Tigana: A Lâmina na Alma

Guy Gavriel Kay · Capítulo 11 de 19 · parte 1/2

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Tigana: A Lâmina na Alma

Parte dois – Dianora

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

PARTE DOIS

 

Dianora

CAPÍTULO VII

 

Dianora ainda se lembrava do dia em que chegara à Ilha. O ar daquela manhã de outono era muito parecido com o daquele dia, no começo da primavera — nuvens brancas dançavam no céu azul, enquanto o vento empurrava o navio

de tributos até o porto de Chiara. Além do porto e da cidade, viam-se as encostas que

subiam as montanhas pintadas com tons outonais. As folhas estavam mudando:

avermelhadas e douradas, enquanto algumas ainda insistiam no verde; ela se lembrava.

As velas do navio de tributos de tanto tempo atrás também eram vermelhas e douradas: as

cores de celebração em Ygrath. Ela sabia disso agora, mas não na época. Ficou de pé no

convés do navio para vislumbrar pela primeira vez o esplendor do porto de Chiara, no longo

píer em que os grão-duques costumavam car para lançar um anel ao mar e de onde Letizia

saltara no primeiro Mergulho do Anel para reclamar o anel das águas e se casar com seu

duque: transformando os Mergulhos do Anel num símbolo de sorte e orgulho para Chiara.

Até que a linda Onestra mudara o nal da história, centenas e centenas de anos antes, e os

Mergulhos do Anel cessaram. Ainda assim, todas as crianças na Palma conheciam aquela

lenda da ilha. Meninas de todas as províncias brincavam de mergulhar na água e sair dela

triunfantes, com seu cabelo encharcado, prontas para se casarem com um duque cheio de

poder e glória.

Próxima à proa do navio de tributos, Dianora olhara além do porto e do palácio,

observando a grandiosidade dos Sangarios, cobertos de neve, erguendo-se atrás deles. Os

marinheiros de Ygrath não haviam perturbado seu silêncio, permitindo que ela viesse à

frente para observar a chegada à ilha. Depois de estar segura na embarcação e o navio ter

partido, haviam sido gentis com ela. As mulheres que eles acreditavam ter boas chances de

serem escolhidas para a saishan eram sempre bem tratadas nos navios de tributos. Um

capitão poderia fazer fortuna na corte de Brandin caso trouxesse para casa uma prisioneira

que viesse a se tornar a favorita do Tirano.

Sentada na sacada da ala saishan, olhando através da tela ornamentada que escondia as

mulheres dos curiosos na praça abaixo, Dianora observava as bandeiras de Chiara e Ygrath

tremendo na brisa fresca da primavera e se lembrava de como o vento soprava seu cabelo

sobre o rosto, mais de doze anos antes. Ela se lembrava de ter olhado das velas brilhantes até

as colinas arborizadas que alcançavam os Sangarios, do azul e branco do mar às nuvens no

céu azul. Do tumulto e do caos da vida no porto até a grandiosidade serena do palácio, logo

à frente. Os pássaros voavam em círculos, gritando alto sobre os três mastros altos do navio

de tributos. O sol nascente era como um feixe de luz, traçando-se ao longo do mar a leste.

Quanta vivacidade no mundo, que manhã rica, bela e resplandecente para estar viva.

Mais de doze anos antes. Ela tinha 21 anos, alimentando seu ódio e seu segredo como se

fossem duas das três cobras de Morian enroladas em seu coração.

Fora escolhida para a saishan.

As circunstâncias de sua captura tornavam a escolha bastante provável, e os famosos olhos

acinzentados de Brandin se arregalaram prazerosamente, analisando-a quando a colocaram à

sua frente, dois dias mais tarde.

Estivera usando um vestido de seda com cores pálidas, lembrava-se, escolhido para destacar

seu cabelo negro e seus olhos castanho-escuros.

Tinha certeza de que seria escolhida. Não se sentia triunfante ou com medo, mesmo tendo

direcionado toda a sua vida para aquele dia, durante cinco anos, mesmo que as paredes,

telas e corredores tivessem se fechado ao seu redor no momento em que fora escolhida,

de nindo o resto de sua vida. Carregava seu ódio e seu segredo, e guardar os dois não

deixava espaço para mais nada.

Ou assim pensava aos 21 anos.

Dianora re etia em sua sacada, doze anos depois, que apesar de tudo o que vira e vivera,

ainda sabia muito pouco, perigosamente pouco, sobre muitas coisas que tinham importância

demais.

Mesmo protegida do vento, estava fresco na varanda. Os Dias das Brasas se aproximavam,

mas as ores apenas começavam a nascer nos vales e nas colinas, e o verdadeiro começo da

primavera ainda estava um pouco distante, mesmo ali no norte. Era diferente em sua casa,

Dianora se lembrava. Por vezes, ainda havia neve nas terras altas do sul quando os Dias das

Brasas da primavera começavam e terminavam.

Sem olhar para trás, Dianora ergueu uma mão. Em um instante, o eunuco lhe trouxe uma

caneca fumegante de khav de Tregea. Brandin gostava de lhe dizer, em particular, que era

preciso saber selecionar quais tarifas e restrições de importação faziam diferença, ou a vida

poderia car difícil demais. Khav era uma das coisas selecionadas. Só no palácio, é claro. Do

outro lado das muralhas, eles bebiam os produtos inferiores de Corte ou de Senzio, que era

neutra. Certa vez, um grupo de mercadores de khav, vindo de Senzio, chegara como parte de

uma embaixada para tentar convencê-lo de que havia melhorado a qualidade dos grãos e da

bebida fabricada. É realmente neutro, disse Brandin com rigor, enquanto provava. Tão

neutro que nem parece estar ali.

Os mercadores recuaram, consternados e pálidos, tentando desesperadamente

compreender o signi cado oculto nas palavras do Tirano de Ygrath. Os senzianos passavam

muito tempo tentando fazer isso, Dianora comentara secamente com Brandin depois. E ele

rira. Ela sempre conseguia diverti-lo, mesmo na época em que era muito nova e inexperiente

para fazer isso de propósito.

E esse pensamento lhe lembrou do jovem eunuco que a servira naquela manhã. Scelto

estava na cidade, buscando o vestido que ela usaria na recepção daquela tarde. O rapaz que

a atendera era um dos eunucos mais novos enviados de Ygrath para servir à saishan que

crescia na colônia.

Ele já estava bem treinado. Os métodos de Vencel podiam ser duros, mas não havia como

negar que funcionavam. Dianora decidiu não contar ao garoto que o khav não estava forte o su ciente; ele certamente desmoronaria, o que seria inconveniente. Ela comentaria o fato

com Scelto e deixaria que ele lidasse com o assunto. Não havia necessidade de contar a

Vencel: era-lhe útil que alguns dos eunucos sentissem por ela tanto gratidão quanto medo.

