Tratado sobre a Tolerância

Voltaire · Capítulo 15 de 26

Páginas do PDF

Tratado sobre a Tolerância

Capítulo XIV

SE A INTOLERÂNCIA FOI ENSINADA POR JESUS CRISTO

Vejamos agora se Jesus Cristo estabeleceu leis sanguinárias, se ordenou a intolerância, se

mandou construir os calabouços da Inquisição e se nomeou os carrascos dos autos-de-fé.

Se não me engano, há poucas passagens nos Evangelhos a partir das quais o espírito

persecutório possa ter inferido que a intolerância e as restrições sejam legítimas. Uma delas é

a parábola em que o reino dos céus é comparado a um rei que convida convivas para as bodas

de seu filho; esse monarca manda avisá-los por seus servos: “Matei meus bois e minhas aves:

tudo está pronto; vinde para as bodas”. Uns, sem dar atenção ao convite, partem para suas

casas de campo; outros se ocupam com seus negócios; outros, ainda, ofendem os mensageiros

do rei e até mesmo os matam. O rei envia seus exércitos contra esses assassinos e destrói sua

cidade; depois envia às estradas para convidar para o banquete todos os que forem

encontrados; porém, quando um deles se assenta à mesa sem colocar o traje nupcial, é posto a

ferros e lançado nas trevas exteriores.

Está claro que essa alegoria se refere apenas ao reino dos céus; sem a menor dúvida não

dá direito a nenhum homem de enforcar ou lançar ao calabouço seu vizinho que tenha vindo

jantar com ele sem ter colocado um traje adequado a um casamento, e não conheço na história

nenhum exemplo de algum príncipe que tenha mandado enforcar um cortesão por uma razão

dessas; nem tampouco é de se temer que, quando um imperador mandou matar suas galinhas e

enviou pajens aos príncipes do império para convidá-los para o banquete, esses príncipes

matem seus pajens. O convite para o festim significa a Bênção do Santíssimo; o assassinato

dos enviados do príncipe representa a perseguição contra aqueles que pregam a sabedoria e a

virtude.

A outra parábola se refere a um cidadão particular que convida seus amigos para um

grande jantar e, assim que tudo está pronto para ser servido à mesa, ele envia seu criado para

avisá-los. Um se desculpa dizendo que acabou de comprar um campo e precisa ir visitá-lo:

esse é o tipo da desculpa que não parece válida, porque ninguém vai inspecionar uma terra

durante a noite; outro diz que comprou cinco juntas de bois e que deve experimentá-las: é do

mesmo tipo da outra, já que ninguém treina bois na hora do jantar; um terceiro responde que

acaba de se casar e, seguramente, essa escusa é a mais aceitável. O pai de família,

encolerizado, manda buscar para seu festim os cegos e os coxos e, vendo que ainda há lugares

vazios, diz a seu criado: “Vai pelas estradas e ao longo dos caminhos e obriga a entrar todos

os que neles encontrares”.

É verdade que, nesse caso, não é dito expressamente que tal parábola seja uma figura do

reino dos céus. Com grande freqüência se abusou destas palavras: Obriga-os a entrar. No

entanto, é visível que um único criado não pode constranger à força todas as pessoas que

encontrar para que venham cear com seu amo; aliás, convivas assim forçados não tornariam a

refeição muito agradável. Obriga-os a entrar não quer dizer outra coisa, segundo os

comentaristas mais dignos de respeito, que não seja: pede, conjura, pressiona, consegue. Qual

é o relacionamento que pode haver, rogo-lhe, entre tais convites para jantar e as perseguições?

Se tomarmos as coisas ao pé da letra, será necessário ser cego, coxo ou trazido à força

para entrar no seio da Igreja? Jesus nos diz na mesma parábola: “Não deis jantar nem a vossos

amigos nem a vossos parentes ricos”. Alguma vez alguém inferiu que, de fato, nunca se deve oferecer um jantar a parentes e amigos que tenham uma certa fortuna?

Jesus Cristo, depois da parábola do festim, disse: “Se alguém quiser vir a mim e não

odiar seu pai, sua mãe, seus irmãos, suas irmãs e até mesmo sua própria alma, não pode ser

meu discípulo etc. Qual dentre vós que, pretendendo construir uma torre, não calcula de

antemão a despesa?” Existe alguém, em todo o mundo, desnaturado o suficiente para concluir

que é necessário odiar seu pai e sua mãe? Pois não se compreende facilmente que tais

palavras significam: “Não fiqueis oscilando entre mim e vossos mais caros afetos”?

Citam também a passagem de São Mateus: “Aquele que não dá ouvidos à Igreja seja

considerado como um pagão ou como um coletor de impostos”. Todavia, isso não nos diz

absolutamente que seja necessário perseguir os pagãos e os coletores dos direitos do rei; eles

são amaldiçoados, é bem verdade, mas não são absolutamente entregues nas mãos da justiça.

