Tite
5. Merecibilidade
MERECIBILIDADE
De volta para casa
Os dez primeiros anos de Tite como treinador não foram nada fáceis. Dirigindo equipes do interior do Rio Grande do Sul, o técnico ainda buscava afirmação e a sua única conquista havia sido a Segunda Divisão do Gaúcho de 1993, pelo Veranópolis. Em 1999, recebeu o convite para retornar para o Caxias, clube em que começou a carreira de jogador profissional e no qual já havia sido treinador em 1991.
Mesmo sem nenhum medalhão, apelido dado no futebol para os craques, Tite montou um time consistente para o Campeonato Gaúcho de 2000.
O título era um sonho distante, porém um objetivo era cobrado pela diretoria: superar o eterno rival Juventude, que vivia anos de ouro com a conquista do Gauchão em 1998, da Copa do Brasil em 1999 e mantinha o status de time da elite do Campeonato Brasileiro, graças aos recursos da gestora Parmalat.
A caminhada no Gauchão de 2000 foi longa. Começou com o Caxias conquistando o direito de disputar o octogonal final do torneio, que incluía o Grêmio, o Inter e o Juventude, após ficar em segundo lugar na fase inicial, disputada apenas por clubes do interior.
A seguir, a equipe de Tite surpreendeu e papou o primeiro turno após excelente campanha. A última e decisiva partida foi a vitória sobre o Grêmio por 2 X 1, em pleno estádio Olímpico.
O regulamento determinava que o campeonato seria decidido pelos campeões do primeiro e do segundo turno. Dessa forma, o Caxias já estava classificado para a finalíssima do campeonato estadual.
O time de Tite se poupou no segundo turno e viu o Grêmio de craques como o lateral Roger, o meia Zinho e a revelação Ronaldinho Gaúcho se credenciar como o adversário para a finalíssima.
Foram duas partidas emocionantes. Na primeira, realizada no estádio Centenário, em Caxias do Sul, o Caxias venceu de forma categórica e marcou 3 X 0 sobre o tricolor gaúcho. Já na partida de volta, no Olímpico, Tite armou um esquema defensivo forte e segurou o 0 X 0.
Caxias bateu campeão, como diz o próprio treinador, e até hoje esse é o único título da Primeira Divisão do Gaúcho do clube.
Tite relembrou recentemente a conquista em depoimento para o site oficial do Caxias:
– Entre os títulos da minha carreira, de todos os níveis, cada um tem uma história e sou grato. O grau de dificuldade e a importância que teve esse título pelo Caxias, contra equipes financeira e tecnicamente maiores, nada vai se comparar a esse time. Eu não sei se ele é o maior, mas se tiver que elencar dois ou três na minha carreira, com certeza esse vai entrar.
O também treinador Gilmar Dal Pozzo, que era o goleiro titular do Caxias na época, ressaltou a importância do comandante:
– Foi um trabalho de dois anos seguidos, era um grupo de muita personalidade, não sentia a pressão de jogar no Olímpico ou no Beira-Rio. O Tite foi determinante para conduzir o grupo.
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Dois títulos em duas semanas
O início da temporada de 2001 trazia o maior desafio até então para a carreira de técnico de Tite: dirigir o Grêmio.
– Foi a primeira oportunidade em um clube de estrutura maior. Uma expectativa muito grande – relembra Tite.
Enquanto o Grêmio conquistou o primeiro turno do Gauchão e garantiu a vaga para a final com antecedência, o time sofria nas primeiras fases da Copa do Brasil, pois os dois torneios eram disputados paralelamente. A equipe comandada por Tite superou o Villa Nova, de Minas Gerais, e o Santa Cruz, de Pernambuco, revertendo as derrotas sofridas fora de casa apenas nos jogos de volta no estádio Olímpico. Foi nessa época que o treinador chegou a balançar e quase foi demitido.
O estilo de jogo proposto começou a engrenar e o tricolor gaúcho superou de forma invicta os demais adversários na Copa do Brasil: Fluminense, São Paulo e Coritiba, até chegar à final da Copa do Brasil contra o Corinthians.
Antes da decisão contra a equipe paulista, o Grêmio jogou as finais do Campeonato Gaúcho contra o Juventude, campeão do segundo turno.
O tricolor gaúcho mostrou a sua força e venceu o Juventude na primeira partida por 3 X 2, no estádio Alfredo Jaconi, em Caxias do Sul.
Em 3 de junho, no estádio Olímpico, o Grêmio voltou a vencer, dessa vez por 3 X 1, levando o caneco do estadual.
Tite era bicampeão gaúcho, mas ainda buscava maior projeção nacional.
As finais da Copa do Brasil começaram em 10 de junho, quando Grêmio e Corinthians empataram por 2 X 2 no estádio Olímpico. O resultado deu vantagem para os paulistas no jogo de volta, já que seriam campeões até mesmo com empates por 0 X 0 ou 1 X 1, por causa do critério dos gols marcados fora de casa.
Em 17 de junho o Grêmio, perante o Morumbi lotado, venceu o Corinthians de Vanderlei Luxemburgo por 3 X 1, sagrando-se campeão da Copa do Brasil.
Dois títulos em duas semanas!
– A expectativa era muito grande. O empate no estádio Olímpico, em que saímos perdendo por 2 X 2, nos deu muita confiança para jogar em São Paulo. E a qualidade técnica da equipe era muito grande. Com uma virtude: ela tinha transações defensivas, era muito rápida, muito móvel. Praticamente não tinha zagueiros, era o Marinho, jogador de muita velocidade. Tinha o Zinho, que fazia a cadência. O restante, Marcelinho Paraíba, camisa 9, na beirada o Luís Mário, Tinga no meio... Nós fazíamos pressão alta, utilizando o [esquema] 3-6-1 o tempo todo, porque era um time móvel. Então pressionava lá dentro. Foi o time mais leve que treinei em termos criativos, com maior transição, esse time tinha rodinha no pé – lembrou Tite em entrevista ao programa Resenha, da ESPN.
