Tigana: A Lâmina na Alma
Parte três – De brasa a brasa
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
PARTE TRÊS
De brasa a brasa
CAPÍTULO IX
Estava frio no barranco ao lado da estrada. Havia uma linha na e protetora de bétulas entre eles e os portões da propriedade Nievolene, mas, mesmo assim, o vento parecia uma faca toda vez que lhes tocava a pele.
Nevara na noite anterior, algo raro tão ao norte, mesmo em pleno inverno. A paisagem
estava branca e congelante na segunda noite de viagem após deixarem Ferraut, mas Alessan
se recusara a reduzir o passo. Ele falava cada vez menos conforme a noite avançava, e Baerd
já falava pouco, mesmo nas melhores circunstâncias. Devin engolira suas perguntas e estava
focado em acompanhar os outros.
Atravessaram a fronteira de Astibar na escuridão e chegaram às terras Nievolene pouco
após o alvorecer. Os cavalos estavam amarrados em um bosque a cerca de um quilometro a
sudoeste, e os três cruzaram aquele pequeno pedaço do caminho a pé. Devin cochilara em
pequenos intervalos ao longo da manhã. A neve tornava a paisagem estranha, vívida e
agradável quando o sol aparecia, mas, pelo meio da tarde, nuvens cinzentas haviam se
reunido pesadamente e tudo agora estava apenas frio, nada bonito. Nevara outra vez,
rapidamente, por volta de uma hora antes.
Quando Devin ouviu o ruído de cavalos se aproximando na luminosidade cinza, percebeu
que a Tríade, daquela vez, tinha as palmas abertas para eles. Ou então que as deusas e o
deus haviam decidido lhes dar a chance de fazer algo tremendamente precipitado. Ele se
pressionou o máximo que pôde contra o chão molhado do barranco. Pensou em Catriana e
no Duque, aquecidos e abrigados com Taccio, em Ferraut.
Um grupo de aproximadamente doze mercenários barbadianos surgia na paisagem cinza.
Eles riam e cantavam em algazarra. A respiração de seus cavalos se unia às suas e formava
nuvens brancas em meio ao frio. Deitado, Devin os assistiu passar. Ouvia a respiração leve de
Baerd ao seu lado. Os barbadianos pararam diante dos portões do que, certa vez, haviam
sido as terras Nievolene. Não eram mais, é claro, não desde os con scos no outono. O líder
do grupo desceu de seu cavalo e caminhou até os portões trancados. Com um oreio que
arrancou gritos e risadas de seus homens, destrancou os portões de ferro com duas chaves de
um chaveiro ornamentado.
— Primeira Companhia — murmurou Alessan. Eram suas primeiras palavras em horas. —
Ele escolheu Vardero. Sandre disse que ele faria isso.
Assistiram os portões se abrirem e viram os cavalos passando a trote. O último homem a
entrar trancou os portões atrás de si.
Baerd e Alessan esperaram por mais alguns minutos, então caram de pé. Devin fez o
mesmo, com uma careta ao sentir o corpo endurecido.
— Precisamos achar a taverna na vila — disse Baerd, com a voz tão inesperadamente
sombria que Devin o encarou em meio à penumbra crescente. As feições do outro homem eram indecifráveis.
— Mas não entraremos — disse Alessan. — O que temos a fazer aqui, faremos incógnitos.
Baerd aquiesceu. Puxou um pedaço muito dobrado de papel de um dos bolsos internos de
seu colete de lã:
— Devemos começar com o homem de Rovigo?
O homem de Rovigo revelou-se um marinheiro aposentado que vivia na vila, dois
quilômetros para o leste, e contou a eles onde cava a taverna. E também, por uma quantia
nada irrisória de dinheiro, lhes deu um nome: o de um conhecido informante de Grancial e
sua Segunda Companhia de Barbadianos. O velho marinheiro contou o dinheiro, deu uma
cusparada cheia de signi cado, e então lhes contou onde o sujeito vivia, além de falar um
pouco sobre seus hábitos.
Baerd matou o informante, estrangulando-o duas horas depois, enquanto ele andava por
uma estrada rural entre sua pequena fazenda e a taverna da vila. Já estava completamente
escuro. Devin o ajudou a carregar o corpo de volta aos portões da propriedade Nievolene e
escondê-lo no barranco.
Baerd não disse nada e Devin não conseguiu pensar em nada para falar. O informante era
um homem barrigudo e careca de meia-idade. Não parecia especialmente mau, mas sim um
homem surpreendido no meio do caminho até sua taverna favorita. Devin se perguntou se
ele teria esposa e lhos. Não haviam perguntado ao homem de Rovigo sobre isso; estava feliz
por não o terem feito.
Reencontraram Alessan nos limites da vila. Ele estivera vigiando a taverna dali. Sem falar,
apontou para um cavalo pardo grande entre aqueles amarrados diante da estalagem. O
cavalo de um soldado. Os três recuaram por um quilômetro na direção oeste e voltaram a
esperar, deitados e vigilantes à beira da estrada. Devin percebeu que não sentia mais frio
nem cansaço. Não tivera tempo para pensar em tais coisas.
