Tite
11. Magoabilidade
MAGOABILIDADE
O choro de decepção depois da Libertadores
Depois do ano dos sonhos, com a conquista da Libertadores e do bicampeonato no Mundial de Clubes, as coisas foram se perdendo no Corinthians. O ambiente, que até então era ótimo, foi ficando ruim. O que dava certo já não funcionava mais. As vitórias não eram da mesma maneira; as derrotas, mais doídas.
Mesmo logo depois da festa do título inédito no torneio sul-americano, antes do Japão, Tite já via sinais de que não seria fácil o que vinha pela frente. Tinha o desafio de trazer seus jogadores, imortalizados no coração de uma nação de mais de 30 milhões de torcedores, de volta à realidade. Missão que se tornaria quase impossível após a vitória contra o inglês Chelsea, em dezembro.
Não havia ainda completado um mês do histórico 4 de julho quando o treinador gaúcho chorou decepcionado pela primeira vez desde que havia começado seu trabalho à frente do clube. O time chegava à nona rodada do Brasileiro de 2012 amargando a zona de rebaixamento, depois de uma derrota para o Botafogo, por 3 X 1, em pleno Pacaembu. Tinha o Náutico pela frente, em casa mais uma vez.
– Vocês [jogadores] podem enumerar cinquenta defeitos em mim. Podem me encher de erro. Mas um erro que não podem falar de mim é falta da verdade e da lealdade. Mas vocês não estão correspondendo, não estão respondendo ao que eu estou falando, ao que eu estou pedindo, desde a conquista da Libertadores. E nós estamos afundando cada vez mais. Vocês não estão tendo comigo o respeito que eu tenho com vocês. Eu não mereço isso. Eu não fiz isso com vocês. E tô me sentindo traído por vocês. Vocês estão me machucando enquanto homem, enquanto profissional. Eu não mereço isso – disse Tite, antes do duelo contra a equipe pernambucana.
– Foi uma das palestras mais bonitas da minha vida. Eu estava muito mal. Estava me sentindo realmente traído por eles – recorda o treinador.
O jogo começou com um gol de Elicarlos para os visitantes. Danilo empatou no minuto seguinte, ainda no primeiro tempo, e marcou também o da virada, depois do intervalo, tirando o time alvinegro da zona de rebaixamento. O Corinthians terminou em sexto no Brasileiro naquele ano e ainda conseguiu fazer história com a conquista do Mundial, praticamente uma vitória da paz e do bom ambiente que tinham estacionado no Corinthians havia pelo menos cinco anos.
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O início da ruptura entre Andrés Sanchez e Mário Gobbi
Nos bastidores do Parque São Jorge, a euforia das conquistas também dava adeus logo após a volta do Japão. Mário Gobbi, delegado de polícia e conselheiro vitalício do clube desde 2002, tinha sido eleito presidente no início do ano mais vitorioso da história do Corinthians.
Em 11 de fevereiro de 2012, ele foi escolhido pelo antecessor Andrés Sanchez, presidente desde 2007. Sanchez tomou o poder quando Alberto Dualib renunciou ao cargo após escândalos envolvendo a parceria com a MSI. Uma das razões para a escolha de Mário Gobbi foi a sua experiência como vice-presidente e diretor de futebol.
Amigos e companheiros do mesmo grupo político (batizado como Renovação e Transparência), Andrés Sanchez e Mário Gobbi davam os sinais dos primeiros conflitos, embora nunca tenham tratado do assunto publicamente. Sobre o início dos desentendimentos há versões distintas, uma de cada lado, contadas pelos mesmos ou por aliados.
Não tinha ainda seis meses de gestão quando Mário Gobbi começou a olhar contratos assinados pelo antecessor, bem como contas do período anterior, chegando a contestar o que considerava excessivo, como centenas de multas de trânsito dos motoristas que trabalhavam lá (para Andrés Sanchez) desde 2007 e também do cartão corporativo da presidência.
Ao saber da vasculha a que estava exposto, Andrés Sanchez se irritou, pelo que chamou de falta de confiança e lealdade. E não havia nada que acontecesse que não ficasse sabendo, tinha informações em tempo real do que se passava, mesmo que as coisas não acontecessem do lado de dentro dos portões da rua São Jorge.
Dessa parte sou testemunha, quando cinco minutos depois de um almoço inédito meu com Luis Paulo Rosenberg, vice-presidente até 2015, e Mário Gobbi, Andrés já tinha a informação do encontro que acabara de acontecer, sabendo por meio de um aliado.
