Tigana: A Lâmina na Alma

Guy Gavriel Kay · Capítulo 7 de 19

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Tigana: A Lâmina na Alma

Capítulo III

 

Mesmo antes da chegada do cauteloso Alberico, vindo de Barbadior, do outro lado do oceano, para governar Astibar, a cidade — que gostava de se chamar de “o polegar que governa a Palma” — era conhecida por certo grau de ceticismo. Ali, os rituais fúnebres

nunca eram realizados na presença do morto, como era costume nas outras oito províncias:

era considerado excessivo, um apelo excessivamente febril à emoção.

Eles se apresentariam no pátio central do Palácio Sandreni, sendo assistidos de cadeiras e

bancos colocados ao redor do pátio, assim como nas varandas acima, que levavam aos

cômodos dos dois andares superiores. Em um desses salões, marcado pelas tapeçarias

apropriadas — azul acinzentado e preto —, repousava o corpo de Sandre d’Astibar, com

moedas sobre os olhos para pagar o porteiro sem nome do último portal de Morian e comida

em suas mãos e sapatos em seus pés, uma vez que nenhum homem vivo poderia saber o

quão longa seria a jornada final até a deusa.

Mais tarde, ele seria trazido até o pátio, assim todos os cidadãos de sua capital e de sua

distrada que quisessem vê-lo — e que estivessem dispostos a desa ar os olhares

controladores dos mercenários barbadianos colocados do lado de fora — poderiam passar em

fila pelo seu esquife e derramar as folhas azul-prateadas da oliveira no solitário vaso de cristal

que permanecia num pedestal no pátio agora.

Os cidadãos comuns — tecelões, artesãos, comerciantes, agricultores, marinheiros,

funcionários e comerciantes menores — entrariam no palácio mais tarde. Eles poderiam ser

ouvidos do lado de fora naquele momento: reunidos para ouvir a música dos ritos fúnebres

do velho Duque. As pessoas que chegavam ao pátio, nesse ínterim, formavam a mais

extraordinária coleção de baixa e alta nobreza que Devin já vira num mesmo lugar, junto

àqueles que haviam enriquecido por meio do comércio.

Por causa do Festival das Vinhas, todos os senhores da distrada de Astibar vieram de suas

propriedades rurais até a capital. E já que estavam na cidade, di cilmente poderiam deixar

de se apresentar para ver Sandre ser enterrado — por mais que muitos ou a maioria deles

tivessem-no odiado amargamente enquanto governava. Os pais ou avós de alguns haviam

até mesmo pagado por frascos de veneno ou contratado assassinos trinta anos antes, na

esperança de que aqueles ritos fúnebres houvessem ocorrido na época.

Os dois sacerdotes e a sacerdotisa de Adaon já estavam em seus lugares, parecendo, à

maneira do clero de todas as partes, estar inteirados de um mistério que coletivamente

protegiam de todos os mortais inferiores com a seriedade de sua calma.

A companhia de Menico aguardou em uma pequena sala, fora do pátio, que Tomasso

mandara separar para seu uso. Todas as cortesias de costume estavam ali, e até algumas não

tão costumeiras: Devin não conseguia se lembrar de já ter visto vinho azul ser servido a

artistas. Um gesto extravagante, aquele. Não estava tentado: era muito cedo e estava nervoso demais. Para se acalmar, caminhou até Eghano, que tamborilava preguiçosamente numa

mesa, como sempre parecia fazer.

Eghano ergueu os olhos e sorriu:

— É apenas uma apresentação — disse ele, com sua voz suave e sibilante. — Fazemos o que

sempre fazemos. Fazemos música. Prosseguimos.

Devin assentiu e forçou um sorriso em resposta. Entretanto, sua garganta estava seca.

Dirigiu-se até as mesas laterais, e uma das duas serviçais presentes se apressou em lhe servir

água num cálice de ouro e cristal que valia mais do que tudo o que Devin possuía no

mundo. Pouco depois, Menico fez um sinal, e todos se dirigiram ao pátio.

As bailarinas começaram, acompanhadas pela syrenya e pela auta, ambos os instrumentos

escondidos. Nada de vozes. Não ainda.

Se Aldine e Nieri haviam queimado velas de amor até tarde na noite anterior, não

transpareceu — ou, se transpareceu, foi apenas pela concentração e intensidade de seus

movimentos, tão sincronizados naquela manhã.

