Tigana: A Lâmina na Alma
Trecho de Tigana – Livro dois
TRECHO DE
T I G A N A
A VOZ DA VINGANÇA
LIVRO DOIS
Quando voltou para o espaço aberto diante das portas do palácio, d’Eymon esperava por ela, vestido formalmente de cinza, com o Brasão do Estado em seu pescoço. O Chanceler estava sentado em um dos bancos de pedra e seu cajado repousava ao seu lado.
Scelto passou pelas portas e Dianora pôde ver uma sombra de alívio que ele não conseguia
esconder quando ela saiu do meio das árvores.
Ela parou e olhou para o Chanceler, permitindo que um pequeno sorriso aparecesse em seu
rosto. É claro que era falso, mas essa já tinha se tornado uma ação inconsciente para ela. Na
normalmente incompreensível expressão de d’Eymon, Dianora percebeu impaciência e
irritação, além de outros sinais do que havia acontecido no dia anterior. Imaginou que ele
provavelmente estivesse procurando uma briga. Era difícil, incrivelmente difícil,
reacostumar-se aos modos e afazeres do Estado. Mas era algo que tinha que ser feito.
— Você está atrasado — disse Dianora, suavemente, passando por ele. D’Eymon levantara,
com perfeita cortesia, quando ela se aproximara. — Eu fui passear pelo jardim. Algumas
flores do campo já começaram a desabrochar.
— Estou pontualmente na hora — disse d’Eymon.
Dianora poderia ter se intimidado antigamente, mas não agora. Ele poderia estar usando o
Brasão numa tentativa de reforçar sua autoridade, mas ela sabia o quanto o dia anterior o
havia perturbado. A moça tinha certeza de que ele se oferecera para suicídio na noite
anterior, sendo um homem para quem as antigas tradições eram importantes. De qualquer
modo, estava protegida contra ele: tinha visto uma riselka naquela manhã.
— Então devo ter chegado cedo — disse Dianora, com pouco caso. — Desculpe-me. É bom
ver que parece estar tão bem depois da confusão de ontem. Esperou muito?
— O bastante. Você queria falar sobre ontem, imagino. O que é?
Dianora não se lembrava de jamais ter ouvido um comentário de d’Eymon que fosse
desinteressado, muito menos algo simplesmente agradável. Recusando-se a ser apressada,
sentou-se no banco que ele acabara de desocupar e limpou o vestido marrom sobre os
joelhos. Apertou os dedos no colo e levantou os olhos, deixando sua expressão
repentinamente tão fria quanto a dele.
— Ele quase morreu ontem — disse, de forma áspera, decidindo só naquele momento qual
seria sua conduta. — Ele poderia ter morrido. Você sabe por quê, Chanceler? — Ela não
esperou resposta. — O Rei quase morreu porque seus homens foram muito complacentes ou
desleixados para se preocuparem em revistar um grupo de ygratheanos. O que você pensava?
Que o perigo só viria da Palma? Eu espero que você lide com os guardas de ontem, d’Eymon.
E logo.
O uso de seu nome, não de seu título, era intencional. Ele abriu e fechou a boca,
visivelmente engolindo uma resposta rápida. Dianora estava forçando as coisas, a Tríade
sabia o quanto estava, mas se fosse para ela agir assim, que fosse agora. D’Eymon estava
pálido de raiva e espanto. Inspirou fundo, tentando se controlar.
— Já tratei dos guardas — ele disse. — Estão mortos.
Dianora não esperava por isso. Conseguiu, com algum esforço, manter a frustração fora de
seu olhar.
— Tem mais — continuou ela, aproveitando sua vantagem. — Eu quero saber por que
Camena di Chiara não estava sendo vigiado quando foi para Ygrath ano passado.
— Ele foi vigiado. O que queria que zéssemos? Você sabe quem estava por trás do ataque
de ontem. Você ouviu.
— Todos nós ouvimos. Por que você não sabia sobre Isolla e a Rainha? — Dessa vez, o
ataque em suas palavras era real, e não somente uma tática.
Pela primeira vez, viu uma sombra de hesitação nos olhos dele. Ele tocou seu Brasão, então
pareceu se dar conta do que fazia e abaixou a mão. Houve um breve silêncio.
— Eu sabia — disse, nalmente. Seus olhos encontraram os dela, uma pergunta neles como
um desafio raivoso.
— Entendo — disse Dianora depois de um momento, desviando o olhar.
O sol estava mais alto agora, tendo percorrido mais da metade de seu caminho. Se ela fosse
um pouco para o lado no banco, caria sob seus raios quentes. A dura e não dita questão
pairava nos olhos de d’Eymon. Você teria dito ao Rei, sabendo dessas coisas sobre a Rainha?
Dianora estava quieta, pensando nas consequências daquelas implicações. Com essa
con ssão, percebeu que d’Eymon estava em suas mãos, se já não o estivesse depois da sua
falha do dia anterior e do que ela tinha feito para salvar o Rei. Pensou ainda que, como
resultado, estava em perigo iminente. O Chanceler não era um homem a ser tratado levianamente, nunca. A maioria dos habitantes da saishan tinha suas suspeitas de como
Chloese di Chiara morrera dez anos antes e do motivo.
Ela olhou para cima e deixou sua crescente raiva impedir que a ansiedade aparecesse.
— Maravilhoso — disse, ácida. — Que segurança e ciente. E agora, claro, graças ao que fui
forçada a fazer, o seu bichinho de estimação bajulador, Neso, simplesmente tem de receber o
cargo em Asoli, não é? Com um ferimento de honra ganho enquanto salvava a vida do Rei.
Incrivelmente esperto de sua parte, d’Eymon!
Havia calculado mal. Pela primeira vez ele sorriu, uma expressão restrita e sem alegria:
— Isso tudo é por causa disso? — ele perguntou, baixo.
Ela segurou sua negativa imediata. Percebeu que não era inconveniente ele pensar assim.
— Entre outras coisas — admitiu, como que de má vontade. — Quero saber por que o tem
favorecido para o cargo em Asoli. Tenho tentado falar com você sobre isso.
— Foi o que pensei — disse o Chanceler, enquanto um pouco de sua complacência
costumeira voltava. — Também tenho cado de olho em alguns, não todos, tenho certeza,
dos presentes que Scelto tem recebido em seu nome nas últimas semanas. O colar de ontem
era esplêndido, diga-se de passagem. Foi o dinheiro de Neso que pagou por isso? Numa
tentativa de me ganhar para lado dele?
Ele estava muito bem informado e era astuto. Ela sempre soubera dessas coisas. Nunca fora
sensato subestimar o Chanceler.
— Ajudou a pagar — respondeu, brevemente. — Você não respondeu minha pergunta. Por
que o favorecia? Deve saber o tipo de homem que ele é.
— É claro que sei — replicou d’Eymon, impaciente. — Por que você acha que eu o quero
fora daqui? Eu o quero em Asoli, pois não con o nele na corte. Eu o quero longe do Rei e
em um lugar onde possa ser morto sem inconveniências. Acredito que isso responde suas
dúvidas, não?
Dianora engoliu em seco. Nunca, nunca o subestime, disse ela novamente para si.
— Responde — disse. — Morto por quem?
— Isso deveria ser óbvio. Os próprios homens de Asoli vão se encarregar disso. Espero que
não demore muito para que Neso lhes dê um motivo.
— Claro. E depois?
— Depois o Rei investigará e descobrirá que Neso era culpado de grave corrupção, do que
não devemos duvidar que ele será. Mataremos um ou outro homem pelo assassinato, mas o
Rei declarará sua rme rejeição aos métodos e à ganância de Neso. Nomeia-se um novo
Mestre das Tributações e prometem-se medidas mais justas para o futuro. Eu acho que isso
deve acalmar os ânimos no Norte de Asoli por algum tempo.
— Bom — disse Dianora, tentando ignorar a casual indiferença em um ou outro homem. —
E muito bem arranjado. Só tenho uma coisa a acrescentar: o novo oficial será Rhamanus.
Estava correndo mais um risco, sabia disso. A nal de contas, era uma prisioneira e
concubina, enquanto ele era o Chanceler de Ygrath e da Palma Ocidental. Por outro lado, havia outras maneiras de equilibrar a balança, e lutou para focar-se nelas.
D’Eymon olhou-a friamente. Ela continuou a encará-lo, seus olhos arregalados e
dissimulados.
— Sempre achei curioso que você favoreça tanto o homem que a capturou — disse,
pausadamente. — Alguns pensariam que não se importou, que queria vir.
Ele estava estranha e perigosamente perto da verdade, mas Dianora podia ver que era
apenas uma provocação. Forçou-se a relaxar e sorriu.
— Como poderia me importar de estar aqui? Eu nunca tive encontros tão agradáveis como
este. E, de qualquer maneira, sim, eu o favoreço — acrescentou, deixando que seu tom
mudasse. — Faço isso em favor do povo dessa península. Você sabe que esse sempre será o
meu interesse, Chanceler. Ele é um homem decente. Temo que não haja muitos desses em
Ygrath.
Ele ficou quieto por um momento. Então disse:
— Há mais do que você pensa. — Mas antes que ela pudesse entender aquelas palavras ou
a voz surpreendente com que foram ditas, ele acrescentou: — Eu pensei seriamente em
envenená-la durante a noite passada. Isso ou sugerir que fosse liberta e transformada numa
cidadã de Ygrath.
— Que extremos, meu caro! — Podia sentir-se cando fria. — Não foi você quem nos
ensinou que equilíbrio é tudo?
— Ensinei — disse calmamente, sem morder sua isca. Ele nunca mordia. — Você tem
alguma ideia do que fez ao equilíbrio desta corte?
Ela respondeu, de forma realmente rude:
— O que preferia que eu tivesse feito ontem?
— A questão não é essa. É óbvio. — Havia uma cor incomum em suas bochechas. Quando
prosseguiu, porém, foi em seu tom de costume. — Eu mesmo estava pensando em
Rhamanus para Asoli. Deve ser como você sugere. Entretanto, quase me esqueci de
mencionar que o Rei solicitou sua presença. Interceptei a mensagem antes que chegasse à
saishan. Ele vai esperá-la na biblioteca.
Ela encarou os próprios pés, tão agitada quanto ele deveria saber que estaria.
— Há quanto tempo? — perguntou, rapidamente.
— Não muito. Por quê? Você não parece se importar com atrasos. Há anêmonas no jardim,
você pode lhe falar isso.
— Poderia lhe dizer algumas outras coisas também, d’Eymon. — Quase sucumbia à raiva.
Lutou por controle.
— Assim como eu. E assim, suponho, como Solores. Nós raramente podemos, não é? O
equilíbrio, como você acabou de mencionar, é tudo. É por isso que ainda devo ser muito
cuidadoso, Dianora, apesar do que aconteceu ontem. O equilíbrio é tudo. Não se esqueça
disso.
Ela tentou pensar em uma resposta, uma última palavra, mas não conseguia. Sua mente estava girando. Ele falou em matá-la, em libertá-la, concordou com sua escolha para Asoli e
então a ameaçou novamente. Tudo em questão de minutos! E tudo enquanto o Rei esperava
por ela e d’Eymon sabia do fato.