O medo vinha automaticamente, como uma consequência de quem ela era ali, na saishan. Já

gratidão ou afeto eram coisas que precisava conquistar.

Mais de doze anos desde aquela primavera, pensou novamente, reclinando-se para ver

através da tela a preparação para a chegada de Isolla de Ygrath, naquele mesmo dia. Aos 21,

ela supunha estar no ápice de qualquer beleza que pudesse ter em sua vida. Lembrava-se de

não ter nada daquela graça aos 15 e 16; em sua terra, sequer se preocuparam em escondê-la

dos soldados ygratheanos.

Aos 19, começara a mudar completamente. Embora, naquela época, já não estivesse mais

em casa e Ygrath não fosse mais um perigo para os moradores de Certando, dominada pelos

barbadianos. Ou não normalmente, ela corrigiu, lembrando-se — embora não fosse algo que

precisasse de lembrete — de que ali, na saishan, ela era Dianora di Certando. E também o

era do outro lado da ala oeste, na cama de Brandin.

Dianora tinha 33 anos e, em algum momento daqueles anos, que passaram tão rápido,

ganhou poder dentro daquele palácio — o que, é claro, signi cava poder em toda a Palma.

Na saishan, apenas Solores di Corte competia com ela no acesso a Brandin, e Solores era seis

anos mais velha do que ela, coletada no primeiro ano dos navios de tributos.

Às vezes, mesmo agora, tudo parecia demais para acreditar. Os eunucos mais jovens

tremiam se os olhasse séria; cortesãos, fosse na distante Ygrath ou ali, nas quatro províncias

da Palma, buscavam seu conselho e apoio nos pedidos a Brandin; músicos escreviam canções

para ela; poetas declamavam e dedicavam versos que louvavam sua beleza e sabedoria em

êxtases hiperbólicos. Os ygratheanos a comparavam às irmãs de seu deus, enquanto os

homens de Chiara, à lendária beleza de Onestra, antes do último Mergulho do Anel para o

Grão-Duque Cazal. É claro que os poetas sempre paravam essa última analogia antes do

mergulho e das tragédias que se seguiram.

Depois de uma dessas longas listas de adjetivos vinda de Doarde, ela sugerira a Brandin,

durante uma ceia tardia e privativa, que uma das principais diferenças entre homens e

mulheres residia no poder. O poder tornava os homens atraentes, mas, quando uma mulher

se tornava poderosa, apenas era conveniente elogiar sua beleza.

Ele re etira sobre o assunto, recostando-se e acariciando a barba. Dianora soubera que

assumia certo risco, mas ela também o conhecia muito bem.

— Duas perguntas — dissera Brandin, Tirano da Palma Ocidental, tocando-lhe a mão que

ela deixara sobre a mesa. — Você pensa que possui algum poder, minha Dianora?

Já esperava por aquilo.

— Apenas através do senhor e pelo pouco tempo que me resta antes de envelhecer, e o

senhor não mais me procurar. — Deixou uma leve crítica a Solores, mas discreta o bastante.

— Mas enquanto o senhor me ordenar que o veja, irá parecer que tenho algum poder na corte, e os poetas dirão que sou cada dia mais amável. Mais amável do que os diademas das

estrelas que coroam a ascensão do mundo... ou sei lá como era aquele verso.

— Acho que ele escreveu o diadema recurvado. — Ele sorriu.

Dianora esperava um elogio, já que Brandin costumava ser bem generoso nesse assunto.

Entretanto, seus olhos cinzentos se mantinham sóbrios e diretos. Ele disse:

— Minha segunda pergunta: você me consideraria atraente sem o poder que possuo?

E aquilo, lembrava-se ela, quase a pegara desprevenida. Era uma questão muito inesperada

e muito próxima ao lugar em que suas duas serpentes ainda estavam, mesmo que muito

adormecidas.

Ela abaixara seu olhar para as mãos, entrelaçadas. Como as serpentes, pensara. Fugiu rápido

daquele pensamento. Levantou a cabeça e, com o olhar manhoso de lado que sabia que ele

amava, disse, fingindo surpresa:

— O senhor possui algum poder aqui? Eu não havia percebido.

Um segundo depois, a gargalhada cheia de vida dele explodira. E Dianora sabia que os

guardas, lá fora, ouviriam. E falariam sobre aquilo. Todos em Chiara falavam; a ilha se

alimentava de fofocas e rumores. Depois daquela noite, haveria outra história. Nada novo,

apenas uma rea rmação, vinda daquela gargalhada alta, do quanto Brandin de Ygrath se

divertia com sua morena Dianora.

O Tirano a levara para a cama então, ainda divertido, fazendo-a sorrir e então rir diante de

seu bom humor. Brandin recebera seu prazer, lentamente e na miríade de modos que ele lhe

ensinara através dos anos, já que os ygratheanos traziam conhecimentos sobre tais assuntos;

e ele era, acima de tudo, o Rei de Ygrath.

E ela? De sua sacada, fechou os olhos naquela manhã de primavera, lembrando-se de como

aquela noite, e antes daquela noite — por anos e anos antes —, e mesmo então, tanto tempo

depois, seu próprio corpo rebelde, seu coração e seus pensamentos, que traíam juntos a sua

alma, haviam saciado a necessidade desesperada e profunda que o Tirano nutria.

Brandin de Ygrath — que viera aqui para matar, doze anos antes, com duas serpentes

envoltas nos escombros de seu coração, por ele ter feito o que fizera a Tigana, lar de Dianora.

Ou que ao menos fora seu lar, antes de ele o invadir, tomar, queimar e matar uma geração

inteira e destruir o próprio nome daquela terra. Seu verdadeiro nome. Ela era Dianora di

Tigana bren Saevar, e seu pai morrera no Segundo Deisa, portando desajeitadamente uma

espada, e não o cinzel de um escultor. O espírito de sua mãe se quebrara como um galho

seco diante da brutalidade da ocupação que se seguira. E seu irmão, cujos olhos e cabelos

eram exatamente como os seus e que ela amara mais do que qualquer coisa na vida, fora

exilado para a vastidão do mundo. Ela tinha apenas quinze anos.

E não fazia ideia de onde ele poderia estar, tantos anos depois. Se estaria vivo ou morto,

talvez longe da península em que os tiranos governavam províncias outrora orgulhosas, onde

o nome da mais orgulhosa delas havia desaparecido da memória dos homens.

Por causa de Brandin. Em cujos braços ela se deitara por tantas noites ao longo dos anos, sentindo a dor da necessidade e do desejo cada vez que ele a mandava chamar. O homem

cuja voz trazia conhecimento, inteligência e graça, a água na secura de seus dias. O homem

cuja risada, quando solta, quando ela conseguia arrancar-lhe, era como um sol curativo que

partia as nuvens. O homem cujos olhos cinzentos traziam a indecifrável cor do mar sob a

primeira luz da manhã de outono ou de primavera. Na mais antiga das histórias contadas em

Tigana, fora do mar cinzento ao amanhecer que o deus Adaon se erguera e viera para

Micaela, e com ela se deitara na sinuosidade comprida e escura da areia. Dianora conhecia

aquela história tão bem quanto conhecia seu nome. Seu verdadeiro nome.

