Tite

Camila Mattoso · Capítulo 9 de 16

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Tite

7. Lealdabilidade

LEALDABILIDADE

 

A amante de seu Agenor

Ao longo dos mais de vinte anos de carreira, Tite aprendeu que a melhor forma de demonstrar respeito aos que estavam à sua volta era sendo leal. Ser leal, segundo o dicionário, significa ser conforme às leis da probidade e da honra; ser digno e honesto; ser franco e sincero; ser fiel. É o que Tite espera receber no tratamento com jogadores, direção e seus homens de confiança na comissão técnica. Um valor que não aprendeu em sua plenitude com o pai.

Seu Agenor teve durante muitos anos ao menos uma amante, com quem dona Ivone tem certeza que fizera um filho. Geni era a moça que trabalhava na casa do casal, fazendo faxina de vez em quando e ajudando também no sacolão. Segundo o treinador, no entanto, Ian, que seria o meio-irmão, nunca teve de fato a paternidade comprovada.

Uma vez, quando a desconfiança de que o pai tinha outra mulher era de todos, Miro e Tite presenciaram uma situação que escancarava o relacionamento extraconjugal. Ouviram, então, a seguinte a frase:

– Estão olhando assim por quê? Vão dizer que eu sou o único a fazer isso? – perguntou aos dois, ainda jovens.

– Não há essa confirmação, de que meu pai tenha tido filho fora do casamento. Eu sei que ele teve casos, eu sabia que tinha. Ou um caso, pelo menos. Eu não sei até hoje se isso é um lobby ou se o Ian, o provável filho, fez para tirar vantagem. Não sei. A minha manifestação foi a seguinte: faz o exame de DNA que eu mesmo pago. Só não quero que fique essa boataria, uma conversa de baixo nível. Depois disso o Ian sumiu, nunca mais apareceu – diz Tite.

Com todo o amor que guarda pelo pai, ainda tenta buscar justificativas – mesmo que elas não existam – para entender a situação e tentar defendê-lo.

– Eu não tenho essa segurança que havia outro filho. Mas vou dizer uma coisa a mais. Depois do câncer da minha mãe, de mama, ela abriu mão de ser mulher. E todo o relacionamento sexual que havia ficou prejudicado, e eu sabia disso. A mãe não tinha mais, não se sentia mais mulher. Foi um período difícil da relação. Não procurava mais.

Tite assume que também cometeu erros. E garante que amadureceu.

– Esse aspecto de lealdade não está relacionado a isso. Em algum momento eu errei com a minha esposa, eu errei com ela. Foi um momento de fragilidade. Hoje eu sou um cara muito mais maduro, que aprendeu com as adversidades e com os erros. Eu aprendi e tento colocar para eles [filhos e atletas]: vão curtir a alegria da nossa satisfação com as pessoas de que gostam. Eu fomento muito isso com os jogadores.

Um pequeno erro apenas, diz o casal, que aconteceu ainda no início do relacionamento, do tempo em que era jogador. Nada que tenha gerado atrito ou que abalasse a confiança e a cumplicidade, garantem Rose e Tite.

 

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O xavequeiro do Instagram

Para muitas das esposas dos atletas com quem Tite já trabalhou não havia dúvida: confiavam mais no treinador do que nos próprios companheiros. Com o gaúcho, a abertura para a bagunça é menor, admitem os próprios jogadores.

– O Tite é o cara mais família que eu já conheci em toda a minha vida – diz Fábio Santos.

Uma vez, um corintiano campeão da Libertadores e do Mundial, cujo nome será preservado, entrou em uma confusão por Instagram, a rede social de fotos. Xavecou uma mulher comprometida e foi descoberto. Foi motivo de piada entre os colegas, que adoravam contar a história para qualquer um que ainda não a conhecesse.

Estavam falando sobre o ocorrido quando o técnico chegou – estavam todos no Japão, nos dias que antecediam a final do Mundial. Como estava todo mundo rindo, tiveram que contar o conteúdo das gargalhadas. Na hora o professor sorriu também, mas não se prolongou na roda. O que todos tinham certeza era que alguma lição de moral viria em algum momento.

