Tite
9. Estudabilidade
ESTUDABILIDADE
O Bayer Leverkusen e o 4-1-4-1
A disciplina que mais preocupa Tite é a de dentro do campo. Do posicionamento correto, da marcação bem-feita, da concentração nos mínimos detalhes. A compactação, a linha de quatro, transições e infiltrações rápidas e a triangulação.
A consciência tática que permite a superioridade numérica na hora do ataque e que impede a chegada do adversário na defesa. O equilíbrio entre os dois setores e a intensidade das movimentações. Um time que valoriza a posse de bola, que propõe jogo em vez de apenas reagir e que, acima de tudo, esteja convencido do que está fazendo, sabendo o motivo de cada passo dado, de cada escolha feita.
São palavras e frases que, jogadas ao vento, podem parecer quase um enigma, mas que fazem todo o sentido no dia a dia dos treinamentos e na busca excessiva por um padrão de jogo. Todas essas características e preocupações foram atualizadas em 2014, quando Tite tomou a corajosa decisão de ficar fora do mercado de trabalho.
O fim da linha no Corinthians colocou uma série de situações na cabeça do treinador. Por isso, ele resolveu tirar um período sabático. Aproveitou o tempo livre para viajar, esfriar a cabeça do ano turbulento que teve em 2013 no Parque São Jorge, se modernizar e tentar descobrir o segredo dos maiores times do mundo – e, de quebra, ficar com a família, curtir os filhos e a esposa, compensando o que perdeu. Cumpriu à risca cada um dos seus objetivos.
Passou um mês no Canadá com a filha e a esposa, assistiu aos 64 jogos da Copa do Mundo (três deles nos estádios e o restante pela TV), fez anotações detalhadas dissecando as 32 seleções do torneio, encontrou técnicos, conheceu a estrutura de equipes da Europa e voltou ansioso para colocar em prática tudo o que tinha aprendido.
* * *
Um temporal, no início de janeiro, tratou de apresentar a primeira frustração de 2015 – não ia conseguir dar o treino da sua reestreia ao Corinthians. Já tinham sido dois dias de testes físicos, a ansiedade para ir a campo era enorme, percebida por todo elenco nas ações e reações do treinador, que acabava de voltar do ano sabático.
Tite pegou a capa de chuva, chegou perto do gramado. Andava de um lado para o outro, ao lado de Alemão, o jardineiro do CT, tentando ver se havia milagre para escorrer a água.
– Todo mundo percebia que ele estava querendo demais fazer o primeiro treino logo. A gente via que estava muito ansioso para voltar a comandar – lembra-se Elias.
Sem solução, o treino aconteceu na quadra do ginásio. Ele já tinha, àquela altura, tido algumas conversas individuais. Elias, o uruguaio Nicolás Lodeiro e Renato Augusto eram alguns dos que tinham sido chamados em particular. Apresentou a eles os objetivos que tinha para o ano e o seu novo grande amor: o 4-1-4-1, esquema tático em que se aprofundou durante os meses que ficou fora.
– Eu falei que poderia jogar saindo para o jogo ou me posicionar mais pelo lado direito. Se precisasse, eu poderia jogar na esquerda também. Mas disse que pela direita eu tinha mais capacidade de infiltrar, de fazer a cobertura. Ele falou: “Não tem problema, você vai jogar pela direita”. Mostrou o 4-1-4-1 e explicou onde eu ia ficar – conta Elias.
Na época talvez não tenha ficado claro, mas a pré-temporada nos Estados Unidos teve uma importância indescritível para o restante do ano corintiano e o hexacampeonato. Em especial o segundo jogo, contra o Bayer Leverkusen. A vitória por 2 X 1 em cima da equipe alemã, que despontava nas primeiras colocações da Bundesliga, nome do campeonato nacional da Alemanha, foi decisiva para a instauração do novo esquema.
Mas os planos de Tite logo tiveram que ser adaptados. O meia uruguaio Nicolás Lodeiro, que seria peça fundamental no esquema tático, acabou negociado para o Boca Juniors e nem chegou a estrear no Campeonato Paulista de 2015.
Com a formação definida, Elias ganhou mais liberdade para subir ao ataque, e Jadson, o armador que substituiu Lodeiro, passou a ficar mais aberto pela direita, flutuando pelo meio, uma das grandes sacadas do novo modelo. Jadson ganhou também uma responsabilidade tática maior na marcação, assim como Renato Augusto. Não poderia ter dado mais certo.
