Tite

Camila Mattoso · Capítulo 14 de 16

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Tite

12. Equilibrabilidade

EQUILIBRABILIDADE

 

O nome dele é personalidade

Das palavras prediletas de Tite, “equilíbrio” está sempre entre as primeiras da lista. Dentro ou fora de campo, busca achar a compensação dos dois lados, de forma que não passe do ponto em nenhum aspecto.

Com o time indo muito bem, ataque e defesa sintonizados, o treinador foi pego de surpresa contra o Sport, em Itaquera, quando Uendel sentiu a coxa no finalzinho do primeiro tempo e avisou no intervalo que não teria mais condições de permanecer. Era agosto de 2015.

Tinha duas opções para escolher: improvisar alguém na lateral ou apostar em Guilherme Arana, garoto de apenas 18 anos na época. Ele havia subido da base no início do ano, mas ainda não estreara em partidas oficiais no time principal.

Pouco tempo para o tamanho da dúvida que estava na cabeça de Tite – o placar marcava 2 X 1 naquele momento, com vento a favor. Não estava seguro de colocar o menino – pesou até a possibilidade de queimar a jovem promessa com a torcida e que a situação poderia ser uma furada para o lateral.

– Vamos de Arana. Ele vem treinando muito bem, vamos com ele – sugeriu Cleber Xavier.

– Tá arrebentando nos treinos, dando conta. Também acho que tem de ir com ele – engrossou o coro Fernando Lázaro, do Cifut.

Tite ouviu os dois e ia se levantar para avisar Arana sem antes confirmar se os auxiliares tinham certeza, mas isso logo foi respondido por olhares seguros de ambos. Foi então chamar o estreante.

O Corinthians ampliou a vantagem para 3 X 1 e parecia que conseguiria mais uma boa vitória rumo à liderança do Brasileiro. Mas a imprevisibilidade do futebol deu as caras e Guilherme Arana se tornaria o personagem principal a partir dos 26 minutos da segunda etapa. O jovem lateral tentou recuar uma bola para Gil, mas errou o passe. Hernane Brocador aproveitou a falha e não perdoou, diminuindo a diferença para 3 X 2.

Bastaram mais cinco minutos para o Sport empatar a partida com uma jogada originada pelo lado do debutante. Era o penúltimo jogo do primeiro turno, a equipe andava encostada no Atlético Mineiro e os três pontos eram primordiais.

Arana então decidiu ir para cima e não se escondeu. Faltando cinco minutos para o fim da partida, o jovem lateral apoiou o ataque, um dos seus fortes, e, ao chegar na linha de fundo, fez o cruzamento na área. A bola raspou na mão do volante Rithely e o árbitro Luiz Flávio de Oliveira marcou penalidade. Jadson bateu, fez o quarto do Corinthians, gol da vitória e da redenção para o novato, para Cleber Xavier e para Fernando Lázaro, que por motivos muito particulares também estavam agoniados na torcida.

Arana, que veste o número da sorte de Tite, o 13, nunca vai se esquecer da primeira vez no profissional – e ainda foi embora de Itaquera com um elogio de Renato Augusto no final, que disse que ele teve muita personalidade.

 

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O afastamento de Rincón

Ter deixado Douglas no banco na final do Mundial não tinha sido a primeira escolha difícil do treinador em sua carreira. Só nas passagens pelo Corinthians, já acumulava três experiências inesquecíveis, duas delas fundamentais para a concretização das conquistas que logo vieram. O desafio sempre foi, e sempre será, o de ter dentro de campo a mudança desejada e, ao mesmo tempo, manter o bom ambiente fora. Um exercício de equilibrista.

Freddy Rincón, em 2004, foi o primeiro a ouvir de Tite a decisão que havia tomado. Com 1,85 metro de altura, Rincón era um volante do tipo temido e destemido, xerife do meio de campo. O colombiano tinha ficado dois anos parado, havia retornado em janeiro daquele ano especialmente para jogar pelo Corinthians. Voltou a treinar, perdeu quase seis quilos logo no começo da temporada, conseguiu a vaga de titular e a faixa de capitão, ainda com o então técnico Oswaldo de Oliveira, que deixou o comando em maio após a goleada por 5 X 0 para o Atlético Paranaense.

