Tratado sobre a Tolerância

Voltaire · Capítulo 4 de 26

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Tratado sobre a Tolerância

Capítulo III

U M RELATO SOBRE A REFORMA DO SÉCULO XVI

Assim que, em conseqüência da Renascença das letras, as mentes começaram a se tornar um

pouco mais esclarecidas e se puseram conjuntamente a queixar-se dos abusos. Todos

concordam que essas queixas eram legítimas.

O papa Alexandre VI havia comprado publicamente a mitra papal, e seus cinco

bastardos partilhavam das vantagens que ela lhe trazia. Seu filho, o cardeal duque de Bórgia,

mandou matar, com o consentimento do papa seu pai, as famílias dos Vitelli, dos Urbino, dos

Gravina, dos Oliveretto e centenas de outros nobres, a fim de apoderar-se de seus domínios. O

papa Júlio II, animado pelo mesmo espírito, excomungou o rei Luís XII e deu seu reino ao

primeiro que o tomasse; ele próprio, um capacete na cabeça e uma couraça em volta do torso,

submeteu a ferro e fogo uma parte da Itália. O papa Leão X, a fim de financiar seus próprios

prazeres, traficava com indulgências como se vendem as vitualhas no mercado público. Os

que se rebelaram contra tantos banditismos não tinham, ao menos, qualquer defeito moral.

Vamos ver se eles possuíam defeitos políticos que nos pudessem contrariar.

Eles diziam que, se Jesus Cristo nunca havia exigido anatas, nem cobrado quintos das

colheitas, nem tampouco vendido dispensações especiais para os atos deste mundo ou

indulgências para o outro, eles podiam dispensar a si próprios de pagar a um príncipe

estrangeiro o preço de todas essas coisas. Quanto às anatas, as custas dos processos que

corriam em Roma, ou as dispensações, cuja venda subsiste ainda hoje, não nos custavam

menos do que quinhentos mil francos por ano; portanto, está claro que, desde o tempo do rei

Francisco I, durante 250 anos, pagamos 125 milhões de francos; se avaliarmos a diferença no

valor da prata, essa soma compõe cerca de 250 milhões de hoje. Podemos então concordar,

sem qualquer blasfêmia, que os heréticos, ao proporem a abolição desses impostos singulares,

perante os quais a posteridade se enche de espanto, não estavam absolutamente causando um

grande mal ao reino e que eram mais bons calculadores do que maus súditos. Podemos

acrescentar que eles eram os únicos que sabiam falar a língua grega e que conheciam a

Antigüidade. Não dissimulemos de forma alguma que, apesar de seus erros, nós lhes devemos

o desenvolvimento do espírito humano, por tanto tempo amortalhado na mais espessa barbárie.

No entanto, uma vez que eles negavam a existência do purgatório, algo de que não

devemos duvidar e que, aliás, dava muitos lucros aos monges; como eles não reverenciavam

as relíquias que todos nós devemos venerar, mas que lhes traziam lucros ainda maiores;

finalmente, porque eles atacavam os dogmas mais respeitáveis[1], a única resposta que lhes

deram foi queimá-los na fogueira. O rei, que os protegia e os assalariava na Alemanha,

marchou sobre Paris à frente de uma procissão, depois da qual foram executados muitos

desses infelizes. Vejamos como foi essa execução: eles eram suspensos na ponta de uma longa

trave horizontal que se movia como uma basculante afixada a um tronco de árvore erguido; era

acesa uma grande fogueira embaixo deles; eles eram mergulhados no fogo e erguidos

alternadamente; experimentavam tormentos mortais de forma gradativa, até que expirassem em

conseqüência do mais longo e assustador suplício que jamais foi inventado pela barbárie.