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As lições de Didier Deschamps
Foi a França de Didier Deschamps que fez os olhos de Tite brilharem, em uma partida em especial. Jogando contra a Ucrânia ainda na fase de repescagem da Copa do Mundo, no Stade de France, a equipe de Pogba, Cabaye, Matuidi, Benzema e Valbuena conseguiu reverter a derrota do primeiro jogo, por 2 X 0, e vencer a disputa por 3 X 0 em uma apresentação que beirou a perfeição.
A partir daí Tite fez um estudo minucioso, depurando atenciosamente a posição de cada um dos 11 jogadores durante o duelo e sempre que o esquema era utilizado.
Ele teve a ajuda de Mauricio Dulac, analista de desempenho que era do Internacional e que foi para a Seleção Brasileira, e do fiel escudeiro Cleber Xavier para conseguir aprofundar a análise dos movimentos e das funções de cada um dos atletas. A Alemanha, que jogava de forma parecida, alternando entre o 4-3-3 e o 4-1-4-1, também impressionou Tite.
– A gente formou praticamente um grupo de estudo, assistindo a todos os jogos, fazendo anotações de tudo. No final, eu fiz um compacto em uma apresentação, com tudo que tínhamos visto desse sistema. Separei o que os volantes faziam, os laterais... Ficou bem detalhado para cada posição – conta Dulac. – O 4-1-4-1 em si não era a novidade. A novidade estava na esquematização do sistema. É o Jadson saindo aberto na direita e infiltrando-se no meio depois – completa.
Os dois países se enfrentaram nas quartas de final da Copa do Mundo, momento mágico para o professor, obcecado pela formação das suas seleções.
Deschamps e Joachim Low, técnico da Alemanha, formaram suas equipes exatamente do mesmo jeito naquela tarde de sexta-feira, 4 de julho, no Maracanã. Hummels marcou de cabeça, aos 12 minutos do primeiro tempo, e permitiu que seu país chegasse às semifinais do Mundial, para fazer a história das histórias: 7 X 1 contra o Brasil.
OceanofPDF.com Renato Augusto, a chave do sucesso do hexa
Logo após a vitória contra os alemães do Bayer Leverkusen, Tite não pensou duas vezes. Correu para requisitar ao Cifut, o centro de inteligência do Corinthians comandado pelo filho do ex-lateral Zé Maria, ídolo dos anos 1970 e 1980, Fernando Lázaro, mais e mais exemplos do esquema tático que estava em fase de instauração. O espanhol Valência e o português Porto também eram adeptos do 4-1-4-1, ajudando o técnico a reconhecer cada vez mais as suas principais características.
Tite destaca as situações mais relevantes do sistema eleito para 2015, plenamente reconhecíveis quando se assistia a um jogo do time alvinegro com atenção.
No momento em que se prepara para a defesa, os jogadores ficam atrás da linha da bola, com uma distância máxima de pouco mais de vinte metros entre o primeiro e o último, na maior parte do tempo.
Formam duas linhas de quatro, uma bem próxima da outra, com Ralf entre elas e Vagner Love centralizado à frente, em alguns momentos mais baixo, ajudando e dando cobertura, outras horas mais na frente, preparado para o contra-ataque.
Tite conseguiu corrigir algumas características de Jadson ao longo da temporada, transformando o meia não só em recordista de assistências do Campeonato Brasileiro, com 12 passes para gols corintianos, mas em um marcador fundamental, que voltava para compor e ajudar na linha de quatro formada pelos defensores.
– A chave do sucesso foi ter convencido Renato Augusto a fazer a função que lhe cabia ali no esquema. É uma função desgastante, que o fazia sempre jogar no limite. Mas foi o que deu certo – opina Mauricio Dulac.
A mudança tática implantada por Tite foi diretamente responsável para que Renato Augusto fosse eleito o craque do Brasileirão de 2015.
Jogando no esquema antigo, o 4-2-3-1, Renato tinha uma zona menor de atuação, que não lhe exigia tanto quanto no novo sistema, no qual ele tinha de se apresentar desde o campo defensivo para avançar.
Quando tinha a bola nos pés, a equipe trocava passes priorizando as triangulações.
Do lado direito, o triângulo na maioria das vezes era formado por Fagner (Edilson), Elias (Rodriguinho) e Jadson. Do esquerdo, por Uendel (Guilherme Arana), Renato Augusto e Malcom. Na linha de defesa, por Gil, Felipe e Ralf. Qualquer um que entre em campo herda uma dessas funções, mantendo toda a estratégia tática.
Com o 4-1-4-1 de Tite, a formação das figuras geométricas aconteciam mais facilmente, aumentando o tempo de bola nos pés, agilizando a transição para o ataque e garantindo, assim, a superioridade numérica tão procurada pelo gaúcho de Caxias do Sul.