E também sabia duas outras coisas: que seu pai ou seu irmão a matariam se algum dos dois

estivesse vivo para ver o que havia se tornado. E que aceitaria esse nal, e saberia que o

merecera.

Seu pai estava morto. O coração de Dianora tremia diante da possibilidade do irmão

também estar, ainda que a morte fosse poupá-lo da angústia de vê-la ali. Mas, a cada manhã,

ela rogava à Tríade, especialmente a Adaon das Ondas, para que ele estivesse além-mar,

distante demais de onde poderia receber notícias de uma Dianora, com olhos escuros como

os seus, na saishan do Tirano.

A não ser, disse a voz tranquila em seu coração, a não ser que ainda estivesse por vir a

manhã em que ela conseguiria encontrar um modo, ali na ilha, de conseguir, apesar de tudo

o que acontecera — apesar das pernas entrelaçadas à noite e apesar do som de sua própria

voz, gritando num desejo satisfeito —, trazer de volta mais um som para o mundo. Para as

vozes de homens, mulheres e crianças em toda a Palma, e ao sul além das montanhas da

Quileia, e ao norte e a oeste além de todos os mares.

O som do nome Tigana, que havia desaparecido. Desaparecido, mas não, se as deusas e o

deus fossem bondosos — se ainda houvesse algum amor ou piedade neles —, não para

sempre esquecido nem para sempre perdido.

Nas noites em que dormia sozinha, era aquele o maior sonho de Dianora, depois de Scelto

massagear sua pele e passar-lhe óleo, indo dormir do lado de fora de sua porta com uma

vela: que, talvez, ainda teria uma chance de descobrir como fazer isso, que seu irmão,

distante de casa, iria miraculosamente ouvir o nome de Tigana, falado por um estrangeiro

em meio a estrangeiros, em alguma corte ou em um bazar distante. E de algum modo, ele

saberia, enchendo-se de alegria nas profundezas do coração que Dianora conhecia tão bem,

que havia sido por meio dela que aquele nome se encontrava novamente no mundo.

Ela estaria morta a essa altura. Não tinha dúvidas quanto a isso. O ódio de Brandin naquela

única coisa — no assunto da vingança de seu lho — era algo xo e inalterável. Era a única

estrela eterna no firmamento de todas as terras que governava.

Ela estaria morta, mas não haveria problema: pois o nome de Tigana estaria restaurado, e

seu irmão estaria vivo e saberia que foi ela, e Brandin... Brandin entenderia que ela

encontrara um modo de fazer aquilo enquanto poupava sua vida, noite após noite, por

incontáveis noites, quando ela poderia tê-lo matado ao seu lado, enquanto dormia após fazer amor.

Aquele era o sonho de Dianora. Ela costumava acordar no meio da noite com o rosto

repleto de lágrimas, tamanha a intensidade dos sentimentos que ele desencadeava. Ninguém

jamais vira aquelas lágrimas, a não ser Scelto. E em Scelto ela con ava mais do que em

qualquer pessoa viva.

 

Ouviu os passos dele, rápidos e leves, no corredor, cruzando o piso até chegar à sua varanda.

Ninguém mais na saishan se movia como Scelto. Os eunucos eram notoriamente propensos à

preguiça e a gula — as óbvias substituições do prazer. Mas não Scelto. Tão magro quanto no

dia em que o conhecera, ele ainda buscava aquelas tarefas que os outros eunucos evitavam:

viagens pelas ladeiras da cidade velha ou mesmo para o norte, às colinas dos Sangarios, em

busca de ervas e folhas com poder de cura ou mesmo ores campestres para decorarem o

quarto dela.

Parecia não ter idade, mas já não era novo quando Vencel o designara para Dianora, e ela

imaginava que ele deveria ter por volta de 60 anos. Se Vencel morresse um dia — algo difícil

de imaginar, na verdade — Scelto certamente seria o próximo na la para sucedê-lo como

chefe da saishan.

Eles nunca falaram a respeito, mas Dianora sabia, com a mesma certeza com que poderia

saber qualquer coisa, que ele recusaria o cargo, se alguma vez lhe fosse oferecido, para

permanecer a seu serviço. Também sabia — e era isso que a tocava — que isso aconteceria

mesmo se Brandin parasse de procurá-la e ela se tornasse apenas outro item ignorado,

envelhecendo nos corredores da saishan.

E essa era a segunda coisa que Dianora nunca esperara encontrar, quando o ódio a

trouxera pelos mares de Chiara num outono, dentro do navio dos tributos: gentileza, carinho

e um amigo por trás das altas muralhas e vidraças enfeitadas do palácio, onde mulheres

aguardavam em meio a homens que haviam perdido sua masculinidade.

Os passos de Scelto, rápidos mesmo depois de subir toda a grande escadaria e então mais

vários metros até a saishan, soaram pelos mosaicos no chão da sacada, atrás dela. Dianora

ouviu enquanto murmurava algo para o garoto, e então o dispensava.

O eunuco deu mais um passo e pigarreou, anunciando sua chegada.

— É muito feio? — perguntou, sem se virar para ele.

— Vai servir — disse Scelto, cando ao seu lado. Ela deu uma olhada, sorrindo ao ver o

cabelo curto e grisalho, a boca precisa e magra e o horrível nariz quebrado, em forma de

arco. De muitos anos atrás, ele dissera quando Dianora lhe perguntara. Resultado de uma

briga por uma mulher, ainda em Ygrath. Ele havia matado o outro homem, que era um

nobre. E isso custara a Scelto seu sexo e sua liberdade, o que o trouxera até ali. Dianora

cara mais incomodada com a história do que ele parecera car. Por outro lado, pensara a

moça, aquilo era algo novo para ela, enquanto para Scelto seria apenas uma velha história em

sua vida, datada de muito antes.

Ele trazia o vestido vermelho escuro, que havia mandado fazer na velha cidade. Pelo sorriso dele, que re etia o dela, sabia que tinha valido a pena adular Vencel em troca do dinheiro

necessário. O líder da saishan certamente iria querer um favor mais tarde, sempre queria,

mas a saishan era regida por aquelas trocas; e Dianora, olhando para o vestido, não se

arrependia.

— O que Solores vai usar? — perguntou.

— Hala não quis me contar — murmurou Scelto, com tristeza. Dianora riu alto da

expressão séria que ele conseguia manter.

— Tenho certeza de que não quis — disse ela. — O que ela vai usar?

— Verde — disse o eunuco, prontamente. — Cintura alta, gola alta. Pregas de dois tons,

abaixo da cintura. Sandálias douradas. Um bom punhado de ouro em todos os cantos. O

cabelo vai estar preso, é claro. Ela tem brincos novos.

