneira oscilante e então, surpreso, sentiu Catriana tocar seu ombro e
depois retirar a mão.
Baerd estava perdido em um local além da fala. Foi Alessan quem disse:
— Esse é um dos dois nomes que nos foram tirados, e certamente é o mais profundo deles.
Tigana foi nossa província e o nome da cidade real à beira mar. A mais bela cidade sob as
luzes de Eanna que poderia ser nomeada. Ou talvez... talvez a segunda mais bela.
Em sua voz, havia o vestígio de algo que poderia se tornar uma risada. Risada e amor,
juntos. Pela primeira vez, Devin se virou para olhá-lo.
Alessan disse:
— Se você tivesse falado com alguém do interior sulista, da cidade em que o Rio Sperion
nasce, descendo pela montanha a oeste até encontrar o mar, ouviria a história de outro jeito.
Porque sempre fomos orgulhosos, e sempre houve rivalidade entre as duas cidades.
No fim, por mais que tentasse, sua voz só conseguia passar a sensação de perda.
— Você nasceu nessa cidade interiorana, Devin, e eu também. Somos lhos daquele alto
vale e do rio prateado que corre por aquela montanha. Nascemos em Avalle. Em Avalle das
Torres.
Novamente surgiu uma música na mente de Devin ao ouvir aquele nome, mas diferente do
sino que soara antes. Agora, era uma música que o levou para bem longe, até seu pai e sua
infância.
— Você sabe a letra, não é? — perguntou.
— Claro que sim — respondeu Alessan, gentilmente.
— Pode cantá-la, por favor? — pediu Devin.
Mas foi Catriana quem lhe respondeu, na voz que poderia ter vindo de uma jovem mãe
ninando seu filho, numa noite muito distante:
Manhã de primavera em Avalle
E deixarei o sacerdote sozinho falar
Rio abaixo vou me aventurar
Numa manhã de primavera em Avalle.
Quando eu crescer, pode esperar
Farei um barco pra viajar
E o rio à baía de Tigana irá me levar
E para o mar além de Avalle.
Mas onde estiver e pr’aonde olhar,
Em águas calmas ou em alto mar,
Meu coração irá sempre voltar
Para o sonho das torres de Avalle.
O sonho em meu lar em Avalle.
As palavras doces e tristes da canção que sempre conhecera atingiram Devin e trouxeram
algo mais. Uma sensação de perda tão grande que quase afogou a luz que havia se formado
pela canção de Catriana. Nada de ondas ou algo correndo pelo sangue: apenas as águas da
espera. Uma espera por algo que lhe fora tirado antes mesmo de saber que possuía, tirado
tão completamente que poderia ter passado toda a sua vida sem sequer saber que perdera.
E chorou enquanto Catriana cantava. Garotos pequenos e mirrados para sua idade
aprendiam muito cedo no norte de Asoli o quão arriscado era ser visto chorando. Mas Devin
havia sido tomado, naquela noite e naquela floresta, por algo grandioso demais.
Se ele havia entendido corretamente as palavras de Alessan, aquela canção era uma das que
sua mãe cantara para ele.
Sua mãe, cuja vida havia sido tirada por Brandin de Ygrath. Ele abaixou a cabeça, não para
esconder suas lágrimas, e ouviu enquanto Catriana terminava aquela canção de ninar, tão
doce e tão amarga: uma canção sobre uma criança desa ando ordens e autoridades, mesmo
sendo muito jovem, que con ava em si o su ciente para construir um barco sozinha, e
corajosa o bastante para querer navegar pela vastidão do mundo, sem jamais voltar. E sem se
esquecer do lugar onde tudo começara.
Uma criança muito parecida com o próprio Devin.
E essa era uma das razões pelas quais chorou. Pois quiseram que ele perdesse e se esquecesse dessas torres, roubaram-lhe qualquer sonho que pudesse ter de Avalle. Ou de
Tigana e sua baía.
Assim, suas lágrimas se seguiram uma a uma, na escuridão, enquanto lamentava por sua
mãe e seu lar. E nas sombras daquela oresta perto de Astibar, aquelas duas mágoas foram
fundidas na forja de seu coração com a importância da memória para ele e a perda da
lembrança: e daquela incandescência, algo tomou forma dentro de Devin; algo que mudaria
o curso de sua vida daquela noite em diante.
Secou os olhos na manga e olhou para cima. Ninguém disse nada. Ele viu que Baerd o
observava. Propositalmente, Devin ergueu sua mão esquerda: o lado do coração. Muito
cuidadosamente, ele dobrou o terceiro e o quarto dedos, de modo que sua mão tomasse a
forma da Península da Palma.
A posição em que se fazia um juramento.
Baerd ergueu a mão direita e fez o mesmo gesto. Eles deixaram que as pontas dos dedos se
tocassem, a pequena palma de Devin contra a mão larga e calejada do outro homem.
— Se vocês me aceitarem, estou com vocês. Em nome de minha mãe, que morreu naquela
guerra, juro jamais quebrar sua confiança.
— Nem eu, a sua — disse Baerd. — Em nome da Tigana perdida.
Houve um farfalhar quando Alessan se sentou no chão, ao lado deles.