Dianora se virou, abrupta e tristemente consciente de seu vestido simples e do fato de que
não tinha tempo para voltar à saishan e se trocar. Ela sentiu-se corar de raiva e ansiedade.
Scelto tinha obviamente escutado os últimos comentários do Chanceler. Seus olhos acima
do nariz quebrado estavam vividamente preocupados e culpados, mesmo que, com d’Eymon
interceptando a mensagem, não houvesse nada que ele pudesse ter feito.
Ela parou junto às portas do palácio e olhou para trás. O Chanceler estava parado, sozinho
no jardim, apoiado em seu bastão. Era uma gura alta, cinza e magra em meio às árvores. O
céu acima dele se tornara sombrio novamente. É claro que se tornara, Dianora pensou,
rancorosa.
Então se lembrou do lago e seu humor mudou. No nal, de que importam esses artifícios
da corte? D’Eymon estava simplesmente fazendo o que tinha que fazer, e agora ela também
o faria. Tinha visto seu caminho. Conseguiu sorrir novamente, permitindo que essa quietude
interna caísse sobre si outra vez, ainda que com uma rocha de tristeza em seu centro.
Curvou-se em um cumprimento bastante formal. D’Eymon, pego de surpresa, esboçou uma
reverência desajeitada.
Dianora se virou e passou pela porta que Scelto segurava para ela. Voltou pelo corredor e
subiu as escadas, cruzando a passagem norte-sul e passando por duas portas bastante
pesadas. Parou em frente ao terceiro par de portas. Mais por re exo e hábito do que
qualquer outra coisa, examinou sua imagem no escudo de bronze pendurado na parede.
Ajustou seu vestido e passou as mãos pelo cabelo irremediavelmente bagunçado pelo vento.
Bateu na porta da biblioteca e entrou, agarrando-se fortemente à sua calma e à visão do
lago, uma pedra inteira de conhecimento e tristeza em seu coração, que esperava poder
ancorar em seu peito e impedi-lo de voar para longe.
Brandin estava parado com as costas voltadas para a porta, olhando para um velho mapa do
então conhecido mundo que estava pendurado acima do maior dos fogos. Não se virou. Ela
olhou para o mapa. Nele, via-se a Península da Palma e até a imensa terra de Quileia,
atravessando as montanhas e percorrendo todo o caminho ao sul até as Geleiras. Tornou-se
anã se comparada a Barbadior e seu império no leste, assim como a Ygrath, que se estendia
para o oeste ultramarino.
As cortinas de veludo da biblioteca estavam puxadas contra a luz da manhã e o fogo ardia,
o que a incomodou. Achava difícil aguentar as labaredas em um Dia das Brasas. Brandin
segurava um atiçador de lareira em suas mãos. Estava vestido tão descuidadamente quanto
ela, com uma roupa preta de montaria e botas. Suas botas estavam sujas de lama; devia ter
cavalgado bem cedo.
Ela deixou o con ito com d’Eymon para trás, mas não a história da riselka. Brandin era o
centro de sua vida; o que quer que houvesse mudado, aquilo não mudara, mas a visão da riselka ofereceu-lhe um destino, enquanto Brandin a abandonara sozinha e acordada por
toda a noite anterior. Ela disse:
— Perdoe-me, meu senhor. Estava com o Chanceler pela manhã e ele decidiu só me falar
agora que esperava por mim.
— Por que estava com ele? — A voz sutil e familiar estava só levemente interessada. Ele
parecia absorto no mapa.
Não mentiu para o Rei.
— A questão do Mestre das Tributações de Asoli. Queria saber a razão de ele ter favorecido
Neso.
Havia um leve toque de diversão na voz dele.
— Estou certo de que d’Eymon lhe disse algo plausível. — Finalmente, virou-se e encarou-a
pela primeira vez. Ele parecia exatamente o mesmo de sempre, e ela sabia o que sempre
acontecia quando seus olhares se encontravam.
Mas tinha visto uma riselka uma hora antes, e algo parecia ter mudado. Sua calma não a
deixou; seu coração continuava no lugar. Fechou os olhos, mais para entender o signi cado
de tal mudança e a passagem de uma grande verdade do que qualquer outra coisa. Sentiu
que lamentaria depois, por diversas razões, se não fosse extremamente cuidadosa agora.
Brandin se afundou numa cadeira ao pé do fogo. Parecia cansado, mais do que tudo. Isso
só se mostrava de pequenas maneiras, mas ela o conhecia há muito tempo.
— Eu tenho que dar o cargo a Neso agora — disse. — Acho que sabe disso. Desculpe-me.
Algumas coisas pareciam não haver mudado: sempre essa cortesia tão séria e inesperada
quando falava com ela sobre tais coisas. Que necessidade tem o Rei de Ygrath de se
desculpar com ela por escolher um de seus cortesãos em vez de outro? Ela caminhou pela
sala, agarrada às suas resoluções. Ao seu aceno, sentou-se na cadeira oposta à dele. Os olhos
dele recaíram sobre ela em uma análise estranha, quase imparcial. Ela se perguntava o que
viam.
Escutou algo no outro extremo da sala e, olhando de relance, viu Rhun sentado junto à
segunda lareira, desinteressadamente folheando um livro de guras. Sua presença a lembrou
de algo, e de repente sentiu sua raiva voltando.
— É claro que teve que oferecê-lo a Neso — disse. — Asoli é seu prêmio pela bravura a
serviço do Rei.
Ele mal respondeu. Sua boca se curvou brevemente, com uma expressão um tanto irônica;
entretanto, ele ainda parecia preocupado, prestando apenas alguma atenção ao que ela
falava.
— Bravura, coragem... chamam de algo do gênero — falou, distraidamente. — O que
aconteceu foi que ele não saiu do lugar a tempo. D’Eymon já estava se organizando ontem à
noite para espalhar a notícia de que foi Neso quem salvou minha vida.
Dianora não iria contra isso. Recusava-se. Nem sequer entendia por que Brandin estava
falando essas coisas. Em vez disso, ela disse, olhando através do cômodo para Rhun, e não para o Rei:
— Isso parece fazer sentido, e você deve certamente saber que não me importo. O que eu
não entendo é por que está espalhando mentiras sobre o destino de Camena. — Respirou
fundo e continuou: — Eu sei a verdade. É uma coisa tão feia e perversa de se fazer. Se deve
preparar um bobo para substituir Rhun, por que estragar um homem inteiro e saudável? Por
que fazer tal coisa?
Ele não respondeu por um bom tempo, e Dianora teve medo de olhá-lo. Rhun, embora
estivesse longe demais para escutar, parou de folhear o livro e mirou-os.
— Nestas circunstâncias, há precedentes. — Foi o que Brandin disse por m, seu tom ainda
suave. Mas então, um momento depois, acrescentou: — Eu deveria ter afastado Scelto de
você há muito tempo. Vocês dois aprendem muito e rápido demais.
Dianora abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu. O que poderia falar? Ela pedira por isso.
Exatamente por isso. Mas então, olhando de esguelha, viu que Brandin sorria. Era um
sorriso estranho, e havia algo esquisito no modo como o Rei a olhava. Ele prosseguiu:
— Também nestas circunstâncias, Scelto estava certo pela manhã, mas as informações dele
estão erradas agora.
— O que você quer dizer? — Sentiu um genuíno mal-estar começar. Havia algo estranho,
que não conseguia compreender, nas maneiras dele naquela manhã. Sabia, entretanto, que
era mais do que cansaço.
— Cancelei as ordens de ontem depois da cavalgada — falou, tranquilamente. — Camena
provavelmente está morto a essa hora. Uma morte rápida. Exatamente como foi noticiado.
Ela notou que suas mãos se apertavam em seu colo. Replicou estupidamente, sem pensar:
— Isso é verdade?
Brandin somente ergueu a sobrancelha, mas ela sentiu-se corar profundamente.
— Eu não preciso enganá-la, Dianora. Ordenei que arranjassem testemunhas entre os de
Chiara, assim não haveria dúvida. O que lhe faria acreditar? Devo mandar a cabeça dele
para seu quarto?
Ela abaixou os olhos novamente, pensando na cabeça de Isolla estourando como uma fruta
esmagada. Engoliu em seco. Ele havia feito isso com um simples gesto de sua mão. Olhou
mais uma vez para o Rei. Silenciosamente, balançou a cabeça. O que havia acontecido
naquela cavalgada? O que estava acontecendo ali?
Então, abruptamente, ela lembrou o que mais tinha acontecido a ele no dia anterior. Nas
montanhas, no lugar onde uma rocha cinzenta se erguia ao lado da trilha. Um homem vê
uma riselka, sua vida mudará.
Brandin se voltou para o fogo, uma perna cruzada sobre a outra. Baixou o atiçador,
apoiando-se na cadeira.
— Você ainda não me perguntou sobre os motivos de ter mudado as ordens. Isso não é do
seu feitio, Dianora.
— Estou com medo de fazê-lo — respondeu, honestamente.
O Rei encarou-a diante desse comentário, as escuras sobrancelhas niveladas agora, os olhos
cinzentos intimidadores em sua inteligência.
— Isso também não é do seu feitio.
— Você também não está muito... você mesmo esta manhã.
— Justo — declarou, calmamente. Olhou-a em silêncio por um instante, mas então pareceu
ponderar mais alguma coisa. — Conte-me uma coisa. D’Eymon di cultou as coisas para você
agora há pouco? Advertiu-a ou fez ameaças?
Não era bruxaria, a rmou para si mesma, ferozmente. Ele não lia sua mente. Era só
Brandin sendo o que era, atento a todas as mudanças que afetam aqueles ao seu redor.
— Não diretamente — disse, sem graça. Outrora, poderia ter visto aquilo como uma
oportunidade, mas a atmosfera da manhã estava muito estranha. — Ele estava... irritado com
o ocorrido de ontem. Temia, eu acho, mudanças na harmonia aqui da corte. Uma vez que a
notícia de que foi Neso quem salvou sua vida se espalhe, acho que o Chanceler cará mais
calmo. Não será difícil para ele espalhar essa história; as coisas aconteceram muito rápido.
Duvido que alguém tenha visto claramente.
Dessa vez, o sorriso de Brandin enquanto a escutava era um que conhecia e estimava: de
igual para igual, suas mentes dividindo o trajeto de um pensamento complexo. Mas, quando
terminou, a expressão dele mudou.
— Eu vi — disse ele. — Eu vi claramente.
Dianora olhou para longe e para baixo novamente, para as mãos em seu colo.
Seu caminho está claro agora, recitou para si mesma o mais severamente que conseguia.
Lembre-se disso. Tinha-lhe sido oferecida uma visão dela mesma, em verde, junto ao mar. E
seu coração agora pertencia somente a si mesma depois da noite anterior. Havia uma rocha
que o prendia ali, seguro dentro de seu peito. Brandin argumentou:
— Seria fácil contar a história de Neso, concordo. Mas z um grande esforço pensando
ontem à noite, e então novamente no passeio a cavalo. Vou falar com d’Eymon hoje, mais
tarde, depois que assistirmos aos corredores voltarem para casa. A história a ser propagada
será a verdadeira, Dianora.