Tite chegou em seguida e não demorou um mês para definir uma mudança no cenário.

– Olha, fui jogador como você, tive muitos problemas e um dia me vi numa situação que você está hoje. E alguém tem que te dizer o que vou dizer. Eu te respeito muito, acho você um brilhante jogador, mas para o que pretendo, não vou ter a utilização que você gostaria que eu tivesse, então prefiro dizer isso pra você – disse Tite a Rincón, no Parque São Jorge, na presença do então gerente de futebol, Paulo Angioni.

– Obrigado. Você é um grande homem – respondeu o volante, apertando a mão do treinador, após alguns minutos de reunião.

– Foi uma conversa muito bacana e eu tive a honra de participar. O Tite foi muito transparente, honesto. Falaram depois que a decisão era do Antonio Roque Citadini, na época diretor de futebol, mas não era verdade. A decisão foi inteira tomada por Tite – recorda Paulo Angioni, contando detalhes daquele dia.

Dias depois, Freddy Rincón fez um desabafo em entrevista coletiva, chamando Antonio Roque Citadini de mau-caráter, colocando-o como o grande responsável por sua rescisão de contrato. Reclamou também de Tite, que teria aceitado afastá-lo por pedido da direção para ficar no cargo, mas nunca deixou de reconhecer a lealdade da conversa que tiveram.

– Podem questionar o meu critério, mas não o meu caráter – declarou o técnico, também em entrevista coletiva.

Parece, porém, que até hoje há uma pequena cicatriz no coração de Rincón.

– Nesse momento houve coisas que eu não gostei, mas hoje eu tenho um bom relacionamento com Tite e ele me parece boa pessoa.

 

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A decepção com Chicão

Naquele jogo em que o Corinthians perdeu por 3 X 1 para o Santos, em setembro de 2011, o do episódio do Jorge Henrique com Andrés Sanchez, o time deixou escapar a liderança do Brasileiro. Acabou caindo para o terceiro lugar na tabela, atrás de São Paulo e Vasco. Das arquibancadas já se ouvia o pedido, em coro, de “Fora Tite”.

Na terça-feira após a derrota, protesto no CT. Uma conversa de jogadores e dirigentes com líderes das organizadas tentava acalmar a situação. Na busca de retomar o primeiro lugar na tabela (e garantir o seu emprego), Tite decidiu fazer uma modificação na equipe. Titular absoluto desde a Série B de 2008, Chicão foi sacado do time principal para o jogo seguinte, outro clássico, desta vez contra o São Paulo e que terminou em 0 X 0.

Paulo André e Wallace foram os escolhidos para formar a defesa; Leandro Castán foi deslocado para a lateral esquerda, pois Fábio Santos estava no departamento médico. Inconformado com a saída do time, revelada no dia anterior, o zagueiro pediu para não ficar na concentração, o que irritou Tite.

– Nós conversamos, eu expliquei para ele a mudança e ele disse que respeitava, mas que não estaria bem de espírito para ficar ali e pediu para ficar fora naquele jogo. Não era o que eu esperava naquele momento. Esperava que ele comesse a massa. Mas não ficou sequela disso, não. Com o tempo, passou. Nada é melhor do que o tempo. Ele nos permite um monte de coisas. Tanto é que ele voltou para a equipe – lembra o técnico.

A situação demorou a voltar ao normal entre os dois. Chicão ficou alguns dias treinando longe do grupo e só retornou ao banco de reservas em 12 de outubro. As vitórias reapareceram e, no fim daquele mês, o Corinthians voltou para a liderança. O final, você já conhece: o alvinegro foi pentacampeão brasileiro.

 

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Sai Júlio César, entra Cássio

O quarto e último episódio mais emblemático da série de trocas ousadas nas passagens pelo Corinthians aconteceu na fase final da Libertadores, em 2012. Cássio tinha sido contratado no início da temporada, por decisão única e exclusiva do ainda presidente Andrés Sanchez.

