Tite
4. Dinheirabilidade
DINHEIRABILIDADE
A escolha pelo Corinthians
Se os cifrões fossem a sua prioridade na vida, argumenta, não teria dúvida: no início de 2015, escolheria voltar para o Internacional em vez de aceitar a proposta do Corinthians, que era, nem mais nem menos, a metade da do Internacional. Em valores brutos: 800 mil reais contra 400 mil reais. Uma diferença, ao final de 12 meses, de 4,8 milhões de reais. Resolveria, certamente, os meus problemas, e, acredito, os seus, leitor.
Mais do que isso, a oferta corintiana representava uma diminuição em relação ao último salário que teve antes do período sabático no Parque São Jorge ao final de 2013 – cerca de 700 mil reais.
Como poucas vezes aconteceu, ficou em dúvida do que fazer dali em diante. Pensou na filha, que ficaria sozinha em Porto Alegre. Na mãe e no irmão, em Caxias do Sul.
Ouviu conselhos de que não haveria motivo algum para retornar ao Corinthians, afinal, já tinha tudo o que era possível: um Brasileiro (2011), um Paulista (2013), uma Libertadores (2012), um Mundial (2012) e até uma Recopa (2013). Faltava uma Copa do Brasil, mas ninguém toma esse tipo de decisão pensando na Copa do Brasil.
Parte da escolha de Tite tem nome e sobrenome: Roberto de Andrade, presidente do Corinthians, eleito em 2015, com quem o treinador trabalhou lado a lado como diretor de futebol durante os três anos da passagem mais vitoriosa da sua carreira, com boa cumplicidade, e em quem tem total confiança.
– Até que um dia, 11 da manhã, eu decidi. À tarde ia ter o último jogo do Brasileiro [6 de dezembro de 2014]. Era Corinthians na Arena Itaquera contra o Criciúma [2 X 1] e o Inter ia jogar contra o Figueirense [2 X 1]. E eu estava me sentindo muito mal em casa. Porque parecia que eu ia tomar uma decisão baseada no que acontecesse naquela tarde – relembra.
Corinthians e Internacional estavam disputando o terceiro e o quarto lugar da tabela, ou seja, a vaga direta para a Libertadores da América, o torneio mais cobiçado dos brasileiros.
O último do G4, como é chamada a zona de classificação para o campeonato, tem de passar por uma fase anterior à de grupos – lembra aquela que, em 2011, o próprio treinador foi eliminado ao dirigir o alvinegro de São Paulo contra os colombianos do Tolima, em um dos maiores vexames da história.
– Liguei para o Roberto e falei: “E aí?”. Ele disse: “Tite, eu não vejo o Corinthians sem você. E não é pelo que tu fez no passado, é pelo que a gente projeta no futuro”. Quando ele falou isso, perguntei: “É importante?”. Ele disse: “Sim, é importante”. Eu falei: “A partir desse momento, sou técnico do Corinthians. E vou já ligar para o Vitorio Piffero [presidente do Internacional, com quem também já tinha trabalhado]”.
Tite agradeceu ao Inter, mas disse que já havia dado sua palavra em São Paulo.
Assistiu, seis horas mais tarde, à equipe colorada se classificar para a fase de grupos da Libertadores e ficou, depois desse dia, à espera de saber quem seria o Tolima de 2015, torcendo para que esse final fosse mais feliz.
Em 21 de dezembro, o Once Caldas foi definido como o adversário do Corinthians na Pré-Libertadores de 2015.
Logo veio à tona o temor de que o adversário carregaria a mística da equipe que venceu a Libertadores de 2004, quando desclassificou gigantes como o Vélez Sarsfield, Santos, São Paulo e Boca Juniors. Só que a realidade e o tempo eram outros e, mesmo com o curto período de preparação – somente 27 dias –, o Corinthians passou sem dificuldades. Venceu em Itaquera por 4 X 0 e empatou por 1 X 1 no estádio Palogrande, em Manizales, Colômbia.
Estava decretado o fim da maldição do Tolima!
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Nem um real para a mãe
Se Tite conseguiu oferecer tudo do bom e do melhor para os filhos e ainda os ajuda financeiramente, a relação com sua mãe é bem diferente. O treinador nunca deu nem um real para dona Ivone. Essas palavras são dela.
