Tratado sobre a Tolerância

Voltaire · Capítulo 9 de 26

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Tratado sobre a Tolerância

Capítulo VIII

SE OS ROMANOS FORAM INTOLERANTES

Entre os antigos romanos, desde Rômulo até a época em que os cristãos entraram em disputa

com os sacerdotes do Império, nunca se soube de um único homem que fosse perseguido

somente por seus sentimentos. Cícero duvidava de tudo, Lucrécio negava tudo; e nenhum dos

dois jamais foi sequer de leve censurado. A liberdade chegava a tal ponto que o naturalista

Plínio começa seu livro negando a existência de um deus e dizendo que, caso exista algum,

então esse só pode ser o sol. Cícero, falando a respeito dos infernos, diz: “Non est anus tam

excors quae credat” (não existe sequer uma velha tão imbecil que acredite neles). Juvenal diz:

“Nec pueri credunt” (nem sequer os meninos acreditam nisso) (Sátira II, verso 152). E se

cantou nos palcos dos teatros de Roma:

Post mortem nihil est, ipsaque mors nihil.

Nada existe após a morte e a própria morte não é nada.

(Sêneca, Trôade: coro do final do segundo ato)

Abominamos essas máximas e, não obstante, as perdoamos porque provêm de um povo

que os Evangelhos não haviam ainda esclarecido: são falsas e são ímpias, mas só podemos

concluir que os romanos eram muito tolerantes, porque nenhuma delas jamais provocou o

menor murmúrio de revolta.

O grande princípio do senado e do povo romanos era: “Deorum offensae diis curae”

(somente os deuses devem ocupar-se das ofensas feitas aos deuses). Esse povo real só queria

conquistar, governar e policiar o universo inteiro. Eles foram nossos legisladores, tanto quanto

nossos vencedores; e o próprio César, que nos deu grilhões, leis e jogos circenses, nunca

tentou forçar-nos a abandonar os druidas em favor dele mesmo, ainda que fosse o sumo

pontífice de uma nação que era nossa soberana.

Os romanos não professavam todos os cultos, nem davam a todos a sanção pública, mas

permitiam que todos fossem celebrados. Eles não tinham qualquer objeto material de culto a

Numa, não fabricavam nenhum simulacro, não lhe erguiam qualquer estátua; todavia, eles o

colocaram entre os deuses majorum gentium, que ficaram conhecendo através dos gregos. A

Lei das Doze Tábuas, Deos peregrinos ne colunto, se reduzia a determinar o culto público

somente às divindades superiores aprovadas pelo senado. Ísis teve um templo em Roma até o

tempo em que o imperador Tibério o mandou demolir, depois que os sacerdotes desse templo,

corrompidos pelo dinheiro de Mundus, permitiram que se deitasse publicamente no templo,

sob o disfarce do deus Anúbis, com uma mulher chamada Paulina. É verdade que Flávio

Josefo é o único a nos relatar essa história; ele não era contemporâneo, foi crédulo e exagerou

em seus escritos. É pouco provável que, em uma época tão esclarecida como a de Tibério,

uma dama de alta condição tivesse sido imbecil o bastante para acreditar que estava

recebendo os favores do deus Anúbis.

Quer esse episódio seja verdadeiro ou falso, permanece certo que a superstição egípcia

tinha construído um templo em Roma com o consentimento público. Os judeus comerciavam

em Roma desde os tempos das guerras púnicas; construíram sinagogas na época do imperador

Augusto e as conservaram em quase todas as épocas, assim como existem na Roma moderna.

Poderá haver um maior exemplo de que a tolerância era considerada pelos romanos como a

lei mais sagrada dentre os direitos humanos?

Segundo nos dizem, assim que os cristãos apareceram, eles foram perseguidos por esses mesmos romanos que não perseguiam ninguém. Parece-me evidente que tais fatos são

totalmente falsos; o próprio São Paulo pode servir como prova disso. Nos Atos dos

Apóstolos [1], ficamos sabendo que São Paulo tinha sido acusado pelos judeus de querer

destruir a lei mosaica em favor de Jesus Cristo, ocasião em que São Tiago propôs a São Paulo

que mandasse raspar a cabeça e fosse se purificar no templo juntamente com quatro judeus, “e

saberão todos que não é verdade o que se diz a teu respeito e que, pelo contrário, andas

também, tu mesmo, guardando a lei de Moisés”.

