Tigana: A Lâmina na Alma
Capítulo II
Devin estava tendo um dia ruim. Aos 19 anos, já estava quase acostumado com a estatura baixa e o rosto pálido de criança que a Tríade lhe dera. Muito tempo se passara desde que perdera o hábito de se
pendurar pelos pés nas árvores da oresta próxima da fazenda em que morava, em Asoli,
numa tentativa desesperada de se esticar e ficar um pouco mais alto.
A precisão de sua memória sempre fora motivo de orgulho e satisfação para ele, mas
algumas das lembranças que vinham com isso, não. Ele caria muito feliz se conseguisse
esquecer a tarde em que os gêmeos, voltando para casa de uma caçada, agraram-no
suspenso de cabeça para baixo em uma árvore. Seis anos mais tarde, ainda se irritava ao
lembrar que seus irmãos, geralmente tão obtusos, houvessem compreendido na mesma hora
o que ele tentava fazer.
— Vamos ajudar você, baixinho! — gritara Povar, cheio de alegria. E antes que Devin
pudesse se ajeitar e fugir, Nico agarrara seus braços, Povar, seus pés, e os dois gêmeos
brutamontes esticaram-no, sempre gargalhando com gosto. Entre outras coisas, divertiam-se
com a vastidão do precoce vocabulário profano de Devin.
Bem, aquela fora a última vez em que ele realmente tentara car mais alto. Mais tarde,
naquela mesma noite, ele se esgueirara no quarto dos gêmeos e, em meio aos roncos,
despejara cuidadosamente um balde de lavagem sobre cada um deles. Correndo como
Adaon em sua montanha, ele cruzara o jardim e saltara a cerca da fazenda quase antes dos
rosnados começarem.
Ficara fora de casa por duas noites, quando retornou para a surra do pai. Esperava ter que
lavar os lençóis ele mesmo, mas Povar o zera; e os dois gêmeos, sempre tolerantes, já
haviam se esquecido do incidente.
Devin, amaldiçoado ou abençoado com uma memória igual à de Eanna dos Nomes, nunca
se esqueceu. Era difícil guardar rancor dos gêmeos — quase impossível, na verdade —, mas
isso não diminuía a solidão que sentia naquela fazenda nas terras baixas. Pouco depois
daquele incidente, Devin saíra de casa como aprendiz do cantor Menico di Ferraut, cuja
companhia viajava para o norte de Asoli a cada duas ou três primaveras.
Devin não voltara desde então, tirando uma semana de folga durante a temporada nortista
três anos antes e novamente na última primavera. Não que tivesse sido maltratado na
fazenda, mas simplesmente não se encaixava ali, e os quatro sabiam disso. Cuidar de uma
fazenda em Asoli era um trabalho sério e por vezes desagradável, lutando para manter a
terra e a sanidade contra as constantes invasões do mar e a monotonia quente, nebulosa e
acinzentada dos dias.
Se sua mãe estivesse viva, as coisas poderiam ter sido diferentes. Mas a fazenda de Asoli,
para onde Garin de Baixa Corte levara seus três lhos, era um lugar melancólico, sem
nenhuma presença feminina — aceitável, talvez, para os gêmeos, que tinham um ao outro, e para o tipo de homem que Garin lentamente se tornava no meio dos espaços monótonos das
planícies. Não era um lugar para educar ou criar doces memórias para um lho mais novo
imaginativo, pequeno e ágil, cujos próprios dons, quaisquer que viessem a ser, não tinham
relação alguma com a terra.
Depois que Menico di Ferraut a rmara que a voz de Devin poderia sustentar mais do que
as baladas camponesas, foi com certo alívio coletivo que todos eles se despediram numa
manhã primaveril, em meio a uma neblina e chuva previsíveis. Nico e seu pai já tinham se
virado para conferir a altura do rio, quase sem completar as despedidas. Já Povar
permanecera por perto, para desajeitadamente colocar uma mão no ombro de seu
irmãozinho esquisito.
— Se não tratarem você direito — disse ele —, pode voltar para casa, Dev. Tem lugar.
Devin se lembrou de duas coisas: da batida gentil que, pelos anos que se seguiram, o
marcara mais do que um gesto tão simples deveria e das poucas palavras ásperas que vieram
depois. A verdade é que ele realmente podia se lembrar de quase tudo, exceto de sua mãe e
dos dias em Baixa Corte. Mas ele tinha menos de 2 anos quando ela morrera em meio às
lutas, apenas um mês antes de Garin levar seus três filhos para o norte.
Desde então, quase tudo ficara gravado em sua mente.
E se ele fosse um apostador — não era, pois carregava a cautela asoliana em sua alma —,
ele poderia até apostar um chiaro ou uns astins em que não se lembrava de ter cado tão
frustrado em muitos anos. Para dizer a verdade, desde daqueles dias em que achava que
nunca cresceria.
E o que, questionava-se melancolicamente Devin d’Asoli, uma pessoa devia fazer para
conseguir uma caneca em Astibar? E, ainda por cima, na véspera do Festival!
O problema seria motivo de risada, não fosse tão irritante. Na primeira taverna que se
recusou a lhe servir uma garrafa de vinho verde de Senzio, viu logo tratar-se da obra dos
estraga-prazeres irritantes que eram os sacerdotes de Eanna. A deusa, pensou Devin
fervorosamente, merecia mais de seus servos.
Parece que um ano antes, durante sua interminável disputa com os cleros de Morian e
Adaon por poder, os sacerdotes de Eanna convenceram o conselho do Tirano de que havia
muita luxúria entre a juventude de Astibar e, sendo mais direto, essa libertinagem criava
tumulto. E já que era óbvio que os salões de khav e as tabernas alimentavam a depravação...
Demorou menos de duas semanas para Alberico promulgar e fazer cumprir a lei que proibia
jovens com menos de 17 anos de comprar bebidas em Astibar.
Os rígidos sacerdotes de Eanna comemoraram — da forma asséptica como pessoas desse
tipo comemoravam — seu triunfo mesquinho sobre os sacerdotes de Morian e as elegantes
sacerdotisas do deus: ambas as divindades eram associadas com paixões mais sombrias e,
inevitavelmente, com o vinho.
Os donos das tavernas caram insatisfeitos em silêncio (não era uma boa ideia car
ruidosamente insatisfeito em Astibar), porém não tanto pela queda no comércio quanto pela maneira insidiosa como a lei era imposta. A lei promulgada simplesmente colocara sobre o
proprietário do estabelecimento a obrigação de determinar a idade do cliente em cada
estalagem, taverna ou sala de khav. Ao mesmo tempo, se algum dos onipresentes
mercenários barbadianos aparecesse de repente e decidisse — arbitrariamente — que
determinado cliente parecia jovem demais... bem, isso signi cava uma taverna fechada por
um mês e um proprietário preso pelo mesmo período de tempo.
Tudo isso deixou os jovens de 16 anos em Astibar realmente sem sorte. E, junto com eles,
também o mirrado cantor de 19 anos que chegara de Asoli e parecia ser muito mais novo,
conforme ele próprio foi percebendo durante aquela manhã.