É verdade que a viúva do seu Agenor mora em uma casa simples e muito bonitinha, em Caxias do Sul, comprada por Tite no terreno que ele também adquiriu, onde funciona o Centro de Esportes e Lazer Tite (Celte), inaugurado em 1998. Essa é uma das poucas coisas que ela não conquistou com o próprio suor.
Nunca se deslumbrou com o sucesso do filho. Viu o mar uma vez na vida e nunca pôs os pés em um avião.
– Eu não aceito dinheiro. Precisa? Por que vai me dar? Eu vivo com o meu dinheirinho. Quero morrer se ele chegar aqui e falar: “Mãe, toma aqui cinco ‘pilas’”.
Lamenta, inclusive, o tempo que o futebol toma de Tite, que acaba ficando quase o ano todo distante, com poucas visitas à mãe.
Dona Ivone foi sempre assim e esta é a sua marca registrada. Nunca quis dinheiro de ninguém e sempre compartilhou o que tinha com todos que precisavam.
– É por isso que o Matheus, filho de Tite, fala sempre que a gente se encontra que o pai não estaria onde está se não fosse eu. É, eu ajudei muito.
A vaidade da mãe em não aceitar um centavo começou a incomodar os filhos. Especialmente Tite, que a cada dia tinha mais condições para oferecer para quem lá atrás havia garantido seu sustento. Dona Ivone não deixa nem contratar funcionários para o Celte: é ela quem trabalha até hoje, já com oitenta anos, no local administrado por Miro.
Tite foi com seu irmão Miro em busca de um psiquiatra para entender os motivos da mãe e o que fazer diante daquela situação. Mais do que o orgulho que sente, dona Ivone se alimenta desse combustível para dar sentido à vida.
– O médico nos disse que a gente tinha de respeitar a engrenagem da cabeça da mãe. Falou que se tentássemos mudar as coisas ela ia se sentir inútil e infeliz. E tocou na ferida: disse que sabia que éramos vaidosos e preocupados com o que as pessoas iam falar, mas que deixássemos as pessoas falarem o que elas quisessem e deixássemos ela ser feliz. Eu e o Miro abrimos um sorriso, porque era isso que a gente sentia.
Mais do que a vontade genuína de ajudar, tinham a preocupação do que iria ser dito quando alguém visse a mãe do treinador que conquistou até o mundo trabalhando aos oitenta anos, vivendo uma vida humilde, muito parecida com a que ela tinha antes da fama familiar. Eles conseguem deixar dona Ivone feliz de outro jeito.
– Meu filho é bom. Ele [Tite] chegou aqui e deixou um cheque de 30 mil reais para ver se ajudava nos tratamentos da filha de uma vizinha – recorda dona Ivone, emocionada. – Eu me lembro disso e choro.
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O fim da treinabilidade
Tite não esconde que de fato se preocupa com a própria imagem, com o que vão pensar a seu respeito. A qualquer um que pergunta, é direto: acha Pep Guardiola e José Mourinho estrelas.
– São midiáticos. Fazem coisas para a TV filmar. Eu não gosto disso. Eles são personagens e fazem declarações muitas vezes teatrais. O Ancelotti não é assim. E me inspiro nisso.
Tem medo de também cair no estrelato e diz tomar cuidado para evitar que isso aconteça.
– Tento ser autêntico e é isso que vai me deixar longe do estrelato. Aprendi com o meu assessor de imprensa [Luciano Signorini] a falar o que eu sinto, ser mais eu mesmo nas entrevistas. Eu não falava de coisas minhas antes, e agora falo.
O conselho recebido do assessor foi entre o jogo do Tolima e o do Palmeiras. Tinha acabado de voltar ao Corinthians e mantinha uma forma rebuscada de se comunicar, em tom professoral. Foi nessa época, inclusive, antes da orientação de Luciano Signorini, que se tornou alvo de gozações quando usou o termo “treinabilidade” durante uma coletiva de imprensa, quando perguntado sobre a situação de Ronaldo Fenômeno, se iria ou não estar pronto para o jogo.
– Vai depender da treinabilidade do jogador – afirmou aos jornalistas.
Lembra Luciano Signorini:
– Eu fui percebendo que ele não ficava leve nas entrevistas, que sempre tentava ser politicamente correto e tinha um jeito muito trabalhado de falar, desde 2004. Vi que muitas vezes colocavam isso na mesa na hora de contratar e demitir. Tinha uma coisa na época que falavam que os jogadores não iam entender o que Tite falava, pelas palavras que usava. Na sua volta ao Corinthians, eu achei que era a hora de falar com ele sobre isso. Só conseguimos sentar entre o Tolima e o Palmeiras, foi em caráter meio emergencial. A partir daí o Tite se tornou ele mesmo nas entrevistas.
