Tite

Camila Mattoso · Capítulo 12 de 16

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Tite

10. Treinabilidade

TREINABILIDADE

 

Grua: o xodó do CT

Um minielevador móvel se levanta, chegando a 12 metros de altura em relação ao chão. Transporta no CT Joaquim Grava uma única pessoa e uma câmera digital. Conhecido também como “grua”, o equipamento é o xodó de Tite.

Carrega sempre alguém do Cifut, que passa cerca de uma hora filmando lá de cima todo o treinamento. Mais e mais imagens para o banco de dados.

É dessa forma que a comissão técnica consegue analisar os erros e acertos, separar lances para repassar e cobrar os jogadores, aperfeiçoando o desempenho da equipe – o procedimento é o mesmo para os dias de jogos, quando a filmadora é levada aos estádios.

A uma altura de 12 metros acima do gramado, o resultado obtido pela câmera, na maior parte das filmagens, é de imagens abertas, em que é possível ver a jogada completa. Se sai um gol pela direita, Tite enxergará também qual foi a movimentação no lado esquerdo, no meio e na defesa, simultaneamente.

Assim, ele pode corrigir posicionamentos que passariam em branco em uma imagem focada no lance, como é a tradicional da televisão. No começo, resistia. Não se acostumava com as tais “imagens abertas”. São mais frias, não pegam a emoção e o calor de um carrinho, de um drible bem dado, de um desarme.

– Depois ele se converteu à imagem aberta – brinca Fernando Lázaro, responsável pelo Cifut.

A grua foi comprada depois da pré-temporada de 2015, nos Estados Unidos, onde Fernando Lázaro descobriu a tecnologia. O equipamento chegou em abril daquele ano e vem sendo utilizado desde então, cumprindo mais uma das metas que o ano sabático entregou a Tite.

 

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O tite13 foi removido do grupo

À central de inteligência do Corinthians, aliás, não faltam coisas a fazer. Se dependesse de Tite, então, os funcionários trabalhariam nas férias, nos feriados, nas manhãs, nas madrugadas, ininterruptamente.

Lázaro criou um grupo no WhatsApp que conta com a presença do treinador. Por meio do aplicativo, ele faz as solicitações que precisa – é um membro pra lá de aplicado. Os participantes já se acostumaram com uma certeza: o treinador na academia é mensagem garantida. Enquanto faz seus exercícios, o gaúcho não desgruda os olhos da TV.

“Não é Multishow”, brinca o pessoal do Cifut. Está sempre assistindo a algum jogo ou aos melhores momentos de algum campeonato, e faz seus pedidos.

Mensagem de tite13 (nome usado no WhatsApp): “Minuto 17 de Villareal-ESP X Real Madrid-ESP: perde-pressiona”.

A frequência do comandante no grupo é tão grande que virou até piada depois da conquista do hexacampeonato.

“Fernando Lázaro removeu você”, recebeu o treinador em seu celular, ainda no vestiário, depois de mensagens de felicitações no grupo do tipo “Feliz 2016 para todo mundo”.

Nem essa seria uma forma de aquietar Tite, admitem. No início de 2013, eles ainda não tinham o aplicativo, e Tite telefonou diretamente para Fernando.

– Fernando, tudo bem? Estou pensando aqui, acho que seria legal se a gente separasse umas coisas para a reunião. Pode anotar aí?

– Claro, mas calma, deixa eu achar aqui algum lugar para anotar.

Tite percebeu que do outro lado da linha havia uma voz um pouco atrapalhada, diferente da que estava acostumado a ouvir.

– Fernando, tá tudo bem? Tu tá podendo falar?

– Estou, sim, professor. É que eu tô viajando, tô em outro país, e aqui são quatro horas da manhã.

O responsável pelo Cifut mal sabia exatamente o que se passava naquele momento. Era dia 2 de janeiro, estava com a mulher em outro país – quatro horas a menos no fuso horário –, dormindo no momento do telefonema.