Depois de três expulsões sumárias no lado oeste da Rua dos Templos, Devin se viu
brevemente tentado a se dirigir ao Santuário de Morian, ngir um transe e torcer para que
eles utilizassem o vinho verde de Senzio como uma forma de socorrer os excessivamente
delirantes. Outra opção que considerara, ainda menos racional, seria quebrar uma janela na
cúpula do santuário de Eanna e conferir se algum dos imbecis castrados lá dentro poderia ser
mais rápido do que ele.
Desistiu de fazê-lo, tanto pela genuína devoção à Eanna dos Nomes quanto pela sensação
opressiva dos muitos mercenários barbadianos que, fortemente armados, patrulhavam as
ruas de Astibar. É claro que os barbadianos estavam em toda a Palma Oriental, mas em
nenhum outro lugar sua presença era tão perturbadoramente evidente quanto em Astibar,
onde Alberico havia se estabelecido.
No m, Devin achou que estava cando resfriado, dirigiu-se para oeste, em direção ao
porto, e depois, seguindo seu olfato infelizmente ainda ativo, para a Estrada dos Curtumes. E
lá, quase passando mal pelo cheiro dos curtidores de couro que se sobrepunha ao aroma
salino do mar, ele recebeu uma garrafa aberta de vinho verde, sem perguntas, numa taverna
chamada O Pássaro, pelas mãos de um estalajadeiro trôpego e aleijado cujos olhos
provavelmente eram inadequados às sombras escuras de seu estabelecimento, um cômodo
pequeno e sem janelas.
Até mesmo aquele buraco indescritível e fedorento estava lotado. Astibar estava abarrotada
de pessoas para o início do Festival das Vinhas, no dia seguinte. Devin sabia que a colheita
havia sido boa em todos os lugares, exceto em Certando, e a multidão estava cheia de astins
ou de chiaros para gastar à vontade.
Com certeza não havia mesas livres na taverna. Devin se en ou num canto onde a madeira
enegrecida do balcão encontrava a parede dos fundos, tomou um gole moderado de seu
vinho — o qual ele julgou estar aguado, mas não mais do que o normal — e colocou sua
mente e sua alma para meditar acerca da perfídia e da irracionalidade das mulheres.
Encarnadas naquelas últimas duas semanas na forma de Catriana d’Astibar, mais
especificamente.
Calculou que teria tempo su ciente antes do ensaio vespertino — o último antes do
compromisso de estreia, na residência urbana de um pequeno vinicultor no dia seguinte — para se deleitar com a garrafa quase toda e ainda aparecer sóbrio. Ele era um ator experiente,
de qualquer modo, pensou indignado. Era um sócio. Conhecia a rotina das apresentações
como a palma de sua mão. Os três ensaios a mais foram ideia de Menico, pensando nos três
novos integrantes da trupe.
Incluindo a intragável Catriana, que era a razão para ele ter saído de repente do ensaio
matinal pouco antes de saber que Menico planejava parar a sessão. Em nome de Adaon!
Como deveria reagir quando uma mulher inexperiente e que achava que sabia cantar — e
com quem havia sido sinceramente amigável desde que ela se juntara a eles, duas semanas
antes — dissesse o que ela disse na frente de todos naquela manhã?
Amaldiçoado pela memória, Devin viu todos ensaiando novamente nos fundos do salão
alugado, no térreo da estalagem. Quatro músicos, duas dançarinas, Menico, Catriana e ele
mesmo cantando à frente. Estavam interpretando “Canção de Amor”, de Rauder,
previsivelmente solicitada pela esposa do mercador de vinhos; uma obra que Devin cantara
por quase seis anos, uma canção que conseguiria entoar mesmo dormindo, em choque ou
em coma.
E talvez ele estivesse, sim, um pouco entediado, um pouco distraído, reclinando-se um
pouco mais do que era necessário sobre sua mais nova colega de cabelos vermelhos,
colocando talvez a mais sutil sugestão da mensagem em sua expressão e em sua voz, mas
ainda assim...
— Devin, pelo amor da Tríade! — soltara Catriana d’Astibar, interrompendo
completamente o ensaio. — Será que você consegue parar de pensar com a virilha por tempo
suficiente para alcançar uma harmonia decente? Essa não é uma canção difícil!
Por ter a pele muito clara, Devin cou completamente vermelho. Menico, ele viu — o
mesmo que deveria repreender a moça por tamanha presunção —, não conseguia parar de
rir, ainda mais avermelhado que o próprio Devin. Assim como todos os outros.
Incapaz de pensar em uma resposta, sem querer comprometer os destroços de sua
dignidade cedendo ao seu impulso inicial de bater na garota na parte de trás da cabeça,
Devin simplesmente girou sobre seus calcanhares e saiu.
Ele teria lançado um olhar de reprovação a Menico enquanto saía, mas não adiantaria: a
vasta pança do líder da trupe balançava com as gargalhadas, enquanto limpava as lágrimas
de seu rosto redondo e barbudo.
Então Devin saiu para procurar uma garrafa de vinho verde e um lugar escuro para bebê-
lo, numa iluminada manhã outonal em Astibar. Tendo nalmente encontrado o vinho e o
tênue conforto das sombras, ele esperava, dali a meia garrafa, descobrir o que deveria ter
dito para aquela arrogante criatura de juba ruiva na sala de ensaios.
“Se ela ao menos não fosse tão deprimentemente alta...”, pensou. Devagar, encheu o copo
outra vez. Olhando para as vigas enegrecidas que se cruzavam no teto, imaginou-se por um
instante se pendurando em uma delas. Pelos calcanhares, é claro. Pelos velhos tempos.
— Posso pagar uma bebida para você? — alguém perguntou.
Com um suspiro, Devin se virou para lidar com um dos aspectos mais previsíveis de ser
pequeno e parecer muito novo, bebendo sozinho em um bar de marinheiros.
O que ele viu ao se virar foi reconfortante. Quem zera a pergunta fora um homem de
meia idade, vestido sobriamente, de cabelos grisalhos e várias linhas de expressão que se
irradiavam por suas têmporas.
— Obrigado — disse Devin, mesmo assim —, mas ainda tenho boa parte da minha garrafa
e pre ro estar com uma mulher do que servir de uma para um marinheiro. E também sou
mais velho do que pareço.
O outro homem gargalhou alto:
— Nesse caso — ele ria, realmente se divertindo —, você pode me dar uma bebida se
quiser, enquanto eu conto sobre minhas duas lhas em idade de casar ou sobre as outras
duas, que chegarão nessa idade mais rápido do que eu gostaria. Sou Rovigo d’Astibar,
comandante do Dama do Mar. Acabo de chegar da costa de Tregea.
Devin sorriu e se esticou pelo balcão para pegar mais um copo.
O Pássaro estava lotado demais para que tentasse ganhar a atenção do estalajadeiro e Devin
tinha suas próprias razões para não querer alertar o homem.