— Devin, eu preciso avisar — falou ele, em tom solene — que essa não é uma causa em que
você deva se envolver sem pensar. Você pode nos ajudar sem ter que mudar completamente
sua vida vindo conosco.
— Ele não tem escolha — murmurou Catriana, movendo-se para o outro lado. — Tomasso
bar Sandre dará seus nomes para os torturadores hoje ou amanhã. Temo que a carreira de
Devin d’Asoli termine justo quando começou de verdade.
Ela encarava os três homens; seus olhos, indecifráveis na escuridão.
— Já acabou — disse Devin, tranquilamente. — Acabou quando conheci meu verdadeiro
nome.
A expressão de Catriana não mudou. Ele não tinha ideia do que ela estava pensando.
— Muito bem — disse Alessan. Ele ergueu a própria mão, com dois dedos dobrados. Devin
tocou-a com a mão direita. Alessan hesitou.
— Um juramento em nome de sua mãe é mais forte para mim do que você pode imaginar.
— Você a conheceu?
— Nós dois conhecemos — disse Baerd. — Ela era dez anos mais velha do que nós, mas
todo adolescente em Tigana era um pouco apaixonado por Micaela. E a maioria dos homens
também, eu acho.
Outro nome novo — e toda a dor que veio com ele.
O pai de Devin nunca o dissera. Seus lhos sequer sabiam o nome da mãe. Havia mais
caminhos de tristeza naquela noite do que Devin imaginara.
— Todos nós invejávamos e admirávamos seu pai mais do que posso expressar — completou Alessan. — Embora eu que feliz que, no nal, ela tenha sido conquistada por
um homem de Avalle. Eu me lembro do dia em que você nasceu, Devin. Meu pai enviou um
presente para o seu batizado. Só não consigo lembrar o que era.
— Você admirava meu pai? — disse Devin, surpreso.
Alessan ouviu aquilo e sua voz mudou.
— Não o julgue por aquilo que ele se tornou. Você o conheceu depois que Brandin
esmagou sua geração e todo o seu mundo, acabando com suas vidas e condenando suas
almas. Sua mãe estava morta, Avalle tinha caído, Tigana desaparecera. Ele lutou e sobreviveu
a ambas as batalhas do Deisa.
Acima deles, Catriana emitiu um ruído baixo.
— Eu nunca soube — protestou Devin. — Ele nunca nos contou nada disso.
Havia uma nova dor dentro dele. Tantos caminhos.
— Poucos dos sobreviventes falam sobre aqueles dias — disse Baerd.
— Meus pais nunca falaram — confessou Catriana. — Eles nos levaram para o mais longe
que conseguiram, para uma vila de pescadores em Astibar, descendo a costa de Ardin, e
nunca falaram sobre nada disso.
— Para proteger vocês — disse Alessan, delicadamente. Sua palma, menor do que a de
Baerd, ainda tocava a de Devin. — Uma grande quantidade dos pais que conseguiu
sobreviver fugiu, para que seus lhos pudessem ter uma chance de viver livres da opressão e
do estigma que atingiu e ainda atinge Tigana — ou Baixa Corte, como devemos chamá-la
agora.
— Eles fugiram — disse Devin, teimosamente. Sentia-se enganado, roubado, traído.
Alessan balançou a cabeça.
— Devin, pense. Não julgue ainda: pense. Você realmente acha que aprendeu aquela
melodia por acaso? Seu pai escolheu não passar para você ou seus irmãos o perigo de nossa
herança, mas colocou uma marca sobre você, uma melodia, sem letra por segurança. E o
enviou pelo mundo com algo que certamente o revelaria para qualquer um de Tigana, e mais
ninguém. Não acho que tenha sido por acaso. Não mais do que a mãe de Catriana lhe deu
um anel que a faria ser reconhecida por qualquer um nascido no mesmo local que ela.
Devin olhou para trás. Catriana ergueu a mão para que ele pudesse ver o anel. Estava
escuro, mas seus olhos se adaptaram às sombras, e ele pôde vislumbrar uma estranha forma
reluzente sobre a joia: um ser, metade humano, metade criatura do mar. Engoliu em seco.
— Você pode me falar sobre ele? — perguntou, voltando-se para Alessan. — Sobre meu
pai?
Sobre o impassível e sisudo Garin, o triste agricultor de uma terra cinzenta e úmida, que
havia vindo da bela Avalle das Torres, nas terras altas ao sul de Tigana; e que havia, em sua
juventude, conquistado uma mulher amada por todos que a viam, que lutara e sobrevivera a
duas terríveis batalhas à beira de um rio. E que havia, se Alessan estivesse certo,
propositadamente enviado ao mundo seu lho, esperto o su ciente para encontrar tudo o que descobrira naquela noite. E que também, percebeu Devin de repente, provavelmente
mentira quando disse que havia esquecido a letra daquela canção. De repente, tudo era
muito difícil.
— Eu contarei o que sei sobre ele, e com prazer — disse Alessan. — Mas não esta noite,
pois Catriana está certa, e devemos partir antes do amanhecer. Por enquanto, jurarei honras
com você, como Baerd o fez. Eu aceito seu juramento. Você tem o meu. Você será como um
irmão para mim, até o fim dos meus dias.
Devin se voltou para Catriana.
— Você me aceita?
Ela mexeu no cabelo.
