Um Crime Adormecido
Capítulo II
Dr. KENNEDY
Alguns dias depois Gwenda estava passeando pela avenida sob um vento frio, quando estancou subitam ente j unto a um desses abrigos de vidro que um a em presa solícita construiu para proteger os seus visitantes.
- Miss Marple! exclam ou, cheia de surpresa.
Sim , era Miss Marple, bem agasalhada por um espesso casaco de lã e toda envolta em cachecóis.
- Deve estar espantada de m e encontrar aqui, respondeu vivam ente Miss Marple.
- Meu m édico m e receitou um a m udança de ares - de preferência j unto do m ar- e a descrição que vocês fizeram de Dillm outh foi tão atraente que decidi vir para cá. Além disso descobri que a cozinheira e o m ordom o de um a am iga m inha têm pensão aqui.
- Mas por que não foi nos visitar? perguntou Gwenda.
- Gente velha é sem pre m eio m açante, querida. Os j ovens recém -casados precisam estar a sós. Sorriu ante o ar de protesto de Gwenda. - Tenho certeza de que seria m uito bem recebida por vocês. Com o é que vocês vão? E em que pé está indo o nosso m istério?
- Estam os na pista, respondeu Gwenda, sentando-se a seu lado.
Contou-lhe detalhadam ente as várias investigações feitas até o m om ento.
- E agora, concluiu, - colocam os um anúncio em diversos j ornais - nos j ornais locais, em The Times e outros de grande circulação. Pedim os que qualquer pessoa que saiba do paradeiro de Helen Spenlove Halliday, nascida Kennedy, entre em contato, etc.
Não acha que vam os receber algum as respostas?
- Acho que sim , querida - sim , acho que vão.
A voz de Miss Marple era tranqüila com o sem pre, m as seu olhar parecia perturbado. Lançou um rápido olhar de observação sobre a m oça que se sentava a seu lado. Aquele tom decidido e entusiasm ado soava falso. Gwenda parecia estar preocupada. Talvez aquilo a que Dr. Hay dock dera o nom e de "im plicações" estivesse com eçando a lhe ocorrer. Sim , m as agora era m uito tarde para voltar atrás...
Miss Marple disse em tom carinhoso e com um ar de desculpa.
- Estou realm ente m uito interessada em tudo isso. Com preende, m inha vida é tão sem novidades! Espero que não m e achem m etida dem ais se lhes pedir que m e m antenham a par dos acontecim entos, está bem ?
- É claro que lhe contarem os tudo! exclam ou Gwenda, com entusiasm o. - A senhora vai ficar a par de tudo. Ora, afinal, se não fosse a senhora, eu j á teria pedido aos m édicos que m e trancafiassem num hospital de m aluco. Dê-m e seu endereço aqui. A senhora precisa ir lá em casa e tom ar um drinque - isto é, um a xícara de chá, e conhecer a casa. É preciso ver o cenário do crim e, não é m esm o?
Gwenda riu, m as havia algo de nervoso no seu riso. Quando ela partiu Miss Marple sacudiu a cabeça e franziu a testa.
II
Diariam ente Giles e Gwenda exam inavam com avidez a correspondência, m as a princípio suas esperanças foram vãs. Receberam apenas duas cartas de detetives particulares que se declararam dispostos e preparados para fazer as investigações necessárias.
- Por enquanto eles que fiquem para lá, disse Giles. - Se tiverm os de pedir aj uda, vam os contratar um a firm a indubitavelm ente de prim eira ordem , e não um suj eito que se oferece por carta. Mas tam bém não sei o que é que eles poderiam fazer além do que estam os fazendo.
Seu otim ism o, (ou am or-próprio), viu-se j ustificado alguns dias m ais tarde, com a chegada de um a carta escrita com letra firm e m as de certo m odo ilegível, típica de m édico.
Prezado
Senhor:
Em resposta a seu anúncio em The Times, inform o que Helen Spenlove Kennedy é m inha irm ã. Perdem os contato há m uitos anos e gostaria de ter notícias dela.
Atenciosam ente,
Jam es Kennedy, MD.
Galls
Hill
Woodleigh
Bolton.
- Woodleigh Bolton, disse Giles. - Não é m uito longe daqui. O pessoal daqui costum a fazer piqueniques em Woodleigh Cam p. Fica na região da charneca, a pouco m ais de quarenta quilôm etros. Vam os escrever um a carta perguntando ao Dr. Kennedy se podem os ir visitá-lo ou se ele prefere vir aqui nos ver.
Dr. Kennedy respondeu que os receberia na quarta-feira seguinte e no dia com binado o casal partiu.
