Tite
8. Disciplinabilidade
DISCIPLINABILIDADE
O selinho de Sheik
Entre um conselho e uma cobrança, Tite gosta de deixar claro aos jogadores o que lhe incomoda. “Não traga prejuízo ao trabalho” é a frase que define o que espera do grupo. Não é algo que se relaciona apenas aos problemas disciplinares citados ao longo deste livro – atraso, farra, boemia e bebida –, mas a tudo, pedindo sempre para que evitem qualquer tipo de polêmica.
No momento mais difícil que teve no Corinthians até hoje, no segundo semestre de 2013, com os bastidores do clube fervendo, o treinador achou que teria uma noite de alívio em 18 de agosto. O time tinha vencido o Coritiba, no Pacaembu, com um pênalti controverso, mas que tinha garantido a volta para o G4, zona da Libertadores.
Por volta da meia-noite, porém, Emerson Sheik mandou a tranquilidade para o espaço.
“Tem que ser muito valente para celebrar a amizade sem medo do que os preconceituosos vão dizer. Tem que ser muito livre para comemorar uma vitória assim, de cara limpa, com um amigo que te apoia sempre. Hoje é um dia especial. Vencemos, estamos mais perto dos líderes. É dia de comemorar no melhor restaurante de São Paulo, o Paris 6, com o melhor amigo do mundo, Izaac. Ah, já ia me esquecer, para você que pensou em fazer piadinha boba com a foto, dá uma pesquisada no meu Instagram todo antes, só para não ter dúvida”, escreveu o atacante na legenda da foto em que aparecia dando um selinho em seu amigo Izaac Azar, um dos donos do bistrô Paris 6, nos Jardins, bairro nobre de São Paulo.
Tinha que ser muito valente mesmo para postar aquela foto. O machismo e a homofobia prevalecem no futebol, que por vezes é tratado como terra de ninguém, onde tudo é permitido, embora isso também seja reflexo da sociedade. A valentia de Sheik, no entanto, não entusiasmou o treinador, que sempre o admirou por ser, palavras dele próprio, “corajoso”.
No dia seguinte, os dois tiveram uma conversa, lembrada com detalhes por Tite.
– Emerson, mas que merda, cara.
– Professor, não teve nada...
– Não tô falando disso, cara. Eu sei que não teve nada. Tu tá trazendo coisa, dando motivo. A gente tá nesse momento de instabilidade, a equipe não tá fazendo gol. Não tá produzindo legal. Tem um desequilíbrio que a gente tá tentando desmontar e tu vai criar problema fora, para trazer mais problema aqui para dentro?
– O cara é meu amigo, tem família...
– Cara, não traz problemas para cá. O ambiente aqui é assim. Todo mundo sabe quem é você, não é isso. Tu sabe como são as coisas. Tudo ecoa, para cima ou para baixo. Tu já tem essa experiência, para que fazer isso?
Tite se recorda da reação da torcida, logo depois da polêmica: “Beijinho não, porra, beijo aqui não”. A repercussão foi bastante negativa, especialmente entre as torcidas organizadas.
– Ele entendeu e pediu desculpas no final – conta Tite.
Sheik se lembra bem da conversa que teve com o professor e diz que o momento da postagem da foto não foi o melhor:
– Foi uma situação que aconteceu num momento que talvez não devesse ter acontecido, por estar num clube, ter uma torcida. Mas foi um cara que me abraçou, não fez crítica. Ele falou: “Nada contra, você me conhece, mas por estar num clube como o Corinthians, até pelas brincadeiras que têm com os são-paulinos, era melhor ter evitado”. Eu entendi também. É obvio que qualquer cidadão do bem, normal, em sã consciência, entende que o preconceito é um negócio absurdo e nojento. Não preciso e nunca precisei provar nada sobre a minha opção sexual. Eu conversei com as organizadas e deu tudo certo, nos entendemos muito bem. Alguns torcedores ficaram chateados, depois entenderam e esqueceram. Recebi várias mensagens me pedindo desculpas depois. Crio meus filhos dessa maneira, não julgo ninguém. Não tenho esse direito. Virou uma puta brincadeira dentro do clube. Os jogadores, a comissão... Virou piada. A intenção foi o contrário do que foi dito. Era alertar para esse tipo de preconceito.