Ela não tinha certeza se escutara corretamente. Quando percebeu que sim, algo pareceu
chegar à borda e derramar um pouco, como uma taça transbordando de vinho dentro dela.
— Você deveria andar a cavalo mais vezes — murmurou. Ele ouviu. Riu suavemente, mas
ela não o olhou. Tinha a forte sensação de que não aguentaria erguer os olhos.
— Por quê? — ela questionou, absorta em seus dedos entrelaçados. — Por que as duas
coisas então: o destino de Camena e agora isso?
Brandin permaneceu quieto por tanto tempo que por m ela o encarou, cautelosa. Ele se
virara para o fogo novamente, e o atiçava com o ferro. Do outro lado do cômodo, Rhun
havia fechado o livro e estava em pé ao lado de sua mesa, observando os dois. Vestido de
preto, é claro. Exatamente como o Rei.
[…]
–Corra! — gritou Alessan, apontando para um espaço nas colinas. — Tem uma vila lá na frente! Devin xingou, abaixou a cabeça sobre o pescoço do cavalo e cravou os calcanhares nos
ancos do animal, seguindo Erlein di Senzio para o oeste, rumo à passagem e ao disco baixo
e vermelho que era o sol.
Atrás dele, disparando das colinas marrons, estavam pelos menos oito, possivelmente doze,
bandidos dos planaltos. Ele não olhara para trás depois do primeiro vislumbre assustado que
tivera dos fora da lei e do grito mandando que parassem.
Não achou que tivessem alguma chance, não importava o quão próximo a tal vila estivesse.
Haviam cavalgado num ritmo difícil por horas e os cavalos que Alienor lhes dera estavam
cansados. Se aquela fosse uma corrida contra criminosos em montarias descansadas,
provavelmente já estariam mortos. Cerrou os dentes e cavalgou, ignorando a dor na perna e
a agulhada dos cortes reabertos por seu salto nas montanhas, mais cedo naquele dia.
O vento assobiava por ele enquanto cavalgava. Viu Alessan se virar na sela, uma echa no
arco já completamente puxado. O Príncipe atirou para trás uma vez e então outra, em
direção ao crepúsculo, os músculos estirados pelo esforço. Uma tentativa desesperada e
improvável, dada a velocidade do vento.
Dois homens gritaram. Devin olhou rapidamente para trás e viu um deles cair. Um
punhado de flechas chegou bem perto dos três.
— Eles estão mais devagar! — murmurou Erlein, que também lançava um olhar para trás.
— Quanto mais até a vila?
— Pela passagem, mais vinte minutos! Rápido!
Alessan não atirou de novo, curvando-se para conseguir mais velocidade em seu cavalo
cinza. Correram na direção do vento pelo caminho do sol, entre a parte sombria das duas
colinas cobertas de grama, e pelo espaço entre elas.
Eles não saíram.
Onde tinham acabado de fazer a curva invadindo os cumes, havia oito cavaleiros esperando
em linha na fenda, os arcos calmamente apontando para os três.
Pararam os cavalos. Devin olhou por cima do ombro e viu os criminosos que os perseguiam
entrando na passagem atrás deles. Havia um cavalo sem ninguém e um homem segurando o
próprio ombro, onde ainda havia uma flecha cravada.
Ele encarou Alessan e viu o ar desesperado e desafiador no rosto do Príncipe.
— Não seja tolo! — Erlein disparou. — Você não pode fugir e não pode matar tantos
homens.
— Posso tentar — disse, seus olhos passando pelo des ladeiro e pelas montanhas íngremes
que os cercavam, ansioso para achar um jeito de sair dali. Entretanto, tinha parado seu
cavalo e não levantara o arco.
— Direto para a armadilha. Que nal esplêndido para duas décadas de sonho! — sua voz
era corrosivamente amarga, rouca com autorrepreensão.
Mas era verdade, Devin percebeu, tarde demais. Aquela passagem pelas colinas era um
lugar óbvio para uma emboscada e os três sabiam que havia vários fora da lei nas orestas do
sul de Certando, aonde até os mercenários barbadianos raramente iam e das quais homens
de bem nunca chegavam perto ao cair da noite. Por outro lado, não tiveram muita escolha,
considerando o quão longe tiveram de ir e o quão rápido.
Não parecia que chegariam ali. Ou a qualquer lugar. Ainda havia luz o bastante para
discernir os bandidos e a aparência deles não os tranquilizava. Suas roupas podiam ser
escolhidas de maneira aleatória e estar gastas, mas seus cavalos estavam longe das criaturas
abatidas que a maioria dos criminosos tinha. O homem em frente a eles parecia disciplinado
e as armas apontadas para os três eram formidáveis. Essa havia sido, muito claramente, uma
armadilha cuidadosamente montada.
Um homem deu alguns passos à frente da fileira silenciosa.
— Soltem os arcos — disse com uma autoridade tranquila. — Não gosto de falar com
homens armados.
— Nem eu — respondeu Alessan sombriamente, encarando-o. Mas um momento depois,
deixou seu arco cair no chão. Ao lado de Devin, Erlein fez o mesmo.
— E o garoto — falou o malfeitor, ainda cortês. Era um homem grande e de meia-idade,
rosto largo e cheio de barba que se mostrava vermelha na luz minguante. Usava um chapéu
escuro e de aba larga que escondia seus olhos.
— Não carrego um arco — respondeu com simplicidade, largando a espada.
O homem em frente a eles soltou um riso zombeteiro.
— Magian, por que seus homens estavam ao alcance das echas? — o homem barbado
perguntou, mais alto desta vez. Ele não riu. — Você sabia de minhas instruções. Sabe como
fazemos isso.
— Não achei que estivéssemos. — Uma voz irritada soou atrás deles, junto do barulho de
cascos. Seus perseguidores estavam ali. A armadilha estava fechada, pela frente e por trás. —
Ele deu um tiro de longa distância à meia luz e com vento. Ele teve sorte, Ducas.
— Ele não teria tido a chance de ter sorte se você tivesse feito seu trabalho direito. Onde
está Abhar?
— Levou uma flechada na coxa e caiu. Torre foi buscá-lo.
— Desperdício. — O de barba ruiva franziu as sobrancelhas. — Não gosto de desperdícios.
— Era uma presença volumosa e escura em silhueta contra o sol baixo. Logo junto dele, os
outros sete cavaleiros continuavam empunhando os arcos.
— Se desperdícios o ofendem, não vai gostar do trabalho desta noite — Alessan falou. —
Não temos o que lhe dar a não ser nossas armas. Ou nossas vidas, se você é do tipo que mata
por prazer.
— Às vezes — respondeu o de nome Ducas, sem erguer a voz. Ele parecia perturbadoramente calmo, pensou Devin, e em total controle de seu bando. — Meus dois
homens morrerão? Usou flechas envenenadas?
— Nem mesmo contra barbadianos. Por quê? Você usa? — Sua expressão era de desdém.
— Às vezes — o líder falou novamente. — Especialmente contra barbadianos. Estas são as
terras altas, a nal. — Sorriu pela primeira vez, um sorriso frio e feroz. Devin teve a repentina
sensação de que não gostaria de ter as memórias ou os sonhos daquele homem.
Alessan não disse nada. Estava escurecendo na passagem. Devin pousou seu olhar em
Erlein, analisando seu rosto. O mago balançou a cabeça; um minuto, um gesto quase
invisível.
— São muitos — sussurrou. — E além do mais...
— O grisalho é um mago! — veio a voz enfática da linha do outro lado de Ducas.
Um homem de rosto redondo e robusto moveu seu cavalo para ao lado do líder.
— Nem pense nisso — continuou, olhando diretamente para Erlein. — Posso bloquear
qualquer coisa que tente.
Assustado, Devin olhou a mão do homem, mas àquela distância estava escuro demais para
ver se faltavam dois dedos. Mas deviam faltar.
Eles tinham encontrado outro mago, por todo o bem que lhes faria.
— E precisamente quanto tempo acha que um rastreador levaria para achá-los? —
perguntou Erlein, a voz macia. — Com o rastro da magia de nós dois guiando para este
lugar?
— Há uma quantidade su ciente de atiradores apontando para o seu coração e a sua
garganta para garantir que isso não aconteça — o líder interrompeu. — Mas confesso que
ca mais interessante a cada momento. Um arqueiro e um mago cavalgando por aqui num
Dia das Brasas. Não temem os mortos? O que o garoto faz?
— Sou cantor — respondeu, austero. — Devin d’Asoli. Até recentemente, era da
companhia de Menico di Ferraut, se isso significa algo para você.
A questão, obviamente, era manter a conversa de algum jeito. E ele ouvira histórias — mais
para o que os viajantes queriam ouvir — de bandos de bandidos poupando músicos em troca
de uma noite de canções. Então, algo lhe ocorreu:
— Pensou que fôssemos barbadianos, não é? À distância. Por isso preparou a armadilha.
— Um cantor. Um cantor esperto — murmurou Ducas. — Não esperto o su ciente para
car em casa num Dia das Brasas. Claro que achamos que eram barbadianos. Quem na
Palma Oriental, além de barbadianos e criminosos, estaria por aqui hoje? E todos os
bandidos num raio de quarenta quilômetros fazem parte do meu bando.
— Há bandidos e bandidos — Alessan a rmou suavemente. — Mas se está caçando
barbadianos mercenários, você e seus homens têm o mesmo coração que nós. Posso lhe
a rmar, e não minto, Ducas, que se nos parar aqui ou nos matar, vai dar uma ajuda aos
barbadianos e a Ygrath, que eles nunca nem sonhariam em lhe pedir. — Houve, não com
surpresa, silêncio. O vento passava cortante, mexendo as gramíneas jovens que cresciam no escuro.
— Você se tem em alta conta — disse Ducas demoradamente, pensativo. — Talvez eu deva
saber por quê. Eu acho que é hora de me falar exatamente quem vocês são e de onde estão
vindo num entardecer do Dia de Brasas, e então tirarei minhas próprias conclusões.
— Meu nome é Alessan. Estou indo para oeste. Minha mãe está doente e pediu que eu
fique ao seu lado.
— Que dedicado de sua parte — disse Ducas. — Mas um nome não me diz nada e o oeste
é bem grande, meu amigo arqueiro. Quem é você e de onde vem? — A voz era o desenrolar
de um chicote dessa vez. Devin pulou. Atrás de Ducas, sete cordas de arco foram puxadas.
Devin, com o coração acelerado, viu Alessan hesitar. O sol já tinha quase sumido agora —
era só um disco vermelho cortado ao meio pelo horizonte além da passagem. O vento parecia
soprar mais forte, prometendo uma noite fria depois daquele primeiro dia de primavera.
Havia frio em Devin também. Olhou para o mago e descobriu que ele também o encarava,
como que esperando. Alessan ainda não falara nada. Ducas se mexeu signi cativamente em
sua sela.
Devin engoliu em seco e, sabendo que não importava o quão difícil fosse para ele, seria
mais fácil do que para Alessan, respondeu:
— Tigana. Ele é de Tigana e eu também.