Woodleigh Bolton era um a aldeia espalhada na encosta de um a colina. Galls Hill era a casa m ais alta, no topo da ladeira, com vista para o m ar, além de Woodleigh Bolton e da charneca.
- Que lugar m ais desolado! exclam ou Gwenda, estrem ecendo.
A casa em si tam bém era desolada, e evidentem ente o Dr. Kennedy desprezava as inovações m odernas, tais com o aquecim ento central. A m ulher que abriu a porta era m orena e carrancuda. Guiou-os através do despoj ado saguão de entrada até o escritório, onde o Dr. Kennedy se levantou para recebê-los. Era um a sala com prida e alta, com as paredes cobertas pelas estantes de livros.
Dr. Kennedy era um senhor de idade, com os cabelos grisalhos, sobrancelhas espessas e olhos m uito vivos. Deteve em cada um dos dois um olhar atento, penetrante.
- Sr. e Sra. Reed? Sente-se aqui, Sra. Reed. Acho que esta é a cadeira m ais confortável. Bem , de que se trata?
Giles contou com facilidade toda a sua história previam ente bem -anim ada.
Eles tinham se casado recentem ente na Nova Zelândia. Vieram para a Inglaterra, onde Gwenda tinha m orado por pouco tem po quando criança, e ela agora estava querendo encontrar os antigos am igos da fam ília e os conhecidos.
Dr. Kennedy perm anecia sério e inflexível. Seu tom era polido, m as não escondia a irritação que lhe causava a provinciana insistência sobre os laços sentim entais de fam ília.
- E acha que m inha irm ã - m inha cunhada - e possivelm ente eu m esm o som os seus conhecidos? perguntou a Gwenda de m odo educado m as ligeiram ente hostil.
- Ela era m inha m adrasta, respondeu Gwenda. - A segunda m ulher de m eu pai.
Naturalm ente, não consigo m e lem brar dela direito. Eu era tão pequena! Meu nom e de solteira é Halliday.
Ele olhou para ela - e subitam ente um sorriso ilum inou-lhe o rosto. Tornou-se outra pessoa, j á m enos arredia.
- Meu Deus! exclam ou. - Não m e diga que você é Gwennie!
Gwenda fez que sim com a cabeça. O apelido infantil, há tanto tem po esquecido, ecoou com um a tranqüilizante fam iliaridade em seus ouvidos.
- Sim , respondeu ela. - Sou Gwennie.
- Céus! Adulta e casada... Com o o tem po voa! Deve fazer... quinze anos... não, é claro que faz m uito m ais tem po. Você não se lem bra de m im , não é?
Gwenda sacudiu a cabeça.
- Não m e lem bro nem de m eu pai. . . ou m elhor, tudo é m uito nebuloso.
- É claro. . . A prim eira m ulher de Halliday era da Nova Zelândia... Lem bro que ele m e contou isso. Deve ser um país m uito bonito.
- É o país m ais lindo do m undo... m as tam bém gosto m uito da Inglaterra.
- Está de passagem ou veio m orar aqui? Tocou a cam painha. - Precisam os tom ar um a xícara de chá.
Quando a alta m ulher entrou, ele pediu: - Chá, por favor... e... torradas com m anteiga ou ... bolo, qualquer coisa.
A respeitável governanta parecia cheia de m á-vontade, m as respondeu: - Sim , senhor, e retirou-se.
- Não costum o tom ar chá, observou o Dr. Kennedy. Mas precisam os com em orar.
- O senhor é m uito gentil, disse Gwenda. - Não, não estam os de passagem .
Com pram os um a casa. Fez um a pausa e acrescentou: - Hillside.
- Oh, sim ! Fica em Dillm outh, respondeu o Dr. Kennedy com ar vago. - Vocês escreveram de lá.
- É um a coincidência extraordinária, não acha, Giles? perguntou Gwenda.
- Extraordinária, concordou Giles. - Espantosa, realm ente!
- Estava à venda, sabe? prosseguiu Gwenda, dirigindo-se so Dr. Kennedy.
Percebendo que ele não com preendera, acrescentou: - É a m esm a casa em que m oram os quando eu era criança.
Dr. Kennedy franziu a testa.
- Hillside? Mas... Ah, sim , ouvi dizer que m udaram o nom e. Cham ava-se... era um nom e de santo... se é que estam os falando da m esm a casa... a que fica à direita de quem vai para a cidade, na estrada de Leaham pton.
-
Exato.
- É essa m esm o. Engraçado... Com o a gente esquece os nom es! Espere um instante. St. Catherine! Era esse o nom e da casa.
- E eu m orei lá, não foi? perguntou Gwenda.
- É claro que sim . Olhou-a com um ar divertido. - Por que quis voltar para lá?
Não deve se lem brar de quase nada da casa, não é m esm o?