– Tu tem que respeitar a tua esposa, cara. A história pode ser legal para dar risada, mas tu tem que pensar que isso não está certo. No momento ruim, ela estava contigo. No momento bom, tu tem que estar com ela também – disse Tite, no dia seguinte, particularmente.

– Sempre falo para os jogadores para que reflitam bem, que pensem direito para fazer as coisas – afirmou.

Dentro de campo, quando acha que um de seus atletas entrou com maldade contra o rival em algum momento do jogo, pede que o vídeo da jogada seja separado para avaliações posteriores. Ouve a opinião dos auxiliares e, se a conclusão for de que o lance não foi bem-intencionado, chama o jogador para uma conversa individual e mostra, depois, para o grupo.

O procedimento que tem como padrão atualmente ganhou de aprendizado na passagem pelo Grêmio, em 2002, com o lateral esquerdo Gilberto, convocado algumas vezes para a Seleção Brasileira – foi campeão da Copa das Confederações de 2005 e da Copa América de 2007.

– Eu chamei a atenção de um atleta por causa de indisciplina de forma individual. E o Gilberto ficou inquieto. Ele pediu para conversar comigo e me disse: “Professor, você nos respeita muito individualmente, mas é importante o grupo todo saber das regras. Se ele fez errado, é importante todo mundo saber, para que outro não venha a fazer errado também” – lembra Tite a orientação que recebeu do jogador. – Essa relação é muito importante e transcende o futebol. Esse episódio foi o que me deu o start. Que eu tinha que ser assim.

 

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Jorge Henrique (I): a bebedeira antes do Mundial

Tite seguiu à risca o conselho de Gilberto com Jorge Henrique, que chegou bêbado no último treino antes da viagem para o Mundial de Clubes em 2012, em episódio nunca revelado até a publicação deste livro.

O atacante vinha amargando o banco desde agosto, um mês depois da conquista do título da Libertadores. Teve uma lesão muscular, ficou um mês em recuperação. Quando voltou, não havia mais espaço para ele, no entendimento do treinador.

Foi jogar de novo como titular somente em novembro, e apenas por duas vezes; logo voltou à turma dos reservas. Durante a última semana de treinos no Brasil, na despedida do Brasileiro contra o São Paulo, havia ficado em segundo plano.

Na quinta-feira, dia 29 de novembro, chegou a ser chamado, já no fim da atividade, para a equipe principal. Entrou claramente irritado e sem vontade de jogar.

– Pode aquecer outro – disse Tite a um dos seus auxiliares, assim que viu a postura do atleta.

– Bora, Jorge, não tem time definido ainda não – gritou Fábio Santos, falando sobre o Mundial.

O treinador não mudou naquela hora, mas na sexta-feira já o deixou de lado novamente. No sábado, 1o de dezembro, dia que começava a concentração, Jorge Henrique chegou bêbado para o treino, quando foi de novo reserva durante toda a atividade.

Recebi depoimentos de que o jogador mal conseguia fazer o bobinho de aquecimento. Os mais chegados o escondiam durante as trocas rápidas de passe, para que não fosse acionado e, assim, não desse sinais da noite anterior.

Teria sido essa, ainda segundo testemunhos do ocorrido, uma clara manifestação de insatisfação do camisa 23 por ter perdido a vaga no time. Tite mal teve contato com ele nesse dia, apenas seus auxiliares.

Relacionado para o clássico, Jorge Henrique ainda foi chamado para entrar aos quarenta minutos do primeiro tempo, depois de Paolo Guerrero sofrer uma pancada no joelho direito, mas não evitou a virada do time misto do São Paulo, que ganhou por 3 X 1, no Pacaembu, deixando um carimbo estranho no passaporte ao Japão.

Não só não ajudou como atrapalhou – foi expulso aos 23 minutos da segunda etapa, por acertar um chute em Casemiro após falta marcada para o Corinthians, em lance típico para ter a sua atenção chamada pela comissão técnica depois.

– Entrou desconcentrado, indisciplinado, revidou e foi expulso – lembra o técnico.

 

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A porrada com classe nunca revelada

Parecia, então, ter passado em branco o episódio da bebedeira, que não era o primeiro e não seria o último. Talvez o comandante da equipe não soubesse do acontecimento.