— Eu não tenho muita escolha, tenho? — respondeu, descuidadamente. — Você parece
ter-se metido completamente nisso.
Mas ela abaixou a mão esquerda enquanto falava, dobrando dois de seus dedos. Seus
dedos encontraram os dele, num toque leve e frio.
— Seja bem-vindo — disse ela. — Eu juro que serei leal a você, Devin di Tigana.
— E eu, a você. Sinto muito pelo que aconteceu de manhã.
Ela retirou a mão e seus olhos brilharam. Mesmo naquela escuridão, era possível vê-los.
— Ah, claro... — disse ela, sarcasticamente. — Com certeza você sente muito. Estava muito
claro, o tempo todo, o quanto você lamentou aquela experiência!
Alessan segurou o riso.
— Catriana, minha querida... eu acabei de proibi-lo de comentar quaisquer detalhes sobre
o que aconteceu. Como vamos nos esquecer do que ocorreu se você continuar trazendo isso
à tona?
Sem o menor vestígio de um sorriso, Catriana replicou:
— Eu sou a parte ofendida aqui, Alessan. Você não vai me proibir de nada. As regras não
são as mesmas.
Baerd, de repente, riu:
— As regras não parecem ser as mesmas desde que você se juntou a nós. Por que seria
diferente agora?
Catriana mexeu no cabelo mais uma vez, mas não se deu ao trabalho de responder.
Os três homens caram de pé. Devin dobrou os joelhos para livrá-los da tensão de ter
permanecido sentado por tanto tempo na mesma posição.
— Ferraut ou Tregea? — perguntou Baerd. — Qual fronteira?
— Ferraut — respondeu Alessan. — Eles dirão que sou tregeano assim que Tomasso
confessar. Pobre homem. Se eu estivesse pensando claramente, teria atirado uma echa nele
enquanto cavalgavam.
— Que clareza de espírito! — redarguiu Baerd. — Com vinte soldados ao seu redor.
Estaríamos todos acorrentados em Astibar agora.
— Você teria desviado minha flecha — respondeu Alessan, agora também jocoso.
— Existe alguma chance de ele não confessar? — interrompeu Devin, sem jeito. — Sabem,
estou pensando em Menico. Se Tomasso citar seu nome...
Alessan balançou a cabeça, negativamente.
— Todos falam sob tortura. Especialmente quando há magia envolvida. Também me
preocupo com Menico, mas não há nada que possamos fazer, Devin. É assim que nossa vida
é. Pessoas são colocadas em risco por quase tudo o que fazemos. Eu gostaria de saber o que
aconteceu dentro daquela cabana.
— Você queria verificar — lembrou-lhe Catriana. — Temos tempo?
— Eu queria. E sim, temos tempo — disse Alessan, incisivamente. — Ainda há uma peça
faltando. Eu ainda não sei como Sandre d’Astibar esperava que eu...
Ele parou. A não ser pelo zunido das cigarras e o farfalhar de algumas folhas, tudo estava
quieto na oresta. A trialla havia ido embora. Alessan ergueu a mão de repente e passou-a
pelo próprio cabelo. Balançou a cabeça.
— Você tem ideia do quão tolo eu posso ser às vezes? — perguntou a Baerd, num tom
quase confessional — Estava na palma da minha mão o tempo todo! — Sua voz mudou: —
Vamos! E vamos rezar para que não seja tarde demais!
Na cabana dos Sandreni, as duas lareiras já estavam quase apagadas. Apenas as estrelas
brilhavam sobre a clareira na oresta. O Diadema de Eanna estava a oeste, seguindo as luas.
Enquanto os quatro se aproximavam, um rouxinol cantava, como se respondesse à trialla
anterior. Diante da porta, Alessan hesitou por um instante antes de dar de ombros em um
gesto que Devin já conseguia reconhecer. Então empurrou a porta e deu um passo adiante.
No brilho vermelho das brasas, eles olharam — com olhos já acostumados à escuridão —
para a carni cina lá dentro. O caixão ainda estava no mesmo local, embora com marcas de
golpe e estilhaços. Ao seu redor, repousavam os corpos de homens que ainda viviam quando
eles deixaram a sala. Os dois Sandreni mais novos. Nievole, com um punhado de echas em
sua garganta e em seu peito. O corpo de Scalvaia d’Astibar.
Então, Devin percebeu a cabeça de Scalvaia, decapitada e em meio a uma poça de sangue,
terrivelmente distante de seu corpo. O rapaz lutou para controlar o vômito em sua garganta.
— Ó, Morian... — sussurrou Alessan. — Ó, Senhora dos Mortos, seja gentil com eles em
seus Salões. Eles morreram sonhando com liberdade, antes de seu tempo.
— Três deles, na verdade — disse uma voz seca, do fundo de uma das poltronas. — O
quarto deveria ter sido estrangulado ao nascer.
Devin deu um pulo, o coração martelando com o susto.
O falante se levantou, colocando-se atrás de uma cadeira, encarando-os. Estava
completamente encoberto pelas sombras.
— Imaginei que vocês voltariam — disse ele.
O sexto homem, Devin pensou, esforçando-se para entender, lutando para distinguir aquela
forma alta e magra no brilho fraco das brasas.
Alessan parecia inabalado.
