Um Crime Adormecido

Agatha Christie · Capítulo 14 de 23

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Um Crime Adormecido

Edith Pag Ett

A sala de estar da Sra. Mountford era um lugar agradável. Havia um a m esa redonda, coberta com um a toalha, algum as poltronas antiquadas e um sofá de aparência incôm ada m as surpreendentem ente confortável. Sobre a lareira viam -se cachorros de porcelana e outros enfeites, além de um a fotografia colorida das Princesas Elizabeth e Margaret Rose. Em outra parede via-se o Rei vestido com o uniform e de gala da Marinha e um retrato do Sr. Mountford num grupo de padeiros e confeiteiros. Havia um quadro feito de conchas e um a aquarela que representava o m ar m uito verde em Capri.

Havia m uitas outras coisas, nenhum a das quais pretendia ser bela ou am biciosa, m as o conj unto fazia da sala um local alegre e acolhedor, onde as pessoas se reuniam para se divertir, sem pre que podiam .

A Sra. Mountford, nascida Pagett, era baixa, gorducha e m orena, com alguns fios brancos no cabelo escuro. Sua irm ã, Edith Pagett, era tam bém m orena, m as alta e m agra. Apesar dos quase cinqüenta anos, não tinha quase nenhum cabelo branco.

- Ora, vej am só! exclam ou Edith Pagett. - A pequena Srta. Gwennie! Desculpe falar assim , m inha senhora, m as o tem po passa depressa. A senhora costum ava ir à cozinha toda arrum ada e bonitinha. A senhora dizia "vinhas", "vinhas", quando queria pedir uvas. E eu dava uvas para a senhora, uvas sultanas.

Gwenda olhava fixam ente para os olhos escuros e as bochechas verm elhas da m ulher, tentando se lem brar... se lem brar... m as não se lem brava de nada. A m em ória é um a coisa m uito traiçoeira.

- Eu gostaria de poder m e lem brar... disse ela.

- Seria im possível. A senhora era um a criancinha. Hoj e em dia ninguém m ais quer trabalhar em casas onde há crianças. Não entendo um a coisa dessas. Acho que as crianças dão vida a um a casa, se bem que com ida de criança sej a sem pre m eio com plicada. Mas sabe, isso é culpa da governanta, não é culpa da criança. As governantas são sem pre com plicadas - querem bandej as preparadas, querem ser servidas, m ais isso, m ais aquilo.. . A senhora se lem bra de Léonie, Srta. Gwennie?

Desculpe, quero dizer Sra. Reed.

- Léonie? Era m inha governanta?

- Era suíça. Não falava bem inglês e era m uito sensível. Chorava à toa, bastava Lily dizer qualquer coisinha e ela se aborrecia. Lily era a copeira. Lily Abbott. Era m ocinha, m uito esperta e m eio avoada. Brincava m uito com a senhora, Srta. Gwennie.

Brincava de esconder na escada.

Gwenda estrem eceu.

A escada...

- Lem bro-m e de Lily, disse ela subitam ente. - Ela botou um laço no gato.

- Que engraçado, a senhora se lem brar disso. Foi no seu aniversário, e Lily cism ou que tinha de pôr um laço em Thom as. Pegou um a fita da caixa de chocolates e Thom as ficou feito louco. Saiu correndo para o j ardim e se esfregou nos arbustos até conseguir tirar o laço. Os gatos não gostam de brincadeiras assim .

- Era um gato preto e branco.

- Isso m esm o. Coitado do velho Tom m y ! Caçava ratos que era um a beleza. Era um grande caçador. Edith Pagett fez um a pausa e pigarreou. - Desculpe estar falando tanto, m inha senhora. Mas isso m e fez lem brar de antigam ente. A senhora queria m e perguntar algum a coisa?

- Gosto de ouvir contar coisas de antigam ente, respondeu Gwenda. - É

j ustam ente sobre isso que quero ouvir falar. Com preende, eu fui criada por parentes, na Nova Zelândia e é claro que eles não sabiam nada sobre m eu pai... e m inha m adrasta.

Ela... ela era boazinha, não era?

- Ela gostava m uito da senhora. Oh, gostava m uito! Costum ava levar a senhora à praia e brincar no j ardim . Ela era m uito m oça, com preende? Pouco m ais que um a criança. Eu achava m uitas vezes que ela se divertia tanto quanto a senhora com as brincadeiras que inventava. Com preende, de certo m odo ela era filha única. O irm ão, Dr. Kennedy, era m uitos anos m ais velho e estava sem pre ocupado, estudando. Quando ela não estava no colégio, tinha de brincar sozinha...