Logo no dia seguinte da derrota para o time tricolor, na segunda-feira, dia 3 de dezembro, o Corinthians tomou o avião rumo ao Japão. Havia uma parada antes: Dubai, nos Emirados Árabes, onde já começaria a preparação para a estreia no Mundial, marcada para o dia 12 de dezembro, contra o Al Ahly, do Egito.

O primeiro treino nos Emirados Árabes foi no dia 5, no CT do Al Nassr. Logo depois, Tite programou uma conversa com o elenco, cumprindo seus procedimentos normais. Quando o grupo se aprontava para o compromisso, que aconteceria numa das nove salas de reunião do Grand Hyatt Dubai, Jorge voltava de cabeça baixa do local onde o treinador já esperava por todos.

Um detalhe menos importante, mas que dá a exata dimensão de onde tudo isso aconteceu, é que uma noite naquele hotel cinco estrelas custa 1.930 reais para duas pessoas, que podem aproveitar os tanques de imersão, as quadras de squash, as saunas, as banheiras de hidromassagem, as quatro quadras de tênis, as três piscinas aquecidas e as oito opções de restaurantes, com pratos de diferentes cozinhas – árabe, americana, libanesa, europeia e indiana.

Seus companheiros logo sacaram o que tinha acontecido.

Os jogadores chegaram para a reunião, sentaram-se formando a letra U, como é costume da equipe, com o comandante na ponta. A diretoria foi convidada a não participar – avisada de que haveria uma mensagem “forte e contundente”, segundo o técnico.

Tite colocou o seu joelho esquerdo no chão, dobrou sua perna direita, para ficar na mesma altura da roda e começou a falar, sem se exaltar, num único tom de voz.

– Eu fiquei sabendo o que aconteceu. Sei também que não foi a única vez. Olha para os teus colegas, Jorge, olha pra eles. Olha para quem te dirige. Você não tem esse direito, cara. Eu não tenho esse direito. O que eu falei na sua frente, estou falando na frente de todo mundo. É falta de lealdade, de companheirismo, de respeito profissional. É um puta de um egoísmo. Nada te dá o direito de fazer isso – discursou o gaúcho. – É falta de lealdade com o torcedor, com o clube que tu veste a camisa, cara. Eu estou dando chances para tu te rever, mas tu continua repetindo as mesmas coisas – continuou.

Ele se estendeu por mais alguns minutos, repetindo o que já tinha falado com Jorge individualmente. Uma “porrada com classe”, como ficou marcada a bronca daquele dia.

– Eu estava inspirado. Eu não dei a palavra a ele e o Jorge Henrique também não tinha condição emocional para falar alguma coisa – recorda Tite, quase três anos depois do episódio, na primeira vez em que fala publicamente sobre o assunto.

O atacante não levantou a cabeça, não falou uma palavra. Ninguém mais falou. Tinha sido a melhor forma de dar um recado que, àquela altura, todos gostariam de dar.

– Eu soube antes do jogo contra o São Paulo. Mas já tinha decidido que não ia falar antes de viajar. Não era motivo para eu retirá-lo e criar um tumulto. Não era motivo. A entidade estava acima desse caso. Em outro momento, talvez. Se fosse uma sequência normal de jogos, poderia deixá-lo de fora. Fazer isso naquela hora seria punir o clube.

 

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Sai Douglas, entra Jorge Henrique

Dado o sermão, o treinador disse ao camisa 23 que a vida segue. Falou isso porque acreditava que a exposição do problema na frente do grupo e o conteúdo do que havia sido dito eram as punições possíveis no momento.

Tinha mais: não era uma generosidade a nova oportunidade que estava dando ao atacante, era uma questão de necessidade. Sabia que tinha chances enormes de precisar dele. O cara que tinha ajudado Alessandro a parar Neymar na semifinal da Libertadores contra o Santos poderia ser fundamental no esquema tático do Mundial.

No primeiro jogo contra o Al Ahly, banco para Jorge Henrique, que chegou a entrar no lugar de Douglas no segundo tempo. Não foi simples, mas com um gol de Paolo Guerrero, o Corinthians chegou aonde tanto queria: na final contra o Chelsea.