Paulo, um cristão, foi submeter-se a todas as cerimônias judaicas de purificação durante

sete dias; porém, os sete dias ainda não haviam passado quando foi reconhecido por judeus

vindos da Ásia e, ao verem que ele havia entrado no templo, não somente com judeus, mas

também com gentios, gritaram que houvera profanação: ele foi preso, levado à presença do

governador Félix e, mais tarde, ao tribunal de Festo. Uma multidão de judeus exigiu sua morte,

mas Festo respondeu: “Não é costume dos romanos condenar quem quer que seja, sem que o

acusado tenha presentes os seus acusadores e tenha tido liberdade de defender-se da

acusação”. [2]

Essas palavras são ainda mais dignas de nota por advirem desse magistrado romano que

parecia não ter qualquer consideração em especial por São Paulo, nem haver sentido por ele

nada mais do que desprezo: enganado pelo julgamento falso de sua razão, ele diretamente lhe

disse que era demente: “Multae te litterae ad insaniam convertunt” [3] (Estás louco, Paulo:

as muitas letras te fazem delirar). A única coisa a que Festo dava ouvidos era a eqüidade da

lei romana que o levava a proteger um desconhecido que não tinha condições de estimar.

Eis o próprio Espírito Santo declarando que os romanos não eram perseguidores, mas,

ao contrário, justos. Não foram os romanos que se sublevaram contra São Paulo, foram os

judeus. São Tiago, irmão de Jesus, foi apedrejado por ordem de um judeu saduceu, e não por

um romano. Foram somente judeus que apedrejaram Santo Estevão; [4] e, enquanto São Paulo

guardava as vestes dos executores [5], certamente não estava agindo em sua condição de

cidadão romano.

Os primeiros cristãos, sem a menor dúvida, não tinham nada a discutir com os romanos;

seus únicos inimigos eram os judeus, dos quais estavam começando a se separar. Todos

sabemos que ódio implacável demonstram todos os sectários aos que abandonam sua seita.

Certamente ocorreram tumultos nas sinagogas de Roma. Suetônio nos diz em sua Vida de

Cláudio (capítulo XXV): “Judaeos, impulsore Christo assidue tumultuantes, Roma expulit”

(Os judeus que, instigados por Cristo, promoviam freqüentes tumultos foram expulsos de

Roma). Ele se enganava ao dizer que haviam sido “instigados por Cristo”: nem poderia

conhecer os detalhes da vida de um povo tão desprezado em Roma quanto o era o povo judeu,

mas não se enganava com a ocasião desses distúrbios. Suetônio escrevia sob o governo do

imperador Adriano, no segundo século de nossa era; nesse tempo, os cristãos não se

distinguiam dos judeus aos olhos dos romanos. Essa passagem de Suetônio nos faz perceber

que os romanos, longe de oprimir os primeiros cristãos, reprimiam os judeus que os

perseguiam. Eles queriam que a sinagoga de Roma tivesse para com seus irmãos separados a

mesma indulgência que o senado tinha para com ela; e os judeus expulsos retornaram pouco

tempo depois; chegaram a alcançar altos cargos, apesar das leis que os excluíam deles; isso

nos é informado por Dion Cássio e por Ulpiano. [6] Seria mesmo possível que, após a

destruição de Jerusalém, os imperadores romanos houvessem prodigalizado dignidades aos

judeus e que ao mesmo tempo tivessem perseguido, entregue aos carrascos e às feras os

cristãos, que consideravam como somente outra seita dos judeus?

Dizem que Nero os perseguiu. Tácito nos fala que foram acusados do incêndio de Roma

e que foram abandonados à fúria do povo. Eles estavam sendo acusados em razão de sua

crença? É claro que não. Podemos dizer que os chineses que foram mortos pelos holandeses

há alguns anos, nos bairros de Batávia, foram imolados à religião? Por mais vontade que

alguém tenha de enganar a si próprio, é impossível atribuir à intolerância o desastre que

recaiu sobre alguns infelizes meio-judeus e meio-cristãos sob o governo de Nero.

 

[1]. Capítulos XXI e XXIV. (N.A.)

[2]. Atos, XXV, 16. (N.A.)

[ 3]. Ibidem, XXVI, 24. (N.A.)

[4]. Ainda que os judeus não dispusessem do direito do gládio depois que Arquelau foi exilado para a terra dos alobrógios e que a Judéia passou a ser governada como uma província imperial, era comum que os romanos fechassem os olhos quando os judeus exerciam um julgamento por motivos religiosos, isto é, quando, durante uma revolta súbita, eles apedrejavam por zelo religioso alguém que acreditassem ter blasfemado. (N.A.)

[ 5]. Atos, VII, 57.

[6]. Ulpiano, Digesto, l. I, Título II: Eis que judaicam superstitionem sequuntur honores adipisci permiserunt, etc. (N.A.)