— Eu caria feliz em dividir essa garrafa com você — disse a Rovigo. — Embora ache que
sua mulher não ficaria feliz se soubesse que você ofereceu suas filhas a um músico itinerante.
— Minha esposa — disse ele, sentido — daria cambalhotas de alegria se eu levasse para
casa um pastor das campinas de Certando para nossa mais velha.
Devin fez uma careta.
— Tão ruim assim? — murmurou ele. — Bem, podemos pelo menos beber em
comemoração ao seu retorno seguro de Tregea. E, por um triz, a tempo para o Festival. Sou
Devin d’Asoli bar Garin, ao seu dispor.
— E eu, ao seu, caro Devin-não-tão-jovem-quanto-parece. Você teve problemas em
arranjar uma bebida? — perguntou Rovigo, com astúcia.
— Entrei e saí por mais portas do que Morian dos Portais conhece, saindo sempre tão seco
quanto tinha entrado.
Devin respirou o ar pesado; mesmo entre os odores da multidão e apesar da falta de
janelas, o cheiro do curtume ainda era evidente.
— Esta não teria sido minha primeira nem minha décima escolha de lugar para beber uma
garrafa de vinho.
Rovigo sorriu.
— Uma postura sensata. Você me acharia excêntrico se dissesse que sempre venho direto
para cá quando o Dama do Mar chega, depois de uma viagem? De algum modo, o cheiro faz
com que eu me sinta em terra. Diz que voltei.
— Você não gosta do mar?
— Estou quase convencido de que qualquer homem que diga gostar do mar estará
mentindo, tem dívidas em terra ou quer fugir de uma mulher rabugenta e... — parou,
ngindo ter tido uma ideia súbita. — Falando nisso... — ele acrescentou, re etindo
exageradamente. Então piscou.
Devin gargalhou e serviu mais vinho aos dois.
— Por que velejar, então?
— O comércio é bom — disse Rovigo, honestamente. — O Dama é pequeno o su ciente
para deslizar pelos portos costa abaixo ou em volta do lado ocidental de Senzio ou Ferraut,
aonde os grandes comerciantes nunca vão. Ele também é rápido o bastante para fazer valer a
pena velejar ao sul, passando pelas montanhas, até Quileia, o que não é permitido, é claro,
com o embargo comercial por lá. Mas se você tem contatos num lugar remoto e não perde
tempo com seus negócios, não é tão arriscado e dá lucro. Posso carregar especiarias
barbadianas do mercado daqui ou seda do norte e levá-las a lugares em Quileia que, de
outro modo, jamais veriam tais coisas. Trago de volta tapetes, madeiras entalhadas quileanas,
chinelos, punhais incrustados com joias. Às vezes, trago barris de buinath para vender para
as tavernas. Qualquer coisa que consiga um bom preço. Não posso carregar grandes volumes,
então tenho que tomar cuidado com meus limites, mas é um jeito de ganhar a vida enquanto
os riscos se mantiverem baixos e Adaon das Ondas continuar a me deixar navegar. Daqui,
vou para o templo do deus antes de ir para casa.
— Mas primeiro aqui. — Devin sorriu.
— Primeiro aqui.
Eles brindaram e beberam de uma vez. Devin encheu novamente os copos.
— O que há de novo em Quileia? — perguntou.
— Na verdade, acabei de sair de lá — disse Rovigo. — Tregea foi uma parada no caminho
de volta. Tenho boas novas, na verdade. Marius venceu seu combate no Bosque dos
Carvalhos novamente neste verão.
— É, ouvi falar — disse Devin, balançando a cabeça com admiração melancólica. — Um
homem aleijado, que deve ter uns 50 anos. Já foram o que, seis vezes seguidas?
— Sete — disse Rovigo, sobriamente. Ele parou, como se esperasse uma reação.
— Desculpe — disse Devin —, existe um significado para isso?
— Marius decidiu que sim. Ele acabou de anunciar o m dos desa os no Bosque dos
Carvalhos. Proclamou que o número sete é sagrado e que, ao deixá-lo usufruir desse último
triunfo, a Deusa Mãe fez todos conhecerem Sua vontade. Assim, declarou-se rei em Quileia,
e não mais mero consorte da Alta Sacerdotisa.
— O que? — exclamou Devin, alto o su ciente para atrair atenção. Ele baixou o tom de
voz. — Ele se declarou... um homem... pensei que houvesse um matriarcado lá.
— Assim também pensava a falecida Alta Sacerdotisa — disse Rovigo.
Viajando pela Península da Palma, dos vilarejos nas montanhas para castelos remotos e
casas senhoriais ou para as cidades, que eram os centros de negócios, músicos não podiam
deixar de ouvir notícias e fofocas sobre grandes acontecimentos. Sempre, na breve
experiência de Devin, conversas haviam sido apenas isto: uma maneira de fazer uma noite fria de inverno passar mais facilmente, perto de uma fogueira numa estalagem em Certando.
Ou uma forma de tentar impressionar um viajante numa taverna em Cone, con denciando
num murmúrio o fato de um grupo a favor dos barbadianos estar se formando na província
de Ygrath.
Devin havia concluído que tudo aquilo era apenas conversa. Os dois feiticeiros governantes,
vindos do leste e do oeste através dos mares, haviam partido a Palma perfeitamente ao meio
entre eles, deixando apenas a infeliz e decadente Senzio como um território não ocupado
formalmente por nenhum deles, olhando nervosamente para o além-mar. Seu governador
estava paralisado, incapaz de escolher qual dos lobos o devoraria, enquanto as duas feras
rodavam em círculos por quase vinte anos, sem que nenhuma delas estivesse disposta a se
expor, tomando a iniciativa.
Para Devin, o equilíbrio de poder na Península parecia ter sido esculpido em pedra desde
que se conhecia por gente. Até que um dos feiticeiros morresse — e os rumores diziam que
feiticeiros viviam por um bom tempo —, nada mais poderia vir, ou viria, das conversas nos
salões de khav ou nos outros grandes lugares.
Quileia, no entanto, era outro assunto. Um muito além do que a experiência limitada de
Devin era capaz de compreender ou de nir. Ele não conseguia sequer vislumbrar quais
poderiam ser as implicações do que Marius zera naquele estranho país ao sul das
montanhas. O que poderia vir do fato de Quileia ter um rei mais permanente, que não mais
iria ao Bosque dos Carvalhos a cada dois anos e lá, nu, ritualmente mutilado e desarmado,
encontrar a espada do oponente que havia sido escolhido para matá-lo e tomar o seu lugar?
Marius, no entanto, não fora morto. Por sete vezes, ele não fora morto.
Agora a Alta Sacerdotisa morrera. E não era possível deixar de notar o signi cado que
Rovigo incutira naquelas palavras. Um pouco intimidado, Devin balançou a cabeça.
Ele levantou os olhos e percebeu que seu novo conhecido o encarava com uma expressão
estranha.
— Você é um jovem pensativo, não é? — perguntou o mercador.