Dois dias antes da decisão, Tite fez um discurso emocionante já pensando no duelo, como contou Paulo André em suas “cartas de Yokohama”, em texto escrito originalmente para a Revista ESPN.

– Vocês vão olhar no olho dos caras, vocês vão dentro deles. Nós vamos morrer, até o fim. Não vamos parar, não vamos desistir. Eu quero e trabalhei a vida inteira para chegar aqui, alcançar o meu sonho, disputar essa final. Nós não vamos fazer como o outro time [referindo-se à goleada sofrida pelo Santos diante do Barcelona por 4 X 0 na final do Mundial de 2011]. Nós não vamos demorar cinquenta minutos para dar uma chegada em alguém. Eu não quero saber quem está do outro lado, eu quero competição, com lealdade, mas vamos dentro dos caras. Só precisamos repetir tudo aquilo que nos trouxe até aqui. Da mesma forma. Não vamos mudar nada, vamos jogar muito e vamos merecer vencer. Ao trabalho – discursou um emocionado Tite.

O clube inglês chegava de forma inédita à final do torneio, campeão da Champions League pela primeira vez. Deixara para trás o Barcelona, de Messi e Pep Guardiola, e o Bayern de Munique, de Neuer, Lahm, Schweinsteiger, Robben e Ribéry.

Tite agora só pensava em como ia fazer para anular Hazard, Mata, Oscar e Ashley Cole. Paralisar a saída de bola dos Blues era a sua principal estratégia. Para isso, precisaria de um jogador na frente que fosse marcador. Não havia outro nome. Era Jorge Henrique, só Jorge Henrique, aquele Jorge Henrique.

– Talvez o grupo não imaginasse, depois de tudo o que aconteceu, que eu fosse colocar o Jorge na final. Quando eu disse: “A partir de agora, tu esquece tudo e vai trabalhar. Vai ter o cuidado que a gente tem com você”. Eu entendia que para o grupo e para o clube era importante. Foi fundamental na nossa conquista – lembra Tite.

O comandante do time alvinegro sacou Douglas para colocar o baixinho. O resultado foi aquele que vocês já sabem, de uma conquista histórica e inesquecível. Ashley Cole, então lateral esquerdo do Chelsea, mal se lembra de ter jogado.

– Não fiquei em dúvida porque eu havia punido ele. Senão, eu ia me olhar e pensar que estava premiando ele. Eu só escalei porque havia punido na hora certa. E eu não fiquei com o peso de estar premiando a indisciplina – argumenta o comandante.

Tinha sido uma decisão técnica e tática.

– A outra opção que eu poderia usar era o Romarinho. Mas ele não estava pronto para fazer as funções, para dar maior liberdade para Sheik e Paulinho. Jorge Henrique era o dono da função. Não havia outra saída.

Tite garante que não houve revolta no grupo por ter escolhido Jorge Henrique, mesmo diante do recente episódio. Acredita que a bebedeira pode ter sido, de fato, por causa das várias rodadas no banco de reserva, o que não seria uma justificativa válida.

– Acredito até que fosse por não estar na equipe. Mas se cada um for fazer isso, ser desleal, vamos fazer o seguinte: um clube com apenas 11 jogadores e um técnico. E o sentido de equipe, esquece. Alto nível não pode ser assim. Ele precisa entender que vai ter outro cara disputando a vaga com ele e que isso vai aumentar o nível técnico. Foi desleal e desrespeitou o grupo – analisa atualmente Tite.

Em entrevista para este livro, Douglas disse que certamente é essa a sua pior recordação com Tite. O momento em que foi avisado que não seria titular. “Não mudou minha admiração por ele”.

 

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Jorge Henrique (II): uma loira de dois metros de altura

Em setembro de 2011, a diretoria corintiana descobriu uma das presepadas de Jorge Henrique, meio por acaso, segundo a versão contada por Andrés Sanchez aos quatro ventos. O atacante chegou atrasado no dia 17 de setembro daquele ano, véspera de clássico contra o Santos. Justificou ao professor que sua filha, Letícia, que tinha apenas 17 dias de vida, estava dando trabalho para dormir e, por isso, acabara perdendo a hora.