Mais tarde naquela mesma noite, sob o frio olhar branco de Vidomni no céu claro do
inverno, Alessan matou o homem que eles esperavam. No momento em que Devin ouviu o
leve som do cavalo do soldado, o Príncipe não estava mais ao seu lado e tudo estava quase
terminado.
Devin ouviu um ruído baixo, mais parecido com uma tosse do que com um grito. O cavalo
se agitou e Devin se levantou atrasado para tentar lidar com o animal. Àquela altura, no
entanto, ele percebeu que Baerd também já não estava ao seu lado. Quando nalmente saiu
de seu esconderijo e chegou à estrada, o soldado — que portava a insígnia da Segunda
Companhia — estava morto, e Baerd controlava o cavalo. O homem, que obviamente estava
de folga, dada a aparência casual de seu uniforme, devia estar regressando ao forte. O
barbadiano era um homem grande, eles todos eram, mas o rosto daquele parecia muito
jovem sob a luz da lua.
Jogaram o corpo sobre o cavalo e retornaram aos portões da propriedade Nievolene. Era
possível ouvir os homens da Primeira Companhia cantando alto, de dentro da casa senhorial, na via sinuosa. O som se espalhava por uma grande distância, em meio à quietude do ar frio
do inverno. As estrelas estavam agora ao lado da lua; as nuvens estavam desaparecendo.
Baerd arrancou o barbadiano do cavalo e recostou-o contra um dos pilares do portão.
Alessan e Devin buscaram o outro cadáver no local em que o haviam deixado; Baerd
amarrou o cavalo a alguma distância na estrada.
Alguma distância, mas não muito longe. Ele deveria ser encontrado mais tarde.
Alessan tocou rapidamente o ombro de Devin. Usando as habilidades que Marra o
ensinara — no que parecia ser vidas antes —, Devin destrancou as duas fechaduras
decoradas. Ficou feliz em poder ajudar. As fechaduras eram extravagantes, mas não
complicadas. O arrogante Nievole não tinha muito medo de invasores.
Alessan e Baerd carregaram um corpo cada um, levando-os nos ombros. Devin fechou os
portões silenciosamente e eles adentraram a propriedade. Não na direção da casa senhorial,
entretanto. Deixaram que a luz pálida da lua os guiasse pela neve até o estábulo.
Ali tiveram problemas. O maior estábulo estava trancado por dentro e Baerd apontou
silenciosamente, franzindo o cenho, para os feixes de luz de uma tocha, que surgiam por
debaixo das portas duplas. Fez um sinal, indicando a presença de um guarda.
Os três olharam para cima. Havia, claramente iluminada pela luz de Vidomni, uma única e
pequena janela aberta no alto da parede leste.
Devin olhou de Alessan para Baerd e então de volta para o Príncipe. E olhou para os corpos
dos dois homens já mortos.
Apontou para a janela e então para si.
Após um longo momento, Alessan acenou positivamente com a cabeça.
Em silêncio, enquanto ouvia a cantoria desa nada vinda da casa, Devin escalou a parede
do estábulo da propriedade Nievolene. Sob a luz da lua e por meio do tato, ele decifrou os
pontos de apoio para suas mãos e seus pés. Quando alcançou a janela, olhou sobre o ombro
e viu Ilarion nascendo no leste.
Escorregou para dentro, chegando ao andar superior. Abaixo dele, um cavalo relinchou
suavemente, e Devin prendeu a respiração. Com o coração acelerando, estancou onde
estava, ouvindo. Não houve resposta. No repentino e aconchegante calor do celeiro, se
esgueirou para a frente e olhou para baixo.
O guarda dormia, compreensivelmente. Seu uniforme estava desabotoado, e a lanterna
sobre o chão ao seu lado iluminava um frasco vazio de vinho. Ele devia ter perdido uma
rodada nos dados, pensou Devin, para ter sido colocado de guarda num local tão chato, sem
nada além de cavalos e palha.
Desceu a escada sem fazer barulho. E sob a luz trêmula daquele celeiro, em meio ao cheiro
de feno, animais e vinho tinto esparramado, Devin matou um homem pela primeira vez,
en ando sua adaga na garganta do barbadiano enquanto ele dormia. Não foi da maneira
valorosa que vislumbrara em seus sonhos.
Levou um momento para enfrentar a náusea que sentiu a seguir. Tentou dizer a si mesmo que era apenas o cheiro do vinho. Também havia mais sangue do que pensara que haveria.
Limpou sua lâmina antes de abrir a porta para os outros dois.
— Muito bem — disse Baerd, entrando e olhando ao redor. Ele pousou a mão levemente
sobre o ombro de Devin.
Alessan não disse nada, mas Devin pôde ver em seu olhar, sob a luz trêmula, uma
inquietante compaixão.
Baerd já estabelecera o que deveriam fazer.
Deixaram o guarda onde estava, para ser enterrado. O informante e o soldado da Segunda
Companhia foram arrastados até uma construção anexa. Baerd estudou a situação com
cuidado por alguns momentos, recusando-se a ter pressa, então ajeitou os dois corpos de
determinado modo e travou a porta à frente deles com rmeza, usando o que Devin
percebeu que seria visto, mais tarde, como uma viga que desabara.
