Tite

Camila Mattoso · Capítulo 2 de 16

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Tite

Apresentação

Escrever sobre um técnico do tamanho do Tite, que estava perto de ser hexacampeão com um time como o Corinthians, não era uma responsabilidade pequena. Eu o conhecia, mas não tão bem quanto meus colegas setoristas que seguem todos os passos do time alvinegro. Um perfil não precisaria obrigatoriamente da interação dele, mas se a tivesse, seria ainda mais legal.

Arrumei com um grande amigo o telefone do professor Tite e escrevi pelo WhatsApp mesmo. Foi no dia 6 de novembro de 2015, por volta das 13 horas. Nem cinco minutos depois apareceu aquele desesperador tique azulzinho do aplicativo. Nenhuma resposta, porém. Fiquei um pouco tensa no restante da tarde. Não ia mudar muita coisa a resposta dele. Meu recado era, na verdade, um comunicado simples de que eu estava escrevendo um livro sobre ele. Um aviso de que a partir daquele momento as pessoas próximas dele estariam recebendo minhas ligações alucinadas.

Por acaso, naquele mesmo dia tive de ir ao Centro de Treinamento Joaquim Grava entrevistar o Vagner Love para a Folha, para a cobertura da reta final do Campeonato Brasileiro de 2015. Era dia também de entrevistar o treinador, pois na última coletiva antes do jogo é sempre ele quem fala. O Corinthians havia ganhado de 2 X 1 do Coritiba, na Arena Corinthians, no sábado anterior, e isso poderia ter representado a conquista do título não fosse o Atlético Mineiro ganhar do Figueirense no domingo, no finalzinho do confronto, em Florianópolis.

Eu cheguei atrasada por causa da sessão com Love, mas deu tempo de pegar o final da coletiva. Sem querer mesmo, entre uma pergunta e outra da imprensa, Tite deixou o dedo do meio à mostra. Mas com pelo menos três televisões lá, acompanhando, era impossível passar despercebido. Quando ele notou, ficou sem graça, fez todo mundo cair na risada. Olhou pra mim na mesma hora e disse: “Isso não vai entrar no livro, né?”.

E não é que acabou entrando? Quando a coletiva terminou, passou e agradeceu:

– Obrigado, Camila, obrigado de verdade – essa mania que ele tem de chamar todo mundo pelo nome (os que ele conhece muito e os que ele não conhece nada) e ser extremamente educado com qualquer um que seja.

No início da noite respondeu o WhatsApp, dizendo que me ajudaria contando algumas histórias. A partir dali, a estratégia estava traçada. Decidi que queria ouvir todo mundo que fosse possível e, ao fim, quase como que para ver o “outro lado”, entrevistaria Tite para confirmar e conferir as versões das histórias.

E como o WhatsApp ajuda, não é? Comecei a mandar mensagens uma atrás da outra: “Oi, fulano, tudo bem? Deixa eu te contar uma coisa: estou escrevendo um perfil do Tite. Você conviveu bastante com ele. Você se importa em me atender?”. E logo vinham as respostas: “Sobre o Tite? Claro que ajudo. Faço questão de falar sobre ele”. Seria um exagero dizer que todos responderam assim, apenas uma única pessoa me respondeu: “Sobre ele, eu não falo. E gostaria de ficar fora do livro”. Se escondesse este nome, estaria cometendo um erro grosseiro com você, leitor, que quer saber tudo sobre Tite. Foi o Guilherme Prado, ex-assessor de imprensa do Corinthians, que deixou o time em 2015, quando Roberto de Andrade foi eleito. Saiu odiando e sendo odiado por Andrés Sanchez e com a honra de não ter abandonado Mario Gobbi – a história que envolve todo esse processo você encontra neste livro e, com ela, poderá chegar à sua própria conclusão.

Foram ouvidas exatas 84 pessoas para tentar contar as melhores histórias do técnico campeão da Libertadores com o Corinthians. Foram várias entrevistas feitas por diversos meios – Skype, áudio de WhatsApp, e-mail e até pessoalmente. Dos entrevistados, não há como não citar a carinhosa e inesquecível dona Ivone, mãe de Tite, e Miro, o irmão mais novo. Eles me receberam de forma muito gentil e simpática em Caxias do Sul e foi uma tarde inteira de conversa, entre um almoço e um café, servidos com uma ternura indescritível por dona Ivone. Quantas histórias eles contaram, enquanto eu aproveitava uma sopa deliciosa e, depois, um frango ao molho, especialidade da casa! Além deles, não foram poucos os que choraram ao falar de Tite – aliás, ao menos quatro, que reservo o direito de não serem identificados.

Assim que o título do hexa foi conquistado, Tite deu sinal verde para a entrevista acontecer. Luciano Signorini, assessor de imprensa dele, escreveu para mim: “Entrevistas de meia em meia hora com o professor no CT do Corinthians”. Eram muitos os pedidos.