Tite não esconde de ninguém que sem o departamento de inteligência e informática criado no Parque São Jorge ele sentiria um vazio no coração, ficaria órfão e viúvo.

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Vinte e quatro horas de futebol

Ao longo da carreira, Tite foi fazendo mudanças na dinâmica dos seus treinamentos. Diminuiu o volume e a carga horária, mas aumentou a intensidade.

Havia um tempo em que as atividades chegavam a durar uma manhã inteira – assim como faziam e fazem seus colegas de profissão. Não é, definitivamente, mais o caso. Algumas vezes, a atividade não passa de uma hora de duração.

Essa é, porém, a parte do campo. Os jogadores ainda fazem trabalhos específicos na academia, de fortalecimento muscular, ou exercícios na piscina do CT. Para Tite, a preparação dos treinos e dos jogos lhe tomam quase 24 horas, não fosse aquele negócio que inventaram... de dormir.

Tem por característica ser um cara extremamente reservado, o que muitas pessoas que convivem com ele acreditam ser um defeito, embora tenham aprendido a conviver. Não importa onde esteja, no entanto, a única certeza que há é que estará falando de futebol.

A maior prova disso é a preocupação que vivem Gabriel, o namorado da filha, e Fernanda, mulher do filho.

– Minha esposa até brinca às vezes: “Pô, quando eu tô com vocês, eu não sei se eu falo alguma coisa, se dá ou não para falar, porque ele só fala de futebol, e eu não quero falar uma coisa que incomode” – conta Matheus.

Já o namorado de Gabriele nunca foi muito fã de futebol. Nada assiste, não acompanha. Desde maio de 2015, quando engatou o relacionamento com a filha do professor, mudou os hábitos.

– Ele começou a ver mais futebol. Se tá passando na TV ele assiste, para comentar com meu pai, ter assunto – diz a filha Gabriele.

A atitude de Tite até surpreendeu a direção corintiana em 2015, quando o técnico participou de todas as comemorações que foram feitas para o hexa. Quando chegou ao restaurante Fratelli, após a conquista do título contra o Vasco, localizado na Barra da Tijuca, zona Oeste do Rio, foi logo pedindo:

– Qual é o maior copo que vocês têm aqui? – perguntou ao garçom, que mostrou uma taça gigante de vinho, em que poderiam caber quase quinhentos mililitros.

– Pode fazer uma caipira de vodca de limão aí dentro mesmo! – empolgou-se Tite.

De lá, ainda passou na festa que acontecia na casa da família do Vagner Love, onde ficou até de madrugada. Na semana seguinte, após a goleada de 6 X 1 contra o São Paulo, o clube reservou um local para mais celebrações e lá estava o treinador de novo, com a sua esposa e o filho. Na noite do clássico, aliás, Rose invadiu a coletiva de imprensa, fez uma pergunta se escondendo do marido e terminou em cima do palco, dando um beijo e um abraço no hexacampeão, em cena comovente.

 

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Rodízio de auxiliares

Atualmente, o treinador segue uma rotina fixa de reuniões com seus jogadores – que determina também o fluxo de trabalho do Cifut. Com Cleber Xavier e Fábio Carille ao seu lado, foi estabelecido o rodízio de auxiliares nos jogos, o que facilita e melhora o andamento do trabalho.

Explico a seguir como funciona, começando pelo fim de um jogo em um domingo, em uma semana chamada de “aberta”, com compromisso na semana seguinte.

Para o confronto contra o São Paulo, antepenúltima rodada do Brasileiro, na vitória por 6 X 1, Cleber Xavier foi o auxiliar – enquanto isso, Fábio Carille já fazia o planejamento do outro domingo, para a partida contra o Sport, na Arena Pernambuco.

Assim que acaba o clássico, o pessoal do centro de inteligência e informática já apresenta o scouting (levantamento) do confronto, com dados principais, ainda no vestiário – o que foi bem-feito e o que não foi.

