Um Crime Adormecido

Agatha Christie · Capítulo 10 de 23

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Um Crime Adormecido

-

-

E

daí?

- O negócio é que ela não está morta. Ele pode ter pensado que ela estivesse -

m as está apenas sem i-asfixiada. Depois que, o m arido enlouquecido parte para a casa do m édico, do outro lado da cidade, talvez o am ante chegue... ou talvez ela volte a si. De qualquer m odo, assim que se refaz, trata de ir em bora. E bem depressa. Isso explica tudo. A certeza de Kelvin de que a m atou. O desaparecim ento das roupas, que haviam sido em baladas e levadas em bora antes. E as cartas, que são absolutamente autênticas.

Pronto. Isso explica tudo.

- Não explica por que Kelvin disse que a estrangulara no quarto, retorquiu Gwenda.

- Estava tão abalado que não se lem brava bem do local em que tudo aconteceu.

- Gostaria de acreditar nisso. Quero acreditar... Mas continuo tendo certeza...

certeza absoluta... de que quando olhei para baixo ela estava m orta... bem m orta, disse Gwenda.

- Mas com o é que você podia saber? Um a criança de m enos de três anos...

Gwenda lançou-lhe um olhar de dúvida.

- Acho que as crianças sabem ... m ais que os adultos. É com o os cachorros... eles reconhecem a m orte, atiram a cabeça para trás e uivam . Acho que as crianças...

reconhecem a m orte...

- Isso é tolice. Não faz sentido.

A cam painha da porta interrom peu-o. - Quem será? perguntou Giles.

Gwenda olhou intim idada.

- Tinha esquecido! exclam ou Gwenda. - É Miss Marple. Convidei-a para tom ar chá. Não vam os contar nada disso para ela.

II

Gwenda tem ia que o convite para o chá acabasse se transform ando num a situação difícil, m as felizm ente Miss Marple pareceu não notar que sua anfitriã estava falando um pouco depressa dem ais, com excessiva anim ação, e que sua alegria era um tanto ou quanto forçada. Miss Marple, por sua vez m ostrava-se bastante loquaz. Estava gostando tanto da estadia em Dillm outh e, im aginem só, um a am iga tinha escrito a am igos que m oravam em Dillm outh e Miss Marple, conseqüentem ente, recebera vários convites de habitantes locais.

- A gente se sente tão bem , tão m enos estranha, querida, conhecendo pessoas que m oram aqui há anos! Por exem plo, vou tom ar chá com a Sra. Fane. Ela é viúva do diretor do m elhor escritório de advocacia de Dillm outh. Um a firm a de fam ília toda à m aneira antiga. Hoj e em dia quem dirige o escritório é o filho da Sra. Fane.

A voz am ável, tagarelando, continuava. A dona da pensão era tão delicada, tratava-a tão bem . . . - E a com ida é realm ente deliciosa. Ela trabalhou durante anos em casa de m inha velha am iga a Sra. Bantry. Não é daqui, m as a tia m orou em Dillm outh m uito tem po e ela sem pre vinha passar as férias com o m arido em casa da tia. Conhece todos os m exericos da cidade. Por falar nisso, estão satisfeitos com o j ardineiro? Ouvi dizer que ele não é dos m elhores. Fala m uito m as não trabalha nada.

- A especialidade dele é falar e tom ar chá, respondeu Giles. - Tom a um as cinco xícaras de chá por dia. Mas quando ficam os em cim a trabalha m aravilhosam ente bem .

- Venha ver o j ardim , disse Gwenda.

Mostraram -lhe a casa e o j ardim . Miss Marple fez os com entários habituais.

Gwenda não precisava tem er que ela reparasse em algum a coisa fora do lugar, com a sua aguda observação, pois Miss Marple não dem onstrava o m enor conhecim ento de qualquer irregularidade.

No entanto, estranham ente, foi Gwenda quem , de súbito resolveu agir de m odo im previsível. Interrom pendo um caso que Miss Marple estava contando, disse a Giles: -

Não faz m al.. Vou contar para ela...

Miss Marple virou-se para Gwenda com ar atento. Giles com eçou a falar m as parou.

- Bem Gwenda, a cabeça é sua, disse ele finalm ente.

E ela fez o relato com pleto. A visita a Kennedy, a conseqüente ida do m édico em casa deles e o que lhes contara.