Primeiro fiz uma entrevista para a Folha e deixei marcada uma segunda, esta para o livro. Combinamos para o dia 5 de dezembro, véspera do último jogo do Brasileiro, em treino feito especialmente para arrecadar água, logo após o desastre em Mariana, Minas Gerais. Cheguei por volta das 11 horas e ele logo começou a me atender, mas já na primeira pergunta percebeu que não ia dar certo. Tite havia acabado de fazer uma cirurgia de varizes e precisava passar de novo no médico:

– Vai ficar muito atropelado. Vamos remarcar com mais tempo.

Remarcamos para a terça-feira seguinte. Ainda na loucura da sua agenda, cheguei quando ele terminava uma entrevista para o SBT, em seu prédio, no Tatuapé. Ele me recebeu na churrasqueira do térreo e logo subimos para o apartamento. Sua esposa, Rose, também estava lá, ambos acompanhados de Márcio, o jornalista que trabalha com Luciano Signorini.

Ainda com cuidados na perna por causa da cirurgia, o treinador se sentou no sofá da sala, pronto para a entrevista. Assim começamos. Duas horas de perguntas e respostas. Não fugiu nem se esquivou dos questionamentos. Ficou surpreso com algumas perguntas, especialmente as que envolviam seu pai. A conversa, contudo, não foi interrompida em nenhum segundo. Não me pediu segredo, não fez nenhuma vez aquilo que chamamos de “off”. Foi tudo em “on”.

Ao fim, deixou de novo um recado que já havia me dito de forma direta:

– Camila, não pense duas vezes em me procurar para tirar qualquer dúvida que seja, sobre qualquer assunto. Estou totalmente aberto para isso.

Não foi uma nem duas vezes que isso aconteceu. Perdi as contas da quantidade de mensagens que mandei para ele e para o irmão Miro (que tanto me ajudou!), perguntando diversas coisas. Mas percebi que ainda não tinha sido suficiente.

– Tite, acho que preciso de uma nova entrevista contigo. Pode me atender por telefone? – ele já estava curtindo as férias na sua praia preferida do Rio Grande do Sul, em Torres.

– Sim. Vamos fazer.

Talvez tenha sido essa segunda conversa a melhor de todas. Mesmo que por telefone, com a distância que existe nisso, em todos os sentidos, Tite estava mais aberto, mais à vontade. Foi quando confirmou para mim uma revelação que eu havia conseguido: de que fora chamado bastante recentemente por um dito intermediário da CBF, para uma conversa sobre a Seleção Brasileira – você precisa ler este livro!

Num certo momento, falou algo que me marcou:

– Camila, eu sei que muitas pessoas ali dentro do Corinthians têm restrição com você pelo tipo de jornalismo que você faz. Mas não me importo com isso. Fica tranquila – fazia referência às matérias tachadas “ruins” para o Corinthians, que eu e tantos outros colegas fazemos quando temos as informações. Talvez por esses motivos, ou por outros quaisquer, Roberto de Andrade e Edu Gaspar não estejam entre as 84 pessoas ouvidas para este livro.

Parecia que estava tudo certo. Todas as entrevistas tinham sido feitas, era só escrever. Que parte difícil essa! Decidi tentar uma consulta com quem melhor poderia falar sobre isso. Liguei para o Ruy Castro, na maior cara de pau que eu poderia ter, em seu telefone fixo – ele não tem celular. Agradeço infinitamente a atenção que me foi dada, diante de tão estranho telefonema.

– Ruy, muito prazer. Desculpa te ligar assim, nessa situação. Sou repórter e estou escrevendo um livro sobre o Tite. Estou em dúvida se divido o livro em ordem cronológica ou se divido por traços da personalidade dele – eu disse quase como perguntando se fazia sol ou se ia chover, sem dar nenhuma outra informação mais.

Não vou dizer toda a resposta dele, mas o principal dos cinco minutos de conversa foi a constatação que ele fizera sobre a dificuldade de escrever uma biografia, ou um perfil que fosse, que é o que este livro se propõe, de uma personalidade ainda em vida. Afinal, quem se disporia a contar as coisas ruins, os defeitos, os problemas?

Não precisaria confirmar isso, mas, claro, Ruy Castro estava certo. Ainda assim, me declaro satisfeita em poder dar uma pequena ideia de quem é Adenor Leonardo Bachi, revelando um pouco de diferentes lados da sua trajetória até aqui, do nascimento em uma colônia no Rio Grande do Sul até a conquista do hexacampeonato.

Em uma das vezes que pedi ajuda a Tite, falei que queria mais detalhes sobre o ano sabático, e ele respondeu: “Por que não liga direto para o Ancelotti?”, ex-técnico do Real Madrid, com quem ele esteve durante o tempo que ficou estudando. Eu quase respondi: “Porque seria impossível falar com o último campeão do time madrilenho”. Segundos depois, o telefone do italiano estava no meu celular. Ele topou falar e esta conversa está aqui também neste livro, que você pode começar a ler agora mesmo.

 

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