A cantoria da casa senhorial esvaía-se aos poucos. Agora, se limitava a uma única voz
bêbada e melancólica, entoando algo sobre um amor perdido há muito tempo. Finalmente,
aquela voz também se calou.
Era a deixa de Alessan. Ao seu sinal, eles botaram fogo na palha seca e na madeira que
estavam no celeiro e nos dois anexos, incluindo aquele em que os homens mortos haviam
sido colocados. E então fugiram. Quando saíram da propriedade, os estábulos da
propriedade Nievolene já eram um inferno de chamas. Cavalos relinchavam alto, em
desespero.
Não houve perseguição. Não esperavam que fosse haver. Alessan e Sandre haviam
planejado aquilo cuidadosamente, ainda em Ferraut. Os corpos carbonizados do informante
e do soldado da Segunda Companhia seriam encontrados pelos homens de Vardero. Os
mercenários da Primeira Companhia chegariam à conclusão óbvia.
Eles recuperaram seus cavalos e rumaram para oeste. Passaram a noite novamente ao
relento, no frio, revezando-se em vigia. Tudo correra muito bem. Parecia ter corrido
exatamente conforme o plano. Contudo, Devin preferia que eles tivessem libertado os
cavalos. Seus relinchos apavorados percorriam seus sonhos em meio à neve.
Pela manhã, Alessan comprou a carroça de um fazendeiro, próximo à fronteira de Ferraut.
Baerd barganhou com um lenhador para conseguir um carregamento de lenha fresca.
Pagaram a nova taxa de trânsito e venderam a madeira no primeiro forte depois da fronteira.
Ainda compraram um pouco de lã de inverno, para levar até Ferraut, onde encontrariam os
outros.
Não havia motivo, disse Alessan, para perder uma oportunidade de lucro. A nal, tinham
responsabilidades com seus sócios.
De fato, um grande número de acontecimentos desagradáveis assolou a Palma Oriental no
outono e no inverno que se seguiram à descoberta da conspiração de Sandre. Isoladamente,
nenhum deles parecia signi cativo; em conjunto, eles irritaram Alberico de Barbadior a
ponto de seus auxiliares e mensageiros começarem a achar seu trabalho sicamente perigoso quando suas obrigações os aproximavam do Tirano.
Para um homem conhecido por sua compostura e serenidade — mesmo em Barbadior,
onde fora o mero líder de uma família da média nobreza —, o temperamento de Alberico
esteve surpreendentemente no limite durante todo o inverno.
Seus serviçais concordavam, entre si, que tudo começara após a noite em que o Sandreni
traidor, Tomasso, foi encontrado morto na masmorra, quando foram buscá-lo para levá-lo
até os torturadores pro ssionais. Alberico, esperando na sala de instrumentos, se enfureceu
de modo aterrorizante. Cada um dos guardas — da Terceira Companhia de Siferval — foi
sumariamente executado. Isso incluía o novo Capitão da Guarda; o último havia cometido
suicídio na noite anterior. O próprio Siferval fora convocado de Certando até Astibar para
uma reunião particular com seu empregador que o deixara manco e trêmulo por várias
horas.
A fúria de Alberico parecia beirar o irracional. Seus serviçais concluíram que ele cara
seriamente abalado com o que quer que tivesse ocorrido na oresta. Ele certamente não
parecia estar bem; havia algo estranho em um de seus olhos e seu andar estava diferente.
Então, nos dias e semanas que se seguiram, tornou-se nítido, conforme os informes de cada
uma das três companhias chegavam, que a cidade de Astibar simplesmente não acreditava —
ou escolhera não acreditar — que algo ocorrera na oresta ou mesmo que sequer existira
uma conspiração dos Sandreni.
E certamente não com os lordes Scalvaia e Nievole, e certamente não com a liderança de
Tomasso bar Sandre. Dizia-se que as pessoas comentavam o caso cinicamente, por toda a
cidade. Muitos sabiam do ódio ancestral que afastava as três famílias. Muitos conheciam as
histórias sobre o lho do meio de Sandre, que diziam liderar o suposto plano. Ele poderia até
sequestrar um garoto do templo de Morian, dizia Astibar, mas planejar contra o Tirano?
Com Nievole e Scalvaia?
Não, a cidade era simplesmente so sticada demais para cair naquilo. Qualquer um com o
mínimo senso de geogra a ou economia poderia ver o que realmente estava acontecendo.
Como, ao triunfar sobre aquela “ameaça” vinda de três dos cinco maiores proprietários de
terras da distrada, Alberico criava um disfarce para um simples confisco de terras.
Era apenas uma grande coincidência, obviamente, que as propriedades Sandreni cassem
bem no centro, que as fazendas Nievolene cassem a sudoeste, ao longo da fronteira de
Ferraut, e que as vinhas Scalvaiane estivessem situadas no rico cinturão ao norte, onde
cresciam as melhores uvas para o vinho azul. Uma conspiração muito conveniente,
concordavam todas as tavernas e salões de khav.
E cada um dos conspiradores morrera no meio da noite. Que rápida essa justiça! Que
enorme quantidade de evidências contra eles! Proclamou-se haver um informante entre os
Sandreni. Ele estava morto. Claro. Tomasso bar Sandre conduzira a conspiração, disseram.