Miss Marple interrom peu-a delicadam ente. - A senhora sem pre m orou em Dillm outh, não é?

- Oh, sim , m inha senhora! Meu pai era dono daquela fazenda atrás da colina. O

nom e da fazenda era Ry lands. Ele não tinha filhos hom ens e m inha m ãe não conseguìu tocar a fazenda depois que ele m orreu. Aí ela vendeu a fazenda e com prou um a loj inha na tua principal. Sim , sem pre m orei aqui.

- E provavelm ente conhece todo m undo em Dillm outh, não é?

- Bem , naquela época isto aqui era um a cidade pequena, apesar de haver sem pre m uitos veranistas. Mas eram pessoas boas e tranqüilas, que vinham para cá todos os anos. Não eram esses aventureiros de hoj e em dia. Era gente de boa fam ília, que ocupava sem pre os m esm os quartos, no verão.

- A senhora deve ter conhecido Helen Kennedy antes de se tornar a Sra.

Halliday, não é? perguntou Giles.

- Bem , eu a conhecia de nom e, e pode ser até que a tenha visto um a vez ou outra. Mas só a conheci de verdade quando fui trabalhar para ela.

- E gostava dela? perguntou Miss Marple.

Edith Pagett virou-se para a velha senhora.

- Sim , m inha senhora. Gostava. Havia um quê de desafio em seu tom . - Não interessa o que os outros dizem . Ela foi sem pre m uito boa com igo. Nunca im aginei que ela fosse fazer o que fez. Levei um susto! Se bem que... corriam boatos...

Interrom peu a frase subitam ente e olhou para Gwenda com ar de desculpa.

Gwenda apressou-se em dizer algum a coisa.

- Quero saber, disse ela. - Por favor, não pense que vou ficar m agoada com o que disser. Ela não era m inha m ãe...

- Bem , isso é verdade, senhora.

- E com preende, estam os querendo m uito... encontrá-la. Ela foi em bora daqui...

e parece que desapareceu. Não sabem os onde m ora agora, nem m esm o se ainda está viva. E existem m otivos...

Gwenda hesitou e Giles interveio. - Motivos legais. Não sabem os se m orreu, ou... o que aconteceu.

- Ah, com preendo, senhor. O m arido de m inha prim a desapareceu e foi um a trapalhada, porque ninguém sabia se tinha m orrido ou o quê tinha acontecido. Ela ficou em situação dificílim a. Naturalm ente, senhor, se eu souber de algum a coisa que possa aj udar de algum m odo. . . afinal os senhores não são estranhos. Srta. Gwenda e as

"vinhas". A senhora dizia isso de um j eito tão engraçado!

- Muito obrigado, disse Giles. - Bem , se não se im porta, vou lhe perguntar algum as coisas. A Sra. Halliday abandonou o lar subitam ente, não é?

- Sim , senhor. Foi um grande choque para todos nós... e principalm ente para o Maj or, coitado. Ficou arrasado.

- Vou lhe fazer um a pergunta direta. Tem algum a idéia quem era o hom em com quem ela fugiu?

Edith Pagett sacudiu a cabeça.

- Foi o que o Dr. Kennedy m e perguntou... e eu não soube responder. Nem Lily.

E é claro que a tal Léonie, sendo estrangeira, não sabia de nada.

- A senhora não sabia, disse Giles. - Mas não tem nenhum palpite? Isso j á faz tanto tem po que não faz m al se o palpite estiver errado. A senhora certam ente desconfia de alguém ...

- Bem , nós desconfiam os... m as era apenas um palpite. Eu, por m im , nunca vi nada. Mas Lily, que era m uito esperta, Lily tinha lá suas idéias... há m uito tem po. Ela costum ava m e dizer: - Esse cara está louco por ela. Basta ver o seu j eito de olhar para ela enquanto ela serve o chá. E a m ulher dele fica um a fera!

- Com preendo. E quem era o... o cara?

- Bem , senhor, não m e lem bro do nom e dele. Faz m uito tem po isso.

Com andante... Esdale... não, não era isso... Em ery. . . não. Tenho a im pressão de que com eçava com E. Ou talvez fosse H. Era um nom e m eio fora do com um . Mas faz dezesseis anos que nem penso nisso. Ele e a m ulher estavam hospedados no Roy al Clarence.

- Eram veranistas?

- Eram , m as acho que ele... ou talvez o casal... j á conhecia a Sra. Halliday. Iam m uitas vezes visitá-los. De qualquer m odo, segundo Lily, ele gostava da Sra. Halliday.

- E sua m ulher ficava furiosa.

- Ficava, senhor... Mas, sabe, nunca acreditei que houvesse algum a coisa realm ente. E até hoj e não sei o que achar.