A partir daí, o Cifut já começa a montar um compacto com os lances mais importantes do jogo. Quem assiste esperando encontrar uma espécie de “melhores momentos” se assusta.

– A gente busca lances que tenham a ver com a ideia do jogo, do nosso padrão. Uma cobertura que não foi bem-feita, uma bola parada, algum tema específico que a gente tenha treinado na semana – explica Lázaro.

As imagens editadas obedecem, na verdade, aos tópicos determinados naquela semana. Por exemplo: iniciação pelo lado direito, perde-pressiona, cruzamento com a bola no funil.

– Eu olhei as 46 jogadas selecionadas na semana, fiz um filtro, como sempre faço, e reduzi para 28. Aí sim eu passo para o Tite. Ele olha, faz outro filtro e tira mais algumas – explica o auxiliar Cleber Xavier.

Vem, então, a reunião do pós-jogo, que acontece na terça ou na quarta-feira. Pelo menos uma vez por mês ela reúne todos os funcionários do CT: jardineiro, roupeiro, cozinheira, nutricionista, assessor de imprensa, fisioterapeuta, médico, segurança, porteiro.

Todo mundo assiste aos certos e errados das jogadas, escuta o balanço do jogo, elogios e críticas. Uma conversa que dura, no cronômetro, trinta minutos.

– A nossa capacidade de concentração não passa desses trinta minutos, é do ser humano – avalia Tite.

Nada escapa. Tite adora separar imagens de indisciplinas táticas do tipo infantil, mas não menos importantes. O cara que vai tirar satisfação com o árbitro em vez de voltar para marcar, o outro que ficou deitado no gramado fingindo ter se machucado, um que foi discutir com o adversário ou até que foi lamentar o erro de um companheiro de time. Nada disso passa despercebido. Tem replay, se precisar. Se for reincidente, já sabe que vai ter conversa individual depois, com cobrança mais dura.

Nada mais é, na verdade, do que um longo processo de convencimento: desalienação da classe boleira, de forma que entendam a consequência do que estão fazendo e a utilidade real de cada uma das coisas pelas quais são exigidos.

 

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Fim do Jorge Aragão

Finda a reunião do pós-jogo, há dois momentos pela frente. O primeiro é o dia que antecede à partida do fim de semana seguinte, normalmente sábado, para apresentar o adversário e começar a definir estratégias. Essa parte é comandada exclusivamente pelos auxiliares, que têm total liberdade para fazer suas preparações da maneira que se sentirem melhor.

– A gente viu que passar as informações de forma homeopática para os jogadores era melhor. Por isso criamos esse momento do dia da véspera – aponta Tite.

Cleber Xavier gosta de reunir a equipe inteira, falar com todo o elenco junto – sempre com apresentação de imagens. Fábio Carille, por sua vez, prefere o encontro individual ou em pequenos grupos, por posições – às vezes acontece nos quartos da concentração ou no próprio CT.

Vem, então, a preleção, essa comandada por Tite – o auxiliar do dia faz a apresentação de como se portará a equipe nas bolas paradas. Ela mudou ao longo dos anos, essa é a primeira constatação que deve ser feita. Em 2004, quando Betão ainda jogava no Corinthians, a reunião de antes do jogo tinha até música.

– Ele chegou, a gente tava mal na tabela, um momento difícil. Ele colocou aquela música do Jorge Aragão que diz “respeite quem pode chegar onde a gente chegou”. Foi muito emocionante para todo mundo. Levantava o astral e a confiança de todos – recorda o zagueiro. – O Cleber Xavier era auxiliar e também DJ. Aumentava e diminuía a música na hora certa – brinca ele.