Longe de retirar dos exatores quaisquer das prerrogativas dos cidadãos, eles recebem os mais

altos privilégios; é a única profissão que é condenada nas Escrituras e é a mais favorecida

pelos governos. Por que então não teríamos por nossos irmãos errantes tanta indulgência

quanto prodigalizamos considerações para com nossos irmãos tratantes?

Uma outra passagem de que se fez um abuso grosseiro é a referida tanto por São Mateus

como por São Marcos em que se diz que Jesus, estando com fome certa manhã, aproximou-se

de uma figueira em que não encontrou senão folhas, porque não era época de figos; ele

amaldiçoou a figueira que, dentro de pouco tempo, secou.

São dadas muitas explicações diferentes para esse milagre, mas existirá uma só delas

que possa autorizar as perseguições? Uma figueira não pôde mais dar figos, mais ou menos no

começo de março, então foi secada; essa é por acaso uma razão para fazer secar nossos

irmãos de dores durante todas as épocas do ano? Vamos respeitar nas Escrituras tudo o que

pode fazer nascer dificuldades em nossos espíritos curiosos e vãos, mas não vamos abusar

dessas passagens a fim de podermos nos tornar duros e implacáveis.

O espírito perseguidor, que abusa de tudo, busca ainda sua justificação na expulsão dos

vendilhões do templo e na legião de demônios que foram expulsos do corpo de um possuído e

enviados para os corpos de dois mil animais imundos. Mas será que não se vê que esses dois

exemplos não são outra coisa senão uma justiça que Deus se digna a realizar por Si mesmo em

castigo a uma contravenção da lei? Era uma falta de respeito para com a casa do Senhor

transformar seu recinto em uma loja de comerciantes. Não importa que o sinédrio e os

sacerdotes permitissem esse negócio para a comodidade dos sacrifícios: o Deus a quem se

sacrificava poderia, sem dúvida, mesmo que disfarçado em figura humana, impedir tal

profanação; ele poderia até mesmo punir os que introduziam na região rebanhos inteiros de

animais proibidos por uma lei que ele mesmo se dignava a observar. Esses exemplos não têm

o menor relacionamento com perseguições motivadas por dogmas. É necessário que o espírito

de intolerância seja apoiado sobre razões muito más, uma vez que busca em toda parte os

pretextos mais vãos.

Quase todo o restante das palavras e das ações de Jesus Cristo prega a doçura, a

paciência e a indulgência. É o pai de família que recebe o filho pródigo; é o operário

contratado na última hora que recebe o mesmo que os outros; é o samaritano caridoso; ele

mesmo justifica seus discípulos por não jejuar; ele perdoa a pecadora; ele se contenta em recomendar à mulher adúltera que passe a ser fiel; ele se digna mesmo a condescender à

alegria inocente dos convivas de Caná que, já estando encharcados de vinho, ainda pedem

mais; ele se dispõe a fazer um milagre em seu favor e transforma água em vinho para eles.

Ele não se enfurece sequer contra Judas, que o deve trair; ele ordena a Pedro que jamais

se sirva da espada; ele repreende os filhos de Zebedeu que, a exemplo de Elias, queriam fazer

descer o fogo dos céus sobre uma aldeia onde lhes haviam recusado alojamento.

Finalmente, ele morre vítima da inveja. Se ousarmos comparar o sagrado com o profano

e um Deus com um homem, sua morte, humanamente falando, tem muitos elementos em comum

com a de Sócrates. O filósofo grego pereceu pelo ódio dos sofistas, dos sacerdotes e dos

principais do povo; o legislador dos cristãos sucumbiu sob o ódio dos escribas, dos fariseus e

dos sacerdotes. Sócrates podia ter evitado a morte, mas não o quis; Jesus Cristo ofereceu-se

voluntariamente. O filósofo grego não somente perdoou a seus caluniadores e a seus juízes

iníquos, mas também lhes pediu que tratassem um dia seus próprios filhos como estavam

tratando a si mesmo, se eles alcançassem a felicidade de merecer seu ódio pelos mesmos

motivos que ele; o legislador dos cristãos, infinitamente superior, rogou a Seu Pai que

perdoasse Seus inimigos.

Se Jesus Cristo pareceu temer a morte, se a angústia que sentiu foi tão extrema que Seu

suor se misturou com sangue, o que é um sintoma extremamente violento e muito raro, é porque

ele se dignou a se rebaixar à plenitude da fraqueza do corpo humano de que estava revestido.

Seu corpo tremia, mas Sua alma permanecia inabalável; ele nos ensinou que a verdadeira

força e a verdadeira grandeza consistem em suportar os males sob os quais nossa natureza

sucumbe. Existe extrema coragem em correr para a morte quando mais se a teme.