Os triângulos nada mais são do que a aproximação de jogadores do setor, oferecendo linhas de passe, opções.
Os resultados são concretos. Um dos exemplos aconteceu no jogo do Palmeiras, no Allianz Parque, em setembro de 2015 – o placar terminou mostrando 3 X 3. Guilherme Arana recebeu a bola logo depois do meio de campo e, na troca de passes rápidos com Malcom e Renato Augusto, saiu em velocidade para receber e bateu forte no lado direito de Fernando Prass.
Quando o ataque não dá certo, tem o “perde-pressiona”, fórmula que funciona muito bem para evitar contra-ataques rápidos dos outros times, dificultando a troca de passes com marcação em cima, especialmente por parte de quem perdeu a bola, mas que também serve para surpreender e voltar a ter bola.
O perde-pressiona misturado com outro conceito-chave de Tite, o “ataca-marcando”, já rendeu frutos importantíssimos. Este significa ter aqueles que não estão participando da jogada de ataque posicionados de maneira preparada para defender imediatamente.
Foi o caso do jogo contra o Atlético Mineiro, em novembro de 2015, no Independência, em que Felipe desarmou no meio de campo e arrancou como um ponta-direita. A bola caiu nos pés de Jadson, que tocou para Malcom abrir o placar da vitória por 3 X 0, que praticamente sacramentou o hexa.
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Os truques de Arsène Wenger
Outra novidade do hexacampeonato veio direto de Londres. Em fevereiro de 2014, Tite visitou o Arsenal, acompanhado de seu filho, e teve a chance de ver de perto como se estrutura o departamento de futebol que municia Arsène Wenger, técnico do clube desde 1996.
Tite foi recebido na capital inglesa por Dick Law, o homem forte do tempo da Hicks Muse, parceira corintiana em anos já passados, hoje diretor do time inglês. Foi Law que lhe apresentou todos os detalhes da estrutura interna.
O que mais impressionou o treinador gaúcho foi a forma como a comissão de Wenger utilizava vídeos e imagens de suas próprias partidas com os jogadores.
O uso dos filmes já tinha sido adotado no Parque São Jorge, mas focado para apresentar ao elenco as principais características dos adversários. Mas viu no modelo do Arsenal uma forma ainda melhor de corrigir erros e reforçar acertos.
Era uma ideia já cogitada por Lázaro, do Cifut, que tinha visto a mesma coisa sendo utilizada no Chelsea, em 2012; personalizar o envio de lances para cada um dos atletas, mostrando especialmente as jogadas feitas por ele durante as partidas.
E ainda tinha o pulo do gato. Com o material pronto, os auxiliares e às vezes o próprio comandante conversavam individualmente com os atletas, discutindo as situações mais importantes.
Tite viu ali que o negócio funcionava na prática e ficou entusiasmado. Assim que chegou ao clube, quis fazer isso se tornar realidade no Corinthians.
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O pen drive do Fábio Santos
Havia uma época, não tão distante assim, que as imagens editadas pelo Cifut eram entregues para os jogadores em um pen drive. Esse tempo ficou pra trás, desde que o aplicativo WhatsApp se tornou o principal meio de comunicação entre boa parte dos brasileiros e da classe boleira.
Mas quando o dispositivo portátil ainda fazia sucesso, Fábio Santos tentou uma vez jogar a culpa dos dribles que tomava em Cleber Xavier.
Era o penúltimo jogo do Brasileiro de 2011, duelo decisivo para a busca do pentacampeonato, em partida contra o Figueirense. O auxiliar havia deixado com o lateral, em trabalho conjunto com o Cifut, os lances dos atletas que iam jogar do seu lado do campo, o esquerdo.
Fábio Santos jura que assistiu atenciosamente a cada minuto do material que lhe foi dado. Wellington Nem, atacante da equipe catarinense, cortava todas as bolas para a esquerda, na tentativa de chegar ao gol adversário. Não tinha segredo, então.
A bola começou a rolar no Orlando Scarpelli, em Florianópolis. Wellington Nem pegou a primeira, foi para cima do Fábio Santos, cortou para a direita e passou. Pegou a segunda, fez a mesma coisa. E a terceira. O lateral já ouvia as reclamações de Tite, que estava do mesmo lado do campo, na beirada, gritando o jogo todo, como está acostumado a fazer.
– Fábio, o cara tá te passando em todas. Porra, cara. Não dá assim. Vai dentro dele. É jogo decisivo isso daqui – disse Tite no intervalo, aumentando o tom de voz.