O nome da música é Moleque atrevido e é considerada uma das principais do repertório de Jorge Aragão. Na segunda contratação para o Parque São Jorge, em 2010, o então presidente Andrés Sanchez deixou logo um recado a Tite:

– Tá contratado. Mas vou fazer só um pedido: não chore mais nas preleções – falou o cartola com um sorriso no rosto.

Tite dividia seu tempo na conversa, mais ou menos assim: 80% emoção, 20% técnica. Era a combinação que acreditava dar certo. À medida que foi crescendo na carreira, ganhando títulos, aumentando o repertório, decidiu mudar. Atualmente, as proporções se inverteram: 80% técnica, 20% emoção.

O estilo motivador, além das conquistas, deu a Tite outra opção profissional. Passou a ser chamado com frequência para dar palestras em empresas. Ao confirmar o título do hexacampeonato com o Corinthians, os pedidos quadruplicaram. Entre janeiro e novembro de 2015, foram mais de quarenta convites, mas não conseguiu ir a nenhum.

O horário das preleções também foi modificado. Aconteciam minutos antes de o ônibus sair para o estádio, para a efervescência dos sentimentos também entrar em campo. Agora, porém, são feitas antes do almoço, de modo que o grupo tenha tempo suficiente para refletir sobre o conteúdo, as características e estratégias do duelo.

Para esse momento, também gosta de separar algum vídeo específico. Entre a coletânea de Tite há lances de campeonatos Sub-17, do Brasil de 1970 e de 1982 – a sua preferida –, da Holanda de 1974, matérias de TV, entrevistas e até jogadas de partidas de basquete.

– Sempre fazem sentido – diz o treinador.

Resta, então, apenas um breve bate-papo já no estádio, com ajustes também feitos pelos auxiliares, de forma mais individual, desde a entrada do ônibus até se postarem no gramado. Dentro de campo, Tite continua o mesmo. A maior parte do tempo fica em pé no espaço que lhe é reservado, gritando as orientações e cobrando a atenção do elenco.

 

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O tapão nas costas

A dúvida mais inquietante de toda conversa de vestiário antes de entrar em campo não é sobre o 4-1-4-1, ou as triangulações pelas laterais, ou sobre o sistema defensivo. O questionamento que fica ali dentro de cada um, nem sempre revelado, é de quem será a vez de tomar o tapa mais forte na hora do cumprimento – seja antes ou depois do jogo.

– Nossa, ele dá cada abraço na gente, cada tapa! De alegria. Quando ganha um jogo assim, um título, a gente já fica preocupado, segura o corpo, porque ele vem e dá o tapa. Você tem que ir com o corpo fechado porque dá cada tranco... Se o cara estiver entalado, ele desentala naquela hora ali. Tem que ir com o corpo firme. Se for com o corpo mole, te quebra – revela o roupeiro Edízio.

 

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O susto do Viola

Um desses tapas que ele deu acabou assustando Viola.

Depois do 7 X 1, os que lamentaram a falta de inteligência da cúpula da CBF pela não convocação de Tite para a Seleção Brasileira não podem dizer que Marco Polo Del Nero, presidente que escolheu Dunga, sempre foi injusto.

Em 2004, o cartola chamou Tite (que estava no Corinthians) para comandar a seleção paulista em um confronto com a seleção carioca, no Maracanã, na celebração dos sessenta anos da Rádio Globo – uma reedição comemorativa do clássico que não acontecia desde 1987.

– Ele me agradeceu muito na época por tê-lo escolhido – lembra Del Nero.

Na lista dos convocados pelo treinador estavam os goleiros Sílvio Luiz e Fábio Costa; os laterais Anderson Lima, André Cunha e Lúcio; os zagueiros Dininho, Serginho, Anderson e Betão; os volantes Mineiro, Fabinho e Marcinho (Palmeiras); os meias Marcinho (São Caetano), Lindomar e Pedrinho; e os atacantes Gil, Osmar e Viola.

