Um Crime Adormecido

Agatha Christie · Capítulo 18 de 23

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Um Crime Adormecido

A Trepadeira

Miss Marple, j unto à porta-j anela do terraço, lutava com um a trepadeira. Era um trabalho difícil, pois, por baixo da terra, a trepadeira invadia tudo, com o sem pre. Mas pelo m enos durante algum tem po os delfínios teriam m ais espaço.

A Sra. Cocker apareceu na j anela da sala de estar.

- Desculpe, senhora, m as Dr. Kennedy está aí. Quer saber quanto tem po o Sr. e a Sra. Reed vão ficar fora e eu disse que não tinha certeza m as que ia perguntar à senhora.

Quer que peça a ele para vir até aqui.

- Oh! Oh, sim , por favor, Sra. Cocker!

Dentro em pouco a Sra. Cocker voltou com o visitante. Miss Marple apresentou-se de m aneira bastante confusa.

-... E então com binei com m inha querida Gwenda que viria cuidar um pouco do j ardim enquanto ela estivesse fora. Sabe, acho que esse j ardineiro, Foster, está abusando dos m eus j ovens am igos. Vem duas vezes por sem ana, tom a um a porção de xícaras de chá, conversa m uito e - pelo m enos na m inha opinião - não trabalha nada.

- É... respondeu o Dr. Kennedy, com ar ausente. - É, todos eles são iguais.

Miss Marple exam inou-o com ar apreciativo. Era um hom em m ais velho do que im aginara, baseada na descrição do casal Reed. Prem aturam ente envelhecido, pensou consigo m esm a. Parecia, tam bém , preocupado e infeliz. Ficou em pé, acariciando com os dedos o queixo firm e.

- Viaj aram , não é? perguntou ele. - Sabe quando voltam ?

- Oh, não vão dem orar m uito tem po! Foram visitar uns am igos no norte da Inglaterra. Os j ovens são tão irrequietos! Estão sem pre indo de um lado para outro.

- É, respondeu Kennedy. - É verdade.

Fez um a pausa e prosseguiu m eio hesitante.

- Giles m e escreveu pedindo uns papéis... um as cartas... se eu conseguisse encontrá-las...

Hesitou novam ente e Miss Marple perguntou:

- As cartas de sua irm ã?

Kennedy lançou-lhe um olhar rápido e agudo.

- Quer dizer que a senhora... conhece o assunto, não é? É parente deles?

- Apenas am iga, respondeu Miss Marple. - Aconselhei-os da m elhor m aneira possível, m as as pessoas raram ente aceitam conselhos... É pena, m as é assim ...

- Qual foi o seu conselho? perguntou ele, curioso.

- Que deixassem a m orte em paz, respondeu Miss Marple em tom firm e.

Kennedy sentou-se num banco rústico e nada confortável.

- É verdade, disse ele. - Gosto de Gwennie. Era um a criança tão boazinha. Devia ter-se tornado um a adulta m uito sensata. Acho que vai se m eter em encrencas.

- Existem tantos tipos de encrenca... observou Miss Marple.

- Com o? Ah, sim ... é m esm o! Suspirou.

- Giles Reed m e escreveu pedindo as cartas de m inha irm ã, - as que m e m andou depois que foi em bora daqui - e um a am ostra de sua letra verdadeira. Olhou para Miss Marple com um olhar penetrante. - Com preende o que isso significa, não é?

- Acho que sim , respondeu Miss Marple.

- Estão achando que, quando Kelvin Halliday dizia que estrangulara a m ulher estava falando a verdade. Acham que as cartas m andadas por Helen, depois de ter ido em bora, não foram escritas por ela - acreditam que foram forj adas. Para eles, ela não saiu viva desta casa.

- E o senhor, disse Miss Marple em tom afável, - tam bém não tem tanta certeza assim , não é?