O técnico destacou ainda, para registro no site Globo Esporte:
– O Brasil começou a olhar o Tite com outros olhos, com olhos diferentes. Antes era só o Rio Grande do Sul, porque eu tinha sido campeão estadual com o Caxias. A Copa do Brasil de 2001 foi marcante. Foi o maior 3-5-2 [com variações para o 3-6-1] que já vi numa equipe. Tínhamos mobilidade, agressividade na marcação e triangulações.
Tite permaneceu no tricolor gaúcho até junho de 2003, sem conquistar novos títulos.
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Matando a saudade dos títulos
Depois da Copa do Brasil de 2001, Tite amargou um jejum de sete anos sem vencer nenhum campeonato.
Passou pelos clubes São Caetano, Corinthians, Atlético Mineiro, Palmeiras e Al Ain, dos Emirados Árabes, até voltar ao Rio Grande do Sul para dirigir o Inter.
A chegada do técnico causou furor e foi contestada pela torcida colorada, devido ao seu forte vínculo com o arquirrival Grêmio.
Apesar de o Campeonato Brasileiro ainda estar na quinta rodada quando Tite chegou ao Inter, a colocação do time era uma preocupante 17a posição, na zona de rebaixamento. Na mão do treinador, o time colorado acabou o Brasileirão na sexta colocação.
O principal resultado alcançado sob o comando de Tite em 2008 foi o título inédito da Copa Sul-Americana de forma invicta, com cinco vitórias e cinco empates. Grêmio; Universidad Católica, do Chile; Boca Juniors, da Argentina (venceu as duas partidas); e Chivas, do México (também vencendo as duas partidas) foram os adversários até a grande final, disputada com o Estudiantes, da Argentina.
A vitória por 1 X 0 no estádio Ciudad de La Plata, na Argentina, e o empate por 1 X 1 no Beira-Rio garantiram o título ao Inter e a volta das conquistas na carreira de Tite.
Pelo time colorado, Tite ainda conquistou, em 2009, o Gauchão e a Copa Suruga, que é disputada entre o campeão da Copa da Liga Japonesa e o campeão da Copa Sul-Americana. Na ocasião, o Inter venceu o Oita Trinita, por 2 X 1, em Oita, no Japão.
Tite se desligou do Internacional no começo de outubro de 2009.
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A segunda opção da diretoria
O retorno de Tite ao Corinthians foi confirmado em 17 de outubro, quando o presidente Andrés Sanchez anunciou a contratação ainda no gramado do estádio Brinco de Ouro da Princesa, em Campinas, após o empate por 0 X 0 entre o Guarani e o Timão, pelo Campeonato Brasileiro de 2010.
Na realidade, Tite era a segunda opção da diretoria, que preferia Carlos Alberto Parreira, que só não aceitou o convite por ter prometido à família não voltar a trabalhar até o final do ano.
O fato de não ser o preferido pouco importou para Tite, que fez questão de ressaltar a oportunidade logo na primeira coletiva de imprensa:
– É o primeiro clube da dimensão do Corinthians a que posso retornar. A primeira passagem por aqui foi muito marcante, pessoal e profissionalmente. A mídia está aqui pela visibilidade que o cargo de treinador do clube empresta, tenho noção da responsabilidade e quero ajudar o Corinthians a ser campeão.
O técnico afirmou que, ao escolher o Corinthians, estava abrindo mão do Mundial de Clubes, pelo Al Wahda, dos Emirados Árabes, time que comandava e que disputou a competição em dezembro. Tite nem desconfiava que a dívida de jogar um Mundial de Clubes da Fifa seria paga com juros e correção monetária dois anos depois.
A segunda passagem do técnico no Corinthians foi de 24 de outubro de 2010 a 7 de dezembro de 2013. Obteve um aproveitamento total de 59%. Mais que números, o que ficou marcado foram os cinco campeonatos conquistados.
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A paz do título
O primeiro título foi o Brasileirão de 2011. Mesmo sendo líder em 27 das 38 rodadas, o Corinthians passou por dois grandes momentos de oscilação que chegaram a ameaçar a conquista e o próprio cargo de Tite. O equilíbrio, tão valorizado pelo técnico, foi determinante para voltar às vitórias.
No total, o alvinegro paulista somou 71 pontos (contra 69 do vice-campeão Vasco). Venceu 21 vezes, empatou oito e perdeu nove. O time marcou em 53 oportunidades, apenas o oitavo melhor da competição, e tomou 36 gols, sendo a melhor defesa.
– A equipe pregou e procurou sempre vencer. Foi a equipe de maior saldo, que melhor se defendeu... Ela construiu durante o ano aquilo que bati muito, que é o merecimento. Estes números traduzem isso perfeitamente, e a conquista é inquestionável – avaliou Tite na coletiva de imprensa após o jogo decisivo que selou o título contra o Palmeiras (0 X 0).
No programa Globo Esporte, o apresentador Tiago Leifert finalizou a entrevista perguntando que palavra resumia o título, dando a ele duas opções – “alívio” ou “alegria”. Tite surpreendeu e respondeu:
– Paz.
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Uma obsessão chamada Libertadores
Era a décima participação do Corinthians na Taça Libertadores da América e, até então, o máximo a que havia chegado foi à semifinal em 2000, quando foi desclassificado pelo arquirrival Palmeiras na dolorosa disputa de pênaltis.
Tantas desilusões só serviram de combustível para crescer a obsessão dos torcedores e da própria diretoria pelo título inédito. A pressão, para variar, era imensa.
Na primeira fase, o Corinthians fez parte do Grupo 6, enfrentando o Cruz Azul, do México; o Deportivo Táchira, da Venezuela; e o Nacional, do Paraguai. Classificou-se na primeira colocação do grupo e com a segunda melhor campanha do torneio, com 14 pontos (quatro vitórias e dois empates).
Nas oitavas de final pegou o Emelec, do Equador, empatando fora de casa por 0 X 0 e vencendo no Pacaembu por 3 X 0.
