Tratado sobre a Tolerância
Capítulo XI
SOBRE OS ABUSOS DA INTOLERÂNCIA
Mas o quê? Vai se permitir a cada cidadão crer somente em sua razão e pensar o que essa
razão esclarecida ou enganada lhe ditar? Pois está muito bem assim [1], desde que ele não se
ponha a perturbar a ordem pública: não depende de o homem crer em algo ou descrer de
alguma coisa, mas depende de ele respeitar os costumes de sua pátria. Se você me disser que
é um crime não acreditar na religião dominante, estará acusando ao mesmo tempo os primeiros
cristãos, seus pais na fé, e justificando aqueles que você acusa de os terem levado aos
suplícios.
Você me responde que a diferença é grande, que todas as religiões são obras dos
homens, que somente a Igreja católica, apostólica e romana é a obra de Deus. Mas usando de
boa-fé, somente porque nossa religião é divina, deverá então reinar pelo ódio, pelos furores,
pelos exílios, pelo confisco dos bens, pelas prisões, pelas torturas, pelos assassinatos e pelas
ações de graças rendidas a Deus por esses mesmos assassinatos? Quanto mais a religião cristã
é divina, tanto menos pertence ao homem dirigi-la: se foi Deus que a fez, Deus a sustentará
sem a nossa ajuda. Você sabe que a intolerância apenas produz hipócritas ou rebeldes: que
alternativa funesta! Por fim, você gostaria de sustentar nos braços dos carrascos a religião de
um Deus que fizeram perecer nas mãos dos carrascos e que somente pregou a doçura e a
paciência?
Observe, eu lhe peço, as conseqüências assustadoras do direito à intolerância. Se fosse
permitido despojar de seus bens, lançar ao calabouço ou matar um cidadão que, em
determinado grau de latitude, não professasse a religião admitida sob esse grau, qual a
exceção que isentaria os primeiros do Estado de sofrer as mesmas penas? A religião liga
igualmente o monarca e os mendigos: desse modo, mais de cinqüenta doutores ou monges
afirmaram esse horror monstruoso segundo o qual era permitido depor e matar os soberanos
que não pensassem como o fazia a Igreja dominante; e os parlamentos do reino não cessaram
de proscrever essas abomináveis decisões de tais abomináveis teólogos.
O sangue de Henrique, o Grande, ainda fumegava quando o Parlamento de Paris baixou
uma sentença que estabelecia a independência da coroa como uma lei fundamental do reino. O
cardeal Duperron, que devia sua púrpura a Henrique, o Grande, insurgiu-se nos Estados
Gerais de 1614 contra a decisão do Parlamento e fez com que fosse suprimida. Todos os
diários desse tempo relatam os termos de que Duperron se serviu em suas arengas: “Se um
príncipe se tornasse arianista”, declarou ele, “seríamos obrigados a depô-lo”.
Absolutamente não, senhor cardeal. Mesmo que queiramos adotar sua suposição
quimérica de que um de nossos reis, tendo lido a história dos concílios e dos padres da Igreja,
atingido em seu íntimo por estas palavras: Meu pai é maior do que eu, as tomasse demasiado
ao pé da letra e balançasse entre o Concílio de Nicéia e o Concílio de Constantinopla,
acabando por se declarar em favor de Eusébio de Nicomédia: nem por isso eu obedeceria
menos a meu rei e não me sentiria menos ligado a ele pelo juramento que lhe prestei; e se você
ousasse sublevar-se contra ele e se eu fosse um de seus juízes, eu o declararia culpado de
lesa-majestade.
Duperron levou a disputa ainda mais longe; estou abreviando suas palavras. Aqui não é
lugar de aprofundar essas quimeras revoltantes: limitar-me-ei a dizer, como todos os cidadãos, que não foi absolutamente porque o rei Henrique IV foi sagrado em Chartres que lhe
devíamos obediência, mas porque o direito incontestável de nascimento deu a coroa a esse
príncipe, o qual a mereceu por sua coragem e por sua bondade.
Que seja então permitido dizer também que todos os cidadãos devem herdar, pelo
mesmo direito, os bens de seus pais e que ninguém pense que mereçam ser privados deles e
arrastados à forca porque estão de acordo com os sentimentos de Ratram contra os de
Paschase Tarbet ou a favor das idéias de Bérenger contra as de Scot.