Ele teve o cuidado de olhar para o bandido bruxo enquanto falava, e não para Ducas ou
para qualquer um dos outros. Viu pelo canto de olho que Alessan fazia o mesmo, para não
ter que ver o olhar vazio de incompreensão que sabiam que se seguiria. O mago seria
diferente. Bruxos poderiam ouvir o nome.
Um murmúrio começou entre aqueles homens, à frente e atrás deles. E então um deles
falou alto em meio às sombras crepusculares daquele lugar solitário. A voz vinha da linha de
trás.
— Pelo sangue do deus! — o grito veio da alma. Devin se virou. O homem desmontou e
caminhou rapidamente para car frente a frente com eles. Viu que ele era pequeno, não
muito maior que ele mesmo, em torno de 30 anos ou um pouco mais, e que se movia de
forma estranha, claramente com dor, com a flecha de Alessan presa em seu braço.
Ducas olhava para seu mago.
— Sertino, o que é isso? — perguntou, sua voz num tom afiado. — Eu não...
— Feitiçaria — respondeu abruptamente.
— O quê? Dele? — acenou com a cabeça para Erlein.
— Não, não dele. — Foi o homem machucado quem falou, seus olhos não deixando o
rosto de Alessan. — Não desse pobre mago. Isso é feitiçaria de verdade. É o poder de
Brandin de Ygrath que o impede de ouvir o nome.
Ducas tirou o chapéu num movimento raivoso, revelando uma cúpula careca com uma orla
de cabelos vermelhos.
— E você, Naddo? Como escuta isso, então?
O ladrão no chão trocou vacilante de um pé para o outro antes de responder:
— Porque também nasci lá e sou imune ao feitiço; ou outra vítima dele, como preferir. —
Devin podia escutar a tensão na voz dele, como se fosse alguém se agarrando fortemente ao
autocontrole. Ele ouviu o homem chamado Naddo falar, olhando para Alessan:
— Perguntaram-lhe seu nome e você deu somente parte dele. Vai nos falar o resto? Vai me
falar? — Era difícil ver seus olhos agora, mas sua voz contava uma velha história.
Alessan estava sentado no cavalo com uma comodidade que, mesmo depois de um dia na
sela, parecia negar até mesmo a simples sugestão de cansaço ou a tensão de onde estavam.
Mas então sua mão direita levantou e passou, inconscientemente, por seu já embaraçado
cabelo e Devin, notando o gesto familiar, entendeu que o que quer que ele mesmo estivesse
sentindo, estava dobrado e redobrado no homem que seguia.
E assim, na quietude naquele lugar, sendo os únicos outros barulhos o assobio do vento
entre as colinas e a agitação dos cavalos sobre a grama, ele ouviu:
— Meu nome é Alessan di Tigana bar Valentin. Se é tão velho quanto aparenta, Naddo di
Tigana, sabe quem eu sou.
Com os cabelos do pescoço arrepiados e um calafrio que não podia controlar, viu Naddo
cair de joelhos no chão gelado antes mesmo da última palavra ser dita.
— Oh, meu Príncipe! — o ferido exclamou, com uma voz rouca. E cobrindo seu rosto com
a mão boa, ele chorou.
— Príncipe? — questionou Ducas muito suavemente. Houve um movimento de inquietude
entre os bandidos. — Sertino, explique-me isso!
Sertino, o mago, olhou de Alessan para Erlein e nalmente para o homem ferido. Uma
expressão curiosa, quase aterrorizada, cruzou sua face redonda.
— Eles são de Baixa Corte. Tinha um nome diferente antes de Brandin de Ygrath chegar.
Ele usou sua feitiçaria para afastar esse nome. Só pessoas nascidas lá e bruxos, graças à sua
própria magia, podem ouvir o verdadeiro nome. É isso que está acontecendo aqui.
— E “Príncipe”? Naddo o chamou assim.
Ele cou quieto. Olhou para Erlein, aquele olhar estranho e apreensivo ainda em seu rosto.
Perguntou:
— Isso é verdade?
Erlein di Senzio, com um meio sorriso irônico, respondeu:
— Só não o deixe cortar seu cabelo, irmão. A menos que goste de ser um escravo careca.
A boca de Sertino se escancarou. Ducas bateu em seu joelho com o chapéu.
— Agora essa — estourou. — Não entendo. Tem muita coisa aqui que não entendo. Quero
explicações, de todos vocês! — sua voz soou severa, muito mais alta do que antes. Mas não
olhava para Alessan.
— Eu entendo bem o su ciente, Ducas — ouviu-se de trás deles. Era Magian, o capitão do
grupo que os havia guiado para a armadilha. Moveu seu cavalo adiante enquanto se viravam
para encará-lo. — Entendo que zemos nossa fortuna hoje. Se ele é o príncipe de uma província que Brandin odeia, tudo o que precisamos fazer é levá-lo para oeste, para Forte
Forese, pela fronteira e entregá-lo para os ygratheanos lá. Com um mago para servir. E quem
sabe um deles não gosta de garotos em sua cama. Garotos que cantam. — Seu sorriso era
feroz, perdido nas sombras. Ele acrescentou: — Haverá recompensas. Terras. Talvez até...
E ele não disse mais nada. Nunca. Sem acreditar, Devin viu a boca de Magian se abrir e
seus olhos se arregalarem brevemente. Ele caiu devagar de seu cavalo, com o estrondo da
espada e do arco batendo no chão ao lado de Erlein.
Havia um punhal de cabo longo em suas costas. Um dos ladrões da leira atrás dele, sem
pressa alguma, saiu do cavalo e tirou a adaga. Limpou-a cuidadosamente na roupa do
homem morto antes de colocá-la de volta em seu cinto.
— Não foi uma boa ideia, Magian — falou calmamente, endireitando-se e olhando para
Ducas. — Realmente não foi uma boa ideia. Não somos informantes, não servimos aos
tiranos.
Ducas en ou seu chapéu de volta na cabeça, visivelmente lutando por controle. Respirou
fundo.
— Acontece que concordo. Mas também acontece, Arkin, que temos uma regra aqui sobre
usar armas uns contra os outros.
Arkin era muito alto, quase esquelético, e seu rosto longo estava pálido, Devin notou,
mesmo contra as sombras do crepúsculo.
— Sei disso, Ducas. Isso foi um desperdício. Eu sei. Você terá que me perdoar.
Ele não respondeu nada por um longo tempo. Ninguém mais também o fez. Devin,
passando o olhar pelo homem morto, viu os dois magos olhando um para o outro nas
sombras. Arkin ainda olhava para Ducas, que finalmente quebrou o silêncio:
— Você tem sorte de eu concordar com você — disse.
Arkin balançou a cabeça.
— Não estaríamos juntos há tanto tempo se fosse diferente.
Alessan elegantemente desmontou de seu cavalo. Caminhou até Ducas, ignorando os arcos
ainda apontados pra ele.
— Se estão caçando barbadianos — disse, tranquilamente —, creio que sei o motivo. Estou
fazendo o mesmo, à minha maneira — hesitou. — Podem fazer como seu amigo morto
sugeriu: entregar-me para Ygrath e, sim, acredito que receberiam uma recompensa. Ou
podem nos matar aqui e terminar com isso. Podem também nos deixar tomar nosso próprio
caminho daqui. Mas há outra coisa, um tanto diferente a se fazer.
— Que seria? — Ducas parecia ter recuperado seu autocontrole. Seu tom estava novamente
calmo como no começo.
— Juntem-se a mim. No que procuro fazer.
— Que seria?
— Tirar ambos os tiranos da Palma antes que o verão chegue.
Naddo de repente ergueu o olhar, um brilho em sua face.
— É sério, meu senhor? Podemos fazer isso? Mesmo agora?
— Há uma chance — Alessan disse. — Especialmente agora. Pela primeira vez, há uma
chance. — Olhou novamente para Ducas. — Onde você nasceu?
— Tregea — o homem respondeu, depois de uma pausa. — Nas montanhas.
Levou um momento para Devin pensar em como as coisas haviam se invertido
completamente ali; que Alessan era quem fazia essa pergunta agora. Sentiu algo se mexer
dentro de si, esperança renovada e orgulho.
O Príncipe balançava a cabeça.
— Como eu suspeitava. Ouvi histórias sobre o ruivo Capitão Ducas, um dos líderes de
Borifort em Tregea durante o cerco de barbadianos lá. Nunca o acharam depois que o forte
caiu — hesitou. — Não pude deixar de reparar na cor de seu cabelo.
Por um momento os dois permaneceram imóveis como uma pintura, um no chão e outro
em seu cavalo. Então, um tanto quanto subitamente, Ducas di Tregea sorriu.
— O que resta do meu cabelo — murmurou ironicamente, tirando o chapéu novamente
em um gesto amplo.
Soltando as rédeas, desceu do cavalo e, dando alguns passos à frente, estendeu uma das
mãos para Alessan. Ele respondeu a ambos — o sorriso e a mão — igualmente. Devin viu-se
ofegando com a onda de alívio que o invadiu e então comemorou animadamente, no
máximo de sua voz, com vinte bandidos numa passagem escura de Certando.
Porém, o que percebeu, mesmo enquanto as comemorações aumentavam, foi que nenhum
dos dois magos gritava. Erlein e Sertino permaneciam sentados em seus cavalos muito
quietos, quase rígidos, como que se concentrando em alguma coisa. Eles se encararam, as
expressões igualmente sombrias.
E por ter percebido, por parecer estar se tornando o tipo de homem que notava coisas como
aquelas, foi o primeiro a car quieto e instintivamente ergueu a mão para silenciar os outros.
Alessan e Ducas abaixaram as mãos gradualmente e, conforme o silêncio retomava ao local,
todos olharam para os magos.
— O que aconteceu? — falou Ducas.
Sertino se virou para ele.
— Rastreador, a noroeste de nós, bem próximo. Eu acabei de senti-lo rastreando. Ele não
vai me achar, não faço mágicas há um bom tempo.
— Eu z — disse Erlein di Senzio. — Hoje mais cedo, na Passagem de Braccio. Só um
feitiço de luz, uma barreira para uma pessoa. Evidentemente foi o su ciente. Devia ter um
rastreador em um dos fortes do sul.
— Quase sempre há — Sertino replicou friamente.
— O que faziam na Passagem de Braccio? — disse Ducas.
— Colhíamos ores — Alessan falou. — Explico depois. Agora temos barbadianos com que
lidar. Quantos estarão com o rastreador?
— Não menos que vinte. Provavelmente mais. Temos um acampamento nas colinas ao sul daqui. Devemos correr para lá?
— Vão nos seguir — a rmou Erlein. — Eles me tem marcado. O rastro da minha magia vai
me marcar por pelo menos mais um dia.
— Eu não quero me esconder de novo, de qualquer jeito — Alessan disse calmamente.
Devin rapidamente se virou para olhá-lo. Ducas fez o mesmo. Naddo se levantou,
desajeitado.
— O quão bons, exatamente, são seus homens? — o Príncipe questionou, com desafio tanto
em seu tom como em seus olhos acinzentados.