O Vasco foi o adversário das quartas de final, e o alvinegro paulista repetiu a dose com um empate fora e uma vitória, desta vez por 1 X 0 em casa.
A vitória por 1 X 0, na Vila Belmiro, e o empate por 1 X 1, no Pacaembu, contra o Santos garantiram o clube na final.
O tradicional, e seis vezes campeão da Libertadores, Boca Juniors, da Argentina, foi o adversário. Um empate em La Bombonera, em Buenos Aires, por 1 X 1, e a histórica vitória comandada por Emerson Sheik, por 2 X 0, no Pacaembu, garantiram o título inédito e invicto.
– O segredo do Corinthians é trabalho e competência. Se faz uma campanha como a que teve é porque tem qualidade, marcação e organização muito forte, e a equipe aliou uma coisa no final da minha palestra: amizade. É um grupo que se gosta. Quando bate a cabeça com o coração, fica muito forte – relatou um Tite emocionado ainda no gramado do Pacaembu após a conquista.
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O Japão ficou pequeno
Os jogos restantes do Brasileirão serviram de preparação para a disputa do Mundial de Clubes da Fifa. A sexta colocação no nacional ficou de bom tamanho.
Logo após o final do torneio nacional, o Corinthians embarcou para o Japão em 3 de dezembro, recebendo o apoio de 15 mil torcedores que compareceram ao Aeroporto Internacional de Guarulhos para se despedir.
Já no Japão, Tite opinou sobre as chances do time no Mundial:
– O que queremos fazer é mostrar a cara do Corinthians, a cara do Emerson Sheik, a cara do Tite. A cara da nossa equipe. Sem ter euforia. Nós temos uma equipe forte, postulante ao título, mas que tem que estar no seu melhor individualmente, coletivamente, no aspecto tático, no aspecto mental...
O Mundial de 2012 foi disputado por oito equipes: Ulsan Hyundai, da Coreia do Sul (representante da Ásia); Al Ahly, do Egito (representante da África); Monterrey, do México (representante da Concacaf, Confederação de Futebol da América do Norte, Central e Caribe); Corinthians (representante da América do Sul); Auckland City, da Nova Zelândia (representante da Oceania); Chelsea, da Inglaterra (representante da Europa); e o Sanfrecce Hiroshima, do Japão (representante do país-sede).
De acordo com o regulamento, Corinthians e Chelsea entraram apenas nas semifinas e as demais seis equipes disputaram um playoff para definir os adversários.
A estreia corintiana ocorreu em 12 de dezembro, uma quarta-feira, no estádio Toyota, localizado na cidade de mesmo nome, no Japão, contra os egípcios do Al Ahly.
Enganou-se quem imaginou que se trataria de uma partida fácil. O Corinthians venceu apertado, por 1 X 0, com gol de Guerrero aos 29 minutos do primeiro tempo. O resultado evidenciou o nervosismo do time. Se dentro de campo o jogo não foi dos melhores, fora dele a torcida do Corinthians dava show.
Em todas as partes do estádio havia corintianos. Os gritos tradicionais do Pacaembu tomaram conta não só das arquibancadas, mas também das ruas do Japão. Não há números precisos, principalmente porque os torcedores vinham de todas as partes do mundo, como Estados Unidos, Austrália, do próprio Japão, além do Brasil. Os mais pessimistas avaliam em 15 mil, porém, um número palpável é de 30 mil corintianos presentes.
O adversário da final era o poderoso e milionário Chelsea, que tinha se credenciado ao vencer sem dificuldades o Monterrey por 3 X 1 na outra semifinal.
Os ingleses contavam com craques como o goleiro Cech, os defensores David Luiz, Cahiill e Cole, os meio-campistas Lampard e Hazard e o atacante Fernando Torres.
No último encontro com a imprensa antes da finalíssima, Tite projetou o que seria a partida contra os ingleses:
– Equilíbrio é a melhor forma de encarar esse jogo. É fundamental. Precisamos ter muita qualidade no passe, pois são duas equipes muito compactas e que têm velocidade, além de um gramado que permite isso. Nosso time tem muita qualidade no pé e experiência para a bola não queimar.
No final da coletiva, a pedido de um câmera de emissora de TV que acompanhava o clube, repetiu um dos lemas de sua fiel torcida para demonstrar que o Corinthians estava pronto:
– Vai Curintia, é nóis, mano!
Em 16 de dezembro de 2012, Corinthians e Chelsea decidiram o Mundial de Clubes da Fifa no estádio Internacional de Yokohama, perante 68.275 pagantes.
O primeiro tempo foi truncado. O Chelsea obrigou Cássio a realizar duas grandes defesas, enquanto o Corinthians chegava ao gol de Cech por meio de contra-ataques. As coisas não mudaram muito até os 23 minutos do segundo tempo, quando Guerrero aproveitou uma sobra de bola e balançou a rede de cabeça.
A partir daí, a forte marcação do Corinthians mantinha os Blues (Azuis), apelido do Chelsea, distantes do gol de Cássio, enquanto o alvinegro continuava apostando nos perigosos contra-ataques.
Os ingleses começaram a alçar bolas na área corintiana e quase marcaram aos quarenta minutos com Fernando Torres, mas Cássio brilhou novamente. O último susto aconteceu aos 46 minutos, quando o mesmo Fernando Torres marcou um gol impedido.
O árbitro encerrou o jogo aos 49 minutos e 29 segundos.
O Corinthians era bicampeão do Mundial de Clubes da Fifa e, desta vez, sem chororô dos adversários, já que também havia ganho a Libertadores de forma invicta e incontestável.
– O troféu é uma retribuição ao torcedor corintiano pelo carinho que deu à equipe, na vinda dele para cá [Japão] e para aqueles que de alguma forma não puderam estar presentes fisicamente, mas estiveram presentes de espírito, de alma, de apoio – declarou Tite logo após a vitória sobre o Chelsea, quando concedia a sua primeira entrevista oficial à imprensa. – O mundo é corintiano, o mundo é da Fiel.