Cássio foi revelado pelo Grêmio, jogou pela Seleção Brasileira Sub-20 e logo em seguida foi negociado com os holandeses do PSV Eindhoven, onde pouco jogou nos cinco anos em que permaneceu no clube. Também teve uma breve passagem pelo Sparta Roterdã, também da Holanda, por empréstimo durante o período do contrato com o PSV. Com o contrato encerrado com o time de Eindhoven, Cássio chegou ao time que havia sido campeão brasileiro, mas não encontrou espaço.

Júlio César era dono da vaga titular, depois do melhor ano da carreira, mas nunca conseguiu se livrar de vez das desconfianças. Cássio ainda enfrentava a concorrência de Danilo Fernandes, revelado no próprio Corinthians, e era apenas a terceira opção para a meta corintiana.

Um ano antes, Júlio César ganhou de Tite a chance mais importante da sua vida.

– Tinha falhado na final do Paulista de 2011, contra o Santos, no chute do Neymar. Ia ser a estreia do Brasileiro contra o Grêmio e eu tinha certeza que ficaria fora. O Tite me chamou e passou tranquilidade. Falou: “Agora você está pronto e é a sua hora de brilhar”. E eu consegui retomar e fui bem o ano todo, campeão do Brasileiro – lembra o goleiro.

Nas quartas de final do Paulista de 2012, porém, Júlio César falhou de novo. Duas vezes. Deixou um chute fraco passar para o primeiro gol da Ponte Preta e saiu mal no terceiro tento do time de Campinas, selando a desclassificação do Corinthians no torneio estadual.

– Tite sentou para conversar comigo e explicou. Era uma questão técnica e também emocional. Eu não estava bem. Ele foi muito transparente comigo. Eu já esperava por isso. Foi uma conversa tranquila – atesta Júlio César.

Tite escolheu Cássio para ser o substituto. Decisão mais do que acertada. Foi fundamental na reta final da Libertadores. Entrou e fechou o gol contra o Emelec do Equador, nas oitavas de final, quando só havia sido titular uma única vez contra o XV de Piracicaba, no estadual. Fez contra o Vasco, nas quartas de final, a defesa mais importante da carreira – impediu Diego Souza, que estava cara a cara com ele, de marcar.

No Mundial, transformou-se em um gigante, um paredão contra o Chelsea, importantíssimo para a conquista do bicampeonato. A atuação de Cássio o credenciou a ser considerado o melhor em campo, levando a Bola de Ouro do torneio e um carro como prêmio.

 

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Fim da dupla Roberto e Ronaldo: retomada do comando

Um dos motivos que pesou para a manutenção do Tite no comando logo depois da eliminação do Tolima, em 2011, foi o fato de que a direção entendia, por todas as conversas que tinham, que o treinador não possuía o total controle da equipe nos primeiros meses à frente do Corinthians, em sua segunda passagem pelo clube.

Embora fosse um jogador disciplinado do ponto de vista de horários, Ronaldo Fenômeno exercia um papel de liderança que era muito maior do que qualquer outro que estivesse por perto, inclusive do próprio técnico. Ao lado do lateral Roberto Carlos, tornaram-se uma combinação que dificultava a vida de qualquer um que quisesse exercer comando.

Era algo bastante subjetivo, mas foram várias as conversas que tiveram sobre o assunto. Tite buscava a melhor forma de se portar, mas era visto como inseguro por grande parte do elenco e talvez a explicação estivesse justamente na dupla que fez sucesso na Seleção Brasileira e no Real Madrid.

Com aquele vexame na Libertadores, Roberto Carlos foi o primeiro a dizer adeus. No dia 11 de fevereiro, a diretoria do Parque São Jorge anunciou sua saída, sem explicação oficial. Nos bastidores, as justificativas eram várias. Fez 61 partidas pelo alvinegro, mas o lateral não participou do fracasso contra o Tolima por causa de uma dor muscular na coxa direita, versão que não colou para a torcida. Foi acusado de fazer corpo mole, pipoqueiro, amarelão, entre outros adjetivos, e as ameaças da torcida começaram. Com a cúpula e a comissão técnica a relação também não ia tão bem, e havia ainda uma proposta excelente do Anzhi, da Rússia, clube onde ficou até 2012.