- Não. Mas de certo m odo... senti-m e em casa.
- Você se sentiu em casa, repetiu o m édico. Sua voz era inexpressiva, m as Giles subitam ente pôs-se a im aginar o que ele estaria pensando.
- De m odo que achei, prosseguiu Gwenda - que o senhor poderia m e falar de tudo... de m eu pai e de Helen ... e, m enos convincente, de tudo...
Ele a olhou pensativam ente.
- Acho que lá na Nova Zelândia não sabiam de m uita coisa. Por que haviam de saber? Bem , não há m uito a contar. Helen, m inha irm ã, estava voltando da Índia no m esm o navio que seu pai. Ele era viúvo e tinha um a filha pequena. Helen teve pena dele... ou se apaixonou por ele. Ele estava se sentindo sozinho... ou se apaixonou por ela. É difícil saber exatam ente porque as coisas acontecem . Ao chegarem a Londres casaram -se e vieram para Dillm outh, para j unto de m im . Kelvin Halliday parecia um bom suj eito, bastante nervoso e frágil... m as os dois pareciam felizes... naquela época.
Ficou em silêncio por algum tem po, antes de prosseguir. - No entanto, m enos de um ano depois ela fugiu com outro. Você provavelm ente sabe disso.
- Com quem foi que ela fugiu? perguntou Gwenda.
Ele fixou na m oça seus olhos vivos.
- Ela não m e disse, respondeu. - Não m e fazia confidências. Eu tinha percebido... não podia deixar de perceber...que estava havendo desentendim ento entre ela e Kelvin. Não sabia por quê. Sem pre fui um suj eito conservador - acredito em fidelidade conj ugal. Helen não gostaria que eu soubesse o que estava acontecendo. Eu tinha ouvido boatos - sem pre acabam chegando aos ouvidos da gente - m as não havia m enção a nenhum nom e específico. Freqüentem ente hospedavam am igos que vinham de Londres ou de outros lugares da Inglaterra. Acho que fugira com algum deles.
- Quer dizer que não houve divórcio?
- Helen não quis se divorciar. Foi Kelvin quem m e contou. Por isso é que im aginei - talvez tenha m e enganado - que fosse algum hom em casado, cuj a m ulher fosse católica.
- E m eu pai?
- Tam bém não quis pedir divórcio.
Dr. Kennedy falou com certa secura.
- Fale sobre m eu pai, pediu Gwenda. - Por que foi que de repente ele resolveu m e m andar para a Nova Zelândia?
Kennedy fez um a pausa antes de responder. - Acho que a fam ília de sua m ãe fez pressão nesse sentido. Dissolvido o segundo casam ento, ele provavelm ente achou que seria a m elhor coisa a fazer.
- Por que não m e levou para lá pessoalm ente?
Dr. Kennedy percorreu a lareira com os olhos, procurando vagam ente um lim pador de cachim bo.
- Oh, não sei . . . A saúde dele não ia bem .
- O que é que ele tinha? De que foi que m orreu?
A porta se abriu e a desdenhosa governanta entrou, carregando um a pesada bandej a. Trouxera torradas, m anteiga e geléia, m as bolo não. Com um gesto vago, o Dr.
Kennedy fez sinal a Gwenda para servir o chá. Quando as xícaras estavam cheias e passavam de m ão em m ão, Gwenda pegou um a torrada e o Dr. Kennedy disse, com anim ação forçada.
- Contem o que fizeram na casa! Um a porção de alterações e reform as? Acho que eu não a reconheceria m ais - depois do que vocês devem ter m odificado.
- Estam os nos divertindo um pouco com banheiros novos - respondeu Giles.
Gwenda, com os olhos fixos no m édico, insistiu: - De que m orreu m eu pai?
- Não sei lhe responder exatam ente, m inha cara. Com o j á disse, não estava com boa saúde e finalm ente acabou se internando num sanatório - num lugar qualquer da costa leste. Morreu uns dois anos depois.
- Onde era, exatam ente, esse sanatório?
- Sinto m uito, m as não m e lem bro. Com o disse, tenho a im pressão de que ficava na costa leste.
O tom , agora, era francam ente evasivo. Giles e Gwenda se entreolharam rapidam ente.
- Mas pelo m enos o senhor pode inform ar-nos onde ele foi enterrado? disse Giles.- Naturalm ente, Gwenda quer m uito visitar o túm ulo.
Dr. Kennedy inclinou-se em direção à lareira, raspando o interior do cachim bo com um canivete.