Na reunião, os torcedores cobraram Sheik por ter dado munição, na opinião deles, para que os são-paulinos se vingassem por serem chamados de “bambis” pelos corintianos.
Estavam cobrando ali o herói da única Libertadores conquistada até então. Que corintiano se esqueceria, com selinho ou sem, daquele 4 de julho, no Pacaembu? Depois de um empate suado na Bombonera, por 1 X 1, o time alvinegro buscava naquela noite o título mais importante da história do clube.
Foi apenas aos oito minutos do segundo tempo que a Fiel conseguiu soltar toda a ansiedade e angústia que guardava dentro do peito: Alex cobrou falta do lado direito, Jorge Henrique desviou de cabeça, Danilo deu um toque mágico quase de calcanhar e Sheik teve a frieza de dominar e chutar forte para balançar a rede. Um golaço para encher o coração de alegria de um bando de loucos.
Aos 26 minutos veio o segundo lance decisivo. De novo, ele, Sheik, roubou uma bola no meio de campo, ganhou na velocidade, entrou na área e bateu de novo com a direita, com tranquilidade, para delírio completo e incontrolável das arquibancadas do Pacaembu, que tinham mais de 40 mil torcedores, e na frente de milhares de televisores no Brasil e mundo afora. A Rede Globo, a única a transmitir a partida aos brasileiros, bateu recordes e teve 46 pontos de audiência, o que equivale a 71% de todas as TVs que estavam ligadas.
O atacante ainda foi substituído antes de o jogo acabar, para nunca se esquecer dos aplausos que receberia naquela noite tão especial – foi o responsável por cinco dos 22 gols de toda a campanha invicta alvinegra. Foi o primeiro a abraçar o treinador quando o árbitro Wilmar Roldan, da Colômbia, apitou o fim. Era, além de tudo, o ponto-final das piadas dos rivais.
Tite afirma, aliás, que sua reprimenda não teve cunho homofóbico e que já trabalhou com gays.
O carinho entre Tite e Sheik era tão grande que a despedida do atacante não poderia ter sido diferente. Com o vínculo perto de acabar, Emerson Sheik não chegou a um acordo com a diretoria para permanecer. Logo depois da desclassificação na Libertadores, contra o paraguaio Guaraní, em maio, a cúpula alvinegra tomou a decisão e comunicou o jogador de que não renovaria seu contrato.
Era uma terça-feira, na semana seguinte à eliminação do torneio sul-americano, e o treinador chamou Sheik em sua sala, no CT. Os dois passaram uma hora conversando com a porta fechada e choravam como crianças.
– Eu já estava pensando no meu futuro. O Tite me dando conselhos. E a gente esqueceu que era treinador e atleta ali, e falamos muitas coisas um para o outro. De carinho, amor, respeito. Eu não sei se ele vai ficar bravo, mas vou contar: o Tite chorava muito de um lado e eu chorava muito do outro. Eu falava que amava muito ele, que agradecia muito por tudo que tinha feito por mim, como professor, técnico, como homem – lembra o atleta, que se transferiu para o Flamengo.
Entre outras coisas, Sheik agradeceu pelos conselhos que recebeu nos quatro anos que defendeu a camisa do Corinthians.
– Agradeci muito pela maneira que tentava corrigir meus erros, sem nem ser membro da minha família. Foi um dia único. Eu vi o quanto ele gostava de mim. Percebi que era um carinho diferente. Sentimento diferente. E o que ficou marcado foi a maneira que eu chorava. Eu soluçava de um lado, o Tite do outro. Muito natural e espontâneo. Foi o momento mais emocionante com certeza. A minha despedida foi foda – termina.
OceanofPDF.com
Pegadinha do Mallandro
Dos casos mais simples aos mais complexos, Tite sempre preferiu dividir a responsabilidade no tratamento de problemas disciplinares com mais pessoas: seus auxiliares e os próprios atletas. Cleber Xavier, seu número dois, sempre foi fundamental nesse papel. Foi importantíssimo para lidar com uma série de questões que, por vezes, nem chegaram ao conhecimento do técnico.