No entendimento de Mário Gobbi, a relação degringolou a partir do momento que seu antecessor tentava continuar mantendo o mesmo poder que tinha quando era presidente, metendo-se em todos os assuntos, tentando lhe transformar em rainha da Inglaterra, posição que não estava disposto a ocupar naquele momento.
Fez algumas mudanças na diretoria que também ofenderam o ex-presidente, como a demissão de pessoas de sua confiança. A chegada do conselheiro Max Reis para o departamento administrativo, que não tinha afinidade com o mandatário anterior, se tornou mais um problema.
Não ter mais liberdade completa e irrestrita no futebol, não ser ouvido e obedecido pelo novo presidente, como chegou a acontecer nos primeiros meses, também era um incômodo para Andrés Sanchez, que decidiu se demitir oficialmente – o que nunca acontecera na prática, embora insista que tenha se afastado.
– Eu fiquei fora e não dava nenhum palpite. Quem mandava ali era o Mário Gobbi.
O envolvimento não era mais tão forte, nem explícito, mas continuava. Sua relação com Edu Gaspar, gerente de futebol, com Roberto de Andrade, diretor, e Duílio Monteiro Alves, adjunto, era e permanecerá forte. Tinha dentro do CT o respeito que Mário Gobbi nunca conseguiu ganhar.
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A traição de Tite
Nos primeiros meses da guerra fria que tomou o clube, o time não foi diretamente afetado, isolado pela comissão técnica. Mas o problema chegou até Tite e não foi mais tão fácil separar as coisas. Enquanto a relação de Andrés Sanchez e Mário Gobbi ficava pior dia após dia, as informações sobre os problemas que enfrentavam começaram a chegar ao CT Joaquim Grava. Tite, porém, não tomou posição e manteve o respeito e a gratidão que tinha pelo ex-presidente.
– Eu não vou deixar de ter esse sentimento e não dou o direito de me cobrarem isso. Eu escolho as pessoas a quem eu vou ser leal. Tudo que eu tinha que falar para o Mário Gobbi, para o Andrés Sanchez e para o Roberto de Andrade, eu falei – lembra-se o treinador.
Mas não ter tomado posição era, no entendimento de Mário Gobbi, um jeito de se posicionar, um erro sem precedentes. A partir daquele momento, Tite virou para o então presidente mais um homem de Andrés Sanchez.
As fofocas circulavam, inflamando o Parque São Jorge e o CT. Ao treinador, diziam que Mário Gobbi não era um cara leal, que estava por todos os cantos do clube reclamando do trabalho desempenhado após a conquista da Libertadores e do Mundial. A Mário Gobbi, tentavam provar que Tite o havia abandonado.
A primeira situação mais explícita da confusão que tomou o Corinthians aconteceu no CT, em uma reunião convocada por Mário Gobbi com toda a comissão técnica, médicos e fisioterapeutas, em maio de 2013.
– O time está mal, não vejo ninguém correndo. O que está acontecendo? Está jogando com uma arrogância, com uma preguiça... Os jogadores estão cansados, não aguentam dar um pique e já estão morrendo no gramado. O que é isso? – foi parte do discurso do presidente no encontro, com tom de voz elevado, demonstrando irritação e inconformismo com a situação.
A cobrança desagradou. Ninguém que estava ali gostou do que tinha ouvido, tanto pela forma quanto pelo conteúdo. Algo visto como fora da realidade, uma bronca sem propósitos, depois de tantas glórias alcançadas. Estava escancarado que a relação de confiança tinha se quebrado e seria de difícil reparação.
O jeito reservado de Tite também se tornou um obstáculo. Se nos primeiros meses de relacionamento Mário Gobbi achou que a distância imposta pelo treinador era apenas coerente com a falta de intimidade que tinham, depois passou a achar que era falta de gratidão, de carinho e de respeito. Eram companheiros de missa, irmãos de fé, mas não se entendiam mais.
– Caminhávamos em engrenagens diferentes. Eu não sou de fazer jantares fora, de frequentar a casa das pessoas. Não é o meu estilo. Houve um desgaste, teve diferença, é verdade, mas os detalhes eu não digo – explica Tite.
As frequentes mensagens de celular enviadas por Mário Gobbi a Tite, com cobranças, questionamentos e lamentações, passaram a ser mal-interpretadas. Até que lhe chegou um pedido, por um membro da diretoria, para que não mais enviasse os SMS ao treinador, que estava incomodado com a situação.
