Tratado sobre a Tolerância

Voltaire · Capítulo 8 de 26

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Tratado sobre a Tolerância

Capítulo VII

SE A INTOLERÂNCIA ERA DEMONSTRADA PELOS GREGOS

Todos os povos de que a história nos deu alguns fracos conhecimentos consideraram suas

diferentes religiões como laços para a união da sociedade: havia uma associação entre os

deuses, tal como havia entre os homens. Quando um estrangeiro chegava a uma cidade,

começava sua permanência por um ato de culto aos deuses do país. Ninguém se furtava a

adorar sequer os deuses de seus inimigos. Os troianos dirigiam preces aos deuses que

combatiam pelos gregos.

Alexandre foi aos desertos da Líbia consultar o oráculo do deus Amon, ao qual os

gregos deram o nome de Zeus e os romanos de Júpiter, ainda que uns e outros tivessem seus

próprios templos erigidos a Júpiter e a Zeus em suas cidades. Quando uma cidade era

cercada, costumava-se fazer sacrifícios e enviar preces aos deuses da cidade para que se

tornassem favoráveis. Desse modo, mesmo no meio da guerra, a religião reunia os homens e

algumas vezes amenizava suas fúrias, ainda que, outras vezes, lhes ordenasse praticar ações

desumanas e horríveis.

Posso até me enganar, todavia, segundo me parece, dentre todos os povos antigos que

investigamos, nenhum perturbou a liberdade de pensamento. Todos tinham uma religião;

contudo, a impressão que tenho é que eles a usavam para tratar os homens do mesmo modo

como se relacionavam com os deuses: todos reconheciam a existência de um deus supremo,

mas associavam a ele uma quantidade prodigiosa de divindades inferiores; tinham um único

culto, mas permitiam o funcionamento de uma multidão de sistemas particulares.

Os gregos, por exemplo, por mais religiosos que fossem, consideravam bom que os

epicuristas negassem a Providência e a existência da alma. E nem falo de todas aquelas outras

seitas que combatiam as idéias sãs que devemos ter a respeito do Ser Criador, mas que eram

todas toleradas mesmo assim.

Sócrates, aquele que mais se aproximou do conhecimento do Criador, sofreu, segundo se

diz, o castigo por suas idéias e morreu mártir da Divindade: ele foi o único que os gregos

condenaram a morrer em virtude de suas opiniões. Se essa foi efetivamente a causa de sua

condenação, mesmo isso não foi um tributo à intolerância, porque apenas puniu aquele que

dava glória a um único Deus, enquanto se honrava a todos aqueles que se referiam à

Divindade com as noções mais indignas. Os inimigos da tolerância não devem, segundo minha

opinião, apoiar-se no exemplo odioso dos juízes de Sócrates.

É evidente, aliás, que ele foi vítima de um partido furiosamente animado contra ele.

Fizera inimigos irreconciliáveis entre os sofistas, os oradores e os poetas que ensinavam nas

escolas e até mesmo entre todos os preceptores que tinham a seus cuidados os filhos das

famílias distintas. Ele mesmo admite, em seu discurso transcrito por Platão, que ia de casa em

casa provar a esses preceptores que não passavam de ignorantes. Tal conduta não era digna

daquele que um oráculo havia proclamado como sendo o mais sábio dos homens. Foram suas

próprias atitudes que açularam contra ele um sacerdote e um membro do Conselho dos

Quinhentos, que o acusaram. Confesso que não sei precisamente de quê, pois sua Apologia é

demasiado vaga; apenas diz, de forma geral, que lhe imputaram inspirar à juventude máximas

contra a religião e o governo. É assim que agem diariamente os caluniadores por todo o

mundo; porém, em um tribunal, são necessários fatos comprovados, peças de acusação precisas e circunstanciadas; e destas não recebemos a menor descrição no relato do processo

de Sócrates; somente sabemos que ele teve, ainda assim, 220 votos em seu favor. O tribunal

dos quinhentos continha, portanto, 220 filósofos, e esse é um número muito grande: duvido que

se conseguisse encontrar tantos reunidos em qualquer outra parte. Seja como for, a maioria

votou em favor da cicuta. No entanto, também lembramos que os atenienses, caindo em si,

demonstraram horror pelos acusadores e pelos juízes; que Melitos, o principal responsável

pela condenação, foi posteriormente condenado à morte como conseqüência dessa injustiça;

que outros foram banidos e que um templo foi erguido em honra de Sócrates. Jamais a

filosofia foi tão vingada quanto honrada. O exemplo de Sócrates, bem-examinado, é o mais

terrível argumento que se pode alegar contra a intolerância. Os atenienses ergueram um altar

dedicado aos deuses estrangeiros, aos deuses que não podiam conhecer. Poderia haver uma

prova mais forte, não somente de indulgência para com todas as nações, mas ainda de respeito

com relação a seus cultos?

Um homem honesto, que não é inimigo nem da razão, nem da literatura, nem da

probidade, nem tampouco da pátria, ao justificar, pouco tempo depois, o massacre do dia de

São Bartolomeu, citou a Guerra dos Fócios, denominada então de guerra santa, como se

tivesse sido deflagrada em função de cultos, em defesa de dogmas ou de discussões

teológicas; de fato, foi causada pela disputa sobre a quem pertenceria um determinado campo;

esse é o motivo de todas as guerras. Hastes de trigo não são um símbolo de crença; nunca

qualquer cidade grega entrou em combate para defender opiniões. Aliás, o que pretendia esse

homem modesto e doce? Queria que iniciássemos uma guerra santa?