Por vezes parecendo impulsionar a música, por outras seguindo-a, elas pareciam

verdadeiramente pertencer a outro mundo, com seus rostos magros e embranquecidos,

túnicas azul-acinzentadas e as luvas negras que escondiam suas mãos. Era assim que Menico

as treinara. Não convidativas ou atraentes, como outras trupes faziam nessas danças rituais,

nem mesmo um simples prelúdio gracioso para a verdadeira apresentação, como certas

outras companhias concebiam. As bailarinas de Menico eram guias, frias e convincentes,

conduzindo ao local dos mortos e ao luto pelos mortos. Gradualmente, inexoravelmente, os

movimentos lentos e graves, os rostos quase inumanos e sem expressão, impuseram àquela

plateia tão impaciente e orgulhosa o silêncio adequado.

E naquele silêncio, os três cantores e os quatro músicos surgiram e começaram a

“Invocação” para Eanna das Luzes, que zera o mundo, o sol, as duas luas e as esparsas

estrelas que eram os diamantes do seu diadema.

Atenta ao que estava fazendo, usando todos os artifícios de habilidade pro ssional para

engendrar uma naturalidade aparente, a companhia de Menico di Ferraut conduzia os

senhores, as damas e os príncipes mercadores de Astibar por um caminho de pesar

impiedosamente disciplinado. Ao lamentar por Sandre, Duque de Astibar, lamentavam

também — como era apropriado — a morte de todas as crianças mortais da Tríade, trazidas

pelos portais de Morian para se mover sobre a terra de Adaon e sob as luzes de Eanna por

um período tão curto de tempo. Dias tão doces, amargos e curtos.

Devin ouviu a voz de Catriana subindo em direção à altura na qual a auta de Alessan a

chamava, fria, precisa e austera. Sentiu, mais do que ouviu, Menico e Eghano traçarem uma

linha profunda, que dava base a todos. Viu as duas dançarinas — ora estátuas enrijecidas,

ora rodopiando como prisioneiras na armadilha do tempo — e, no momento certo, deixou

sua voz planar com as duas syrenyas na lacuna deixada para eles preencherem, no hiato em

que os mortais viviam e morriam.

Assim Menico di Ferraut moldara sua abordagem da rara apresentação dos Ritos Fúnebres

Completos muito tempo antes, trazendo quarenta anos de arte e uma vida inteira de viagens

para o momento que aquela manhã se tornara. Quando começou a cantar, o coração de

Devin se encheu de orgulho e de um amor genuíno pelo corpulento e modesto líder que os

guiara até ali.

Eles pararam, conforme planejado, depois do sexto ato, pelo bem deles mesmos e de seus

ouvintes. Tomasso falara com Menico anteriormente, e a la de nobres que passava pelo

caixão de Sandre iria subir as escadarias. Depois disso, a companhia terminaria com os

últimos três ritos, encerrando com o “Lamento” de Devin, após o qual o corpo seria trazido

para baixo, e a multidão de fora poderia entrar, com suas folhas para o recipiente de cristal.

Menico guiou os companheiros para longe do pátio, no silêncio profundo que era seu

grande feito. Eles entraram novamente no cômodo que havia sido reservado para uso da

trupe. Tomados pelo estado de espírito que eles mesmos criaram, nenhum deles falou. Devin

foi ajudar as duas bailarinas com as túnicas que usavam entre as apresentações, e então

observou enquanto caminhavam pelo recinto, delicadas e quase felinas em graciosidade. Ele

aceitou uma taça de vinho verde de um dos serviçais, mas recusou a comida que lhe era

oferecida. Depois trocou um olhar, mas não um sorriso — não por enquanto — com Alessan.

Drenio e Pieve, os tocadores de syrenya, reclinavam-se sobre seus instrumentos, ajustando as

cordas. Eghano, pragmático como sempre, comia enquanto tamborilava na mesa com a mão

livre. Menico andava de um lado para o outro, inquieto e distraído. Ele apertou o braço de

Devin sem dizer nada.

Devin procurou Catriana e viu-a saindo do cômodo por uma passagem interna em arco. Ela

olhou para trás. Seus olhares se encontraram por um segundo, e então ela continuou. Um

feixe de luz, estranhamente filtrado, descia de uma janela alta para o local onde ela estivera.

Ele não sabia por que havia feito aquilo. Mesmo depois, quando tanta coisa aconteceu,

uindo em todos os sentidos como ondulações partindo daquele momento, Devin nunca foi

capaz de explicar exatamente por que a seguira.