Não foram poucas as vezes que Tite reuniu os mais chegados de Emerson Sheik, como também havia feito com Jorge Henrique, em conversas separadas para reforçar mensagens ao atacante. Os atrasos eram frequentes, algo que deixava extremamente irritado tanto o técnico como a direção e os companheiros do grupo. Na reta final da Libertadores, a preocupação com o camisa 11 era gigante.
– Tu pode chegar aqui de helicóptero, de navio, de avião, de trem, do que tu quiser, só esteja aqui na hora certa. Eu não vou dar prerrogativa a ti diferente dos outros. Tu é um exemplo aqui dentro. Tu tem que mostrar para os garotos a mesma coisa – avisou Tite a Sheik.
Em janeiro daquele ano de 2012, Sheik chegou a um treino de helicóptero, o que não lhe salvou do atraso de trinta minutos para a atividade. Acabou sendo multado.
– Ele reprovou o meu atraso, claro. Mas me elogiou por ter buscado um meio de transporte alternativo para pelo menos chegar ao treino – lembra Emerson Sheik.
Por ser um dos momentos mais importantes da história do clube, o comandante fez questão de pedir aos amigos que também falassem com o atacante, para impedir atrasos. Era uma segunda-feira de maio, na semana das quartas de final contra o Vasco. Como o time titular não jogava o Campeonato Brasileiro, treinava no domingo de manhã e ficava liberado até a tarde de segunda-feira.
O treino estava marcado para as 16 horas. Como manda o manual, o elenco chega pelo menos meia hora antes, tempo suficiente para todos se trocarem e irem para o campo.
O relógio marcava 15:40 horas e nada de Sheik.
Tocou o telefone de Fábio Santos.
– Binho, fodeu. Estou no Rio ainda. O voo ainda nem saiu daqui, tá tudo atrasado. Pelo amor de Deus, fala aí com teu pai, com o Edu Gaspar... Amansa os caras aí, por favor. Não sei se chego a tempo de pegar o treino – falou o atacante, do outro lado da linha.
O pai a que se refere Emerson na conversa é Tite. Ganharam os dois esse apelido, de pai e filho, pela relação próxima e cuidadosa que criaram um com o outro.
– Vai tomar no cu, puta que pariu – esbravejava Edu Gaspar em sua sala, assim que foi avisado pelo lateral.
Às 16 horas, Edu e Fábio Santos foram até o treinador, que ainda estava em sua sala.
– Quem está vai para o treino. Ou está comprometido ou não está – sentenciou ele, irritado.
Quando estavam a caminho do campo, perto das 16:15 horas, Tite começou a falar com o grupo, mas foi interrompido.
– Ié, ié, pegadinha do Mallandro! – Emerson juntou-se a eles, imitando os gestos de Sérgio Mallandro, humorista e apresentador de TV.
Tite abriu um sorriso sincero, de orelha a orelha. Um alívio. Xingou um pouco o atacante e deu início, finalmente, ao treino.
– Foi o único atraso na história do futebol que o treinador ficou feliz. Ele me olhou e ficou muito feliz de ter me visto, um sorriso muito grande – lembra Sheik.
OceanofPDF.com
Desculpa pelo atraso
Depois da conquista da Libertadores, Emerson ficou quase um mês fora, tratando de uma lesão no tornozelo. Foi liberado no fim de agosto, na semana do jogo contra o São Paulo pelo Campeonato Brasileiro de 2012, no Pacaembu. Tanto tempo longe e na volta ele se atrasou para o treino do sábado, na véspera.
– Cara, assim tu me quebra. Eu te defendo tudo que eu posso aqui dentro, tento tratar todo mundo da mesma forma. Tu tá chegando atrasado de novo? Cara, assim tu me fode. Tu tá me prejudicando, que te defendo e só escuto e escuto – desabafou Tite, em mais uma conversa individual.
– Eu tô errado, professor. Tô errado – respondeu.
Decidiu começar com ele, mesmo assim, no time titular. No sexto minuto de jogo, Paulinho desarmou a saída de bola do São Paulo, achou Sheik entrando na área, que marcou o primeiro gol do clássico. O jogo terminou com derrota corintiana, por 2 X 1.
O camisa 11 comemorou com seus colegas e correu na direção de Tite.