Dianora riu novamente. Scelto se permitiu um pequeno sorriso de satisfação.

— Eu tomei a liberdade de comprar mais uma coisa, enquanto estava na cidade —

continuou ele.

O eunuco pôs a mão em um dos bolsos de sua túnica e lhe deu uma pequena caixa.

Dianora abriu-a e segurou a pedra preciosa em sua frente, sem palavras. Na luz daquela

manhã que batia na sacada, a pedra brilhou e re etiu como uma terceira lua, dessa vez

vermelha, unindo-se à Vidomni branca e à Ilarion azul. Scelto disse:

— Achei que cairia melhor com o vestido do que qualquer coisa que Vencel pudesse

oferecer dentre as joias da saishan.

Ela balançou a cabeça, embasbacada.

— É linda, Scelto. Nós podemos pagar por isso? Terei de car sem chocolate durante a

primavera e o verão?

— Não é uma má ideia — disse ele, ignorando a primeira pergunta. — Você comeu dois

pedaços esta manhã, enquanto eu estava fora!

— Scelto! — exclamou ela. — Pare com isso! Vá espiar a Solores e ver no que ela gasta seus

chiaros. Eu tenho meus hábitos e meus prazeres, e nenhum deles, até onde posso ver, faz

mal a alguém. Você acha que estou gorda?

Com alguma relutância, Scelto balançou a cabeça negativamente.

— Não tenho ideia do porquê, mas não — murmurou ele.

— Bem, então continue pensando nisso até descobrir a resposta — disse ela, com uma

jogada de cabelos. — Aliás, isso me lembra... O garoto desta manhã foi bem, exceto pelo

khav, que estava muito fraco. Você pode falar com ele, explicar como eu gosto do khav?

— Eu já falei. Mandei que fizesse um pouco fraco.

— Você o quê? Scelto, eu...

— Você sempre começa a beber mais khav no m do inverno, quando o tempo começa a

mudar, e a cada primavera você tem problemas para dormir à noite. Você sabe que é

verdade, minha senhora. Ou menos copos, ou khav mais fraco. É meu trabalho tentar

mantê-la descansada e tranquila.

Por um segundo, Dianora não soube o que dizer.

— Tranquila! — nalmente conseguiu falar. — Eu poderia ter assustado aquela pobre

criança até a ponta de seus dedos! Eu teria me sentido terrível!

— Eu lhe disse o que falar — disse Scelto, calmamente. — Ele teria me culpado.

— É mesmo? E se eu tivesse me reportado diretamente para Vencel? — respondeu

Dianora. — Scelto, ele faria com que aquele garoto fosse amarrado e torturado!

O leve som fungado que Scelto proferiu deixou bem claro o quanto ele achava a sua

senhora incapaz de fazer tal coisa.

A expressão do eunuco era tão irônica que, mesmo contra sua vontade, Dianora pegou-se

rindo novamente.

— Muito bem — disse ela, rendendo-se. — Que sejam menos copos então, pois você sabe

que eu gosto deles fortes, Scelto. Não vale a pena bebê-los de outro jeito. Além disso, não

acho que seja esse o motivo de eu não conseguir dormir à noite. Essa época simplesmente me

deixa inquieta.

— Você foi oferecida como tributo na primavera. Todas na saishan cam inquietas na

estação em que foram levadas — murmurou ele. E então, hesitando: — Não posso fazer

nada quanto a isso, minha senhora. Mas pensei que o khav talvez estivesse piorando as

coisas.

Havia preocupação e afeto em seus olhos castanhos, quase tão escuros quanto os dela.

— Você se preocupa demais comigo — disse ela, após um momento.

Scelto sorriu.

— E com quem mais eu me preocuparia?

Houve um pequeno silêncio; Dianora podia ouvir ruídos na praça, à distância.

— E por falar em preocupação — disse Scelto, em um esforço visível para mudar o assunto

—, talvez estejamos nos preocupando demais com o que Solores está fazendo. Talvez

devêssemos olhar mais para a mais nova, a dos olhos verdes.

— Iassica? — perguntou Dianora, surpresa. — Para quê? Brandin nunca a chamou, e ela já

está aqui há um mês.

— Exatamente — disse Scelto. Ele parou, um pouco encabulado, o que despertou a

curiosidade dela.

— O que foi, Scelto?

— Eu, bem, é que Tesios, que toma conta dela, me disse que nunca viu ou ouviu falar de

uma mulher na saishan com tamanho... controle de seu corpo ou tanta... capacidade para o

clímax do amor.

Ele corava intensamente, o que fez Dianora car constrangida também. Era uma prática

comum, com algumas variações mais incomuns, que as mulheres da saishan usassem seus

eunucos para lhes dar alívio físico, caso cassem muito tempo sem serem chamadas à outra

ala.

Dianora nunca pedira tal serviço a Scelto. Alguma coisa nessa ideia a perturbava: parecia-lhe um abuso, de um modo que não conseguia explicar. Frequentemente se lembrava de que

ele era um homem que havia matado alguém pelo amor de uma mulher. Seu

relacionamento, por mais próximo que fosse, nunca havia entrado nessa dimensão. Era

estranho, pensou ela, e até mesmo divertido o quão tímidos os dois cavam com a simples

menção desse assunto — e a Tríade sabia o quanto isso era frequente num lugar como a

saishan.

Ela se virou para o corrimão e olhou através do biombo, dando a Scelto tempo para se

recompor. Embora, pensando no que ele havia falado, ela se divertisse. E já estava

planejando como e quando iria contar a Brandin sobre isso.

— Meu amigo — disse ela —, você pode me conhecer muito bem. Mas do mesmo modo e

pelas mesmas razões, eu conheço Brandin muito bem.

Ela olhou de volta para seu eunuco.

— Ele é mais velho do que você, Scelto. Tem quase 65. E, por razões que eu não consigo

entender, disse que deve viver aqui na Palma por pelo menos mais sessenta anos. Toda a

feitiçaria do mundo com certeza não seria o su ciente para prolongar tanto sua vida se

Iassica for tão... excepcional quanto Tesios sugeriu. Ela iria desgastá-lo, não importa o quão

prazeroso fosse, em um ano ou dois.

Scelto corou novamente e olhou rápido por sobre os ombros. Mas estavam sozinhos.

Dianora riu, em parte porque estava realmente se divertindo, e principalmente para mascarar

a mágoa que sentia sempre que essa mentira era contada: o que ela ainda escondia de Scelto.

O único segredo que importava.

É claro que sabia por que Brandin precisava car ali na Palma, por que ele precisava usar

sua feitiçaria para prolongar sua vida em um lugar que certamente era para ele um exílio em

uma terra de mágoa.

Brandin precisava esperar até que todos os nascidos em Tigana morressem.