Devin deu de ombros, repentinamente constrangido:
— Não muito. Não sei. Certamente não sem uma compreensão repentina. Não é toda tarde
que ouço notícias como as suas. O que você acha que isso significará?
Mas Devin não obteve sua resposta.
O dono da taverna, que tão bem ignorara os intermitentes sinais de Rovigo pedindo outra
garrafa de vinho, caminhou até o canto do balcão em que estavam, a fúria em seu rosto
visível até mesmo naquela sala escura.
— Você! — urrou ele. — Seu nome é Devin?
Pego de surpresa, Devin assentiu por re exo. A expressão do estalajadeiro tornou-se ainda
mais raivosa.
— Fora daqui! — bramiu ele. — E que a Tríade amaldiçoe a sua irmã, que está lá fora! Ela
disse que seu pai quer que você volte para casa e, que Morian destrua vocês dois! Que ele quer me denunciar por servir um menor de idade. Sua larva desovada da sarjeta, eu vou
ensinar você a não colocar meu trabalho em risco bem na véspera do Festival!
Antes que Devin pudesse se mover, um jarro inteiro de vinho preto azedado foi lançado
em seu rosto, queimando como fogo. Ele cambaleou para trás, tentando enxugar os olhos,
praguejando furiosamente.
Quando conseguiu enxergar de novo, vislumbrou uma cena extraordinária.
Rovigo — que não era um homem muito grande — atravessara o balcão e agarrara o
estalajadeiro pelo colarinho de sua túnica gordurosa. Sem aparentar muito esforço, erguia o
homem, cujos pés chutavam o ar inutilmente. O colarinho estava torcido o su ciente para
fazer com que o rosto do pobre estalajadeiro começasse a ganhar um tom avermelhado.
— Goro, eu não gosto de ver meus amigos serem atacados — disse Rovigo, calmamente. —
O rapaz não tem um pai por aqui, e eu duvido que possua uma irmã.
Rovigo ergueu a sobrancelha para Devin, que balançou a cabeça ainda molhada com força.
— Como eu dizia — continuou Rovigo, sem sequer respirar rápido —, ele não tem irmã na
cidade. E também é nitidamente maior de idade, como seria óbvio para qualquer
estalajadeiro que não estivesse cego pelas gotas do próprio suor. Agora, Goro, você poderia
consertar um pouco as coisas comigo pedindo desculpas ao senhor Devin d’Asoli, meu novo
amigo, e oferecendo-lhe duas garrafas de um Certando tinto de boa safra, ainda fechado,
para mostrar seu arrependimento sincero? Em troca, talvez eu possa lhe conseguir um barril
de buinath quileiano que está agora no Dama do Mar. Por um preço adequado, é claro, já
que você pode extorquir os fregueses durante o Festival.
O rosto de Goro atingira uma tonalidade verdadeiramente perigosa. Bem quando Devin
sentiu que devia avisar Rovigo, o dono da taverna deu um aceno convulsivo com a cabeça e
o mercador soltou um pouco o colarinho. Goro encheu os pulmões com o ar fétido da
taverna como se fosse o aroma das ores das montanhas de Chiara e cuspiu três palavras
para se desculpar com Devin.
— E o vinho? — lembrou-o Rovigo, amigavelmente.
Ainda sem demonstrar esforço, ele abaixou o outro homem o bastante para que ele pudesse
mexer atrás do balcão, erguendo duas garrafas do que certamente parecia ser um legítimo
Certando tinto.
Rovigo afrouxou o colarinho mais um pouco.
— A safra é boa?
Goro moveu a cabeça para cima e para baixo.
— Muito bem — declarou Rovigo, soltando Goro por completo —, parece que estamos
quites. Acho — disse, voltando-se para Devin — que você deveria ir lá fora ver quem está
fingindo ser sua irmã.
— Eu sei quem é — lamentou-se Devin. — E, a propósito, obrigado. Estou acostumado a
enfrentar minhas próprias brigas, mas é bom ter um aliado de vez em quando.
— É sempre bom ter um aliado — corrigiu Rovigo. — Mas me parece que você não está ansioso para lidar com essa “irmã”, então vou deixá-lo para que você resolva isso em
particular. E deixe-me mais uma vez recomendar que se lembre de minhas lhas. Elas foram
muito bem criadas, apesar de tudo.
— Não tenho dúvidas a respeito disso — disse Devin. — Se eu puder um dia ajudá-lo, eu o
farei. Estou com a companhia de Menico di Ferraut, e estaremos aqui durante o Festival. Sua
esposa pode gostar de ver nossa apresentação. Se você me avisar quando forem, eu farei
questão de conseguir bons lugares em qualquer uma de nossas apresentações, por minha
conta.
— Eu agradeço. E se o seu caminho ou sua curiosidade o guiarem para sudeste da cidade,
agora ou no futuro, nossa propriedade ca a oito quilômetros, seguindo a estrada do lado
direito. Há um pequeno templo de Adaon um pouco antes, e meu portão tem o símbolo de
um navio. Uma das garotas o desenhou. Elas são todas — sorriu ele — muito talentosas.
Devin riu e os dois tocaram palmas formalmente. Rovigo se virou para retornar ao seu
canto do bar. Devin, desanimado, ciente de estar encharcado de vinho fedorento do cabelo
castanho-claro até a cintura e das manchas em sua calça, saiu do local com suas duas garrafas
de Certando tinto em uma das mãos. Ele apertou os olhos contra a luz do sol por alguns
segundos, como uma coruja, antes de avistar Catriana d’Astibar no outro lado da rua,
segurando um lenço firmemente debaixo do nariz, os cabelos vermelhos refletindo a luz.
Devin caminhou rapidamente para a estrada, quase colidindo com o carro de um curtidor.
Seguiu-se uma rápida e satisfatória troca de opiniões. O curtidor seguiu seu caminho, e
Devin, jurando para si mesmo não ser colocado mais uma vez na defensiva, foi até onde
Catriana o aguardava, observando impávida a discussão.
— Bem — disse ele, sarcástico —, agradeço que você tenha vindo até aqui para se
desculpar, mas você poderia ter escolhido uma forma mais apropriada de me achar. Para ser
sincero, pre ro minhas roupas sem vinho estragado. É claro que você irá se oferecer para
lavá-las.
Catriana simplesmente ignorou tudo isso, olhando-o friamente de cima a baixo:
— Você vai precisar de um banho e uma roupa limpa — disse ela, por trás do lenço
perfumado. — Eu não esperava uma reação tão exagerada lá dentro. Mas como eu não tinha
um punhado de astins disponíveis para gastar em gorjetas, não consegui achar um modo
melhor de fazer o taverneiro procurar você.
Devin percebeu que recebia uma explicação, mas não desculpas.
— Perdoe-me — disse ele, com uma contrição exagerada. — Preciso falar com Menico.
Parece que, além de todas as nossas transgressões, não estamos lhe pagando o su ciente.
Você deve estar acostumada com coisas melhores.
Pela primeira vez, ela hesitou.
— Temos que discutir isso no meio da Estrada dos Curtumes? — perguntou.