– Não quero falar sobre isso. Houve muita coisa boa nesses três anos. Prefiro ficar com essas lembranças – desconversou Tite ao ser questionado sobre o fato.
Mesmo não indo tão bem quanto Mário Gobbi gostaria, o time foi campeão Paulista daquele ano. No início de maio, foi eliminado da Libertadores pelo Boca Juniors, em um jogo marcado por polêmicas com a arbitragem de Carlos Amarilla.
Em julho, daquela temporada que Mário Gobbi teria riscado da sua história, o Corinthians ainda ganhou a Recopa Sul-Americana, torneio de dois jogos entre o vencedor da Libertadores e da Sul-Americana do ano anterior, que era o São Paulo, ampliando a crise que caminhava a passos largos no Morumbi.
No segundo duelo da final, o presidente ouviu o pedido sutil e inesquecível da diretoria de não participar de uma preleção. As justificativas foram várias, jamais relacionadas ao treinador. Mas o mandatário já tinha a sua própria verdade: não entrou naquela reunião porque Tite não quis.
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Enrolado na toalha e cerveja na mão: Tite recebe visitas
Embora as críticas de Mário Gobbi não fossem bem-aceitas, era uma verdade que o rendimento do time havia caído, impossível negar, mesmo com os dois títulos do primeiro semestre daquele ano. Os jogadores sabiam, os torcedores enxergavam, era nítido. Quanto mais a relação ficava ruim, mais as cobranças eram ignoradas e mais arrogante a comissão e o elenco pareciam aos olhos do cartola, que se perguntava o tempo todo o porquê de tanto orgulho e vaidade.
Começaram, então, os meses mais difíceis. Em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, o Corinthians tomou a maior goleada do ano jogando contra a Portuguesa (4 X 0), e se viu afundado em uma crise sem portas de saída. Era a oitava partida sem vencer, o time estava a seis pontos da zona de rebaixamento e não demonstrava forças para reagir. Alessandro e Emerson Sheik foram à entrevista coletiva no lugar do técnico depois da goleada.
– Não houve um pedido para que o Tite ficasse simplesmente porque não houve nenhuma manifestação dele nesse sentido. Temos confiança no trabalho dele e isso vai mudar – afirmou o lateral Fábio Santos para a imprensa naquela noite. Uma meia-verdade.
Tite chegou ao vestiário e praticamente jogou a toalha. Disse ao grupo que estava atrapalhando o andamento das coisas, que não se sentia capaz de reverter o cenário que estava criado, que não poderia fazer mais nada por ali. Edu Gaspar pediu calma ao treinador, para não tomar decisões precipitadas, o mesmo discurso da maioria dos jogadores ainda ali no estádio.
– Eu fragilizei. Fragilizei muito. Não escondi de ninguém – lembra-se Tite.
A delegação voltou ao hotel na cidade, onde passaria a noite, para pegar o voo para São Paulo no dia seguinte. Uma noite difícil de digerir. Por volta das 21 horas, o treinador foi surpreendido com algumas batidas em sua porta. Acabara de sair do banho. Virou a maçaneta e deu de cara com 11 jogadores.
Alessandro era o primeiro da fila, que tinha Paulo André, Ralf, Danilo, Guerrero, Emerson, Cássio, Júlio César e outros. Espalharam-se pelo quarto do professor, como nunca fizeram antes daquele momento, sentados no chão.
– Quer que a gente volte depois, professor, para o senhor ficar à vontade? – perguntou o lateral direito Alessandro, vendo o Tite ainda com uma toalha no corpo e uma lata de cerveja na mão.
– Não, não, podem falar – respondeu o técnico, sorrindo, sem graça.
– Agora estamos em um pouquinho mais de gente aqui. Não viemos aqui para sermos simpáticos com você. Quem pode tirar o máximo de nós aqui, professor, é você. Não precisaria disso. A gente tem de rever algumas coisas, algumas situações importantes, mas é só você que pode tirar da gente o máximo que temos – falou Paulo André, o primeiro a abrir a conversa.
– Quem é que vai me treinar e me cobrar para eu não errar pênalti, professor? – perguntou Guerrero, que desperdiçou uma cobrança na derrota.
A conversa se estendeu.
– Discutimos, tentamos entender o porquê de tudo aquilo, o que a gente não estava conseguindo fazer. Um falava para o outro coisas como você passava mais a bola, agora não passa mais... Eram cobranças que em uma relação de grupo é difícil. Às vezes tem dificuldade de aceitar. Pô, por que ele tá falando isso se também não faz o dele? A gente tem essa linha de raciocínio, infelizmente, de não aceitar cobrança. Mas aí foi muito legal. Fomos nos entendendo – conta Alessandro.