Ele também estava morto, infelizmente.
Guiadas por Astibar, todas as quatro províncias da Palma Oriental reagiram com amarga e sarcástica descrença. Podiam ter sido conquistados, tomados pela pesada força barbadiana,
mas não haviam perdido a inteligência ou a visão. Eles conheciam o plano de um tirano
quando viam um.
Tomasso bar Sandre, o astuto arquiteto de um plano letal? Astibar, sofrendo com o impacto
econômico dos con scos e o terror das execuções, ainda conseguia forças para ironizar. E
então chegou o primeiro dos versos jocosos do oeste, da própria Chiara; alguns diziam que
fora escrito pelo próprio Brandin, embora fosse mais provável vir de algum dos poetas que
frequentava aquela corte. Versos representando Alberico como alguém que via planos
surgindo em cada fazenda, usando-os como desculpa para tomar galinhas e plantações em
toda a Palma Oriental. Havia ainda algumas insinuações sexuais não muito sutis, para
completar.
Os poemas, colocados em muros por toda a cidade — e depois em Tregea, Certando e
Ferraut — eram arrancados pelos barbadianos quase tão rapidamente quanto surgiam.
Infelizmente, eram rimas memoráveis, e o povo não precisava lê-las ou ouvi-las mais de uma
vez.
Alberico reconheceria mais tarde, para si mesmo, que perdera um pouco o controle. E
admitiria ainda, interiormente, que grande parte de sua fúria surgira de uma indignação
feroz e como consequência do medo.
Houvera uma conspiração liderada por aquele maldito Sandreni. Eles quase o mataram
naquela cabana na floresta.
Daquela vez, ele falava a mais pura verdade. Não havia pretensões ou enganações. Ele
tinha a justiça ao seu lado. O que não conseguira fora uma con ssão, uma testemunha ou
qualquer evidência. Ele precisaria ter seu informante vivo. Ou Tomasso. Ele queria Tomasso
vivo. Seus sonhos naquela noite remetiam às vívidas imagens do lho de Sandre, amarrado
nu e recurvado, convidativamente de bruços, em uma das máquinas.
Logo após a inexplicável morte do pervertido e os boatos de que ninguém acreditava em
uma palavra do que acontecera espalhando-se pelas quatro províncias, Alberico abandonou
sua abordagem inicial, que fora cuidadosamente pensada.
Obviamente, as propriedades foram tomadas; mas, além disso, todos os membros vivos das
três famílias foram capturados e condenados às rodas em Astibar. Na verdade, ele não
esperara que fosse haver tantas rodas de tortura quando deu tal ordem. O cheiro era
insuportável, e algumas das crianças permaneceram vivas por tempo demais nas rodas.
Assim, tornou-se difícil se concentrar nos negócios, nos escritórios acima da Grande Praça.
Ele aumentou os impostos em Astibar e introduziu, pela primeira vez, taxas de trânsito para
os mercadores que passavam de uma província à outra, parecida com a tarifa já existente por
passar da Palma Oriental para a Ocidental. Se eles preferiam não acreditar no que ocorrera
naquela cabana, que pagassem — literalmente — por isso.
Fez ainda mais. Metade da enorme produção de grãos dos Nievolene foi imediatamente
enviada num navio para Barbadior. Para uma ação concebida pela raiva, considerou-a inspirada. Isso baixou o valor do grão no Império, o que feria os dois mais antigos rivais de
sua família e, simultaneamente, elevava sua popularidade com o povo. Pelo menos, com o
povo de Barbadior.
Ao mesmo tempo, ali na Palma, Astibar era forçada a trazer mais grãos do que nunca de
Certando e Ferraut, e, com as novas taxas, Alberico também caria com uma boa parcela
daquele preço exorbitante.
Ele poderia até mesmo já ter saciado sua raiva, cando quase feliz ao ver os efeitos de suas
ações, não fossem pequenas coisas que continuavam acontecendo.
Para começar, seus soldados começaram a car inquietos. Com um aumento da rigidez,
veio um aumento de tensão; mais confrontos aconteciam. Especialmente em Tregea, onde
sempre aconteciam mais desses incidentes. Sob maior tensão, os mercenários exigiram —
conforme já era esperado — um pagamento mais alto. Caso cedesse, iria virtualmente sugar
tudo o que ganharia com os confiscos e as novas taxas.
Ele enviou uma carta para o Imperador. Seu primeiro pedido em mais de dois anos.
Juntamente com uma caixa de vinho azul de Astibar — vinda das terras ao norte que agora
eram suas —, ele reforçou com urgência o pedido de ser mantido sob a égide imperial, o que
poderia signi car um subsídio para seus mercenários, vindo do Tesouro de Barbadior, ou
mesmo tropas do Império sob seu comando. Como sempre, enfatizou o papel que ele,
sozinho, desempenhava em bloquear a expansão ygratheana naquela metade perigosa da
península. Concordava que poderia ter começado sua carreira ali como um aventureiro
independente — uma expressão que achou bonita —, mas agora que estava mais velho e
mais sábio, gostaria de se colocar mais próximo e ser mais útil ao Imperador do que nunca.