– Professor, desculpa pelo atraso – falou no ouvido do técnico, dando-lhe um abraço.
– Vai te foder, Emerson. Tu é um filho da puta! – retrucou o professor, devolvendo o abraço, sorridente.
Lembra Tite:
– O desgraçado faz o gol e vem me abraçar. Ele é uma figura. Sempre me respeitou. É extremamente corajoso. Tem um monte de defeitos, um monte de problemas disciplinares, mas fala pela frente e é corajoso. No futebol e na vida, você tem que ter coragem.
OceanofPDF.com
Um bate-boca com Adriano
Para qualquer que fosse o problema disciplinar, Tite pedia sempre a mesma coisa: a verdade. Os jogadores conheciam suas regras e sabiam que, se fosse para extrapolar, o dia certo era a quinta-feira. Até por isso, nas sextas os treinos eram mais leves.
– Sexta e sábado são dias de preparação para o jogo. Eu dizia pra eles: “Se vocês souberem de alguém que saiu nesses dias, são pessoas desleais. Conversem entre vocês sobre isso”. Ninguém está lá de brincadeira.
Depois de uma pausa, continuou:
– Não era faz de conta. E eu era muito claro: “Se algum dia vocês chegarem aqui mamados, fala com a gente. Uma vez ou outra, é o tipo de coisa que acontece. A gente deixa separado para fazer um treinamento depois” – conta Tite. – “Fala para mim: ‘Enfiei o pé na jaca. Estou puto porque queria jogar e por isso atrasei’. Qualquer coisa que seja.” Não importa, mas tem que ser leal. É uma regra geral que vale para todos.
Nem todos seguiam o ritmo que o professor gostaria.
Em uma época, Ralf deu muito trabalho nos treinos de sábado. O comandante conversava frequentemente com os mais chegados do volante para que dessem apoio para chamar a sua atenção.
– A questão do Ralf é que ele corria até mais quando chegava meio alto – constata um jogador do grupo, que pediu para não ser identificado.
Adriano, quando descoberto, era mais franco.
– Ele era muito franco. Acho que só tive tanta paciência com ele porque era autêntico. Falava tudo na frente. Chegava e dizia: “Não tenho condição hoje, não vai dar”. O extracampo dele era realmente muito complicado – lembra Tite.
Aliás, Tite cansou de pedir ajuda para tentar recuperar o Imperador, a maior decepção de sua carreira. Não teve fisioterapeuta Bruno Mazziotti que salvasse. Depois de um ano trabalhando com o atacante, desistiram.
Pouco antes de mandá-lo embora, em fevereiro, Tite acordou com a comissão técnica e a diretoria de arriscar uma experiência inédita, a última tacada para salvar Adriano. A ideia era que ele passasse seis dias no CT, concentrado, com dieta específica, trabalhos de musculação e controle de horários para dormir e acordar.
Não adiantava, mesmo. Enquanto o noticiário falava da drástica decisão do time alvinegro, o atleta conseguiu escapar do CT.
– Ele passou quase sete dias internado, na concentração, e teve problema de novo – diz Tite.
O treinador lembra que assim que ficou sabendo, convocou uma reunião com os jogadores, mas não deixou que os novos contratados participassem – nem o Imperador.
– Eu disse: “Não aguento mais. Tudo que eu podia fazer para ajudar o Adriano, já fiz. Agora, vocês, como amigos, colegas, companheiros, vão ter que ajudar. Quem quer se comprometer enquanto equipe, pega o Adriano, por favor. Ele chegou no limite comigo. Não dá mais. Vocês têm de ajudar” – Tite resgata suas próprias lembranças. – Era o último choque que eu poderia dar. Todos os outros eu já tinha dado, sendo amigo, sendo conselheiro, sendo técnico... – comenta.
No segundo semestre de 2011, quando o técnico ainda tinha fé na salvação, chegou a ter um momento de afronta, muito perto de um contato físico.
– Nós nos afrontamos. Havia outras pessoas por perto. O Edu Gaspar estava. Eu disse: “É só eu e ele aqui, e ninguém se mete”. E eu aumentei o tom de voz e falava: “Tu tá errado, tu faz isso, tu faz aquilo”. Ele respondia, aumentando o tom de voz também, um perto do outro.
