Um Crime Adormecido

Agatha Christie · Capítulo 3 de 23

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Um Crime Adormecido

Frases pronunciadas num a peça de teatro…

Um crime Adormecido

Frases pronunciadas num a peça de teatro causam um a reação inesperada e aparentem ente inexplicada na j ovem Gwenda.

O m istério vai se adensando quando, em sua nova residência no sul da Inglaterra, ela surpreende um a estranha fam iliaridade em cada um dos côm odos da casa. Evocações de infância, ecos, lem branças, realidade e pesadelo vão se insinuando em seus passos.

Com o m iss Jane Marple, aqui desvendando seu últim o caso, o leitor se vê obrigado a m ergulhar fundo em um a vida, ou diversas vidas, tentando, com o detetive e psicólogo, a partir de suspeitas de insanidade e de assassinatos ocorridos, esclarecer as som bras de crueldade prem editada que encobrem um crim e adorm ecido há dezoito anos.

E, com o sem pre, num a das m ais engenhosas tram as de sua obra, cabe à genial Agatha Christie a surpreendente solução final.

AGATHA CHRISTIE

Um crim e Adorm ecido

Tradução de

VERA TEIXEIRA SOARES

EDITORA RECORD

Título original inglês: SLEEPING MURDER

Copy right CO 1976 by Agatha Christie Lim ited, Copy right © 1987 desta edição: Distribuidora Record de Serviços de Im prensa S.A.

Publicado sob licença de Aitken & Stone através da Editora Nova Fronteira S.A.

Direitos desta edição

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CAPÍTULO I

UMA CASA

Gwenda Reed, ligeiram ente trêm ula, estava em pé à beira do cais.

As docas, os depósitos da alfândega, tudo o que podia ver da Inglaterra oscilava lentam ente para cim a e para baixa. Foi nesse m om ento que tom ou a decisão -um a decisão que acarretaria acontecim entos m uito im portantes.

Não iria m ais de trem para Londres, com o planej ara. Afinal, por que ir de trem ?

Ninguém estava à sua espera, ninguém sabia de sua chegada. Acabara de desem barcar daquele navio vagaroso e barulhento. A travessia de três dias, através da baía e até Ply m outh, fora excepcionalm ente dura. A últim a coisa que queria era entrar num trem incôm odo e oscilante. Iria para um hotel, um bom hotel, sólido e estável, em terra firm e, e se deitaria num a boa cam a, sem rangidos ou oscilações. Dorm iria e no dia seguinte -

ora, é claro, que boa idéia! - alugaria um carro e dirigiria lentam ente, sem se apressar, por todo o sul da Inglaterra; à procura de um a casa - um a casa gostosa- a casa que ela e Giles tinham resolvido que ela descobriria. Sim , era um a ótim a idéia.

Dessa m aneira poderia conhecer um pouco a Inglaterra - a Inglaterra que Giles lhe descrevera e que ela nunca vira, apesar de cham á-la de sua pátria, com o a m aioria dos neozelandeses. Naquele m om ento, a Inglaterra não parecia m uito atraente. O tem po estava feio, ia com eçar a chover, soprava um vento forte e enervante. Enquanto seguia obedientem ente a fila para a inspeção de passaportes e para a alfândega, Gwenda pensou com seus botões que Ply m outh provavelm ente não era o m elhor lugar da Inglaterra.

Na m anhã seguinte, entretanto, sentia-se outra. O sol brilhava. A vista de sua j anela era bonita. E o universo j á não oscilava m ais. Tornara-se estável. Isto era a Inglaterra, finalm ente, e lá estava ela, Gwenda Reed, um a j ovem recém -casada de vinte e um anos, viaj ando. A data de chegada de Giles era incerta. Poderia vir encontrá-la dentro de algum as sem anas ou, quem sabe, só daí a uns seis m eses. Giles sugerira que Gwenda fosse na frente e procurasse um a casa que lhes conviesse. Am bos achavam que seria bom terem um endereço fixo em algum lugar. O trabalho de Giles lhe exigiria viaj ar sem pre. As vezes Gwenda iria j unto, outras vezes as condições não seriam boas.

Am bos, porém , gostavam da idéia de terem um lar - um a casa que lhes pertencesse.

Giles herdara recentem ente alguns m óveis de um a tia e tudo contribuía para tornar a idéia prática e viável.

Com o os dois estivessem em boas condições financeiras, as perspectivas futuras não apresentavam problem as.

No início Gwenda hesitara em escolher a casa sozinha. Devíam os escolher j untos, dissera. Mas Giles respondera em tom de brincadeira: - Não dou m uito para isso.

Se você gostar, eu tam bém vou gostar. Quero um j ardinzinho, é claro, nada dessas casas m odernas horrorosas, nem que sej a grande dem ais. Gostaria que ficasse na costa sul. De qualquer m aneira, não m uito longe do litoral.