Mera curiosidade. Desejo. Uma complexa expectativa nascida daquele olhar, no outro dia,

e o ambiente de quietude e tristeza em que eles agora pareciam estar. Todos esses fatores,

nenhum deles ou alguns deles. Ele sentiu como se o mundo não fosse exatamente o mesmo

de antes das bailarinas terem dançado.

Entornou seu vinho e se levantou, seguindo pela mesma passagem por que Catriana

passara. E, ao passar, também olhou para trás. Alessan o observava. Não havia julgamento no

olhar do tregeano, apenas uma expressão decidida que Devin não conseguiu entender. Pela

primeira vez naquele dia, lembrou-se de seu sonho.

E talvez por causa disso, murmurou uma oração para Morian enquanto cruzava a

passagem.

Havia uma escadaria que dava em uma janela alta e estreita de vitrais no primeiro patamar.

Sob a luz que caía em várias cores, Devin vislumbrou o vestido azul-prateado que balançava no topo da escada, do lado esquerdo. Balançou a cabeça, esforçando-se para limpá-la, para

se livrar daquela estranha atmosfera de sonho. E quando o fez, os fatos se encaixaram e ele

murmurou, amaldiçoando a si mesmo.

Ela era de Astibar e estava subindo as escadarias, conforme era perfeitamente cabível e

apropriado, para se despedir do Duque. Nenhum lorde ou comerciante novo-rico lhe

negaria esse direito. Não depois de haver cantado no funeral. Por outro lado, o lho de um

fazendeiro de Asoli, vindo de Baixa Corte, entrar naquele salão seria um ato de pura

presunção malcriada.

Hesitou e teria voltado, não fosse a memória que era sua dádiva e sua maldição — e que

sempre o fora. Do pátio, ele havia visto os estandartes pendurados. A sala em que repousava

Sandre d’Astibar estava no topo daquela escada à direita, não à esquerda.

Devin subiu. Tomou a precaução, embora sem saber por que, de permanecer quieto. No

alto, virou à esquerda, como Catriana zera. Havia uma porta. Ele a abriu — uma sala vazia,

que há muito não era usada, com tapeçarias empoeiradas cobrindo as paredes com cenas de

caçadas, com as cores bem desbotadas. Havia duas saídas, mas a poeira acabou ajudando-o:

conseguia ver a nítida pegada das sandálias dirigindo-se até a porta da direita.

Silenciosamente, seguiu aquele rastro pelo labirinto de salas abandonadas no primeiro

andar do palácio. Viu esculturas e objetos de vidro, requintados em sua delicadeza,

estragados pelos anos de poeira sobreposta. Muito da mobília havia sido retirada, muitas das

que restavam estavam cobertas. A luz era fraca; a maior parte das janelas estava fechada.

Vários retratos escurecidos e sujos de senhores e senhoras severos encaravam-no hostilmente

enquanto passava.

Seguiu para a direita e para a direita novamente, no rastro deixado pelos pés de Catriana,

cuidadosamente mantendo alguma distância. Ela seguira reto depois dali, pelos cômodos que

ladeavam o exterior do palácio — nenhum deles levando às varandas lotadas sobre o pátio.

Estava mais claro ali. Ele conseguia ouvir vozes murmurando à sua direita, e percebeu que

Catriana estava dando a volta para o lado oposto da sala em que o corpo de Sandre

repousava.

Finalmente, abriu a porta que seria a última. Ela estava sozinha, em um quarto enorme, ao

lado de uma gigantesca lareira. Havia três cavalos de bronze sobre a prateleira e três retratos

nas paredes. O teto era forrado no que Devin sabia ser ouro. Na parede exterior, na qual

uma leira de janelas tinha vista para a rua, duas grandes mesas foram colocadas, cheias de

comidas e bebidas. Aquele cômodo, diferentemente dos outros, fora limpo recentemente,

mas as cortinas ainda o guardavam da luz da manhã e da multidão lá fora.

Sob a tênue luz ltrada daquela sala, Devin fechou a porta atrás de si, deixando o ferrolho

se fechar com um ruído de propósito. O som foi um alarme espalhafatoso naquele silêncio.

Catriana se virou, com a mão à boca, mas, mesmo à meia-luz, Devin pôde notar que o

brilho em seus olhos era de fúria, e não de medo.