- Sabem ... disse ele, de m aneira m eio confusa. - Acho que não se deve insistir dem asiadam ente no passado. Toda essa veneração por um antepassado - é um erro. O
im portante é o futuro. Estão aqui vocês dois, j ovens, saudáveis, com o m undo aos seus pés. Pensem no futuro. Não adianta colocar flores no túm ulo de um a pessoa que, na prática, você m al conheceu.
Gwenda respondeu teim osam ente:
- Gostaria de ver o túm ulo de m eu pai.
- Sinto m uito, m as não posso aj udá-la. - Sua voz era am ável, porém fria. - Isso foi há m uito tem po, e m inha m em ória j á não é a m esm a. Perdi contato com seu pai quando ele foi em bora de Dillm outh. Acho que m e escreveu um a vez, do sanatório e, com o j á disse, tenho a im pressão de que ficava na costa leste - m as nem m esm o disso tenho certeza. E não tenho a m enor noção de onde foi enterrado.
- Que coisa estranha! observou Gwenda.
- Nem tanto. O que nos ligava, com preende, era Helen. Sem pre gostei m uito de Helen. É m inha m eia-irm ã e m uitos anos m ais m oça do que eu, m as procurei educá-la da m elhor m aneira possível. Mandei-a para os m elhores colégios e tudo. Mas não adianta esconder que Helen... bem , ela nunca teve um tem peram ento estável. Quando era m uito j ovem arm ou um a confusão com um rapaz bastante inconveniente. Consegui tirá-la da confusão. Depois resolveu ir para a Índia e casar com Walter Fane. Bem , isso estava certo - um bom rapaz, filho do m elhor advogado de Dillm outh - m as, francam ente, estúpido com o um a porta. Sem pre a adorou, m as ela nunca lhe deu a m ínim a. Ainda assim , m udou de idéia e foi para a Índia casar com ele. Quando tornou a vê-lo, desm anchou tudo. Passou-m e um telegram a pedindo dinheiro para a passagem de volta. Eu o m andei. A bordo, conheceu Kelvin. Casaram sem nem eu saber. Senti-m e m uito... com o dizer... m uito envergonhado por m inha irm ã. Isso explica porque Kelvin e eu não m antivem os o nosso relacionam ento depois de ela ir em bora. Subitam ente perguntou: Onde está Helen agora? Podem m e inform ar? Gostaria de entrar em contato com ela.
- Nós não sabem os, respondeu Gwenda. - Não tem os a m enor idéia!
- Oh! Quando vi o anúncio, pensei... - Olhou para os dois com repentina curiosidade. - Digam -m e um a coisa: por que puseram esse anúncio?
- Queríam os entrar em contato... disse Gwenda, interrom pendo a frase no m eio.
- Com um a pessoa de quem você m al se lem bra?
Dr. Kennedy parecia perplexo.
Gwenda apressou-se em continuar.
- Achei que.. se conseguisse entrar em contato com ela ... ela m e falaria ... sobre m eu pai.
- Sim , sim , com preendo. Sinto m uito não ter podido aj udar. Minha m em ória não é m ais a m esm a. E isso foi há m uito tem po.
- O senhor deve saber pelo m enos que tipo de sanatório era, observou Giles. - De tuberculosos? perguntou.
Mais um a vez o rosto do Dr. Kennedy ganhou subitam ente um a expressão m ais dura.
- Sim ... acho que era isso m esm o.
- Então nós devem os conseguir localizá-lo com toda facilidade, disse Giles. -
Muito obrigado, Dr. Kennedy, por tudo o que nos contou.
Levantou-se e Gwenda fez o m esm o.
- Muito obrigada, disse ela. - Não deixe de ir nos visitar em Hillside.
Saíram , e Gwenda, olhando para trás por cim a do om bro, viu ainda um a vez o Dr. Kennedy em pé j unto à lareira, torcendo o bigode grisalho com um ar preocupado.
- Ele sabe de algum a coisa que não quer nos contar, disse Gwenda ao entrarem no carro. - Há algum a coisa... Oh, Giles! Era m elhor... era m elhor a gente não ter se m etido nisso...
Os dois se entreolharam e o m esm o m edo, inconfesso, passou de um para o outro.
- Miss Marple tinha razão, disse Gwenda. - Devíam os ter deixado o passado para trás.
- Não precisam os continuar, disse Giles, hesitante. - Talvez sej a m elhor não insistir, m inha querida.
Gwenda sacudiu a cabeça.
- Não, Giles. Agora não podem os parar. Ficaríam os o resto da vida im aginando e pensando. Não, tem os que continuar... Dr. Kennedy não quis nos contar porque queria ser gentil... m as esse tipo de gentileza não adianta. Tem os que continuar e descobrir o que realm ente aconteceu. Mesm o se... m esm o se... tiver sido m eu pai quem ...
Mas não pôde prosseguir.
CAPÍTULO VIII