Ao longo dos mais de vinte anos de carreira, Tite conta que já ouviu muitas críticas, mas jura que nunca a de ser marqueteiro.
– Talvez as pessoas que não me conheçam possam bater o olho e ter uma primeira impressão diferente. Mas quando convivem mais percebem que eu sou do mesmo jeito em todos os lugares. No vestiário eu sou igual, em casa também. Eu não sou marqueteiro, isso eu não faço. Sou discreto.
Logo depois do hexacampeonato, foram várias as entrevistas que o treinador concedeu. Em uma quinta-feira no CT, logo após a consagração do título, equipes de TV, jornais, rádios, sites e revistas se dividiram em intervalos de trinta minutos para falar com ele. Eram as demandas acumuladas, desde o início de novembro. Apareceu muito nesse período. E se ele rejeitasse os pedidos da imprensa, seria chamado de quê?
Tem sempre o cuidado de valorizar o trabalho dos que o cercam. Olha no olho, chama pelo nome, cumprimenta um a um – dos mais íntimos aos mais distantes – tratando todos de forma igual. Relação que mantém inclusive com os jornalistas.
– Se eu não o cumprimentar, ele vem. Porque ele cumprimenta desde o porteiro até o presidente. Ele sabe o nome de todo mundo – conta o fotógrafo oficial do Corinthians, Daniel Augusto Jr., que também é o autor do livro Obrigado, Tite! – As cinco pontas de uma estrela, um registro fotográfico que retrata a trajetória das duas primeiras passagens do treinador pelo Corinthians e que foi lançado no final de 2013.
Quando voltava de uma viagem ao Uruguai, em março de 2015, com a vitória por 2 X 1 sobre o Danúbio, pela Libertadores, o técnico corintiano saiu do avião e foi ajudar o estafe do clube a retirar as bagagens para levar para o ônibus. Foi flagrado pelo repórter Rodrigo Vessoni, do jornal Lance!. Não foi a única vez.
– A bagagem é sempre muito grande. Quase cem malas para carregar. Quando ele viu a pilha, começou a ajudar. Ele sempre vem perguntar se a gente precisa de alguma coisa. Na maioria das vezes eu não deixo. Não precisa, né? – comenta Edízio Borges de Almeida, roupeiro corintiano. – Se há uma coisa que eu garanto é que não é marketing. Ele não faz na frente da TV, para aparecer. O que ele faz fora é ainda mais nobre – completa.
Quando não havia nenhuma câmara ligada, em 2009, logo depois do título da Copa Sul-Americana com o Internacional, Tite chamou Mauricio Dulac, responsável pelo setor de análises do clube, para pedir um favor.
– Mauricio, sabe aquele senhor que fica o tempo todo aqui? O senhor Ervino... Tu pode levar esse dinheiro pra ele? – falou o treinador, com duzentos dólares na mão.
Ervino Keitel tinha naquela época noventa anos, o funcionário mais antigo do Inter, mas não estava entre os recebedores do bicho: dedicou 45 anos da vida trabalhando para o time colorado, onde conquistou o carinho de quase todo mundo que passou por lá em algum momento.
Quatro anos depois, Tite recebeu da Conmebol o prêmio de melhor técnico pela campanha da Libertadores de 2012, com o Corinthians. Levou para casa, além da conquista inédita, um Toyota Corolla XRS, avaliado em cerca de 80 mil reais. Tirou da conta-corrente a mesma quantia e dividiu entre aqueles que não tinham recebido o bicho pela vitória. Ficou com o veículo – como um troféu.
Dificilmente dá respostas sem pensar, que possam lhe render dor de cabeça mais tarde. Evita, por exemplo, palavrões em entrevista – embora, para este livro, tenha se esquecido dessa censura. Diz que assiste a algumas coletivas de novo para ver se foi suficientemente claro. Sem dúvida, preocupado com a imagem.
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O voto é secreto
Tite não revela por nada no mundo em quem votou nas últimas eleições. Nem nas últimas, nem nas penúltimas, nem nas primeiras. Evita, assim, qualquer desgate que possa ter – especialmente depois que o Brasil se dividiu entre petistas e psdebistas. Não toca no assunto para não ser julgado por isso, embora não admita. Uma vaidade que tem. Seus familiares guardam o segredo.
