Tite
2. Familiabilidade
FAMILIABILIDADE
Mãe Alessandro, pai Júlio César
Tite, Adenor Leonardo Bachi, nasceu em uma quinta-feira, dia 25 de maio de 1961, na pequena colônia italiana São Braz, zona rural próxima de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul. Antes dele, dona Ivone Mazochi e seu Genor Bachi, chamado de Agenor, que faleceu em 2009, tiveram Beatriz e, quatro anos depois, o mais novo, Ademir, de apelido Miro. Cinquenta anos mais tarde, Tite ganhou vida de novo em um domingo, dia 6 de fevereiro de 2011, no estádio Paulo Machado de Carvalho, o Pacaembu, às 18:35 horas.
O lateral direito Alessandro foi o responsável pelo parto daquele fim de semana em um jogo contra o Palmeiras, pelo Campeonato Paulista, decisivo para a carreira do treinador. Se o ex-lateral foi a mãe, vamos dizer assim, Júlio César, então goleiro titular, foi o pai: fechou o gol com pelo menos oito defesas incríveis e garantiu a vitória por 1 X 0.
– Júlio e Alessandro me salvaram – costuma brincar Tite. Júlio César foi emprestado para o Náutico em 2014 e Alessandro, ao deixar a carreira de jogador, se tornou coordenador técnico do Parque São Jorge em janeiro do mesmo ano.
Quatro dias antes daquela tarde, no dia 2 de fevereiro, o Corinthians, já comandado pelo técnico gaúcho, protagonizou um dos maiores vexames da sua história. Com Ronaldo Fenômeno ainda no elenco, fora eliminado pelo colombiano Deportes Tolima no estádio Manuel Murillo Toro, em Ibagué, capital musical da Colômbia, e não conseguiu se classificar para a fase de grupos da Libertadores.
A partida de ida, realizada em 26 de janeiro no Pacaembu, acabou com empate por 0 X 0 e a decisão ficou para a partida de volta, no país do adversário. Apesar de o Corinthians pressionar os noventa minutos, o nervosismo e, principalmente, a falta de ritmo, pois o time tinha voltado das férias 23 dias antes da partida, predominaram no jogo.
Mesmo assim, quem apostaria em fracasso do Corinthians? A partida terminou em 2 X 0, com gols de duas figuras que ficaram guardadas para sempre na memória da Fiel, Danny Santoya e Wilder Medina. Houve festa com todos os tipos de som para os quase 470 mil habitantes daquela cidade, distante duzentos quilômetros da capital Bogotá.
Não era só mais um, era o principal fracasso do clube na incansável e obsessiva luta pela conquista do primeiro título do torneio sul-americano. As piadas se multiplicaram. Sem Libertadores, o primeiro brasileiro a ser eliminado antes mesmo da competição começar de fato, e perder para o Tolima. Para o Tolima! Definitivamente, esse era um fracasso histórico.
Por volta da uma da tarde da quinta-feira, o dia seguinte àquela humilhação, o avião dos corintianos pousou de volta no Brasil, no aeroporto de Viracopos, em Campinas. Desceram na pista e nem passaram pelo saguão, como estratégia para fugir dos torcedores. Em vez de irem ao CT, foram para o hotel Radisson, em Alphaville, oitenta quilômetros distante do local onde aterrissaram, despistando de todas as formas centenas de indignados com o resultado da quarta-feira. Chegaram ao hotel às 14 horas, e ali ao menos sete táxis já aguardavam para fazer os traslados necessários de atletas, comissão técnica e dirigentes.
Tite havia chegado ao clube quatro meses antes, em outubro de 2010, vindo de curtíssima temporada nos Emirados Árabes, com a tarefa de reerguer a equipe da crise deixada por Adilson Batista a oito rodadas do fim do Brasileiro. Chegou a brigar pelo título e terminou em terceiro lugar na tabela, a mesma colocação deixada pelo ex-técnico, o que o credenciou para disputar a pré-Libertadores. Diante do resultado vergonhoso contra o time colombiano, o técnico se viu por um fio.
– Você fica, professor. Estamos juntos ou não estamos? – disse Andrés Sanchez, então presidente do Corinthians, ao entrar na sala do comandante no CT Joaquim Grava naquela sexta-feira, apertando sua mão e dando-lhe um abraço.
