Tite
3. Religiosabilidade
RELIGIOSABILIDADE
O torcedor que emocionou Tite
Uma dose de preocupação e outra de ansiedade circulavam pela comissão técnica corintiana na 25a rodada do Brasileiro, antes do confronto com o Joinville, em Itaquera. Na busca pelo sexto título do campeonato, o time alvinegro havia empatado nas duas últimas partidas disputadas e estava com apenas três pontos de vantagem em relação ao vice-líder, o Atlético Mineiro.
No dia 6 de setembro, um domingo, o resultado foi de 3 X 3 com o Palmeiras, no Allianz Parque, em um dos melhores jogos da temporada, um dérbi para ser lembrado por muito tempo. O clube alviverde ficou três vezes à frente no placar (com Lucas, Dudu e Robinho), mas não conseguiu segurar essa vantagem. Guilherme Arana, Amaral (contra) e Vagner Love marcaram e impediram a derrota.
No meio da semana, no dia 9, o placar foi 1 X 1 no jogo contra o Grêmio, dentro de casa. Verdade seja dita, para esse duelo eram cinco desfalques de cada lado, por suspensões, lesões e convocações. O Corinthians não teve Fagner, Gil, Uendel, Bruno Henrique e Elias, enquanto a equipe tricolor estava sem Marcelo Grohe, Erazo, Maicon, Fernandinho e Luan. O susto veio com o gol feito por Bobô – jogador revelado pelo clube paulista – aos 13 minutos do segundo tempo, quando uma forte neblina tomava o estádio em Itaquera e tornava quase impossível a visão do campo. Renato Augusto marcou sete minutos depois, para o relaxamento corintiano apenas parcial – os alvinegros sabiam que não tinha sido um bom resultado. A vantagem para o Atlético Mineiro caiu para apenas três pontos. Perigoso.
Com esse clima e certa pressão que já começava a incomodar, a equipe voltou a Itaquera no domingo, dia 13. A paz veio das arquibancadas antes mesmo de o jogo começar, em um dos momentos mais emocionantes do ano para o treinador gaúcho – e para qualquer pessoa que tenha coração.
Aos 55 anos, João Marcos Andrietta, corintiano fanático, teve a chance de conhecer a nova casa alvinegra. Presença garantida em quase todas as partidas no Pacaembu, João se afastou dos estádios em 2009 por um motivo muito grave: foi diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica (ELA), com expectativa de apenas mais dois ou três anos de vida. Prolongando essa estimativa, contraria os médicos desde então em uma luta diária para sobreviver.
Impossibilitado de falar e de se movimentar, ele respira com a ajuda de aparelhos e precisa de cuidados médicos 24 horas por dia. Praticamente só consegue mexer os olhos, se alimenta por meio de sonda gástrica e respira por meio de traqueostomia. Conta com o carinho da esposa, Cirlene, com quem é casado desde 1986, e das duas filhas.
Empresário do ramo de artefatos de borracha, João se tornou fã de Tite pelos vários títulos conquistados, presentes que recebeu assistindo aos jogos pela televisão. Não só a paixão pelo Corinthians fez os dois se ligarem, mas também a forte relação com a religião. Essas foram motivações suficientes para a mobilização gigantesca que o fez chegar a Itaquera naquela tarde de domingo, uma megaoperação logística que custou quase 20 mil reais à família.
Uma ambulância com Unidade de Terapia Intensiva (UTI) saiu de Campinas para buscar João em Salto, onde mora, e o levou para a casa corintiana. Uma equipe médica o acompanhou durante todo o tempo: um neurologista, dois enfermeiros e um motorista. O clube fez sua parte e deixou um espaço reservadíssimo para João, um camarote no sexto andar, com a melhor recepção que ele poderia ter. O encontro tão esperado com o treinador aconteceu antes do jogo, no vestiário.
Tite ganhou de presente de João um terço de São Vicente de Paulo, de quem os dois são devotos. Como retribuição, o treinador gaúcho lhe entregou uma pulseira com seus santos de proteção, amuleto que costuma oferecer a pessoas queridas, a quem deseja paz e luz.
