Tratado sobre a Tolerância

Voltaire · Capítulo 13 de 26

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Tratado sobre a Tolerância

Capítulo XII

SE A INTOLERÂNCIA ERA CONSIDERADA

DE DIREITO DIVINO NO JUDAÍSMO

 

E SE ELA SEMPRE FOI POSTA EM PRÁTICA POR ELES

Chamamos, segundo creio, de direito divino aos preceitos que o próprio Deus nos transmitiu.

Ele queria que os judeus comessem um cordeirinho cozido com folhas de alface e que os

convivas o comessem de pé, com um cajado na mão, em comemoração da Fasê, a

Passagem [1]; ele ordenou que a consagração do sumo sacerdote se fizesse mediante a

colocação de gotas de sangue em sua orelha direita, em sua mão direita e em seu pé direito,

costumes extraordinários para nós, mas não para a Antigüidade; ele queria que

depositássemos no bode expiatório Hazazel as iniqüidades do povo; ele proibia que se

comessem peixes sem escamas, porcos, lebres, ouriços, corujas, grifos, grilos etc.

Ele também instituiu festas e cerimônias. Todas essas coisas, que pareciam arbitrárias às

outras nações e submetidas ao direito positivo e aos costumes, eram comandadas pelo próprio

Deus e se tornavam de direito divino para os judeus, assim como tudo o que Jesus Cristo, filho

de Maria, filho de Deus nos comandou é de direito divino para nós.

Evitemos procurar descobrir aqui por que Deus substituiu a lei que havia dado a Moisés

por uma lei nova, ou por que ele havia mandado Moisés fazer muito mais coisas do que

ordenara ao patriarca Abraão e por que Abraão tivera de fazer muito mais do que Noé. Parece

que ele se digna a adaptar aos tempos e à população do gênero humano: trata-se de uma

gradação paternal, mas esses abismos são profundos demais para nossa débil visão. Vamos

manter-nos dentro dos limites de nosso tema; vamos estudar simplesmente como era a

intolerância entre os judeus.

É verdade que nos livros do Êxodo, do Levítico, dos Números e do Deuteronômio

existem leis muito severas sobre o culto e castigos mais severos ainda. Muitos comentadores

tiveram dificuldade em conciliar os preceitos de Moisés com as passagens de Jeremias e de

Amós ou com o célebre discurso de Santo Estêvão, relatado nos Atos dos Apóstolos. Amós diz

que os judeus ainda iam ao deserto adorar Moloque, Renfam e Quium. Jeremias diz

expressamente que Deus não exigiu qualquer sacrifício de seus pais quando saíram do Egito.

Santo Estêvão, em seu discurso aos judeus, expressa-se deste modo: “Eles adoraram o

exército do céu; não ofereceram a Deus nem vítimas nem sacrifícios no deserto durante

quarenta anos; levantaram o tabernáculo do deus Moloque e a estrela de seu deus Renfam”.

Outros críticos inferem do culto de tantos deuses estrangeiros que esses deuses foram

tolerados por Moisés e citam como prova estas palavras do Deuteronômio: “Quando

estiverdes na terra de Canaã, não mais fareis como fazeis nos dias de hoje em que cada um faz

o que melhor lhe parece”.

Apóiam sua opinião sobre o fato de que nenhum ato religioso do povo é descrito durante

a passagem pelo deserto; não há celebração da Páscoa, não se fala em Pentecostes, não existe

qualquer menção de que tivesse sido celebrada a Festa dos Tabernáculos e nenhuma ocasião

de preces públicas é estabelecida; até mesmo a circuncisão, esse selo da aliança de Deus com

Abraão, tinha deixado de ser praticada.

Eles se baseiam ainda na história de Josué. Esse conquistador disse aos judeus: “A opção vos é dada: escolhei qual partido mais vos agrade, se ides adorar os deuses que

servistes na terra dos amorreus, ou se preferis aqueles que conhecestes na Mesopotâmia”. O

povo respondeu: “Não será assim, nós serviremos Adonai”. Josué lhes replicou: “Vós

mesmos escolhestes; tirai, portanto, do meio de vós os deuses estrangeiros”.

Incontestavelmente, eles haviam adorado outros deuses sob Moisés, além de Adonai.