E nas sombras onde estava quase completamente escuro, Devin viu os dentes do líder dos
ladrões tregeanos aparecerem subitamente.
— Bons o su ciente e de sobra para lidar com escória barbadiana. É mais do que jamais
enfrentamos, mas nunca lutamos junto de um príncipe. Acho — acrescentou em tom
reflexivo — que de repente também estou ficando cansado de me esconder.
Devin procurou os magos com o olhar. Estava difícil ver suas feições no escuro, mas Erlein
disse, com um tom de voz duro:
— Alessan, o rastreador terá que ser morto imediatamente ou ele mandará uma imagem
deste lugar para Alberico.
— Ele será — respondeu Alessan, com tranquilidade. E em sua voz também havia uma
nova nota. A presença de algo que Devin nunca ouvira. Um segundo depois, ele percebeu
que era a morte.
A capa de Alessan balançou numa rajada de vento. Muito deliberadamente, ele cobriu o
rosto com seu capuz.
O problema para Devin é que o rastreador de Alberico tinha, na verdade, 12 anos de idade.
Enviaram Erlein, cavalgando a oeste para fora da passagem, como isca. Era ele quem estava
sendo seguido. Ele trazia Sertino di Certando, o outro mago, e dois outros homens com eles,
sendo um deles Naddo, ferido, que insistira em fazer algo de útil mesmo não podendo lutar.
Removeram a echa de seu braço e o enfaixaram. Era óbvio que aquilo não era fácil para
ele, mas era ainda mais claro que, na presença de Alessan, não estaria disposto a ceder.
Pouco depois, sob as estrelas e a crescente Vidomni, os barbadianos adentraram a
passagem. Havia vinte e cinco deles além do rastreador. Seis carregavam tochas, o que
facilitava as coisas. Mas não para eles.
As echas de Alessan e Ducas encontraram-se no peito do rastreador, disparadas das
encostas dos dois lados do des ladeiro. Onze dos mercenários caíram sob aquela primeira
chuva de echas, antes que Devin percebesse que galopava furiosamente, com Alessan e
meia dúzia de outros homens, saindo de seus esconderijos na passagem. Eles se moviam de
modo a fechar a saída ocidental, enquanto Ducas e nove homens fechavam a oriental, por
onde haviam entrado os barbadianos.
E então, naquela Noite das Brasas, na companhia de foras da lei nas altas terras de Certando, longe de seu lar perdido, Alessan bar Valentin, Príncipe de Tigana, lutou a
primeira batalha de verdade em sua longa guerra de retorno. Após os obscuros anos de
manobras, de coleta sigilosa de informações e de eventos delicadamente causados, ele
empunhou sua espada contra as forças do Tirano naquela passagem iluminada pela lua.
Sem subterfúgios, sem mais manipulações secretas do canto do palco. Aquela era uma
batalha, pois chegara a hora.
Marius de Quileia lhe zera uma promessa naquele dia, indo contra toda a sabedoria e
experiência, e muito além da esperança. E com a promessa de Marius, tudo mudara. A
espera acabara. Ele poderia afrouxar as rígidas amarras que mantiveram seu coração preso
por todos aqueles anos. Naquela noite e naquela passagem, ele poderia matar: em memória
de seu pai, de seus irmãos e de todos os mortos do Rio Deisa e depois, naquele ano em que
não lhe fora permitido morrer.
Eles o retiraram e esconderam-no em Quileia, ao sul das montanhas, com Marius, na época
um capitão da guarda da Alta Sacerdotisa. Um homem com suas próprias razões para cuidar
de um jovem príncipe e escondê-lo nas terras ao norte. Aquilo ocorrera quase dezenove anos
antes, quando começaram os segredos.
Estava farto de se esconder. A hora de fugir acabara; a temporada de guerra começara.
Verdade, eram barbadianos, e não ygratheanos, os soldados que empunhavam espadas
contra eles, mas no m, dava tudo no mesmo. Ambos os tiranos eram a mesma coisa. Ele o
dissera por todos aqueles anos, desde que viera ao norte da península com Baerd. Era uma
verdade forjada como o metal, na dura fornalha de seu coração. Eles deveriam derrubar os
dois, ou não estariam mais perto da liberdade do que antes.
E na Passagem de Braccio, naquela manhã, a tomada começara. A pedra angular fora
colocada em seu lugar. Naquela noite, naquele des ladeiro escuro, ele pôde libertar sua
paixão reprimida, suas próprias e longas memórias de perda, e erguer o braço que
empunhava a espada.
Devin, esforçando-se para acompanhar o Príncipe, cavalgou para seu primeiro combate
com pânico puro e alegria lutando por controle dentro de seu peito. Ele não gritou, como
zera a maioria dos fora da lei; concentrava-se o máximo que conseguia em ignorar a dor em
sua perna ferida. Agarrou a espada negra que Baerd lhe comprara, segurando-a com a
lâmina curva para cima, como fora ensinado naquelas aulas de inverno que pareciam
inimaginavelmente distantes dos acontecimentos daquela noite.
Viu Alessan cavalgar diretamente para as leiras dos mercenários, inabalável como uma de
suas echas, como se deixasse para trás, com aquele único ato de resposta direta, todos os
anos em que tal coisa não lhe fora permitida.
Freneticamente, cerrando os dentes, Devin seguia Alessan. Mas estava sozinho, a uma boa
distância atrás, quando um barbadiano de barba aloirada surgiu ao seu lado, enorme em seu
cavalo. Devin gritou, com o susto. Apenas algum instinto cego de sobrevivência e os re exos
com que nascera salvaram sua vida. Puxou o cavalo com a nco para a esquerda, virando-se para um espaço que notara, e então se abaixou para a direita, o mais próximo do chão que
conseguia, lançando-se para cima com toda a força. Sentiu uma dor lancinante na perna já
ferida e quase caiu. O movimento da lâmina barbadiana cortou o ar vazio, onde a cabeça de
Devin estivera. Um instante depois, Devin sentiu a própria lâmina recurvada perfurar a
armadura de couro e a carne.
O barbadiano gritou, um som líquido e borbulhante. Ele balançava freneticamente sobre
sua montaria, e sua espada se soltou de sua mão. Trouxe sua mão à boca, num gesto
curiosamente infantil. Então, como uma árvore da montanha que cai lentamente, ele
deslizou sobre a sela e caiu no chão.
Devin já puxara sua espada de volta. Dando meia-volta em seu cavalo, procurava por
adversários. Mas ninguém vinha. Alessan e os demais estavam à sua frente, avançando sobre
os mercenários, indo ao encontro do grupo de Ducas e Arkin, ao leste.
Devin percebeu que estava quase acabado. Não havia nada, de verdade, que pudesse fazer.
Com uma complexa mistura de emoções que ele nem sequer tentara entender naquele
momento, observava enquanto a espada do Príncipe se erguia e descia três vezes, e ele viu
três barbadianos morrerem. Uma a uma, as seis tochas caíram no chão e foram apagadas. E
então — apenas alguns momentos depois de cavalgarem pela passagem, conforme parecera a
Devin — o último dos barbadianos fora abatido à espada.
Foi então que ele viu o que sobrara do rastreador e percebeu o quão jovem ele era. O corpo
fora horrivelmente pisoteado no confronto. E repousava, retorcido e esticado de forma não
natural. De algum modo, o rosto fora poupado, embora para Devin, que observava, aquela
fosse a pior parte. As duas echas ainda estavam cravadas no corpo da criança, embora a
parte de trás de uma delas tivesse quebrado.
Devin desviou o olhar. Acariciou o cavalo que Alienor lhe dera e sussurrou para ele. Então
se forçou a voltar para o homem que matara. Aquilo não era o mesmo que o soldado
sonolento, na propriedade Nievolene. Não era, dizia para si mesmo. Aquele fora um
combate aberto, o barbadiano possuía arma e armadura e brandira sua pesada espada
buscando tirar a vida de Devin. Tivessem os barbadianos e o rastreador alcançado a ele,
Alessan e Erlein, sozinhos no campo, Devin não tinha ilusões, nenhuma que fosse, sobre
qual teria sido seu destino.
Não era o mesmo que no celeiro. Ele repetiu para si mais uma vez, conforme tomava
consciência da sinistra e desconcertante calma que parecia haver descido sobre a passagem.
O vento ainda soprava, tão frio quanto antes. Ele olhou para cima e percebeu, tardiamente,
que Alessan cavalgara em silêncio até seu lado, e também encarava o homem que Devin
havia matado. Ambos os cavalos bufaram, inquietos pelo frenesi passado e pelo cheiro de
sangue.
— Devin, acredite, eu sinto muito — murmurou Alessan, suavemente, para que ninguém
mais o ouvisse. — É mais difícil da primeira vez, e eu não lhe dei chance de se preparar.
Devin balançou a cabeça. Sentia-se exaurido, quase entorpecido.
— Você não teve muita escolha. Talvez tenha sido melhor assim. — Ele limpou a garganta,
sem jeito. — Alessan, você tem coisas maiores com que se preocupar. Eu escolhi livremente
na floresta Sandreni, no último outono. Você não é responsável por mim.
— De certo modo, sou.
— Não de um modo que importe. Tomei minha própria decisão.
— Amizade não importa?
Devin permaneceu em silêncio, repentinamente acanhado. Alessan fazia isso com ele. Após
um instante, o Príncipe completou, quase como uma reflexão tardia:
— Eu tinha a sua idade quando voltei de Quileia.
Por um momento, pareceu que ele diria algo mais, mas não o fez. Devin imaginou o que o
Príncipe queria dizer, e algo se acendeu calmamente dentro dele, como uma vela.
Por mais um instante, olhou para baixo, para o homem morto. Apenas a luz pálida de
Vidomni crescente já era o suficiente para revelar a dor fixa em seu rosto. Devin disse:
— Eu escolhi livremente, e compreendo a necessidade, mas não acho que irei me
acostumar com isso.
— Eu sei que nunca me acostumei — disse Alessan. Ele hesitou. — Qualquer um de meus
irmãos seria melhor naquilo que me mantiveram vivo para fazer.
Devin se voltou, tentando ler a expressão no rosto do Príncipe nas sombras. Após um
momento, disse:
— Eu nunca os conheci, mas você me permite dizer que eu duvido? De verdade, eu
duvido, Alessan.
Após um instante, o Príncipe tocou seu ombro.
— Obrigado. Temo que haja aqueles que discordariam. Mas obrigado, ainda assim.
E com aquelas palavras, pareceu se lembrar de algo ou ser lembrado de algo. Sua voz
mudou.
— É melhor irmos. Devo falar com Ducas, e então teremos que nos encontrar com Erlein e
prosseguir. Temos um longo caminho a percorrer. — Ele olhou para Devin, analisando-o. —
Você deve estar exausto. Eu deveria ter perguntado antes: como está sua perna? Você
consegue cavalgar?
— Estou bem — protestou Devin, rapidamente. — Claro que consigo cavalgar.
Alguém atrás deles riu, ironicamente. Ambos se viraram. E viram que Erlein e os outros
haviam, na verdade, retornado à passagem.