O duelo contra o Joinville foi um momento que ficará marcado para sempre na vida dos dois. Vencer por 3 X 0 espantou a preocupação, aumentando para cinco pontos a vantagem em relação ao vice-líder, que empatara com o Cruzeiro por 1 X 1.
– Não sei se a vitória ajudou o João ou se foi o João que nos ajudou – resumiu o treinador logo após a partida terminar, em coletiva de imprensa.
No último gol, Tite fez questão de olhar para o camarote em que estava João e de apontar o dedo, dedicando a ele aquela vitória, incomparável à sua na luta pela vida. Tite carregou até o fim do campeonato, no bolso direito da calça, o terço vicentino recebido de João.
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As pulseiras da sorte
A pulseira que João Marcos Andrietta ganhou naquele domingo de vitória contra o Joinville já tinha sido importante para vários jogadores treinados por Tite. Referência desde a sua segunda passagem pelo Corinthians, o treinador a presenteia principalmente em casos relacionados à saúde. Elas são dadas ao gaúcho por padres e servem para proteção, cada uma de um santo ou de uma santa de quem é devoto.
Entre os atletas, o primeiro a receber a pulseira foi Renato Augusto, depois de um jogo contra o Bahia, em julho de 2013, no qual sofreu sua segunda fratura no rosto ao se chocar violentamente com o atacante Souza, do time adversário. Uma cirurgia na manhã seguinte reestruturou os ossos que haviam se quebrado no lado esquerdo de sua face.
O jogador já tinha passado por um procedimento parecido em 2008, ainda mais grave, quando defendia o Flamengo. Ele se machucou após colidir com o zagueiro Helton durante a partida contra o Boavista, pelo Carioca. Naquela primeira operação, ganhou três placas de titânio de 1,5 milímetro de espessura e 11 parafusos no lado direito da face.
Não bastasse o azar de repetir a lesão, Renato ainda lamentava outra má sorte. O confronto contra o Bahia era o primeiro dele como titular após cerca de três meses sem jogar por causa de uma grave lesão muscular na coxa direita, conseguida em uma partida contra o Guarani de Campinas pelo Campeonato Paulista.
Conhecedor profundo do sentimento ruim dos contratempos médicos, Tite ficou tocado com a situação do jogador. Entendeu que o meia precisava, entre outras coisas, de fortalecimento espiritual, e lhe ofereceu uma de suas pulseiras, episódio que ficou marcado na memória do atleta.
Renato Augusto se recuperou, voltou a jogar e a pulseira, um dia, estourou. No dia seguinte, mais uma lesão, dessa vez menos grave. Pediu ao técnico um amuleto novo, logo retornou aos gramados e nunca mais abriu mão do presente do professor.
Rildo, Fábio Santos, Guilherme Arana, Uendel e Luciano foram outros jogadores que ganharam a proteção do treinador, também quando machucados.
– Tenho muito cuidado em não ser invasivo e apenas presentear quem for receptivo e se abrir para tal oferta. Vai muito da minha sensibilidade – contou Tite.
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Padre Marcelo
O padre popstar Marcelo Rossi foi convidado para a inauguração da capela no CT do Corinthians, no dia 8 de junho de 2012, pouco antes da semifinal da Libertadores, disputada contra o Santos.
A bênção funcionou – Emerson Sheik que o diga... Cinco dias depois do momento com o padre Marcelo, no dia 13 de junho, o atacante foi iluminado dentro de campo. Na Vila Belmiro, no jogo de ida das semifinais, aos 27 minutos do primeiro tempo, o camisa 11 recebeu um passe de Paulinho na entrada da área, pela esquerda, em um contra-ataque fulminante. Sheik dominou com a parte de fora do pé direito e fez um dos gols mais bonitos da sua carreira, metendo a bola no ângulo esquerdo de Rafael, que se esticou inteiro, mas não teve chance nenhuma de evitar o balançar da rede.
– Eu estou arrepiado, eu estou arrepiado – narrava Nilson César na AM 620 de São Paulo, a Rádio Jovem Pan, levando a emoção daquele instante até milhões de corintianos.