É totalmente inútil refutar aqui os críticos que pensam que o Pentateuco não foi escrito

por Moisés; tudo o que tinha de ser dito a respeito desse assunto já foi dito há muito tempo.

Mesmo que algumas pequenas partes dos livros de Moisés tenham sido escritas no tempo dos

Juízes ou já na época dos pontífices, não foram menos inspiradas e menos divinas.

É suficiente, segundo me parece, que as Santas Escrituras comprovem que, apesar das

extraordinárias punições previstas para os judeus que seguissem o culto de Apis, eles

conservaram durante muito tempo total liberdade. Pode ser até mesmo que o massacre

promovido por Moisés de 23 mil homens pelo culto do Bezerro de Ouro erigido por seu irmão

o tenha feito compreender que ele não ganhava nada com o rigor e tenha feito com que ele se

sentisse obrigado a fechar os olhos sobre a paixão do povo pelos deuses estrangeiros.

Ele mesmo pareceu logo transgredir a lei que havia promulgado. Proibiu a feitura de

qualquer imagem, mas ele próprio levantou a serpente de bronze. A mesma exceção à lei se

encontra mais tarde no templo de Salomão: esse príncipe mandou esculpir doze bois que

serviam como pilares para a grande bacia do templo; querubins foram instalados na tampa da

Arca: eles tinham uma cabeça de águia e outra de bezerro; aparentemente a cabeça de bezerro

era mal esculpida e, ao ser encontrada no templo por soldados romanos, deu origem por longo

tempo à crença de que os judeus adoravam uma cabeça de burro.

Em vão o culto dos deuses estrangeiros foi proibido. Salomão foi incontestavelmente

idólatra. Jeroboão, a quem Deus deu dez partes do reino, mandou logo fundir dois bezerros de

ouro e reinou por 22 anos, reunindo as dignidades de monarca e de pontífice. O pequeno reino

de Judá, governado por Roboão, logo construiu altares a deuses estrangeiros e erigiu estátuas.

O santo rei Asá não chegou a destruir os santuários nos altos dos montes. O sumo sacerdote

Urias mandou construir no templo, no lugar do altar dos holocaustos, um altar ao rei da Síria.

Em uma palavra, não se vê o menor constrangimento em matéria de religião. Sei muito bem

que a maior parte dos reis judeus se assassinou e exterminou uns aos outros, mas isso ocorreu

sempre em virtude de seus próprios interesses, e não devido às suas crenças.

É verdade que entre os profetas houve aqueles que interessaram o céu na realização de

suas vinganças: Elias fez descer fogo celeste para consumir os profetas de Baal; Eliseu

convocou ursos para devorar 42 meninos que o tinham chamado de cabeça calva; porém,

esses milagres foram raros e, de fato, é meio difícil que se deseje imitá-los.

Objetam-nos ainda que o povo judeu era muito ignorante e muito bárbaro. Está escrito

que, em sua guerra contra os madianitas[2], Moisés ordenou que matassem todas as crianças

do sexo masculino e todas as mães para depois dividir o botim. Os vencedores encontraram

nos campos 665 mil ovelhas, 72 mil bois, 61 mil asnos e 32 mil meninas; estes foram

divididos, mas mataram todo o restante. Diversos comentadores declaram até que 32 meninas

foram sacrificadas ao Senhor: “Cesserunt in partem Domini triginta duae animae”

(Permaneceram na parte do Senhor 32 almas).

Com efeito, os judeus imolavam seres humanos à Divindade, como testemunha o

sacrifício realizado por Jefté, conforme testemunha o rei Agag cortado em pedaços pelo

profeta Samuel. Ezequiel até mesmo lhes promete, a fim de encorajá-los, que comerão carne

humana: “Comereis”, diz ele, “o cavalo e o seu cavaleiro; bebereis o sangue dos príncipes”.

Diversos comentadores aplicam dois versículos dessa profecia aos próprios judeus e os

outros aos animais carnívoros. Não se encontra, em toda a história desse povo, qualquer traço

de generosidade, de magnanimidade, de beneficência; contudo, sempre escapam das nuvens

dessa barbárie tão longa e tão assustadora alguns raios de uma tolerância universal.