– Pode reclamar com o Clebinho, então. No pen drive o cara só cortava para a esquerda – brincou o lateral, provocando risadas no vestiário, inclusive do treinador e do auxiliar.
– Foi um dos grandes atletas que eu tive o prazer de trabalhar em todos os sentidos – diz Cleber Xavier.
Liedson marcou o único gol do jogo e deixou o Corinthians ainda mais perto do título. O Vasco, que jogava contra o Fluminense, no Engenhão, marcou no finalzinho do segundo tempo, com Bernardo, permanecendo a dois pontos dos paulistas. Esse resultado levou a decisão da taça para a última rodada e deixou Tite em claro por duas noites.
– Foi horrível. Cheguei em casa e assisti ao tape inteirinho do Vasco e Fluminense. E eu dizia: “Vai tomar no cu, Abel [técnico do Fluminense], como você fez isso?”. Eu não lembro exatamente qual tinha sido a substituição que ele fez, mas eu ficava xingando. A gente estava conquistando o título. Imagina se a gente perde o título contra o Palmeiras? Eu não dormi de domingo para segunda, nem de segunda para terça. Duas noites em claro, inteirinhas. O Abel é um cara de quem eu gosto muito e ele precisava ganhar, claro. Era só a raiva do momento. Eu xingava muito ele. Eu tenho nele um cara ético, de caráter, gosto muito do Abel Braga – lembra Tite.
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Elias aprendeu a brigar
Já na era do WhatsApp, pós-Arsenal, a nova estratégia funcionou direitinho com Elias. O método Tite de fixar uma mensagem na cabeça de um jogador se resumia, então, em três etapas: reuniões tête-à-tête com o atleta, cobrança do pedido durante os treinamentos e conversas apoiadas por vídeos com os auxiliares e em grupo. Aos mais dedicados, é infalível.
O meio-campista corintiano tinha como sua maior fraqueza a de não brigar por bolas altas de cabeça.
– Eu odiava cabecear – diz Elias.
Dos olhos de lince de Tite, nada escapa. Notou a falha e passou a cobrá-lo insistentemente. Os lances em que não subia para disputar com os adversários eram sempre destacados nos vídeos de pós-jogo que recebiam no celular e também eram levados ao grupo, com o objetivo de torná-los exemplo do que não poderia acontecer.
No dia 18 de julho, aos 41 minutos do primeiro tempo do duelo contra o Atlético Mineiro, no primeiro turno do Brasileiro, a bola bateu e rebateu de um lado para o outro, subiu demais e Douglas Santos pulou para brigar pela posse no campo de defesa dos paulistas. Mas não foi sozinho. Elias saltou junto e ganhou a disputa, viu Vagner Love do lado esquerdo e logo lançou. O atacante arrancou até a entrada da área e tocou para Malcom.
Gol do Corinthians, três pontos na tabela, 29 no total, o mesmo número dos mineiros, que eram os líderes naquele momento. Ali começava a arrancada rumo ao hexa.
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O conselho do mr. Libertadores
Depois de passar por Londres, em fevereiro, Tite foi assistir à partida final da Copa Libertadores 2014, em agosto, na Argentina – o jogo foi realizado entre o argentino San Lorenzo e o Nacional, do Paraguai.
O San Lorenzo superou a zebra paraguaia e sagrou-se campeão do principal torneio da América do Sul pela primeira vez, após empatar o jogo de ida na casa do adversário por 1 X 1 e vencer em seus domínios por 1 X 0.
Tite aproveitou a oportunidade para visitar a sede do Boca Juniors, rival na conquista do título de 2012, e almoçar com Carlos Bianchi, o mr. Libertadores, apelido que ganhou depois de vencer o torneio quatro vezes, no comando do Boca (três vezes) e do também argentino Vélez Sarsfield (uma vez).
Com ele, reforçou um conceito que já carregava, o de buscar o equilíbrio. Tite não esconde: aproveitou o período sabático para procurar alternativas ofensivas, pois se sentia carente nesse sentido – até por isso, muitas vezes, foi chamado de retranqueiro, ganhando o apelido de Empatite, o que sempre lhe incomodou.
Sempre diz que no Rio Grande do Sul, no início da carreira, era criticado por ser “faceiro”: “Esse aí é faceirinho, não vai longe”, falavam os comentaristas gaúchos.
De repente, na sua interpretação, “virou retranqueiro”. Nunca entendeu. Concordando ou não, reconheceu que precisava se aperfeiçoar para ter um ataque mais surpreendente.
Prometeu logo no dia da apresentação que o torcedor veria um trabalho diversificado, mas sem perder a ideia de equilíbrio, bem destacada por Bianchi.