O treinador ficou em dúvida do que fazer e decidiu deixá-lo no banco – entrou no segundo tempo, no lugar de Willian, companheiro de posição. Andrés Sanchez, presidente do clube, tinha sido convidado pela CBF para assumir a diretoria de seleções e foi na segunda-feira seguinte para o Rio de Janeiro encontrar-se com Ricardo Teixeira, o presidente da entidade.

Na volta, na ponte área, ele sentou-se em uma poltrona da ala esquerda do avião e foi interrompido por um homem mais ou menos da mesma idade, acomodado ao seu lado.

– Perderam pro Santos, hein, presidente? Que pena. Prazer. Eu sou dono de um bar no Tatuapé.

– Pois é. Faz parte. Vamos ganhar o próximo – Andrés Sanchez tentou colocar fim na conversa.

– Recebi o Jorge Henrique lá no bar na sexta. Ficou até altas horas. Bebe uísque esse aí, hein? E como fuma...

– O cara tava de folga, né? Cada um faz o que quer – justificou o então presidente.

– Tava lá com uma loira... Dois metros de altura... – continuou o dono do bar, revelando um detalhe a cada frase.

Voo curto para São Paulo, sem tempo para mais informações da noite do camisa 23. Já era o suficiente. O cartola corintiano trocou cartões com o homem e foi embora.

No dia seguinte foi ao CT. Chamou Paulo André, Emerson Sheik, mais dois ou três jogadores. Pediu ao segurança Ricardo Pereira Silva que buscasse Jorge Henrique, que estava entrando para o banho.

– Fala, “presi”. E aí, “presi”? – chegou o atacante, já com a toalha para ir para o chuveiro.

– Chegou atrasado no sábado, né, Jorge? Jogou e perdeu, né? É duro, hein? – começou Andrés Sanchez, que foi interrompido pelo jogador.

– Presidente, minha filha demorou pra dor... – tentou falar o baixinho.

– Tua filha, né? Tua filha tem dois metros de altura? É uma loira gostosa, né? – prosseguiu o mandatário. – Você não está mentindo para o professor. Você está mentindo para os caras aqui – o cartola terminou e saiu andando, fechando a porta da sala onde conversavam.

Nos dois jogos seguintes, contra o São Paulo e o Bahia, Jorge Henrique ficou no banco de reservas. Voltou ao time titular no empate contra o Vasco, em 2 de outubro.

 

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Jorge Henrique (III): uma ajuda tricolor e o afastamento

Tite sabia que o episódio da véspera do Mundial não seria o último. Mas já não havia mais paciência. Não só pelos atrasos ou excesso de álcool, mas pela falta de lealdade. Em maio de 2013 foi a última vez que Jorge Henrique mentiu para Tite e para a direção. Descoberto, foi afastado e logo depois negociado para o Inter.

Assim como dentro de campo, fora dele não faltava criatividade para o jogador. Na véspera da semifinal do Paulista contra o São Paulo, o atacante chegou atrasado para a concentração no sábado e perdeu o treino – o Corinthians foi campeão estadual naquele ano.

Contou que seu filho Tiago, na época com quatro anos, tinha sido diagnosticado com dengue – seria mais um número para estatística, que já contava com milhares em todo o país.

O treinador havia, no entanto, encontrado seu atleta, por acaso, na sexta-feira à noite no CT, em um horário que mais ninguém estava por lá. Jorge Henrique justificara que tinha ficado para jantar e já estava de saída.

Tite estava sozinho na cidade – sua família estava em Porto Alegre. Achou a ideia interessante e foi, minutos depois, também fazer a sua refeição. Deu com a cara na porta – não havia jantar. Ligou para o gerente de futebol, Edu Gaspar, e contou o que havia se passado.

No domingo de manhã, eis que um atestado do filho apareceu e foi apresentado para a direção. Mas ainda havia algo estranho por ali. Tite encontrou, de novo por acaso, Sheik, Danilo, Fábio Santos, Alessandro e Paulo André cochichando.

– Alessandro, alguma coisa?

– Nada, professor.

Diante do documento médico da dengue, Tite se sentiu mal por ter desconfiado de Jorge e na palestra de antes do jogo chegou a pedir desculpas ao atacante.