Somente então ele poderia deixar a península em que seu lho fora assassinado. Somente

então sua vingança teria se espalhado completamente naquele chão ensanguentado. Pois não

haveria ninguém no mundo que carregasse uma memória verdadeira de Tigana antes de sua

queda, uma lembrança de Avalle das Torres, das canções e das lendas, de toda a sua longa e

magnífica história.

E daí estaria nalmente terminada. Apagada. Setenta ou oitenta anos arquitetando uma

obliteração tão completa que se assemelhava ao que os milênios haviam feito às civilizações

antigas, agora desconhecidas. Culturas inteiras que eram agora pouco mais do que o nome

estranho de um lugar ou um título pomposo — Imperador de Toda a Terra — decifrado

num vaso quebrado.

Brandin poderia voltar para sua casa em sessenta anos. Ele poderia fazer o que quisesse.

Até lá, ela já estaria morta há muito tempo, assim como aqueles nascidos em Tigana que

eram ainda mais novos do que ela. Os últimos herdeiros.

As últimas crianças que conseguiam ouvir e ler o nome da terra que um dia fora deles. Oitenta anos é quanto Brandin se dava. Mais do que o su ciente, dada a expectativa de vida

na Palma.

Oitenta anos até o esquecimento. Até o vaso quebrado e sem signi cado. Já se haviam

perdido os livros, as pinturas, as tapeçarias, as esculturas, a música: rasgados, esmagados ou

queimados naquele terrível ano após a queda de Valentin, quando Brandin arremetera

contra eles na agonia de um pai que perde o lho, trazendo-lhes o ódio igualmente grave de

um conquistador.

Fora o pior ano na vida de Dianora. Ver toda a beleza e esplendor esvair-se em entulho e

pó ou queimar até as cinzas do aniquilamento. Ela tinha 15, 16 anos. Ainda era muito jovem

para compreender tudo o que estava sendo erradicado. Pela morte de seu pai e a destruição

de sua arte — os trabalhos vindos de suas mãos e de seus dias — lamentara amargamente. E

também pela morte de amigos e os terrores de uma cidade subitamente empobrecida e

atacada. As maiores perdas, as implicações futuras, ainda não compreendia.

Muitos da cidade enlouqueceram naquele ano.

Outros fugiram, levando seus lhos para tentar construir uma vida distante das chamas, da

memória das chamas, das marretas despedaçando as estátuas dos príncipes na galeria do

Palácio ao Mar. Alguns entraram tão fundo em si mesmos — outra espécie de loucura — que

apenas uma mera fagulha restara neles, o suficiente para fazê-los comer e dormir, e de algum

modo andar, em meio ao deserto de seus dias.

Sua mãe fora uma dessas.

Na sacada em Chiara, tantos anos depois, Dianora olhou para Scelto e percebeu, pela

expressão preocupada em seu rosto, que ficara calada por tempo demais.

Forçou um sorriso. Ela estava ali há muito tempo; era boa em dissimular, em sorrir, quando

preciso. Mesmo para Scelto, a quem odiava enganar. E especialmente para Brandin, a quem

precisava enganar, ou morreria.

— Não precisamos nos preocupar com Iassica — disse, calma, continuando a conversa

como se nada tivesse acontecido. De fato, nada tinha acontecido, a não ser o retorno de

velhas memórias. Nada que importasse ao mundo, nada de valor ou serventia. Apenas

perda. E, rindo habilmente, acrescentou: — Ela é muito estúpida para diverti-lo, e muito

jovem para relaxá-lo como Solores faz. Mas estou feliz em receber essa informação. Acho que

podemos usá-la. Diga-me, cuidar dela está deixando Tesios desgastado? Devo falar com

Vencel para lhe designar alguém mais novo? Ou talvez mais de um?

Ela o fez sorrir, ainda que corando novamente. Aquilo sempre parecia acontecer. Se ela

conseguisse fazê-los rir ou sorrir, as nuvens seriam varridas como pelo vento, deixando para

trás o céu azul e límpido.

Dianora desejou, com o coração doído, que já soubesse fazer isso dezoito anos antes. Por

sua mãe e seu irmão. Por ambos, tanto tempo atrás. Naquela época, não houve risadas. Não

houve risos em lugar algum, e o céu azul servia apenas de zombaria às ruínas abaixo dele. Vencel, incrivelmente mais obeso a cada dia, aprovou o vestido de Solores, o de Nesaia, o de

Chylmoene e então o dela. Apenas as quatro com experiência su ciente para saber como agir

segundo as exigências de uma recepção formal iriam descer até a câmara de audiências.

Scelto apontara secamente que a inveja na saishan havia sido tão forte naquela última

semana que era possível até mesmo sentir seu cheiro. Dianora não havia percebido; estava

habituada.

Enquanto a analisava, os olhos astutos de Vencel se arregalaram em meio às muitas rugas

de seu rosto escuro. Ela trazia a pedra preciosa em sua fronte, numa faixa de ouro branco

que mantinha seu cabelo preso. Esparramado em seu sofá cheio de almofadas, o chefe da

saishan brincava com as dobras de sua imensa túnica branca. O brilho do sol, vindo

diretamente de uma janela atrás dele, se refletia em sua cabeça calva.

— Não me lembro dessa pedra entre nossos tesouros — murmurou ele, no tom agudo e

discrepante de sua voz. Era uma voz tão inconsistente que poderia levar alguém a subestimar

seu dono. Algo que, conforme várias pessoas haviam descoberto ao passar dos anos, era um

erro terrível e, às vezes, mortal.

— Não é de lá — respondeu Dianora, feliz. — Embora, depois que voltarmos nesta tarde,

eu deseje pedir que a guarde lá, em meu nome, entre os outros tesouros.

Era uma sugestão de Scelto. Vencel podia ser corrupto e mercenário em muitas coisas, mas

não no que dizia respeito aos aspectos formais de seu cargo. Era esperto demais para isso.

Novamente, uma verdade que algumas pessoas haviam pagado um preço bem alto para

descobrir.

Ele assentiu.

— Parece uma pedra muito boa, vista de longe.

Obedientemente, Dianora deu um passo à frente e inclinou a cabeça com graciosidade,

deixando-o ver a joia mais de perto. Ela foi tomada pelo aroma de ores que ele sempre

usava após o fim do inverno. Era doce demais, mas não desagradável.

Ela chegara a temer Vencel uma vez: um misto entre a repulsa física que sentia dele e os

rumores das coisas que ele gostava de fazer com os eunucos mais novos e com algumas das

mulheres que estavam na saishan por razões puramente políticas, sem esperança de voltar a

ver o mundo lá fora ou mesmo a ala oeste do palácio e os aposentos de Brandin. Mas fazia

muito tempo desde que ela e o líder da saishan haviam chegado a um entendimento. Solores

possuía o mesmo acordo não verbal com Vencel. E no tênue equilíbrio que conseguiram

alcançar, os três controlavam, da melhor maneira que podiam, aquela vida de clausura,

intensidade, ociosidade, incensos, mulheres frustradas e meios-homens.