— Nesse caso, sinto muito por deixá-lo esperando. Levei muito tempo para decifrar tudo. O
senhor me permite expressar minha tristeza pelo que ocorreu aqui? — Ele fez uma pausa. —
E meus respeitos, meu senhor Sandre.
O queixo de Devin caiu como se não estivesse bem preso ao seu rosto. Depois ele fechou a
boca com tanta força que sentiu uma dor nos dentes; esperava que ninguém tivesse visto. Os
acontecimentos estavam se desenrolando rápido demais.
— Eu aceitarei a tristeza — disse a gura magra na frente deles. — Mas não mereço seu
respeito, ou o de ninguém. Talvez merecesse, mas não mais. Você está falando com um
velho tolo e vaidoso, exatamente como o barbadiano disse. Um homem que passou muitos
anos sozinho, preso em redes que ele mesmo teceu. Você estava correto sobre tudo o que
falou anteriormente, sobre descuido. Isso me custou três lhos esta noite. Em um mês, talvez
um pouco menos, não haverá mais nenhum Sandreni.
A voz soara seca e condenava seu dono, sem qualquer misericórdia. Era o tom de um juiz,
em algum salão negro de apelação final.
— O que aconteceu? — perguntou Alessan, baixo.
— O garoto era um traidor — a voz era fria, conformada, fatalista.
— Ó, meu senhor... — exclamou Baerd. — Família?
— Meu neto. O filho de Gianno.
— Sua alma está amaldiçoada, então — disse Baerd, baixo e rme. — Ele está sob a
custódia de Morian agora, e a deusa saberá como lidar com ele. Que ele seja condenado à
escuridão até o final dos tempos.
O velho pareceu não ter sequer ouvido.
— Taeri o matou — murmurou ele, maravilhado. — Nunca pensei que ele fosse tão
corajoso ou tão rápido. E então se apunhalou, para evitar que tivessem esse prazer ou que
tirassem qualquer informação dele. Nunca pensei que ele fosse tão corajoso — repetiu,
distante.
Pelas sombras densas, Devin olhou para os dois corpos próximos à lareira menor. Tio e
sobrinho estavam caídos tão próximos que pareciam abraçados, do lado oposto ao caixão. O
caixão vazio.
— Você disse que esperava por nós — murmurou Alessan. — Pode nos contar por quê?
— Pela mesma razão que vocês voltaram.
Sandre se moveu pela primeira vez, caminhando duramente até a lareira maior. Pegou um
pequeno pedaço de madeira e atirou-o ao fogo. Faíscas voaram. Ele arrumou a lenha,
cutucando-a com o ferro até que uma língua de fogo subisse, livre das cinzas que a cobriam.
O Duque se virou, e agora Devin pôde ver sua barba e seus cabelos brancos, assim como as
bochechas ossudas. Seus olhos estavam fundos nas órbitas, mas brilhavam com uma
provocação fria.
— Eu estou aqui — disse Sandre — e vocês estão aqui porque isso continua. Não terminou,
não importa o que aconteça ou quem morra. Enquanto houver fôlego para respirar e um coração para carregar o ódio. Minha busca e a de vocês. Até que estejamos mortos, elas
continuam.
— Então você estava ouvindo — disse Alessan. — De dentro do caixão. Você ouviu o que
eu disse?
— A droga perdeu efeito ao pôr-do-sol. Eu estava acordado antes de chegarmos à cabana.
Ouvi tudo o que você disse e boa parte do que preferiu não dizer — respondeu o Duque,
endireitando-se, com uma altivez fria na voz. — Ouvi o nome que você deu e o que escolheu
não contar. Mas eu sei quem você é.
Ele deu um passo em direção a Alessan. Ergueu a mão enrugada e apontou para ele:
— Eu sei exatamente quem você é, Alessan bar Valentin, Príncipe de Tigana!
Aquilo era demais. O cérebro de Devin simplesmente desistiu de tentar entender. Muitos
fragmentos de informação vinham ao mesmo tempo de várias direções, contradizendo-se um
ao outro com ferocidade. Sentiu-se tonto, cansado. Estava em uma sala na qual, pouco
tempo antes, havia vários homens. Agora quatro deles estavam mortos, com mais violência
do que imaginara presenciar. Ao mesmo tempo, o homem que ele soubera estar morto —
aquele em cujos ritos fúnebres cantara naquela mesma manhã — era o único homem de
Astibar com vida naquela cabana.
Se ele fosse de Astibar!
Pois, se ele fosse, como conseguiria dizer o nome de Tigana, dado o que Devin acabara de
aprender na oresta? Como poderia saber que Alessan era — e isso também era algo difícil
de assimilar — um príncipe? O lho daquele Valentin que matara Stevan de Ygrath,
trazendo a vingança de Brandin sobre todos.
Devin simplesmente parou de tentar juntar todas as peças. Decidiu escutar e observar, de
modo a absorver o máximo possível na memória que nunca o desapontara e deixar a
compreensão para depois, quando tivesse tempo para pensar.
Assim resolvido, ouviu Alessan dizer, após um silêncio longo o bastante para revelar o grau
de sua surpresa e espanto:
— Agora eu entendo. Finalmente entendo. Meu senhor, sempre o considerei um gigante
entre os homens. Desde a primeira vez em que o vi nos Jogos da Tríade, 23 anos atrás. O
senhor é ainda mais do que eu pensava. Como sobreviveu? Como conseguiu esconder isso
dos dois por todos esses anos?