Contudo, o professor não era mais um novato. Conhecia o futebol. Ele já não era aquele treinador de times pequenos do interior do Rio Grande do Sul. Estava na sua segunda passagem pelo Parque São Jorge, tinha treinado São Caetano, Grêmio, Atlético Mineiro, Palmeiras e Internacional, além de ter morado duas vezes nos Emirados Árabes, comandando o Al Ain e o Al Wahda. Sabia que o discurso do dirigente não era uma verdade na qual poderia acreditar cegamente, ainda que Andrés Sanchez jure até hoje que jamais o dispensaria.
O treinador dependia de resultados, e uma derrota para o maior rival da capital naquele comecinho de noite de 6 de fevereiro poderia, sim, significar a sua demissão. Para Tite, estava mais do que clara a situação ao encontrar o presidente do clube naquela sexta-feira.
Nos muros do CT já se via o ânimo da torcida: pichações contra Tite, Roberto Carlos, Ronaldo e o então presidente Andrés Sanchez. No estacionamento, mais um sinal da revolta: na noite da derrota para o Tolima, dez torcedores encapuzados invadiram o local e apedrejaram carros de jogadores, de dirigentes e de membros da comissão técnica. Não bastasse isso, por volta das quatro da tarde daquela sexta-feira, cerca de cinquenta integrantes de torcidas organizadas apareceram para mais um protesto durante o treino para a partida contra o Palmeiras.
“Ronaldo: a maior barriga, o maior salário, o menor futebol”, estampava um dos cartazes levados ao CT, localizado na rodovia Ayrton Senna. Era pressão total.
Para o confronto com a equipe de Luiz Felipe Scolari ainda havia mais inconvenientes. Ronaldo, Roberto Carlos e Dentinho estavam fora por problemas físicos. Com mando do Palmeiras e público de 23.714 pagantes, as arquibancadas do Pacaembu estavam coloridas de alviverde, com uma exceção: o amarelo, o azul e o vermelho, as cores da bandeira colombiana, em uma faixa que subia do setor amarelo do Paulo Machado de Carvalho, provocação aos alvinegros com a legenda gozadora: “Ha Ha Ha”.
Bola rolando, não perca a conta de todos os que tentaram balançar a rede naquela tarde em que Júlio César postulou sua canonização, no lugar de Marcos, goleiro palmeirense: o atacante Kléber Gladiador, o recordista, foi parado seis vezes, Marcos Assunção, uma vez, assim como Mauricio Ramos, Tinga e Max Santos, que ainda encontrou a trave pela frente.
Em uma das raras chances do Corinthians, aos 37 minutos do segundo tempo, Alessandro fez tabela com o meia Moraes, desde o meio de campo, chegou na cara do gol e bateu rasteiro, como havia pedido Tite na preleção feita horas antes de o jogo começar. Não havia chance de beatificação para o lado alviverde desta vez.
– São coisas do futebol. Se o time não ganhasse, era muito provável que as mudanças acontecessem. Uma hora a gente salva, em outra a gente é salvo. Um ano depois, o Cássio me salvou – brincou Alessandro, lembrando-se do lance das quartas de final da Libertadores de 2012 contra o Vasco, no Pacaembu; seu passe errado deixou Diego Souza cara a cara com o goleiro corintiano, que fez uma das mais importantes defesas da sua carreira.
Alessandro e Júlio César fizeram Tite respirar de novo, e isso era só o começo.
OceanofPDF.com
Dezesseis degraus abaixo: o sufoco do parto
A aflição de esperar quase até o fim pelo gol do lateral contra o Palmeiras, que lhe segurou no cargo e no caminho das principais glórias, não pode se comparar às dificuldades do verdadeiro parto de Tite, ou Ade, como era chamado pelos familiares. Já com o seu garotinho na barriga, e pouco depois de descobrir a nova gravidez, dona Ivone rolou os 16 degraus de uma escada.
– A gente não tinha dinheiro nem para o ônibus. Meu marido me colocou em uma carroça para me levar ao médico. A doutora que me atendeu falou que não tinha remédio, que tinha que fazer repouso – contou ela, com lágrimas nos olhos, sentada à mesa da cozinha de sua casa, no bairro de Ana Rech, em Caxias do Sul.
Depois de oferecer a mim uma boa sopa e frango ao molho, sua especialidade, dona Ivone serviu uma xícara de café, em nossa conversa em novembro de 2015, enquanto se lembrava quantos meses teve de ficar deitada na cama sem poder fazer nada além de esperar, até a hora de dar à luz. A família vivia, naquela época, tempos difíceis. Eles moravam em uma pequena casa da colônia São Braz. Todos dormiam em um mesmo quarto, tinham pouco dinheiro e muitas vezes faltava comida para pôr na mesa. Não cabe na memória de dona Ivone quantas refeições fez apenas com um restinho de leite que sobrava, misturado com água da torneira.