Sem dizer nada, Devin se curvou forçadamente, gesticulando para que Catriana guiasse o
caminho. Ela começou a se afastar do porto, e ele a seguiu de perto. Ficaram em silêncio por vários minutos, até estarem fora do alcance do cheiro dos curtumes. Com um leve suspiro,
Catriana tirou o lenço do rosto.
— Aonde você está me levando? — perguntou Devin.
Outra transgressão, ao que parecia. Os olhos azuis fuzilaram-no com raiva.
— Em nome da Tríade, para onde eu poderia levá-lo? — A voz de Catriana se encheu de
sarcasmo. — Estamos indo para o meu quarto, na pensão, para fazermos amor como Eanna e
Adaon fizeram no início dos tempos.
— Ah, bom — devolveu Devin, sua própria raiva crescendo. — Por que não juntamos
nosso dinheiro e pagamos outra mulher para se juntar a nós e fazer o papel de Morian? Para
o caso de eu ficar entediado, você entende.
Catriana empalideceu, mas antes que pudesse abrir a boca, Devin agarrou seu braço com a
mão livre e virou-a para encará-lo, no meio da rua. Olhando fundo naqueles olhos azuis (e
amaldiçoando o fato de ter que fazer isso) ele questionou:
— Catriana, o que exatamente eu z para você? Por que mereço esse tipo de resposta ou o
que você fez nesta manhã? Fui educado com você desde o dia em que a contratamos, e, se
você é uma pro ssional, sabe que não é sempre assim nas companhias itinerantes. Se quer
saber, Marra, a mulher que você substituiu, era a minha melhor amiga no grupo. Ela morreu
com a peste em Certando. Eu poderia ter tornado sua vida muito mais difícil. Mas eu não z
isso nem estou fazendo. Deixei claro desde o início que acho você atraente. Até onde eu sei,
isto não é pecado, se feito com cortesia.
Ele soltou seu braço, percebendo de repente que o estava agarrando com força e que
estavam em um local exposto demais, mesmo com a calmaria do início da tarde.
Instintivamente, olhou ao redor; felizmente, nenhum barbadiano passava por ali. Havia um
aperto familiar em seu peito, o retorno da dor que sempre sentia quando pensava em Marra.
A primeira amiga de verdade em sua vida. Duas crianças negligenciadas, com vozes que
eram dádivas de Eanna, dizendo uma à outra seus medos e sonhos durante três anos
trocando de camas a cada noite atravessando a Palma. Sua primeira amante. Primeira morte.
Catriana, livre, cou onde estava, e havia uma expressão nova em seu rosto — talvez pela
menção da morte — que o fez reavaliar quantos anos achava que ela tinha. Antes, ele
pensava que Catriana fosse mais velha do que ele; agora, já não tinha mais tanta certeza.
Ele esperou, respirando rápido após seu abrupto discurso. E a ouviu dizer, em tom baixo e
delicado:
— Você canta bem demais.
Devin piscou, surpreso. Não era o que esperava.
— Eu tenho que me esforçar muito nas apresentações. — Continuou ela, seu rosto corando
pela primeira vez. — Rauder é difícil para mim, todas as músicas dele são. E, nesta manhã,
você estava cantando “Canção de Amor” sem sequer pensar, divertindo os outros, tentando
me conquistar... Devin, eu preciso me concentrar quando canto! Você estava me deixando
nervosa, e eu grito com as pessoas quando estou nervosa.
Devin respirou fundo e olhou para a rua vazia e banhada de sol enquanto pensava.
— Você sabia... alguém já lhe disse antes... que é possível, até mesmo útil, contar esse tipo
de coisa para as pessoas, especialmente as que trabalham com você?
Ela balançou a cabeça:
— Não para mim. Eu nunca consegui falar assim. Nunca.
— E por que falar isso, agora? — arriscou ele. — Por que você veio atrás de mim?
Um silêncio ainda mais longo do que o anterior. Um grupo de artesãos aprendizes virou a
esquina, urrando grosserias para o casal que viam à distância. No entanto, não havia
maldade no grupo, e eles foram embora sem causar problema algum. Algumas folhas
vermelhas e douradas passaram pelas pedras do calçamento, carregadas pela brisa.
— Algo aconteceu — respondeu Catriana d’Astibar — e Menico disse a todos nós que você
é vital para nosso futuro.
— Menico mandou você atrás de mim?
Era praticamente impossível, depois de seis anos trabalhando juntos.
— Não — disse ela, balançando rápido a cabeça. — Não, ele disse que você voltaria a
tempo, que você sempre volta. Mas eu estava nervosa, com tanto em jogo. Eu não poderia
simplesmente esperar. Você saiu... hum... um pouco chateado.
— Um pouco — concordou Devin, gravemente, percebendo que ela nalmente fazia o
favor de parecer arrependida. Ele se sentiria ainda mais seguro se não continuasse achando-a
tão atraente. Ele não conseguia evitar imaginar, mesmo agora, como seriam seus seios,
liberados da rigidez do corpete de corte alto. Ele sabia que Marra teria contado a ele e até
mesmo ajudado com a conquista. Eles zeram isso um para o outro e depois compartilharam
as histórias enquanto viajavam pela estrada naquele último ano. Antes de Certando, onde
ela morreu.
— É melhor você me dizer o que aconteceu — disse ele, forçando-se a pensar no presente.
Havia perigo em fantasias e memórias.
— O Duque exilado, Sandre, morreu na noite passada — disse Catriana. Ela olhou ao
redor, mas a rua estava novamente vazia. — Por alguma razão, que ninguém sabe, Alberico
permitiu que seu corpo fosse velado no Palácio Sandreni, hoje à noite e amanhã de manhã. E
então...
Ela fez uma pausa, seus olhos azuis brilhando. Devin, pulso acelerado de repente,
completou:
— Um funeral? Completo? Não diga!
— Ritual completo! E, Devin, pediram a Menico para participar dos testes esta tarde!
Temos uma chance de realizar a apresentação mais comentada em toda a Península de
Palma deste ano!
Agora ela parecia muito jovem e perturbadoramente linda. Seus olhos brilhavam como os
de uma criança.
— Então você veio me buscar — murmurou ele, balançando a cabeça lentamente —, antes que eu afogasse meu desejo frustrado em bebida até me entorpecer a ponto de não servir
mais para nada.
Ele tinha a vantagem agora, pela primeira vez. Era uma reviravolta agradável, especialmente
quando acompanhada por notícias tão empolgantes. Começou a andar, forçando-a a
acompanhar seu passo. Para variar.
— Não é bem assim — protestou ela. — É apenas que isso é importante demais. Menico
disse que sua voz seria crucial para termos chance... que você estava em sua melhor forma
nos ritos fúnebres.
— Eu não sei se devo me sentir elogiado por isso ou insultado por você cogitar que eu seria
tão pouco profissional a ponto de perder um ensaio na véspera do Festival.
— Nenhum dos dois — disse Catriana d’Astibar, com um pouco da agressividade
retornando. — Não temos tempo pra nenhum dos dois. Apenas seja bom essa tarde. Seja o
melhor que você já conseguiu.