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Dois campeonatos em 2013
A lista de títulos de Tite só aumentou no primeiro semestre de 2013.
Mesmo não tendo a mesma importância que tinha até a década de 1990, o Campeonato Paulista é obrigatório para o treinador que deseja entrar na história do Corinthians.
Ainda de ressaca do Mundial, o time alvinegro não empolgou na primeira fase do estadual de 2013, classificando-se para as fases finais em um modesto quinto lugar.
Reencontrou o bom futebol nas quartas de final, quando goleou a Ponte Preta por 4 X 0, no estádio Moisés Lucarelli, em Campinas. Na semifinal enfrentou o São Paulo e, após um placar 0 X 0, venceu o rival nas penalidades.
O Santos foi o adversário da final. No primeiro jogo, realizado no Pacaembu, o clube venceu por 2 X 1. No jogo de volta, na Vila Belmiro, casa do Santos, o Corinthians garantiu o título com o empate por 1 X 1. Era o quarto título de Tite no comando do Coringão.
A Recopa Sul-Americana foi disputada em julho e reuniu o campeão da Libertadores e da Copa Sul-Americana em 2012. Corinthians e São Paulo, clássico conhecido como Majestoso, foi disputado em duas partidas e o time venceu as duas (2 X 1 no Morumbi – com um golaço de Renato Augusto de cobertura em Rogério Ceni – e 2 X 0 no Pacaembu).
Com a Recopa, Tite acumulou cinco títulos no Parque São Jorge e tornou-se o técnico com mais vitórias na história do clube, superando o também gaúcho Oswaldo Brandão, que conquistou quatro títulos. Como bônus, Tite também se tornou o técnico campeão de todos os torneios oficiais de primeira divisão possíveis no Brasil.
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Trapaça contra o Santos: o veto de Tite
Tite jura de pés juntos que jamais pediu por vitórias nas suas orações. Ajoelhado, com a Bíblia e as santinhas à sua frente, mais algumas velas, faz uma única prece: por merecimento.
É essa uma das suas palavras prediletas, quando transformada em verbo forma a frase mais repetida nas preleções ao longo da carreira: “merecer vencer”. Sua marca registrada.
Pede, inclusive, na hora da reza, saúde para os adversários, para que ninguém se machuque no jogo. Que haja discernimento nas decisões do árbitro, para os dois lados.
– Bom jogo, saúde para todos e que as divididas sejam todas leais – discursa minutos antes de um confronto.
Ai de algum jogador que tente dar de malandro no treino, fingindo não ter encostado na bola na saída de um lateral, ou usando a mão para balançar a rede. Fazer cera, então, ainda pior. Não quer e ponto-final: não está em discussão. Tem por trás desse princípio o conceito de que um dia a cobrança pelos desvios chega.
Se tivesse que apontar uma pedra no sapato do Corinthians na campanha do hexacampeonato, certamente o dedo se esticaria para o Santos. Ricardo Oliveira, Lucas Lima, Gabriel e Marquinhos Gabriel – não havia esquema tático que parasse o quarteto adversário.
Já tinham sido quatro jogos sem conseguir ganhar no ano (e nove desde a última vitória), contando a eliminação na Copa do Brasil nas oitavas de final, suficientes para incomodar a diretoria do Parque São Jorge.
Era o último confronto em 2015, em casa, com um sol escaldante, no horário novo criado pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF), às 11 horas do domingo. Reta final do Campeonato Brasileiro, com cinco pontos em relação ao Atlético Mineiro, que jogaria no final do dia contra o Flamengo, em Minas Gerais. Não podia vacilar.
Veio então a sugestão, feita por um sujeito oculto e indeterminado, que eu não conseguirei também revelar a identidade: “Vamos molhar só um lado do campo”.
Explica-se: para todas as partidas em Itaquera é feita uma irrigação no gramado antes de o juiz apitar. É a forma que o clube prefere jogar – e ainda usa como justificativa que a grama necessita de tal cuidado. Com a água disparada especialmente dentro da grande área e ao seu redor, a bola rola com mais facilidade, apesar do alto índice de escorregões – normalmente dos adversários.
Qual era o plano, então, do sujeito oculto e indeterminado? Se molhasse apenas o lado do ataque corintiano, a velocidade de Elias, Jadson, Renato Augusto, Malcom e Vagner Love seria a mesma a que estavam acostumados. Já a orquestra do maestro Lucas Lima teria mais dificuldades de locomoção. Tite, porém, vetou a manobra.
– Foi aventada a possibilidade, para nós tirarmos vantagem. Eu disse: “Não, cara... Nós vamos ganhar sendo o melhor, o mais competente”. E me falaram: “Mas é a gente quem decide se vai molhar ou não, é uma prerrogativa nossa”. E eu disse: “Eu sei”. Eu me senti mal de ter essa possibilidade. Não aceitei. O Edu Gaspar me falou: “Eu sabia que você não ia aceitar, professor”. E a gente molhou o campo todo, porque a gente gosta dele assim. Eu falei: “Vai terminar o jogo e vocês terão mais orgulho”.
Tite classifica a apresentação do Corinthians naquela tarde como sublime: 2 X 0, com dois gols de Jadson.
Segundo duas pessoas da diretoria corintiana, a sugestão surgiu dias depois da eliminação na Copa do Brasil, em 27 de agosto, jogo contra o Santos, assistido por Dunga e Gilmar Rinaldi, técnico e coordenador da Seleção Brasileira. Enquanto assistiam Lucas Lima brilhar, os dois admiravam o quanto o gramado molhado fazia bem ao time da baixada.
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Amizade com Felipão chega ao fim
Não roga por vitórias, tampouco pede piedade dos adversários. Queria merecer ganhar na partida jogada.
Luiz Felipe Scolari, quem lhe iniciou na carreira profissional de jogador, era o comandante do Palmeiras no domingo, dia 6 de fevereiro de 2011, logo depois da eliminação vexatória do Corinthians para o Tolima. Felipão deu naquela semana uma declaração polêmica, reproduzida abaixo, que acabou rompendo publicamente a relação dos dois, com direito a troca de farpas em entrevistas.