Seus irmãos nasceram no Hospital Pompeia, em Caxias do Sul, mas as contrações para o nascimento de Tite começaram antes do previsto e o parto aconteceu em um pavilhão da colônia. Mesmo com apenas oito meses, aquele garotinho já era grande o suficiente para dar trabalho para sair da barriga da mãe. Sua cabeça passou pelo canal, mas não havia milagre que tirasse o restante do corpo.
Orações foram feitas na capela que ficava ao lado, tamanha era a dificuldade para o guri nascer. Pelo menos três pessoas tiveram de ajudar a retirá-lo de dentro da mãe. Assim que finalmente se despediu da barriga de dona Ivone, Tite foi levado pelo pai para o quarto de sua casa, dessa vez 16 degraus acima, e foi escondido das visitas em um cantinho entre as quatro paredes, enrolado em uma toalha.
– Ele nasceu com muitas deformações e o pai foi guardar ele para que ninguém visse. Ele é um homem tão bonito, não dá nem pra acreditar que isso aconteceu. Por ter ficado prensado dentro de mim, passou mais de um mês com lencinho amarrado para poder se ajeitar.
A preocupação com a saúde da criança recém-nascida era tanta, que só depois a família foi olhar com atenção e percebeu que se tratava de um menininho. Apaixonada pelo marido, dona Ivone queria que o filho fosse batizado com o mesmo nome dele. Aconselhada por uma prima a trocar a letra g pela d, mudou de ideia na última hora. E ficou assim: Adenor, filho de Agenor.
OceanofPDF.com
A ordem de um aborto
A família poderia ter sido ainda maior. Pouco tempo depois da chegada do terceiro filho, o casal foi surpreendido por outra gravidez. A inspiração de dona Ivone vinha de dentro de casa. Ela tinha 11 irmãos e sempre dizia: “Quero mais filhos”.
No entanto, o casal rapidamente percebeu que não seria nada fácil ter mais um. Em 1965, após o nascimento de Miro, o caçula, eles se mudaram para uma pequena casa no bairro de Lourdes, onde as três crianças foram criadas. O pai trabalhava em um sacolão, enquanto a mãe passava o dia costurando, lavando roupa e se esforçando para a clientela aumentar. Essa era toda a receita que tinham para colocar comida na mesa.
Foi do seu Agenor a palavra final para que a gestação fosse interrompida. Com medo do marido, dona Ivone, apesar de relutante, aceitou a decisão e assumiu carregar para o resto da vida o sentimento de culpa pela escolha feita.
– Meu marido sempre foi muito bravo. Eu tinha um medo que me pelava inteira. Quando ele dizia não, era não. O bebê estava dentro de mim, não dentro dele. Mas eu concordei, né? Ele era bravo mesmo, e eu sabia que a dificuldade seria grande. A culpa é minha – sentenciou a mãe de Beatriz, de Ade e de Miro.
Enquanto lavava a louça do almoço, dona Ivone ia se recordando dos fatos, mesmo quando não havia nenhuma pergunta específica a responder. A memória, aos oitenta anos, já lhe causava certa irritação entre um e outro esquecimento, ou quando começava uma nova frase, um novo assunto. Sobre o filho que não teve, em meio a uma quase guerra com ela mesma em suas recordações, disse:
– Mas disso eu nunca vou me esquecer...
Se seu Agenor esbanjava braveza e dava medo, sua esposa é carinhosa a cada palavra dita, a cada choro derramado. Doce só de olhar, “querida” e “baixinha” foram algumas das formas escolhidas por ela para se dirigir a mim. Sim, uma batelada de ternura a cada pronunciamento. Tamanha é sua gentileza que conseguiu perdoar o marido, guardando a própria mágoa no coração.
OceanofPDF.com Encontro com Felipão (I): o camisa 10 bom de bola
Dona Ivone diz que Tite puxou muito ao pai. Certamente não foi no jeito bravo. Tampouco no jeito quase sempre frio. Seu Agenor, dizem, não mostrava os dentes. Seu filho, embora reservado, não deixa um treino sem tirar fotos com fãs que aparecem no CT Joaquim Grava em dias de atividade. Sorri na hora do clique, e fora dele também.
O chefe dos Bachi não dizia “te amo” por nada nesse mundo. Carinho não era coisa dele. O momento em que mais falava, sem poupar a língua, era ao assistir jogos de futebol.