Esse foi um passo gigantesco para garantir a vaga na final, e o time de Tite conseguiu segurar o resultado durante todo o restante da partida, parando Neymar, Ganso, Elano, Borges e todas as substituições tentadas pelo técnico santista da época, Muricy Ramalho.
Uma semana depois, no duelo de volta disputado no Pacaembu, formou-se um nó na garganta dos torcedores aos 35 minutos do primeiro tempo. Depois de um cruzamento de Alan Kardec, Borges deu um toquinho na bola, que foi na trave e sobrou sozinha para Neymar apenas empurrar para dentro. Era a chance de uma reação do Santos, que escolheu jogar de camisa azul-turquesa em comemoração ao centenário. No segundo minuto em campo após o intervalo, Danilo colocou um ponto-final na esperança dos rivais. Alex cobrou falta longe da área, do lado esquerdo, a bola sobrou no pé do meia, que a dominou e bateu. O placar marcou 1 X 1, o empate que levou a equipe do Parque São Jorge para a tão esperada final.
Corintiano fanático, padre Marcelo Rossi comemorava as conquistas do clube e do amigo. Eles se conheceram na primeira passagem do treinador pelo Corinthians, por intermédio de Cláudio, dono de uma pizzaria no Tatuapé, zona Leste da capital. Em novembro de 2012, padre Marcelo inaugurou o Santuário Mãe de Deus, na avenida Interlagos, na zona Sul de São Paulo, e Tite e Rose passaram a frequentar as missas todas as quintas-feiras.
O trânsito, porém, se tornou um empecilho para o treinador. São quase trinta quilômetros entre a sua casa, no Tatuapé, e o local das orações de padre Marcelo Rossi, o que representava mais de uma hora e meia no horário de rush. O casal passou então a frequentar a Regina Mundi, uma igreja localizada a menos de quinhentos metros do prédio em que moram.
Quando não vão à missa, Tite e Rose aparecem na igreja pelo menos para uma oração ou apenas para ficar em silêncio. O treinador também diz que gosta de ter contato com outros padres.
– Eu gosto de ir a outros lugares porque é importante lembrar que não é só o padre Marcelo que tem isso. O padre da comunidade também é bacana, os das outras igrejas também são.
O forte laço de amizade entre Tite e padre Marcelo Rossi permaneceu. Padre Marcelo foi quem os recebeu na volta do Japão, com a taça do segundo título mundial do time paulista, e o técnico gaúcho chegou até mesmo a contribuir financeiramente com a construção do novo santuário do padre, mas afirma que não gosta de falar sobre as ajudas que dá, nem dos problemas que enfrenta com atrasos nos clubes por onde passa.
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O milagre da Recoleta
Tite também guarda o hábito de visitar igrejas nas viagens que faz em campeonatos nacionais e internacionais. Na véspera ou no dia do jogo sempre dá um jeito de passar em alguma igreja para conhecê-la ou então revê-la, e para desfrutar de um momento íntimo de reza e meditação.
No Mundial de Clubes, em 2012, na tarde anterior à finalíssima contra o Chelsea, da Inglaterra, o treinador e o então presidente, Mário Gobbi, queriam de todas as formas encontrar uma capela em Yokohama, no Japão. Essa era uma tarefa difícil em um país onde menos de 500 mil pessoas praticam o catolicismo – segundo estatísticas de uma conferência de bispos realizada em 2014. Ou seja, apenas 0,35% de uma população de mais de 123 milhões de habitantes segue o cristianismo.
Eles não tinham nenhuma indicação, mas os seguranças descobriram um local. O modesto santuário ficava em um pequeno edifício, em cima de uma loja, bem escondido. Mário Gobbi e Tite, acompanhados de Ronaldo Ximenes, na época secretário-geral do clube, e de Elie Werdo, então vice-presidente, foram até lá. Um padre muito gentil recebeu o grupo e fez uma rápida oração – a missão estava cumprida.