Tite ainda explicou o critério:

– Chamei seis do São Caetano, cinco do Corinthians, quatro do Palmeiras, dois da Ponte Preta e um do Guarani de acordo com a representatividade de cada clube na classificação do Campeonato Brasileiro.

São-paulinos e santistas não puderam ser chamados porque se enfrentavam no mesmo dia na Sul-Americana. Do outro lado do campo, no jogo realizado no dia 10 de outubro daquele ano, estavam estrelas como Romário, Edmundo, Júnior Baiano, Túlio, Ramon Felipe e Zinho, e o técnico era Renato Gaúcho.

Isso aconteceu no tempo em que Tite ainda gostava de fazer a preleção do tipo emocional. Os tapas não eram somente na hora de cumprimentar. Mexia com os jogadores batendo no peito dos atletas, na cabeça, segurando na mão – ainda carrega um pouco desse comportamento, mas em menor escala.

– O Tite ainda não era o Tite. Era um técnico muito bom, mas que buscava espaço, tentava se firmar. Não era consagrado. E ele tava lá dando a preleção, e mexia com um e outro. De repente foi até o Viola e deu um tapão no peito dele. O Viola tava cheio de corrente, começou a chacoalhar tudo, o pessoal se segurando para não rir – recorda, aos risos, o zagueiro Betão. – Foi engraçado, mas foi também uma demonstração de coragem muito grande, de personalidade. O Viola já era o Viola.

Campeão com a Seleção Brasileira na Copa de 1994, o atacante já tinha passado por Corinthians, Palmeiras, Santos, Vasco e defendia o Guarani naquela época.

– Lembro que eu disse: “Tu é o representante do time do Mundial. Tu é campeão do mundo. Tu é o capitão daqui e tem a responsabilidade”. O Viola deve ter pensado que eu era louco – recorda o treinador.

* * *

Betão, aliás, não se esquecerá jamais do “titês”, expressões idiomáticas próprias utilizadas pelo comandante durante o tempo em que trabalharam juntos. As principais delas são:

• Tu não pode ser cagalhão da correnteza – você não pode ser medroso.

• Tu baixa o centro de gravidade – fazer a posição de defesa, sem ficar com o corpo reto, sempre flexionando o joelho.

• Vai lá e dá um trompetaço – dar um encontrão no jogador.

 

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Carrossel 5 X 4 time do Dunga

Tite se preparava e se concentrava até para as peladas que fazia com o seu time de rua, o Carrossel, do qual é um dos fundadores.

– Ele ficava puto se alguém não levasse a sério, se chegasse de corpo mole na pelada – conta Alvaro Mentta, amigo de infância, também fundador da equipe.

Criado na década de 1980, foi batizado apenas em 1996: uma referência à eternizada Seleção Holandesa de 1974, vice-campeã do mundo.

– O estilo de jogo era de troca de posições, lembrava o estilo do time da Holanda – atesta o irmão Miro, deixando a modéstia de lado.

Depois de nomeado, dois anos mais tarde, o time ganhou até casa própria, o Centro de Esportes e Lazer Tite, que segue recebendo o time todas as terças-feiras – o Celte tem duas quadras de soçaite e é administrado por Miro, em sociedade com o irmão. O local é aberto ao público, para aluguéis mensais.

Em 2001, o Carrossel de Tite recebeu o time de Dunga, que tinha Paulo Roberto, ex-lateral do Grêmio, e Ademir Maria, ex-goleiro do Internacional. Placar final do jogo: 5 X 4 para a equipe de Tite.

– Ele leva tudo que faz a sério. Até ali ele entra concentrado e não tem brincadeira. Dava orientações durante o jogo para organizar o nosso time. Quando terminou, a gente foi para o vestiário e ele falou: “Gente, foi um jogo de xadrez, puta que o pariu, que jogo!”. Vibrou muito – lembra Mentta.