Sabemos que nem todos os nossos dogmas foram sempre claramente explicados e
universalmente aceitos em nossa Igreja. Jesus Cristo não nos deixou nada dito a respeito da
procedência do Espírito Santo. Durante muito tempo a Igreja latina acreditou, do mesmo modo
que a grega, que ele era procedente apenas do Pai: finalmente, acabou por acrescentar no
Credo Niceno que ele procedia também do Filho. Eu só me indago se, no dia seguinte a tal
decisão, um cidadão que se mantivesse fiel ao antigo Credo Apostólico se tornaria digno de
morte. A crueldade e a injustiça seriam menores hoje em se punir aquele que pensa como se
pensava antigamente? Uma pessoa é culpada se, tal como se fazia no tempo do papa Honório I,
acreditasse que Jesus não tinha duas vontades?
Não faz muito tempo que foi estabelecido o dogma da Imaculada Conceição: os
dominicanos até hoje não o aceitam. A partir de que data os monges dominicanos começarão a
merecer os castigos deste mundo e os do outro?
Se devemos pedir a alguém que nos conduza através de nossas disputas intermináveis,
então temos certamente que apelar para os apóstolos e evangelistas. Houve discordâncias
suficientes para fazer explodir um cisma violento entre São Pedro e São Paulo. Paulo disse
expressamente em sua Epístola aos Gálatas: “resisti-lhe face a face”, com relação a Pedro,
porque Pedro era repreensível, porque ele usava de dissimulações, assim como Barnabé,
porque eles comiam com gentios antes da chegada de Tiago e porque, logo a seguir, se
retiraram secretamente e se separaram dos gentios por medo de ofender os circuncidados.
“Quando porém vi”, acrescenta ele, “que não procediam corretamente segundo a verdade do
Evangelho, disse a Céfas na presença de todos: ‘Se, sendo tu judeu, vives como gentio, e não
como judeu, por que obrigas os gentios a viverem como judeus’?”
Tínhamos aqui motivo para uma querela violenta. Tratava-se de saber se os novos
cristãos deveriam seguir a lei judaica ou não. Nessa mesma época, São Paulo foi apresentar
sacrifícios no templo de Jerusalém. Sabe-se que os quinze primeiros bispos de Jerusalém
foram judeus circuncidados, que observavam o sabá e que se abstinham das carnes proibidas.
Ao mesmo tempo, um bispo espanhol ou português que se fizesse circuncidar e passasse a
observar o sábado seria queimado vivo em um auto-de-fé. Todavia, a paz entre os dois não foi
alterada por causa dessa disputa fundamental, nem entre os apóstolos, nem entre os primeiros
cristãos.
Se os evangelistas fossem gente semelhante aos escritores modernos, teriam um campo
bastante vasto para combater uns contra os outros. São Mateus conta 28 gerações entre Davi e
Jesus; São Lucas conta 41, e essas genealogias são completamente diferentes. Não se viu,
todavia, qualquer dissensão surgir entre os discípulos em torno dessas contrariedades
aparentes e que foram tão bem conciliadas por vários dos padres da Igreja. A caridade cristã não foi ferida um só momento e a paz foi conservada. Que grande lição de que nos devemos
tolerar em nossas disputas e nos portar com humildade perante tudo o que não podemos
entender!
São Paulo, em sua Epístola a alguns judeus de Roma que se haviam convertido ao
Cristianismo, empregou todo o final do terceiro capítulo para dizer que apenas a fé glorifica e
que somente as obras não justificam ninguém. São Tiago, ao contrário, em sua Epístola
dirigida às doze tribos dispersas por toda a Terra, Capítulo II, não cessa de dizer que ninguém
pode ser salvo sem as obras. Foi exatamente isso que separou duas grandes comunhões entre
nós, mas que jamais serviu para dividir esses apóstolos.
Se a perseguição contra aqueles que discutem conosco fosse uma ação santa, seria
preciso admitir que aquele que tivesse causado a morte do maior número de heréticos seria o
maior santo do paraíso. Que figura poderia fazer lá um homem que se tivesse contentado em
despojar seus irmãos e lançá-los em calabouços ao lado de outro tão piedoso que tivesse
massacrado centenas no dia de São Bartolomeu? Vejam a prova disso:
O sucessor de São Pedro e seu consistório não podem errar. Eles aprovaram,
celebraram e consagraram os atos do dia de São Bartolomeu: portanto, essa ação foi muito
santa; portanto, entre dois assassinos de piedade igual, o que tivesse aberto o ventre de 24
mulheres huguenotes grávidas deveria ser elevado ao dobro da glória de um outro que tivesse
desventrado somente doze. Pela mesma razão, os fanáticos de Cévennes deveriam crer que
seriam elevados em glória na proporção do número de padres, religiosas e mulheres católicas
que tivessem matado. Estranhos títulos para o merecimento da glória eterna.
[1]. Ver a excelente carta de Locke sobre a tolerância. (N.A.)