– Tem um cunho cultural também, de visitação. As igrejas mostram a história do local, a arquitetura, a cultura do povo daquela cidade. É muito legal por isso também. Aquela na sobreloja foi bem bacana. Eu me lembro perfeitamente do lugar – explica Tite.
Quando vai a Buenos Aires, na Argentina, nunca deixa de ir à igreja Nossa Senhora do Pilar, uma das suas preferidas, localizada na Recoleta, bairro nobre onde fica um dos metros quadrados mais caros do país. Ali estão também diversas atrações turísticas, entre elas um cemitério onde estão sepultadas personalidades como Evita Perón, atriz, líder política e ex-primeira-dama argentina.
Antes da decisão contra o time local Boca Juniors, em 2012, no jogo de ida, passou por lá no dia da partida, ao lado dos mesmos companheiros do Japão.
– Eu fui lá com todos os clubes que eu defendi e é um lugar que me traz uma paz muito grande. Tem um espaço especial lá dentro, com uma luz baixa, que me faz muito bem.
Mário Gobbi costuma dizer que ali teve uma sensação muito boa de que o time teria um bom resultado no estádio La Bombonera, a casa do Boca. O jogo terminou em 1 X 1, com um milagre na vida de Romarinho, que marcou o gol de empate para os corintianos.
Com 21 anos, ele estava entre as últimas opções na lista de Tite para estar naquela partida da noite de 27 de junho. Tinha sido apresentado exatos 23 dias antes, vindo do paulista Bragantino. O treinador sempre carregou um princípio muito forte de respeitar hierarquias do ponto de vista de quem está há mais tempo, de quem treina mais duro, de quem se dedica mais. Assim, não podia levar o novato.
Mas como explicar isso a 30 milhões de torcedores que assistiram surpresos, três dias antes, à virada contra o Palmeiras comandada por Romarinho? Em sua primeira vez como titular, na tarde do domingo, o garoto empatou o jogo pelo Campeonato Brasileiro com um gol de letra, depois de receber cruzamento de Liedson, e fez outro golaço para sacramentar a vitória dando um drible em Cicinho na entrada da área e um lindo chute no canto direito do goleiro Bruno.
Uma reunião para definir quem seriam os relacionados decidiu de forma unânime que Romarinho viajaria para a Argentina. Chegando lá, outra dúvida: relacioná-lo ou não para o duelo? Tite teve de fazer a escolha, tirando Willian do banco de reservas e dando espaço ao recém-chegado.
O confronto já chegava à reta final, aos 28 minutos do segundo tempo, quando o zagueiro Roncaglia conseguiu abrir o placar para os donos da casa. Em um lance de bate e rebate, Chicão ainda conseguiu afastar na primeira vez, com sua mão direita, mas não salvou na segunda: 1 X 0 para o Boca, naquele primeiro jogo da final. Dez minutos depois, substituição na equipe corintiana: sai o experiente Danilo para a entrada do estreante Romarinho.
Com nome de craque, saiu do banco de reservas para se tornar o herói daquela noite. Ele não estava nem há dois minutos em campo, aquela era a primeira bola que recebia, e fez um gol para marcar de vez o seu nome na história do clube. Em uma jogada de contra-ataque, Paulinho arrancou, tocou para Sheik, que deixou o jovem jogador na frente do goleiro. Um toque bonito, que passou por cima do goleiro Orión, e salvou o time de um tropeço na Bombonera.
– Brilhou minha estrela e pude dar essa felicidade a todos – resumiu Romarinho na saída de campo, ao comentar sobre o gol mais importante de sua carreira.
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Cadê as velas?
Na sala do CT corintiano, Tite instalou seu altar particular – como sempre fez em todos os clubes por onde passou. Uma bíblia, imagens de santos e de santas, um terço e velas. Não marca compromisso antes de fazer sua oração diária. Na hora de ir embora, repete o ritual. Apoia um dos seus joelhos no chão e reza.
É o roupeiro Edízio Borges de Almeida o responsável por carregar a imagem de Nossa Senhora Aparecida em todas as viagens para os jogos.