- Eles ainda estavam aqui, no Roy al Clarence, quando... quando... Helen, m inha m adrasta, fugiu de casa? perguntou Gwenda.

- Se não m e engano foram em bora na m esm a época, na véspera ou no dia seguinte... enfim , foi m uito j unto, e isso fez o povo falar. Mas eu nunca soube de nada com certeza. Mesm o que tenha sido ele, tudo foi tratado em segredo. Que coisa m ais estranha a Sra. Halliday ir em bora assim tão de repente! Mas dizem que ela sem pre foi m eio m aluquinha - se bem que eu nunca tenha reparado em nada desse gênero. Não teria aceitado ir para Norfolk com eles se desconfiasse disso.

Durante um m om ento Giles, Gwenda e Miss Marple olharam fixam ente para a m ulher.

- Norfolk? perguntou Giles, finalm ente. - Eles iam para Norfolk?

- Sim , senhor. Tinham com prado um a casa lá. A Sra. Halliday m e contou isso um as três sem anas antes de tudo acontecer. Perguntou se eu estava disposta a ir com eles, quando se m udassem , e eu respondi que sim . Afinal de contas, eu nunca tinha saído de Dillm outh e achei que talvez fosse bom variar um pouco, j á que gostava da fam ília.

- Nunca ouvi dizer que tinham com prado casa em Norfolk, disse Giles.

- Bem , é engraçado o senhor dizer isso, porque a Sra. Halliday parecia m esm o querer que fosse segredo. Pediu-m e que não contasse para ninguém e eu, evidentem ente, não contei. Mas há m uito tem po ela queria ir em bora de Dillm outh.

Insistia m uito com o Maj or, m as ele gostava do lugar. Acho que até chegou a escrever à Sra. Findey son, que era a dona de St. Catherine, perguntando se estaria disposta a vender a casa. Mas a Sra. Halliday não queria nem ouvir falar nisso. Dava a im pressão de estar com raiva de Dillm outh. Era quase com o se estivesse com m edo de ficar aqui.

As palavras foram ditas com naturalidade, m as ao ouvi-las as três pessoas que escutavam ficaram alerta.

- Acha que queria ir para Norfolk para ficar perto desse... desse hom em cuj o nom e a senhora não lem bra?

Edith Pagett fez um ar desolado.

- Oh, senhor, prefiro não pensar num a coisa dessas! Acho que não, de j eito nenhum . Além do m ais acho que... agora m e lem brei... aquele casal era do norte. Acho que eram de Northum berland. De qualquer m odo, gostavam m uito de passar férias no sul porque o clim a era bastante m ais am eno.

- Ela estava com m edo de algum a coisa, não estava? perguntou Gwenda. - Ou de alguém ? Estou m e referindo à m inha m adrasta.

- Estou m e lem brando... agora que a senhora falou nisso...

- De quê?

- Um dia Lily entrou na cozinha, depois de varrer a escada, e disse assim :

"Tem os briga!" Lily falava as coisas sem pensar, por isso desculpem eu estar contando o que ela disse.

Ai eu perguntei o que ela queria dizer com isso e ela respondeu que a patroa tinha entrado na sala com o patrão, vinda do j ardim , e com o a porta estava aberta Lily ouvira a conversa.

-

Eu tenho medo de você, disse a Sra. Halliday.

E Lily disse que ela estava com voz de m edo. - Há muito tempo tenho medo de você. Você é louco. Você não é normal. Vá embora e me deixe em paz. Estou com medo.

Acho que no fundo sempre tive medo de você...

Era um a coisa desse tipo... evidentem ente não m e lem bro das palavras exatas, m as Lily ficou m uito im pressionada e foi por isso que, depois que tudo aconteceu, ela...

Edith Pagett interrom peu subitam ente a frase e sua fisionom ia expressava m edo.- Eu não queria... acreditem , disse ela. - Desculpe, senhora, m as estou falando dem ais.

Giles assum iu um tom afável.

- Conte tudo, por favor, Edith. Com preenda, nós precisam os saber. Faz m uito tem po isso tudo, m as nós tem os que saber.

- Não sei o que dizer, respondeu Edith.

- Em que Lily não acreditou... ou o que ela achou? perguntou Miss Marple.