— Diga-me — disse o mago para Alessan, com o deboche agudo na voz —, o que você
esperava que ele dissesse? É claro que ele irá dizer que consegue cavalgar. Ele cavalgaria a
noite toda, moribundo, por você. E este aqui também — gesticulou em direção a Naddo,
atrás dele —, conhecendo-o há menos de uma hora. Eu imagino, Príncipe Alessan, como
você se sente sabendo que tem tamanho poder sobre os corações dos homens?
Ducas chegara até eles enquanto Erlein falava. Mas não dissera nada, e estava escuro
demais, sem as luzes das tochas, para que vissem a feição de qualquer um deles claramente. Era necessário julgar pelas palavras, e pelas entonações. Alessan disse, baixo:
— Acho que você sabe minha resposta para isso. De qualquer modo, não tendo a pensar
bem demais a meu respeito enquanto tenho você por perto, para apontar tais coisas para
mim. — Ele parou, e então acrescentou: — Que a Tríade evite que você algum dia se
voluntarie para cavalgar a noite toda por qualquer motivo que não seja você mesmo.
— Eu — disse Erlein, seco — não tenho mais escolha em assuntos como esses. Ou você se
esqueceu?
— Não me esqueci. Mas não pretendo repetir esse debate agora, Erlein. Ducas e seus
homens acabaram de colocar suas vidas em risco para salvar a sua. Se você...
— Para salvar a minha! Eu nunca estaria em risco se você não tivesse me obrigado a...
— Erlein, chega! Temos muito que fazer, e não estou com vontade de discutir.
Na escuridão, Devin viu Erlein fazer uma debochada reverência sobre o cavalo.
— Eu humildemente imploro seu perdão — disse ele, em tom exagerado. — O senhor
realmente deveria me informar quando estiver com vontade de discutir. O senhor entenderá
que esse é um assunto de alguma importância para mim.
Alessan permaneceu em silêncio pelo que pareceu um longo tempo. Então, calmamente,
disse:
— Acho que consigo adivinhar o que está por trás disso. Eu compreendo. É por encontrar
outro mago, não é? Com Sertino aqui, você sente mais o que aconteceu com você.
— Não finja que me entende, Alessan! — disse Erlein, furiosamente.
Ainda com calma, Alessan respondeu:
— Muito bem, então, não o farei. De certa maneira, eu talvez nunca o compreenda, nem o
modo como viveu sua vida. Eu lhe disse isso na noite em que nos conhecemos. Mas, por
enquanto, esse assunto está encerrado. Estarei pronto para discuti-lo no dia em que os
tiranos tiverem partido da Palma. Não antes.
— Você estará morto até lá. Nós dois estaremos.
— Não toque nele! — soltou Alessan, bruscamente. Tardiamente, Devin viu que Naddo
erguera sua mão boa para acertar o mago. Com mais calma, o Príncipe completou. — Se nós
dois estivermos mortos, então nossos espíritos poderão brigar nos Salões de Morian, Erlein.
Até lá, já chega. Teremos muito que fazer juntos, nas próximas semanas.
Ducas tossiu.
— Quanto a isso — disse ele —, nós dois também temos que conversar. Ainda há algumas
coisas que eu quero saber, antes de ir além do trabalho desta noite, por mais que tenha me
agradado.
— Eu sei — disse Alessan, voltando-se para ele na escuridão. Ele hesitou. — Você cavalgará
conosco por algum tempo? Somente até a vila. Você e Naddo, por causa de seu braço.
— Por que até lá, e por que por causa do braço? Não entendo — questionou Ducas. —
Você deveria saber que não somos bem-vindos na vila. Por razões óbvias.
— Imagino. Não importa. Não numa Noite das Brasas. Você entenderá quando chegarmos lá. Venha. Quero que meu bom amigo Erlein di Senzio veja algo. E imagino que Sertino deva
vir conosco.
— Eu não perderia isso por todo o vinho azul de Astibar — disse o rechonchudo mago de
Certando. Era interessante, e em outro momento seria até mesmo divertido, notar que ele
mantinha uma distância saudável do Príncipe. As palavras que falava eram caricatas, mas seu
tom era mortalmente sério.
— Então, venha — disse Alessan, bruscamente. Ele voltou seu cavalo para Erlein, quase
esbarrando no outro homem, e partiu para fora da passagem, a oeste. Aqueles que ele
nomeara os seguiram. Ducas falou algumas ordens especí cas para Arkin, baixo demais para
que Devin ouvisse. Arkin hesitou por um instante, claramente consternando, esperando ir
com seu líder. Mas então, sem dizer nada, voltou seu cavalo na outra direção.
Quando Devin olhou, um instante depois, viu que os fora da lei vasculhavam os corpos dos
barbadianos à procura de armas. Voltou-se para olhar para trás mais uma vez, mas eles já
estavam em terreno aberto, com as colinas sombrias ao sul e ao leste, e uma planície de
gramíneas desenrolando-se ao norte deles. A entrada da passagem não podia sequer ser
vista. Arkin e os outros também partiriam em breve, Devin sabia, deixando apenas os
mortos. Apenas os mortos, para serem recolhidos: um deles, morto por sua própria espada, e
o outro, uma criança.
[…]
Catriana não conseguia enxergar a estrada enquanto subia o declive do des ladeiro, mas pelos sons distantes e pelo modo como Baerd e Sandre permaneciam de pé sobre a grama, junto às árvores, rígidos enquanto observavam, ela sabia que algo estava errado.
Concluíra, muito tempo antes, que os homens eram muito piores do que as mulheres em
esconder seus sentimentos em situações como aquela.
Seu cabelo ainda estava molhado depois de ter nadado na lagoa — seu lugar favorito, pelo
qual passavam sempre que iam ou voltavam no percurso entre Ferraut e Certando. Apressou
o passo para ver o que estava acontecendo.
Os dois não falaram nada quando ela apareceu ao seu lado. A carroça fora puxada até uma
sombra, na estrada norte-sul, e os dois cavalos foram deixados livres para pastar. O arco de
Baerd e sua aljava repousavam sobre a grama ao lado das árvores, fáceis de serem
apanhados, se a necessidade surgisse. Ela olhou para a estrada e viu as tropas de barbadianos
passando, marchando e cavalgando, erguendo uma pesada nuvem de poeira ao seu redor.
— Mais homens da Terceira Companhia — disse Sandre, a raiva fria na voz.
— Parece que todos estão indo, não é? — murmurou Baerd, amargo.
Algo que era bom, mais do que bom: era exatamente o que eles queriam. A raiva e a mágoa
eram quase desnecessárias; elas pareciam surgir como algum instinto masculino instigado
pela proximidade do inimigo. Catriana sentia vontade de chacoalhar os dois.
Era tão óbvio, na verdade. O próprio Baerd explicara isso para ela, para Sandre e para Alienor de Barso no dia em que Alessan se encontrou com Marius de Quileia, nas
montanhas, e cavalgou para oeste com Devin e Erlein.
E enquanto ouvia, naquele dia, forçando-se a manter a compostura na presença de Alienor,
Catriana en m compreendera o que Alessan queria dizer, todo aquele tempo, quando falara
que teriam de esperar até a primavera. Estiveram esperando Marius dizer sim ou não. Para
dizer se arriscaria sua própria coroa instável e sua vida por eles. E naquele dia, na Passagem
de Braccio, ele dissera que sim. Baerd lhes contou um pouco, bem pouco, sobre o motivo.
Dez dias depois, ela, Baerd e Sandre permaneciam em vigia no exterior do Forte Ortiz,
quando os emissários vieram cavalgando ao longo da estrada, carregando a bandeira de
Quileia, e foram recebidos com honras em frente às muralhas, escoltados para dentro pelos
barbadianos.
Na manhã seguinte, os homens de Quileia continuaram sua cavalgada, sem pressa,
descendo a estrada que leva ao norte. Duas horas após sua partida, os portões se abriram
novamente, e seis homens deixaram o forte, extremamente apressados. Um deles — fora
Sandre quem notara — era o próprio Siferval, capitão da Terceira Companhia.
— Está feito — dissera Baerd, com uma espécie de temor na voz. — Eu não posso acreditar,
mas acho que conseguimos!
Pouco mais de uma semana depois, as primeiras tropas começavam a se deslocar, e
souberam que ele estava certo. E não foi até alguns dias mais tarde, na vila de artesãos no
norte de Certando, enquanto compravam pinturas e roupas, que descobriram, tarde demais,
o que Brandin de Ygrath fizera em Chiara. O Reino da Palma Oriental.
— Você gosta de apostas? — perguntara Sandre a Baerd. — Os dados já estão rolando
agora e ninguém poderá segurá-los ou detê-los até pararem.
Baerd não respondeu. Mas sua expressão, surpresa, quase chocada, fez com que Catriana
desse um passo à frente e colocasse sua própria mão sobre a de Baerd, o que realmente não
era algo típico dela.
Mas tudo mudara, ou estava mudando. Baerd não era o mesmo desde os Dias das Brasas e
sua estadia no Castelo de Barso. Algo acontecera com ele ali também, mas essa parte ele não
lhe explicara. Alessan partira, junto com Devin — e embora odiasse admitir, ela sentia quase
tanta falta dele quanto do Príncipe. Até seu papel ali, no leste, se alterara completamente.
Eles haviam esperado pelos emissários nas terras altas, caso algo desse errado. Mas agora
Baerd continuava conduzindo-os rapidamente, de cidade em cidade, parando para falar com
alguns homens e mulheres sobre os quais Catriana nunca havia ouvido falar, dizendo-lhes
para ficarem preparados, que poderia haver uma rebelião no verão.
E para alguns deles, não muitos, mas apenas um pequeno grupo, sua mensagem era
bastante específica: Senzio. Que seguissem para o norte, até Senzio, antes do verão. Leve uma
arma, se puder.
E foram aquelas últimas palavras que zeram Catriana perceber, de forma mais clara e
aguda, que o momento de agir havia realmente chegado. Era hora. Nada de agitações secretas ou de vigiar enquanto as coisas aconteciam. Os acontecimentos tinham um foco
agora, que era ou viria a ser em Senzio, muito em breve, e estavam indo para lá. O que
aconteceria, ela ainda não sabia. E se Baerd sabia, não contara.
O que ele lhe contara, e também a Sandre, eram os nomes de certas pessoas.
Vários nomes. Nomes que mantinha na memória, alguns por mais de uma década. Pessoas
que estavam com eles nisso, em quem poderiam con ar. Quem precisava saber, ali nas
províncias governadas por Barbadior, que o movimento das tropas de Alberico era o sinal
que esperavam para estarem, en m, prontos. Para que assistissem ao desenrolar dos fatos e
estivessem preparados para agir.
Sentavam-se juntos à noite, os três, ao redor de uma fogueira sob as estrelas ou num canto
isolado de uma estalagem, em algum lugarejo ou vila, e Baerd recitava os nomes que
precisariam conhecer.
Foi apenas na terceira noite que Catriana percebeu, pouco antes de pegar no sono, que a
razão pela qual precisavam conhecer aqueles nomes era para o caso de Baerd morrer, já que
Alessan estava no distante oeste.