Jefté, inspirado por Deus, o mesmo que sacrificou sua filha, disse aos amonitas: “O que

vosso deus Quemoche vos deu não vos pertenceu por direito? Permiti então que tomemos a

terra que nosso Deus nos prometeu.” Essa declaração é precisa e pode conduzir bem longe;

entretanto é, no mínimo, uma prova evidente de que Deus tolerava Quemoche, porque as

Santas Escrituras não dizem: “Vocês pensam ter direito sobre as terras que dizem lhes terem

sido dadas pelo deus Quemoche”. Ela diz positivamente: “Vocês têm direito, libi jure

debentur”; esse é o verdadeiro sentido destas palavras hebraicas: Otho thirasch.

A história de Micá e do levita, relatada nos capítulo XVII e XVIII do Livro dos Juízes, é

mais uma prova incontestável da tolerância e da máxima liberdade que era então admitida

entre os judeus. A mãe de Micá, uma mulher efraimita de grandes posses, tinha perdido 1.100

siclos de prata; seu filho foi recuperá-los e lhos devolveu; ela consagrou a prata ao Senhor e

mandou fundir ídolos com ela; mandou construir uma pequena capela. Um levita passou a

cuidar da capela, recebendo dez siclos de prata, uma túnica e um manto por ano, além de sua

nutrição. Micá exclamou: “Sei agora que o Senhor me fará bem, porquanto tenho em minha

casa um sacerdote da descendência de Levi”.

Enquanto isso, seiscentos homens da tribo de Dan, que pretendiam conquistar alguma

aldeia da região a fim de nela se estabelecerem, mas que não tinham um sacerdote levita no

meio deles e precisavam de um para que Deus fosse favorável à sua empresa, foram até a casa

de Micá e lhe tomaram a estola sacerdotal e seus ídolos, levando consigo também o levita,

apesar dos protestos dos sacerdotes e dos gritos de Micá e de sua mãe. Então foram, seguros

de si, atacar uma aldeia dos sidônios, chamada Laís, e a destruíram a ferro e fogo, segundo seu

costume. Em sinal de sua vitória, deram ao lugar o nome de Dan; colocaram os ídolos de Micá

em um altar e, o que foi mais notável de tudo isso, escolheram Jônatas, neto de Moisés, para

ser o sumo sacerdote desse templo, no qual foram adorados tanto o Deus de Israel quanto os

ídolos de Micá.

Depois da morte de Gedeão, os hebreus adoraram Baal-Berite durante quase vinte anos

e renunciaram ao culto de Adonai, sem que qualquer chefe, qualquer juiz, qualquer sacerdote

clamasse por vingança. Seu crime era grande, admito; porém, se até esse grau de idolatria foi

tolerado, quantas outras diferenças do verdadeiro culto devem ter ocorrido!

Alguns dão como prova de intolerância que o próprio Senhor, tendo permitido que sua

Arca fosse tomada pelos filisteus durante um combate, não os punisse com nada mais que uma

doença secreta semelhante às hemorróidas, além de derrubar a estátua de Dagon e enviar uma

multidão de ratos para devorar as colheitas de seus campos. Tão logo os filisteus, para

apaziguar sua cólera, devolveram a Arca atrelada a duas vacas que amamentavam seus bezerros e ofereceram a Deus cinco ratos de ouro e cinco ânus de ouro, o Senhor fez morrer

setenta anciãos de Israel e cinqüenta mil homens do povo porque haviam olhado para dentro

da Arca. Respondemos que esse castigo do Senhor não recaiu sobre uma crença, nem sobre

uma diferença na maneira de prestar o culto, nem sobre qualquer idolatria.

Se o Senhor tivesse desejado punir a idolatria, teria feito perecer todos os filisteus que

ousaram roubar sua Arca ao mesmo tempo em que adoravam Dagon; mas Ele fez perecer

50.070 homens de Seu povo por terem espiado dentro da Arca que eles não deviam olhar:

eram assim as leis e os costumes desses tempos, e a economia judaica era diferente de tudo o

que conhecemos hoje em dia, tal como os caminhos inescrutáveis de Deus o são nos dias

atuais. “O rigor exercido”, diz o judicioso Dom Calmet, “contra esse grande número de

homens somente parecerá excessivo para aqueles que não compreenderam até que ponto Deus

queria ser temido e respeitado entre Seu povo e que apenas julgam os caminhos e desígnios de

Deus de acordo com as fracas luzes de sua própria razão”.