– Eu fico desestimulado ao saber que o Tite pode cair com uma derrota. Todos devem assumir o que aconteceu no Corinthians. Se tivesse que dizer algo agora sobre a chance de o Tite sair, falaria que gostaria até de perder esse jogo.
O fim da amizade, no entanto, aconteceu antes, em 2010, como confirmou Tite para mim, segredo que guardou durante esses anos. Seu irmão Miro explica:
– O Felipe Scolari entregou o jogo contra o Fluminense no Brasileiro de 2010. É uma boa pessoa, mas é um profissional que se transforma. O Felipe é malandragem, é ganhar de qualquer jeito. É um cara de família e eu admiro ele por isso. Mas entra em campo e esquece da vida. Ali acabou a relação.
A partida citada aconteceu em 28 de novembro, na penúltima rodada do Brasileiro de 2010. A disputa pelo título daquele ano ainda estava aberta. Fluminense era o líder da tabela, com 65 pontos, enquanto o Corinthians tinha um a menos, 64. O Cruzeiro vinha logo atrás, com 63.
O tricolor de Laranjeiras, comandado por Muricy Ramalho, foi jogar contra o Palmeiras, na Arena Barueri, às 17 horas daquele domingo. Se o alviverde de Felipão ganhasse, daria uma mãozinha para o time do Parque São Jorge encostar na liderança caso também vencesse o seu jogo, contra o Vasco, no Pacaembu.
Durante aquela semana, Scolari foi perguntado sobre o confronto contra os cariocas.
– Eu nem sei se tem jogo no domingo. Vai ter jogo no domingo? Se tiver, quando eu chegar eu respondo – disse, ironicamente, em coletiva de imprensa.
A postura do então amigo irritou Tite. Felipão até tentou se redimir depois, cobrando seriedade no dia do duelo e escalando nove titulares, mas não mudou a impressão que já havia deixado. O incômodo foi ao auge aos 13 minutos do segundo tempo, quando o Fluminense virou o jogo em Barueri, com gol de Tartá. Dinei foi quem abriu o placar para o Palmeiras, com um golaço, e Carlinhos tinha conseguido o empate ainda antes do intervalo. No Pacaembu, o placar de 2 X 0, com gols de Bruno César e Danilo, dava esperanças aos alvinegros. Mas o gosto da liderança durou pouco.
No início da carreira, Tite ligava com certa frequência a Scolari para tirar dúvidas. Queria saber, por exemplo, como foi que encaixou o 3-5-2 no Grêmio, qual era o posicionamento dos meio-campistas no esquema tático.
– Meu irmão falou isso [sobre o Felipão]? Ele assume. Eu digo o seguinte: gratidão eu tenho pelo início, por conselhos e orientações. Depois desse jogo de 2010, passou a ser uma relação profissional. Eu assisti e fiquei quieto. Após a manifestação, em 2011, eu também me manifestei. Mas a data marcante é 2010. Não perdi a gratidão, mas eu comecei a ver com outros olhos – disse Tite em nossa conversa.
A cicatriz ficou para sempre.
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Fala muito
Logo depois desses dois episódios veio o “fala muito”, eternizado na memória dos mais de 30 milhões de corintianos: no dia 1o de maio de 2011, na semifinal do Campeonato Paulista, Tite e Felipão tiveram mais um bate-boca público.
As polêmicas envolvendo o clássico começaram antes mesmo do dia da partida. O Jornal da Tarde cravou uma semana antes do sorteio que seria Paulo César de Oliveira o árbitro do duelo, indicado pelo Corinthians, com aval do Palmeiras.
Mesmo com pedidos de mudança, a Federação Paulista de Futebol o manteve entre os oito da lista que poderiam ser sorteados. Em transmissão ao vivo, e com testemunha, não deu outra. Paulo César teve o nome confirmado – sua chance era de 12,5%, como a dos demais.
Em meio a essa tensão, a semifinal começou. O confronto estava pego, era jogo único para decidir quem ia à final. Cerca de 33 mil pessoas foram ao Pacaembu naquela tarde de domingo.
Aos vinte minutos do primeiro tempo, um lance que também ficou marcado para sempre. Valdivia tentou dar um chute no vácuo, provocação que virou sua marca registrada, mas houve um contratempo. Sentiu uma fisgada na parte posterior da coxa esquerda e teve de ser substituído.
Na beira do campo, os dois treinadores já se desentendiam. O corintiano começou a se irritar por achar que o palmeirense estava pressionando muito a arbitragem, pedindo faltas, reclamando além da conta. Enquanto pensava em quem colocaria no lugar do chileno, Felipão viu seu zagueiro Danilo ser expulso, após um duro carrinho em Liedson, e se transtornou. Resultado: Felipão também tomou um cartão vermelho e teve de se retirar. Neste momento, Tite não se conteve.
– Você fala muito, fala muito, fala muito! – gritava, abrindo e fechando as duas mãos, bem perto da boca, como uma mímica do seu desabafo.
Depois do jogo, Tite mostrou-se arredio com o colega, ou ex-colega.
– Vou falar uma vez só. Eu sigo minha vida e ele a dele – declarou.
O sofrimento dentro de campo foi até os pênaltis. O Palmeiras abriu o placar aos sete minutos do segundo tempo, com o zagueiro Leandro Amaro, de cabeça. O empate veio aos 19 minutos, também de cabeça, com Willian. E ficou nisso. Nas cobranças, Chicão, Willian, Fábio Santos, Leandro Castán, Morais, Ramírez converteram para o Corinthians, enquanto Kleber, Marcos Assunção, Márcio Araújo, Luan e Thiago Heleno fizeram para os rivais. Já nas alternadas, João Vitor desperdiçou, colocando a equipe do Parque São Jorge na final.
O título, porém, ficou com o Santos. Nas decisões, o primeiro jogo terminou em um empate de 0 X 0, no Pacaembu. Em 15 de maio, Neymar e Arouca garantiram a conquista na Vila Belmiro – Morais marcou no final, mas não evitou a derrota.