- Era isso que a senhora queria dizer em Londres, não era? perguntou Gwenda em tom ansioso. - A senhora achava que... que talvez m eu pai estivesse envolvido nisso?

- Sim , achei que era possível, respondeu Miss Marple, delicadam ente. - Helen podia m uito bem ser um a j ovem m adrasta... e num caso de... estrangulam ento, freqüentem ente o culpado é o m arido.

Miss Marple falava com o um a pessoa que observa fenôm enos absolutam ente naturais; sem surpresa ou em oção.

- Com preendo por que insistiu para que deixássem os tudo de lado, disse Gwenda.- Oh, teria sido m elhor seguir esse conselho! Mas não se pode voltar atrás.

- Não, concordou Miss Marple. - Não se pode voltar atrás.

- Agora gostaria que ouvisse o que Giles tem a dizer. Ele fez vários com entários e obj eções.

- O que quero dizer é só que as coisas não encaixam , atalhou Giles.

E expôs com lucidez e clareza, todos os pontos que j á expusera a Gwenda. Por fim expôs sua teoria.

- Se a senhora conseguisse convencer Gwenda de que é a única explicação possível...

Miss Marple olhou para Gwenda e novam ente para Giles. - É um a teoria perfeitam ente razoável, disse ela. - Mas há sem pre, Sr. Reed, a possibilidade de X, com o o senhor m esm o disse.

- X! exclam ou Gwenda.

- O fator desconhecido, disse Miss Marple. - Alguém que ainda não apareceu -

m as cuj a presença pode ser deduzida através dos fatos.- Decidim os ir à clínica onde m eu pai m orreu, em Norfolk, disse Gwenda. -

Talvez lá possam os descobrir algum a coisa.

CAPÍTULO X

HISTÓRICO DE UM CASO

Saltm arsh House ficava num local aprazível, a cerca de seis m ilhas da costa.

Partindo-se de South Benham , um a cidade que ficava a cinco m ilhas de distância, podia-se ir de trem para Londres.

Giles e Gwenda foram introduzidos num a grande e arej ada sala de estar, cuj os m óveis eram estofados de cretone com flores. Um a encantadora senhora de cabelos brancos entrou, trazendo um copo de leite. Cum prim entou-os com a cabeça e sentou-se j unto à lareira. Olhou para Gwenda com um ar pensativo, inclinou-se em sua direção e perguntou sussurrando:

-

Trata-se de sua criança, minha cara?

Gwenda, um pouco assustada, respondeu:

- Não, não é isso.

- Ah, estava pensando... A velha senhora abanou a cabeça e tom ou um gole de leite. Em seguida prosseguiu, m uito naturalm ente. - Dez e m eia... está na hora. É sem pre às dez e m eia. Extraordinário... Baixou a voz e inclinou-se novam ente para a frente.

- Através da lareira, sussurrou ela. - Mas não diga que fui eu que contei.

Nesse m om ento um a servente vestida de branco entrou na sala e pediu ao casal que a acom panhasse.

Giles e Gwenda entraram no escritório do Dr. Penrose, que se levantou para recebê-los.

Esse Dr. Penrose, pensou Gwenda consigo m esm a, parece m eio m aluco. Parece m uito m ais doido que aquela senhora da sala de estar... m as talvez todos os psiquiatras sej am m eio m alucos.

- Recebi sua carta e a do Dr. Kennedy, disse o Dr. Penrose. - E dei um a olhada no histórico do caso de seu pai, Sra. Reed. Lem bro-m e m uito bem do caso, naturalm ente, m as queria refrescar m inha m em ória para poder lhe contar tudo o que desej a saber. Pelo que fui inform ado, a senhora só recentem ente veio a conhecer os fatos, não é?

Gwenda explicou que fora criada na Nova Zelândia pela fam ília de sua m ãe e que a única coisa que sabia a respeito do pai era sobre seu falecim ento num a clinica na Inglaterra.

Dr. Penrose assentiu com a cabeça. - Exatam ente. O caso de seu pai, Sra. Reed, apresentava alguns aspectos m uito estranhos.

- Tais com o? perguntou Giles.

- Bem , a obsessão era m uito forte. O Maj or Halliday, apesar de um estado nervoso bastante sério, era absolutam ente enfático e categórico ao afirm ar que estrangulara sua segunda esposa num acesso de ciúm es. Não apresentava m uitos dos sintom as habituais a esses casos e, para ser franco, Sra. Reed, devo lhe dizer um a coisa.