— O que você pensa que está fazendo? — sussurrou ela asperamente.

Ele deu um passo hesitante para a frente. Buscou um gracejo, uma observação espirituosa

para romper o clima pesado que parecia cobri-lo por toda a manhã, mas não conseguiu

pensar em nada.

Balançou a cabeça.

— Eu não sei. Eu a vi saindo, e a segui. Não... não é o que você está pensando — concluiu,

pateticamente.

— Como você saberia o que eu penso? — disparou ela, esforçando-se para manter a calma.

Visivelmente, controlava sua voz. — Queria car a sós por alguns minutos. A apresentação

me emocionou, e eu precisava de um tempo sozinha. Posso ver que você também se

emocionou, mas será que posso pedir a cortesia de ter um pouco de privacidade, apenas por

um momento?

Aquilo foi dito com educação. Ele poderia ter ido embora. Em qualquer outra manhã, ele

teria ido embora. Mas Devin já havia passado, quase sem saber, por um portal de Morian.

Ele apontou para a comida nas mesas e disse, em tom grave, o que seria mais uma

observação do que um desafio ou acusação:

— Este não é um local apropriado para ter privacidade, Catriana. Você não vai me dizer por

que está aqui?

Preparou-se para mais uma onda de raiva, mas novamente Catriana o surpreendeu. Após

um longo momento de silêncio, ela disse, finalmente:

— Você não tem intimidade comigo para exigir uma resposta a essa pergunta. Será

realmente melhor se você for embora. Para nós dois.

Ele ainda podia ouvir vozes abafadas do outro lado da parede, à direita da lareira e dos

cavalos de bronze. Aquela estranha sala, com mesas tão suntuosamente cobertas e retratos

severos nas paredes, parecia estar em transe desperto. Lembrou-se de Catriana cantando no

funeral, sua voz erguendo-se até onde a auta de Tregea chamava. Recordou-se de seus

olhos quando ela parou sob o arco que os dois atravessaram. Realmente sentia-se como se

não estivesse completamente acordado, não no mundo que conhecia.

E naquela atmosfera, Devin se ouviu dizendo, apesar de um repentino aperto na garganta:

— Então, não poderíamos começar? Não poderíamos compartilhar nossa intimidade a

partir de agora?

Novamente Catriana hesitou. Seus olhos estavam arregalados, mas impossíveis de ler na luz

incerta. Ela balançou a cabeça e permaneceu onde estava, ereta e estática do lado oposto da

sala.

— Acho que não — disse ela, muito baixo. — Não no caminho que estou trilhando, Devin

d’Asoli. Mas agradeço por perguntar, e não negarei que uma parte de mim pode desejar o

contrário. Mas tenho pouco tempo, e há algo que preciso fazer aqui. Por favor... você poderia

me deixar sozinha?

Ele nunca esperou encontrar ou sentir tanto arrependimento, além e acima de todas as

nuances que a manhã já carregara. Ele acenou a rmativamente com a cabeça — não havia mais nada em que pudesse pensar para fazer ou dizer; e dessa vez se virou para ir embora.

Mas um portal já havia sido cruzado no Palácio Sandreni naquela manhã. No exato

momento em que Devin se virava, ambos ouviram vozes — que agora vinham de trás dele.

— Pela Tríade! — sussurrou Catriana, quebrando o clima como se fosse uma espinha de

peixe. — Sou amaldiçoada em tudo em que ponho as mãos!

Ela retornou à lareira, enquanto tateava freneticamente por baixo da prateleira.

— Pelo amor da deusa, faça silêncio! — ela sussurrou asperamente. A urgência em sua voz

fez Devin congelar e obedecer.

— Ele disse que conhecia quem construiu esse palácio — ouviu-a balbuciar sob sua

respiração —, e que devia estar bem...

Ela parou. Devin ouviu o ruído de uma trava se abrindo. Uma parcela da parede à direita

da lareira deslizou brevemente, abrindo-se para revelar um pequeno cubículo oculto. Ele

arregalou os olhos.

— Não fique aí de boca aberta, seu tolo! — sussurrou Catriana, ferozmente. — Rápido!

Uma nova voz somara-se às outras atrás deles; eram três agora. Devin correu para a porta

oculta, esgueirando-se para dentro ao lado de Catriana, e juntos fecharam-na.

Um momento depois, ouviram a porta no outro extremo da sala ser aberta.

— Por Morian — reclamou Catriana, do fundo de seu coração. — Devin, por que você está

aqui?