Sócrates havia tratado os sofistas de ignorantes e demonstrado que usavam de má-fé;

Jesus, usando de seus direitos divinos, tratou os escribas e fariseus de hipócritas, insensatos,

cegos, malfeitores, serpentes, raça de víboras.

Sócrates não foi acusado de querer fundar uma nova seita; tampouco Jesus Cristo foi

acusado de ter desejado introduzir uma. Está escrito que os principais sacerdotes e todo o

conselho procuraram falsos testemunhos contra Jesus para poder mandar executá-lo.

Ora, se eles procuravam um falso testemunho, é porque não lhe reprovavam ter pregado

publicamente contra a lei. De fato, ele se submeteu à lei de Moisés desde a sua infância até a

morte. Foi circuncidado no oitavo dia, como todos os outros meninos. Se ele foi mais tarde

batizado no rio Jordão, essa era uma cerimônia consagrada entre os judeus, como, aliás, entre

todos os povos do oriente próximo. Todas as máculas legais se lavavam pelo batismo; era

assim que se consagravam os sacerdotes; as pessoas eram mergulhadas em água na festa da

expiação solene; os prosélitos eram batizados.

Jesus observou todos os pontos da lei; festejava todos os dias de sábado; abstinha-se

das carnes proibidas; celebrava todas as festas religiosas; até mesmo antes de sua morte,

celebrou a Páscoa; não foi acusado de qualquer opinião nova, nem tampouco de haver

observado algum rito estrangeiro. Nascido israelita, viveu conseqüentemente como israelita.

As duas testemunhas que se apresentaram somente o acusaram de ter dito “que podia

destruir o templo e reconstruí-lo em três dias”. Tais afirmações seriam incompreensíveis para

os judeus carnais, mas não eram, absolutamente, uma acusação de querer fundar uma nova religião.

O sumo sacerdote o interrogou e lhe disse: “Eu te ordeno em nome do Deus vivo que nos

digas se és o Cristo, o filho de Deus”. Não nos esclarecem o que o sumo sacerdote entendia

por “filho de Deus”. Algumas vezes, se utilizava essa expressão para designar “um justo” [1],

assim como se empregavam as palavras filho de Belial para indicar um “malfeitor”. Os judeus

grosseiros não faziam a menor idéia do mistério sagrado do Filho de Deus, o próprio Deus

que havia descido à Terra.

Jesus lhe respondeu: “Tu o disseste; entretanto, eu vos declaro que desde agora vereis o

Filho do Homem assentado à mão direita do Todo-Poderoso e vindo sobre as nuvens do céu”.

Essa resposta foi considerada pelo sinédrio irritado como uma blasfêmia. O sinédrio

não tinha o direito do gládio; eles transportaram Jesus perante o governador romano da

província e o acusaram caluniosamente de ser um perturbador da ordem pública que afirmava

não se dever pagar o tributo a César e que, além disso, se proclamava o rei dos judeus. Eis,

portanto, a maior evidência possível de que ele foi acusado de crimes contra o Estado.

O governador Pilatos, ao saber que ele era galileu, o enviou inicialmente a Herodes, o

tetrarca da Galiléia. Herodes acreditou que era impossível que Jesus pudesse aspirar a ser o

chefe de um partido e que pretendesse alcançar a realeza; ele o tratou com desprezo e o

devolveu a Pilatos, que demonstrou a indigna fraqueza de condená-lo a fim de apaziguar o

tumulto que fora excitado contra ele próprio, tanto mais que pouco tempo antes ele suprimira

uma revolta dos judeus, conforme nos conta Josefo. Pilatos não teve a mesma generosidade

demonstrada anos mais tarde pelo governador Festo.

Agora eu indago: é a tolerância ou a intolerância que provém do direito divino? Se

quereis vos assemelhar a Jesus Cristo, sede mártires, e não carrascos.

 

[1]. Era efetivamente muito difícil para os judeus, para não dizer impossível, compreender, sem uma revelação particular, este mistério inefável da Encarnação do Filho de Deus, que era o próprio Deus. O Gênesis (Capítulo VI) chama de filhos de Deus os filhos dos homens poderosos; do mesmo modo, os grandes cedros, no Livro dos Salmos (LXXIX, versículo 2) são chamados de cedros de Deus; a melancolia que afetava Saul é melancolia de Deus. Entretanto, segundo parece, os judeus entenderam ao pé da letra que Jesus se dizia filho de Deus no sentido próprio; porém, se eles consideraram essas palavras como uma blasfêmia, talvez seja ainda mais uma prova da ignorância em que eles se achavam a respeito do mistério da Encarnação e de Deus, Filho de Deus, enviado à Terra para a salvação dos homens. (N.A.)