– O seu Agenor era corneteiro demais. Não perdoava um jogador – contou Alvaro Mentta, amigo da família. – Cornetava antes do Tite virar jogador, antes de virar técnico. Depois, cornetava as contratações dos times do filho.
Juventudistas de nascimento, gremistas de coração. A família sempre teve ligação forte com o futebol. Das brincadeiras na rua aos campeonatos do colégio, havia um incentivo do pai para ver o filho seguir seus passos e também se tornar esportista.
Tite e Miro passavam quase todas as tardes jogando bola. No colégio em que estudavam, o Estadual do Guarani, hoje Henrique Emilio Meyer, não havia quadra. O que não chegava a ser problema – pulavam o muro de uma escola particular de freiras, a Madre Imilda, que ficava a pouco mais de duzentos metros de onde moravam. As peladas ali disputadas ajudavam na preparação para as competições intercolegiais. E foi em um desses jogos que a vida de Ade começou a mudar, a começar pelo apelido.
No final da década de 1970, Luiz Felipe Scolari, 17 anos mais velho que Tite, já arriscava a vida como treinador. Dividia seu tempo entre as aulas de educação física que lecionava com o comando da equipe de um colégio estadual, o Cristóvão Mendonza, além de ser um jogador quase veterano do Caxias, pois já estava perto dos trinta anos.
Em um desses campeonatos conheceu o ainda Ade. Ele era o camisa 10 da sua equipe, meia-esquerda, destacava-se entre os demais. Do seu lado direito estava outro aluno, conhecido justamente pelo apelido de Tite. Felipão saiu daquela partida admirado com o futebol do camisa 10. Gostou do que viu e não deixou essas lembranças se perderem.
OceanofPDF.com Encontro com Felipão (II): quando Ade se transformou em Tite
Sem achar que o futebol daria algum fruto ao jovem garoto apaixonado pelo esporte, seu Agenor não teve dúvida: passou a cobrar do filho ajuda para as contas da casa ou, pelo menos, que ganhasse o suficiente para se manter.
Naquela época, 1978, Tite dava os primeiros passos nas categorias de base do Juventude, onde o escalaram como zagueiro. Já havia passado também por uma escolinha na própria colônia, o Esporte Clube Juvenil.
– Pela estatura dele e também porque gostavam do meio-campo que tinham, acabou ficando na defesa. Mas não era ali que ele queria jogar – explicou Miro para mim, em Caxias do Sul, na casa da mãe.
Beatriz, a irmã mais velha, já trabalhava havia algum tempo em uma concessionária da Volkswagen em Caxias do Sul. Resolveu ajudar o irmão e insistiu com seus chefes por uma oportunidade para o menino de 17 anos. Em poucos dias Tite foi contratado como office-boy da loja, mas o trabalho não durou nem uma semana.
Isso porque um encontro com Scolari, ali mesmo na revendedora de carros, fez com que a vida tomasse outro rumo. Felipão ainda tinha na cabeça o futebol de Ade, o camisa 10 que se destacava, mas, por traição da memória, guardou o nome do outro meio-campista do time, o tal de Tite que era, na verdade, Altemir Craver. Essa confusão de nomes nunca se desfez e o Ade acabou ficando com o apelido do colega.
– O Luiz Felipe foi na concessionária por acaso e viu o Ade lá, que ele chamava de Tite. E ele perguntou se o Ade não queria fazer um teste no Caxias. Ele não pensou nem duas vezes – lembrou o irmão.
A exigência de ajudar a pôr dinheiro em casa não tinha sido esquecida por seu Agenor, que não gostou da ideia de o filho largar o emprego que havia acabado de conseguir. Mesmo a contragosto, a mãe dessa vez foi firme e segurou as pontas.
– Eu disse: “Ade, pode ir. Vou trabalhar mais e você vai tentar sua vida lá. Não tem problema” – contou dona Ivone, que passou a buscar mais clientes e encomendas para costurar, orgulhosa por ter sido parte fundamental no caminho do filho.
Dona Ivone se lembra do quanto seu marido era mão-fechada. Diz ela que seu Agenor não a abria por nada. Ao ficar acordada por mais tempo para trabalhar ainda mais, quando ela sentia muito sono, batia com a tesoura de costura na cabeça para afastar o cansaço e continuar a produção.
– Eu sempre coloquei dinheiro em casa. Era pouco, mas a minha parte era grande. Eu que dava dinheiro para esse menino jogar bola. E eu nunca quis nem um tostão do meu marido. Onde ele [seu Agenor] estiver agora, vai dizer que nunca na vida deu dez tostões para a mulher dele.