– É a primeira coisa que ele me pergunta quando chega no vestiário das viagens: “Cadê a santinha, Edízio?”.
Jogando em casa ou fora, a rotina é a mesma. Vestido com uma camisa de cor próxima à do clube em que está, entra no ônibus, liga para a esposa, para a filha e para a mãe para pedir uma bênção. Dona Ivone ainda dá a dica da santa ou do santo do dia para orientar a reza. No estádio, faz sua oração, sozinho, e acende uma vela. Depois, faz a prece em conjunto com o time todo em círculo, antes de o duelo começar, e voltam à formação circular ao final do jogo para agradecer. Carrega ainda para dentro do campo sua garrafinha com um aditivo: é água de tomar, mas sempre tem duas ou três gotinhas especiais – é Rose quem providencia a água-benta.
Responsável por ajudar a pensar nas estratégias do time, a definir quem entra e quem sai, a escolher os 11 jogadores que vão começar em campo, Cleber Xavier carrega ainda outra tarefa tão importante quanto todas essas. Tem de ver, a cada partida, se as velas colocadas ao lado da imagem de Nossa Senhora Aparecida estão acesas. Um dia, ele não achou nada ali no cantinho da fé, nem vela acesa nem vela apagada.
Isso aconteceu no México, no confronto contra o Cruz Azul, no estádio Azul, em 14 de março de 2012. No terceiro duelo da fase de grupos da Libertadores, tinham se esquecido das velas.
– Não tem jogo que comece se não tiver a vela lá. Quando o Tite viu, pediu para o segurança sair para comprar. A sorte é que tinha um mercadinho perto e ele encontrou logo, mas se só tivesse vela longe, ia ter que buscar do mesmo jeito – lembra Edízio.
As velas apareceram, mas a vitória não veio no estádio Azul. Podem ter servido para Chicão e Júlio César, que conseguiram afastar duas bolas da linha do gol, nos minutos finais do segundo tempo. Os quase 30 mil torcedores que foram assistir ao duelo pagaram pouco, entre 5,70 reais e 11,50 reais, para ver um empate sem gols. O time voltou da Cidade do México com a invencibilidade e a boa campanha no torneio mantida – 1 X 1 contra o Deportivo Táchira, da Venezuela, fora de casa, e 2 X 0 contra o Nacional, do Paraguai, dessa vez no Brasil.
Além do ritual das velas, vez ou outra Tite aparece com alguma coisa diferente. Na época do Grêmio, no início da década de 2000, o treinador chegou com folhinhas de oliveira antes dos jogos. Ficava com algumas e dava as outras para Cleber Xavier. A fase não estava das melhores. Duas derrotas seguidas e um empate. Tite tentava descobrir o motivo do momento ruim.
– Tu não tá queimando a folhinha, Cleber?
Não estava, não tinha entendido que tinha de queimar. Não lembram, os dois, se as vitórias vieram depois do auxiliar entender o tratamento correto para as folhas de oliveira, mas ambos têm certeza de que, anos mais tarde, isso virou piada e mais uma história para contar.
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Farroupilha: 22 quilômetros a pé até Caravaggio
O relógio marcava quase cinco horas da manhã quando Tite se aproximou do Santuário de Nossa Senhora do Caravaggio, na cidade de Farroupilha, no Rio Grande do Sul. Ele percorreu 22 quilômetros durante a madrugada, a pé, para chegar ao local e fazer um agradecimento, devoto que é.
Era 1999, e Tite havia conseguido a classificação para disputar a Série C do Brasileiro no seu retorno ao comando do Caxias – sua primeira passagem pelo clube aconteceu em 1991. O único gol da partida, contra o gaúcho São Luiz do Ijuí, saiu nos últimos minutos, em um lance de pênalti. Foi o goleiro da sua equipe, Gilmar Dal Pozzo, mais tarde também treinador e grande amigo que o futebol lhe deu, quem marcou e garantiu a vaga na “terceirona”.
– Foi a primeira vez que eu marquei um gol de pênalti. O batedor oficial não estava, eu já andava treinando e peguei a bola – lembrou Gilmar em nossa conversa.