- Lily vivia com a cabeça cheia de idéias. Eu nunca prestava atenção a ela. Ela ia sem pre ao cinem a e por isso inventava um a porção de m elodram as. Naquela noite...

quando tudo aconteceu, ela fora ao cinem a e levara Léonie j unto. E fez m uito m al... eu disse isso a ela. - Ora, não tem im portância, respondeu ela. - A criança não está sozinha na casa. Você está aí na cozinha, m ais tarde o patrão e a patroa vão chegar e, de qualquer m odo, a m enina nunca acorda de noite. Mas não devia ter saído e eu disse isso a ela, m as foi só depois, porque eu não soube antes que Léonie tam bém ia. Se soubesse, tinha ido lá em cim a para ver se ela... quer dizer, a senhora, Srta. Gwenda... estava bem .

Da cozinha não se ouve nada, quando se fecha a porta.

Edith Pagett fez um a pausa e prosseguiu: - Eu estava passando um as roupas.

Anoiteceu m uito depressa e, a um a certa altura, o Dr. Kennedy entrou na cozinha e perguntou por Lily. Eu disse que era folga dela, m as que daí a pouco ia voltar. Nesse m esm o instante ela chegou e ele levou-a lá para cim a, para o quarto da patroa. Queria saber se levara algum a roupa com ela. Lily olhou tudo, falou com ele e depois desceu.

Estava m uito aflita.

- Ela fugiu, disse Lily. - Foi em bora com alguém . O patrão está ruim . Parece que teve um troço qualquer. Foi um choque horrível para ele. Bobalhão... Devia ter visto o que estava acontecendo.

Eu disse para Lily que não devia falar assim , que ela não podia saber se a Sra.

Halliday tinha fugido com alguém ... Talvez tivesse recebido um telegram a de um parente enferm o.

Lily

respondeu:

- Parente enferm o um a ova! (Ela sem pre falava as coisas de qualquer j eito.) -

Deixou um bilhete. Eu perguntei com quem ela havia fugido e Lily disse para eu adivinhar, m as que não era o Sr. Fane, que olhava para ela com aquele ar de carneiro e a seguia com o um cachorrinho. Aí eu perguntei se ela achava que era o tal com andante, e ela respondeu que achava que sim , m as que tam bém podia ser o hom em m isterioso do carro grande (isso era um a brincadeira entre nós duas). Eu disse, então, que não acreditava, que a Sra. Halliday não ia fazer um a coisa dessas. E Lily m e disse assim : -

Pois bem , m as foi o que ela fez.

- Isso tudo foi na hora, com preende? prosseguiu Edith Pagett. - Mais tarde, no nosso quarto, Lily m e acordou e disse: - Escute, está tudo errado! Eu lhe perguntei o que estava errado e ela respondeu: - As roupas. - Que roupas? perguntei eu. Aí ela disse assim : - Escute, Edie, eu olhei todo o arm ário dela, porque o m édico m e pediu. Está faltando um a m ala e um a porção de roupas... m as são as roupas erradas. - O que é que você quer dizer com isso? perguntei eu.- Ela levou um vestido longo, aquele prateado, m as não levou o cinto nem a com binação que usa com ele. E, em vez de levar a sandália prateada, levou um sapato social de brocado dourado. E levou o conj unto de tweed verde, que ela só usa no fim do outono m as, em vez de levar o suéter, levou as blusas de renda que ela só usa com os conj untos m ais finos. E a roupa de baixo tam bém está toda trocada. Lem bre-se do que eu estou dizendo, Edie. Ela não foi em bora coisa nenhum a.

O patrão a m atou.

- Bem , aí não consegui m ais dorm ir, continuou Edith. Sentei na cam a e perguntei a ela; - Do que é que você está falando?

- É igualzinho ao que eu li no Notícias do Mundo da sem ana passada, respondeu ela. - O patrão descobriu que estava sendo enganado, m atou a m ulher e enterrou o corpo no porão. Não dava para você ouvir nada porque ficava em baixo do saguão de entrada.

Foi isso o que ele fez! Depois arrum ou a m ala para fingir que ela foi em bora. Mas é lá que ela está - debaixo do piso do porão. Ela não saiu viva desta casa! Eu disse a Lily que ela não podia falar um a coisa dessas, m as na m anhã seguinte fui ao porão e não havia nada de anorm al ali, ninguém m exera em nada nem cavaram o chão. Disse-lhe então que ela estava m aluca, m as Lily continuou insistindo que o patrão tinha m atado a patroa, e m e disse ainda : - Não esqueça que ela estava m orta de m edo dele. Eu a ouvi dizer isso. Aí eu disse para Lily : -Você não tem razão. No dia em que você m e contou isso eu espiei logo depois pela j anela e o patrão vinha andando pela colina com os tacos de golfe, de m odo que não pode ter sido ele quem estava na sala com a patroa. Era outra pessoa.

A frase ficou suspensa no ar, naquela sala de estar com um , m as confortável.

-

Era outra pessoa, repetiu Giles em voz baixa.