Quanto ao seu próprio desejo de ser Imperador e de colocar o manto da sanção do Império
sobre suas costas — ainda que tardiamente —, bem... certas coisas não precisavam ser
colocadas em uma carta.
Ele recebeu, como resposta, uma elegante tapeçaria do Palácio do Imperador, elogios aos
seus sentimentos de lealdade para com a realeza e polidas desculpas, pois as circunstâncias
em sua terra-natal impediam que ele recebesse o que fora solicitado. Como de costume. Ele
também foi cordialmente convidado a voltar para sua terra, receber todas as honras devidas
e deixar os cansativos problemas dessa terra distante para um especialista colonial apontado
pelo Imperador.
Novamente, como de costume. Entregar seu novo território nas mãos do Império. Entregar
seu exército. Voltar para casa, recebido por uma parada ou duas, e então terminar seus dias
caçando e gastando seu dinheiro em propinas e equipamentos de caça. Esperar até que o
Imperador morresse sem nomear um sucessor. Então esfaquear e ser esfaqueado, na briga
pela sucessão do trono.
Alberico enviou seus mais sinceros agradecimentos, profundos lamentos e outra caixa de
vinho.
Pouco depois, no m do outono, vários soldados da desfavorecida e descontente Terceira Companhia deixaram seus postos e pegaram navios de volta para sua terra. Os comandantes
da Primeira e da Segunda usaram aquela semana para apresentar formalmente — claro,
mera coincidência — suas novas reivindicações, lembrando casualmente das terras que
haviam sido prometidas aos mercenários. Começando, conforme delicadamente sugerido,
por seus comandantes.
Sua vontade era de mandar estrangular os dois. Ele queria fritar seus cérebros, gananciosos
e gastos pelo vinho, com uma explosão de sua magia. Mas não poderia fazer isso; além do
que, exercer seus poderes ainda era algo que o consumiria muito, tão cedo após o episódio
na floresta que quase o matara.
O episódio em que ninguém da península sequer acreditava.
O que ele fez foi apenas sorrir aos dois comandantes e a rmar que já planejava designar
uma signi cativa parcela das terras Nievolene para um deles. Siferval, disse ele, com mais
remorso do que raiva, se colocara fora daquela divisão pela conduta de seus homens, mas
aqueles dois... Bem, seria uma escolha difícil. Ele os observaria de perto por algum tempo e
anunciaria sua decisão em seguida.
Vardero, da Primeira Companhia, perguntou por quanto tempo, exatamente.
Realmente, poderia ter matado aquele homem enquanto ele estava ali, com o elmo sob o
braço e os olhos hipocritamente baixos, numa posição de deferência.
— Oh, talvez durante a primavera — disse ele, distraidamente, como se tais assuntos
fossem supérfluos para homens de boa vontade.
— Antes seria melhor — respondera Grancial, da Segunda, suavemente.
Alberico decidiu permitir que seus olhos mostrassem um pouco do que ele sentia. Havia
limites. Grancial apressou-se em explicar:
— Quanto antes soubermos, mais cedo quem for escolhido poderá ver como lidar com a
terra apropriadamente, antes do plantio da primavera. — A voz parecia perturbada, como
deveria.
— Talvez — disse Alberico, evasivamente. — Irei pensar nisso. A propósito — completou,
enquanto eles faziam sua reverência —, Vardero, você poderia me fazer a gentileza de enviar
aquele jovem e competente capitão que você possui? Aquele com a barba negra de duas
pontas. Tenho uma tarefa especial e con dencial que necessita de um homem com as
qualidades evidentes dele.
Vardero piscou e assentiu.
Era importante, muito importante, não deixar que eles se tornassem con antes demais,
pensou, após os dois homens terem partido e ele poder, en m, se acalmar. Por outro lado,
apenas um grande tolo hostilizaria suas próprias tropas. Ainda mais se possuía planos de
levá-los de volta para casa. A convite do Imperador, de preferência, mas não
necessariamente. Com certeza, não necessariamente.
Pensando melhor no assunto e movido por aquela linha de pensamento, aumentara os
impostos em Tregea, Certando e Ferraut para alcançarem os novos níveis de Astibar. E também enviara um mensageiro para Siferval, da Terceira, nas terras altas de Certando,
elogiando seus recentes esforços em manter aquela província quieta.
Primeiro você os amarra; depois você os atiça. Você os faz temerem-no e saber que
poderiam enriquecer caso você goste deles o suficiente. Era tudo uma questão de equilíbrio.
Infelizmente, pequenas coisas continuavam a dar errado no equilíbrio da Palma Oriental
durante o nal do outono e o início do inverno, nas semanas anormalmente frias que se
seguiram.
Algum maldito poeta escolheu aquela estação fria e chuvosa para publicar uma série de
lamentações ao nado Duque de Astibar. O Duque morrera em exílio, chefe de uma família
envolta em diversas intrigas, cuja maior parte já estava morta. Versos em louvor a ele eram
classificados como crime de alta traição.
No entanto, era difícil condenar alguém. Todos os escritores questionados durante a
primeira batida nos salões de khav negavam a autoria, e então — com tempo para se
preparar —, na segunda batida, todos eles afirmavam ter sido o autor dos versos.