– Bianchi me disse que nosso grande desafio é o equilíbrio, porque nossa atividade é extremamente exposta. Eu pensei: “Pô, se um cara com todo esse lastro coloca isso, não posso ficar me cobrando” – respondeu à imprensa, em dezembro de 2014.
Completou ele:
– Eu queria ter uma gama maior de trabalhos ofensivos para passar para os atletas, ser chato, exigente. Mas com essa ideia de futebol equilibrado, não consigo conceber só agressividade, assim como não consigo só marcação. Vamos ter uma variação maior de trabalhos ofensivos.
O Corinthians terminou a campanha do hexa com o melhor ataque e a melhor defesa do campeonato: 71 gols, distribuídos democraticamente entre 18 jogadores – apenas Fagner, entre os chamados “titulares”, não marcou. A defesa levou apenas 31 tentos, rendendo o saldo positivo impressionante de quarenta gols.
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O que Ancelotti falou sobre Tite
A última parada significativa do gaúcho foi em Madri, na Espanha, em encontro inesquecível com Carlo Ancelotti, em outubro do ano sabático. Tudo o que tinha visto no Arsenal inglês encontrou em doses multiplicadas no Real Madrid. O treinador italiano era quem dirigia o clube naquele momento – ficou entre 2013 e 2015, levando-o à conquista da Champions League e do Mundial de 2014.
– Aprendi com ele a ser mais direto, a ser mais preciso e conciso na informação. Vi também coisas voltadas para o campo e como ter a lealdade com o grupo – conta Tite.
Era para haver uma conversa ou duas, mas aquele encontro praticamente se transformou em uma clínica de especialização. O uso dos vídeos, as conversas individuais, o alto nível de concentração e exigência. Passou sete dias na capital espanhola, quatro deles acompanhando as atividades na Ciudad Deportiva, centro de treinamento dos madrilenhos, com direito a um almoço e a um jantar com o italiano, e a assistir a dois jogos do Real. Como jogador, Carlo Ancelotti atuou ao lado dos brasileiros Falcão e Cerezzo. Como treinador, ele dirigiu Cafu, Dida, Kaká, Pato, Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo, Emerson, Roque Júnior, Amoroso e Rivaldo.
– Tite passou uma semana comigo em Madri, em 2014. Ele veio acompanhar um curso e as minhas sessões de treinamento no Real Madrid. Tivemos oportunidade também de almoçar juntos. Tite provou da verdadeira comida espanhola. Ele é uma pessoa muito humilde e tem um conhecimento incrível sobre futebol e táticas em especial – afirmou o treinador italiano em conversa inédita e exclusiva para este livro.
Espelhou-se também em Ancelotti para quebrar um paradigma: acabou com o tradicional rachão que fazia aos sábados, com times misturados, 100% voltado para a descontração e 0% para o jogo do dia seguinte. Passou a propagar o conceito de que a partida é um espelho do que acontece nos treinamentos. Imitou, então, o italiano e os dez primeiros minutos das atividades começaram com bobinho entre os jogadores, momento de risadas, brincadeiras e palhaçadas.Terminado isso, é “pau dentro”, como gosta de falar o brasileiro. Foco total e concentração máxima em cada lance.
A preocupação em se especializar taticamente cada dia mais faz Tite deixar de lado algo que poderia ser muito importante para uma carreira fora do Brasil. Ele não fala nada, nada de inglês e desistiu de estudar, embora não tenha sido por falta de ajuda dos filhos. Além deles, quando necessário, contou com os “trabalhos” de tradução de seus preparadores e auxiliares, como Ricardo Rosa e Geraldo Delamore.
– Tentei colocar meu pai no inglês. Uma época que estava fazendo o curso ainda em Porto Alegre, tinha uma professora que eu gostava bastante. Por ver como ela era, principalmente pelo humor, achei que esta professora ia se dar bem. Não tem jeito, meu pai e a minha mãe são dois índios falando inglês, não tem jeito – conta Matheus.
Tite consegue ler em espanhol, mas também não se comunica muito bem nesse idioma. O italiano é sua língua predileta e a única, além do português, em que consegue conversar.
– Gostaria de ter feito inglês. É um arrependimento. Passei muita vergonha na frente dos meus filhos nos Emirados Árabes. Eu não vou conseguir mais a fluência, vai tomar muito meu tempo e eu quero me aperfeiçoar na parte tática. E aprender o italiano fluente. Não tenho ambição de treinar na Inglaterra. Eu compreendo italiano, vou melhorar – argumenta ele.
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