– Vocês não me convenceram, mas ganharam mais um dia – disse Tite, colocando fim à conversa que deixara seu quarto lotado.
O time chegou a São Paulo na tarde do dia seguinte.
– Mário Gobbi me encontrou no CT e falou logo de cara: “Estamos juntos, professor”. Eu falei que tinha ficado chateado, fragilizado e pensado em sair. Mas respondi: “Vamos embora”. E seguimos – lembra Tite.
O contrato entre o clube e o campeão da Libertadores se aproximava do fim. Em 31 de dezembro o vínculo se acabaria se não houvesse renovação. E, claro, naquela situação não se falava no assunto. A prioridade era chegar ao número de pontos que desse segurança da permanência na elite do futebol brasileiro.
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Mano Menezes já estava acertado
A goleada sofrida naquele 29 de setembro tinha sido triste, mas não era a única dúvida de Tite sobre continuar naquela noite em Campo Grande. Uma semana antes, Mano Menezes tinha deixado o Flamengo e estava livre no mercado. Nunca foi segredo a boa relação que tinha com o presidente Mário Gobbi.
– Meu irmão recebia informações detalhadas de que Mário Gobbi e Mano Menezes estavam acertados. Ele sabia onde tinham sido os encontros, como estavam as coisas. Quando isso começou, meu irmão teve certeza de que estava sendo traído. Foi uma traição muito grande – conta Miro, o irmão de Tite.
Juram Mano Menezes e Mário Gobbi que a negociação nunca aconteceu e que as primeiras conversas foram feitas no final do ano, no momento em que já havia sido decidido que o contrato do então treinador corintiano não seria renovado.
– Não era uma questão do jogo em si, do resultado. Era muita coisa a mais. O feeling, as percepções, o conjunto da obra. As coisas paralelas. Era muita coisa junto – argumenta Tite. – Não sei se tinham acertado ou não. Quem sabe são eles.
No dia 2 de outubro, três dias depois da goleada, saiu a primeira notícia no jornal sobre o interesse do Corinthians no novo treinador. “Corinthians trabalha para ter Mano”, estampava a manchete da Folha de S.Paulo.
Naquele momento, o sentimento de desconfiança e de tristeza já tinha se transformado em revolta. A comissão técnica olhava para trás, analisava o ano e tinha certeza de que havia sido boicotada pelo então presidente. Até a falta de dinheiro para contratações na transição de 2012 para 2013 foi lembrada como parte de uma ação já planejada de Mário Gobbi contra os que comandavam o futebol. Interpretação completamente sem sentido para o então presidente.
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O teatro de Mário Gobbi
No jogo seguinte ao da derrota por 4 X 0, o Corinthians reagiu, ganhando do Bahia por 2 X 0. Foi só um pequeno respiro. As três rodadas seguintes resultaram em 0 X 0, jogando contra o Atlético Mineiro, o Atlético Paranaense e o São Paulo, sequência de partidas que ajudou a consolidar o apelido de “Empatite”: foram 17 empates na competição, o clube que mais empatou entre os vinte times da Série A. Logo veio outra derrota, para o Grêmio, por 1 X 0. Na volta de Porto Alegre, mais um dia de crise. Mário Gobbi chegou ao CT convicto de que a melhor decisão para o momento era a demissão do treinador.
O presidente fez uma reunião com a diretoria. Roberto de Andrade, Duílio Monteiro e Edu Gaspar participaram. Tite estava sozinho em sua sala durante a maior parte do tempo. O mandatário não tinha dúvida do que fazer e anunciava naquele momento quais seriam os próximos passos. A conversa foi se arrastando ao longo do dia até que em determinado momento Alessandro, Fábio Santos e Paulo André deram de cara com o trio da cúpula do futebol. A demissão foi avisada; os jogadores se opuseram.
– Vamos ali na sala com o Mário Gobbi e vocês falam isso para ele – disse Duílio Monteiro.
Um nervoso Mário Gobbi foi surpreendido pela chegada dos atletas. Lamentou e reclamou mais uma vez da situação da equipe, sem que ninguém pudesse lhe tirar razão naquele momento tão delicado do campeonato – eram apenas cinco pontos que a separavam da zona da degola, com apenas 37 pontos somados dos 87 disputados.