Alguns conselheiros sugeriram rodas de tortura para todos, mas Alberico pensava num
problema maior: na grande diferença entre sua corte e a dos ygratheanos. Em Chiara, os
poetas almejavam acesso a Brandin e tremiam de felicidade ao menor elogio vindo dele.
Escreviam cantigas de exaltação ao Tirano e ataques mordazes e obscenos a Alberico,
preparados por encomenda. Ali na Palma Oriental, cada escritor parecia ser um grande
agitador em potencial. Um inimigo do Estado.
Alberico engoliu sua raiva, elogiou as habilidades técnicas dos versos e deixou os dois
grupos de poetas partirem, livres. Mas não antes de sugerir, com a maior bondade que
conseguiu, que adoraria ler versos igualmente bem-elaborados cujo tema fosse uma sátira a
Brandin de Ygrath. Até conseguiu sorrir. E disse que caria muito feliz com tais versos,
imaginando se algum dos malditos escritores, com seu ar soberbo, conseguiria perceber a
dica.
Nenhum deles percebeu. Em vez disso, um novo poema surgiu em todos os muros da
cidade, duas manhãs depois. Era sobre Tomasso bar Sandre. Um lamento sobre sua morte,
declarando — inacreditavelmente — que sua perversão sexual fora um caminho
propositalmente escolhido, metáfora viva de sua terra subjugada e conquistada, diante da
perversa situação de Astibar sob tirania.
Ele não tivera opção depois de entender o que o poeta estava dizendo. Sem se importar
com interrogatórios, dessa vez apenas escolheu aleatoriamente uma dúzia de poetas dos
salões de khav naquela mesma tarde, quebrou seus pulsos e pendurou-os em rodas ao lado
dos corpos que ainda restavam das famílias de conspiradores — tudo antes do pôr do sol. E
fechou todos os salões de khav por um mês. Nenhum outro verso surgiu.
Em Astibar. Mas, na mesma tarde em que os novos impostos foram anunciados na Praça
dos Bazares, em Tregea, uma mulher de cabelos negros escolheu sacri car sua vida, pulando
de uma das sete pontes, em protesto. Ela discursou antes de pular, deixando para trás — sabem-se lá os deuses como ela os conseguiu — uma versão completa das “Lamentações a
Sandre”, de Astibar. Ninguém sabia quem ela era. Eles buscaram seu corpo no rio gelado,
mas nunca o encontraram. Os rios correm velozmente em Tregea, cruzando as montanhas
até o mar ao leste.
Os versos se espalharam por toda a província durante as duas semanas que se seguiram,
atravessando Certando e o sul de Ferraut antes que as primeiras nevascas começassem a cair.
Brandin de Ygrath enviou um mensageiro até Astibar, envolto elegantemente em peles,
com uma nota bem escrita elogiando as Lamentações, dizendo que eram o primeiro trabalho
de criação decente que vira emanar do território barbadiano. Ele oferecia a Alberico seus
mais sinceros parabéns.
Alberico agradeceu educadamente aquelas palavras e se ofereceu para comissionar um de
seus competentes poetas para criar algo sobre a gloriosa vida e os feitos do Príncipe Valentin
di Tigana.
Dado o feitiço ygratheano, ele sabia que somente Brandin conseguiria ler aquela última
palavra, mas era ele quem importava.
Pensou que havia ganhado aquela disputa, mas por alguma razão, o suicídio da mulher em
Tregea o deixou irritado demais para se alegrar. Era intenso demais, remontando ao primeiro
ano em que ele chegara ali. As coisas caram quietas por tanto tempo, e esse nível de
intensidade — e de intensidade muito pública — nunca era bom presságio. Por algum
tempo, ele até mesmo considerou a hipótese de retirar as novas taxas, mas aquilo pareceria
mais uma desistência do que um gesto de bondade. Além disso, ainda precisava de dinheiro
para o exército. Em sua terra, dizia-se que o Imperador afundava cada vez mais rápido, que
era visto em locais públicos com frequência cada vez menor. Alberico sabia que precisava
manter seus mercenários felizes.
No nal do inverno, decidiu recompensar Vardero com metade da antiga propriedade
Nievolene.
Na noite após o anúncio público de sua decisão — inicialmente entre as tropas, e depois
proclamado na Grande Praça de Astibar —, o celeiro e várias dependências da propriedade
da família Nievolene pegaram fogo.
Ele exigiu de Vardero uma investigação completa; e, no dia seguinte, desejou que não
tivesse feito isso. Parecia que haviam encontrado o corpo de dois rapazes nas ruínas, presos
por uma viga caída que bloqueou a porta. Um deles era um informante ligado a Grancial e à
Segunda Companhia. O outro era um soldado barbadiano — da Segunda Companhia.
Vardero imediatamente desa ou Grancial para um duelo, em qualquer dia e local que o
rival quisesse. Grancial imediatamente apontou dia e local. Alberico deixou imediatamente
claro que o sobrevivente daquele duelo seria morto em uma de suas rodas. Com isso,
conseguiu que cancelassem a luta, mas os dois comandantes pararam de se falar daquele dia
em diante. Seguiu-se uma série de pequenas brigas entre homens dos dois grupos, e uma em
Tregea que não foi tão pequena assim, deixando quinze soldados mortos e vinte vezes mais feridos.