Gwenda lhe perguntara se tinha preferência por algum local específico, m as Giles tinha dito que não. Ficara órfão m uito cedo (os dois eram órfãos), e passara as férias com varias fam ílias am igas, em diversos lugares. Nenhum deles o atraía particularm ente. A casa seria de Gwenda. Quanto a esperar para poderem escolher j untos - e se ele só pudesse ir daí a seis m eses? O que faria Gwenda durante todo esse tem po. Ficaria em hotéis. Não, encontraria um a casa e lá se instalaria.

- O que você quer é que eu tenha todo o trabalho! exclam ara Gwenda.

No fundo, porém , ela gostara da idéia de encontrar um a casa, arrum á-la e estar com tudo pronto para a chegada de Giles.

Estavam casados há apenas três m eses e ela o am ava m uito. Após tom ar o café na cam a, Gwenda se levantou e organizou m entalm ente o program a.

Passou um dia divertido, visitando Ply m outh e, no dia seguinte, alugou um confortável Daim ler com m otorista e partiu para sua j ornada pela Inglaterra.

O tem po estava bom e ela gostou m uito do passeio. Visitou diversas casas em Devonshire, m as nenhum a delas lhe agradou realm ente. Não havia pressa. Continuaria procurando. Aprendera a ler nas entrelinhas das entusiásticas descrições dos corretores e econom izou algum as visitas que seriam absolutam ente infrutíferas.

Cerca de um a sem ana depois, num a terça-feira à tarde, u carro descia suavem ente pela estrada em curvas que levava a Dillm outh quando, nos arredores do encantador local de veraneio, passou por um a placa de "Casa á Venda". Através das árvores, podia-se avistar um a pequena casa vitoriana pintada de branco.

Im ediatam ente Gwenda teve um sobressalto de adm iração - quase que de reconhecim ento. Aquela era a sua casa! Já estava certa disso. Podia im aginar o j ardim , as j anelas altas - tinha a certeza de que era exatam ente o que queria.

Com o j á fosse tarde, instalou-se no Hotel Clarence e dirigiu-se ao endereço dos corretores, indicado na placa.

Em punhando um a licença para visitar a casa, Gwenda estava de pé na sala com prida e antiquada, com duas portas-j anela que davam para o terraço. Bem em frente havia um j ardim de pedras entrem eadas com arbustos floridos e que descia abruptam ente em direção ao gram ado. Através das árvores, no fundo do j ardim , avistava-se o m ar.

- Esta é a m inha casa, pensou Gwenda. É o m eu lar. Tenho a im pressão de j á conhecer todos os seus detalhes.

A porta se abriu e um a m ulher alta, de expressão som bria entrou fungando.

- Sra. Hengrave? - Trouxe com igo um a licença fornecida pelos corretores Galbraith & Penderley. Talvez sej a um pouco cedo para visitar a casa, m as . . .

A Sra. Hengrave, assoando o nariz, respondeu em tom m elancólico que não tinha a m enor im portância. Com eçaram a ver a casa.

Sim , era exatam ente aquilo. Não era grande dem ais. Um pouco antiquada, m as ela e Giles podiam construir m ais um ou dois banheiros. A cozinha podia ser m odernizada. Um a pia nova, um equipam ento novo . . .

Enquanto Gwenda pensava e planej ava, ouvia a voz da Sra. Hengrave contando em tom m onótono os detalhes da doença do falecido Maj or Hengrave. Gwenda se esforçava para fazer os com entários adequados de condolência, sim patia e com preensão.

Toda a fam ília da Sra: Hengrave m orava em Kent. Estavam querendo que ela fosse para perto deles. O m aj or gostava m uito de Dillm outh... fora secretário do clube de golfe durante anos, m as ela...

- Sim ... É claro... Terrível para a senhora... Muito natural. . . É, os hospitais são assim m esm o.. . É claro. . . Com preendo. . .

O pensam ento de Gwenda corria. Aqui deve ser o arm ário de roupa de cam a... É

isso m esm o. Quarto de casal - bonita vista para o m ar - Giles vai gostar. Aqui tem um quartinho m uito útil - pode ficar sendo o quarto de vestir de Giles... Banheiro -a banheira deve ter um rebordo de m ogno. . . Tem m esm o! Que m aravilha... E fica no m eio do banheiro! Isso eu não vou m udar. É um a peça de época.

Um a banheira enorm e!

Dava até a plantar m acieiras em volta. E soltar barquinhos dentro... e patinhos de brinquedo. Podia fingir que estava no m ar. . . Já sei: vam os transform ar aquele quarto extra, tão escuro, em dois banheiros bem m odernos, crom ados. Os encanam entos da cozinha devem ficar bem em baixo... Isso aqui vou deixar com o está...

- Pleurisia, disse a Sra. Hengrave. - No terceiro dia se transform ou num a pneum onia dupla...