— Ricaso bar Dellano — dissera Baerd. — Um tanoeiro em Marsilian, a primeira vila ao sul
do Forte Ciorone. Nasceu em Avalle. Não pôde ir para a guerra porque é coxo. Falem com
ele. Ele não poderá ir até o norte, mas conhece outros por perto e irá espalhar a informação e
guiar nosso povo naquele distrito, se surgir a necessidade de um levante.
— Ricaso bar Dellano — repetia ela. — Em Marsilian.
— Dorrena bren Cullion. Em Delonghi, dentro da fronteira de Tregea, na estrada principal
que sai de Ferraut. Ela é um pouco mais velha do que você, Catriana. O pai morreu no
Deisa. Ela sabe quem avisar.
— Dorrena — murmurou Sandre, concentrando-se, enquanto juntava as mãos ossudas. —
Em Delonghi.
E Catriana se surpreendia com a quantidade de nomes que parecia haver, quantas vidas
Baerd e Alessan haviam tocado em suas viagens, durante doze anos de movimentação desde
o retorno de Quileia, preparando a si mesmos e àqueles outros para um período, uma
estação, um momento no futuro — que era agora. O momento que haviam vivido para ver. E
o coração de Catriana se enchia então de esperança, enquanto sussurrava os nomes de novo
e de novo, para ela mesma, como se fossem talismãs de poder.
Eles haviam cavalgado durante as semanas seguintes, em meio às ores da primavera, num
ritmo descuidado, mal disfarçando seus papéis como mercadores. Fazendo transações ruins e
apressadas por onde paravam, indispostos a permanecerem para conseguir barganhas
melhores. Parando apenas para encontrar o homem ou mulher que era importante naquela
vila ou conjunto de fazendas, aquele que conhecia os demais e levaria o aviso adiante.
Eles estavam perdendo dinheiro, mas Alienor lhes dera astins su cientes. Catriana, sendo
honesta consigo mesma, percebeu que ainda relutava em aceitar o papel que aquela mulher
desempenhara nas ações de Alessan durante tantos anos. Anos nos quais ela própria crescia em ignorância, uma criança numa vila de pescadores de Astibar.
Certa vez, Baerd deixou-a fazer o contato em uma das cidades. A mulher era uma tecelã,
bastante conhecida por seus talentos. Catriana encontrara a casa na beira da vila. Dois
cachorros latiram para ela, enquanto se aproximava, sendo acalmados pela suave voz que
vinha de dentro. No interior, Catriana encontrou uma mulher apenas um pouco mais nova
que sua mãe. Certi cou-se de que estavam sozinhas e, conforme instruída por Baerd,
mostrou-lhe o anel de gol nho e lhe deu o nome de Alessan e a mensagem. A mesma
mensagem de prontidão dos outros locais. Então, cuidadosamente disse o nome de dois
homens e deu a segunda mensagem de Baerd: Senzio. Verão. Diga para estarem armados, se
conseguirem.
A mulher empalidecera, pondo-se repentinamente de pé quando Catriana começou a falar.
Quando a segunda mensagem foi concluída, ela permaneceu ainda um momento sem
reação, para então enfim dar um passo à frente e beijar a boca de Catriana.
— Que a Tríade abençoe você e cuide de vocês três — disse ela. — Eu não achei que viveria
para ver esse dia.
Ela chorava; Catriana sentiu um gosto salgado em seus lábios. Ela caminhara de volta para
Baerd e Sandre. Eles acabavam de concluir uma compra de doze barris de cerveja de
Certando. Uma transação lamentável.
— Estamos indo para o norte, seus tolos — exclamou ela, exasperada, tomada por seus
instintos comerciais. — Eles não gostam de cerveja em Ferraut! Vocês sabem disso.
— Então teremos de beber nós mesmos — disse Sandre, subindo em seu cavalo e rindo.
Baerd, que tão raramente costumava rir, mas que mudara bastante desde os Dias das Brasas,
começou a gargalhar. E então, sentando-se ao lado dele na carroça enquanto iam para fora
da cidade, ela acompanhou o riso, sentindo a brisa fresca que passava por seu cabelo e, ao
que parecia, por seu coração.
Naquele mesmo dia, no começo da tarde, chegaram ao pequeno vale que ela amava e
Baerd, lembrando-se disso, encostou a carroça fora da estrada, deixando que ela fosse se
banhar no lago. Quando ela retornou, nenhum dos dois estava mais rindo: apenas
observavam os barbadianos passarem.
Com certeza, foi a forma como estavam parados que causou todo o problema. Mas, quando
ela os alcançou, já era tarde. E foi principalmente o olhar de Baerd que lhes chamara a
atenção. Sandre, sob seu disfarce de khardhuneano, era quase completamente indiferente
para os barbadianos.
Mas um mercador, um comerciante menor com apenas uma carruagem e um cavalo
magricela, que permanecia encarando um exército passando por aquela trilha, friamente,
com a cabeça erguida com arrogância, sem sequer parecer submisso nem muito menos com o
temor apropriado diante de tal situação...
A linguagem corporal, pensou Catriana, podia ser ouvida bem demais às vezes. Ela olhou
para Baerd, ao seu lado, cujos olhos xavam-se, avaliando com frieza a companhia que passava. E concluiu que não era arrogância, e tampouco algum orgulho masculino. Era algo
mais, algo mais antigo. Uma resposta primitiva à demonstração de poder do Tirano, que ele
podia esconder com tanto sucesso quanto aquele carregamento de doze barris de cerveja
sobre a carroça.
— Pare! — sussurrou ela, rme. Mas enquanto o fazia, ouviu um dos barbadianos latir uma
ordem sucinta, e meia dúzia deles se separaram da coluna de soldados e galoparam até onde
eles estavam.
A boca de Catriana cou subitamente seca. Notou que Baerd lançou um olhar para o local
em que seu arco repousava, sobre a grama. E mudou sua posição levemente, para poder se
movimentar melhor. Sandre fez o mesmo.
— O que vocês estão fazendo? — disparou ela. — Lembrem-se de onde estamos!
Ela não teve tempo de dizer mais nada. Os barbadianos chegavam até eles, enormes sobre
seus cavalos, olhando com desdém para um homem e uma mulher da Palma e seu guarda-
costas grisalho de Khardhun.
— Não gostei da sua cara — disse o líder, encarando Baerd. Seu cabelo era mais escuro do
que o dos outros, mas seus olhos eram pálidos e duros.
Catriana engoliu em seco. Era a primeira vez em mais de um ano que eles enfrentavam
barbadianos de maneira tão direta. Ela baixou os olhos, esperando que Baerd se acalmasse e
dissesse as coisas certas.
O que ela não sabia, pois ninguém que estava ali poderia saber disso, era o que Baerd via
naquele momento.
Ele não via seis barbadianos numa estrada em Certando, mas sim seis soldados ygratheanos
na praça diante da casa de seu pai, tanto tempo antes. Tantos anos, e a memória ainda estava
a ada como uma ferida feita no dia anterior. Todas as medidas normais de tempo pareciam
ruir e se esvair em ocasiões como aquela.
Baerd forçou-se a desviar seu olhar diante da expressão ameaçadora do barbadiano. Sabia
que cometera um erro, sabia que era um erro que sempre cometeria se não tomasse cuidado.
Ele estivera, entretanto, eufórico demais, deixando-se levar por uma onda de emoção,
enquanto assistia à coluna de soldados marchando como se dançassem sob a melodia que ele
e Alessan tocavam. Mas ainda era cedo, cedo demais, e tantas coisas ainda eram incertas e
desconhecidas naquele futuro. E precisavam estar vivos para ver aquele futuro, ou tudo teria
sido em vão. Anos e vidas, a paciente transformação de sonhos em realidade. Ele disse, com
olhos e voz baixos:
— Sinto muito se os ofendi. Estava apenas admirando-os. Não temos visto tantos soldados
assim pelas estradas nos últimos anos.
— Saímos da frente para abrir caminho para os senhores — completou Sandre, com sua voz
profunda.
— Você, silêncio — disparou o líder barbadiano. — Se eu quiser conversar com serviçais, eu
o avisarei.
Um dos outros comandou o cavalo para avançar em direção a Sandre, forçando-o a dar um
passo para trás. Catriana, atrás dele, sentiu suas pernas fraquejarem. Ela esticou os braços e
se agarrou ao corrimão da carroça apoiando-se; suas mãos estavam úmidas de pavor. Ela viu
dois dos barbadianos analisando-a entre sorrisos, e notou de repente que suas roupas
deveriam estar grudando em seu corpo, depois de nadar no lago.
— Perdoe-nos — repetiu Baerd, num tom camuflado. — Não queríamos problema algum.
— Verdade? E por que você estava contando nossos homens?
— Contando? Seus homens? Por que eu faria algo assim?
— Você me diga, mercador.
— Não foi nada disso — protestou Baerd, amaldiçoando-se em pensamento por ter
cometido um erro tão amador. Após doze anos, um desleixo como esse! A situação estava
cando fora de controle, e o fato é que estivera realmente contando os soldados
barbadianos. — Somos apenas comerciantes. Apenas pequenos comerciantes.
— Com um guerreiro khardhuneano como guarda? Acho que não são tão pequenos assim.
Baerd piscou e apertou as mãos com força. Cometera um erro terrível. Aquele homem era
perigosamente inteligente.
— Eu temia por minha esposa — disse ele. — Há rumores de bandidos no sul, e bastante
preocupantes.
Era verdade. Havia, na verdade, mais do que rumores. Vinte e cinco barbadianos haviam
sido assassinados em uma passagem. Ele tinha razoável certeza de que Alessan participara
daquilo.
— Por sua esposa ou por seus produtos? — zombou um dos barbadianos. — Sabemos bem
o que é mais importante para pessoas como você.
Ele olhou para além de Baerd, para onde estava Catriana, com um olhar vago de pálpebras
pesadas. Os outros soldados riram. Baerd rapidamente baixou sua cabeça mais uma vez; não
queria que eles vissem a morte presente em seus olhos. Lembrava-se daquela risada, de sua
ressonância. Até onde ela poderia levar. Até onde levara, numa praça de Tigana, dezoito
anos antes. Ele permanecia em silêncio, o desejo de matar em seu coração, amarrado rme
em sua memória.
— O que você está carregando? — cuspiu o primeiro barbadiano, sua voz golpeando como
um porrete.
— Cerveja — disse Baerd, apertando as mãos. — Apenas alguns barris de cerveja para levar
para o norte.
— Cerveja para Ferraut? Você é um mentiroso. Ou um tolo.
— Não, não — apressou-se a responder Baerd. — Não para Ferraut. Conseguimos um
preço muito bom. Onze astins o barril. Bom o su ciente para valer todo o caminho até o
norte. Estamos levando isso até Astibar. Podemos vendê-lo lá por três vezes esse valor.
Algo que seria verdade, se não tivessem pagado vinte e três astins em cada um dos barris.
O líder gesticulou e dois dos barbadianos desmontaram de seus cavalos. Abriram um dos barris, usando suas espadas como alavancas. O aroma pungente da cerveja de Certando
encheu o ar. O líder olhou, viu seus homens acenarem positivamente e se voltou para Baerd.