Com um dedo surpreendentemente delicado, Vencel tocou a pedra em sua testa e sorriu:

— Uma boa pedra — disse, novamente, dessa vez em tom de julgamento e com o hálito

perfumado. — Deverei falar com Scelto sobre isso. Veja bem, entendo dessas coisas. E, veja

bem, pedras-de-veiro vêm do norte. De minha terra. São extraídas de Khardhun. Por muitos

anos, brinquei com elas como se fossem bijuterias, os brinquedos de um monarca. Na época

em que eu era mais do que sou agora. Pois, como você bem sabe, eu fui Rei de Khardhun.

Dianora concordou, com um sério aceno de cabeça. Pois aquele era mais um dos termos de

seu acordo não verbal com Vencel: que não importava quantas vezes ele soltasse essa

mentira louca e estúpida — e ele o fazia várias vezes ao dia, com uma variação ou outra —,

ela deveria concordar, pensativa, como se ponderasse sobre a mensagem contida na grandeza

de sua queda.

Apenas em seu quarto, a sós com Scelto, Dianora poderia rir como uma menina ao pensar

que o imenso líder da saishan já fora mais do que ele era agora ou com as imitações que

Scelto fazia de seus discursos e gestos.

— Você é muito bom nisso — dizia ela, inocentemente, enquanto Scelto arrumava seu

cabelo ou lustrava suas sandálias até que brilhassem.

— É uma coisa que conheço muito, veja bem — respondia o eunuco e, se soubesse com

certeza que estavam sozinhos, subia o tom de sua voz. Ele fazia gestos lentos e abrangentes.

— Porque, como você bem sabe, eu era Rei de Khardhun.

E ela ria como uma menina que sabia estar aprontando e que adorava fazê-lo.

Certa vez, perguntara a Brandin sobre isso. Soubera que a campanha dele em Khardhun

não havia sido um absoluto sucesso. Ele já falava com franqueza a Dianora sobre esses

assuntos. Havia magia de verdade em Khardhun, naquela terra quente ao norte, depois do

mar, entre as vilas costeiras e as planícies do deserto. Uma magia muito mais poderosa do

que qualquer coisa na Península da Palma e equivalente ao poder de Ygrath.

Brandin havia tomado uma cidade e estabelecido um tênue controle sobre algumas das

terras que margeavam o grande deserto que se estendia pelo norte. Ela também descobriu

que houvera perdas, grandes perdas. Os khardhuneanos eram aclamados por suas

habilidades de batalha, o que era de conhecimento geral na Palma: vários deles haviam

servido como mercenários bem pagos nas províncias em guerra, muito antes de os tiranos

chegarem e tornarem irrelevantes todos os conflitos menores.

Brandin lhe contou que Vencel era um arauto que fora capturado tardiamente, durante a

campanha. Ele já era eunuco: algo que eles faziam aos mensageiros no norte por razões que

Brandin desconhecia. Quando trazido para Ygrath, era óbvio o local para onde o eunuco

deveria ir. E ele já era, conforme confirmara Brandin, enorme.

Dianora se endireitou quando Vencel retirou seu dedo da brilhante pedra-de-veiro

vermelha.

— O senhor descerá conosco? — perguntou ela. Uma formalidade.

— Acho que não — disse ele, sério, como se realmente pensasse no assunto. — Talvez

Scelto e Hala possam cuidar dessa tarefa. Tenho alguns assuntos que exigem minha atenção

por aqui hoje à tarde, veja bem.

— Eu compreendo.

Dianora lançou um olhar a Solores, e ambas ergueram uma palma aberta, numa saudação

respeitosa. De fato, Vencel não deixara a ala saishan nos últimos cinco anos. Mesmo quando

andava pelos cômodos daquele andar, fazia-o sobre uma bem-arquitetada esteira rolante de almofadas. Dianora não conseguia se lembrar da última vez em que realmente o vira de pé.

Scelto e Hala — designado a cuidar de Solores — atendiam a todas as demandas formais fora

da saishan. Vencel gostava de delegar tarefas.

Eles desceram a escadaria que ia da saishan para o mundo. No piso abaixo, elas aceitaram o

olhar — respeitoso, embora cuidadoso — dos dois guardas colocados junto às pesadas portas

de bronze que barravam o acesso ao local em que as mulheres estavam.

Dianora respondeu aos seus olhares com um sorriso. Um deles sorriu em resposta, tímido.

Os guardas eram trocados com frequência; não conhecia nenhum dos dois, mas um sorriso

era o começo de uma amizade, e ter um amigo a mais não era má ideia.

Scelto e Hala, vestidos discretamente de marrom, guiaram as quatro mulheres para fora da

ala saishan, através do corredor principal do palácio até a grande escadaria ao centro. Ali, os

dois eunucos pararam para deixar que as mulheres passassem à sua frente. Com algum

orgulho, mas não com altivez — eram as prisioneiras e concubinas de um conquistador —,

Dianora e Solores guiaram o caminho, descendo as escadas.

Obviamente, foram notadas. As mulheres da saishan eram sempre notadas quando

apareciam. Havia várias pessoas no cômodo de mármore que dava para a câmara de

audiências; elas abriram passagem para os quatro. Alguns dos homens mais novos sorriam de

um modo que Dianora havia levado tempo para aceitar.

Outros a conheciam melhor; suas expressões eram muito diferentes. Ela e Solores pararam

novamente junto à entrada da maior entre as salas de recepção formal. Estavam lado a lado,

dessa vez apenas para causar efeito — o vestido vermelho-sangue ao lado do verde — e

caminharam juntas pelo salão abarrotado.

Enquanto andava pelo salão — como toda vez em que fazia isso —, Dianora agradeceu

internamente pelo impulso que levou Brandin a mudar as regras da saishan na colônia que

governava.

Sabia que, em Ygrath, isso jamais seria permitido. Se outro homem, que não fosse o Rei ou

um dos eunucos, visse uma mulher da saishan, quanto mais conversasse com ela, isso

signi cava a morte para ambos. E, segundo Vencel lhe contara, também para o chefe da ala

saishan.

As coisas quase sempre haviam sido diferentes ali, em Chiara. Com o passar dos anos,

Dianora aprendeu que parte de sua gratidão deveria ser direcionada a Dorotea, Rainha de

Ygrath, e à sua decisão de permanecer lá com Girald, o lho mais velho, em vez de

acompanhar seu marido no exílio autoimposto. Escolha de Dorotea; ou, dependendo de

quem se escutasse, a escolha de Brandin, que não exigiu a companhia de sua Rainha.

De modo instintivo, Dianora sempre preferira a última versão da história. Mas era sábia o

su ciente para entender sua preferência, e essa era uma das coisas que nunca contara a

Brandin. Não que o assunto fosse um tabu; ele não era esse tipo de homem. Simplesmente

não saberia como lidar com a resposta que ele daria, caso a questão fosse um dia levantada.