Se Kennedy não tivesse garantido que a Sra. Halliday estava viva, eu talvez tivesse achado, na época, que seu pai só m e dizia a verdade.

- O senhor teve a im pressão de que ele realm ente a m atara? perguntou Giles.

- Eu disse "na época". Mais tarde reform ulei m inha opinião, pois passei a conhecer m elhor a estrutura e a personalidade do Maj or Halliday. Seu pai, Sra. Reed, não era de m aneira algum a um tipo paranóico. Não tinha m ania de perseguição nem im pulso, violentos. Era um hom em afável, cordial e controlado. Não era o que todos cham am de "louco" nem era perigoso. Mas tinha essa idéia fixa sobre a m orte da Sra.

Halliday. Para explicar isso, estou convencido de que teríam os de voltar m uito atrás... a algum a experiência infantil. Mas adm ito que todos os m étodos de análise falharam em seu caso. Às vezes dem ora-se m uito tem po para quebrar a resistência de um paciente à análise. Isso pode levar anos. No caso de seu pai o tem po foi insuficiente.

Fez um a pausa e, em seguida, com um olhar incisivo, prosseguiu: - Suponho que a senhora estej a ciente de que ele se suicidou.

-

Oh,

não! gritou Gwenda.

- Sinto m uito, Sra. Reed. Pensei que a senhora soubesse. Talvez até tenha o direito de achar que, em parte, a culpa foi nossa. Concordo que um a vigilância m aior teria im pedido o que aconteceu. Mas, francam ente, eu não via nenhum sintom a de ser o Maj or Halliday um suicida em potencial. Não m ostrava tendência para a m elancolia...

não tinha depressões nem desânim os. Queixava-se de insônia e m eu colega lhe dava com prim idos para dorm ir. Ele fingia tom á-los e, em vez disso, foi guardando todos os com prim idos até possuir um a quantidade suficiente, e...

- Ele se sentia tão infeliz assim ?

- Não, acho que não. Era m ais, em m inha opinião, um com plexo de culpa, um desej o de ser castigado. No início, com o a senhora sabe, queria cham ar a polícia e, apesar de term os conseguido dissuadi-lo, assegurando-lhe não haver com etido crim e algum , ele nunca se deixou realm ente convencer. No entanto provam os a ele seguidam ente, e ele concordava, que de m aneira nenhum a se lem brava do assassinato em si. Dr. Penrose rem exeu nos papéis que estavam em cim a de sua m esa. - Seu relato sobre aquela noite era sem pre o m esm o. Dizia que tinha entrado na casa e que estava escura. As em pregadas haviam saído. Ele foi à sala de j antar e tom ou um drinque, com o costum ava fazer. Em seguida passou para a sala de estar pela porta de com unicação.

Depois disso não se lem brava de m ais nada, até o m om ento em que se viu de pé, no quarto, olhando para sua m ulher que estava m orta... estrangulada. Ele sabia que tinha sido ele...

Giles interrom peu. - Desculpe, Dr. Penrose, m as como é que ele sabia que tinha sido ele?

- Não havia a m enor dúvida em sua m ente. Desde alguns m eses antes vinha tendo suspeitas m elodram áticas. Disse-m e, por exem plo, que estava convencido de que sua m ulher lhe dava drogas. Tendo m orado na Índia, ele sabia que lá é relativam ente com um as m ulheres fazerem os m aridos enlouquecerem através da adm inistração de datura. Tinha freqüentes alucinações, confundindo tem po e lugar. Negava insistentem ente que suspeitasse da infidelidade da esposa, m as m esm o assim acho que o m otivo foi esse. Parece que o que aconteceu, na realidade, é que ele entrou na sala, leu o bilhete de sua m ulher dizendo que ia deixá-lo, e sua m aneira de fugir do fato foi preferir "m atá-la". Daí a alucinação.

- Acha que a am ava m uito? perguntou Gwenda.

- Evidentem ente, Sra. Reed.

- E ele nunca adm itiu... que fosse um a alucinação?

- Concordava que tinha que ser... m as internam ente não se convencia. A obsessão era forte dem ais para ser vencida pela razão. Se tivéssem os conseguido descobrir a fixação infantil inconsciente...