– Eu voto em alguém que me passa confiança, mais do que em um partido político. Não vou falar a respeito – disse Tite ao ser perguntado se já tinha votado em Luiz Inácio “Lula” da Silva alguma vez em sua vida.
Em outubro de 2015, ele e diversos jogadores apareceram em um vídeo mandando parabéns para o ex-presidente.
Seu irmão Miro assim respondeu:
– Não revelo também. O nosso pai, já mais velho, não votava mais. Decepcionado. Antigamente, o pai era PTB [Partido Trabalhista Brasileiro] e posteriormente MDB [Movimento Democrático Brasileiro]. Depois o assunto política quase não entrava em casa.
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Paolo Guerrero X Emerson Sheik
Tite toma ainda mais cuidado com questões financeiras. Não quer de forma alguma ter fama de marqueteiro, tampouco quer ser chamado de mercenário.
– Fica tudo com o meu empresário – diz ele.
Foi esse o tom do conselho que deu a Elias no primeiro semestre de 2015, quando surgiu um novo interesse do Flamengo pelo meio-campista. Em entrevistas, o jogador não se posicionou de maneira firme sobre o que queria fazer da vida. Deixou, em vários momentos, aberta a situação.
– Aquela coisa de o Flamengo ser um grande time, fui muito feliz, é uma honra saber do interesse, quero jogar lá de novo um dia... – sim, o volante defendeu o time rubro-negro em 2013.
As declarações pegaram mal no CT, especialmente com a diretoria. Demorou alguns dias para que a situação fosse esclarecida. O mal-entendido aconteceu logo depois da eliminação na Libertadores, quando Emerson Sheik e Paolo Guerrero anunciaram a saída para ir para o time da Gávea.
– Eu falei para o Elias: “Cara, cuida da tua imagem. Cuida. Quem cuida dela é só tu”. E disse pra ele: “Olha, estou falando isso pela frente. Podem achar que você está querendo dinheiro. Podem achar que você quer jogar lá. Podem achar um monte de coisas” – revelou Tite a mim.
O conselho foi bem-recebido por Elias, que logo depois procurou uma maneira de se retratar. Diz que vai levar para a vida o que escutou naquela conversa.
No entanto, a preocupação com a reputação faltou no processo de negociação do fim do contrato de Paolo Guerrero, avalia Tite.
– Sim, faltou cuidado para não ficar com a fama de mercenário. Eu queria que ele tivesse saído de forma diferente. O Corinthians merecia mais e ele merecia mais também. Não me pergunta quem errou, porque eu não sei – afirma.
O peruano foi liberado no dia 27 de maio, mas se apresentou ao Flamengo no começo de julho, apenas depois da Copa América, para a qual foi convocado. Foi uma operação de mais de 40 milhões de reais, envolvendo 650 mil reais mensais e luvas de 16 milhões de reais.
O treinador achou a saída de Emerson Sheik mais bonita.
– Queria que [a do Guerrero] tivesse sido conduzida da mesma forma que foi a do Sheik. Essa foi bonita. Eu estava torcendo para ser de forma diferente. Uma pena. Estava revendo a conquista do Mundial. É tão difícil conquistar as coisas. Eu lastimo. Fiquei com isso guardado dentro de mim.
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O primeiro salário corintiano
Tite não ligou para dinheiro nem quando faltou.
– O dia que eu não recebia da freguesa, o Tite diz que corria um pouco no campo, se abaixava e vomitava. Ele estava fraco, mas não deixava de treinar. Nem chorava – conta a mãe, que dependia de receber das clientes para quem costurava para abastecer a casa.
Dona Ivone se lembra de que muitas vezes chegou a deixar de comer para que nenhum de seus três filhos ficasse sem alimentação.
– Acontecia de não ter comida para todo mundo. Eu colocava na mesa e eles iam comendo. Quando acabavam, saíam e eu ia raspando os pratos. Era o meu almoço.
Lágrimas apareceram em 2004 quando foi convidado pela primeira vez para comandar o Corinthians, época de crise econômica no Parque São Jorge, que estava com todas as receitas bloqueadas após o fim desastroso da parceria com a americana Hicks Muse.