— Esconder o quê? — Foi Catriana, com sua voz tão exaltada, que imediatamente fez
Devin se sentir melhor: ele não era o único que estava completamente perdido.
— Ele é um mago — disse Baerd, calmamente.
Houve um novo silêncio. Então Alessan completou:
— Os magos da Palma são imunes às magias que não são feitas especi camente para eles.
Isso vale para todos os usuários de magia, independente de onde venham ou de como
conseguiram seu poder. Por essa razão, entre outras, Brandin e Alberico têm caçado e
matado magos desde que chegaram a esta península.
— E eles têm tido sucesso porque ser um feiticeiro não tem relação alguma com inteligência
ou bom senso — apontou Sandre d’Astibar, num tom ácido.
Ele bateu rmemente no fogo com o atiçador de metal. A chama se encheu, reluzindo
numa forte luz vermelha.
— Eu sobrevivi simplesmente porque ninguém sabia — disse o Duque. — Não envolveu
nada mais complexo do que isso. Usei meu poder umas cinco vezes, se tanto, durante todo o
meu reinado, e sempre escondido atrás da magia de outra pessoa. E não z nada com magia,
absolutamente nada, desde a chegada dos feiticeiros. Eu nem sequer a usei para ngir minha
morte. O poder deles é mais forte do que o nosso. Muito mais forte. Era óbvio desde o
momento em que cada um deles chegou. A magia nunca fez parte da Palma como faz em
outros lugares. Nós sabíamos disso. Todos os magos sabiam disso. É de se imaginar que eles
dedicariam seus cérebros a esse conhecimento, não é? Qual a vantagem de se usar uma
magia localizadora, ou uma echa mental mortífera, se isso o levar direto a uma roda de
tortura barbadiana?
A voz do velho Duque estava carregada de uma amargura debochada.
— Ou uma das de Brandin — murmurou Alessan.
— Ou uma das de Brandin — concordou Sandre. — É a única coisa em que aqueles dois
pássaros carniceiros concordaram, além da linha divisória que percorre a Palma: que a única
magia nesta terra deve ser a deles.
— E é — disse Alessan. — Ou está tão perto disso que dá no mesmo. Eu tenho procurado
um mago por mais de uma década.
— Alessan! — soltou Baerd, rapidamente.
— Por quê? — perguntou o Duque, no mesmo instante.
— Alessan! — repetiu Baerd, mais urgentemente.
O homem que Devin acabara de descobrir ser o Príncipe de Tigana encarou seu amigo e
balançou a cabeça.
— Não este, Baerd — disse ele, enigmaticamente. — Não Sandre d’Astibar.
Ele se voltou para o Duque e hesitou, escolhendo suas palavras. Então, sem conseguir
disfarçar o orgulho, falou:
— Você deve ter ouvido a lenda. Ela é verdadeira. A linhagem dos Príncipes de Tigana, e
todos os seus descendentes diretos, podem prender um feiticeiro à sua vontade até a morte.
Pela primeira vez, um brilho verdadeiro de curiosidade e interesse apareceu nos olhos
encobertos de Sandre.
— Eu conheço a história. O único mago que percebeu o que eu era avisou-me, uma vez,
para tomar cuidado com os Príncipes de Tigana. Ele era um homem velho e já fora de si.
Lembro que ri dele. Você está dizendo que ele disse a verdade?
— Sim. Estou certo de que ainda é. Mas nunca tive chance de testar. É nossa história mais
importante: Tigana é a província escolhida por Adaon das Ondas. O primeiro de nossos
príncipes, Rahal, nasceu do deus por meio de Micaela, que chamamos de nossa mãe mortal. E a linhagem dos príncipes jamais foi quebrada.
Devin sentiu uma mistura complexa de emoções dentro de si. Ele sequer tentou enumerar
quantas coisas sacudiram-se em seu coração. Micaela. Ele ouvia e observava, forçando-se a
memorizar.
Ouviu a risada de Sandre d’Astibar.
— Eu conheço essa história também — disse o Duque. — Essa desculpa velha e fraca para a
arrogância tiganesa. Príncipes de Tigana! Não duques, não! Príncipes! Descendentes do
deus!
Ele apontou o atiçador para Alessan e continuou:
— Você vai se colocar aqui, esta noite, em meio à realidade fedida da tirania em que
vivemos e destes homens mortos, enquanto vomita essa antiga mentira em cima de mim?
Você vai mesmo fazer isso?
— É a verdade — disse Alessan baixo, sem se mover. — É a razão de sermos o que somos.
Seria uma ofensa ao deus se seus descendentes usassem um título menor. O presente de
Adaon para seu lho mortal não poderia ser a imortalidade; isso, Eanna e Morian proibiram.
Mas o deus garantiu a seu lho o poder de controlar a magia da Palma, e para os lhos e
lhas de sua descendência, enquanto um príncipe ou uma princesa de Tigana dessa
linhagem vivesse. Se você duvida e gostaria que eu testasse, eu farei como Baerd queria que
eu zesse, e colocarei minha mão sobre sua testa, meu senhor, para colocá-lo sob a minha
vontade. A velha lenda não deve ser deixada de lado, Sandre d’Astibar. Se somos
orgulhosos, é porque temos motivo para tal.