- Naquela época eu tinha certeza... Kennedy olhava fixo para a frente. - Parecia tudo absolutam ente claro. Era pura alucinação de Kelvin. Não havia corpo, desaparecera a m ala com roupas... O que m ais eu podia achar?

- E sua irm ã estava... há algum tem po... digam os, interessada... em certo senhor?

Kennedy olhou para Miss Marple. Seus olhos exprim iam um a dor profunda.

- Eu am ava m inha irm ã, respondeu ele, - m as tenho que adm itir que Helen estava sem pre m etida com algum hom em . Há m ulheres que são assim ... Não conseguem ser diferentes.

- Na ocasião tudo lhe pareceu claro, disse Miss Marple. - Mas agora j á não está tão claro. Por quê?

- Porque, respondeu Kennedy com toda franqueza, - acho incrível que, se Helen está viva, não tenha se com unicado com igo durante todos esses anos. E se m orreu, é igualm ente estranho que eu não tenha sido avisado. Bem ...

Levantou-se e tirou algum a coisa do bolso.

- É o que posso fazer para aj udar. Devo ter j ogado fora a prim eira carta que recebi de Helen. Não consegui encontrá-la. Mas guardei a segunda - a que dava a posta restante com o endereço. E aqui está, para se poder com parar, o único exem plar da escrita de Helen que encontrei. É um a lista de sem entes e bulbos para plantação. Um a cópia guardada por ela de algum a encom enda feita. A letra da carta m e parece igual à da encom enda, m as não sou nenhum perito. Vou deixar aqui para quando Giles e Gwenda voltarem . Acho que não vale a pena m andar pelo correio.

- Oh, não! Creio que eles voltarão am anhã ou depois...

O doutor assentiu com a cabeça. Ficou em pé, olhando para o terraço com ar ausente.

- Sabe o que está m e preocupando? perguntou ele subitam ente.

- Se Kelvin Halliday realm ente m atou sua m ulher, deve ter escondido o corpo ou se livrou dele de algum m odo... e isso leva a crer que toda a história contada por ele foi um a invenção... ele j á havia arrum ado aquela m ala cheia de roupas para dar a im pressão de que Helen tinha ido em bora... que chegou até a dar um j eito de m andar cartas vindas do exterior... Significa, na realidade, que foi um crim e frio e prem editado. Gwennie era um a criança m uito boa. Não é bom ter tido um pai paranóico, m as é m il vezes pior o pai ter sido um assassino.

Virou-se em direção à j anela que se achava aberta.

- Sua irm ã estava com m edo de quem , Dr. Kennedy ? perguntou Miss Marple.

Kennedy virou-se para Miss Marple com ar espantado.- Com m edo? De ninguém , que eu saiba.

- Estava só pensando... Por favor, desculpe estar fazendo perguntas indiscretas...

m as houve um rapaz, não houve? ... Quer dizer, um envolvim ento... quando ela era m uito m oça. Acho que o nom e dele era Afflick.

- Oh, esse aí! Foi um envolvim ento bobo, m uito com um nessa idade. Um rapaz inconveniente, oportunista, de outra classe social. Mais tarde ele se m eteu num a encrenca.

- Só estava pensando se ele era um tipo vingador.

Kennedy deu um sorriso cético.

- Oh, acho que não ficou tão atingido assim . De qualquer m odo, com o j á lhe disse, ele se m eteu num a encrenca e foi em bora da cidade.

- Que tipo de encrenca foi?

- Oh, nenhum crim e! Apenas indiscrição. Andou falando sobre os negócios de seu patrão.

- O patrão era o Sr. Walter Fane, não é?

Kennedy pareceu um pouco surpreso.

- Sim , sim ... Agora m e lem bro que ele trabalhava na firm a Fane e Watchm an.

Era um pequeno funcionário.

Apenas um pequeno funcionário? Miss Marple, depois de ter se despedido do Dr. Kennedy, voltou à luta com a trepadeira, m as ficou pensativa...

CAPÍTULO XIX