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Lucca, talismã do hexa
Matheus, filho de Tite, nunca chegou muito longe como jogador. Começou no futebol de campo muito tarde, uma das suas frustrações.
– É uma coisa que eu ainda tento entender e falo para o meu pai. Por que ele não me levou pra jogar no campo antes? Eu acabei indo por causa dos meus amigos da escola, com 17 anos. Eu acho que talvez eu também nunca tenha sido firme para demonstrar que eu queria – contou para mim.
Tentou, com a indicação do pai, uma vaga no Grêmio. Ficou um mês treinando, mas foi dispensado. Foi para o Cruzeiro de Porto Alegre, onde jogou por dois anos, primeiro como centroavante, depois como zagueiro. Como o pai, machucou o joelho e teve de operar – foram duas cirurgias ao longo da vida.
– Filho de atleta traz uma sobrecarga grande, um comparativo grande. Eu me escondia para vê-lo no futsal e, de repente, alguém me via. E eu não gosto desse tipo de coisa. Isso gera expectativa e comparação. Eu evito essas situações. Nunca quis induzir, mas fui abrindo caminhos quando ele mostrava o que queria. Não sou de forçar, não faço isso com ele, não faço com a minha filha nem com os atletas – explicou Tite.
Após dez meses parado, Matheus foi para o Três Passos, no interior do Rio Grande do Sul. Chegou a jogar a Série B do Gaúcho, quando foi convidado por Paulo Neto, que tinha trabalhado no Corinthians, para estudar e disputar a Liga Universitária nos Estados Unidos, onde ficou entre 2010 e 2014.
Foi ali que começou a amadurecer ainda mais a ideia de iniciar uma carreira na área técnica do futebol. Ele se formou em ciência do exercício, mas há muito tempo já ocupava a função de olheiro e auxiliar de Tite, pelo menos dentro de casa. Na volta ao Corinthians, o treinador já havia se decidido: queria o filho ao seu lado para a nova passagem. Matheus, porém, não se sentiu à vontade.
Queria ter o mínimo de rodagem no ramo e preferiu prorrogar o convite. Ficou durante seis meses fazendo intercâmbios em vários clubes, construindo e aperfeiçoando a sua maneira de ver o futebol: passou pelo Caxias, do Rio Grande do Sul; Flamengo; Barcelona, da Espanha; Shakhtar, da Ucrânia; e Inter de Milão, da Itália.
Durante esse período houve momentos de crise. Das arquibancadas, no Caxias, ouviu torcedores questionando se era merecida sua presença ali ou se era apenas por ser filho do campeão gaúcho de 2000.
– Fiquei bastante chateado em um momento. Saindo do campo ouvi que só estava lá porque era filho do Tite, que poderiam ter trazido alguém que ajudasse mais, que fosse mais gabaritado. Fiquei pensando e depois liguei para o meu pai para desabafar.
Ouviu de Tite as seguintes palavras:
– Tu tá fazendo o teu melhor e ninguém sabe que tu não tá ganhando nada para isso. Continua fazendo teu trabalho e não te importa com isso.
Em setembro, então, achou que já era hora. Mal chegou e já tinha uma indicação para dar: Lucca, o atacante contratado que virou talismã da torcida no hexa. Com 25 anos, alvinegro desde criança, foi emprestado pelo Criciúma, em setembro. Em dois meses caiu nas graças da Fiel: marcou o
terceiro gol do placar final 3 X 0 contra o Atlético Mineiro1, na final antecipada, de voleio, no Independência, e também deixou a sua marca
contra o Coritiba2, em Itaquera, justamente o gol da vitória, que deixou o time ainda mais perto da taça.
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A mentira que a Conmebol queria
Em 2012, Tite teve de pedir para seu filho sair da sua sala no CT do Corinthians para terminar uma conversa. Isso aconteceu em uma sexta-feira, 25 de maio. Matheus ainda cursava a faculdade nos Estados Unidos, estava de passagem pelo Brasil e acompanhava a fase final da Copa Libertadores.
No jogo anterior àquele dia, no dia 23, disputa pelas quartas de final contra o Vasco, seu pai tinha protagonizado um dos momentos mais épicos da história do time do Parque São Jorge: reclamou de uma falta não marcada, foi expulso pelo árbitro Leandro Vuaden aos 11 minutos do segundo tempo e acabou parando nas arquibancadas do Pacaembu, de onde continuou comandando a equipe, ao lado do gerente Edu Gaspar, passando instruções e sendo até ajudado por torcedores.
O treinador assistiu lá das numeradas do Paulo Machado de Carvalho a algumas cenas de que jamais se esquecerá: viu Diego Souza partir livre aos 18 minutos, depois de um erro de Alessandro, chegar sozinho na grande área corintiana e ser parado de forma magistral por Cássio, na maior defesa da sua carreira, e, aos 42 minutos, viu um gol redentor de Paulinho, de cabeça, após cobrança de escanteio feita por Alex. Sentiu de perto a Fiel, enlouquecida como nunca. Faltavam 360 minutos para a conquista tão esperada.
O próximo passo: semifinal contra o Santos.
– Nosotros vamos aplicar un partido de supencion para o señor Tite – ouviu o advogado do clube paulista, João Zanforlin, ao ligar para a Conmebol, com o espanhol que ele mesmo reproduz.
– Mas eu preciso fazer uma defesa. Como eu faço?
– Envia una carta para nosotros, argumenta que el entrenador estaba hablando con sus jugadores. Pero usted debe tener una carta de él, de su propia mano.
João Zanforlin foi ao CT, conversar pessoalmente com o professor Tite.
– Só há uma saída pra você estar no jogo contra o Santos: escrever uma carta dizendo que estava falando com seus jogadores e não com o árbitro.
Tite pede delicadamente para Matheus sair da sala.
