Tratado sobre a Tolerância
Capítulo IX
SOBRE OS MÁRTIRES
Logo a seguir houve o martírio dos cristãos. É muito difícil saber precisamente por que razões
esses mártires foram condenados, mas ouso crer que nenhum deles o foi, sob os primeiros
césares, somente por causa de sua religião, já que todas eram toleradas. Por que iriam
procurar e perseguir homens obscuros somente pelo fato de que participavam de um culto
particular, nesse tempo em que todos os demais eram permitidos?
Os imperadores Tito, Trajano, Antonino e Décio não eram bárbaros. Como podemos
imaginar que eles tenham privado apenas os cristãos de uma liberdade de que gozava a terra
inteira? Eles poderiam ter ousado acusá-los de celebrar mistérios secretos, ao mesmo tempo
em que os mistérios de Ísis, os de Mitra e os da deusa da Síria, todos estranhos ao culto
romano, eram permitidos sem contradição? Não; é necessário que as perseguições tenham tido
outras causas e que ódios particulares, apoiados por razões de estado, tenham derramado o
sangue dos cristãos.
Por exemplo, quando São Lourenço recusou-se a entregar ao prefeito de Roma,
Cornelius Secularis, o dinheiro dos cristãos que tinha sob sua guarda, é natural que o prefeito
e o imperador se irritassem. Como eles podiam saber se era verdade que São Lourenço
tivesse mesmo distribuído esse dinheiro entre os pobres e que ele fizera uma obra caridosa e
santa? Eles o consideraram como um devedor relapso e o executaram.
Consideremos o martírio de São Polieucto. Ele foi condenado somente por causa de sua
religião? Ele entrou em um templo no qual se rendiam ações de graças aos deuses pela vitória
do imperador Décio, insultou os sacrificadores, derrubou os altares e quebrou as estátuas. Em
que país do mundo ele seria perdoado por tal atentado? O cristão que rasgou publicamente um
édito do imperador Diocleciano e que atraiu sobre seus irmãos a grande perseguição ocorrida
nos dois últimos anos do reinado desse príncipe não demonstrou um zelo sensato e teve a
infelicidade de ser a causa do desastre de seu partido. Esse zelo desconsiderado, que explodiu
muitas vezes e chegou a ser condenado por muitos dos padres da Igreja, foi provavelmente a
causa de todas as perseguições.
Não estou absolutamente querendo fazer uma comparação entre os primeiros
protestantes e os primeiros cristãos. De forma alguma pretendo equiparar o erro e a verdade,
colocando-os lado a lado; contudo, Farel, predecessor de Jean Calvin, fez em Arles o mesmo
que São Polieucto fez na Armênia. Havia uma procissão nas ruas, em que era levada em andor
a imagem de Santo Antônio Eremita. Farel, acompanhado de alguns de seus seguidores,
lançou-se contra os monges que transportavam a imagem de Santo Antônio, espancou-os,
dispersou-os e jogou Santo Antônio no rio. Ele merecia a morte, mas não a recebeu, porque
teve tempo de fugir. Se ele se tivesse contentado em gritar aos monges que não acreditava que
um corvo tivesse trazido a metade de um pão para Santo Antônio Eremita, nem que esse Santo
Antônio tivesse conversado com centauros e sátiros, teria merecido uma forte repreensão,
porque estava perturbando a ordem pública; porém, se nessa noite, depois da procissão, ele
tivesse discutido pacificamente a história do corvo, dos centauros e dos sátiros, ninguém teria
nada a lhe reprovar.
Mas então!? Os romanos teriam suportado que o infame Antínoo fosse alçado à condição
dos deuses secundários e teriam estraçalhado, jogado às feras todos aqueles de quem só se poderia censurar por adorar pacificamente um justo!? Mas como!? Eles reconheceriam a
existência de um Deus supremo[1], um Deus soberano, senhor de todos os deuses secundários,
conforme atestava esta fórmula: Deus optimus maximus (O deus maior entre os melhores). E
depois iriam caçar aqueles que adoravam um Deus único!?
Não é crível que jamais tenha havido uma inquisição contra os cristãos sob o governo
dos imperadores romanos, nem que sequer tenham ido a suas casas a fim de interrogá-los a
respeito de suas crenças. Nesse sentido, nunca foram perturbados nem judeus, nem sírios, nem
egípcios, nem bardos, nem druidas, nem filósofos. Os mártires foram, portanto, aqueles que se
revoltaram contra os falsos deuses. Era uma coisa muito acertada e piedosa não acreditar
neles; todavia, se não se contentaram em adorar um Deus em espírito e em verdade, mas se
rebelaram violentamente contra o culto tradicional, por mais absurdo que pudesse ser, somos
forçados a admitir que eles próprios eram intolerantes.
