Tigana: A Lâmina na Alma
Carta do editor
“Esta noite fui forçado a perceber que existem limites
para aquilo que desejo ou ordeno em nome de uma causa.”
Quando publicou O Senhor dos Anéis nos anos 1950, J. R. R. Tolkien não podia sequer
sonhar que estava criando alicerces tão profundos para a fantasia épica que, meio século
depois, uma multidão de autores ainda o copiaria até a exaustão. Esses alicerces — hoje
clichês absolutamente esgotados — são vários: a divisão nos tradicionais três volumes; as
características físicas e culturais de elfos, anões e outras raças míticas; a inevitável jornada do
herói; os poderosos artefatos mágicos; a gura do senhor das trevas; e, por m, talvez a que
mais marcou a fantasia desde então, a separação maniqueísta entre o bem e o mal. Com
Tolkien, o mal é absoluto e corrompe absolutamente (corpo e alma). O bem, pelo contrário,
é exclusivo dos heróis, quase sempre sem falhas, dúvidas ou arrependimentos.
Guy Gavriel Kay, que procura constantemente transcender as fraquezas da fantasia, marca
um corte com essa tradição tolkiana do bem e do mal. Tigana está repleto de personagens
em con ito com suas próprias decisões e com o impacto que elas têm nos outros. Aliás, a
grande força desta obra é precisamente a ambiguidade moral dos seus personagens. Não são
homens bons nem maus — são apenas homens, apesar do poder atribuído a eles e que os
coloca na posição de fazerem um grande bem ou um grande mal. Quem conhece a obra de
George R. R. Martin sabe exatamente do que estamos falando.
Vejamos os personagens: Alessan, o herói de Tigana, não se importa com os meios usados
para atingir os ns. Mas será heroico recorrer ao assassinato e à própria escravidão, mesmo
quando os ns são tão nobres quanto o resgate de um povo? Brandin, o vilão, tem uma
capacidade imensa de amar. Vive, inclusive, uma das mais belas histórias de amor da
literatura fantástica. Mas é o ódio que o move durante grande parte da vida. Alessan e
Brandin são personagens complexos e dos mais fascinantes do gênero. Diga-se que estão em
boa companhia: os personagens secundários de Tigana formam um grupo rico, complexo e
memorável. Prepare-se portanto para uma viagem inesquecível ao longo destas páginas. Mais
do que estar na vanguarda de um movimento de ruptura com os alicerces da fantasia, Guy
Gavriel Kay nos oferece um mundo de fantasia épica com sua própria geogra a, religião,
política e estruturas sociais complexas. Numa península que em tudo nos recorda uma Itália
medieval e onde o povo comercializa vinho, cereais e especiarias por terra e mar, Tigana
conta uma história poética e poderosa sobre a força da política e da religião, o custo do
sangue e o preço do amor.
Aos meus irmãos, Jeffrey e Rex.