Tratado sobre a Tolerância

Voltaire · Capítulo 18 de 26

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Tratado sobre a Tolerância

Capítulo XVII

CARTA ESCRITA AO JESUÍTA LE TELLIER

POR UM DE SEUS BENEFICIÁRIOS A 6 DE MAIO DE 1714

 

Meu Reverendo padre:

Obedeço às ordens que Vossa Reverendíssima me deu a fim de apresentar-lhe os meios

mais adequados para livrar Jesus e Sua Companhia de seus inimigos. Eu creio que não restem

mais de 150 mil huguenotes no reino; alguns dizem que há um milhão, outros que são um

milhão e meio; porém, qualquer que seja seu número, esta é minha opinião, que submeto muito

humildemente à vossa, tal como devo.

1o – É fácil capturar no mesmo dia todos os pregadores e enforcá-los todos juntos no

mesmo lugar, não somente para a edificação pública, mas também pela beleza do espetáculo.

2º – Eu mandaria degolar em suas camas todos os pais e mães, porque, se os

matássemos nas ruas, isso poderia causar algum tumulto; muitos poderiam salvar-se, o que é

necessário evitar a qualquer custo. Essa execução é um corolário necessário de nossos

princípios: pois, se é necessário matar um herege, como demonstram tantos grandes teólogos,

é evidente que é preciso matar a todos.

3º – No dia seguinte, eu casaria todas as moças com bons católicos, porque não

podemos despovoar muito o Estado, como aconteceu na última guerra; contudo, o meu

conselho no que se refere aos rapazes de catorze e quinze anos, já imbuídos de maus

princípios, que não podemos nos iludir em sermos capazes de extinguir, é que todos eles

sejam castrados a fim de que sua raça nunca mais seja reproduzida. Quanto aos meninos

menores, eles serão criados nos colégios dos jesuítas e chicoteados até que saibam de cor as

obras de Sánchez e de Molina.

4º – Eu penso, salvo correção, que precisamos fazer assim com todos os luteranos da

Alsácia, considerando que no ano de 1704 eu escutei duas velhas daquela província rindo no

dia da batalha de Hochstedt.

5º – O caso dos jansenistas parecerá talvez um pouco mais embaraçador: acredito que

seu número seja de seis milhões, no mínimo; todavia, um espírito como o seu não deverá ter

medo disso. Eu incluo nos jansenistas todos os parlamentos que sustentam tão indignamente as

liberdades da Igreja Galicana. Vossa Reverendíssima deverá pesar, com sua prudência

costumeira, os meios de submeter todos esses espíritos intratáveis. A Conspiração da Pólvora

não obteve o sucesso desejado; parece que um dos conjurados teve a indiscrição de querer

salvar a vida de um amigo seu; porém, como não tendes nenhum amigo, não se deve temer o

mesmo inconveniente; a vós será bastante fácil mandar explodir todas as câmaras de

deputados do reino com essa invenção do monge Schwartz que se chama pulvis pyrius. Eu

calculo que serão necessários, uns amarrados aos outros, 36 barris de pólvora para cada

câmara; desse modo, multiplicando-se 12 câmaras de deputados por 36 barris, não vamos

precisar mais do que 432 barris de pólvora, os quais, ao custo de cem escudos por unidade,

comporão um total de 129.600 libras: é uma bagatela para o reverendíssimo padre geral.

Uma vez sanados os parlamentos, dareis seus cargos a membros de vossa congregação,

que estão perfeitamente instruídos nas leis do reino.

6º – Será fácil envenenar o sr. Cardeal de Noailles, que é um homem ingênuo e que não desconfia de nada.

Vossa Reverendíssima empregará os mesmos meios de conversão junto aos bispos

renitentes; seus bispados serão entregues às mãos de jesuítas por meio de uma autorização

papal. Desse modo, todos os bispos serão do partido da boa causa e todos os curas de igrejas

serão habilmente escolhidos por esses bispos: é o que aconselho, dependendo do bom grado

de Vossa Reverendíssima.