Depois do encontro na concessionária, o jovem foi apresentado aos dirigentes do Caxias. Já não era mais “gringo”, chamamento para os descendentes de italianos nascidos nas colônias, nem Ade, o apelido familiar – ele agora era Tite, o guri do futebol. Foi aprovado nas avaliações do clube e ainda teve tempo de jogar com Felipão, zagueiro experiente. Naquela tarde, as portas do futebol se abriram de verdade para ele.
OceanofPDF.com
A frieza que chocou
Se os dois irmãos tinham uma relação mais próxima, hoje Tite e Beatriz são mais distantes. Dona Ivone contou que desde pequena a convivência entre elas foi difícil. Bea, como é chamada na família, escolheu o próprio caminho.
– Ela dizia: “Mãe, eu tenho o gênio do pai. Não adianta tentar me mudar”. Agora as coisas estão melhores. Mas a Bea seguiu a vida dela. Não vem nunca aqui me visitar. Acho que por isso a relação dos meninos com ela também é distante. Eles viram que ela não é muito ligada com a mãe – explicou dona Ivone.
A irmã de Tite não tem dúvidas de que o que a afastou da família foi o relacionamento ruim com a mãe e confessa que queria estar mais perto.
– Minha mãe tinha um plano para mim e eu não fiz as coisas do jeito que ela queria. Ela queria que eu fosse como ela, ficasse em casa, cuidasse da casa e eu não quis isso. Eu saí para o mundo. A gente acabou se afastando muito. Tenho certeza que é por causa disso que fiquei afastada também dos meus irmãos. Talvez ela queira assim. Dou um jeitinho sempre de falar escondido com o Tite.
Com mágoas guardadas pelos desentendimentos com Bea, a mãe do trio não esconde quem é seu preferido.
– Eu quero muito bem ao Ade, mas me pede para escolher um dos dois e eu te digo na hora: o Miro. E o Ade concorda, pode perguntar para ele. Ele diz: “Mãe, eu tô longe, eu sofro bastante por isso e quem está do seu lado toda hora é ele, o Miro”. O Miro é uma coisa fora do normal, uma bênção muito grande na minha vida. Até o meu marido, quando morreu, falou: “Fica calma, você tem o Miro aí”.
Para os amigos e parentes, o relacionamento com a irmã é uma das coisas que Tite gostaria que fosse diferente, mas a chance dessa situação mudar, atualmente, é muito pequena:
– Entendo que é da vida, comportamentos diferentes. Não vou deixar de ter amor pela minha irmã por discussões que teve com a minha mãe. Aprendi a amar as duas.
Dessa relação afastada e, por vezes, conturbada, ficou marcado um momento muito delicado, considerado por alguns familiares como o maior erro da vida de Tite. Bea queria muito ter um menino depois de ter dado à luz uma menina, mas quis o destino que não conseguisse realizar esse desejo – depois de nove meses de gestação, seu garotinho Estevão, com mais de quatro quilos, nasceu sem vida, enrolado no cordão umbilical, em outubro de 1991.
No quarto do hospital em que Bea estava, Tite entrou e saiu sem derrubar uma só lágrima. A frieza chocou alguns familiares.
– Às vezes a gente pode cometer erros. Eu vou dizer qual foi a minha intenção: dar a ela uma força que ela sentisse, sim, mas que pudesse ser forte para dar o segundo passo. Para minha irmã ver o quanto era importante para a outra filha, que podia ir em frente. Que a Bea era importante para o marido, para ela mesma. Que sentisse, mas que tivesse força e olhasse pra frente – explicou Tite na primeira conversa que tivemos, em dezembro de 2015.
No sofá da sala da sua casa, no 18o andar de um prédio no Tatuapé, Tite ainda completou:
– Talvez eu possa ter sido frio, sem ter demonstrado o que sentia. Mas é claro que estava sensibilizado. Tu está com a criança pronta e ela não vem. Era um garoto, minha irmã queria muito. Mas foi no sentido de olhar pra frente. Não existe quem está certo e quem está errado. Existem enfoques.
Se alguns familiares viram a situação dessa forma, Bea não compartilha da mesma interpretação.
– Eu nunca fiquei magoada com isso, de jeito nenhum. Me lembro de como foi tudo, ele entrando no quarto, me dando um abraço. Eu disse: “Estevão seria seu afilhado”. E ele me respondeu: “Não pensa nisso agora”. Ele estava muito ocupado na época, mas não senti isso que as outras pessoas falam. Ele seria mesmo o padrinho.
Anos depois, veio mais uma menina na vida de Bea. Ela vive hoje com seu marido, Sérgio, e as duas filhas, já mulheres, em Caxias.