Devin sabia que deveria resistir, mas estava animado demais.
— Nesse caso, você tem certeza de que não estamos indo para o seu quarto? — perguntou,
de forma direta.
O momento que se seguiu tinha mais em jogo do que ele poderia imaginar. Então Catriana
d’Astibar riu alto e livremente, pela primeira vez.
— Assim é bem melhor — disse Devin, sorrindo. — Honestamente, eu não sabia que você
tinha senso de humor.
Ela ficou quieta por um momento.
— Às vezes, nem eu tenho certeza. — disse, de forma ausente. Em seguida completou, em
um tom de voz completamente diferente: — Devin, quero esse contrato mais do que tudo.
— Bem, é claro — replicou ele. — Ele poderia fazer nossas carreiras.
— Exatamente — disse Catriana. Ela tocou seu ombro e repetiu: — Eu quero isso mais do
que tudo.
Ele poderia ter achado que havia algo mais naquele toque se fosse menos perceptivo e não
considerasse o jeito como ela falara. Não havia ambição alguma naquele tom, na verdade, e
nem desejo da forma que Devin conhecia.
O que ele ouvia era anseio, e isso atingiu um ponto dentro dele que não conhecia.
— Vou fazer o meu melhor — disse depois de um momento, pensando em Marra sem
nenhum bom motivo e nas lágrimas que derramara por ela.
Na fazenda em Asoli, desde cedo sabiam que ele possuía o dom da música, mas era um local
isolado, e ninguém tinha conhecimento bastante para julgar coisas desse tipo.
Uma das primeiras lembranças que Devin tinha de seu pai — e que ele frequentemente
invocava, por ser uma imagem suave de um homem duro — era a de Garin murmurando
alguma antiga canção de ninar, para fazê-lo dormir em uma noite de febre.
O garoto, por volta dos 4 anos, acordou de manhã sem febre, murmurando para si mesmo
a canção, perfeitamente a nado. O rosto de Garin assumiu a expressão complexa que Devin aprenderia mais tarde a associar com as memórias que seu pai tinha da esposa. Naquela
manhã, no entanto, Garin beijou seu lho caçula. A única vez em que isso acontecera, pelo
que Devin se lembrava.
A melodia se tornou algo que eles compartilhavam, a porta de acesso a uma intimidade
limitada. Eles a cantarolariam juntos em tentativas indisciplinadas de alcançar uma
harmonia. Mais tarde, Garin comprara uma syrenya de três cordas em tamanho menor para
seu lho mais novo, em uma de suas viagens semestrais ao mercado da cidade de Asoli.
Depois disso, houve umas poucas tardes, das quais gostava de se lembrar, quando ele, seu
pai e os gêmeos costumavam cantar baladas do mar e das colinas em volta da fogueira à
noite, antes de irem dormir. Uma fuga da lúgubre e úmida insipidez de Asoli.
Quando cou mais velho, Devin começou a cantar para alguns dos outros fazendeiros. Nos
casamentos ou batismos e uma vez com um sacerdote itinerante de Morian, com o qual fez
contraponto no “Hino para Morian dos Portais”, durante os Dias das Brasas. Depois o
sacerdote quis levá-lo para a cama, mas, a essa altura, Devin já havia aprendido a escapar de
tais pedidos sem ofender.
Mais tarde, ele começou a ser chamado para cantar em tavernas. Não havia leis
determinando a idade para beber ao norte de Asoli, onde um menino se tornava homem
quando começava a trabalhar no campo, e uma menina virava mulher quando começasse a
sangrar.
E foi numa taverna chamada O Rio, no mercado da própria cidade de Asoli, que o jovem
Devin, com 14 anos recém-completados, cantava “A Jornada de Corso para Corte” quando
foi ouvido por um homem corpulento e barbudo. Tratava-se do líder de uma trupe chamado
Menico di Ferraut, que o tirara da fazenda naquela semana, mudando sua vida.
— Somos os próximos — disse Menico, alisando nervosamente o seu melhor gibão de cetim
sobre a barriga. Devin, dedilhando preguiçosamente sua canção de ninar em uma das
syrenyas reservas, sorriu para tranquilizar seu patrão, que na verdade era seu sócio agora.
Devin deixara de ser aprendiz aos 17 anos. Menico, cansado de recusar ofertas para
comprar o contrato de seu jovem tenor, nalmente oferecera a Devin um lugar permanente
no grupo, além de um salário fixo — depois de deixar bastante claro o quanto o rapaz devia a
ele, e como a lealdade era o único modo quase adequado de retribuir tamanha dívida de
gratidão. Devin já sabia daquilo e gostava de Menico de qualquer modo.
Um ano depois, após outra sequência de ofertas dos líderes de trupes rivais durante a
temporada de casamentos no verão, Menico transformou Devin em sócio, com direito a dez
por cento da companhia. Depois de repetir o mesmo discurso da ocasião anterior, quase
palavra por palavra.
Devin sabia que era uma honra considerável. Apenas o velho Eghano, que tocava os
tambores e os instrumentos de corda de Certando e que acompanhava Menico desde que a
companhia fora formada, também tinha parte de sociedade. Todos os demais eram
aprendizes ou assalariados com contrato de curta duração. Ainda mais agora, quando as consequências de uma praga no sul haviam esvaziado todas as trupes da Palma, lutando para
preencher seu grupo com músicos, dançarinos ou cantores temporários.
Um sopro espectral, quase inaudível, tirou a atenção de Devin de sua syrenya. Ele olhou ao
redor e sorriu. Alessan, um dos três novos integrantes, copiava levemente a melodia da
canção de ninar que Devin estivera tocando. Na auta de pastor de Tregea, ela soava
sublime e estranha.
Alessan, cujos cabelos negros estavam cando grisalhos nas têmporas, piscou para ele por
sobre os dedos agitados que deslizavam pela auta. Eles terminaram a melodia juntos, auta,
syrenya e o murmúrio da voz de tenor.
— Eu gostaria de saber a letra — lamentou-se Devin quando terminaram. — Meu pai me
ensinou essa melodia quando eu era criança, mas ele nunca conseguiu lembrar as palavras
que a acompanhavam.
O rosto magro de Alessan estava pensativo. Devin sabia pouco sobre o tregeano depois de
duas semanas de ensaio, além de que ele era extraordinariamente bom com a auta, e
bastante con ável. Como sócio de Menico, isso era tudo o que importava para ele. Alessan
raramente era visto nos arredores da pousada fora do horário de ensaios, mas, apesar disso,
era sempre pontual.
— Eu poderia lembrá-las para você, se eu parasse para pensar nisso — disse ele sorrindo e
passando a mão pelos cabelos, num gesto característico. — Já faz muito tempo, mas eu sabia
esses versos.
— Não se preocupe com isso — disse Devin. — Eu sobrevivi até agora sem eles. É apenas
uma canção antiga, uma lembrança de meu pai. Se você permanecer conosco, podemos
transformar isso no nosso projeto de inverno.