A previsão era de que o Corinthians e a Hicks Muse, um fundo de investimento norte-americano, permanecessem parceiros pelo prazo mínimo de dez anos. No entanto, devido à crise econômica na Argentina – onde a empresa concentrava parte importante dos seus investimentos – e à alta do dólar no Brasil, o acordo foi cancelado apenas dois anos e meio depois de assinado. A parceria funcionava da seguinte forma: a Hicks controlava o futebol e tinha o direito de explorar a imagem do clube, ou seja, os valores dos patrocínios iam diretamente para os americanos, além de 85% do valor do passe de todos os jogadores.
A empresa tinha ajudado a montar um timaço para o segundo semestre de 1999, resgatando da Europa Luizão e Rincón, gastando sem pensar. Comprou o zagueiro João Carlos, do Cruzeiro e da Seleção Brasileira, os ponte-pretanos Daniel e Fábio Luciano. Era uma seleção que tinha ainda Marcelinho Carioca, Vampeta e Ricardinho. O maior resultado foi a conquista do primeiro Mundial de Clubes, em 2000. No meio de 2002, no entanto, a sociedade acabou. Com brigas judiciais, o clube teve uma série de problemas financeiros, além de ficar com um elenco com nomes modestos.
Foi o então diretor de futebol do clube, Antonio Roque Citadini, quem fez a proposta a Tite: 80 mil reais por mês – naquela época, já havia técnicos, no plural, ganhando 200 mil reais.
Quando ouviu a oferta, em um almoço marcado na churrascaria Bracia Parrilla, no Tatuapé, Tite se emocionou. Ele quase começou a chorar ao aceitar a proposta. Citadini lembra que ele disse, com aquele seu “gauchês”:
– Tu sabes o que é dirigir o Corinthians.
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Inquilinos caloteiros
Não tinham se passado nem 12 meses: Rose lamentava o fim tão breve da passagem.
O iraniano Kia Joorabchian, presidente da Media Sports Investments (MSI), nova parceira do Parque São Jorge, acabara com o sonho de Tite de ganhar títulos no maior clube que havia dirigido em sua carreira. Depois de uma derrota por 1 X 0 para o São Paulo, com um pênalti perdido pelo jovem lateral Coelho, aos 43 minutos do segundo tempo, o empresário não se conformou e entrou no vestiário cobrando satisfações do gerente de futebol da época, Paulo Angioni.
Kia Joorabchian exigia que o argentino Carlitos Tevez, adquirido por 20 milhões de dólares e principal estrela do time, cobrasse o pênalti. Tite bateu de frente com o iraniano e afirmou que o vestiário não era lugar para aquele tipo de discussão e que Coelho cobrou a penalidade porque era quem treinava e estava preparado. Para piorar, Kia se expressava de forma exaltada em inglês, não se fazendo entender e deixando a situação ainda mais confusa. A saída de Tite foi selada no dia seguinte, em uma reunião entre o técnico, a diretoria e o investidor.
Para a imprensa, Tite declarou na época:
– A MSI comandando o futebol do Corinthians, eu não participo. Não vou vender a minha dignidade. Isso eu não vendo.
Questionado sobre o assunto atualmente, Tite vai direto ao assunto:
– Sem meias-palavras: eu não era o técnico preferido da MSI.
A MSI era formada por um grupo de investidores britânicos e russos. Kia Joorabchian era o representante no Brasil, havendo a desconfiança de que na verdade não passava de um testa de ferro do magnata russo Boris Berezovsky, acusado de lavagem de dinheiro e formação de quadrilha em seu país. Após vários problemas de relacionamento entre o clube e a MSI, o Conselho Deliberativo do Corinthians decidiu de forma unânime pelo fim do acordo, em 24 de julho de 2007.
O plano da família de Tite também fora frustrado com a demissão do Corinthians em fevereiro de 2005. O casal tinha acabado de comprar uma cobertura no Tatuapé, com planos de construir a vida na cidade. Tempo de muita instabilidade para Tite. Ele não se firmava por onde passava.
– Não quisemos vender. O Tite disse: “Tenho certeza de que vou voltar para São Paulo” – conta sua esposa.
Semanas depois, em 2005, pintou um convite para comandar o Atlético Mineiro. Voltou a São Paulo, em 2006, para assumir o Palmeiras, onde também ficou pouco. Até o retorno ao Corinthians, em 2010, Tite passou por cinco times e teve quatro inquilinos diferentes na cobertura do Tatuapé.
