Tratado sobre a Tolerância

Voltaire · Capítulo 14 de 26

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Tratado sobre a Tolerância

Capítulo XIII

A EXTREMA TOLERÂNCIA DOS JUDEUS

Portanto, sob Moisés, sob os juízes, sob os reis, vêem-se sempre exemplos de tolerância. E

existe muito mais: Moisés disse muitas vezes que “Deus castiga os pais nos filhos até a quarta

geração”. Essa ameaça era necessária para um povo a quem Deus não havia revelado nem a

imortalidade da alma, nem os castigos e recompensas de uma vida futura. Essas verdades não

lhes foram anunciadas nem no Decálogo, nem em qualquer das leis do Levítico e do

Deuteronômio. Esses dogmas existiam nas religiões dos persas, dos babilônios, dos egípcios,

dos gregos e dos cretenses, mas não fazem parte da religião dos judeus. Moisés não diz em

absoluto: “Honra a teu pai e a tua mãe se quiseres ir para os céus”. O que ele diz, é: “Honra a

teu pai e a tua mãe para que te vá bem e tenhas longa vida sobre a terra que o Senhor teu Deus

te dá”. Ele somente os ameaça com males corporais, com a sarna seca, com a sarna purulenta,

com úlceras malignas nos joelhos e nas panturrilhas, de serem submetidos às infidelidades de

suas esposas, de terem de pedir emprestado com usura aos estrangeiros e de não poderem

emprestar por sua vez; de perecerem de fome e de serem obrigados a comer os próprios

filhos; contudo, em nenhum lugar lhes diz que suas almas imortais sofrerão tormentos após a

morte ou gozarão de felicidades. Deus, que conduzia pessoalmente Seu povo, o punia ou o

recompensava imediatamente após suas boas ou más ações. Tudo era temporal, e essa é uma

verdade de que abusa Warburton para provar que a lei dos judeus era divina, porque o próprio

Deus era seu rei, distribuindo justiça imediatamente após a transgressão ou a obediência, e

portanto não havia necessidade de lhes revelar uma doutrina que reservava para os tempos

futuros, quando não mais governaria diretamente seu povo. Aqueles que, por ignorância,

declaram que Moisés ensinava a imortalidade da alma, roubam ao Novo Testamento uma de

suas principais vantagens sobre o Velho. Em sua leitura, é constante que a lei de Moisés

apenas anunciava castigos temporais até a quarta geração. Entretanto, apesar do enunciado

preciso dessa lei, apesar dessa declaração expressa de Deus de que ele punirá até a quarta

geração, Ezequiel anuncia aos judeus precisamente o contrário ao lhes dizer que o filho não

trará a iniqüidade de seu pai: ele chega ao ponto de colocar na boca de Deus que lhes tinha

dado “preceitos que não eram bons”.[1]

O livro de Ezequiel não foi menos inserido no cânone dos outros autores inspirados por

Deus; é bem verdade que, nas sinagogas, não era permitida sua leitura antes da idade de trinta

anos, como nos revela São Jerônimo, mas isso se devia ao medo de que a juventude abusasse

das metáforas extremamente ingênuas que se encontram nos capítulos XVI e XXIII a respeito

das libertinagens das duas irmãs Oholá e Oholibá. Resumindo, seu livro foi sempre bem-

recebido em toda parte, apesar de suas contradições formais com os de Moisés.

Por fim, desde que a imortalidade da alma passou a ser um dogma aceito, algo que

provavelmente começou durante o tempo do cativeiro na Babilônia, a seita dos saduceus

persistiu sempre em crer que não havia nem penas nem recompensas após a morte e que a

faculdade de sentir e de pensar perecia conosco, tal como a força ativa, o poder de caminhar e

a capacidade de digerir. Eles negavam a existência dos anjos. Diferiam muito mais dos outros

judeus do que os protestantes se diferem dos católicos; contudo, nem por isso permaneciam

menos na comunhão de seus irmãos, sendo até mesmo eleitos sumos sacerdotes pertencentes a

essa seita.

Os fariseus acreditavam no destino[2] e na metempsicose.[3] Os essênios pensavam que

as almas dos justos partiam para as Ilhas Afortunadas[4] e as dos malvados para uma espécie

de Tártaro. Eles não faziam quaisquer sacrifícios; reuniam-se separadamente em sinagogas

particulares. Em resumo, se quisermos examinar de perto o judaísmo, ficaremos surpresos por

encontrar a maior tolerância em meio aos horrores mais bárbaros. É verdade que isso é uma

contradição, mas quase todos os povos foram governados por contradições. Feliz aquele que

introduz costumes brandos onde existem leis sangrentas!