Tertuliano, em sua Apologética, admite que os cristãos eram considerados rebeldes; a
acusação era injusta, mas provava que não era somente a religião dos cristãos que provocava
a violência dos magistrados. Ele confessa que os cristãos se recusavam a ornamentar suas
portas com ramos de loureiro durante as datas oficiais de regozijo público pelas vitórias
obtidas pelos imperadores. Essa afetação condenável poderia ser facilmente considerada
como sendo um crime de lesa-majestade.
A primeira severidade jurídica exercida contra os cristãos foi a do imperador
Domiciano, mas ela se limitou a um exílio que não chegou a durar um ano: “Facile coeptum
repressit, restitutis etiam quos relegaverat”, (Tão facilmente como os reprimiu no começo,
também mandou chamá-los de volta para serem restaurados), diz Tertuliano (capítulo V).
Lactâncio, cujo estilo é tão exaltado, concorda que, entre Diocleciano e Décio, a Igreja
permaneceu tranqüila e florescente. Essa longa paz, segundo ele, só foi interrompida quando
aquele “animal execrável, Décio”, oprimiu a Igreja: “Exstitit enim post annos plurimos
exsecrabile animal Decius, qui vexaret Ecclesiam” (Apologética, capítulo IV).
Não queremos em absoluto discutir aqui as idéias do sábio Dodwell sobre o pequeno
número dos mártires. No entanto, se os romanos tivessem levado à morte tantos inocentes por
meio de suplícios inusitados, se tivessem mergulhado cristãos em óleo fervente, se tivessem
jogado jovens completamente nuas aos animais selvagens no circo, como foi que eles
deixaram em paz todos os primeiros bispos de Roma? Santo Irineu não conta entre os mártires
nenhum desses bispos, à exceção de Telésforo, no ano 139 da era presente, e não dispomos de
qualquer prova de que este tenha sido executado. Zeferino governou o rebanho de Roma
durante dezoito anos e morreu pacificamente no ano de 219. É verdade que entre antigos
martiriológios se incluíam quase todos os primeiros papas, mas a palavra “mártir” só era
então empregada de acordo com seu verdadeiro significado: martírio queria dizer então
testemunho, e não suplício.
É difícil combinar esse furor de perseguições com a liberdade que tiveram os cristãos
primitivos de realizar 56 concílios, conforme registram os escrivães eclesiásticos durante os
três primeiros séculos.
Houve perseguições; porém, se tivessem sido tão violentas como se diz, seria de se
esperar que Tertuliano, que escreveu com tanta energia contra o culto tradicional, não tivesse acabado por morrer em seu próprio leito. Sabemos, naturalmente, que os imperadores não
leram a sua Apologética; que um documento obscuro, escrito na África, não chegaria às mãos
daqueles que estavam encarregados do governo do mundo, mas deveria ser conhecido por
aqueles que tinham acesso ao procônsul da província da África e ser capaz de atrair bastante
ódio contra seu autor; todavia, ele não sofreu o martírio.
Orígenes ensinava publicamente em Alexandria e não foi absolutamente executado. Esse
mesmo Orígenes, que falava com liberdade tanto aos pagãos quanto aos cristãos, que
anunciava Jesus para os primeiros e negava que Deus tivesse três pessoas para os segundos,
reconhece expressamente, em seu terceiro livro contra Celso, “que houve muito poucos
mártires e grandes intervalos entre eles. Entretanto”, diz ele, “os cristãos não negligenciam
qualquer meio para fazer abraçar sua religião por todo o mundo; eles percorrem as cidades, as
vilas e as aldeias.”
É certo que essas excursões contínuas poderiam ser facilmente acusadas de sedição
pelos sacerdotes inimigos; todavia, tais missões eram toleradas por todos, com a única
exceção do povo egípcio, sempre turbulento, sedicioso e covarde: gente que havia feito em
pedaços um cidadão romano porque tinha matado um gato, gente desprezível em todas as
épocas, não importa o que digam os admiradores das pirâmides.