OceanofPDF.com
Agenor não podia ver negros
Além do pedido para ajudar nas contas da casa, seu Agenor tinha outra implicância em ver seu filho jogar futebol de verdade, profissionalmente, embora tenha sido o grande incentivador para a imersão de Tite nesse esporte: a presença volumosa de negros disputando vagas nos campos do Rio Grande do Sul.
Neto de italianos, seu Agenor foi criado em uma colônia em que pessoas negras não passavam nem perto. Os bisavós de Tite, que chegaram ao Brasil no final do século XIX, trouxeram de uma Europa esmagadoramente branca a mentalidade da elite, com altas doses de conservadorismo, embora fossem pobres.
Essa era uma contradição comum dos imigrantes que vinham para a América tentar ganhar a vida de alguma forma, incentivada pela aristocracia brasileira, que preferia lidar com os “gringos” brancos sem dinheiro que com ex-escravos.
Os bisavós de Tite chegaram a um país que lutava pelo fim da escravidão, iniciada pelos colonizadores portugueses. Viram a Lei Áurea ser assinada, em 1888, mas continuaram assistindo aos maus-tratos dirigidos aos negros mesmo depois da promulgação da medida legal.
– Ele [seu Agenor] reclamava muito. Meu filho vai treinar com aqueles negros, falava. Meu marido não ia perto de um negro que fosse, não gostava. Acho que isso também fazia ele não dar dinheiro para o Ade – disse dona Ivone. – Isso passa, né? Eu gosto de negros. Mas o Agenor, não podia nem ver – completou ela, explicando por que os três filhos foram criados desse modo.
Na definição de Bea, Agenor era exageradamente racista e falava coisas difíceis de acreditar.
– Era realmente uma coisa muito forte nele. Acho que em italianos, dessa época, de forma geral. Mas meu pai era muito racista, mesmo.
Logo que havia se profissionalizado no Caxias, no início da década de 1980, Tite recebeu um convite para fazer um teste no Grêmio. Podia ser a chance da sua vida, mas tinha que dar um passo para trás: voltar para as categorias de base.
– Meu filho pegou a mochila, colocou nela todas as roupas que eu aprontei e foi embora. Foi ficar uma semana lá no Grêmio. E eu chorava à noite, sem parar.
O choro durou pouco, apenas duas noites.
– Dois dias depois, eu estava lavando roupa e vejo uma mochila: Dio [Deus, em italiano], é a sacola do Ade. Ele tinha descido de um táxi. Eu saí correndo para a porta. “Mãe, não quero saber de ir lá, não quero”, ele falou chorando. Muitos negros por lá, e ele voltou.
Na interpretação da mãe, a pressão do pai havia entrado na cabeça do filho.
– Meu pai se orgulhava de ser assim. A gente foi crescendo com isso. Ele ficou dormindo no Olímpico e não quis ficar. Ele era muito menino ainda. Nosso mundo era pequeno, aquele jeito italiano, dos “gringos”. Depois foi se abrindo, era bem fechado antes. Eu te digo com toda a certeza: hoje ele não tem preconceito nenhum. Ele inclusive luta contra – explicou Miro.
Tite conta a história de um jeito diferente:
– Eu fui ficar uma semana e fugi da concentração. Não teve relação com nada de cor, nada racial. Acho que foi um engano deles. Eu fazia faculdade, tinha acabado de começar a namorar e estava no profissional do Caxias. Cheguei para o time júnior do Grêmio. Tinha que dormir na caverna, que é como eles chamam lá. São 15 camas, uma do lado da outra, uns armarinhos desse tamanho, só para estar no Grêmio? E até você entrar na turma, demora. É inevitável. Os caras me olhavam e procuravam entender o que eu estava querendo ali. Era o lado da concorrência que tem no futebol. Acabei não sendo aceito no grupo. Senti o choque e fui embora.
Ele se lembra bem do preconceito que o pai tinha e conta como fez para superá-lo:
– O nível de conhecimento que eu fui adquirindo foi determinante. Eu fui criado numa região preconceituosa. Caxias do Sul é muito preconceituosa. Eu sempre fui um cara aberto, que ouve, que lê, que estuda. Então, por mais enraizado que o preconceito esteja, ele acaba. Eu falava: “Pô, deixa eu ver isso aqui direito. Deixa eu olhar quem está do meu lado, o que ele fez, se ele é bom, se ele não é, e não olhar para a cor, mas sim para o que ele fez”. Nem a cor nem de onde ele veio. Não importa. Você vai tendo experiências que vão te mostrando isso. É uma coisa que realmente não faz sentido nenhum.