De qualquer modo, com a permanência de Dorotea em Ygrath, havia poucas mulheres nascidas na corte dispostas a se arriscar cruzando os mares e o desprazer da Rainha, apenas

para vir à colônia da Palma — o que signi cava uma grande escassez de mulheres na nova

corte de Brandin em Chiara. E isso, por sua vez, gerava uma mudança no papel da saishan,

que aumentou substancialmente nos últimos anos, desde que Brandin ordenara que os

navios de tributo buscassem as lhas de famílias distintas, em Corte ou em Asoli. Em Chiara,

ele mesmo as escolhia. De Baixa Corte, que um dia carregara um nome diferente, ele não

pegava mulher alguma, uma regra absoluta. O ódio ali corria em ambas as direções e de

maneira profunda, e a saishan não era um local para deixá-lo se inflamar.

Ele trouxera apenas algumas das mulheres de sua saishan em Ygrath, deixando-a quase

intacta. A política era bem clara: o controle da saishan era um símbolo que con rmava a

imagem de autoridade de Girald, que governava então como Regente de Ygrath em nome

de seu pai.

Com tais mudanças ali, na colônia, a nova saishan era muito diferente da antiga; Vencel e

Scelto haviam contado a ela. O ambiente era outro, inteiramente distinto.

Havia ainda, entre todas essas mulheres de Corte, Chiara e Asoli e do punhado que viera

de Ygrath, uma mulher chamada Dianora, de Certando. Da Certando que era governada

pelos barbadianos.

Ou assim pensavam todos do palácio.

Dianora se lembrava de como isso quase havia começado uma guerra.

Nos dias depois da partida de seu irmão, Dianora di Tigana, com apenas 16 anos, lha de

um escultor que morrera na guerra e de uma mãe que quase não falara mais depois daquele

dia, resolveu que dedicaria sua própria vida à morte do Tirano em Chiara.

Endurecendo da maneira que os homens eram forçados a fazer em uma batalha — da

maneira que seu pai provavelmente tentara fazer, junto ao Deisa —, ela começou

preparando-se para deixar sua mãe naquela casa vazia, cheia de ecos, que já fora um lar

repleto de alegria. Um lugar onde o Príncipe de Tigana andara no quintal, um braço apoiado

sobre o ombro de seu pai, conversando e elogiando os trabalhos que realizava ali.

Dianora conseguia se lembrar.

Ao entrar na câmara de audiências, ela conferiu e aprovou seu re exo na parede de

espelhos dourados que cava do outro lado da sala. E então seus olhos buscaram,

instintivamente, os de d’Eymon de Ygrath, o Chanceler. O segundo homem mais poderoso

na corte.

Previsivelmente, ele já olhava em direção às duas, seu olhar tão vazio quanto sempre fora.

Um olhar que havia incomodado Dianora quando ela chegara. Pensou que d’Eymon não

gostasse dela — ou pior: que suspeitasse de algo. Não demorou até ela perceber que o

Chanceler desgostava e descon ava de qualquer um que entrasse naquele palácio. Todos

recebiam o mesmo escrutínio gélido. E também fora assim, ouvira ela, em Ygrath. A lealdade

de d’Eymon a Brandin era fanática e inalterável, e assim também era seu zelo em proteger o

Rei.

Com o passar dos anos, Dianora desenvolveu certo respeito pelo amargo ygratheano,

relutante a princípio, depois mais natural. E ela considerava a con ança que conquistara dele

como mais um de seus triunfos. Uma con ança que durava anos; do contrário, nunca teriam

permitido que ela passasse a noite na cama com Brandin enquanto ele dormia.

O triunfo da enganação, pensou, com uma ironia que mordiscava a própria alma.

D’Eymon fez um leve movimento circular com a cabeça, olhando-a, e então repetiu o gesto

para Solores. Era o que já esperavam: estavam ali para se misturar e conversar. Nenhuma

delas deveria se sentar na cadeira que cava ao lado do trono insular. Elas o faziam, às vezes

— e assim tinha feito a linda Chloese, antes de sua morte prematura —, mas Brandin era

bastante rígido quando convidados de Ygrath estavam entre eles. Em tais ocasiões, o assento

ao lado do seu permanecia notadamente vazio. Para Dorotea, sua Rainha.

Obviamente Brandin ainda não havia entrado no salão, mas Dianora viu Rhun, o Bobo

preguiçoso e careca, dançando diante de uma das serviçais que carregava vinho.

Naturalmente desajeitado e extremamente retardado, estava vestido suntuosamente de

dourado e branco, e Dianora soube que Brandin também estaria. Era parte integrante da

complexa relação entre os reis feiticeiros de Ygrath e seus bobos.

Por séculos, o Bobo servira como sombra e projeção do Rei de Ygrath. Ele se vestia como

seu monarca, comia perto dele nos eventos públicos, estava lá quando honrarias eram

conferidas ou julgamentos realizados. E todo bobo de um rei era visivelmente, e às vezes

dolorosamente, doente ou deformado. O caminhar de Rhun era lento, seus traços retorcidos

e disformes. Suas mãos cavam em ângulos estranhos quando em repouso, sua fala era

arrastada. Ele reconhecia as pessoas na corte, mas não sempre; e não da maneira que se

poderia esperar, o que por vezes trazia uma mensagem. Uma mensagem do Rei.

Aquela parte, Dianora não compreendia plenamente, e duvidava que um dia

compreendesse. Sabia que a mente turva e limitada de Rhun era controlada principalmente

por ele, mas também sabia que havia algo mais. Havia feitiçaria ali: a sutil magia de Ygrath.

O que ela entendia era que, além de servir de forma bastante visual para lembrar o Rei de

sua própria mortalidade e de suas limitações, os bobos de Ygrath, vestidos exatamente como

seus senhores, poderiam às vezes servir como uma voz, um canal externo para os

pensamentos e as emoções do Rei.

Algo que signi cava que ninguém conseguia saber ao certo se as palavras e ações de Rhun,

tão lentas e estranhas, eram dele ou serviam como uma importante revelação do humor de

Brandin. Aquilo era um terreno traiçoeiro para os incautos.

Naquele momento, Rhun parecia estar sorridente e feliz, sacudindo-se e saudando cada um

que encontrava, o chapéu dourado caindo sempre. Mas ele ria cada vez que se abaixava para

recolhê-lo e colocá-lo sobre o cabelo, cada vez mais ralo. Às vezes, algum cortesão mais

ansioso, buscando ganhar reconhecimento de qualquer modo possível, corria para pegar o

chapéu e devolvê-lo ao Bobo. Rhun ria disso também.

