Tratado sobre a Tolerância

Voltaire · Capítulo 19 de 26

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Tratado sobre a Tolerância

Capítulo XVIII

OS ÚNICOS CASOS EM QUE A INTOLERÂNCIA

FAZ PARTE DO DIREITO HUMANO

Para que um governo não tenha o direito de punir os erros dos homens, é necessário que esses

erros não sejam crimes; os erros somente são crimes quando perturbam a sociedade; eles

perturbam a sociedade desde que inspirem fanatismos: é preciso, portanto, que os homens

comecem por deixar de ser fanáticos a fim de merecer a tolerância.

Se alguns jovens jesuítas, sabendo que a Igreja os reprovou, horrorizada, ou seja, que os

jansenistas foram condenados por uma bula papal, que assim os jansenistas são réprobos,

decidiram queimar um convento dos padres do Oratório porque Quesnel, um oratoriano, era

também jansenista, está claro que seremos obrigados a punir esses jesuítas.

Do mesmo modo, se eles compilaram máximas reprováveis, se sua regra é contrária às

leis do reino, não se pode impedir que sua Companhia seja dissolvida e que os jesuítas sejam

abolidos e transformados em cidadãos comuns; o que, no fundo, é um mal imaginário e para

eles um bem real, pois onde está o mal em se usar roupas civis em lugar de uma sotaina e de

ser livre em vez de ser escravo? Regimentos inteiros são dissolvidos e reformados em tempos

de paz e ninguém se queixa disso; por que os jesuítas se proclamam em tão altos gritos quando

são dissolvidos para que todos possamos ter paz?

Se os franciscanos, transportados por um santo zelo pela Virgem Maria, fossem demolir

a igreja dos jacobinos porque estes pensam que Maria nasceu com o pecado original,

seríamos obrigados a tratar os franciscanos mais ou menos como foram tratados os jesuítas.

Podemos dizer o mesmo dos luteranos e dos calvinistas. Eles poderiam perfeitamente

dizer: nós seguimos os impulsos de nossa consciência e mais vale obedecer a Deus do que aos

homens; nós somos o verdadeiro rebanho; devemos, portanto, exterminar os lobos. Em tal

caso, seria evidente que os lobos eram eles mesmos.

Um dos mais assombrosos exemplos de fanatismo foi o de uma pequena seita da

Dinamarca, cujo princípio era o melhor do mundo. Essa gente queria obter a salvação eterna

para seus irmãos, mas as conseqüências desse princípio eram singulares. Eles sabiam que

todas as criancinhas que morrem sem batismo são danadas e que aquelas que têm a felicidade

de morrer imediatamente após o batismo gozam da glória eterna; então eles passaram a matar

todos os meninos e meninas recentemente batizados que podiam encontrar; sem a menor

dúvida porque lhes pretendiam fazer o maior bem que seria possível conferir-lhes neste

mundo; ao mesmo tempo, os preservavam do pecado, das misérias desta vida e do inferno:

eram infalivelmente enviados para o céu. Mas essa gente caridosa não considerava que não

lhes era permitido realizar um pequeno mal para obter um grande bem; que eles não tinham o

menor direito sobre a vida dessas criancinhas; que a maioria dos pais e das mães está

suficientemente presa à carne para preferir ter junto de si seus filhos a vê-los mortos para

partirem diretamente para o paraíso; e que, em resumo, o magistrado deve punir os homicidas,

por melhores que tenham sido suas intenções.

Os judeus pareceriam ter mais direito do que quaisquer outras pessoas de nos roubar e

de nos matar porque, ainda que existam centenas de exemplos de tolerância no Velho

Testamento, não obstante existem nele também alguns exemplos e algumas leis bastante rigorosas. Houve ocasiões em que Deus lhes ordenou que matassem os idólatras e que não

perdoassem senão as meninas virgens; ora, eles nos consideram como idólatras e, ainda que

nós os toleremos hoje em dia, se fossem os senhores poderiam perfeitamente não deixar no

mundo senão as nossas filhas.

Eles estariam sobretudo na obrigação indispensável de assassinar todos os turcos, o que

é um argumento indiscutível, pois os turcos possuem as terras dos heteus, dos jebuseus, dos

amorreus, dos jerseneus, dos heveus, dos araceus, dos cineus, dos hamateus e dos

samaritanos: todos esses povos foram devotados ao anátema. Suas terras, com mais de 25

léguas de extensão, foram dadas aos judeus mediante vários pactos consecutivos; eles devem

retomar seus bens, mesmo que os maometanos os tenham usurpado há mais de mil anos.

Se os judeus raciocinassem assim hoje em dia, está claro que não haveria outra resposta

a lhes dar senão mandá-los todos para as galeras.

Esses são, mais ou menos, os únicos casos em que a intolerância parece ser razoável.