7º – Como se diz que os jansenistas comungam ao menos na Páscoa, não seria má idéia

polvilhar as hóstias com a droga que foi utilizada para fazer justiça ao imperador Henrique

VII. Algum crítico me dirá talvez que se correria o risco, durante essa operação, de dar

também a “morte dos ratos” aos molinistas; essa objeção é importante, mas não existe nenhum

projeto que não tenha seus inconvenientes, nenhum sistema que não esteja ameaçado de ruína

em alguma parte. Se nos deixarmos impedir por essas pequenas dificuldades, jamais

chegaremos ao final de nada; aliás, como se trata de buscar o maior bem que nos seja

possível, não nos devemos escandalizar se esse bem maior acarretar consigo algumas más

conseqüências, que não devem merecer qualquer consideração.

Não temos nada a nos reprovar: foi demonstrado que todos os pretensos reformados e

todos os jansenistas já estão condenados ao inferno; assim, a única coisa que faremos é

apressar o momento em que eles devem entrar em sua posse.

Não está menos claro que o paraíso pertence de direito aos molinistas: portanto, se os

fizermos perecer por acaso e sem qualquer má intenção, estaremos acelerando sua alegria. Em

ambos os casos, seremos os ministros da Providência.

Quanto àqueles que poderiam ficar um pouco assustados com os números, Vossa

Paternidade poderá observar-lhes que, desde os dias florescentes da Igreja até 1707, isto é,

durante cerca de 1.400 anos, a teologia já causou o massacre de mais de cinqüenta milhões de

homens, enquanto eu apenas proponho enforcar, degolar ou envenenar cerca de seis milhões e

quinhentos mil.

Talvez ainda nos apresentem a objeção de que minha conta não é correta e que estou

violando a “regra de três”; isso porque, dirão, se em 1.400 anos apenas pereceram cinqüenta

milhões de homens em conseqüência de distinções, dilemas e antilemas teológicos, isso não

dá por ano mais do que 35.714 pessoas, com uma fração, e que, desse modo, eu mato

6.464.085 pessoas a mais, com uma fração, durante o presente ano.

Mas, na verdade, esta é uma chicana bem pueril; podemos até mesmo dizer que é ímpia,

porque não se vê que, através de meu procedimento, eu salvo a vida de todos os católicos até

o fim do mundo. Isso jamais seria feito se quiséssemos atender a todas as críticas. Eu sou, com

um profundo respeito por Vossa Paternidade,

O muito humilde, muito devoto e muito doce R...[2], natural de Angoulême, prefeito da Congregação.

Esse projeto não pôde ser executado, porque o padre Le Tellier encontrou algumas

dificuldades, além do fato de que Sua Paternidade foi exilado no ano seguinte. No entanto,

como sempre se deve examinar os prós e os contras, parece bom pesquisarmos em que casos

se poderia legitimamente seguir em parte os pontos de vista do correspondente do padre Le

Tellier. Segundo parece, seria difícil executar esse projeto em todos os seus pontos, mas

sempre é necessário ver-se em que ocasiões se deve matar no pelourinho ou na forca ou mandar para as galeras as pessoas que não compartilham de nossas opiniões: esse é o tema do

capítulo seguinte.

 

[1]. Quando escrevíamos dessa maneira, em 1762, a ordem dos jesuítas ainda não havia sido abolida na França. Se eles já tivessem caído em desgraça, o autor sem dúvida os respeitaria. Mas que se recorde para sempre que eles só foram perseguidos porque tinham sido antes perseguidores e que seu exemplo faça tremer aqueles que, sendo ainda mais intolerantes do que os jesuítas, gostariam de oprimir um dia todos os seus concidadãos que não abraçassem suas opiniões duras e absurdas. (Nota de Voltaire, acrescentada em 1771)

[2]. Ravaillac. (N.A.)