— Não mais — ironizou o Duque. — Não desde que Brandin chegou.
O rosto de Alessan se contorceu. Ele abriu a boca, e então voltou a fechá-la.
— Como ousa? — disparou Catriana. Corajosamente, Devin pensou.
O Príncipe e o Duque a ignoraram, encarando-se intensamente. O cinismo divertido de
Sandre gradualmente se esvaiu nas marcas fundas que tinha cravadas no rosto. A amargura
permaneceu nos olhos, na postura e nos lábios retorcidos. Alessan disse:
— Eu não esperava isso de você. Considerando todas as circunstâncias.
— Você não está em posição de saber o que esperar de mim — replicou o Duque, muito
baixo. — Considerando todas as circunstâncias.
— Devemos nos separar agora, então?
Por um longo momento, algo se equilibrava no ar entre eles, um processo de ponderações e
resoluções, imensuravelmente complicado pela morte, a raiva, o luto e o orgulho implacável
dos dois homens. Devin, enervado por aquela tensão, percebeu que não respirava.
— Eu preferiria que não — disse, enfim, Sandre d’Astibar. — Não desta maneira.
Devin voltou a respirar. O Duque prosseguiu:
— Você aceita as desculpas de alguém que está mais abatido do que nunca?
— Eu aceito — disse Alessan, com simplicidade. — E buscarei seu aconselhamento, na
verdade, antes de nos separarmos por um tempo. Seu lho do meio foi levado com vida. Ele irá entregar o meu nome e o de Devin amanhã de manhã, se não esta noite.
— Não esta noite — disse o Duque, quase ausente. — Alberico não pressente nenhum
perigo. E também estará seriamente debilitado pelo que aconteceu aqui. Ele deixará Tomasso
em paz até que possa aproveitar o que irá acontecer. Até que esteja novamente com ânimo
para... brincar.
— Esta noite ou amanhã, não faz diferença! — disse Baerd, sua voz grossa quebrando o
clima. — Ele vai falar. E nós devemos estar longe antes que ele o faça.
— Talvez, ou talvez não — murmurou Sandre, com a mesma voz despreocupada. Ele olhou
para os quatro homens mortos no chão. — Eu gostaria de saber exatamente o que aconteceu.
De dentro do caixão, eu não podia ver nada, mas posso lhes dizer que Alberico usou uma
magia tão forte esta noite que ainda pulsa pela sala. E ele a usou para salvar a própria vida.
Scalvaia fez algo, não sei o quê, mas chegou bem perto. — Ele olhou para Alessan antes de
continuar: — Perto de dar a Brandin de Ygrath domínio sobre toda a península.
— Você me ouviu, então? — perguntou Alessan. — Você concorda comigo?
— Acho que sempre soube disso, e sei que consegui negar isso pra mim mesmo. Estava
centrado demais em meu próprio inimigo, aqui em Astibar. Eu precisava ouvir alguém dizê-
lo, mas uma vez foi o su ciente. Sim, concordo com você. Eles devem ser derrotados ao
mesmo tempo.
Alessan balançou a cabeça, concordando, e um pouco de sua própria tensão pareceu se
esvair.
— Ainda há quem pense o contrário — ele disse. — Fico feliz que concorde comigo.
Olhou para Baerd, sorrindo de modo estranho, e então se voltou para o Duque.
— Você mencionou a magia que Alberico usou como se fosse importante para nós. Qual foi
a importância disso? Somos ignorantes nesses assuntos.
— Não se envergonhe. Se você não é um mago, é normal ser ignorante. — Sandre sorriu
levemente. — Mas o significado é bem simples: há tanta magia escorrendo por esta sala agora
que um simples uso do meu poder seria completamente indetectável. Acho que posso
garantir que seus nomes não sejam dados aos torturadores amanhã.
— Entendo — disse Alessan, balançando a cabeça lentamente. Devin não entendia nada;
sentia como se estivesse sendo levado por uma onda de informações. Os olhos de Alessan
brilhavam quando ele perguntou ao Duque: — Você pode viajar pelo espaço? Pode ir lá e
trazê-lo?
Mas Sandre balançou a cabeça negativamente. Ele ergueu sua mão esquerda, intacta.
— Eu nunca cortei meus dois dedos, a união máxima de um mago com a Palma. Minha
mágica é profundamente limitada. Não posso dizer que me arrependo: nunca teria sido
Duque de Astibar se tivesse feito isso, dados os preconceitos e as leis que controlam os
magos. Mas isso reduz drasticamente o que consigo fazer. Eu posso me mover para lá, sim,
mas não tenho força suficiente para trazer alguém para fora. Mas posso levar algo até lá.
— Entendo — disse Alessan, novamente, embora com outro tom na voz.
Houve um silêncio. Ele passou a mão por seu cabelo desgrenhado. E murmurou um “Eu
sinto muito” de forma lenta e suave.
O rosto do Duque estava inexpressivo. Acima da barba branca e da face magra, seus olhos
não denunciavam suas emoções. Atrás dele, o fogo crepitava, lançando fagulhas pela sala.
— Eu tenho uma condição — disse Sandre.
— Qual?
— Quero que me deixe ir com vocês. Sou agora um homem morto. Entregue a Morian.