- Terrível, respondeu Gwenda. - Não há outro quarto no fim deste corredor?

Havia - e era bem o tipo de quarto que ela im aginara quase redondo, com um a grande j anela envidraçada. Ia ter que arrum á-lo, é claro. Estava bem conservado, m as por que será que pessoas com o a Sra. Hengrave gostam tanto de paredes pintadas em tom m ostarda?

Passaram novam ente pelo corredor. - Seis, não. . . sete quartos, m urm urou Gwenda, - contando com o quartinho m enor e o sótão.

As tábuas do assoalho rangiam sob seus pés, Gwenda tinha a sensação de que era ela, e não a Sra. Hengrave, quem m orava naquela casa. A Sra. Hengrave era um a intrusa - um a m ulher que pintava as paredes de cor de m ostarda e que gostava de glicínias na sala. Gwenda deu um a olhada no papel datilografado que descrevia os detalhes da propriedade e o preço pedido.

Em poucos dias Gwenda ficara m uito entendida em preços de casa. A quantia pedida não era dem asiada. Naturalm ente a casa precisava ser reform ada, m as m esm o assim ... Reparou na frase "Aceitam -se ofertas". A Sra. Hengrave deve estar louca para ir para Kent, m orar perto de seus parentes...

Iam com eçar a descer a escada quando subitam ente Gwenda se sentiu invadida por um a onda de terror. Foi um a sensação horrível, que passou tão depressa quanto viera, m as que lhe despertou um a nova idéia.

- A casa não é... m al-assom brada ... é? perguntou ela.

A Sra. Hengrave, um degrau abaixo, tendo chegado ao ponto da narrativa em que o Maj or Hengrave piorou terrívelm ente, olhou para cim a com ar ofendido.

- Que eu saiba não, Sra. Reed. Será que. . . alguém . . . está dizendo um a coisa dessas?

- A senhora nunca viu nem sentiu nada aqui? Ninguém morreu aqui?

Pergunta infeliz, pensou Gwenda, m as agora é tarde... É provável que o Maj or Hengrave. . .

- Meu m arido m orreu no Hospital Santa Mônica, respondeu secam ente a Sra.

Hengrave.

- Ah, sim , é claro! A senhora m e havia dito!

A Sra. Hengrave prosseguiu em tom glacial. - Num a casa construída há cerca de cem anos seria m uito natural que tivesse ocorrido algum a m orte. A Srta. Elworthy, de quem m eu querido m arido com prou esta casa há sete anos atrás, tinha um a ótim a saúde; estava até planej ando ser m issionária em outro país, e não falou de m ortes recentes na fam ília.

Gwenda apressou-se em acalm ar a Sra. Hengrave. Estavam novam ente na sala.

Era um a peça tranqüila e encantadora, com o tipo exato de am biente que Gwenda desej ava. O pânico m om entâneo parecia-lhe agora incom preensível. O quê lhe acontecera? Não havia nada estranho na casa.

Perguntando à dona da casa se podia dar um a olhada no j ardim , dirigiu-se para o terraço.

Aqui devia haver degraus... pensou Gwenda, descendo para o gram ado.

Em vez disso, porém , havia um enorm e tufo de forsítias que, crescidas dem ais, tapavam a vista para o m ar. Gwenda decidiu que m udaria aquilo.

Seguindo a Sra. Hengrave, voltou para o terraço e desceu alguns degraus que levavam ao lado oposto do terreno. Reparou que o j ardim estava m altratado e que a m aioria dos arbustos precisavam ser podados.

A Sra. Hengrave m urm urou, em tom de desculpa, que o j ardim estava m al cuidado porque só podia pagar um j ardineiro para trabalhar duas vezes por sem ana, e ele freqüentem ente não aparecia.

Exam inaram a horta, que era pequena, m as de bom tam anho, e voltaram para a casa. Gwenda explicou que precisava visitar outras casas e que, apesar de ter gostado m uito de Hillside (este nom e não m e parece estranho!) não podia tom ar um a decisão im ediata.

A Sra. Hengrave despediu-se dela com olhar m elancólico e um a longa fungada.

Gwenda foi direto aos corretores, fez a sua oferta e passou o resto da m anhã andando por Dillm outh. Era um a encantadora e antiquada cidadezinha à beira-m ar. Na parte "m oderna" havia alguns hotéis novos e bangalôs rústicos, m as a form ação geográfica da costa, com as colinas por trás, poupara Dillm outh de um a expansão dem asiada.

Depois do alm oço o corretor telefonou para Gwenda, inform ando que a Sra.

Hengrave aceitara a oferta. Com um sorriso m alicioso, Gwenda dirigiu-se ao correio e m andou um telegram a para o m arido.

COMPREI UMA CASA. BEIJOS. GWENDA.

Ele vai ficar espantado, pensou Gwenda consigo m esm a. Vai ficar sabendo que eu sei cuidar das coisas!

CAPÍTULO II