 

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Os três mosqueteiros

Com a cabeça sempre no trabalho, Tite costuma ouvir cobranças para se desligar pelo menos um pouquinho do futebol em alguns momentos. Sai um pouco da rotina assistindo ao Jornal Nacional e, logo na sequência, o Jornal da Cultura – isso em tempos de crise no governo.

– Ele tem se interessado mais por política nos últimos tempos, nunca o vi tão interessado – constata o filho.

Matheus conta como são as batalhas para forçá-lo a se distrair.

– Eu falo: “Vamos assistir um seriado, pai”. Mas é difícil. Consegui fazer com que ele visse The Musketeers [série da BBC da clássica história criada pelo escritor Alexandre Dumas, Os três mosqueteiros], logo depois da conquista do hexacampeonato. Ficamos uma hora sem falar de futebol. Ele gostou, comentou que achou leve e tranquilo.

Durante muito tempo Tite também recebeu puxões de orelha do seu braço direito, Cleber Xavier, para ser mais sociável. Um jantar que fosse, com a diretoria ou o presidente do clube em que estava. Mas nunca adiantou. A cada dez churrascos aparece em um jantar, no máximo, na melhor das possibilidades.

– Não tem jeito, ele é assim. Agora que a gente tem saído um pouco mais. Temos ido jantar nos restaurantes de que gostamos, perto de casa. Eu digo para o Tite, quando ele resiste: “É a hora que a gente tem para se olhar no olho, para ficar perto, sem preocupação de fazer comida, tirar a mesa” – constata Rose, sua esposa.

– Uma coisa que sempre deixou meu pai muito bravo era quando eu levava gente em casa sem avisar. Nossa, ficava muito bravo mesmo. Ele não gosta de estar com muitas pessoas, essas coisas. Até hoje, se a gente vai estar junto em Caxias, eu evito levar amigos – conta Matheus.

Tite prefere ficar quieto, em casa, com poucas pessoas, lendo um livro (sobre futebol em 99% das vezes), assistindo a um jogo na televisão, revendo imagens do treino, pensando na partida seguinte.

Esse estilo reservado ia lhe trazer problema mais para a frente.

 

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A escola gaúcha

– O futebol gaúcho é formado por duas escolas diferentes: a do capitão Carlos Froner e a do seu Ênio Andrade. Não quero qualificar uma como melhor que a outra. São só dois estilos diferentes de jogar. Eu me filio à do seu Ênio – salienta Tite em diversas entrevistas aos meios de comunicação quando perguntado sobre as características principais dos treinadores gaúchos.

A escolha de Tite se reflete diretamente no estilo das suas equipes, pois a escola de Ênio Andrade tem como metodologia priorizar o toque, a aproximação e a qualidade técnica em vez da bola erguida e da bola parada.

– Seu Ênio trouxe o sentido de organização e da inteligência em campo, sempre com disciplina. Basicamente, é a ideia de que é possível jogar bonito e vencer – valoriza Tite.

Já a escola do capitão Carlos Froner privilegia a competitividade com um jogo mais físico, que exalta a força física. As principais características são a defesa firme e o estilo duro, apesar de ter espaço para o talento. Um dos principais seguidores dessa escola é Luiz Felipe Scolari.

Tanto Ênio Andrade como Carlos Froner alcançaram sucesso com seu estilo de jogo e conquistaram diversos títulos.

Ênio era um meia habilidoso, de muita qualidade técnica e que como treinador se destacou ao sagrar-se campeão do Campeonato Brasileiro em três oportunidades: em 1979 invicto pelo Inter, em 1981 pelo Grêmio e em 1985 pelo Coritiba.

Carlos Froner dirigiu equipes como Grêmio, Inter, Bahia, Flamengo, Vasco, entre outros. Também comandou a Seleção Brasileira em 1966, que na verdade era a Seleção Gaúcha representando o país na Taça Bernardo O’Higgins, em duas partidas contra o Chile. Pelo Grêmio, foi campeão estadual em 1964, 1965 e 1967.

 

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