– Eu pedi desculpas porque realmente me senti mal. É uma coisa sagrada, eu não posso duvidar, mesmo com desconfiança. Falei na frente de todo mundo. Na dúvida, é para o réu, sempre. Eu encontrei os jogadores e foi uma cena sensacional. Sabe quando tu sente alguma coisa? Mas perguntei e não me disseram nada – lembra o gaúcho.

Deu meio-dia, bateram na porta da sala do Tite. O atraso exagerado de Jorge Henrique no sábado não aconteceu pela dengue, claro, e nem só por conta de uma noite de festa exagerada. O jogador bateu o carro na rua Augusta, no centro de São Paulo, durante a madrugada, ao deixar uma boate.

A notícia chegou ao Parque São Jorge de manhã, sem muitos detalhes. A decisão de barrar Jorge aconteceu, então, no ônibus da delegação, no caminho para o Morumbi, e ele foi logo comunicado. Foi barrado inclusive de entrar no vestiário.

– Vi a foto [da batida] e vi o laudo médico, tudo que aconteceu – recorda Tite.

A confirmação de toda a confusão do atleta, nos mínimos detalhes, chegou ao Corinthians de forma curiosa. O médico e conselheiro são-paulino Marco Aurélio Cunha, ex-diretor de futebol do time tricolor, foi quem levou as informações. Um motorista que trabalhava com ele no mandato que cumpriu de vereador, em São Paulo, testemunhou o episódio.

– Eu quero jogar... Por favor – falou o jogador para o auxiliar Cleber Xavier, chorando.

– Jorge, tu não vai jogar. Tu tá fora do jogo. Tá decidido e não tem volta. Não piora a situação. Interioriza, assume, segura. Amanhã é outro dia, a gente conversa sobre o assunto. Ponto-final – respondeu o braço direito do comandante.

O atacante assistiu ao jogo do camarote do Morumbi. Foi a última vez que ele entrou no estádio com o Corinthians. No dia 9 de maio, uma quinta-feira, o diretor adjunto Duílio Monteiro Alves anunciou o afastamento do jogador do grupo por motivos de indisciplina. Permaneceu ainda alguns dias no clube, treinando separadamente. No início de junho foi transferido para o Internacional, aos 31 anos.

* * *

Cúmplices durante todos esses processos (quase sempre sabendo das histórias vividas fora de campo por Jorge Henrique), Fábio Santos, Sheik, Paulo André e Alessandro tiveram suas posturas valorizadas pelo treinador.

– Vocês foram grandes. Foram grandes de não terem falado. As coisas iam vir, iam aparecer. E vocês tentaram de tudo para ajudar – cumprimentou Tite, em um dos momentos de crise, na frente do grupo.

– Eu não cobro dedo-duro. Não cobro. Tem momento para que as coisas aconteçam. Essa é uma responsabilidade do técnico e da comissão, da direção. E não de um dedo-duro para contar o que um de vocês fez. Foram grandes – comentou.

Sheik foi o primeiro a saber tudo o que aconteceu e diz que o episódio foi uma lição para todos os jogadores.

– Eu fui o primeiro funcionário do clube a saber o que tinha ocorrido, no momento que aconteceu o problema. As pessoas que estavam com ele são amigos. A atitude que eu tive, elogiada pelo Tite, eu aprendi com o professor. Foi um episódio que certamente serviu de aprendizado para muita gente ali. Foi uma puta lição para todo mundo, principalmente para mim. O Jorge Henrique talvez tenha cometido um dos maiores erros: mentiu envolvendo a família. Em respeito ao Jorge e à sua linda história no futebol, tem certas coisas que eu acho que não dá pra falar. O Tite e o Corinthians tentaram agir da forma mais respeitosa possível. Aquilo partiu o coração do Tite, ele tem carinho e gratidão pelo Jorge Henrique, por ter contribuído para o sucesso do time. A permanência do jogador no clube não era mais possível.

Jorge Henrique foi procurado diversas vezes para comentar essas histórias. Não atendeu aos pedidos de entrevista para o livro. Pessoas ligadas ao jogador dizem que, depois dos acontecimentos no Corinthians, sua vida mudou radicalmente e que ele se tornou uma pessoa muito mais familiar.