Questionado assim, o rapaz foi incapaz de formular uma resposta adequada. Em primeiro

lugar, porque ainda não conseguia dizer por que a seguira; em segundo lugar, o armário em

que se escondiam era pouco maior do que os dois juntos, e ele notava que o perfume de

Catriana estava enchendo aquele pequeno espaço com um aroma inebriante, inquietante.

Se pouco antes ele estava parcialmente sonhando, agora se encontrava completamente

acordado, além de perigosamente próximo da mulher que tanto desejara nas últimas duas

semanas.

Catriana parecia ter chegado, tardiamente, à mesma conclusão; ele a ouviu fazer um som

baixo, um tom diferente dos que já ouvira dela. Devin fechou os olhos, mesmo estando

completamente escuro na câmara oculta. Ele podia sentir sua respiração tocando-lhe a testa,

e notou que poderia envolver-lhe a cintura se movesse as mãos apenas um pouco.

Manteve-se cuidadosamente imóvel, inclinando-se o melhor que pôde para se afastar dela,

sua própria respiração deliberadamente rasa. Sentia-se tolo o bastante por ter criado aquela

situação ridícula — não estava disposto a aumentar sua lista crescente de erros tateando-a na

escuridão.

As vestes de Catriana farfalharam levemente quando ela mudou de posição. Sua coxa roçou

na dele. Devin respirou fundo, o que o fez inalar mais do cheiro dela do que seria bom para

ele, dadas as resoluções virtuosas que tomara.

— Desculpe — sussurrou, embora tivesse sido ela quem se movera. Sentiu gotas de suor em

suas sobrancelhas. Para se distrair, tentou se focar nos sons de fora. Atrás dele, o ruído de pés passando e um murmúrio difuso e estável deixou claro que as pessoas ainda estavam

passando em frente ao caixão de Sandre.

À sua esquerda, na sala da qual eles fugiram, três vozes poderiam ser percebidas. Uma

delas, curiosamente, soava familiar.

— Meus serviçais estão a postos junto ao corpo. Isso nos dará um momento, antes de os

outros chegarem.

— Você reparou nas moedas sobre os olhos dele? — perguntou uma voz muito mais jovem,

aproximando-se da parede onde estavam as mesas. — Muito divertido.

— É claro que notei — respondeu o primeiro homem, em tom ácido. Onde Devin já ouvira

aquele tom? Recentemente? — Quem você acha que gastou uma tarde inteira caçando dois

astins de vinte anos atrás? Quem você pensa que preparou tudo isso?

A terceira voz fez-se ouvir, rindo suavemente:

— É uma bela mesa de comida.

— Não foi isso que eu quis dizer!

Risos.

— Sei que não, mas ainda assim é uma bela mesa.

— Taeri, este não é o momento para piadas, especialmente as ruins. Temos apenas um

momento antes que os familiares cheguem. Escutem-me com atenção. Apenas nós três

sabemos o que está acontecendo.

— Somos só nós, então? — questionou a voz jovem. — Ninguém mais? Nem mesmo meu

pai?

— Não, Gianno, e você sabe por quê. Eu disse apenas nós. Guarde suas perguntas e ouça,

filhote!

Foi então que Devin d’Asoli sentiu seu pulso acelerar de modo inequívoco. Em parte por

causa do que ouvia, mas principalmente porque Catriana se movera de novo, com um

suspiro baixo, e Devin mal conseguia acreditar que o corpo dela pressionava diretamente o

seu e que um de seus longos braços circundava seu pescoço.

— Sabe — sussurrou ela, quase imperceptivelmente, a boca tocando sua orelha —, de

repente, eu gosto da ideia de fazer isso. Você consegue car bem quieto? — E a ponta de sua

língua tocou, apenas por um instante, o lóbulo de sua orelha.

A boca de Devin cou completamente seca, enquanto seu sexo se enchia numa dolorosa

ereção dentro das calças azul-prateadas. Do lado de fora, conseguia ouvir a voz que pensara

ser familiar começando uma explicação resumida sobre algo que envolvia carregadores de

caixão e uma cabana de caça, mas a voz e suas explicações pareciam ter-se tornado

repentinamente triviais.