Fábio Santos, Paulo André e Alessandro concordavam que o momento era realmente muito ruim, mas que era normal depois de tantas conquistas e de um ano desgastante como foi 2012. Defendiam também que não era Tite o culpado por aquela situação, que ela havia se criado por responsabilidade de todos. E o principal: trocar o treinador naquela altura não seria a melhor atitude diante da missão que tinham, de se afastar da zona de rebaixamento.
– É isso que vocês querem? Então, tá. É isso que vocês vão ter. Chama o professor aqui, agora – gritou Mário Gobbi.
Em dois minutos o técnico já estava na sala.
– Professor, nós estamos lhe chamando aqui pra dizer que temos plena e irrestrita confiança no senhor. Você tem o apoio da presidência e da diretoria para permanecer no comando e nós temos certeza absoluta de que você vai conseguir tirar o nosso time dessa situação. Temos certeza e confiança – falou o presidente.
O trio de atletas acompanhou toda a conversa. Em nenhum momento foi mencionado que a demissão tinha sido cogitada, tampouco que foram os jogadores que lutaram pela permanência. Se ainda restava alguma confiança do elenco em Mário Gobbi, ali foi tudo por água abaixo. Relataram a amigos e companheiros do time que essa teria sido a reunião mais teatral que presenciaram na carreira futebolística.
– Eu tenho bem esse dia na minha cabeça. Não falo sobre ele. Só digo que me lembro dele. Só. Roberto de Andrade e Duílio Monteiro me sustentaram. Foram eles e a manifestação dos jogadores – comenta Tite.
E a vida que segue. No dia seguinte, a diretoria negava que a demissão de Tite havia sido pensada. Em entrevista para rádios, Mário Gobbi declarou que pensava em ampliar o contrato do comandante, “um homem muito ético”, e que a decisão seria tomada quando chegasse aos 47 pontos, zona de segurança para evitar o rebaixamento.
O Corinthians realizou uma campanha desequilibrada no Brasileiro de 2013. Ficou na décima colocação, com cinquenta pontos. Foram 17 empates e apenas 11 vitórias. Com dez derrotas, o time de Tite foi o terceiro clube que menos perdeu no torneio. A defesa também funcionou bem, tomando somente 22 gols – a melhor defesa do Brasileirão. Em compensação, foram apenas 27 gols marcados. O Corinthians só fez mais gols que o Náutico, que marcou 22 tentos e ficou na vigésima e última colocação.
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Decepcionado com o presidente
Para a comissão técnica, não há dúvida. Mário Gobbi foi o grande responsável por travar a sequência do trabalho no Corinthians.
– O Mário Gobbi foi uma decepção. Uma decepção muito grande – revela Cleber Xavier, auxiliar de Tite, em nossa conversa, em novembro de 2015.
Conta o seu irmão Miro:
– Foi uma mágoa que demorou para passar. Mas passou. Meu irmão me disse no começo desse ano, feliz: “Eu consegui dar um abraço nele”. Isso significava que tinha passado toda a tristeza.
Tristeza que talvez nunca tenha ido de fato embora do coração do ex-presidente, que se afastou do clube desde que terminou o mandato, em fevereiro de 2015. Passou por meses de turbulência que o deixaram até doente, além de 18 quilos mais gordo e com o triplo de cabelos brancos.
Mário Gobbi e aliados até hoje são convictos de que foi Andrés Sanchez quem criou boa parte de toda essa situação. Sustentam que ele ligava no momento de crise dando orientações do que fazer, “demite ou não demite”, mas que se escondia e não assumia a ninguém o que havia aconselhado por telefone, deixando cair sempre nas costas do então presidente – versão esta que foi contestada por Andrés Sanchez. Uma história com muitos meandros, sinuosidades, curvas e labirintos. Verdades inteiras, mentiras completas e interpretações a se perder de vista.
Fato é que no jogo de despedida de Mário Gobbi na temporada do hexa, Tite fez um pedido público de desculpas no vestiário, antes do amistoso contra o inglês Corinthian-Casuals, na Arena Corinthians, em Itaquera.
– Hoje não vou falar muito. Quero passar a palavra ao presidente, a quem quero pedir desculpas. Quero pedir perdão pelos erros que eu tenha cometido e por qualquer mágoa que eu tenha causado – disse o treinador.
Erros que não necessariamente cometeu, mágoas que não necessariamente causou. Mário Gobbi se surpreendeu com a atitude do técnico, disse que não havia nada para desculpar, que tudo estava certo. Não pediu perdão – nem no modo indicativo, nem no modo subjuntivo, nem pelo presente, nem pelo passado.
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