Aqui em Astibar, não posso falar com ninguém, conseguir nada. Para manter algum
propósito desse asco que foi a minha morte, devo ir com vocês. Príncipe de Tigana, você
aceita um feiticeiro fraco em seu grupo? Um feiticeiro que vá em liberdade, e não
escravizado por uma lenda?
Por um longo tempo, Alessan permaneceu em silêncio, olhando para o outro homem com
as mãos quietas, ao lado do corpo. Então, inesperadamente, sorriu. Foi como um raio de luz
ou uma onda de calor rompendo o gelo na sala.
— O quão apegado você é à sua barba e aos seus cabelos? — perguntou ele, num tom de
voz inesperado.
Um segundo depois, Devin ouviu um som estranho. Demorou um pouco para perceber
que o que ouvia, alta e ruidosa, era a gargalhada sincera do Duque de Astibar.
— Faça comigo o que quiser — disse Sandre, controlando o riso. — O que você fará
comigo? Irá tingir meus cabelos de vermelho, como os da moça?
— Espero que não — respondeu Alessan. — Uma dessas cabeleiras é mais do que o
suficiente para uma única companhia. Mas vou deixar esse assunto para Baerd. Deixo muitos
assuntos para ele.
— Então devo me colocar em suas mãos — disse Sandre, curvando-se gravemente para o
homem de cabelos loiros. Devin percebeu que Baerd não parecia completamente feliz.
Sandre também notou isso.
— Eu não farei um juramento — disse o Duque a ele. — Eu z um juramento quando
Alberico chegou, e esse foi o último que proferi. No entanto, direi que me esforçarei, pelo
resto dos meus dias, em garantir que não se arrependerá disso. Isso será o su ciente para
você?
Lentamente, Baerd assentiu:
— Será.
Ouvindo, Devin tinha a intuição de que aquelas palavras também possuíam alto grau de
importância; que nenhum dos dois havia falado levianamente ou de maneira falsa. Ele se
voltou para olhar Catriana e descobriu que ela o observava. Mas ela desviou o olhar
rapidamente.
— Acho melhor fazer conforme falei — Sandre disse. — Graças à camu agem dada pela
magia de Alberico, devo ir e voltar desta sala, mas acho que vocês não precisam passar a
noite aqui, em meio aos mortos, não importa o quão ilustres eles sejam. Vocês possuem um acampamento na floresta? Devo encontrá-los lá?
A ideia de magia ainda não era completamente confortável a Devin, mas as palavras de
Sandre lhe deram uma ideia: seu primeiro pensamento racional desde que entrara na
cabana.
— O senhor tem certeza de que conseguirá impedir seu lho de falar? — perguntou ele,
timidamente.
— Absoluta — respondeu Sandre.
As sobrancelhas de Devin se uniram.
— Bem, nesse caso, parece-me que nenhum de nós está em perigo imediato. A não ser
você, meu senhor. O senhor não deve ser visto.
— Até que Baerd termine de arrumá-lo — interveio Alessan. — Mas continue.
Devin se voltou para ele:
— Eu gostaria de me despedir de Menico e tentar pensar numa razão convincente para
partir. Devo muito a ele. Não quero que ele me odeie.
Alessan pareceu pensativo.
— Ele vai odiar você um pouco, Devin, ainda que ele não seja esse tipo de sujeito. O que
ocorreu esta manhã é o que um músico itinerante como Menico sonha. E nenhuma
explicação que você invente mudará o fato de que ele precisa de você para transformar esse
sonho em realidade.
Devin engoliu em seco. Odiou o que ouvia, mas não podia negar a verdade dos fatos. Uma
temporada ou duas cobrando o que Menico disse que poderia cobrar a partir de então, e o
dono da companhia poderia, en m, comprar a estalagem em Ferraut com a qual sempre
sonhara. O lugar onde dizia que gostaria de se estabelecer quando a estrada se tornasse
muito árdua para seus ossos cansados. Onde poderia servir cerveja e vinho, e oferecer uma
cama e uma refeição para os velhos e novos amigos, em meio às suas longas jornadas. Onde
poderia ouvir e recontar as fofocas do dia, compartilhar as velhas histórias que tanto amava.
E onde, nas noites frias de inverno, poderia se sentar junto ao fogo e conduzir quem
estivesse por lá através de todas as canções que conhecia.
Devin enfiou as mãos até o fundo dos bolsos de suas calças. Sentia-se desajeitado e triste.
— Só não queria sumir do nada. E nós três, de uma vez. Também temos apresentações
amanhã.
A boca de Alessan soltou:
— Pelo que me lembro, são duas apresentações.
— Três — disse Catriana, inesperadamente.
— Três — concordou Alessan, sorrindo. — E uma no dia seguinte, no Salão Woolguild. E
acabei de lembrar que fiz uma grande aposta no Paelion que pretendo ganhar.
Isso arrancou um previsível rosnado de Baerd.
— Você acha mesmo que o Festival das Vinhas irá continuar depois do que houve aqui esta
noite? Você quer ir tocar e cantar em Astibar como se nada tivesse acontecido? Música? Já passei por isso com você, Alessan. Não gosto nada disso.
