Tratado sobre a Tolerância
Sobre o autor
Nascido em Paris, a 21 de novembro de 1694, François-Marie Arouet foi o quinto filho de um
tabelião. Após a morte de sua mãe, o jovem Arouet, criança brilhante e lúcida, foi matriculado
para estudar com os jesuítas no Colégio Louis-le-Grand. A partir de 1712, passou a freqüentar
os salões literários e recusou-se a seguir a carreira jurídica que seu pai queria impor-lhe: o
que desejava era escrever e foi então que redigiu alguns dísticos desabonatórios ao Regente,
cujo resultado foi primeiro seu afastamento de Paris e depois a prisão por um ano na Bastilha.
Depois disso, tornou-se famoso por uma tragédia, Édipo, cuja encenação alcançou grande
sucesso em 1718. Foi nesse mesmo ano que decidiu trocar de nome e tornou-se Voltaire. Ele
passou a ser o favorito da melhor sociedade, e a jovem rainha, Marie Leszczyńska, abriu-lhe
as portas da Corte Real. Porém, ele ridicularizou o cavaleiro de Rohan, que mandou espancá-
lo, prendeu-o novamente na Bastilha e depois determinou seu exílio na Inglaterra. Lá ele
permaneceu durante vários anos, familiarizando-se não só com “os encantos” do comércio
inglês, mas também com sua efervescência política, social e econômica. De volta a Paris,
recomeçou a escrever comédias e tragédias, marcadas pela influência das obras de
Shakespeare. Foi então que conheceu Émilie du Châtelet, uma jovem liberada, filósofa e
geômetra. Sua ligação durou quinze anos. Entre 1733 e 1734, ele publicou as Cartas sobre os
ingleses ou Cartas filosóficas, que provocaram um imenso escândalo. Nelas, sustentava que a
grandeza da Inglaterra devia-se ao fato de que lá todos trabalhavam, que nada se recusava ao
talento e que o sistema parlamentar tornava impossíveis as arbitrariedades pelo fato de dividir
os poderes entre o soberano e o povo. O Parlement francês condenou essa obra como sendo
“adequada a inspirar a libertinagem mais perigosa para a religião e para a ordem da
sociedade civil”. Voltaire fugiu para a província da Lorena a fim de evitar ser aprisionado
outra vez na Bastilha... Ao retornar, refugiou-se em casa de Madame du Châtelet, em Cirey,
onde levou uma existência simultaneamente mundana e dedicada aos estudos. A publicação de
um poema cheio de verve, O Mundano, o forçou a exilar-se durante algum tempo na Holanda.
Nessa mesma época, iniciou uma correspondência assídua com o rei Frederico II da Prússia,
com quem somente se encontraria em 1740... Um de seus antigos companheiros, o marquês
d’Argenson, foi então nomeado ministro, e, beneficiando-se igualmente de sua amizade com o
duque de Richelieu, Voltaire pôde retornar à corte. Escreveu a peça teatral A Princesa de
Navarra, para ser apresentada durante as comemorações do casamento do Delfim, o herdeiro
do trono, e, recuperando a graça real, foi nomeado historiador do rei em 1745, antes de
ingressar na Academia no ano seguinte. Mas sua pena não podia ser controlada, e a primeira
versão de Zadig, surgida sob o título de Memnon, o obrigou novamente a abandonar a corte.
Após a morte de Madame du Châtelet, ele se instalou em Berlim, onde completou O século de
Luís XIV e escreveu Micrômegas, uma obra cujo herói deixa a estrela Sírio, em que nascera, com a intenção de educar a mente e o coração, viaja para Saturno e depois vem à Terra. Assim
ele contempla com um olhar totalmente novo esse mundo em que reinam “os preconceitos”.
Infelizmente, a tolerância de Frederico II tinha seus limites, e Voltaire foi forçado a deixar a
Prússia, após ter zombado imprudentemente de Maupertuis, então presidente da Academia de
Berlim. Proibido de estabelecer-se em Paris, instalou-se na Suíça, perto de Lausanne, com sua
sobrinha e amante, Madame Denis. Em 1758, ele comprou o castelo de Ferney, em que
recebeu uma sucessão de artistas, escritores e comediantes. Seu Poema sobre o desastre de
Lisboa fez explodir um antagonismo com Jean-Jacques Rousseau. Redigiu novamente contos,
como Candide, em 1759, cujos breves capítulos são outras tantas etapas da aprendizagem do
jovem e ingênuo Cândido. Em 1762, o caso Calas mobiliza-lhe todas as energias: em
Toulouse, Marc-Antoine Calas foi encontrado enforcado dentro da mercearia de seu pai. Os
boatos insinuam que o jovem protestante, que pretenderia converter-se ao catolicismo, teria
sido morto por seu próprio pai, Jean Calas. Este foi preso e executado. Voltaire, convencido
de sua inocência, esforçou-se para que o processo fosse revisado e Calas, inocentado. Foi
então que redigiu o Tratado sobre a tolerância, em que luta contra a intolerância em nome da
religião natural.[1] Interessou-se a seguir por outros casos e empregou sua pena a serviço da
justiça. Cansada de viver em Ferney, Madame Denis o convenceu a voltar a Paris após a
morte de Luís XV. Ele retornou triunfalmente em 1778, mas a viagem e as honras recebidas
exigiram demais das energias do ancião. Ele morreu a 30 de maio de 1778. Seu corpo foi mais
tarde depositado no Panteão, em 1791, com o seguinte epitáfio: “Ele combateu tanto os ateus
quanto os fanáticos. Inspirou a tolerância e defendeu os direitos do homem contra a servidão
do feudalismo. Poeta, historiador e filósofo, engrandeceu o espírito humano e ensinou-o a ser
livre.”
[1]. A religião natural é baseada na razão e na experiência, em oposição à religião de revelação, baseada na bíblia. (N.E.)