Em 2015, no dia 1o de abril, Elias foi chamado de “macaco” pelo zagueiro uruguaio Cristian Gonzáles, do Danúbio. Isso ocorreu em um jogo da Libertadores, na fase de grupos, disputado em Itaquera. O Corinthians decidiu não fazer boletim de ocorrência, mas pediu que o caso fosse registrado na súmula da partida.
Em entrevista coletiva, Tite pediu a punição dos envolvidos e se disse orgulhoso pelo time ter “matado no peito” o ocorrido, jogando muito na goleada por 4 X 0 sobre os uruguaios. Esse jogo garantiu ao Corinthians mais três pontos na competição, o clube se manteve invicto e no primeiro lugar do Grupo 2, considerado o “da morte”, com seis pontos a mais que os vice-líderes, São Paulo e San Lorenzo, da Argentina.
OceanofPDF.com
O amor pela vitrine de uma churrascaria
Após a tentativa frustrada no time do coração, Tite logo retornou ao Caxias, onde completou cinco temporadas, até 1983. Nesse tempo, entre um treino e outro, engatou um namoro sério com a mulher da sua vida, Rosmari Rizzi.
Ficaram durante um ano apenas trocando olhares, a distância. Ele passava quase todos os dias pela avenida Júlio de Castilhos, no tradicional bairro São Pelefrino, em Caxias do Sul. Esse era o endereço da Churrascaria Imperador, da qual os pais da moça já eram donos desde 1970, e continuam sendo até hoje. Aliás, o local está entre as principais indicações da cidade. Além das carnes, tem como carro-chefe a sopa de entrada e o sagu com creme de sobremesa.
Tite pegava esse caminho para deixar Beatriz no trabalho e, da rua, entre um espeto e outro oferecido de mesa em mesa, conseguia ver a futura esposa. A timidez, porém, adiava o primeiro encontro. Até que ele tomou coragem: “Preciso falar com você”, disse à Rose.
A próxima dificuldade a ser superada era o pai da namorada, Pedro Rizzi. Ele havia passado a vida criando a filha para um príncipe encantado que não fosse, de forma alguma, jogador de futebol – mulherengo, bagunceiro, boêmio e fanático por bebidas alcoólicas. Tite, contudo, não se encaixava em nenhum desses aspectos do estereótipo do boleiro, apesar do assédio que sofria ainda na escola.
– Nunca foi de sair muito. Nunca foi da bagunça, nem da bebida. Nada disso tinha a ver com ele – afirma dona Ivone.
– Era um garoto normal. As meninas adoravam o Ade. Ele tinha um corpo bonito, por ser atleta, e as meninas ficavam admirando. Eu lembro que me chamavam de “cunhadão” lá na escola. Era engraçado – recorda Miro.
O sogro aos poucos foi se convencendo da possibilidade de ter na família aquele volante que tinha passagem pelo Juventude, pelo Caxias, que logo se mudaria para o Esportivo e depois trocaria também de estado, indo para São Paulo defender a Portuguesa e o Guarani. Não havia outro jeito, afinal. Os dois já estavam perdidamente apaixonados e, naquela época, os primeiros meses de 1981, já pensavam em se casar, o que aconteceria pouco menos de quatro anos depois.
Marcaram para o dia 22 de dezembro de 1984, mas tiveram de antecipar a festa. Depois de passar alguns meses na Portuguesa, Tite teve mais uma lesão no joelho, logo ao se apresentar no Guarani de Campinas, e precisou marcar a cirurgia para o dia 5 de dezembro. Em vez de adiar a operação, trocaram as alianças no dia 30 de novembro e foram para Camboriú, badalada região de Santa Catarina, celebrar a lua de mel de poucos dias. Na volta instalaram-se em Campinas e Tite ficou no Guarani até 1989.
Rose é esposa e mãe, mas também psicóloga e auxiliar. Opina em mudança de jogador, escuta os desabafos do marido e comemora com ele cada vitória. Dentro da casa deles não tem mais conjugação verbal na primeira pessoa do singular “eu”, é sempre “nós”. Na saúde ou na doença, na alegria ou na tristeza, no título ou na eliminação.
– O Tite é muito parceiro também – disse Rose. – Mas eu faço questão de escutar mais, ele tem muita coisa a dizer, e sempre tenho como ajudar.
Os dois me receberam juntos em casa. Algumas das perguntas, até mesmo sobre o vestiário, Rose sabia responder. Lembrava-se de detalhes como se tivesse presenciado alguns momentos. Dessa relação, nasceram Matheus e Gabriele, registrados em 1989 e 1995.