Três informantes locais foram encontrados mortos na distrada de Ferraut, amarrados em
rodas de carroça de madeira, numa paródia selvagem à justiça do Tirano. Não puderam
sequer retaliar — isso envolveria admitir que os homens haviam sido informantes.
Em Certando, dois homens da Terceira Companhia de Siferval faltaram ao trabalho,
desaparecendo em meio à neve do interior do país. Era a primeira vez que aquilo acontecia.
Siferval informou que nenhuma mulher local parecia estar envolvida. Os homens eram
amigos muito próximos. O comandante da Terceira Companhia sugeriu a hipótese mais
óbvia e menos agradável.
Mais para o m do inverno, Brandin de Ygrath enviou outro mensageiro, com uma nova
carta. Nela, agradecia imensamente Alberico por sua oferta de poemas e disse que adoraria
lê-los. Solicitou também, formalmente, seis mulheres de Certando, tão jovens e atraentes
quanto a que ele tão gentilmente lhe permitira tomar da Palma Oriental, alguns anos antes,
para serem adicionadas à sua saishan. Imperdoavelmente, a carta tornou-se pública.
As gargalhadas foram impiedosas.
Em retaliação, Alberico mandou que Siferval capturasse seis mulheres idosas no sudoeste
de Certando. Ordenou que fossem cegadas e tivessem os tendões das pernas cortados, para
então partirem sob a bandeira de um mensageiro até a fronteira entre os fortes Sinave e
Forese. E fez com que Siferval desse uma carta a uma delas, na qual solicitava de Brandin
que informasse o recebimento de suas novas cortesãs.
Deixe que o odeiem. Desde que o temam.
Enquanto retornava para leste, vindo da fronteira, Siferval disse em seu relatório que
seguira a dica de um informante e encontrara os dois soldados foragidos, vivendo juntos
numa fazenda abandonada. Foram executados no local, com um deles — o que merecia,
segundo Siferval — tendo sido castrado antes, para que pudesse morrer da forma que vivera.
Alberico enviou elogios.
Ainda assim, foi um inverno bastante agitado. As coisas pareciam estar acontecendo com
ele, em vez de seguirem o rumo de suas ordens. Tarde da noite, e então em vários horários,
cada vez mais enquanto a Palma se aproximava da primavera, Alberico se pegou pensando
na nona província que ninguém controlava ainda, aquela logo do outro lado da baía. Senzio.
O que o mercador de olhos cinzentos estava dizendo fazia bastante sentido. Mesmo
relutantemente concordando com ele, Ettocio desejava que o colega tivesse escolhido a
taverna de outra pessoa para sua refeição do meio-dia. A conversa no salão tomava rumos
perigosos e, a Tríade sabia, barbadianos su cientes utilizavam a estrada principal entre as
cidades de Astibar e Ferraut. Se um deles parasse ali naquele momento, di cilmente
toleraria o tom daquela conversa como um mero excesso das energias da primavera. A
licença de Ettocio provavelmente seria retirada por um mês. Ele continuava olhando para a
porta, temeroso.
— E agora, o dobro de impostos! — O rapaz esguio falava amargurado, enquanto passava a mão no cabelo. — Depois do tipo de inverno que tivemos? Depois do que ele fez com o
preço do grão? Então nós pagamos na fronteira e daí pagamos outra vez nos portões de uma
cidade, e onde, pelo amor de Morian, está o lucro?
Truculentos murmúrios encheram a sala, concordando. Numa taverna cheia de mercadores
em viagem, aquela concordância era previsível. E perigosa. Ettocio, bebericando de um copo,
não era o único homem de olho na porta. O jovem rapaz recostado no balcão tirou o rosto
de seu pão e sua fatia de queijo para lhe dirigir um olhar inesperadamente compreensivo.
— Lucro? — disse sarcasticamente um vendedor de lã do norte de Ferraut. — Por que
Barbadior se importaria que conseguíssemos algum lucro?
— Exatamente! — Os olhos cinza brilharam, concordando vigorosamente. — A meu ver,
tudo o que ele quer é sugar da Palma o máximo que pode e se preparar para tomar a Coroa
do Imperador em Barbadior!
— Psiu! — murmurou Ettocio, baixo, sem conseguir refrear-se. Deu um gole rápido na
caneca de sua própria cerveja e atravessou o bar para fechar a janela. Uma pena, já que
estava um belo dia de primavera lá fora, mas aquilo estava ficando fora de controle.
— Quando você for ver — dizia agora o esguio mercador —, ele simplesmente vai seguir
adiante e tomar o resto de nossas terras, como já começou a fazer em Astibar. Alguma aposta
de que seremos servos ou escravos em cinco anos?
A gargalhada vigorosa de um homem foi ouvida sobre os grunhidos de resposta que a fala
provocara. O salão cou repentinamente quieto, enquanto todos se viraram para encarar a
única pessoa que parecia achar essa observação divertida. Os olhares eram impiedosos.