Gilmar Dal Pozzo achou então que não podia deixar de se juntar a Tite na peregrinação e acompanhou o amigo na madrugada. Jorginho, preparador de goleiros, e Geraldo Delamore, preparador físico, também fizeram companhia a Tite. Contam que tiveram, os quatro, de correr dos cachorros que passavam na estrada, no meio da escuridão.
Depois de mais de quatro horas de caminhada, cansados, ao fim do percurso, receberam um grande reforço: Rose apareceu de carro, perto das cinco da manhã, para levá-los embora.
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Duas voltas na pista: o drible na morte
Inconformado com o vice-campeonato do Brasileiro de 1986, quando defendia o Guarani de Campinas, cuja final aconteceu em 1987, Tite quase pendurou as chuteiras e a roupa toda de uma vez só quando sofreu um acidente de carro na volta para Caxias do Sul.
Depois da derrota para o São Paulo na disputa por pênaltis, não conseguia pegar no sono e resolveu viajar às seis da manhã, acompanhado de sua esposa Rose.
Estavam na BR-116, rodovia federal que liga Fortaleza, no Ceará, a Jaguarão, no Rio Grande do Sul, hoje bastante conhecida como “rodovia da morte”, por computar altíssimo índice de acidentes. Após horas de viagem, já no finzinho da tarde, o ainda jogador perdeu o controle da direção, deu duas voltas na pista e, por pouco, não caiu em uma ribanceira.
Tite só revelou o ocorrido muitos anos depois, em novembro de 2011, ao conceder uma entrevista para o jornal Folha de S.Paulo. Na época, explicou que a viagem foi motivada pela vontade de ficar perto da família e esquecer o vice-campeonato.
Para ele, motivo de sobra para acreditar ainda mais em Deus.
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A contradição entre a lesão e a fé
Tite se tornou católico ainda na barriga de sua mãe. Dona Ivone, com medo de perder o bebê pela queda sofrida na escada, fez uma promessa. Devota de São Leonardo Murialdo, prometeu que, se tudo corresse bem e o bebê que estava dentro dela nascesse com saúde, daria o nome Leonardo à criança.
Tite aprendeu a ler com a Bíblia e a falar rezando o pai-nosso. Nunca abandonou a fé. Dona Ivone até queria que ele fosse padre, mas essa ideia não deu certo.
– Ele sempre me disse que treinador até podia ser, mas padre, de jeito nenhum.
Pouco antes de completar vinte anos, Adenor Leonardo Bachi viu uma igreja pegar fogo bem pertinho da sua antiga casa, na colônia de São Braz. Coincidentemente, era São Leonardo Murialdo o padroeiro daquela igreja. Nada se salvou no incêndio e Tite ficou chateado com a destruição.
Juntou o pouco do dinheiro que ganhava na época, ainda tentando iniciar a carreira de jogador, e comprou uma imagem do santo para colocar na igreja nova, que logo começou a ser construída.
Miro acredita, porém, que seu irmão intensificou a relação com a religião a cada lesão que teve, que lhe tiraram o sonho de ser jogador de futebol.
– É meio contraditório isso. Eu acho que se eu me machucasse do jeito que aconteceu com ele, era capaz de passar a acreditar menos.
Tite se apegava às orações e à fisioterapia após cada cirurgia que fez nos joelhos – foram duas no ligamento cruzado e cinco artroscopias. A cada operação a que era submetido, ouvia um conselho diferente para buscar outras crenças que o ajudassem a sair daquela situação.
– Paradoxal, mas é verdade. Diversas pessoas, nos momentos de fragilidade, me falavam para ir a tal religião, a tal centro, a tal pessoa. Eu dizia que a vida toda tive a minha crença e a minha conduta, e tinha chegado até lá. E não ia deixar que uma lesão mudasse a minha vida. Na adversidade eu ia mudar? Respeito todas as crenças. Mas por que modificar na adversidade? A cada momento eu ia ter que mudar então? – argumenta Tite.
Foram quase dez anos na carreira de jogador; desses, aproximadamente três anos inteiros de recuperação.
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