Um deles foi o argentino Matias Defederico, do Huracán, da Argentina, contratado em agosto de 2009 por cerca de 10 milhões de reais. Com o sonho de ser um novo Carlitos Tevez para a Fiel, Defederico não conseguiu brilhar nos gramados e ainda se esqueceu de pagar o aluguel do apartamento em que morava: foi despejado, o caso foi parar na Justiça e só foi resolvido em 2014.
– Eu aluguei e não sabia para quem era. Fui saber quando o corretor veio atrás de mim, para dizer que o locatário não estava pagando e que era jogador do Corinthians. Mas não foi só o Defederico que não pagou – lembra o treinador.
Ainda teve o Leandro Lessa, conhecido no meio futebolístico como Leandro Gianechini, atacante que também defendeu o Parque São Jorge no início da década de 2000, e, mais tarde, o São Paulo, entre 2006 e 2007. Na verdade, este foi o primeiro calote tomado por Tite.
– Ele só foi pagar quando chegou um oficial de justiça para cobrar. Ele tava entrando, não deixaram. Só depois disso ele foi acertar. Precisou de oficial. Estava há um tempão sem pagar. Jogava no São Paulo e não tinha condição?
Resolvidos os problemas de pagamento, o treinador voltou para casa. Foi campeão da Libertadores, do Mundial, viu seu salário ser multiplicado por dez, mais tarde reduzido pela metade e continuou morando exatamente no mesmo lugar, onde está até hoje.
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Arroz e feijão, churrasco e caipira
Antes de ter a cobertura, Tite passou alguns meses morando debaixo de uma arquibancada, em Veranópolis, entre 1992 e 1993.
Para não precisar ir e voltar todos os dias para casa, em Caxias do Sul, evitando uma hora e meia de serra a cada viagem, decidiu ficar ali no alojamento do clube, que não era dos mais estruturados.
– O Matheus [filho de Tite] dormia lá às vezes junto comigo. Um dia ele me acordou assustado, me chamando. Era uma aranha enorme, desse tamanho – recorda Tite, mostrando a envergadura do bicho com a mão esquerda.
Tite honra suas origens de classe e criação, mas contradiz sua descendência. Nhoque alla bolognese, risoto alla milanese, lasanha quattro formaggi, acompanhados de vinho tinto, definitivamente não lhe fazem suspirar.
– Gosta de um arroz com feijão. É isso que sempre me pede – revela a mãe, dona Ivone.
Essa mistura ele escolheu para a vida. Desde que chegou ao primeiro treino no Caxias, ainda na base, indicado por Luiz Felipe Scolari, até a conquista de mais um Campeonato Brasileiro, em 2015, poucas foram as mudanças no seu estilo de vida. A rotina continua a mesma, requintada por mais duas grandes paixões: o churrasco e a caipira de limão, que é como ele chama a caipirinha de vodca.
Não importa onde esteja, ao final de cada temporada volta ao Rio Grande do Sul e fica alguns dias em Porto Alegre no apartamento da família, onde mora a filha Gabriele.
Passa em Caxias do Sul, onde vive a mãe, dona Ivone, e os irmãos, Miro e Beatriz, e onde joga a sua pelada às terças-feiras com o time que ajudou a criar no início da década de 1980, o Carrossel.
Depois segue para Torres, no litoral gaúcho, onde tem sua casa de veraneio e gosta de ficar sem perturbação, com Rose e seus filhos, lendo livros e jornais e pensando no próximo ano que logo vem.
Pescava, mas perdeu o hábito, pois nem o remédio Dramin salva a pescaria. Da primeira vez que enjoou, o filho Matheus não esquece.
– A gente estava com meus primos, em Torres. Todo mundo começou a passar mal. E ele [Tite] fazendo piada, que ninguém se aguentava, que estavam todos vomitando. Dali a pouco ficou silêncio e eu olhei pra trás. Meu pai, com a cabeça para cima, perguntou se dava para voltar.
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Um BMW por um Monza
A vida de jogador de futebol proporcionou a Tite dias de sol, mas não o tinha deixado rico. Nos quatro anos e meio de Guarani viveu de aluguel com a esposa. Quando retornou de Campinas para Caxias do Sul não tinha como comprar um imóvel. Contou com a ajuda do sogro, que deu à filha um apartamento na cidade, como fez com todos os seus filhos.
O primeiro bem que adquiriu com o próprio dinheiro foi um Voyage verde-água, pouquinho antes de retornar ao Sul.