– Doutor, se eu tiver que mentir, vou ser punido por isso mais adiante. Eu não vou escrever uma carta dizendo uma coisa que não é verdade. Eu falei com o juiz mesmo e não vou mudar isso. Se quiserem me suspender, deixem me suspender.
O advogado deixou a sala, em busca de uma alternativa. Não havia nenhuma regra da Fifa que previa suspensão automática para um treinador. Luiz Felipe Santoro, também advogado do Corinthians, enviou um ofício argumentando que não havia motivo para a punição e conseguiu a liberação.
No jogo contra o Santos, lá estava Tite: de volta ao banco de reservas.
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O sobrinho do massagista
O primeiro título conquistado por Tite foi a Segunda Divisão do Gauchão, em 1993, dirigindo o modesto Veranópolis. O título veio três anos depois de iniciar a carreira de treinador no seu terceiro clube. Os anteriores foram o Guarany, de Garibaldi, e o Caxias.
Na pequena comissão técnica havia o massagista João Carlos, mais conhecido na cidade como Kojak, que tinha o costume de carregar seu sobrinho de seis anos, fanático por futebol, em todas as oportunidades. O menino tinha a incumbência de pegar bolas nos treinamentos e era figurinha carimbada em todas as partidas. Ficava atrás do gol vibrando. O moleque estava tão presente no dia a dia da equipe que se tornou mascote do Veranópolis, clube que Tite comandou de 1992 a 1995.
Esse menino só foi reencontrar Tite em 2012, em uma situação totalmente diferente. Já com 1,95 metro de altura, o encabulado goleiro Cássio, contratado pelo Corinthians no começo daquele ano, foi comentar com o treinador que o conhecia desde criança e que era o sobrinho do Kojak, aquele do Veranópolis.
– Não me recordo do Cássio, até porque ele era muito pequeno, mas o Kojak é uma pessoa com quem tenho contato até hoje. O Cássio é o que é hoje graças ao Kojak, que sempre foi um cara do bem. Foi bom saber que voltaria a trabalhar com uma pessoa da família deles agora no Corinthians – declarou Tite à imprensa quando soube da história.
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Uma revelação e um segredo sobre a arbitragem
Tite admite sem rodeios: há trabalho de bastidores com a arbitragem. Guarda, no entanto, um segredo que diz não poder revelar. Reproduzo abaixo o diálogo que tive com ele, durante a nossa conversa em sua casa:
Camila Mattoso (CM): Tite, pessoas próximas me disseram que você tem uma desconfiança muito grande do árbitro Héber Roberto Lopes. O que é?
Tite (T): Apitou muito bem o jogo [contra o Atlético Mineiro, na Arena Independência, no Brasileiro de 2015]. E apitou muito na final da Copa do Brasil [Palmeiras X Santos] também. Mas eu não gostaria que ele apitasse os jogos que eu estivesse dirigindo.
CM: Por quê?
T: Se eu te responder, vai dar livre associação [em relação a Héber Roberto Lopes]. Apitou muito nos dois jogos. E eu não queria nunca mais trabalhar com ele.
CM: Existe trabalho de bastidor com a arbitragem?
T: Existe. Muito.
CM: Isso te incomoda?
T: Demais.
CM: Você pede para o Corinthians não fazer?
T: Sim. Pedi. Em alguns momentos faz, em outros, não. Não sou puritano, não sou o homem do passo certo, só tenho princípios.
CM: Você preferiria não ficar sabendo?
T: Não, eu gostaria sempre que tivesse um trabalho do tipo “não me prejudique”. Só isso.
CM: É esse o trabalho que você gostaria que o Corinthians fizesse?
T: Sim, sim.
CM: E outros tipos?
T: Eu não comungo. Se vai fazer, é contra os meus princípios.
Emendo outra pergunta, mudando de assunto e vem um silêncio de cinco longos segundos.
T: Estou viajando aqui. Desculpa. Estava viajando na arbitragem. Eu não posso falar.
CM: Não? Tem certeza?
T: Não posso falar. Certeza.
Héber foi o juiz do jogo decisivo do hexacampeonato contra o Atlético Mineiro, no Independência, em novembro de 2015. O Corinthians ganhou por 3 X 0. Antes disso, porém, com ele apitando, o time paulista não vencia havia cinco anos, desde 2010. Comandou, nesse período, dez partidas do clube, com seis empates e quatro derrotas. A última vitória com ele tinha sido em 24 de outubro de 2010, no clássico contra o Palmeiras. Na ocasião, a equipe venceu por 1 X 0, com gol de Bruno César, no Pacaembu. Foi a reestreia de Tite no clube, quando tinha acabado de voltar dos Emirados Árabes.
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Amarilla nunca mais
Diz seu irmão Miro que há duas pessoas com quem Tite não gostaria de cruzar na rua, fora do ambiente de trabalho, por nada no mundo: o personagem citado anteriormente, Héber Roberto Lopes, e Carlos Amarilla, árbitro paraguaio que apitou o jogo da eliminação do Corinthians contra o argentino Boca Juniors, em 2013, nas oitavas de final da Libertadores.
Carlos Amarilla cometeu uma série de erros grosseiros naquela noite de 15 de maio, no Pacaembu, levantando suspeitas em relação à sua arbitragem.
Precisando vencer, o clube paulista partiu para cima do Boca Juniors, já que a equipe paulista havia perdido por 1 X 0 no jogo de ida, em Buenos Aires.
Foram três os erros cruciais que mudariam totalmente o andamento da partida e do próprio torneio: se o Corinthians vencesse por uma diferença de dois gols, continuaria na disputa pelo bicampeonato.
Logo no início do jogo, o defensor Marín, do Boca Juniors, colocou a mão na bola dentro da sua área e nada foi marcado. Esse foi o único lance que posteriormente Carlos Amarilla assumiria ter errado, mas justificou que sua visão estava encoberta naquele momento.
Aos 23 minutos do primeiro tempo, um gol de Romarinho foi anulado de forma equivocada, já que o atacante corintiano não estava em impedimento.
Para fechar a lambança, aos 36 minutos do segundo tempo, Emerson Sheik foi empurrado na área e nada foi marcado.