Quem mais poderia ter revoltado contra si mesmo os sacerdotes e o governo que São
Gregório Taumaturgo, discípulo de Orígenes? Certa noite, Gregório avistara um velho enviado
por Deus, acompanhado de uma mulher resplandecente de luz: essa mulher era a santa Virgem,
e o velho, São João Evangelista. São João ditou-lhe uma mensagem que São Gregório deveria
pregar. Em sua jornada para Neocesaréia, ele passou perto de um templo em que se revelavam
oráculos, dentro do qual a chuva o obrigou a passar a noite; lá dentro, persignou-se umas
quantas vezes. No dia seguinte, o grande sacrificador do templo espantou-se ao ver que os
demônios que até então lhe respondiam não queriam mais dizer os seus oráculos; ele os
chamou de volta; os diabos vieram só para lhe dizer que não voltariam mais; explicaram-lhe
que não podiam mais habitar no templo, porque Gregório havia passado a noite dentro dele e
fizera repetidas vezes o sinal da cruz.
O sacrificador mandou prender Gregório, que afirmou: “Tenho o poder de expulsar
demônios de onde quero e os fazer entrar onde me agrade”. “Então faça-os entrar de novo em
meu templo”, disse o sacrificador. Sem discutir, Gregório rasgou um pequeno fragmento de um
papiro que trazia consigo e nele traçou as seguintes palavras: “Gregório a Satã: Eu te ordeno
que voltes a entrar neste templo”. Colocaram esse bilhete sobre o altar: os demônios
obedeceram e recomeçaram nesse mesmo dia a apresentar seus oráculos como de costume,
mas logo a seguir cessaram outra vez, como é do conhecimento de todos.
É São Gregório de Nissa que relata tais façanhas na vida de São Gregório Taumaturgo.
Os sacerdotes desses ídolos deveriam estar, sem a menor dúvida, ressentidos contra Gregório
e, em sua cegueira, o denunciaram aos magistrados, embora seu maior inimigo não tenha
sofrido qualquer perseguição.
Na história de São Cipriano, relata-se que ele foi o primeiro bispo de Cartago a ser
condenado à morte. O martírio de São Cipriano data do ano de 258 de nossa era. Isso significa
que, por um longo período, nenhum bispo de Cartago foi imolado por sua religião. A história não nos diz quais calúnias foram levantadas contra São Cipriano, quais inimigos ele tinha ou
por que o procônsul da África se irritou com ele. São Cipriano escreveu a Cornélio, bispo de
Roma: “Aconteceu pouco depois uma revolta popular em Cartago e, por duas vezes, a
multidão gritou que eu deveria ser jogado aos leões”. É bastante verossímil que tenham sido
os arrebatamentos do povo feroz de Cartago que terminaram por causar a morte de Cipriano e,
sem a menor dúvida, não foi o imperador Galo que o mandou condenar de tão longe em
virtude de sua religião, uma vez que ele deixou Cornélio em paz e este vivia praticamente
debaixo de seus olhos.
Tantas causas secretas se misturam tão freqüentemente à causa aparente, tantos recursos
desconhecidos servem para perseguir um homem, que se torna impossível separar nos séculos
posteriores as fontes escondidas das infelicidades dos homens mais famosos e, portanto, com
muito maior razão, as do suplício de um cidadão que não poderia ser conhecido senão pelos
membros de seu próprio partido.
Observe-se que São Gregório Taumaturgo e São Dinis, bispo de Alexandria, que não
foram absolutamente supliciados, viveram na mesma época que São Cipriano. Por que, sendo
ao menos tão conhecidos quanto esse bispo de Cartago, eles permaneceram sem ser
perturbados? E por que o próprio São Cipriano foi levado ao suplício? Não parece que ele
sucumbiu perante inimigos pessoais e poderosos, sob acusações caluniosas, sob o pretexto de
razões de Estado, que tão freqüentemente se juntam à religião, enquanto os outros tiveram a
felicidade de escapar à malevolência dos homens?
Não é em absoluto possível que Santo Inácio tenha perecido pela única acusação de
cristianismo, sob o governo do clemente e justo imperador Trajano, porque se permitiu a
outros cristãos que o acompanhassem e o consolassem, enquanto estava sendo conduzido a
Roma. Com freqüência haviam ocorrido rebeliões em Antioquia, uma cidade sempre
turbulenta, em que Inácio era em segredo o bispo dos cristãos: talvez essas sedições,
malignamente imputadas aos cristãos inocentes, chamassem a atenção do governo e este fosse
enganado, como acontece com tanta freqüência.
São Simeão, por exemplo, foi acusado diante do rei Sapor de ser espião dos romanos. A
história de seu martírio relata que Sapor lhe propôs a adoração do sol, mas é conhecido que
os persas absolutamente não adoravam o sol: eles apenas o consideravam como um emblema
do princípio do bem, Oromase ou Ahuramazda, o Deus criador que eles reconheciam.