 

[1]. As idéias de Ezequiel acabaram por prevalecer nas sinagogas, mas houve judeus que, mesmo acreditando nas penas eternas, acreditavam também que Deus perseguia nos filhos as iniqüidades dos pais; diz-se que hoje estão sendo punidos além da qüinquagésima geração e ainda têm a temer as penas eternas. Indaga-se como os descendentes dos judeus que não foram cúmplices da morte de Jesus Cristo, ou seja, aqueles que estavam em Jerusalém, mas não tomaram parte em nada, ou aqueles que se achavam espalhados sobre o resto da Terra poderiam ser temporalmente punidos em seus filhos, tão inocentes quanto seus pais. Essa punição temporal ou, antes, essa maneira de existir diferente da dos outros povos e de comerciar sem ter pátria pode não ser absolutamente encarada como um castigo em comparação com as penas eternas que eles atraem sobre si mesmos por sua incredulidade e que poderiam evitar por meio de uma conversão sincera. (N.A.)

[2]. O dogma da fatalidade é antigo e universal; ele se encontra sempre em Homero. Júpiter queria salvar a vida de seu filho Sárpedon, mas o Destino o havia condenado à morte e Júpiter é forçado a obedecer. O destino era, para os filósofos, o encadeamento inevitável das causas e dos efeitos necessariamente produzidos pela natureza ou esse mesmo encadeamento ordenado pela Providência, algo que é bem mais razoável. Todo o sistema da fatalidade encontra-se contido neste verso de Aneu Sêneca [epístola CVII]:

Ducunt volentem fata, nolentem trahunt.

Sempre se convencionou que Deus governava o Universo por meio de leis eternas, universais e imutáveis. Essa verdade foi a fonte de todas as disputas incompreensíveis sobre a liberdade, até que nos aparecesse o sábio Locke: ele provou que liberdade é o poder de agir. Deus nos dá esse poder; e o homem, agindo livremente segundo as ordens eternas de Deus, é uma das engrenagens da grande máquina do mundo. Toda a Antigüidade disputou em torno da liberdade, mas ninguém foi perseguido por causa desse assunto até que chegassem os nossos dias. Que horror absurdo que aprisionassem por tais motivos Arnauld, Sacy, Nicole e tantos outros, que eram as luminárias da França! (N.A.)

[ 3]. A fantasia teológica da metempsicose provém da Índia, de onde recebemos muitas outras fábulas nas quais, em geral, ninguém acredita. Esse dogma é explicado no admirável Décimo-Quinto Livro das Metamorfoses de Ovídio. Ele foi aceito em praticamente toda a Terra; sempre foi combatido, mas não lemos em parte alguma que qualquer sacerdote da Antigüidade tenha jamais mandado aprisionar por causa disso algum discípulo de Pitágoras. (N.A.)

[4]. Nem os antigos judeus, nem os egípcios, nem os gregos seus contemporâneos acreditavam que as almas dos homens migrassem para os céus após a morte. Os judeus pensavam que a lua e o sol ficavam a algumas léguas de distância acima de nós, no mesmo círculo, e que o firmamento era uma abóbada espessa e sólida que sustentava o peso das águas, que escapavam de vez em quando por algumas aberturas. O palácio dos deuses, para os antigos gregos, ficava sobre o monte Olimpo. A mansão dos heróis após a morte ficava, nos tempos de Homero, em uma ilha para além do Oceano, e essa era também a opinião dos essênios. Depois de Homero, os planetas foram designados aos deuses, porém não havia mais razão para os homens colocarem um deus sobre a lua do que para os habitantes da lua colocarem um deus sobre o planeta Terra. Juno e Íris não possuíam outros palácios que as nuvens; nem sequer havia lá onde repousar um pé. Para os sabeus, cada deus tinha uma estrela; contudo, como uma estrela é um sol, não há meio de se habitar nela, a menos que se partilhe da natureza do fogo. É portanto uma questão bastante inútil indagar o que os antigos pensavam a respeito do céu; a melhor resposta é: eles nem pensavam nisso. (N.A.)