Ettocio limpava nervosamente o balcão à sua frente, que já estava limpo.
O guerreiro de Khardhun continuou rindo por um bom tempo, parecendo ignorar os
olhares que recebia. As feições esculpidas no rosto negro mostravam um riso sincero.
— O que é tão divertido, velhote?— perguntou com frieza o mercador de olhos cinza.
— Vocês — respondeu o velho khardhuneano, animado. Ele sorriu como a própria morte.
— Todos vocês. Nunca vi tantos homens cegos em uma mesma sala.
— Você se importa de explicar exatamente o que quer dizer com isso? — rosnou o
mercador de lã de Ferraut.
— Você precisa de explicações? — murmurou o senhor, arregalando os olhos com uma
surpresa ngida. — Está bem, então. Por que, pelo amor dos seus deuses ou dos meus ou
dos dele, Alberico iria se preocupar em escravizar vocês? — Ele apontou um dedo ossudo
para o mercador que começara tudo aquilo. — Se ele tentasse isso, meu palpite é que ainda
haveria machos su cientes, por pouco, mas haveria, na Palma Oriental para, talvez,
sentirem-se ofendidos. Poderiam até... se revoltar!
Ele disse aquela última palavra numa paródia exagerada de sussurro con dencial. Então se
recostou, rindo novamente de sua própria inteligência. Ninguém mais ria. Ettocio olhava
nervosamente para a porta.
— Por outro lado — continuou o khardhuneano, ainda rindo —, se ele limitar-se a espremê-los com impostos, taxas e con scos, conseguirá exatamente a mesma coisa sem que
ninguém que bravo o su ciente para fazer algo a respeito. Eu lhes digo, cavalheiros —
completou, após um longo gole de sua cerveja: — Alberico de Barbadior é um homem
esperto.
— E você é um estrangeiro arrogante e insolente! — disse o homem de olhos cinza
recostado na própria mesa, eriçado de raiva.
O sorriso do khardhuneano desapareceu. Seus olhos se xaram nos do outro homem, e
Ettocio cou repentinamente feliz de que a espada curva daquele guerreiro estivesse
guardada, junto com todas as outras armas, atrás do balcão.
— Já estou aqui há trinta anos. — A voz do homem negro era suave. — Aposto que é quase
tanto quanto você tem de vida. Eu servia de guarda para as caravanas de mercadores nessa
estrada quando você ainda estava molhando sua cama à noite. E se sou um estrangeiro,
bem... da última vez que perguntei, Khardhun era um país livre. Nós expulsamos nossos
invasores, o que é mais do que qualquer um da Palma pode dizer!
— Vocês tinham magia! — exclamou de repente o jovem no bar, acima do barulho
revoltado que se seguiu. — Nós não! Essa é a única razão! A única!
O khardhuneano voltou seu rosto para o garoto, o lábio entortando de contentamento.
— Se você quiser dormir tranquilo à noite, acreditando que essa é a única razão, vá em
frente, rapazinho. Talvez o faça sentir-se melhor ao pagar os impostos durante a primavera
ou enquanto passa fome porque não há mais nenhum grão por aqui. Mas se você quer saber
a verdade, eu posso lhe contar agora mesmo, de graça.
O barulho diminuía enquanto ele falava, mas vários homens já estavam de pé, encarando o
khardhuneano.
Olhando ao redor da sala, como se o garoto no bar não fosse digno de sua atenção, ele
disse, muito claramente:
— Nós expulsamos Brandin de Ygrath quando ele nos invadiu, porque Khardhun lutou
como uma nação. Como um todo. Vocês foram domesticados por Alberico e por Brandin
porque estavam preocupados demais com suas birrinhas sobre fronteiras, ou com que duque
ou príncipe iria guiar seu exército, ou que sacerdote ou sacerdotisa iria abençoá-lo, ou quem
lutaria no centro e quem lutaria à direita, e onde seria o local da batalha, e quem os deuses
amavam mais. Suas nove províncias acabaram indo para os feiticeiros, uma por uma, dedo
por dedo. E elas foram quebradas como ossos de galinha. Eu sempre pensei — contava ele,
para o que se tornara um local silencioso — que uma mão lutava melhor quando formava o
punho.
E, preguiçosamente, fez sinal a Ettocio, pedindo outra bebida.
— Maldito seja você, khardhuneano insolente — disparou o homem de olhos cinza, com a
voz estrangulada. Ettocio se virou para olhá-lo. — Maldito seja você para sempre na
escuridão de Morian por estar certo!
Ettocio não esperava aquilo, nem os outros no salão. O ar tomou uma forma de amarga introspecção. E o estalajadeiro percebeu que aquilo era ainda mais perigoso, em inteiro
desacordo com o brilho da primavera e o calor do sol que retornava.
— Mas o que podemos fazer? — disse o jovem no bar, melancolicamente, sem se dirigir a
ninguém em particular.
— Xingar, beber e pagar nossos impostos — disse o mercador de lã, amargamente.
— Devo dizer, eu lamento pelo resto de vocês — disse o solitário mercador de Senzio,
presunçosamente.
Não fora um bom comentário. Mesmo Ettocio, notoriamente difícil de aborrecer, se irritou.