Havia um sorriso malicioso em seu rosto.
— Onze astins o barril? Realmente, é um bom preço. Tão bom, que mesmo um
mercadorzinho ambicioso não hesitaria em doá-los para o exército de Barbadior que defende
você e os de sua laia.
Baerd já esperava por isso. Tomando cuidado para não sair de seu personagem, balbuciou:
— Se... se é o que deseja, então, sim. Vocês... vocês se importariam de comprá-lo, ao menos
pelo valor que eu paguei?
Houve silêncio. Atrás dos seis barbadianos, o exército ainda marchava, descendo a estrada.
Quase passara por eles. Ele possuía um bom palpite de quantos eram. Então o homem no
cavalo à sua frente sacou a espada. Baerd ouviu Catriana fazer um pequeno ruído atrás dele.
O barbadiano se recurvou sobre o pescoço de seu cavalo, arma estendida, e delicadamente
tocou a bochecha barbada de Baerd com a parte lisa de sua espada.
— Nós não barganhamos — disse suavemente. — E nem roubamos. Nós aceitamos
presentes. Ofereça-nos um presente, mercador. — Ele moveu a espada um pouco. Baerd
podia senti-la picando e queimando seu rosto.
— Por favor, aceite... por favor, aceite essa cerveja de nós, como um presente aos homens
da Terceira Companhia — disse ele. Com esforço, mantinha os olhos distantes do rosto do
soldado.
— Ora essa, obrigado, mercador — respondeu, com um sarcasmo lento. Devagar,
deslizando pelo rosto de Baerd como uma carícia maligna, ele retirou sua espada. — E já que
você nos deu esses barris, certamente não nos negaria o cavalo e a carroça que os leva?
— Leve também a carroça — Baerd pegou-se falando. Subitamente, sentia como se
estivesse saindo de seu corpo. Como se estivesse flutuando sobre a cena, olhando para baixo.
E foi daquele ponto alto e separado que ele parecia ver os barbadianos moverem-se para
pegar seu veículo. Eles prenderam o cavalo novamente na carroça. Um deles, mais jovem do
que os outros, jogou a bagagem e a comida no chão. Ele olhou de volta para Catriana,
timidamente, um pouco envergonhado, e montou rapidamente no cavalo, e a carroça
lentamente voltou-se para o caminho trilhado pela coluna de soldados barbadianos. Os
outros cinco homens, levando seu cavalo, seguiram-no. Eles riam, naquele tipo de
gargalhada que brotava facilmente entre grupos de homens, certos de onde estavam e de
como suas vidas corriam. Baerd lançou outro olhar para seu arco. Tinha certeza de que
conseguiria matar os seis, começando com o líder, antes que alguém pudesse intervir.
Mas não se moveu. Nenhum dos três se mexeu, até que a última coluna não podia mais ser
vista, a carruagem balançando atrás deles. Baerd se virou e olhou para Catriana. Ela tremia,
mas ele a conhecia bem o su ciente para saber que era mais a raiva do que o medo que a
tomava.
— Desculpe — disse ele, estendendo a mão e tocando-lhe o ombro.
— Eu poderia matar você, Baerd, por me dar um susto desses.
— Eu sei — respondeu. — E eu mereceria essa morte. Eu os subestimei.
— Poderia ter sido pior — interveio Sandre, como se puxando assunto.
— Um pouco — soltou Catriana, com acidez. — Poderíamos estar todos mortos agora.
— Isso certamente seria bem pior — concordou Sandre, sério.
Levou ainda um momento para que ela percebesse que Sandre estava zombando dela.
E se surpreendeu ao ver-se rindo, um tanto descontroladamente. Sandre, com o rosto
negro e sóbrio, também disse algo bastante inesperado:
— Você não tem ideia — murmurou — do quanto eu gostaria que você fosse do meu
sangue. Minha filha, minha neta. Você me permite ter orgulho de você?
Ela estava tão surpresa que não conseguiu pensar em nada para dizer. Um instante depois,
profundamente comovida, ela deu um passo adiante e beijou-lhe o rosto. Ele passou seu
braço longo e magro ao redor dela e abraçou-a contra o peito, cuidadosamente, como se ela
fosse algo muito frágil ou muito precioso, ou ambos. Ela não conseguia se lembrar da última
vez em que alguém a segurara daquele modo.
Ele deu um passo para trás, pigarreando desajeitadamente. Ela viu que a expressão de
Baerd era peculiarmente suave, enquanto olhava para os dois.
— Isso é tão bonito — soltou ela, propositalmente seca. — Devemos passar o dia aqui,
dizendo uns aos outros o quão somos pessoas fantásticas?
Baerd sorriu.
— A ideia não é ruim, mas também não é das melhores. Acho que teremos que voltar até
onde compramos a cerveja. Precisaremos de outra carroça e de um cavalo novo.
— Ótimo. Eu aceitaria um copo de cerveja — disse Sandre.
Catriana olhou-o novamente, notou seu olhar de esguelha, e riu. Sabia o que ele estava
fazendo, mas não tinha imaginado que conseguiria rir novamente, tão cedo, depois de ver
uma espada sobre o rosto de Baerd. Ele pegou seu arco e sua aljava sobre a grama.
Colocaram sua bagagem nos ombros e zeram Catriana montar no cavalo restante. Sandre
disse que nada mais pareceria correto. Ela quis discutir, mas não conseguiu. Na verdade,
estava secretamente agradecida pela oportunidade de ir a cavalo; seus joelhos ainda estavam
fracos.
A estrada encontrava-se cheia de poeira por quase cinco quilômetros, por causa do exército
que passara, e eles preferiram se manter sobre a grama que a ladeava. O cavalo se assustou
com um coelho e, antes que Catriana pudesse sequer registrar o fato, Baerd atirara uma
echa, e o animal estava morto. Eles o trocaram, numa fazenda pouco depois, por um jarro
de cerveja, um pouco de pão e queijo, e continuaram.
Mais tarde, naquele mesmo dia, quando en m chegavam à vila, Catriana se convenceu de
que o incidente fora infeliz, mas sem grande importância.
Oito dias depois encontravam-se na cidade de Tregea. Não viram nenhum soldado na
semana que se passara, já que caminhavam longe das estradas principais. Deixaram a nova carruagem e os novos produtos na estalagem de costume e desceram até o bazar central. Era
m de tarde, um dia quente de primavera. Olhando para o norte, entre os prédios e além
das docas, Catriana pôde ver os mastros dos primeiros navios que subiam o rio, depois do
inverno. Sandre parou junto a um curtidor de couro para consertar o cinto no qual levava
sua espada. Enquanto ela e Baerd seguiam pela praça lotada, um mercenário barbadiano
mais velho do que o normal, manco e provavelmente bêbado, saiu de uma caverna, viu-a, e
cambaleou para apalpar-lhe, desajeitado, os seios e a região entre as pernas.
Ela gritou, mais de susto do que de qualquer outra coisa.
E um momento depois, desejou com todo o coração que não tivesse gritado. Baerd, logo à
sua frente, se virou, viu o homem e, com os mesmos re exos com que matara o coelho,
atingiu o barbadiano com um golpe colossal na lateral de sua cabeça.
E Catriana soube — soube naquele momento, com absoluta certeza — que ele não acertava
apenas um guarda bêbado, mas também o o cial que o tocara com a espada, uma semana
antes em Certando.
Um súbito silêncio horrorizado se formou ao redor deles. E então, murmúrios e balbucios.
Olharam-se por um segundo fugaz e embaçado.
— Corra! — A ordem de Baerd saía às pressas. — Encontre-me hoje à noite, no lugar em
que você subiu o rio, no inverno. Se eu não estiver lá, sigam sozinhos. Vocês conhecem os
nomes. Não faltam muitos. Que Eanna guarde vocês!
E então ele partiu, cruzando a praça, correndo pelo caminho pelo qual vieram, enquanto
um grupo de mercenários rompia rapidamente a multidão, vindo em direção a eles. O
homem no chão não se moveu. Catriana não esperou para ver se ele estava vivo. Correu na
outra direção, o mais rápido que conseguia. Do canto de seus olhos viu ainda Sandre,
observando-os da barraca do curtidor, seu rosto em choque. Teve o cuidado, o cuidado
desesperado de não olhá-lo e não correr em sua direção. Que um deles, ó, por favor, Tríade,
que ao menos um deles conseguisse sair desse lugar vivo e livre, sabendo os nomes e
carregando ainda o sonho rumo ao levante do verão.
Ela disparou por uma rua abarrotada, virando subitamente à esquerda no primeiro dos
becos que formavam a parte mais velha de Tregea, próxima ao rio. Sobre sua cabeça, os
segundos andares das casas pareciam querer tocar-se, e o que restava da luz do sol era
completamente bloqueado, em certos pontos, pelas pontes que ligavam os prédios
deteriorados em cada lado da rua.
Ela olhou para trás e viu quatro dos mercenários seguindo-a, gritando enquanto
desembestavam pelos becos. Um deles gritou um comando para que parassem. Se algum
deles tivesse um arco, pensou Catriana, provavelmente estaria morta dentro dos próximos
segundos. Esquivando-se de um lado para o outro, ela dobrou à direita, descendo por uma
passagem estreita e então virando outra vez à direita, assim que conseguiu, retomando a
direção pela qual viera.
Havia três nomes, ali em Tregea, na lista de Baerd, e sabia onde dois deles poderiam ser
encontrados. Mas era tolice pensar que poderia pedir socorro a algum deles, não com os barbadianos tão perto atrás dela. Teria que escapar sozinha da perseguição, se conseguisse, e
deixar que Sandre fizesse o contato. Ou Baerd, se ele sobrevivesse.
Ela se abaixou sob as roupas lavadas que alguém pendurara, e se en ou à direita, em
direção ao rio. Havia pessoas conversando nas alamedas, olhando com curiosidade a mulher
que passava correndo. Sabia muito bem que aqueles olhares mudariam em um instante
quando os barbadianos passassem em disparada atrás dela.
As ruas eram um emaranhado de labirintos. Não tinha certeza de onde estava; sabia apenas
que o rio cava ao norte. Em intervalos esparsos, conseguia ver, de relance, os mastros dos
navios. Mas a beira do rio seria muito perigosa, muito aberta e exposta. Ela se virou outra vez
para o sul, seus pulmões desesperados por ar. Atrás de si ouviu o som de coisas se quebrando
e então uma cacofonia de gritos e xingamentos furiosos.
Cambaleou, virando a próxima esquina à direita. A cada instante, a cada curva, esperava
que aquela confusão de becos a levasse direto até seus perseguidores. Se eles tivessem se
espalhado, ela certamente estaria acabada. Uma carroça bloqueava o caminho. Ela encostou
o corpo contra a parede e se esgueirou pela lateral da carroça. Chegando a outra
encruzilhada de becos. Dessa vez, disparou reto, passando por meia dúzia de crianças em um
jogo de saltar com cordas. Virou em seguida.
E foi agarrada, com força, logo acima do cotovelo direito. Começou a gritar, mas uma mão
cobriu rapidamente sua boca. Tentou mordê-la, contorcendo-se violentamente enquanto
tentava escapar.