Tratado sobre a Tolerância

Voltaire · Capítulo 20 de 26

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Tratado sobre a Tolerância

Capítulo XIX

RELATO DE UMA DISPUTA SOBRE

 

UMA CONTROVÉRSIA RELIGIOSA NA HINA C

Durante os primeiros anos do reinado do grande imperador Kang-hi, um mandarim da cidade

de Cantão escutou de sua mansão um grande ruído que provinha de uma casa vizinha. Ele

mandou indagar se haviam matado alguém, e disseram-lhe que eram o esmoler da Companhia

Dinamarquesa e um capelão de Batávia que discutiam com um jesuíta. O imperador mandou

chamar os três, serviu-lhes chá e confeitos e depois indagou por que estavam disputando.

O jesuíta lhe respondeu que era muito doloroso para ele, que sempre tinha razão, ter de

lidar com gente que estava sempre errada; que inicialmente ele havia argumentado com a

maior moderação, mas que, por fim, havia perdido a paciência.

O mandarim o fez sentir, com o máximo de discrição possível, como a polidez é

necessária nas disputas, disse-lhe que as pessoas nunca se descontrolavam na China e

indagou-lhe de que se tratava a discussão.

O jesuíta respondeu-lhe:

– Senhor, peço que seja juiz entre nós: estes dois cavalheiros se recusam a submeter-se

às decisões do Concílio de Trento.

– Isso me espanta – disse o mandarim. Depois, voltou-se para os dois refratários. –

Parece-me, cavalheiros, que vocês deveriam respeitar a opinião de uma grande assembléia.

Eu não sei o que seja esse Concílio de Trento, mas muitas pessoas são sempre mais instruídas

do que uma só. Ninguém deve acreditar que sabe mais que os outros e que a razão somente se

encontra em sua própria cabeça; é assim que ensina nosso grande Confúcio. E, se vocês

concordam com o que eu digo, seria uma boa atitude de sua parte aceitar o que decidiu o

Concílio de Trento.

O dinamarquês então tomou a palavra e disse:

– O senhor fala com grande sabedoria; nós respeitamos as grandes assembléias tanto

quanto devemos. Portanto, somos inteiramente da opinião de muitas assembléias que se

realizaram antes do Concílio de Trento.

– Ah, mas se é assim!... – disse o mandarim. – Eu lhes peço perdão, vocês podem

perfeitamente ter razão. Isso quer dizer que vocês dois têm a mesma opinião, este holandês e

você, mas são contrários a este pobre jesuíta?

– Absolutamente – disse o holandês. – Este homem aqui tem opiniões quase tão

extravagantes quanto as deste jesuíta que está bancando o inocente em sua presença, mas não

há meio de apoiá-lo.

– Eu não vos compreendo – disse o mandarim. – Não sois vós, todos os três, cristãos?

Não viestes todos os três com o mesmo objetivo de ensinar o cristianismo em nosso império?

E não deveríeis ter, em conseqüência, os mesmos dogmas?

– Vede, Senhor – disse o jesuíta –, esses dois são inimigos mortais, mas os dois estão

disputando também comigo. Portanto, é evidente que os dois estão errados e que a razão se

encontra inteiramente do meu lado.

– Não, isso não é evidente – disse o mandarim. – Seria possível argumentar com boas

razões que vocês três estão errados: estou curioso e gostaria de escutá-los um após o outro.

O jesuíta fez então um discurso muito longo, durante o qual o dinamarquês e o holandês

se limitavam a dar de ombros; o mandarim não entendeu uma só palavra. O dinamarquês falou

por sua vez, enquanto seus dois adversários o encaravam cheios de piedade; e o mandarim não

entendeu mais do que antes. O holandês teve a mesma sorte. Finalmente, eles começaram a

falar todos ao mesmo tempo e a se lançar grosseiras injúrias. O mandarim teve grande

dificuldade para interromper a discussão, até que disse:

– Se vocês pretendem que se tolere aqui a sua doutrina, terão de começar por não serem

nem intolerantes nem intoleráveis.

Ao sair da audiência, o jesuíta encontrou um missionário jacobino: informou-o de que

havia ganho a causa, assegurando-lhe que a verdade triunfava sempre. O jacobino lhe disse:

– Se eu estivesse presente, você não teria ganho: eu teria provado que você é um

mentiroso e um idólatra.

A discussão se aqueceu. O jacobino e o jesuíta chegaram às vias de fato. O mandarim,

informado do escândalo, mandou prender os dois. Um submandarim disse ao juiz:

– Por quanto tempo Vossa Excelência deseja que eles permaneçam presos?

– Até que eles entrem em um acordo – disse o juiz.

– Ah! – redargüiu o submandarim – Então eles vão ficar na prisão para o resto da vida.

– Pois muito bem! – disse o juiz. – Então até que se perdoem.

– Eles não se perdoarão nunca – disse o outro. – Eu os conheço muito bem.

– Tudo bem – disse o mandarim. – Então até que eles finjam se perdoar.