Ele sabia que Menico aprovaria a última parte. O líder da trupe havia declarado que
Alessan era um achado, que além do mais exigia um ordenado barato.
A boca expressiva do outro se curvou para o lado em um sorriso quase sarcástico.
— Velhas canções e memórias paternas são importantes — disse. — O seu pai já morreu?
Devin fez o sinal de proteção, com a mão estendida e dois dedos dobrados para baixo.
— Não até onde eu sei, embora não o tenha visto nos últimos seis anos. Menico falou com
ele quando passamos pelo norte de Asoli pela última vez e levou-lhe alguns chiaros por mim.
Eu nunca volto para a fazenda.
Alessan refletiu sobre aquilo.
— A melancólica Asoli? — adivinhou ele. E continuou, com tom agudo: — Lugar errado
para um garoto com ambição e uma voz como a sua?
— Quase isso — admitiu Devin, com tristeza. — Embora eu não me ache ambicioso. Mais
para inquieto. E nós também não éramos realmente de Asoli. Nos mudamos da Baixa Corte
para lá quando eu era criança.
— Ainda assim — disse Alessan, assentindo.
O homem tinha jeito de sabichão, Devin concluiu, mas tocava bem a auta de pastor. Tão bem quanto ela deveria soar nas próprias montanhas de Adaon, ao sul.
Em todo caso, eles não tinham tempo para continuar o assunto.
— Somos nós! — disse Menico, entrando apressado no cômodo onde eles esperavam, em
meio à poeira e à mobília coberta com panos do Palácio Sandreni, abandonado há anos. —
Faremos o “Lamento de Adaon” primeiro — anunciou, contando-lhes o que já sabiam havia
horas. Limpou as mãos na lateral do gibão. — Devin, essa é com você. Deixe-me orgulhoso,
rapaz! — Era sua exortação padrão. — E depois, todos nós iremos juntos no “Circular dos
Anos”. Catriana, meu bem, você tem certeza de que consegue alcançar esse tom ou quer que
baixemos?
— Eu vou alcançar — respondeu Catriana, laconicamente.
Devin imaginou que seu tom era de simples nervosismo. Mas, quando seus olhares se
encontraram por um segundo, percebeu o mesmo olhar de novo: aquele que ia além do
desejo, na direção de um lugar que ele não conhecia.
— Eu gostaria muito de conseguir esse contrato — disse Alessan di Tregea, gentilmente.
— Que grande surpresa! — soltou Devin, descobrindo, enquanto falava, que também
estava bastante nervoso. Alessan riu, assim como o velho Eghano, que atravessava a porta
com eles. Ele já havia visto muito nos seus longos anos de jornada para car nervoso por um
mero teste. Sem dizer nada, conseguiu, como sempre fazia, trazer uma sensação de calma a
Devin.
— Vou fazer o meu melhor — disse Devin, depois de um momento, pela segunda vez
naquela tarde, sem saber ao certo para quem falava aquilo, ou por quê.
No nal, graças à Tríade ou apesar dela — como seu pai costumava dizer —, o melhor de
Devin foi suficiente.
O principal examinador era um descendente Sandreni, com um perfume delicado e vestido
de maneira extravagante, e que devia ter, segundo Devin imaginara, mais de 35 anos. O
homem deixava claro, por sua postura frouxa e pelas sombras exageradamente arti ciais ao
redor dos olhos, por que Alberico, o Tirano, não se preocupava muito com os descendentes
de Sandre d’Astibar.
Logo atrás daquele sujeito peculiar estavam os sacerdotes de Eanna e Morian, de branco e
cinza. Ao lado deles, em contraste marcante, estava a sacerdotisa de Adaon, vestida de
vermelho e com cabelo muito curto.
Era outono, é claro, e os Dias das Brasas se aproximavam: Devin não cou surpreso com o
cabelo dela. O que o surpreendia era ver o clero ali, no teste. Eles o deixavam desconfortável
— outra herança de seu pai —, mas aquela não era uma situação em que podia se deixar
afetar; então, tratou de afastá-los de seus pensamentos.
Concentrou-se no elegante lho do Duque, o único que realmente importava agora.
Esperou, buscando, como Menico lhe ensinara, um ponto tranquilo dentro de si.
Menico deu a deixa para Nieri e Aldine, as duas bailarinas magras de vestidos de luto em
azul acinzentado e luvas negras. No momento seguinte, após seu primeiro passo conjunto no palco, ele olhou para Devin.
E Devin deu a ele, e a todos eles, o lamento pela morte outonal de Adaon em meio aos
ciprestes da montanha, como nunca fizera antes.
Alessan di Tregea acompanhou-o durante todo o tempo com o pesar alto e devastador de
sua auta, e juntos os dois carregaram Nieri e Aldine além da superfície de seus passos,
sobre o piso recentemente varrido para a articulação lacônica e precisa do ritual que o
“Lamento” exigia, e que tão poucas vezes recebia.
Quando terminaram, Devin viajou dos ciprestes e cedros que presenciaram a morte do
deus — e onde ele morria novamente a cada outono — de volta até o Palácio Sandreni, e viu
que o lho de Sandre d’Astibar estava chorando. O caminho de suas lágrimas manchou a
cuidadosa sombra ao redor de seus olhos, o que signi cava, Devin subitamente percebeu,
que ele não chorara em nenhuma das três apresentações antes deles.
Marra, jovem e exageradamente pro ssional, teria satirizado essas lágrimas, ele sabia: “Por
que contratar um artista se você mesmo está fazendo um espetáculo?”, perguntava quando
seus rituais fúnebres eram interrompidos ou marcados por exibições de seus contratantes.
Na época, Devin era menos severo. E era menos ainda agora, desde quando Marra morrera
e ele se agrara controlando-se para não chorar em público, na ocasião em que Burnet di
Corte e sua companhia celebraram os ritos fúnebres em Certando, como gesto de cortesia a
Menico.
Devin também percebeu, pelo olhar emocionado que o herdeiro Sandreni lhe lançava de
dentro dos anéis negros borrados ao redor de seus olhos, que eles haviam ganhado o
contrato. E soube ainda, pelo olhar não menos transparente do sacerdote de dedos gordos de
Morian — Pelo amor da Tríade, por que a Tríade era tão mal representada? —, que, embora
pudessem ter ganhado o contrato Sandreni, ele deveria ser mais cuidadoso naquele palácio
no dia seguinte. Ele tomou nota, mentalmente, para se lembrar de trazer sua faca.
Haviam conseguido o contrato. O segundo número pouco importava, por isso Menico havia
começado com o “Lamento”. Mais tarde, cuidadosamente apresentou Devin como seu sócio,
quando o lho de Sandre pediu para conhecê-lo. Ele era, na verdade, o lho do meio entre
três e se chamava Tomasso. O único, explicou em voz rouca enquanto segurava uma das
mãos de Devin entre as suas, com ouvido e olhos capazes de avaliar música e dança para
escolher apresentações adequadas para honrar ocasião tão augusta quanto os ritos fúnebres
de seu pai.