A ajuda da arbitragem ao Boca Juniors ficou tão clara que o jornal argentino Olé, que tradicionalmente provoca os brasileiros, estampou como sua manchete “Una mano Amarilla”, ou seja, “Uma mão Amarela”, fazendo um trocadilho infame com o nome do árbitro.
Quase dois anos depois, em junho de 2015, foi feita uma revelação interessante no canal argentino América TV. Uma escuta telefônica mostrou irregularidades cometidas por Júlio Grondona nos 35 anos em que foi presidente da Federação Argentina. Amarilla aparece entre as suspeitas, citado pelo cartola como “o maior reforço que o Boca teve”, referindo-se ao jogo do Pacaembu. O paraguaio jura inocência e diz desconhecer as causas da citação.
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O pressentimento sobre Guiñazu
O “Fantasma Amarilla” já havia assombrado Tite antes e quase passou despercebido. Nos mais de vinte anos de carreira como técnico de futebol, Tite amadureceu um ensinamento que carrega até hoje: a busca incansável por antecipar situações. O conceito é simples de entender: ao criar especulações e hipóteses diversas do que pode acontecer, é possível determinar uma ação rápida de forma planejada, evitando improvisos. É a tentativa constante de prever o futuro, de não ser pego de surpresa. Aprendeu isso “comendo muita massa”, como ele mesmo diz: “Errando muito e perdendo em dobro”.
Minutos antes de entrar em campo no estádio Ciudad de La Plata, na Argentina, para o primeiro jogo da decisão da Copa Sul-Americana contra o argentino Estudiantes, em novembro de 2008, Tite tinha algo que o incomodava.
– Não saía da minha cabeça. Eu tinha que dividir aquilo – lembra o treinador.
Já havia estudado o time argentino de trás para a frente, junto com a sua comissão, mas achava que algo estava escapando.
– Cleber, tem uma coisa me incomodando. O que a gente faz se a gente tiver algum jogador expulso? – perguntou Tite ao auxiliar Cleber Xavier, no vestiário.
Os dois começaram a pensar, então, quais seriam as possibilidades.
– Se for um lateral? A gente pode baixar o Alex [meia]. E se for um atacante? Mais fácil, a gente faz duas linhas de quatro e centraliza um... – ia rabiscando Cleber em um papel, conjecturando.
O jogo, enfim, começou. No sexto minuto do primeiro tempo, Guiñazu deu uma entrada de carrinho em cima do adversário e o árbitro deu cartão amarelo para o jogador colorado. Aos 25 minutos o volante tentou um desarme, entrou com muita força e mais uma falta foi marcada: recebeu o segundo cartão e foi expulso do gramado.
– Aquilo foi mais do que tentar antecipar situações, acho que foi intuição mesmo. Era um pressentimento que eu nunca tive igual. A gente já estava preparado quando aconteceu a expulsão, conseguimos nos reorganizar de forma rápida e encaixamos de novo – conta Tite.
Sete minutos depois, Nilmar recebeu lançamento na área, ganhou do zagueiro, mas foi derrubado. Pênalti para o Internacional. Alex ainda teve que cobrar duas vezes para garantir o tento.
– Foi um pênalti escandaloso, não tinha como não dar. Fez o primeiro e o árbitro mandou voltar. Sabe quem era o juiz? O Carlos Amarilla. Pode acreditar! Eu só fui conectar isso há pouco tempo. Não tinha guardado isso. Não me pede para comentar, mas ele pediu para cobrar de novo e expulsou o Guiñazu, contra um time argentino. O julgamento fica para quem estiver lendo – desabafa o gaúcho.
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A tragédia de Oruro
Se 2013 será por vezes lembrado pela péssima atuação de Amarilla, jamais será esquecido por uma tragédia que aconteceu dois meses antes, em Oruro, na Bolívia. Na fase de grupos do torneio, um sinalizador da torcida corintiana matou Kevin Espada, um garoto de 14 anos, fanático pelo San José, time da cidade que enfrentava o Corinthians naquela noite de 20 de fevereiro.
O cilindro de plástico com 2,5 centímetros de diâmetro e vinte centímetros de comprimento, segundo dados do inquérito aberto para apontar os culpados, atravessou o olho e perfurou o crânio do adolescente. A morte foi instantânea, com perda de massa encefálica.
Ainda no estádio da partida, o Jesús Bermúdez, 12 torcedores corintianos foram presos com nove artefatos e ficaram detidos na Bolívia, sendo libertados mais tarde por falta de provas. Um grupo de sete torcedores foi o primeiro a conseguir a liberdade, apenas em junho de 2013. Os outros cinco corintianos só deixaram o Centro Penitenciário de San Pedro, em Oruro, no início de agosto de 2013.
Um menor, identificado como H.A.M., na época com 17 anos, assumiu ser o autor do disparo do sinalizador que vitimou Kevin assim que desembarcou em São Paulo. Na época, houve forte desconfiança de que se tratava de uma manobra para inocentar os torcedores presos e que o menor seria apenas um “laranja”, pois não poderia ser extraditado para a Bolívia por razão da sua idade. A identidade desse torcedor foi revelada assim que ele completou a maioridade: tratava-se de Hélder Alves Martins, que após o incidente recebeu apoio para conseguir emprego numa rede de cinemas em São Paulo, além de bolsa de estudos para completar o segundo grau e também para a faculdade, que acabou desistindo. Hélder manteve-se afastado da torcida uniformizada Gaviões da Fiel por um período, retornando após a poeira baixar, onde tornou-se responsável pelo Departamento de Bandeiras.
Atualmente, a polícia da Bolívia ainda tem o caso aberto. A do Brasil o arquivou seis meses depois.
– Eu só tenho que pedir que me desculpem. Eu sei que isso não vai tirar a dor de vocês, não vai tirar a dor da família, mas nós estamos muito sentidos. Eu trocaria o meu título mundial pela vida desse menino – declarou Tite, em coletiva de imprensa que teve um minuto de duração.
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