Três dias depois, 14 de fevereiro, foi a vez de Ronaldo se despedir. Em coletiva de imprensa no CT Joaquim Grava, ele anunciou sua aposentadoria. Fez 69 partidas com a camisa corintiana, 35 gols.

– Muitos aqui estão arrependidos das chacotas que fizeram em relação ao meu peso. Não guardo mágoa de ninguém – afirmou o craque, visivelmente emocionado, chorando em vários momentos da entrevista. – Não me arrependo de nada que fiz, honrei sempre tudo que fiz e foi tudo muito maravilhoso. Vou sentir muita saudade. Não sei como vai ser daqui para a frente. Aquela sensação de jogar, de protagonismo. Mas, enfim. Deu a hora e é hora, o momento de olhar para a frente. Por enquanto não penso em jogo de despedida, mas em junho ou julho vou tentar reunir jogadores que estiveram comigo e fazer uma festa de despedida – completou Ronaldo.

As ameaças da torcida, a luta eterna contra as lesões e o excesso de peso, a necessidade de estar mais presente na sua nova empresa. Esses foram os motivos que determinaram o fim da carreira, aos 34 anos.

Era hora de Tite buscar o equilíbrio e retomar o comando.

 

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Não é digno de um prato de comida

Tite era conhecido por ser brigão nos tempos de escola. Quando Miro se metia em encrenca, o inimigo pensava duas vezes antes de se envolver em confusão. O irmão mais velho podia chegar a qualquer momento.

Uma vez, já como treinador, quase voltou a dar motivo para a fama que um dia conquistou.

Com todas as desavenças aqui já contadas, D’Alessandro não conseguiu ser o jogador com quem Tite teve mais problemas na carreira. O argentino não superou Laércio, nos tempos de Veranópolis, no início da década de 1990, que por pouco não foi atacado com garfo, colher, faca ou qualquer outro talher que houvesse à disposição.

A postura do jogador fez o técnico se lembrar do tempo em que ainda era Ade ou o “gringo” da colônia, um dos mais briguentos da turma.

O jogador foi contratado para o time por um pedido do próprio treinador. Chegou e recebeu o pagamento das luvas à vista, tratamento mais do que especial para a época. Gastava algumas de suas noites, porém, em um restaurante da cidade falando mal do clube, do comandante e dos companheiros. O que ele não esperava é que um dos garçons fosse amigo do professor.

Tite achou que uma conversa em particular seria o suficiente para acabar com o problema.

– Eu conversei com o Laércio, que chorou, me pediu desculpas. Perguntei se ele não estava contente, o que estava acontecendo. Ele só pediu desculpas – lembra Tite.

Na mesma noite, o jogador voltou ao restaurante e ao seu padrão costumeiro.

– Chega na minha frente, é capaz de chorar, e no mesmo dia é capaz de falar tudo de novo? Quando eu soube, fiquei no refeitório, só esperando. Fiquei olhando pra porta e eu falava: “Se ele entrar aqui, e pegar um prato de comida, eu vou pra dentro dele”. O Laércio chegou, foi até a cozinha falar com a cozinheira. E eu fiquei andando, de um lado pro outro, pensando: “Se ele entrar, eu vou dar nele. Ou ele vai dar em mim, ou eu dou nele”. Foi um momento de muita tensão mesmo.

Amigos que presenciaram a cena contam que Tite, enquanto andava de um lado para o outro, falava em voz alta que ele não era digno de um prato de comida, enquanto segurava um garfo e uma faca nas mãos, talheres que usaria para comer mais tarde.

Laércio nunca mais voltou ao Veranópolis. Foi embora sem se despedir e com uma chuteira que nunca devolveu ao roupeiro.

– Ele ainda roubou a chuteira – termina Tite.

 

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