 

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Clemer e Índio impediram Tite e D’Alessandro de saírem na mão

Nem sempre Tite foi elogiado pela forma como lidou com questões disciplinares. Seu pai estava internado, nos últimos dias de vida, e o Internacional caminhava bem na tabela do Brasileiro de 2009, na terceira posição. Internamente, no entanto, o ambiente não era dos melhores.

D’Alessandro vinha sendo criticado por suas atuações. Irritado, chegou a dizer em uma entrevista na volta de uma vitória contra o Náutico, por 2 X 0, que se jogasse bem sempre não estaria jogando no Brasil – os gols saíram depois que foi substituído por Andrezinho.

Achava, entre outras coisas, que seu problema estava no treinador.

– Sempre foi um cara extremamente individualista. Não era só o meu irmão que achava – conta Miro.

No início de julho, os dois tiveram uma discussão que quase acabou em confronto físico. A briga aconteceu na noite da final da Recopa, contra a Liga Deportiva Universitaria (LDU), no estádio Casa Blanca, em Quito, Equador – 3 X 0 para o time da casa, campeão do torneio. O goleiro Clemer e o zagueiro Índio impediram que os dois se agredissem. D’Alessandro foi substituído por Bolaños, aos 27 minutos do segundo tempo e não gostou.

– O Clemer segurou meu irmão e o Índio segurou o D’Alessandro. Iam se pegar – lembra Miro. A situação acabou sendo deixada de lado, mas claramente os dois não se davam mais. Tite achava, porém, que tirá-lo do time por questões pessoais e disciplinares poderia prejudicar o restante da equipe. Mesmo longe da sua melhor forma física, ele era importante.

– Teve um problema, depois teve outro. Não lembro qual é qual. Mas aconteceu de nos segurarem. A relação ficou muito conturbada, não tinha mais jeito – relembra Tite.

Três semanas depois eles perdiam por 2 X 0 do Botafogo, que tentava sair da zona de rebaixamento – era a 14a rodada do Campeonato Brasileiro, noite de um sábado, 25 de julho. O argentino continuava longe do seu melhor. No intervalo, o treinador fez o de sempre: deu cinco minutos para o grupo conversar, enquanto fazia planos com seus auxiliares para o segundo tempo. Reuniu o grupo e anunciou as substituições que faria para o segundo tempo. Não conseguiu mais falar, porém, quando anunciou que D’Alessandro sairia.

O camisa 10 do time colorado se levantou e começou a andar de um lado para o outro, inconformado com a mudança, tirando a concentração do elenco.

– Eu passava as informações e ele ficava inquieto, atrapalhando. Se tivesse feito algo mais enfático, a gente ia brigar. Mas nesse aí, eu falava para os outros jogadores prestarem atenção em mim. E falava para ele: “Vai para o banho, que vai entrar o outro”.

Era a gota d’água. O argentino foi afastado dos treinamentos para um período de recondicionamento físico – o jeito bonitinho do futebol de dizer que não dava para jogador e técnico se aturarem. No início de outubro, Tite foi demitido do Inter após a derrota por 2 X 0 para o Coritiba, que tirou o time pela primeira vez do G4.

– Estamos hoje em dia em uma situação normal, sem laços de amizade – afirmou Tite.

Fernando Carvalho, diretor de futebol do Inter na época, admite que os acontecimentos determinaram a demissão do comandante.

– Eu acho que ele tinha certa dificuldade de se impor. Mas foi se aperfeiçoando. Por ele ser muito do bem, tinha dificuldade de ser mais firme. Por ser uma pessoa que relevava muitas coisas e não tinha a firmeza necessária. Mas ele evoluiu demais. Se tivesse o tom de hoje, teria ficado no Inter, com certeza – disse.

Fernando Carvalho se diz, no entanto, arrependido da decisão.

– A pior decisão que eu tomei, a que eu mais me equivoquei na vida, foi de ter demitido o Tite. Eu acho que se ele tivesse ficado, seríamos campeões do Brasileiro.

Tite teve a proposta de trabalhar com o meia de novo em 2015, convidado por Vitorio Piffero a assumir o Internacional mais uma vez. Afirma que não teria problema em dirigi-lo de novo, mas que certamente não haveria “o mesmo nível de confiança”.

 

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