O que não era trivial naquele momento, o que era na verdade da maior importância

imaginável, era o fato inegável de que os lábios de Catriana estavam ocupados em seu

pescoço e sua orelha, e que, enquanto suas mãos se moviam — como se tomadas por

vontade própria — para tocarem suas pálpebras e pescoço, e então deslizarem para o tão sonhado volume de seus seios, os dedos dela estavam ágeis nas cordas da cintura dele,

libertando-o.

— Oh, Tríade! — ele se ouviu gemendo, quando os dedos gelados o tocaram. — Por que

você não me disse antes que o perigo a excitava?

Ele virou a cabeça e seus lábios se tocaram ferozmente pela primeira vez. Ele começou a

levantar o vestido dela acima dos quadris.

Catriana se recostou em um canto da parede atrás de si, para que fosse mais fácil para ele;

ela também respirava rápido, em doses curtas de ar.

— Haverá seis de nós — Devin ouviu da sala. — Quando a segunda lua nascer, quero que

você esteja...

As mãos de Catriana de repente agarraram seu cabelo, quase dolorosamente; naquele

momento, as últimas dobras de seu vestido se soltaram de sua cintura, e os dedos de Devin

deslizaram por dentro de sua roupa íntima, encontrando o portal pelo qual ele tanto ansiava.

Ela emitiu um som leve e inesperado, enrijeceu-se por um segundo, e depois se tornou

extremamente suave em seus braços. Os dedos de Devin tocaram gentilmente as dobras mais

íntimas de sua carne. Ela soltou um longo e estranho suspiro para então se deslocar de novo,

sutilmente, e guiar Devin para dentro de si. Ela ofegou, os dentes afundando forte nos

ombros dele. Por um momento, perdido em prazer surpreendente e dor extrema, ele

permaneceu imóvel, segurando-a junto de si, murmurando algo quase inaudível, sem saber

exatamente o que dizia.

— Chega! Os outros estão aqui — murmurou a terceira voz, secamente.

— Sendo assim — disse a primeira —, lembrem-se, vocês dois vieram da cidade por

caminhos diferentes, não juntos, para juntar-se a nós esta noite. O que quer que façam,

certifiquem-se de não estarem sendo seguidos ou estaremos mortos.

Houve um breve silêncio. Então a porta do lado oposto se abriu e Devin, começando a

estocar Catriana silenciosa e lentamente, finalmente reconheceu a voz que estava ouvindo.

Pois o mesmo homem continuou falando, mas agora Devin já imaginava as entonações

delicadas do dia anterior.

— En m! — soltou Tomasso d’Astibar bar Sandre. — Nós temíamos que vocês tivessem se

perdido nesses recantos empoeirados, para nunca mais serem encontrados!

— Você não tem tanta sorte, irmão — grunhiu uma voz, em resposta. — Embora isso não

fosse tão surpreendente, depois de dezoito anos. Preciso muito de duas taças de vinho.

Sentar quieto ouvindo aquela música a manhã toda me deu uma sede maldita.

No armário, Devin e Catriana se agarravam, dividindo um riso mudo. Então uma nova

urgência se impôs sobre ele, e pareceu-lhe ter-se também colocado sobre ela. De repente não

havia nada na península que importasse tanto quanto o ritmo gradualmente acelerado que

eles teciam juntos.

Devin sentiu as unhas dela se cravarem em suas costas. Sentindo que chegava ao clímax,

colocou as mãos por baixo dela; ela ergueu as pernas, enlaçando-as ao redor dele. Logo depois, seus dentes afundaram em seu ombro pela segunda vez, e naquele instante ele se

sentiu explodir, silenciosamente, dentro dela.

Por um espaço de tempo imensurável e frágil, continuaram naquela posição, suas roupas

úmidas onde haviam sido pressionadas contra a pele. Para Devin, as vozes das duas salas

externas pareciam vir de algum lugar in nitamente distante. De um mundo completamente

diferente. Realmente não queria se mover.

No entanto, com o passar do tempo, Catriana cuidadosamente abaixou as pernas até tocar

o chão e poder sustentar o próprio peso. Na escuridão, ele acariciou suas maçãs do rosto com

o dedo.

Atrás dele, os senhores e mercadores de Astibar ainda passavam pelo corpo do Duque que

tantos odiaram e poucos amaram. À esquerda deles, a mais nova geração Sandreni comia e

bebia, celebrando o m do exílio. Devin, tão próximo de Catriana, ainda revestido de seu

calor, não conseguia encontrar palavras para dizer o que sentia.