Devin, acostumado àquilo, educadamente retirou seus dedos, agradecido que estava pela
esperteza de Menico: sendo apresentado como sócio, ele ganhava uma leve imunidade
contra ertes mais agressivos, mesmo entre a nobreza. A seguir, foi apresentado para os
clérigos, e prontamente se ajoelhou diante da sacerdotisa de Adaon, de vermelho.
— Sua permissão, irmã do deus, ao que eu cantei e ao que devo fazer amanhã.
Pelo canto do olho, ele viu o sacerdote de Morian cerrar os dedos gordos e anelados. Ele
aceitou a benção e proteção de Adaon — o dedo da sacerdotisa traçando o símbolo do deus em sua fronte —, sabendo que conseguira acabar com o desejo crescente de um dos
sacerdotes. Quando ele se ergueu e se virou, foi para receber uma piscada — perigosa
naquela sala e naquela companhia — de Alessan di Tregea, que estava mais atrás, junto com
os demais. Devin conseguiu conter um sorriso, mas não a surpresa: o pastor era
desconcertantemente perceptivo.
O primeiro preço sugerido por Menico foi imediatamente aceito por Tomasso d’Astibar bar
Sandre, con rmando na mente de Devin que criatura lamentável ele era para portar um
nome e uma linhagem tão magníficos.
Ele teria se interessado — e o aproximado um passo ou dois na dura estrada para a
maturidade — em saber que o próprio Duque Sandre teria aceitado tal preço, ou mesmo o
dobro, naquela situação. Mas Devin ainda não chegara aos 20; e Menico, com o triplo de sua
idade, insultaria a si mesmo quando voltasse à estalagem, em meio às comemorações e ao
vinho, por não ter pedido mais do que a exorbitante quantia que recebera adiantada.
Apenas Eghano, velho e calmo, batendo suavemente duas colheres de madeira sobre a
mesa, disse:
— Deixe estar. Não precisamos estender uma palma ambiciosa. Haverá mais como esses
daqui em diante. Se você for sábio, deixará uma oferenda em cada um dos templos amanhã.
Receberemos de volta com juros quando eles escolherem os músicos para os Dias das Brasas.
Menico, de ótimo humor, praguejou ainda mais magni camente do que antes, e anunciou
sua rme intenção de oferecer o corpo enrugado de Eghano como oferenda para o gordo
sacerdote de Morian. Eghano abriu um sorriso desdentado, e continuou a tamborilar.
Menico mandou que todos fossem se deitar pouco depois do jantar. Começariam cedo no
dia seguinte, visando a apresentação mais importante de suas vidas. Ele sorriu benevolente
quando viu Aldine conduzir Nieri para o quarto. Devin tinha certeza de que elas dividiriam
a cama naquela noite, e ele suspeitava que pela primeira vez. Esperava que aproveitassem
uma à outra, sabendo que elas haviam se unido como por mágica na dança daquela tarde; e
sabendo também — pois isso havia acontecido com ele uma vez — o quanto isso poderia
transbordar nas velas da alta madrugada na cama.
Olhou ao redor, buscando Catriana, mas ela já subira as escadas. Ela o beijara rapidamente
no rosto, logo após o feroz abraço de Menico, ainda no Palácio Sandreni. Era um começo;
podia ser um começo.
Ele desejou boa noite aos outros e subiu para seu quarto individual, o único luxo que
pedira a Menico após a morte de Marra.
Esperava sonhar com ela, por causa dos ritos fúnebres, dos não saciados e por ser com ela
que sonhava na maioria das noites. Em vez disso, teve uma visão do deus.
Ele viu Adaon na montanha em Tregea, nu e magní co. Ele o viu ser rasgado ao meio, em
fúria e sangue correndo, por suas sacerdotisas — subornadas por sua feminilidade, naquela
manhã de outono a cada ano que passava, para o mais profundo serviço de seu sexo.
Rasgavam a carne do deus moribundo a serviço das duas deusas que o amaram e compartilharam como mãe, lha, irmã, noiva, através do ano, e atravessando todos os anos
desde que Eanna nomeara as estrelas.
Amaram-no e compartilharam-no, exceto naquela manhã, no m da estação da
decadência. Aquela manhã estava prenunciada a ser a promessa de uma primavera que viria,
do m do inverno. Aquela única manhã na montanha, quando o deus que era um homem
teve que ser sacri cado. Rasgado e sacri cado, para ser colocado em seu lugar, que era a
terra. Para tornar-se o solo, que por sua vez seria nutrido pela chuva das lágrimas de Eanna e
pela úmida mágoa das in ndáveis correntes submersas de Morian, revirando-se em sua
necessidade. Sacri cado para renascer e, portanto, ser amado novamente, mais e mais a cada
passar de ano, em cada e a cada morte, nas alturas vestidas de ciprestes. Sacri cado para ser
lamentado e então se erguer como um deus, como um homem, como o trigo nas plantações
de verão. Para se erguer e então cair com as deusas, com sua mãe e sua noiva, sua irmã e sua
filha, com Eanna e Morian sob o sol, as estrelas e as duas luas, a azul e a prateada.
Devin sonhou com aquela cena terrível e mítica de mulheres correndo na montanha, seus
longos cabelos ondulando atrás delas enquanto perseguiam o homem-deus até o alto abismo
sobre a corrente de Casadel.
Ele viu quando elas rasgaram as roupas do corpo enquanto gritavam uma com a outra na
caçada. Viu os galhos das árvores da montanha, arbustos eriçados e espinhosos, sgarem e
rasgarem suas vestes, viu-as deliberadamente deixarem-se despir até a nudez para ganharem
velocidade na perseguição, colhendo os frutos vermelho-sangue de sonrai para se
intoxicarem contra o que viriam a fazer, sobre as gélidas águas de Casadel.
Ele viu o deus en m se virar, seus enormes olhos negros selvagens e sábios, enquanto ele
permanecia à beira do abismo, como um cervo próximo ao seu lugar de descanso
estabelecido e permanente. E Devin viu as mulheres avançarem sobre ele, com seus cabelos
ondulantes e sangue correndo por seus corpos, e viu Adaon curvar sua orgulhosa e gloriosa
cabeça para a condenação de suas mãos lacerantes, seus dentes e suas unhas.
E ali, ao m da perseguição, Devin viu que as bocas das mulheres abriam-se enquanto
gritavam entre si, em êxtase ou angústia, em desejo ilimitado, loucura ou amargo
ressentimento, mas em seu sonho não havia som algum naqueles gritos. Ao contrário,
atravessando toda aquela cena entre cedros e ciprestes, a única coisa que Devin ouvia era o
som da auta dos pastores de Tregea, entoando, alta e à distância, a canção daquela noite
febril da sua infância.
E por m, bem no m, Devin viu que quando as mulheres alcançaram o deus e o
capturaram, cercado, no alto abismo sobre Casadel, seu rosto se virou para que pudesse vê-
lo; e era o rosto de Alessan.