Portanto, Deus não puniu um culto estrangeiro, mas uma profanação do Seu, uma

curiosidade, uma indiscrição, uma desobediência, talvez até mesmo ocasionada por um

espírito de revolta. Percebe-se bem que a administração de tais castigos é exclusivamente

reservada a Deus na teocracia judaica. E não se pode repetir demais que esses tempos e esses

costumes não têm qualquer relacionamento com os nossos.

Enfim, em séculos posteriores, quando Naamã, o idólatra, indagou a Eliseu se lhe seria

permitido seguir seu rei ao templo de Remnon e adorar junto com ele, esse Eliseu, o mesmo

que mandara as ursas devorarem os meninos, não lhe respondeu: “Ide em paz”?

Existe muito mais: o Senhor ordenou a Jeremias que colocasse cordas, correntes e jugos

ao redor do pescoço e depois os enviasse aos régulos ou melchim de Moab, de Amon, de

Edom, de Tiro e de Sidon. E Jeremias mandou dizer-lhes em nome do Senhor: “Dei todas as

vossas terras a Nabucodonosor, meu servo, o rei de Babilônia”. Temos aqui um rei idólatra

sendo declarado servidor de Deus e seu favorito.

O mesmo Jeremias, que o melk ou régulo judeu Zedequias havia mandado jogar no

calabouço, tendo sido perdoado por Zedequias, aconselha-o, da parte de Deus, a render-se ao

rei da Babilônia: “Se fores te render a seus oficiais”, disse-lhe, “tua alma viverá”. Deus toma

desse modo o partido de um rei idólatra: ele lhe entrega a Arca, que somente por ter sido

aberta e ter sido visto seu interior havia custado a vida de 50.070 judeus; ele lhe entrega o

Santo dos Santos e o restante do Templo, cuja construção custara oitocentos mil talentos de

ouro, um milhão e dezessete mil talentos de prata e dez mil dracmas de ouro, deixados por

Davi e seus oficiais para a construção da casa do Senhor; uma soma que, sem contar os

dinheiros acrescentados por Salomão, remonta a um total de dezenove bilhões e sessenta e

dois milhões, aproximadamente, na moeda corrente. Jamais a idolatria foi tão bem

recompensada. Eu digo que essa conta é exagerada, que provavelmente há erros de copistas,

mas reduzamos a soma à metade, a um quarto, mesmo a um oitavo e ainda assim será

espantosa. Não ficamos menos surpresos com as riquezas que Heródoto disse ter visto no

Templo de Diana em Éfeso. Enfim, tesouros não são nada aos olhos de Deus e o título de “seu

servo” atribuído a Nabucodonosor é, esse sim, um verdadeiro tesouro inestimável.

Deus não favorece menos a Kir, Koresh ou Cosróes, o mesmo que chamamos de Ciro; Ele o chama de Seu cristo, Seu ungido, ainda que não o tenha sido pela unção de óleo santo,

segundo o significado comum dessa palavra, e que ele seguisse a religião de Zoroastro; ele o

chama de Seu pastor, ainda que ele fosse um usurpador aos olhos dos homens: não se encontra

em todas as Santas Escrituras nenhuma marca maior de predileção.

Vê-se em Malaquias que “do levante ao poente o nome de Deus é grande entre as

nações e que, por toda parte, se lhe oferecem oblações puras”. Deus preocupou-se com os

ninivitas idólatras do mesmo modo que com os judeus; ele os ameaça e depois os perdoa.

Melquisedeque, que não era absolutamente judeu, era um sacerdote que sacrificava a Deus.

Balaão, o idólatra, era também um profeta. A Escritura nos ensina, portanto, que Deus não só

tolerava todos os outros povos, mas que também lhes demonstrava cuidados paternais. E nós

ousamos ser intolerantes!

 

[1]. Pessach, a páscoa judaica. (N.E.)

[2]. Madian não fazia parte da Terra Prometida; era uma pequena região da Iduméia, a noroeste da Arábia Pétrea; começa ao norte na torrente de Arnon e termina na torrente de Zared, no meio de rochedos, e vai até a margem oriental do lago Asfaltite. Essa região é habitada hoje em dia por uma pequena tribo de árabes nômades; tem mais ou menos oito léguas de comprimento e um pouco menos de largura. (N.A.)