– Fui sorteado no consórcio e comprei. E só comprei porque eu tinha o valor na poupança para pagar o carro, caso desse algo errado. Ele era bonito. Troquei a frente por uma Souza Ramos, que era um tipo de customização disponível para alterar a aparência de uma parte do veículo. Era uma mais arrojada.
Com o dinheiro que estava guardado, Tite investiu em uma pequena loja de artigos esportivos em Bento Gonçalves, esperando que dali viesse parte do seu sustento, mas ela durou pouco tempo. Não sabia ainda o que seria do seu futuro.
Em 1993, conquistou seu primeiro título como técnico e logo em seguida ganhou o primeiro BMW, meio por acaso. O carro importado, sonho de consumo da classe boleira, foi trocado em poucos dias por um Monza.
Tite havia se sagrado campeão da segunda divisão do Gaúcho com o Veranópolis e tinha motivo de sobra para festejar, não fosse o fato de que a diretoria comunicou que não conseguiria pagar o seu salário nem honrar o bicho do acesso, de cem reais. Ganhava, na época, três salários mínimos, que em 1994 era de setenta reais por mês.
Os cartolas, então, ficaram com a dívida e só encontraram uma solução dois anos depois, no começo de 1995. Negociaram com o elenco que os pagamentos seriam feitos com uma rifa, o que foi aceito imediatamente, tamanha era a desesperança de que outra forma fosse encontrada.
Sortudo, Tite foi o ganhador do sorteio.
– O Veranópolis não tinha dinheiro para formar o time do outro ano. E eu falei para eles ficarem com o dinheiro do BMW e irem me pagando aos poucos. Os dirigentes me deram um Monza logo de cara, como parte do pagamento – lembra Tite.
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O primeiro BMW zero
Quase todas as vezes que Tite comprou um carro novo foi por vontade da família, por pressão dos filhos e da esposa.
– Te dá esse presente – falava Gabriele quando via resistência do pai em trocar de automóvel.
No final de 2008, porém, comprou um sem pensar duas vezes. Tinha acabado de ser campeão da Sul-Americana com o Internacional. A equipe colorada abriu as portas para que Tite voltasse a crescer e se estabelecer como técnico. Seu último título tinha sido em 2001, justamente com o rival, o Grêmio, ano em que conquistou o Gaúcho e a Copa do Brasil
Nilmar foi o melhor jogador da final contra o Estudiantes por escolha feita pela Conmebol. Ganhou um carro da Nissan, fabricante japonesa patrocinadora do torneio, um X-Trail zero quilômetro. Tentou vender, mas não conseguiu. O jogador queria dividir o dinheiro do prêmio com o restante dos companheiros.
– O carro ficou um tempo à venda, mas não vendia. O Nilmar contou isso para o Tite e ele decidiu comprar o carro. O valor foi dividido entre todos os funcionários do Inter, por vontade do próprio Nilmar – lembra o irmão Miro.
Poucas vezes Tite usou o carro bege metálico. Guarda o Nissan na garagem, em Porto Alegre, como um troféu.
No fim de 2009, o treinador comprou seu primeiro BMW zero – duas vezes antes tinha adquirido usados. O primeiro zero, um modelo ano 2003, foi comprado em 2006 como presente de 45 anos, por insistência dos filhos.
– Meu pai estava há anos como técnico e não tinha comprado nada muito bacana. A gente insistiu muito para ele comprar. Era presente de aniversário – conta a filha Gabriele. Ele foi trocado em 2007 por outro um pouco mais novo, ano 2005.
Quem negocia os automóveis da família é o amigo Alvaro Mentta. Como não achava bons preços em Porto Alegre, foi até São Paulo pechinchar. Conseguiu um desconto de 60 mil reais com um gaúcho, que não sabia que a compra era para o Tite. Mentta, fascinado por carros, se preocupava em saber quais itens o treinador queria. A resposta era sempre a mesma: se tiver ar-condicionado e direção hidráulica está de bom tamanho.
– Eu liguei para ele pra saber onde eu mandava entregar e quem ia receber. Ele me responde: “Vem dirigindo, bah!”. Era novinho. Os primeiros mil quilômetros fui eu que dirigi – relembra Mentta, rindo.
Com um ano de uso, lá estava o BMW estacionado no CT corintiano naquela noite inesquecível de 2 de fevereiro de 2011, a noite da eliminação para o Tolima. O carro de Tite foi um dos dez apedrejados por vândalos encapuzados, revoltados com a derrota para os colombianos.
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