Dianora tinha de admitir que ele a incomodava, embora tentasse esconder esse sentimento debaixo da compaixão sincera que sentia por suas doenças e por sua idade, visivelmente

avançada. Mas a grande verdade, para ela, era que Rhun estava intimamente ligado à magia

de Brandin; ele era uma extensão dela, uma ferramenta, e essa magia era a fonte de toda a

sua perda e o seu medo. E de sua culpa.

Assim, com o passar dos anos, ela se tornou hábil em evitar situações que a obrigassem a

estar a sós com o Bobo; seus olhos sinceros, tão dolorosamente similares aos de Brandin,

davam-lhe verdadeira agonia. Se os encarava por muito tempo, eles pareciam não ter

profundidade, sendo apenas super ciais, re etindo sua imagem de volta para si de uma

maneira muito diferente dos espelhos de borda dourada. E, naqueles momentos, não gostava

do que via.

Da porta, com a graça adquirida pela longa experiência, Solores deu um passo para a

direita, enquanto Dianora se movia para a esquerda, sorrindo para as pessoas que conhecia.

Nesaia e Chylmoene, trajando castanho e âmbar, cruzaram o salão juntas, criando uma

visível agitação por onde passavam.

Dianora viu o poeta Doarde, com sua esposa e sua lha. A menina, que devia ter uns 17

anos, estava obviamente empolgada. Dianora imaginou que fosse seu primeiro evento

formal. Doarde sorriu excessivamente do outro lado do salão, fazendo-lhe uma elaborada

reverência. Mesmo à distância, no entanto, ela conseguia ler a frustração em seus olhos: uma

recepção daquele nível para um músico vindo de Ygrath deveria ser um fel amargo para o

poeta mais velho na colônia. Durante todo o inverno ele havia se envaidecido dos versos que

Brandin enviara para leste, como estímulo aos barbadianos quando a notícia da morte de

Sandre chegara até eles no outono. Doarde se tornara insuportável por meses. Naquele dia,

no entanto, Dianora conseguia simpatizar com ele um pouco, ainda que o considerasse uma

fraude monumental.

Dissera isso a Brandin certa vez, apenas para descobrir que ele considerava o poeta

pomposamente divertido. Quando queria uma arte genuína, dissera ele, procurava em outro

lugar.

E você o destruiu, ela tivera vontade de dizer.

Muita vontade. Lembrava-se, com uma dor quase física, da cabeça quebrada e do busto

esfacelado do último Adaon de seu pai, na escadaria do Palácio ao Mar. Aquele para o qual

seu irmão, en m com idade su ciente, havia servido como modelo para o jovem deus. Ela se

lembrava de estar com os olhos secos enquanto olhava para os escombros daquela escultura,

querendo chorar, mas sem saber onde suas lágrimas estavam.

Olhou novamente para a lha de Doarde, para sua empolgação juvenil, mal contida.

Dezessete.

Logo após seu aniversário de 17 anos, Dianora havia roubado metade da prata do cofre

escondido de seu pai, pedindo perdão ao seu espírito e a bênção de sua mãe em seu coração,

e implorando pela compaixão de Eanna, que tudo via sob o brilho de sua luz.

Partira sem dizer adeus, embora tenha olhado uma última vez para trás, na luz fraca da vela que carregava. Avistara a gura magra e envelhecida de sua mãe, dormindo mal na

imensidão da cama. Dianora já endurecera, como se fosse para uma batalha. Ela não chorou.

Quatro dias depois, cruzara a fronteira e chegara a Certando, tendo atravessado o rio por

uma parte mais deserta, ao norte de Avalle. Ela precisou ter cuidado ao chegar lá — soldados

ygratheanos ainda caminhavam pelo interior e, em Avalle, martelavam as torres,

derrubando-as. Algumas ainda permaneciam de pé — conseguia ver de seu esconderijo —,

embora a maioria já fosse apenas ruínas e o que ela vira de Avalle tenha sido através de uma

cortina de fumaça.

Nem era mais Avalle, tampouco. O feitiço já havia sido lançado, a mágica de Brandin. A

cidade sobre a qual uma mortalha de fumaça e pó se erguia pesadamente agora se chamava

Stevanien. Dianora se lembrava de não entender como um homem conseguia dar o nome do

lho que ele um dia amara àqueles horríveis escombros de um lugar outrora tão lindo. Mais

tarde, caria mais claro para ela: o nome não tinha nada a ver com a memória que Brandin

mantinha de Stevan. Era apenas, para aqueles que viviam ali e para todos os que já foram de

Tigana, um lembrete constante e inescapável da morte de quem signi cara sua ruína. Os

tiganeses agora viviam em uma província chamada Baixa Corte — e Corte fora sua mais

amarga inimiga por séculos. A cidade de Tigana era agora a cidade de Baixa Corte.

E Avalle das Torres era Stevanien. A vingança do Rei de Ygrath fora além da ocupação, dos

incêndios, dos escombros e das mortes. Ela englobara nomes e memórias, o tecido da

identidade; era algo sutil e impiedoso.

Havia muitos refugiados no verão em que Dianora fora para o leste, mas nenhum deles

possuía algo sequer semelhante ao seu propósito, por isso a maioria ia para muito mais além:

até o extremo das plantações de Certando, até Ferraut, Tregea ou mesmo Astibar.

Pretendendo, às vezes até ansiosos por isso, viver sob a tirania do senhor barbadiano, para

conseguirem se distanciar o máximo possível das imagens do que Brandin de Ygrath zera

ao seu lar.

Mas Dianora se agarrara àquelas imagens. Ela as alimentava dentro de seu peito com ódio,

moldando rancor com a memória. Serpentes gêmeas dentro dela.

Andou apenas alguns quilômetros além da fronteira, dentro de Certando. Os campos de

milho, típicos do nal do verão, estavam altos e amarelos, recordava-se, mas todos os

homens haviam partido, fugido para o norte e o leste, já que Alberico de Barbadior, tendo

cuidadosamente consolidado suas conquistas de Ferraut e Astibar, movia-se para o sul.

Ele seria o senhor de Certando quando o outono terminasse. E tomaria Borifort, a última

fortaleza que resistia em Tregea, na primavera seguinte, depois de um cerco que duraria todo

o inverno.

Muito antes disso, Dianora já havia encontrado o que procurava nas terras altas a oeste de

Certando. Uma aldeia, com vinte casas e uma taverna, ao sul de Sinave e de Forese, os dois

grandes fortes que se encaravam de cada lado da fronteira que dividia Certando do que

aprendera a chamar de Baixa Corte.

A terra próxima das montanhas do sul não era tão boa quanto a que se encontrava além,

no norte. A época de plantio e crescimento era mais curta. Ventos frios desciam de Braccio e

Sfaroni no começo do outono, trazendo neve logo em seguida, um inverno branco e longo.

Lobos uivavam nas noites de inverno; e em algumas manhãs, viam-se estranhas pegadas na

neve profunda — pegadas que desciam da montanha e então retornavam.

Continuar: parte 2 de 2