Tentava falar mais alto para fazer Tite recuar.
– Ele queria me convencer de que eu estava errado. Dizia que tava se dedicando, que tava na luta. Que não foi no treino porque não deu, que não sei lá o quê... Que era humano. Mas ele não tava tentando – termina Tite.
O Corinthians rescindiu o contrato em março de 2012, depois de 67 atrasos, contando treinos e sessões de fisioterapia.
No total, Adriano Imperador marcou dois gols e participou de oito partidas (quatro pelo Brasileiro, um amistoso e três pelo Paulista), sendo apenas uma completa, contra o Botafogo de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo.
Esteve em campo por apenas 350 minutos, que somados não chegam a quatro partidas inteiras. Especula-se que na sua passagem pelo Corinthians, Adriano recebeu 4,2 milhões de reais, ou seja, 12 mil reais por minuto jogado. Já cada gol saiu pela bagatela de 2,1 milhões de reais. Detalhe: posteriormente o jogador entrou com uma ação contra o Corinthians na Justiça para receber cerca de 50 milhões de reais pela quebra do contrato. As partes entraram em acordo. Especula-se que o clube teria pago cerca de 1 milhão de reais para Adriano, valor não computado nas contas.
Apesar dos números fracos, pelo menos dentro de campo, o atacante conseguiu deixar a sua marca e brilhou em uma partida decisiva. O Corinthians enfrentava o Atlético Mineiro, no Pacaembu, pela 34a rodada do Campeonato Brasileiro de 2011. O jogo estava empatado até os 43 minutos do segundo tempo, quando Emerson Sheik puxou um contra-ataque e serviu Adriano, que, mesmo perdendo um pouco do ângulo, reviveu os bons tempos e acertou um chute forte e preciso no lado oposto, marcando o gol da vitória e mantendo o Timão na liderança, ainda mais perto do pentacampeonato.
OceanofPDF.com
Douglas e o cigarro
Tite passou certo tempo, no final de 2010 e início de 2011, fazendo campanha para Ronaldo e Roberto Carlos largarem o cigarro. O esforço, porém, nunca deu resultado. Quando descobriu por um jornalista que Douglas também era fumante, já em 2012, também tentou intervir e teve um novo fracasso.
A confissão do meia rendeu, ao menos, boas risadas no grupo.
Em uma das reuniões da semana, Tite falava sobre a partida que teriam, como seria a estratégia para o confronto. Olhou para o Douglas e se lembrou do ocorrido.
– Lembrei uma coisa. Eu fui numa sabatina essa semana e lá me contaram algo em relação a ti. Você fuma e eu não sabia? – indagou olhando para o meia.
– Não, professor, de jeito nenhum. Tá maluco? – respondeu o jogador, sentado na roda.
– Palavra de homem? – perguntou Tite, ainda desconfiado.
– Sim, professor, eu fumo desde criancinha – brincou Douglas, provocando gargalhadas generalizadas.
Tite começou a fumar quando se tornou treinador e parou quase dez anos depois, em 1999.
– Foram meus filhos que me ajudaram a largar. Quando falaram que iam ficar sozinhos e eu ia ter menos tempo com eles. Isso me tocou muito.
As cobranças eram recíprocas. Tite era linha-dura em casa também, especialmente com Matheus.
– Ele sempre foi chato comigo para sair. Mais comigo do que com a minha irmã. Quando eu saía de noite, com os meus amigos, meu pai falava: “Tem que estar em casa tal hora”. Quando eu passava cinco minutos do horário marcado, ele já reclamava. Eu tinha que avisar. Pedia para dar boa-noite quando chegasse. Sempre me cobrando muito – recorda o filho.
Quando começou a jogar profissionalmente, a rédea ficou ainda mais curta.
– “Não vai beber, não vai sair”, ele falava para mim direto. Sempre foi linha-dura. Ele me olhava de canto se eu tomava uma cerveja nas férias. Eu percebia que meu pai estava me olhando. Até hoje em dia é assim. Reúno o pessoal em casa no meu aniversário e ele aparece, me pedindo para dar uma segurada.
OceanofPDF.com