Por mais tolerante que alguém possa ser, não pode impedir-se de sentir alguma
indignação contra esses declamadores que acusam o imperador Diocleciano de ter perseguido
os cristãos desde que subiu ao trono. Vamos ao relato de Eusébio de Cesaréia: seu testemunho
não pode ser recusado, pois ele foi o favorecedor, o panegirista do imperador Constantino e
inimigo violento dos imperadores precedentes, portanto deve merecer crédito quando os
justifica. Estas são as suas palavras: “Os imperadores concederam aos cristãos durante muito
tempo grandes provas de benevolência; confiaram-lhes o governo de províncias; numerosos
cristãos moravam no palácio imperial; chegaram mesmo a casar com cristãs. Diocleciano
tomou como esposa Prisca, cuja filha foi esposa de Maximiano Galero etc.”[2]
Que se aprenda a partir desse testemunho decisivo a não caluniar; que se julgue se a
perseguição instigada por Galero, depois de dezenove anos de um regime de clemência e de benefícios, não deve ter tido sua fonte em qualquer intriga de que não temos conhecimento.
Que se veja até que ponto a fábula da Legião Tebaica ou Tebana, massacrada
inteiramente, segundo nos contam, por causa de sua religião, não passa de uma fábula absurda.
É ridículo que tivessem mandado chamar essa legião da Ásia pelo caminho do passo de São
Bernardo nos Alpes; é impossível que a tenham mandado buscar da Ásia a fim de apaziguar
uma sedição entre os gauleses, um ano depois que essa revolta já tinha sido reprimida; não é
menos impossível que tivessem matado seis mil soldados de infantaria e setecentos
cavalarianos em uma passagem das montanhas onde duzentos homens bastariam para deter um
exército inteiro. O relato dessa pretensa carnificina começa por meio de uma impostura
evidente: “Quando a terra gemia sob a tirania de Diocleciano, o céu se povoou de mártires”.
Ora, essa aventura, conforme é contada, passou-se supostamente no ano de 286, justamente a
época em que o imperador Diocleciano mais favorecia os cristãos, em um dos períodos em
que o império romano foi mais feliz. Por fim, o que deveria acabar definitivamente com toda
esta discussão é que nunca houve uma Legião Tebana: os romanos eram orgulhosos e sensatos
demais para compor uma legião exclusivamente com egípcios, que só eram empregados em
Roma como escravos, Verna Canopi: é como se eles tivessem organizado uma legião judia.
Conhecemos os nomes das 32 legiões que constituíam as principais forças do império romano:
indubitavelmente o nome de Legião Tebana não se encontra nessa relação. Vamos, portanto,
colocar essa história juntamente com os versos acrósticos dos Livros Sibilinos que prediriam
os milagres de Jesus Cristo e com tantas outras histórias fictícias que um zelo falsamente
religioso prodigalizou para abusar da credulidade do povo.
[1]. Basta abrir as obras de Virgílio para ver que os romanos reconheciam um Deus supremo, soberano de todos os entes celestes.
... O! qui res hominum deumque
Aeternis regis imperiis, et fulmine terres.
(Eneida, I, 233-234)
O pater, o hominum divumque aeterna potestas, etc.
(Eneida, X, 18)
Horácio exprime-se ainda mais fortemente:
Unde nil majus generatur ipso,
Nec viget quidquam simile, aut secundum.
(Livro I, ode XII, 17-18)
Não se cantava outra coisa senão a unidade de Deus nos mistérios aos quais quase todos os romanos eram iniciados. Veja o belo hino de Orfeu; leia a carta de Máximo de Madaura a Santo Agostinho, na qual ele diz “que somente os imbecis não podem reconhecer a existência de um Deus soberano”. Longiniano, que era pagão, escreveu ao mesmo Santo Agostinho que Deus “é único, incompreensível e inefável”; o próprio Lactâncio, que ninguém pode acusar de ser indulgente em demasia, admite em seu Livro V (Divinitas Institutiones, Capítulo III) que “os romanos submetem todos os deuses ao Deus supremo; illos subjicit et mancipat Deo”. O próprio Tertuliano, em sua Apologética (Capítulo XXIV), admite que todo o império reconhecia um Deus, senhor do mundo, cujo poder e majestade são infinitos, principem mundi, perfectae potentiae et majestatis. Sobretudo, consulte Platão, o mestre de Cícero em filosofia, e lerá “que não existe senão um Deus; que é necessário adorá-lo, amá-lo e trabalhar para nos assemelharmos a ele por meio da santidade e da justiça”. Epíteto em seus grilhões, Marco Antônio em seu trono, dizem a mesma coisa em cem lugares diferentes. (N.A.)
[2]. História Eclesiástica, 1, VIII. (N.A.)