— Na verdade, estou bastante certo de que o Festival irá continuar — a rmou Sandre. —
Alberico é, acima de tudo, cauteloso. E acho que isso irá dobrar depois desta noite. Ele
permitirá que as pessoas celebrem, deixará aqueles da distrada se dispersarem e partirem, e
atacará imediatamente depois disso. Mas apenas as três famílias que estavam aqui, eu
imagino. Honestamente, é o que eu faria.
— Impostos? — indagou Alessan.
— Talvez. Ele os aumentou depois do envenenamento dos Canziano, mas aquilo foi
diferente. Uma tentativa de assassinato, em local público... ele não teve muita escolha. Acho
que ele agirá diferente desta vez. Essas três famílias já trarão corpos su cientes para suas
rodas.
Devin cou incomodado com a naturalidade do Duque ao falar sobre aquele assunto.
Estavam falando de seus parentes. Seu lho mais velho, netos, sobrinhos, sobrinhas, primos
— todos encontrariam seu m nas rodas de tortura dos barbadianos. Devin imaginou se um
dia se tornaria cínico a esse ponto. Se o que começara naquela noite o endureceria a esse
ponto. Tentou imaginar seus irmãos em uma roda de tortura em Asoli e descobriu que sua
mente fugia dessa imagem. Sem perceber, fez o sinal de proteção contra o mal.
A verdade é que cava chateado só de pensar em Menico, e tratava-se apenas de dinheiro,
nada mais. As pessoas mudavam de trupes o tempo todo. Saíam para montar suas próprias
companhias ou se aposentavam das estradas, passando para um negócio que lhes desse mais
segurança. Alguns artistas já até esperavam que ele partisse sozinho depois do sucesso
daquela manhã. Isso deveria ser um pensamento reconfortante, mas não era. De algum
modo, Devin odiava fazer parecer que eles estavam certos. Algo mais lhe ocorreu:
— Não vai parecer um pouco estranho se sumirmos logo após os ritos fúnebres? Logo
depois de Alberico desmascarar um plano ligado a eles? De certo modo, estamos ligados aos
Sandreni agora. Deveríamos chamar tanta atenção sobre nós mesmos? Não é como se nosso
desaparecimento não fosse ser notado.
Por algum motivo, disse isso para Baerd. E foi recompensado, no momento seguinte, com
um aceno de concordância.
— Eu concordo com isso — disse Baerd. — Faz sentido, embora eu não goste de admitir.
— Faz muito sentido — reforçou Sandre.
Devin se inquietou ao ser medido por aqueles olhos negros e fundos. Em seguida o Duque
apontou para ele e Catriana e continuou:
— Vocês dois ainda podem redimir a sua geração para mim.
Dessa vez, Devin se recusou a olhar para a garota. Ao invés disso, lançou o olhar para o
outro canto, onde o neto de Sandre repousava próximo à segunda lareira, já quase extinta,
com a garganta cortada por uma lâmina da família.
Alessan quebrou o silêncio com uma tosse proposital.
— Há ainda outro ponto importante — disse, num tom curioso. — Apenas aqueles que já passaram tantas noites na oresta quanto eu podem entender minha preferência por uma
cama macia. Em suma — concluiu ele, sorrindo —, sua eloquência me convenceu, Devin.
Leve-me de volta a Menico, na estalagem. Mesmo uma cama dividida com dois tocadores de
syrenya roncando em harmonia seria melhor do que um chão frio ao lado de Baerd, que ca
quieto a noite toda.
Baerd lhe respondeu com um olhar de aviso — um olhar que Alessan sabia ignorar com
facilidade — e disse, sombriamente:
— Vou evitar enumerar os seus hábitos noturnos. Vou car aqui, sozinho, esperando a
volta do Duque Sandre. Teremos que queimar essa cabana, por razões óbvias. Do contrário,
haverá um corpo faltando quando os servos chegarem aqui pela manhã. Encontraremos
vocês três no esconderijo, daqui a três manhãs, assim que deixarem seus travesseiros. Isto é
— completou, com grande sarcasmo —, a não ser que a vida mole da cidade o faça esquecer
onde é o esconderijo.
— Se ele esquecer, eu encontro — disse Catriana.
Alessan olhou para um e para outro, com expressão de ressentimento.
— Isso não é justo — protestou ele. — É apenas a música. Vocês dois sabem disso.
Devin não sabia. Alessan ainda olhava para Baerd.
— Vocês sabem que eu só estou voltando por causa da música!
— Claro que eu sei — disse Baerd, tranquilamente. Sua expressão mudara. — Apenas temo
que a música nos mate um dia desses.
Então, interceptando o olhar trocado entre eles, Devin aprendeu algo novo e
surpreendente — numa noite em que já havia aprendido mais do que conseguia aguentar —
sobre a natureza dos relacionamentos e o amor.
— Vá! — disse Baerd, expulsando-o, pois Alessan ainda hesitava. Catriana já estava na
porta. — Nós encontraremos vocês depois do Festival. No esconderijo. E não espere nos
reconhecer.
Subitamente, Alessan sorriu; e, em seguida, Baerd também se permitiu um sorriso. Isso
mudava bastante seu rosto. Devin percebeu que ele não tinha esse hábito. Ainda pensava
nisso enquanto seguia Alessan e Catriana pela porta, adentrando novamente a escuridão da
floresta.