Gwenda interrom peu. Não estava interessada em fixações infantis.

- Mas o senhor diz ter certeza... de que ele não com eteu o crim e?

- Oh, se é isso o que a preocupa, Sra. Reed, pode ficar descansada. Por m ais ciúm es que tivesse da m ulher, Kelvin Halliday não era, de m odo algum , um assassino.

Penrose pigarreou e apanhou um a pequena caderneta preta.

- Acho que a senhora é a pessoa que deve ficar com isto, se quiser, Sra. Reed.

Contém diversas anotações feitas pelo seu pai enquanto esteve internado aqui. Quando entregam os seus pertences ao testam enteiro - que era um escritório de advocacia, Dr.

McGuire, na ocasião, o diretor da clínica ficou com essa caderneta porque fazia parte do histórico do caso. O caso de seu pai está descrito no livro do Dr. McGuire.

Evidentem ente refere-se a ele apenas através das iniciais - Sr. H. K. Se quiser ficar com este diário...

Gwenda estendeu a m ão rapidam ente.

- Obrigada, disse ela. - Gostaria m uito.

II

No trem , de volta a Londres, Gwenda pegou a pequena caderneta preta e com eçou a ler.

Abriu-a ao acaso.

Esses médicos devem saber o que estão dizendo... Para mim é tudo conversa fiada. Será que eu estava apaixonado por minha mãe? Odiava meu pai? Não acredito numa só palavra... Não consigo deixar de achar que se trata simplesmente de um caso de polícia... de julgamento... e não de um caso de insanidade. E no entanto... algumas das pessoas aqui... tão normais, tão razoáveis, como todo mundo... a não ser quando a gente esbarra na coisa. Bem, aí eu também esbarro e fico confuso...

Escrevi para James... insisti para que se comunicasse com Helen . . . Quero que ela venha me ver em carne é osso, se estiver viva... Ele diz que não sabe onde e1a está...

Isso é porque ele sabe que ela morreu e que fui eu que a matei... É um bom sujeito, masnão me engana... Helen está morta...

Quando foi que comecei a desconfiar dela? Faz muito tempo... Logo depois que chegamos a Dillmouth... Ela mudou. . . Estava escondendo alguma coisa... Eu a vigiava... Sim, e ela me vigiava...

Será que ela colocava drogas na minha comida? Aqueles pesadelos estranhos e terríveis... Não eram sonhos comuns... pesadelos vivos... Eu sabia que eram efeito de drogas.... Só ela poderia ter feito isso... Por quê?... Há um homem... Algum homem de quem ela sentia medo...

Vou ser franco. Eu desconfiava que ela possuía um amante, não é? Havia alguém -eu sei que havia alguém... Ela me disse no navio... Alguém que ela amava e com quem não podia se casar... Comigo era a mesma coisa... Não conseguia esquecer Megan . . . Como Gwennie se parece com Megan! Helen brincava tanto com Gwennie a bordo... Helen . . . Você é tão bonita, Helen...

Será que Helen está viva? Ou será que coloquei minhas mãos em torno de seu pescoço e apertei-o até tirar-lhe a vida? Entrei na sala e vi o bilhete em cima da escrivaninha, e depois... e depois... tudo negro... só a escuridão. Mas não há dúvida...

Eu a matei... Graças a Deus, Gwennie está bem na Nova Zelândia. O pessoal lá é muito bom. Amam a criança por causa de Megan. Megan - Megan, como eu queria que você estivesse aqui..

É o melhor jeito... Sem escândalo... É a melhor solução para a criança. Não posso continuar. Não desse jeito, ano após ano... Preciso sair pelo atalho. Gwennie nunca saberá disso tudo. Nunca saberá que seu pai era um assassino...

Gwenda m al enxergava através das lágrim as. Olhou para Giles, sentado à sua frente, m as os olhos de Giles estavam fixos no canto oposto.

Percebendo a insistência de Gwenda, ele virou a cabeça. Seu com panheiro de com partim ento estava lendo um vespertino. Na prim eira página, bem à vista, havia um a m anchete dram ática: QUEM ERAM OS HOMENS DE SUA VIDA?

Lentam ente Gwenda sacudiu a cabeça. Baixou novam ente os olhos para o diário.

Havia alguém. . . Eu sei que havia alguém. . .

CAPÍTULO XI