Subitamente ela tomou um dos dedos indicadores que a acariciava e o mordeu com

firmeza. Devin estremeceu de dor. Ela, no entanto, não disse nada.

 

Depois que os Sandreni saíram, Catriana encontrou o ferrolho e eles deslizaram de novo

para a sala. Rapidamente organizaram suas roupas. Parando por um momento, apenas para

afanar uma asa de galinha cada um, apressadamente re zeram seus passos pelos cômodos

vizinhos, até alcançarem a escadaria. Encontraram três serviçais uniformizados vindo pelo

outro lado; e Devin, sentindo-se excepcionalmente alerta e cheio de vida, segurou a mão de

Catriana e deu uma piscadela aos serviçais que passavam.

Catriana puxou a mão logo em seguida.

— O que foi?

Ela deu de ombros.

— Eu gostaria que o que aconteceu não fosse proclamado por todo o Palácio Sandreni —

murmurou ela, olhando para frente.

Devin ergueu as sobrancelhas:

— O que você preferiria que pensassem sobre estarmos lá em cima? Eu apenas dei a eles a

explicação mais óbvia e trivial. Eles não vão nem se preocupar em falar disso. Esse tipo de

coisa acontece o tempo todo.

— Não para mim — disse Catriana, baixinho.

— Não foi isso que eu quis dizer! — protestou Devin, surpreso. Mas, infelizmente, eles

chegaram ao nal da escada, e foi com uma inesperada sensação de estranhamento que

parou para deixá-la entrar no cômodo.

Bastante confuso, tomou seu lugar atrás de Menico, enquanto se preparavam para voltar ao

pátio.

Ele possuía apenas um papel secundário nos primeiros dois hinos e, portanto, seus

pensamentos vagavam pela cena que acabara de acontecer no andar superior. Novamente, e

mais uma vez, com a memória que parecia ser seu direito de nascimento focando como um raio de sol em um detalhe após o outro, iluminando e revelando o que ele não havia

percebido da primeira vez.

E então foi sua a vez de dar um passo adiante para encerrar e coroar os ritos fúnebres,

vendo os três cleros observarem-no atentamente e notando como Tomasso adquiria uma

postura de atenção absorta, Devin pôde dar ao “Lamento por Adaon” um espírito resoluto,

pois não estava mais confuso, e sim bastante decidido quanto ao que iria fazer.

Começou suavemente, atingindo o tom intermediário entre as duas syrenyas, construindo e

lapidando a antiga história do deus. Depois, quando a auta de Alessan entrou, Devin

deixou sua voz se erguer em resposta a ela, como se voasse do vale da montanha até o

rochedo à beira do abismo.

Cantou a morte do deus com uma voz tornada pura dentro do caldeirão de seu próprio

coração, e coordenou as notas para subirem por todo o pátio e além dele, cruzando as ruas e

praças da murada Astibar, muros altos que Devin pretendia cruzar naquela noite,

encontrando e seguindo uma trilha até uma oresta, e lá, uma cabana de caça. Uma cabana

para onde carregariam o corpo do Duque, e onde certo número de homens — seis,

lembrava-lhe a clara voz da sua memória — se encontrariam em uma reunião sobre a qual

Catriana d’Astibar havia feito de tudo, exceto matá-lo, para impedir que descobrisse. Lutou

para transformar o sabor amargo daquela descoberta em luto por Adaon, guiando e

inspirando o caminho do “Lamento”.

Ele se lembrou dela dizendo Melhor para nós dois, e pôde buscar em sua mente o

arrependimento e a súbita gentileza na voz dela. Mas, quando se tem a idade de Devin, certo

tipo de orgulho é mais forte do que em qualquer outro momento na vida de um homem

mortal, e ele já decidira, antes mesmo de começar a cantar, ali naquele pátio lotado entre os

grandes de Astibar, que ele seria o juiz a decidir o que seria melhor, e não ela.

Devin então entoou a dilaceração do deus pelas mãos das mulheres, e deu àquela morte

nas encostas da montanha de Tregea tudo o que podia dar, fazendo de sua voz uma echa

lançada para mirar nos corações de todos os que o ouviam.

Deixou Adaon cair do penhasco, ouviu o som da auta se afastar e cair, e deixou o luto de

sua voz descer em espiral, caindo junto com o deus em Casadel, enquanto a canção

terminava.

E naquela manhã também terminava uma parte da vida de Devin. Pois quando um portal

de Morian é atravessado, como todos sabem, não há mais volta.