– É uma cumplicidade impressionante. É muito bonito ver eles dois juntos – contou a filha, chamada na família de Bibi.
– Vamos falar a verdade: a situação que ele vive... Ele poderia se desvirtuar. Mas ele não olha para o lado. Ele tem uma luz divina para ser o homem que ele é. Eles se dão muito bem, muito – disse Miro.
É Rose ainda quem cuida das contas da casa. Administra tudo: faz os pagamentos, transfere o dinheiro para a poupança, libera ou corta os gastos.
– Só no fim do ano a gente senta pra conversar sobre isso – contou ela em nosso encontro. – Tiramos um dia e eu passo tudo pra ele, como estão as coisas.
OceanofPDF.com
Sete cirurgias e o fim da carreira
As seguidas lesões dificultavam a vida de Tite como jogador. Para se ter uma ideia, depois do seu casamento, e daquela cirurgia pós-nupcial, ele só voltou a entrar em campo no final do ano seguinte, em novembro de 1985.
– Ele [Tite] foi muito bacana. Chegou no Guarani e em poucos dias teve mais uma lesão no joelho. Veio conversar comigo para dizer que eu poderia ficar à vontade para mandá-lo embora e que estava se sentindo mal por ter se machucado logo que foi contratado. Uma grande demonstração do caráter dele – lembrou o técnico da época, Carlos Alberto Silva, em uma conversa que teve comigo por telefone.
Ainda que suas visões de mundo fossem tomando rumos diferentes das de seu pai, a proximidade entre eles era muito grande. Feliz em ver seu filho conseguir dar um passo importante na carreira, seu Agenor só lamentava ficar longe das arquibancadas.
– A gente ia muito ver os jogos. Eu e meu pai, sempre. Mesmo com o jeito mais quieto dele, a gente assistia no estádio. E quando Tite se mudou, já não dava mais para fazer isso – conta Miro.
Então passaram a acompanhar os jogos pelas rádios e também pela televisão, quando isso era possível. Ouviram Tite ser vice-campeão brasileiro pelo alviverde Guarani no Brinco de Ouro, em 1986, ao lado de craques como Evair, João Paulo e Ricardo Rocha. Eles jogaram em casa contra o São Paulo de nomes consagrados como Gilmar Rinaldi, Daryo Pereira, Silas, Pita e Careca. Esse foi um jogo polêmico que acabou apenas nos pênaltis. Tite não participou das cobranças, mas foi titular e depois substituído por Vágner no segundo tempo.
Com o placar mostrando 1 X 1, a decisão foi levada para a prorrogação. A rede balançou mais quatro vezes, duas para cada lado, em duelo emocionante: Boiadeiro e João Paulo marcaram para os donos da casa, e Pita, para os visitantes. O Guarani conquistava o título até o minuto final, quando Careca marcou (3 X 3) e mandou o confronto para os pênaltis. Os que fizeram os gols do Guarani no tempo adicional, que seriam os heróis da partida, se tornaram os vilões nos pênaltis: Boiadeiro e João Paulo erraram as cobranças e a equipe tricolor são-paulina ficou com a taça.
No ano seguinte Tite foi vice de novo, e o Guarani chegou em segundo lugar também no Paulista de 1988 – dessa vez perdeu o título para o Corinthians.
– Era um segundo volante e um meia armador, já que o Guarani jogava no 4-3-3. Esforçado e de boa técnica – comenta o jornalista Paulo Vinicius Coelho, o PVC, sobre Tite como jogador.
Teve tempo ainda de disputar até mesmo algumas partidas de uma Libertadores da América, a primeira da sua vida. Jogou contra o São Paulo e os chilenos Cobreloa e Colo-Colo, mas o Guarani foi eliminado.
– Tite se lesionou muito. Não conseguia pegar ritmo. Ele teve um ano [1987] muito bom. Era um cara bom de grupo – afirma Wilson Gottardo, companheiro de Guarani.
Após deixar o clube de Campinas, Tite ainda tentou retornar aos gramados em duas oportunidades. Voltou para o Esportivo e parou de vez no Guarany de Garibaldi, também no Rio Grande do Sul. Nesses dois últimos clubes quase não jogou, tanto que Tite não considera esse período parte da sua carreira de jogador profissional.
Aos 27 anos, depois de lesões graves nos joelhos e sete cirurgias, Tite encerrou prematuramente sua carreira de jogador de futebol.
OceanofPDF.com