Pouco tempo antes da morte de Francisco I, alguns deputados do parlamento da

província de Provença, insuflados pelos eclesiásticos contra os habitantes de Mérindol e de

Cabrières, solicitaram ao rei o envio de tropas para apoiar a execução de dezenove pessoas dessa região que eles haviam condenado; aproveitaram para massacrar seis mil, sem perdoar

mulheres, nem velhos, nem crianças; reduziram trinta aldeias a cinzas. Essas pessoas, até

então desconhecidas, certamente haviam agido mal por terem nascido valdenses; esta era a sua

única iniqüidade. Tinham se estabelecido havia trezentos anos em regiões desertas e em

montanhas que haviam tornado férteis mediante um labor incrível. Sua vida pastoril e

tranqüila reproduzia a inocência atribuída às primeiras idades do mundo. Eles não conheciam

as cidades vizinhas senão para ir comerciar os frutos da terra que nelas vendiam; ignoravam

os processos dos tribunais e as guerras; nem ao menos se defenderam; foram degolados como

animais fugitivos que se leva a um curral para matar.[2]

Depois da morte de Francisco I, um príncipe mais conhecido por suas galanterias e

infelicidades do que por sua crueldade, o suplício de mil hereges, entre eles o conselheiro

parlamentar Dubourg, e depois o massacre de Vassy acabaram por armar os perseguidos, cuja

seita tinha se multiplicado à luz das fogueiras e sob os ferros dos carrascos, a raiva sucedeu à

paciência; eles passaram a imitar as crueldades de seus inimigos; nove guerras civis encheram

a França de carnificinas; uma paz mais funesta do que a guerra produziu a noite de São

Bartolomeu, da qual não havia qualquer exemplo semelhante nos anais dos crimes.

A Liga Católica assassinou os reis Henrique III e Henrique IV pelas mãos de um

conservador jacobino e de um monstro que havia pertencido aos monges bernardos. Há quem

afirme que o humanismo, a indulgência e a liberdade de consciência são coisas horríveis; mas,

falando de boa-fé, quando foi que produziram calamidades comparáveis?

 

[1]. Eles renovavam a posição de Bérenger sobre a Eucaristia; negavam que um corpo pudesse estar em cem mil lugares diferentes, mesmo por meio da onipotência divina; negavam que os atributos pudessem existir sem sujeito; acreditavam que era absolutamente impossível que aquilo que é pão e vinho aos olhos, ao paladar e ao estômago pudesse ser aniquilado no mesmo momento em que existe; sustentavam todos esses erros, condenados antigamente nos escritos de Bérenger. Eles se fundamentavam em numerosas passagens dos primeiros pais da Igreja, sobretudo sobre São Justino, que diz expressamente em seu diálogo contra Trifônio: “A oblação da flor de farinha... é a figura da Eucaristia que Jesus Cristo nos ordena fazer em memória de sua paixão. Καί η τής σεμιδαλέως... τύπος ήυ τοΰ άρτου τής εύχαριστίας, όυ είς άυάμυησιυ τοϋ πάθους... ΄Ιησοΰς Χριστός ό αϋριος ήμώυ παρέδοκε ποιεϊυ”. (Página 119, Edição Londinensis, 1719, in-oitavo.) Eles retomavam tudo o que fora dito nos primeiros séculos contra o culto das relíquias e citavam estas palavras de Vigilantius: “Será necessário que respeiteis ou até mesmo adoreis uma poeira vil? As almas dos mártires ainda animam suas cinzas? Os costumes dos idólatras se introduziram na Igreja: começam a acender archotes à luz do meio-dia. Durante nossa vida, podemos rezar uns pelos outros; porém, após a morte, para que servem essas preces?”. Mas eles não referiam o quanto São Jerônimo se havia manifestado contra essas palavras de Vigilantius. Enfim, queriam conduzir tudo de volta aos tempos apostólicos e não queriam aceitar que, tendo a Igreja se expandido e fortificado, ela tivera necessariamente de expandir e fortificar sua disciplina: eles condenavam as riquezas, que pareciam não obstante necessárias para sustentar a majestade do culto. (N.A.)

[2]. A sra. de Cental, a quem pertencia uma parte das terras assoladas e sobre as quais somente se viam agora os cadáveres de seus habitantes, exigiu justiça ao rei Henrique II, que a enviou ao parlamento de Paris. O advogado-geral da Provença, chamado Guérin e principal autor dos massacres, foi o único condenado a perder a cabeça. De Thou diz que ele expiou sozinho a pena dos outros culpados, quod aulicorum favore destitueretur, ou seja, porque não dispunha de amigos na corte. (N.A.)